abelhas taxonomia

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caracterisitcas básicas e morforlógicas das abelhas sem ferrão.

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  • 6 Marchi & Melo

    Revista Brasileira de Entomologia 50(1): 6-30, maro 2006

    Paola Marchi2,3 & Gabriel A. R. Melo2,4

    Entre os gneros de meliponneos reconhecidos para aregio Neotropical, Lestrimelitta destaca-se por conter apenasformas cleptobiticas. Alm de Lestrimelitta, o comportamentocleptobitico obrigatrio conhecido apenas paraCleptotrigona e possivelmente Trichotrigona. As evidnciasdisponveis indicam que tal comportamento evoluiuindependentemente nos trs grupos (Michener 1990; Camargo& Pedro 2003). Essas abelhas no coletam plen nem nctarnas flores, mas roubam de outras colnias de Meliponina(Sakagami & Laroca 1963; Roubik 1989; Bego et al. 1991;Wittmann et al. 1990; Sakagami et al. 1993). Neste sentido,possivelmente como conseqncia da perda docomportamento de coletar e transportar plen, as tbiasposteriores so desprovidas de corbcula, o rastelo compostopor plos curtos e finos e os basitarsos posteriores apresentamsua maior largura no tero basal (Schwarz 1948; Moure 1951;Michener 1990). H evidncias morfolgicas e moleculares deque Lestrimelitta teria Plebeia como grupo-irmo (Michener1990; Costa et al. 2003).

    Friese (1903) props Lestrimelitta como novo subgnerode Trigona e distinguiu duas variedades: Trigona(Lestrimelitta) limao var. rufipes (baseando-se em uma srie

    Reviso taxonmica das espcies brasileiras de abelhas do gneroLestrimelitta Friese (Hymenoptera, Apidae, Meliponina)1

    1Contribuio nmero 1550 do Departamento de Zoologia, Universidade Federal do Paran.2Departamento de Zoologia, Universidade Federal do Paran, Caixa Postal 19020, 81531-990 Curitiba-PR, Brasil.3Programa de Ps-Graduao em Entomologia. Bolsista do CNPq. paola@ufpr.br4Pesquisador do CNPq. garmelo@ufpr.br

    de operrias e machos de Bauru, SP, Brasil), e Trigona(Lestrimelitta) limao var. rufa (com base em 4 operrias deRio Acre, Brasil). Posteriormente, em 1912, elevou esse txon agnero ao descrever L. cubiceps da frica. Em 1931, descreveuL. ehrhardti (restrita ao territrio brasileiro).

    Moure (1946), baseado na especializao etolgica dogrupo e na ausncia de corbcula nas tbias posteriores dasoperrias, destaca este gnero em tribo parte, Lestrimelittini.Porm, Moure et al. (1958) retomam a classificao tradicionaldo grupo e suprimem o status de tribo para o grupo. Comrelao s espcies africanas, Moure (1951), mesmo sem terexaminado exemplares do grupo, supe que as diferenasapontadas na literatura poderiam sugerir para estas a criaode um gnero ou subgnero que traduzisse em termossistemticos tal divergncia. Em 1961, prope para estasespcies africanas um novo subgnero, Cleptotrigona.

    O gnero Lestrimelitta foi revisado por Schwarz (1948),que reconheceu apenas duas espcies: L. ehrhardti Friese,1931 e L. limao (Smith, 1863), embora indicasse algumasvariaes, principalmente na pilosidade, entre os exemplaresreconhecidos como L. limao, em relao sua ampladistribuio geogrfica (do Mxico Argentina). Aps a

    ABSTRACT. Taxonomic revision of the Brazilian species of the bee genus Lestrimelitta Friese (Hymenoptera, Apidae,Meliponina). The species of Lestrimelitta present in Brazil are revised. Fourteen species are recognized, six of themdescribed as new: L. ciliata. sp. nov., L. maracaia sp. nov., L. similis sp. nov., L. spinosa sp. nov., L. sulina. sp. nov. andL. tropica sp. nov. The main morphological characters used to distinguish the species are pubescence, shape of thepropodeal spiracle, the interorbital distances and size of the midtibial spurs. Lectotypes for Trigona (Lestrimelitta) rufaFriese, 1903 and Trigona (Lestrimelitta) rufipes Friese, 1903 are designated and redescribed. The male of L. limao (Smith,1863) is described for the first time. The following additional valid species are diagnosed and their distinctive characterspresented: L. ehrhardti Friese, 1931; L. glaberrima Oliveira & Marchi, 2005; L.glabrata Camargo & Moure, 1989; L.monodonta Camargo & Moure, 1989 and L. nana Melo, 2003. Identification keys for workers and males, maps ofgeographic records and illustrations are presented.

    KEYWORDS. Apoidea; cleptobiotic stingless-bees; Neotropical; new species.

    RESUMO. Reviso taxonmica das espcies de abelhas do gnero Lestrimelitta Friese (Hymenoptera, Apidae, Meliponina)que ocorrem no Brasil. Com base em caracteres morfolgicos, como aqueles relacionados com a pilosidade, o formato doespirculo propodeal, as distncias interorbitais e o comprimento do esporo mesotibial, so reconhecidas catorzeespcies, seis das quais novas para a Cincia: L. ciliata. sp. nov., L. maracaia sp. nov., L. similis sp. nov., L. spinosa sp.nov., L sulina. sp. nov. e L. tropica sp. nov. So designados lecttipos para Trigona (Lestrimelitta) limao var. rufipesFriese, 1903 e Trigona (Lestrimelitta) limao var. rufa Friese, 1903. O macho de L. limao (Smith, 1863) descrito pelaprimeira vez. apresentada tambm uma diagnose das seguintes espcies: L. ehrhardti Friese, 1931; L. glaberrimaOliveira & Marchi, 2005; L. glabrata Camargo & Moure, 1989; L. monodonta Camargo & Moure, 1989; e L. nanaMelo, 2003. So apresentados chaves de identificao para operrias e machos, ilustraes e mapas de ocorrncia.

    PALAVRAS-CHAVE. Abelhas cleptobiticas; Apoidea; Neotropical; espcies novas.

  • 7Reviso taxonmica das espcies brasileiras de abelhas do gnero Lestrimelitta Friese

    Revista Brasileira de Entomologia 50(1): 6-30, maro 2006

    vista ltero-posterior foi considerado ovalado quando curto elargo, no mximo 3 vezes mais longo que largo ou alongadoquando longo e estreito, aproximadamente 6 vezes mais longoque largo. O comprimento do esporo mesotibial, de acordocom Oliveira (2002), foi considerado como extremamentereduzido (no visvel); reduzido (visvel, em torno de 0,05 mm);curto (em torno de 0,15 mm) ou normal (em torno de 1/3 docomprimento do basitarso mdio). As variaes observadas,principalmente no comprimento do esporo mesotibial, foramregistradas.

    Na listagem do Material examinado, os dados originaisdas etiquetas so inteiramente transcritos, cada etiqueta doexemplar indicada por aspas simples. Os dados sobre aocorrncia das espcies foram obtidos das etiquetas domaterial examinado e da literatura. As coordenadas geogrficasaproximadas foram obtidas em stios na internet: GettyThesaurus of Geografic Names; Global Gazetter; IBGE. Osmapas foram gerados no programa Arcview Gis 3.2a. Foramtambm includos na listagem de material examinado e nosmapas os registros adicionais para outros pases.

    Nas listagens sinonmicas, so feitas referncias apenasaos trabalhos tratando da sistemtica do grupo.

    Lestrimelitta Friese

    Trigona (Lestrimelitta) Friese, 1903: 361. Espcie-tipo Trigona limaoSmith, 1863.

    Lestrimelitta; Friese (1912: 169); Ducke (1916: 29, 39); Friese (1931:2, 10, 14); Schwarz (1932: 245, 246, 251); Schwarz (1938: 451);Moure (1946: 609-611); Schwarz (1948: 173-195); Moure (1951:27, 29-31); Moure (1961: 183, 184, 219, 220); Lucas de Oliveira(1964: 35-39; 1968: 1); Wille (1979: 259); Roubik (1980: 263-264); Almeida & Laroca (1982: 41); Wille (1983: 41-45); Camargo& Moure (1989:195-196); Michener (1990: 91, 95, 97-100, 102-105, 117-118, 132); Michener & Roubik (1993: 251, 253, 256,262 Ayala (1999: 1, 25-32); Michener (2000: 779, 784-786, 791-793); Oliveira (2002: 196-197); Silveira et al. (2002: 84, 87);Costa et al. (2003: 75, 77-80); Marchi & Melo (2004: 379, 381).

    Operrias. Asas anteriores ultrapassando um pouco ometassoma; hmulos, 5-6; face externa das tbias posterioreslevemente convexa em toda extenso, corbcula e peniciloausentes; rastelo composto por plos finos e curtos. Cabeamais larga que longa e mais larga que o mesossoma; olhosaproximadamente 2 vezes mais longos que sua largura mxima,rbitas internas fracamente sinuosas; escapos longos e finos,aproximadamente 5,5 vezes mais longos que largos; 1.flagelmero em torno de 2 vezes mais longo que 2.; clpeocurto, aproximadamente 3,5 vezes mais largo que longo, combordo apical geralmente castanho-claro; labro com fortedepresso longitudinal entre as laterais protuberantes;mandbulas com base mais larga que pice, um pouco aguadasno pice; genas mais largas que olhos em vista lateral;basitarsos mdios 5-6 vezes mais longos que largos; basitarsosposteriores aproximadamente 3 vezes mais longos que largos;metassoma arredondado no pice. Integumento, de modo geralacastanhado, liso e brilhante, com pontuao pilgera muitofina e pouco conspcua na cabea, bastante esparsa nas regiesparoculares inferior e mdia, mais densa na poro superior da

    monografia de Schwarz (1948), o gnero no foi revisadonovamente, tendo sido publicados apenas trabalhos isoladoscontendo descries de txons novos.

    Os seguintes nomes foram propostos nesse perodo: L.guyanensis (Guiana Francesa), por Roubik (1980); L.monodonta (Brasil, Roraima) e L. glabrata (Brasil, Amazonase Roraima) por Camargo & Moure (1989); L. chamelensis e L.niitkib (ambas do Mxico), por Ayala (1999); L. nana (Brasil,Amap) por Melo (2003); L. danuncia (Costa Rica e Panam),L. mourei (Costa Rica) e L. glaberrima (Guiana Francesa), porOliveira & Marchi (2005).

    No presente trabalho, as espcies presentes no Brasil sodiagnosticadas e discutidas taxonomicamente. Alm doreconhecimento de oito espcies previamente descritas, sopropostas seis novas espcies. Apresenta-se chave deidentificao para operrias e machos. Embora sem registrospara o Brasil, L. guyanensis Roubik, 1980 foi includa na chavepara operrias.

    MATERIAL E MTODOS

    A maioria dos espcimes estudados pertence Coleo deEntomologia Pe. J. S. Moure, Departamento de Zoologia daUniversidade Federal do Paran, Curitiba, Brasil (DZUP). Omaterial das seguintes instituies, seguidas pelo nome dopesquisador responsvel, tambm foi examinado: AMNH:American Museum of Natural History (New York, EstadosUnidos), Dr. Jerome G. Rozen, Jr.; BMNH: The Natural HistoryMuseum, Department of Entomology