Abelhas meliferas - EMBRAPA

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<p>ISSN 1806-9193 Dezembro, 2008Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuria Centro de Pesquisa Agropecuria de Clima Temperado Ministrio da Agricultura, Pecuria e Abastecimento</p> <p>Documentos 244Abelhas melferas: bioindicadores de qualidade ambiental e de sustentabilidade da agricultura familiar de base ecolgicaEditores tcnicos</p> <p>Luis Fernando Wolff Vanderlei Doniseti Acassio dos Reis Rgis Sivori Silva dos Santos</p> <p>Pelotas, RS 2008</p> <p>Exemplares desta publicao podem ser adquiridos na: Embrapa Clima Temperado Endereo: BR 392, km 78 Caixa Postal 403, CEP 96001-970 - Pelotas, RS Fone: (53) 3275 8199 Fax: (53) 3275 8219 - 3275 8221 Home page: www.cpact.embrapa.br E-mail: sac@cpact.embrapa.br Comit de Publicaes da Unidade Presidente: Walkyria Bueno Scivittaro Secretria-Executiva: Joseane M. Lopes Garcia Membros: Cludio Alberto Souza da Silva, Lgia Margareth Cantarelli Pegoraro, Isabel Helena Vernetti Azambuja, Lus Antnio Suita de Castro, Sadi Macedo Sapper, Regina das Graas V. dos Santos Suplentes: Daniela Lopes Leite e Lus Eduardo Corra Antunes Revisor de texto: Sadi Macedo Sapper Normalizao bibliogrfica: Regina das Graas Vasconcelos dos Santos Editorao eletrnica e capa: Oscar Castro Fotos da capa: Cludio Alberto Souza da Silva</p> <p>1 edio 1 impresso 2008: 100 exemplares Todos os direitos reservados A reproduo no-autorizada desta publicao, no todo ou em parte, constitui violao dos direitos autorais (Lei no 9.610). Wolff, Luis Fernando. Abelhas melferas: bioindicadores e qualidade ambiental e de sustentabilidade da agricultura familiar de base ecolgica / Luis Fernando Wolff, Vanderlei Doniseti Acassio dos Reis, Rgis Sivori Silva dos Santos Pelotas: Embrapa Clima Temperado, 2008. 38 p. - (Embrapa Clima Temperado. Documentos, 244). ISSN 1516-8840 Apicultura Abelha - Apis mellifera L. - Agroecologia Polinizao. I. Reis, Vanderlei Doniseti Acassio dos. II. Santos, Rgis Sivori Silva dos. III. Ttulo IV. Srie. CDD 638.1</p> <p>Autor</p> <p>Fernando olff Luis Fernando Wolff Embrapa Clima Temperado BR 392 km 78, Cx. Postal 403 CEP 96001-970, Pelotas, RS (53) 3275 8143 (wolff@cpact.embrapa.br) Reis Vanderlei Doniseti Acassio dos Reis Embrapa Pantanal Rua 21 de Setembro, 1880 - Cx. Postal 109 CEP 79320-900 - Corumb, MS (67) 3233-2430 (reis@cpap.embrapa.br) Rgis Sivori Silva dos Santos Embrapa Uva e Vinho (Estao Experimental de Fruticultura Temperada) BR 285 Km 115, Cx Postal 1513 CEP 95200-000 - Vacaria, RS (54) 3232 1715 (regis@cnpuv.embrapa.br)</p> <p>Apresentao</p> <p>Na sua regio de abrangncia, a Embrapa Clima Temperado tem focado suas aes de pesquisa, desenvolvimento e inovao (PD&amp;I) no desenvolvimento de sistemas sustentveis de produo, com nfase em formatos agroecolgicos. Neste contexto, estudos esto sendo conduzidos em apicultura, meliponicultura e polinizao em parceria com a Embrapa Pantanal e Embrapa Uva e Vinho. A apicultura uma atividade indispensvel para um sistema de agricultura familiar de base ecolgica e a ao polinizadora das abelhas melferas (Apis mellifera L.) aumenta a produtividade de pomares e lavouras. Pela garantia de intensidade e de eficincia em fecundaes cruzadas, esses insetos contribuem para o aumento da qualidade e da quantidade das produes, por exemplo, de sementes de hortalias, pastagens e gros e de frutos de diversas culturas agrcolas. As abelhas melferas e seu principal produto apcola direto, o mel, podem ser, ainda, excelentes ferramentas de monitoramento ambiental. A simples presena desses insetos e o estado da sanidade de suas colnias na propriedade rural familiar podem servir como indicativo de qualidade ambiental e de sustentabilidade ecolgica e econmica.Waldyr Stumpf Junior Chefe-Geral Embrapa Clima Temperado</p> <p>Sumrio</p> <p>Introduo ................................................................................</p> <p>9</p> <p>Apicultura no Brasil ............................................................. 11 Ao das abelhas .................................................................. 13 Vida das abelhas ................................................................... 15 Fisiologia das abelhas ........................................................ 16 Ciclo de vida das abelhas ................................................. 18 Processo de enxameao ................................................. 20 Danas das abelhas ............................................................. 21 Polinizao ............................................................................... 22 Espcies de plantas espontneas ................................. 26 Espcies de plantas cultivadas ....................................... 27 Contaminao ambiental .................................................. 28 Exposio aos agrotxicos .............................................. 29</p> <p>. Bioindicadores ....................................................................... 29 Criao de abelhas melferas ......................................... 31 Manejo das colmias .......................................................... 31 Referncias .............................................................................. 36</p> <p>Abelhas melferas: bioindicadores de qualidade ambiental e de sustentabilidade da agricultura familiar de base ecolgicaLuis Fernando Wolff Vanderlei Doniseti Acassio dos Reis Rgis Sivori Silva dos Santos</p> <p>IntroduoProteo s abelhas no um pedido ou uma advertncia vaga, mas uma clara exigncia, econmica e ecolgica. Os benefcios globais da polinizao so estimados em cerca de 117 bilhes de dlares (RUGGIERO e HEALY, 2002), mas, a despeito desta importncia, um grande declnio de polinizadores tem sido observado nos Estados Unidos, Rssia, Canad e Amrica Latina (KEVAN e IMPERATRIZ-FONSECA, 2002; MMA, 2004; MMA, 2006). Os insetos, juntamente com alguns outros animais, polinizam dois teros das espcies vegetais que produzem flor e mais de trs quartos das plantas cultivadas do mundo (RUGGIERO e HEALY, 2002). Alm disso, a cadeia apcola nacional envolve cerca de um milho de pessoas no Brasil, sendo que em algumas localidades esta a principal fonte de renda familiar (BRASIL APCOLA, 2008). Atualmente, o Brasil produz 50 mil toneladas de mel por ano, obtidas a partir de 2 a 3 milhes de colmias</p> <p>10</p> <p>Abelhas melferas: bioindicadores de qualidade ambiental e de sustentabilidade da agricultura familiar de base ecolgica</p> <p>espalhadas pelo territrio nacional (ABEMEL, 2008). As abelhas melferas possibilitam que cerca de 350.000 cidados (BRASIL APCOLA, 2008), rurais e urbanos, exeram uma atividade interessante e rentvel junto natureza, a apicultura (Figura 1 Figura 1).</p> <p>Por si s, estes aspectos seriam suficientes para justificar a necessidade de se proteger as abelhas melferas. Entretanto, h uma realidade apcola e ambiental ainda mais significativa: estes insetos representam o grupo de organismos mais importante para a polinizao de milhares de espcies de plantas que florescem em nosso pas, englobando plantas silvestres e cultivadas em uma parceria perfeita resultante de mais de 10 a 20 milhes de anos de desenvolvimento conjunto</p> <p>Foto: L.F Wolff .</p> <p>1. Figura 1. Apicultores manejando colmia para produo de mel.</p> <p>Abelhas melferas: bioindicadores de qualidade ambiental e de sustentabilidade da agricultura familiar de base ecolgica</p> <p>11</p> <p>(CRANE, 1980), com benefcios mtuos. Se esta unio for irrefletidamente rompida, no h soluo alternativa disponvel pela humanidade e a conseqncia prevista seria uma catstrofe. Este fato, de certa forma j est ocorrendo em algumas regies do mundo, denominado internacionalmente de Colony Collapse Disorder, ou seja, o colapso da desordem das colnias de abelhas melferas, que tem sido associado a grandes mortandades ou despovoamento de colnias de abelhas melferas em vrias partes do planeta (LEAN, 2007; O GLOBO, 2007; MORAIS, 2007; ZAX, 2007; MARTN, 2007).</p> <p>Apicultura no BrasilNo Brasil, a criao de abelhas melferas (Apis mellifera L.) comeou a partir da introduo dessa espcie pelos navegadores europeus no sculo XVII. At essa poca, os brasileiros conheciam apenas os produtos das abelhas nativas sem ferro que tambm so conhecidas por abelhas indgenas (meliponneos). A produo nacional de mel e cera das abelhas nativas era significativamente grande, toda proveniente do extrativismo sobre os meliponneos. Infere-se boas produtividades naquela poca, pelos registros histricos que atestam as exportaes de volumes de cera e de vinho de mel (hidromel) em grande quantidade do Brasil para Portugal, ou da colnia para o Reino. Com a introduo das abelhas melferas, chamadas abelhas-deferro ou abelhas-europa, possvel dividir e caracterizar a apicultura tradicional brasileira em dois sistemas de desenvolvimento bem distintos: a colheita de mel de colnias alojadas em diversos locais de nidificao na natureza e a colheita de mel de colnias instaladas em caixotes de madeira. As colheitas de mel na natureza eram feitas tradicionalmente por lenhadores, agricultores e prticos conhecedores das colnias de abelhas melferas (denominados meladores ou meleiros), com o objetivo de aproveitar o mel, a cera e o plen (Figura 2 Figura 2).</p> <p>12</p> <p>Abelhas melferas: bioindicadores de qualidade ambiental e de sustentabilidade da agricultura familiar de base ecolgica</p> <p>As colheitas de mel de colnias mantidas em caixotes, por sua vez, eram realizadas por agricultores imigrantes europeus, que deram origem apicultura brasileira. Esta se desenvolveu inicialmente no sul do Brasil, devido ao clima mais frio, que facilitou a multiplicao e disperso natural das subespcies de abelhas melferas trazidas da Europa (A. m. mellifera abelha-do-reino, abelha-alem ou abelha-preta, A. m. ligustica abelha-italiana ou abelha-amarela, A. m. carnica e A. m. caucasica), habituadas a longos invernos. Devido tradio cultural camponesa estabelecida entre os colonos, as abelhas de ferro passaram a ser criadas junto das casas, em colmias racionais feitas de madeira, denominados na poca de cortios. Algumas dessas colmias, alm dos caixilhos internos e da abertura superior (tampa mvel), possuam tambm uma abertura lateral longitudinal para possibilitar revises rpidas pelo apicultor. A tradio europia de criar abelhas melferas em colmias feitas de colmos de gramneas (o que deu origem ao termo colmia: recipiente feito de colmos), enrolados em feixes ou tranados em forma de cestos, sem alas e vedados com barro</p> <p>Foto: L.F Wolff .</p> <p>Figura 2. Agricultores melando colnias em troncos ocos de eucaliptos.</p> <p>Abelhas melferas: bioindicadores de qualidade ambiental e de sustentabilidade da agricultura familiar de base ecolgica</p> <p>13</p> <p>e esterco de gado bovino (CRANE, 1980), curiosamente no foi importada nem implantada no Brasil junto com a criao das abelhas trazidas nas caravelas. Esta tradio na Europa de usar palhas de trigo, aveia, cevada ou outras gramneas para abrigar abelhas melferas dentro de balaios invertidos (Figura 3), ainda Figura 3 hoje est culturalmente presente e pode ser observada em certas propriedades camponesas tradicionais ou biodinmicas daquele continente. No entanto, qualquer forma de criao, abrigo e manejo das abelhas melferas, seja tradicional ou moderno, s ser bem sucedida se as caractersticas biolgicas desses insetos forem cuidadosamente observadas e respeitadas. As abelhas melferas so animais silvestres, e no domsticos, que exploram e dependem de amplos espaos naturais para o desenvolvimento de sua colnia, a qual um organismo social muito complexo e que s prospera em ambientes saudveis.Foto: L.F Wolff .</p> <p>Figura 3. Tradio europia de colmias manufaturadas com colmos de gramneas no veio com imigrantes ao Brasil.</p> <p>Ao das abelhasA polinizao dos vegetais a maior contribuio ambiental e econmica das abelhas melferas, mas para os apicultores a maior receita provm do mel colhido. possvel se obter</p> <p>14</p> <p>Abelhas melferas: bioindicadores de qualidade ambiental e de sustentabilidade da agricultura familiar de base ecolgica</p> <p>remunerao complementar com a polinizao dirigida, prestando servios de polinizao pelas abelhas melferas em diversas culturas agrcolas, como frutferas, por exemplo (Figura 4 Alm disso, h a possibilidade de se obter prpolis Figura 4). e cera a partir das colmias, que tambm podero produzir plen, gelia real, apitoxina e novos enxames.Foto: L.F Wolff .</p> <p>Figura 4. Colmias durante o perodo de florao em pomar de pessegueiros manejados sem uso de agrotxicos. As abelhas melferas transformam em mel o nctar retirado das flores. O mel um alimento natural que deve ser colhido pelo apicultor com todo o cuidado e dedicao e, conforme cada florao, deve ser distinguido como mel de flores do campo, mel de flores silvestres (mata nativa), de eucaliptos, laranjeiras, entre outros tipos possveis em cada regio e poca do ano. Todo mel puro cristaliza, mais cedo ou mais tarde, e este um processo natural que no afeta sua qualidade. A cristalizao</p> <p>Abelhas melferas: bioindicadores de qualidade ambiental e de sustentabilidade da agricultura familiar de base ecolgica</p> <p>15</p> <p>do mel , de certa forma, uma garantia ao consumidor quanto qualidade e pureza do mesmo. O mel um fornecedor de energia muito eficiente e na medicina popular so muito consideradas suas aes como promotor da sade e combatente de diferentes doenas, especialmente das vias respiratrias, anemias, cortes e cicatrizaes.</p> <p>Vida das abelhasAs abelhas melferas, no como indivduos, mas como colnia, sobrevivem ano aps ano aos perodos de ausncia de flores. Durante as safras, devido sua elevada capacidade de comunicao (linguagem formada pelas danas, vibraes e sinais olfativos) e compreenso, sua grande capacidade de orientao e ao seu poder de coeso e de trabalho em grupo, milhares de abelhas campeiras podem, em curto espao de tempo, buscar suas fontes de alimento na natureza, nos arredores da colnia. Com isto, no seu interior o alimento flui em grandes volumes e no exterior ocorre uma rpida e intensiva polinizao das flores. Esta grande exposio s flores, entretanto, traz sua desvantagem quando agrotxicos so porventura aplicados nos cultivos, atingindo no somente os indivduos, mas toda a colnia. Mesmo que os produtos fitossanitrios no lhes sejam mortais, podem gerar dificuldades de orientao ou incapacidade de vo para as abelhas melferas e, assim, enfraquecer sensivelmente a colnia. Toda a colnia faz parte de uma cadeia alimentar: o fluxo do alimento de fora para dentro, durante toda a safra apcola, tambm alcana as larvas, as abelhas jovens e a rainha. As larvas, devido sua maior voracidade, so dependentes de um fluxo contnuo de alimentos. Em poucos dias elas consomem grande quantidade de plen, mel e gelia real e assim multiplicam seu peso inicial em mais de 500 vezes. Se os alimentos estiverem contaminados com inseticidas, pode</p> <p>16</p> <p>Abelhas melferas: bioindicadores de qualidade ambiental e de sustentabilidade da agricultura familiar de base ecolgica</p> <p>ocorrer muito rapidamente a sua morte ou um desenvolvimento corporal defeituoso. Tal intoxicao, da mesma forma, atinge as abelhas que executam atividades dentr...</p>