A zoologia pr-lineana no Brasil

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Neste bosquejo zoolgico do Brasil na poca pr-Lineana,h a realar, primeiramente, a heterogeneidade das contribuies, embora, quase todas, apenas de natureza faunstica. Isso se deve, basicamente, a dois factores. Em primeiro lugar, s diferenas nas prprias participaes individuais, pois algumas so vestigiais, outras maiores,mas apesar disso diminutas, outras ainda, como porexemplo as de Cardim, Soares de Sousa, Frei Cristvo e Marcgraf, de grande amplido. Em segundo lugar, diversidade geogrfica delas, que se centraram em locais ou regies diferentes do extenso pas que o Brasil. Para nada perder da disperso geogrfica dos elementos existentes e tambm para beneficiar do facto de que,para o mesmo local ou regio, quase sempre a atenodos naturalistas se dirigiu mais para este ou aquelegrupo animal, se entendeu que, mesmo as contribuiesmnimas, podiam revelar-se de utilidade neste esboo qualitativo.

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  • Nacapa: Selo de Portugal (1974), comemorativo do 4.' Cenll1lW a:"

    Gois, grande humanista do sculo XVI.

    Selo do Brasil (1934), comemorativo do 4. Centenrio do na

  • MUSEU BOCAGE

    Museu Nacional de Histria ?\"atural

    A ZOOLOGIA PR-LINEA~\~~ NO BRASIL

    CARLOS ALMAA

    Publicao subsidiada pela Fundao para a Cincia e 3 -=-~_

    Apoio do Programa Operacional Cincia, TecnolOQ::2.

    Inovao do Quadro Comunitrio de Apoio III~

    LISBOA 2 O O 2

  • MUSEU BOCAGE

    Museu Nacional de Histria Natural

    A ZOOLOGIA PR-LINEANA

    NO BRASIL

    CARLOS ALMAA

    Publicao subsidiada pela Fundao para a Cincia e a Tecnologia

    Apoio do Programa Operacional Cincia, Tecnologia,

    Inovao do Quadro Comunitrio de Apoio III

    LISBOA 2 O O 2

  • A ZOOLOGIA PR-LINEA_Y_'i

    NO BRASIL

    CARLOS ALMAA Museu Bocage*, Departamento de Zoologia e Antro:: r ,_

    Centro de Biologia Ambiental *Rua da Escola Politcnica, 58., 1269-102 Lisboa. p,:~:,~~

    ISBN 972-98196-4-5

  • A ZOOLOGIA PR-LINEANA

    NO BRASIL

    CARLOS ALMAA Museu Bocage*, Departameuto de Zoologia e Antropologia e

    Centro de Biologia Ambiental

    *Rua da Escola Politcnica, 58, 1269-102 Lisboa, Portugal

  • ndice

    Prembulo ...................................................... . Introduo ...................................................... , A Histria natural nos sculos XVI e XVII .. ,.... . Primeiros cronistas ........................................ , .. ' Naturalistas pioneiros ........................................ , Alguns comentrios aos relatos quinhentistas

    zoologiadoBrasil ....................................... " Os franceses no Maranho .............................. ,

    Cristvo de Lisboa e outros naturalistas c=, seu tempo ................................................... .

    Naturalistas e artistas no Brasil holands ............. .

    Princpios do sculo XVIII ............................... '

    Comentrios finais ............................................ .

    Notas ............................................................... .

    Bibliografia ....................................................... .

  • ndice

    PreInbulo .......................................................... 9

    Alguns comentrios aos relatos quinhentistas sobre

    Frei Cristvo de Lisboa e outros naturalistas do

    Introduo.......................................................... 13

    A Histria natural nos sculos XVI e XVII.......... 17

    Primeiros cronistas.............................................. 21

    Naturalistas pioneiros .......................................... 27

    zoologia do Brasil ......................................... 89

    Os franceses no Maranho ................................. 101

    seu tempo ..................................................... 111

    Naturalistas e artistas no Brasil holands ....... ....... 121

    Princpios do sculo XVITI .................................. 129

    Comentrios finais .............................................. 131

    Notas ................................................................. 137

    Bibliografia ......................................................... 141

    7

  • Prembulo

    Em vrios livros anteriormente editados ~'-c

    Bocage se tem declarado ser o ensino

    de Histria do Pensmnento Biolgico,

    ou de ambas, wn dos seus object1os r"

    Porm, no s, Havia muito para desbrc!'

    h, quanto participao portuguesa na cC.

    da Histria natural e do Evolucionismo _~

    gao em que estes livros tm sido baseado.'

    tra-o claramente. Pensou-se ser correcto;_~

    aos /icenciandos etn Biologia, rnesmo

    anos, os resultados de investigao

    que estes. sendo de ponnenm; no proCllreJl'

    ou sequer ofuscar, as linhas fundamenTais ..

    minado desenvolvimento. Por isso se 1fn: ,',.

    escorregar para esses livros muita da in .~'

    baseada em fontes primrias. Tal facto ;:,:.

    obstar, naturalmente, a que se publiquem

    e revistas mais acessveis internaciona.:;':='

    principais concluses da investigao.

    Cabe agora a vez aos animais do Brasii,

    foram descritos e comentados antes Ui:"

    a ordenao da natureza. Procurou-se dar n:,~.'

    s observaes e interpretaes dos natllj'(;,

    lineanos que a urna e.x,:austiva nomeao

    trabalho, de resto, j realizado com grm:.

    por Hitoshi Nomura. No , alis, a prime;;',

    o autor do presente estudo se refere a )2

  • Prembulo

    Em vrios livros anteriormente editados pelo Museu Bocage se tern declarado ser o ensino das disciplinas de Histria do Pensamento Biolgico, de Evoluo, ou de ambas, um dos seus objectivos principais. Porm, no s. Havia muito para desbravar, e ainda h, quanto participao portuguesa na ed~ficao da Histria natural e do Evolucionismo. A investigao em que estes livros tm sido baseados, demonstra-o claramente. Pensou-se ser conecto no /rtar aos licenciandos em Biologia, mesmo dos primeiros anos, os resultados de investigao original, desde que estes, sendo de ponnenOl; ntio procurem substituir; ou sequer ofuscar, as linhas fundamentais de determinado desenvolvinzento. Por isso se tem deixado escorregar para esses livros muita da investigatio baseada em fontes primrias. Tal facto lltio pode obstar, naturalmente, a que se publiquem em idioma e revistas mais acessveis internacionalmente as principais concluses da investigao.

    Cabe agora a vez aos animais do Brasil, tal como foram descritos e c01nentados antes de Lineu iniciar a ordenao da natureza. Procurou-se dar mais relevo s observaes e interpretaes dos naturalistas prlineanos que a uma exaustiva nomeao das espcies, trabalho, de resto, j realizado com grande mrito por Hitoshi Nomura. Ntio , alis, a primeira vez que o autor do presente estudo se refere a naturalistas

    9

  • 10

    pr-lineanos e s suas to ingnuas quanto interessantes especulaes sobre os animais (ver C.Almaa, 1998, Baleias,. focas e peixes-bois na Histria natural portuguesa, Lisboa: Museu Bocage). Porm, da sia e da frica j os gregos e romanos haviam trazido muitas espcies exticas que os naturalistas seus coetneos e, nzas tarde, rabes e medievais, descreveram e, no poucas vezes, mit~ficaram. Com o Brasilfoi diferente. Tudo era novidade ao chegarem os portugueses. O longussimo isolamento em relao aos outros continentes a propiciou a evoluo de linhas muito particulares, que nem a juno mais recente com a Amrica central desvaneceu. F oi um mundo de originalidade que se abriu para quem sabia ver e pensar.

    Ver bem e pensar - por vezes e atendendo poca -, muto bem, souberam-no vrios naturalistas portugueses. Isso, porm. s tardiamente viria a contribuir para a edificao da Histria natural. Porqu? Porque nos sculos XVI e XVII no existiu em Portugal um meio cientifico que compreendesse o alcance das descobertas, descries e comentrios desses naturalistas. Ao passo que na Europa central e setentrional, nomeadamente na mais sensvel Reforma e suas muito variadas consequncias, se comeava a encarar muito seriamente o avano cientifico. Hoje, Portugal est, felizmente, bem lanado na construo do seu meio cientfico. Graas a uma

    decidida participao das universidades, investigao e entidadesfinanciadoras e am::. conseguiu-se um posicionamento inten .. interessante se atendermos ao notvel atrc::' que se partiu. E evidente que isto tem o meio interno, tornando-o mais crtico e Se este livro tambm contribuir para isso, compensao suplementar para o lv[useu instituio editora e para o autor como i71\'()(~ e professor.

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    decidida participao das universidades, institutos de investigao e entidades financiadoras e avaliadoras conseguiu-se um posicionamento internacional interessante se atendermos ao notvel atraso com que se partiu. E evidente que isto tem fortalecido o meio interno, tornando-o mais crtico e exigente. Se este livro tambm contribuir para isso, eis uma compensao suplementar para o Museu Bocage como instituio editora e para o autor como investigador e professor.

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  • Introduo

    );as primeiras dcadas do sculo XVI em Portugal a perspectiva medieval da vida e '-_ ~ ... ~ e s a partir dos anos trinta comeou a man:~es: "-. classicismo renascentista. De fundo literr:'c e : "

    t~llista, o classicismo conferia muito maior ao conhecimento dos autores greco-latinos ':: :.investigao da natureza. Estoutra diferencie' ;:Portugal atravs dos fa1coeiros e desenvolveu-se ~ .ravelmente em consequncia dos descob'::--, martimos. Classicismo e descobrimentos CO:-'e~ ~, assim, num humanismo global (Mendes, Animado pelo movimento humanista, sobreL,~_ ~ humanismo cristo de Erasmo de Roterdc. DJque reinou entre 1521 e 1557, investiu na que parece, tentou trazer Erasmo para a Cnj\e:;: .:::..,

    1526, firmou um acordo com Diogo de G _"" , professor de teologia da Universidade de Paris e._ .. : do colgio de Santa Brbara, e criou 50 __ escolares portugueses estudarem em Paris.

    em Portugal. A Universidade em breve seria e transferida para Coimbra (1537). Damio amigo de Erasmo, ao regressar definitivamen:e c:. ?=_

  • Introduo

    Nas primeiras dcadas do sculo XVI ainda prevaleceu em Portugal a perspectiva medieval da vida e da cultura e s a partir dos anos trinta comeou a manifestar-se o classcismo renascentista. De fundo literrio e comentarista, o classicismo conferia muito maior importncia ao conhecimento dos autores greco-latinos do que investigao da natureza. Estoutra diferenciou-se em Portugal atravs dos fa1coeiros e desenvolveu-se consideravelmente em consequncia dos descobrimentos martimos. Classicismo e descobrimentos convergem, assim, num humanismo global (Mendes, 1993). Animado pelo movimento humanista, sobretudo pelo humanismo cristo de Erasmo de Roterdo, DJoo lII, que reinou entre 1521 e 1557, investiu na cultura e, ao que parece, tentou trazer Erasmo para a Universidade. Em 1526, firmou um acordo com Diogo de Gouveia, professor de teologia da Universidade de Paris e principal do colgio de Santa Brbara, e criou 50 bolsas para escolares pOltugueses estudarem em Paris.

    Os estrangeirados Andr de Resende e Damio de Gis, erasmitas, foram muito bem acolhidos pelo rei. A orao de sapincia proferida por Andr de Resende na abeltura do ano escolar da Universidade de Lisboa, em 1534, considerada corno o manifesto do humanismo pedaggi co em Portugal. A Universidade em breve seria reformada e transferida para Coimbra (1537). Damio de Gis, amigo de Erasmo, ao regressar definitivamente a Portugal,

    13

  • 14

    em 1545, foi, a despeito da amizade do rei, denunciado ao Santo Ofcio e bastante mais tarde, em 1571, processado por este.

    A refmIDa universitria dependia da criao de colgios autnomos, destinados a um ensino preparatrio de qualidade. Assim, em 1547, fundado em Coimbra o Colgio das Artes, para o qual so chamados como professores bolseiros portugueses no estrangeiro. Andr de Gouveia, sobrinho de Diogo de Gouveia e dissidente dele, na poca principal do Colgio de Guyenne, em Bordus, incumbido pelo rei de dirigir o Colgio das Artes. Traz consigo alguns mestres bordaleses, uns portugueses, outros estrangeiros, e incorpora tambm professores do Colgio de Santa Brbara. Com perspectivas filosficas distintas, os primeiros erasmitas, os 'parisienses' ortodoxos, cedo viriam a confrontar-se. De facto, a partir de 1548, acabada a prestigiada direco intelectual de Andr de Gouveia pelo seu prematuro falecimento, desfez-se a integridade do corpo docente do Colgio das Artes.

    breve o Santo Ofcio, acusando os erasmitas de protestantes encobertos, os julgou, encarcerou e dispersou, anulando a valorizao cultural que eventualmente trariam ao pas. Os contactos desses estrangeirados com o luteranismo e o calvinismo sobrepunha-se ao facto de o erasmismo criticar tanto a legitimidade da Reforma corno a das ordens religiosas (Mendes, 1993). Um potencial luteranismo assustava a sociedade portuguesa, fechada sobre si prpria e, ao que parece, esgotada pelas brilhantes inovaes que a haviam conduzido aos descobrimentos.

    No longo perodo, que se estendeu at 16-+0. e;- .

    coroa portuguesa esteve entregue a um rei c

    os territrios ultramarinos portugueses cor.,- .. _=- - interesse e a cobia dos inimigos de Espanha . .:.: .... ~...

    diversificados. Foi nesta poca que se prodez: ..

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    -lineana do Brasil, da autoria de naturalistas _

    e estrangeiros.

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    descoberto. As consequncias da originalid:;.c.:: -~ ~

    demonstrada no foram mais profundas por

    essenciais. A primeira foi a estagnao cultural ::-:-.~:

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    das prprias observaes e no reconhecime:-': .

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    Deve assinalar-se que a zoologia pr-lineana r.':: :::::-:.

    no foi apenas abordada por portugueses.

    durante o perodo pr-lineano, que, no caso eS;-:: ~:

    do Brasil, se pode localizar entre 1500 e o lir:ce .

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    escreveram sobre a fauna brasileira. As cont=-::::, ..... :

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    sido descritas com pormenor por Nomura ~::::..:

    1997, 1998). Este autor tem procurado ide:-:::~:

  • . a despeito da amizade do rei, denunciado Ofcio e bastante mais tarde, em 1571, por este.

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    - :, Artes, para o qual so chamados como C.l.cL' ::'" =:-;;3 portugueses no estrangeiro. Andr ::: ~.ela. sobrinho de Diogo de Gouveia e dissidente :' -:. poca principal do Colgio de Guyenne, em - ~:'_'. incumbido pelo rei de dirigir o Colgio das -::" -:;:-:-2.Z consigo alguns mestres bordaleses, uns

    -:_;..:.~ses. outros estrangeiros, e incorpora tambm .. :: ~ ~::-es do Colgio de Santa Brbara. Com perspec

    . _ ~Uv~c.> distintas, os primeiros erasmitas, os - ,. - .ses ortodoxos, cedo viriam a confrontar-se. De

    ~.,-;-;,.. de 1548, acabada a prestigiada direco - - __ o "'''' Andr de Gouveia pelo seu prematuro :: ~ --::.~:-.:O. desfez-se a integridade do corpo docente

    Artes.

    Santo Ofcio, acusando os erasmitas de -:es encobertos, os julgou, encarcerou e 3.TIulando a valOlizao cultural que eventual-:2.m ao pas. Os contactos desses estrangei,:) luteranismo e o calvinismo sobrepunha-se erasmismo criticar tanto a legitimidade da

    - ::GO a das ordens religiosas (Mendes, 1993). .- - ~ial luteranismo assustava a sociedade -- S:'. fechada sobre si prpria e, ao que parece,

    3.S brilhantes inovaes que a haviam ':' ~:JS descobrimentos.

    Ko longo perodo, que se estendeu 1640, em que a coroa portuguesa esteve entregue a um rei castelhano, os territrios ultramarinos portugueses concitaram o interesse e a cobia dos inimigos de Espanha, que eram diversificados. Foi nesta poca que se produziram os mais importantes trabalhos sobre Histria natural pr-lineana do Brasil, da autoria de naturalistas portugueses e estrangeiros.

    Tinha-se inovado na cincia nutica para descobrir; inovou-se no conhecimento da natureza por se ter descoberto. As consequncias da originalidade assim demonstrada no foram mais profundas por duas razes essenciais. A primeira foi a estagnao cultural imposta pela Inquisio. A segunda, o segredo de estado, que impunha um notvel intimismo aos conhecimentos sobre os territrios de alm-mar. No domnio da Histria natural poder-se-ia ter chegado muito mais longe no alcance das prprias observaes e no reconhecimento dos mritos dos naturalistas portugueses, no fora a privacidade a que se condenou o conhecimento original.

    Deve assinalar-se que a zoologia pr-lineana no Brasil no foi apenas abordada por portugueses. Com efeto, durante o perodo pr-lineano, que, no caso especfico do Brasil, se pode localizar entre 1500 e o limite formal de 1735 - data de publicao da primeira edio de Systema naturae -, dezenas de 'naturalistas' escreveram sobre a fauna brasileira. As contribuies individuais deste copioso nmero de individualidades tm sido descritas com pormenor por Nomura (1996a,b, 1997, 1998). Este autor tem procurado identificar as

    15

  • 16

    especles por eles mencionadas nos seus livros ou manuscritos, atribuindo-lhes nomes lineanos. O trabalho realizado com tanta persistncia por Nomura ser adoptado no presente estudo: salvo indicao em contrrio, so as identificaes de Nomura dos txones braslicos as aqui referidas sem mais citaes.

    Sempre que uma obra clssica no pde ser consultada na edio original ou fac-similada, cita-se o ano (e autor e pginas, quando caso disso) da reimpresso ou colectnea de que faz parte entre parnteses rectos. Na bibliografia indica-se tambm o ano da publicao efectiva da obra para completa integrao cronolgica do autor e seus conhecimentos no tempo prprio.

    Ainda que muito desiguais em extenso e profundidade, as contribuies do significativo grupo de naturalistas pr-lineanos do Brasil formam um conjunto relativamente importante que ser subdividido em seces no presente estudo. Antes do mais, porm, para melhor avaliao do alcance das contribuies individuais, ser interessante considerar os limites e contedos da Histria natural, em particular da Zoologia, no perodo em referncia.

    A Histria natural nos sculos XVI e XYII

    ::\0 estudo da vida desenharam-se desde duas tendncias complementares, porm conceptualmente distintas. Uma respeita estrutL: diversidade e ordenao desta num sistema coe;'e:-::: _ apreensvel pela mente humana. A outra, ocupa-;::e funcionamento dos seres vivos, particularmente humano. Identificou-se a primeira com a Histra " e, com tal contedo, abrangeu desde logo natureza inanimada minerais, rochas, fsseis. A cOlTesponde Fisi ologia/Medicina, desde sempre re' :~:. nada com a Histria natural, tanto directamente esr:-.:~ ...

    corpo humano: anatomia como indirectame:-:. diversidade e taxonomia dos frmacos, s no passado gradualmente substitudos por compos:,~ ~ ..::: sntese. Assim, at muito tarde, a formao e

    naturalistas foi adquirida em estudos mdico:;.

    Durante muitos sculos, os manuscritos de Teofrasto, Plnio e seus tradutores e comente:.I.. _. formaram o essencial do saber histrico-naturaL' --- : os de Hipcrates e Galena constituram a medicina e os de Dioscrides a do conhecimen=: frmacos. Dezenas, em certos casos centenas. manuscritos copiados e recopiados, totalmec em parte, traduzidos e alterados pelos trac:c __ . parafraseados, corrigidos, etc. -, formaram um ::-sobre a natureza e a vida, acessvel a apenas Com a descoberta da imprensa na Europa, em 1:.(";.... : do sculo Xv, e sua progressiva utilizao, estas e .. ..

  • ~::S por eles mencionadas nos seus livros ou atribuindo-lhes nomes lineanos. O trabalho

    com tanta persistncia por Nomura ser __co no presente estudo: salvo indicao em .0. so as identificaes de Nomura dos txones

    -,J5 as aqui referidas sem mais citaes.

    uma obra clssica no pde ser consultada original ou fac-similada, cita-se o ano (e autor quando caso disso) da reimpresso ou de que parte entre parnteses rectos. Na indica-se tambm o ano da publicao

    obra para completa integrao cronolgica seus conhecimentos no tempo prprio.

    -::.e: muito desiguais em extenso e profundidade, :-::-:buies do significativo grupo de naturalistas :-.e':::105 do Brasil formam um conjunto relativamente

    -:: ~ :-::.:-:te que ser subdividido em seces no presente . . ..!."ntes do mais,porm, para melhor avaliao

    :.:-:..:e: das contribuies individuais, ser interessante .'::e:-:':- os limites e contedos da Histria natural, em

    Zoologia, no perodo em referncia.

    A Histria natural nos sculos XVI e XVII

    No estudo da vida desenharam-se desde muito cedo duas tendncias complementares, porm perceptiva e conceptualmente distintas. Uma respeita estrutura, sua diversidade e ordenao desta num sistema coerente e apreensvel pela mente humana. A outra, ocupa-se do funcionamento dos seres vivos, particularmente do corpo humano. Identificou-se a primeira com a Histria natural e, com tal contedo, abrangeu desde logo tambm a natureza inanimada minerais, rochas, fsseis. A segunda corresponde FisiologialMedicina, desde sempre relacionada com a Histria natural, tanto directamente - estrutura do corpo humano: anatomia -, como indirectamentediversidade e taxonomia dos frmacos, s no sculo passado gradualmente substitudos por compostos de sntese. Assim, at muito tarde, a formao e prtica dos naturalistas foi adquiIida em estudos mdicos .

    Durante muitos sculos, os manuscritos de Aristteles, Teofrasto, Plnio e seus tradutores e comentadores formaram o essencial do saber histllco-natural, como os de Hipcrates e Galena constituiram a base da medicina e os de Dioscrides a do conhecimento dos fmlacos. Dezenas, em certos casos centenas, destes manuscritos - copiados e recopiados, totalmente ou em parte, traduzidos e alterados pelos tradutores, parafraseados, corrigidos, etc. -, formaram um corpo sobre a natureza e a vida, acessvel a apenas alguns. Com a descoberta da imprensa na Europa, em meados do sculo Xv, e sua progressiva utilizao, estas e outras

    17

  • obras tornaram-se referncias de consulta mais generalizada. Logo em 1469 se imprimiu a Histria natural de Plnio e, em 1498 e 1499, as verses latina e grega, respectivamente, de De Materia Medica, de Dioscrides (Guynot, 1941). Os ventos do Renascimento, Tadiando das universidades do norte de Itlia, estenderam progressivamente Europa central e ocidental os seus anseios inovadores. Em 1543, Andreas Vesalius publica em Basileia De Humani COlporiS Fabrica, a primeira anatomia humana resultante de uma investigao profunda sobre a estrutura interna do corpo humano. Entendida a estrutura, podia progredir o conhecimento da fisiologia humana - o que, de facto, aconteceu -, e com ela a medicina, deixando para trs, a pouco e pouco, toda a fisiologia terica que fizera vida de Hipcrates a Alberto Magno, passando pela observao acti va de Galeno.

    A anatomia humana, por um lado imprescindvel ao desenvolvimento da Fisiologia/Medicina, foi, por outro, inspiradora da investigao sobre anatomia zoolgica, principalmente de vertebrados. De passo em passo, o estudo da mOlfologia interna dos vertebrados acabaria por dar origem anatomia comparada, essencial para o conhecimento da marcha da evoluo. Numa perspectiva diferente, criacionista, j muito antes, Pierre Belon du Mans, em um dos marcos da zoologia do Renascimento, Histoire naturelle des Oiseaux (1555), apresentava a comparao entre os esqueletos do homem e das aves.

    Muitos outros livros de Histria natural foram impressos nesta poca. Cingindo a lista apenas Zoologia, so de

    18

    referir, a ttulo de exemplo, de C.Gessner.

    animalium (1551 587), !cones

    pedum (1553), !cones avium (1560) e

    aquatilium animalium (1560); de P. Belon.

    tilibus (1553) e o j refelido sobre as aves; de G,R:-- __ ::

    De piscibus libri (1554) e Universae aquatiliwi' l':::::

    de H.Salviani, Aquatilium animalium historiar:: 1':::

    U.Aldrovandi, Ornitholo giae (1599), r,,' .. ollirnalibus exanguibus (1606), De pisciblls (1 qlladrupedibus (1616), etc. Todos, porm, zoologia do Velho Mundo, se exceptuarmos referncias a animais americanos j constantes modernos de entre eles. S a partir de meados ~C_ XVII comearo a publicar-se obras impress:.~ _ dedicadas Histri a natural do Brasil ou pases \ ,. _,

    :-Ja sua generalidade, estes livros tratam da caractersticas habitacionais e comportamenr~7.:s ,_ espcies. As classifieaes dos seus diferentes 2.~:: ~ relevam mais dos caracteres ecolgicos do estruturais. As utilizaes mdicas, artesanais e

    sempre acarinhadas e desenvolvidas. E\:::digresses filolgicas sobre os nomes das ~ acompanham os comentrios relativos a autores .::.- -:"riores. O recurso s obras de Aristteles e PUme' :: :"-geral grande, embora desigual, conforme a mais enciclopdica ou mais naturalista do cC Estabelecendo a transio entre os bestilios e a literatura zoolgica moderna, no deve admi:',:.~ .:. __ alguns descrevam, e at figurem, animais fabulo52s. ; _ \ezes mesmo com indicao da localidade em observados.

  • se referncias de consulta mais e:Tl 1469 se imprimiu a Histria natural

    e 1499, as verses latina e grega, " -"

    '-'-J1ateria Medica, de Dioscrides

    ,,::s;:mento, irradiando das universidades _, ::s:enderam progressivamente Europa

    , ~'5 seus anseios inovadores. Em 1543, _''_ . 5 'Jublca em Basileia De Humani

    , ._ p:imeira anatomia humana resultante profunda sobre a estrutura interna

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    : -, 3:.l. d: muito antes, Pierre Belon du :-:-:::-;:05 da zoologia do Renascimento,

    ~ .S:?CIlIX (1555), apresentava a do homem e das aves.

    natural foram impressos __ '"'- c_::'ld apenas Zoologia, so de

    referir, a ttulo de exemplo, de C.Gessner, Historiae animalium (1551 1587), Icones animalium quadrupedum (553), Icones avium (1560) e Nomenclator aquatiliz,urt animaliwn (1560); de P. Belon, De aquatilibus (1553) e o j referido sobre as aves; de G . RondeI et, De piscibliS libri (1554) e Universae aquatilium (1555); de H.Salviani, Aquatilium animalium historiae (1554); de D.Aldrovandi, Omithologiae (1599), De reliquis animalibus exanguibus (1606), De piscibus (16l3), De quadrupedibus (1616), etc. Todos, porm, limitados zoologia do Velho Mundo, se exceptuarmos algumas refernci as a animais americanos j constantes dos mais modernos de entre eles. S a partir de meados do sculo XVII comearo a publicar-se obras impressas e dedicadas Histria natural do Brasil ou pases vizinhos .

    Na sua generalidade, estes livros tratam da morfologia e caractersticas habitacionais e comportamentais das espcies. As classificaes dos seus diferentes autores relevam mais dos caracteres ecolgicos do que dos estruturais. As utilizaes mdicas, artesanais e outras so sempre acarinhadas e desenvolvidas. Extensas digresses filolgicas sobre os nomes das espcies, acompanham os comentrios relativos a autores anteriores. O recurso s obras de Aristteles e Plnio em geral grande, embora desigual, conforme a tendncia mais enciclopdica ou mais naturalista do autor. Estabelecendo a transio entre os bestirios medievais e a literatura zoolgica moderna, no deve admirar que alguns descrevam, e at figurem, animais fabulosos, por vezes mesmo com indicao da localidade em que foram observados.

    19

  • A publicao destas obras deconeu em paralelo com a colonizao e conhecimento do Brasil. pelo que no provvel que fossem familiares aos que, plimeiramente, escreveram sobre a zoologia brasileira, de resto, em geral, homens de armas ou da igreja. Quando muito, um ou outro, conhecelia Aristteles, Plnio ou algum clssico. A forma como abordaram e descreveram a fauna brasJ1ica foi, portanto, espontnea e ingnua, muito por comparao com os animais europeus que lhes eram mais familiares.

    No entanto, em Portugal, algumas obras clssicas e renascentistas de Histria natural foram conhecidas e utilizadas no sculo XVI. Andr de Resende [1996], por exemplo, cita Aristteles, Plnio, Galeno e outros clssicos, bem como Rondelet (1554), na sua 'investigao sobre o asturjo', publicada postumamente em 1593 no Livro II de Libri Quatuor de Antiquitatibus Lusitaniae (ver tambm Rosado Fernandes, 1986). Porm, silenciado como todos os renovadores, Andr de Resende refugiou-se na erudio e duvidoso que tenha exercido alguma influncia nos colonizadores.

    1______---20----------------___"~__.

    Primeiros cronistas

    Logo que os navios de Pedro Alvares Cabr.:: no litoral do Brasil se comeou a escre'. _ gentes e a natureza para bom conhecime.:-::, ~ Portugal. Pra Vaz de Caminha (c. 1450-1

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    -.:::::- .::2 alguma int1uncia nos colonizadores.

    -

    Primeiros cronistas

    Logo que os navios de Pedro lvares Cabral ancoraram no litoral do Brasil se comeou a escrever sobre as gentes e a natureza para bom conhecimento do rei de Portugal. Pra Vaz de Caminha (c.l450-1501), escrivo da armada, enviou longa carta em 1 de Maio de 1500 dando conta dos indgenas e seus traos tnicos mais relevantes, bem assim de alguns animais que, entretanto, observara. A esses animais aplicou nomes comuns de espcies portuguesas ou exticas, mas j familiares aos portugueses como, por exemplo, os papagaios [Caminha, 1989]. Nomura (l996a) ensaia a identificao dos nomes de Caminha com espcies brasileiras, no podendo, em certos casos (papagaios-verdes, pomba-seixa, rola) ir alm de vrias possibilidades que cada um desses nomes sugere. Noutras situaes, como por exemplo, nas que se referem ao 'fura-buxo', ao 'papagaio-vermelho' e 'pega' no parece ter dvidas em identific-los, respectivamente, com Puffinus puffinus, Ara chloroptera e Cacicus haemorrhous. E identicamente no que respeita ao 'camaro', 'berbigo' e 'ameijoa', de Caminha, que Nomura cr conesponderem a Macrobrachium carcinus, Anomalocardia brasiliana e Phacoides pectinatus, respectivamente.

    Ferno de Magalhes (c.1480-1521) tambm tocou o Brasil, em 1519, concretamente Guanabara. Acompanhava-o o cronista Antonio Pigafetta (1491-1534), veneziano que relatou a expedio (Taunay, 1999). Na Ja narrativa! , Pigaffeta infonna sobre produtos vegetais,

    21

  • 22

    povos indgenas e seus costumes, casas, barcos, vesturio, tatuagens, ornamentos, vida conjugal, armas, etc., sendo, no entanto, tangencial no que se refere fauna. Comenta, por exemplo, que a anta, Tapints terrestris, tem uma carne parecida com a de vaca (Pigafetta, 1801) . Legtima preocupao de todos os exploradores das novas terras, para quem era importante registar o que se podia comer.

    Outros exploradores pioneiros abordaram temas faunsticos, ainda que marginalmente. Um deles foi Uhich Schmidel (c.151O- ?), bvaro que passou duas dezenas de anos na Amrica (entre 1534 e 1554), tendo viajado pelo sul do Brasil. Tudo relatou num livro apenas publicado em 1599 e cujo ttulo, traduzido em portugus, : 'Histria verdadeira de uma curiosa viagem feita por Ulrich Schmidel, de Straubing, na Amrica ou Novo Mundo, pelo Brasil, Rio da Prata, desde o ano de 1534 at 1554'. Com tendncia para o fabuloso (Taunay, 1999), Schmidel assegura ter visto na margem do rio Uruguai (Rio Grande do Sul) uma serpente com mais de 11 m de comprimento, que matava, por constrio, ndios e veados e outros animais de grande porte de que se alimenta. Trata-se da sucuri, Eunectes murinus, espcie que atinge grandes dimenses.

    Tambm Alvaro Nunes Cabeza de Vaca (1490?-1564'1), administrador da colnia da Prata, tocou o Brasil em 1541. Registou algumas observaes sobre animais comestveis de Santa Catarina. Assim, Cabeza de Vaca referiu as lagartas (bicho-da-taquara) da borboleta Myelobia smerintha, grandes, brancas e gordas, que se

    comiam fritas; a dourada, Salmnus mcx~~' excelente, cujo caldo cura toda a;:: '-:: gafeira; o veado-campeiro, Ozotoceros pecaris cateto, Tayassu tacajus, e -, que Cabeza de Vaca designa por ja\ab: Hydrochaeris hydrochaeris, de came E. _ ~ denominada 'porco-de-gua' pelo explorz:c,c" .; ~~ Hans Staden (1510 ?- 1576), artilheiro de Hesse, teve uma vida aventurosa por duas vezes ao Brasil (Franco, 1941: uma a Pernambuco (1547), a outra a Sa:1:'::~-_ (1550-1554). Regressado Europa, pub:i~c~. o relato das suas aventuras, que tem conhe,-_,:::,:

    nmero de edies e de tradues [vg

    1988].

    :-Ja parte do seu livro que intitula 'Relatl~O ~= -~: . animais daquela terra', que compreende os ;;':::::. 2. 36 [Staden, 1988], apresenta comentrio espcies observadas. Reconheceu entre semelhantes aos da sua terra natal, como :eites, morcegos, embora maiores e hema:6:_= ~-\limentou-se de vrios e comenta as c.:':' :Eetticas: o tatu, Dasypus septemcinctl/s. te:

    ~orda; a capivara, Hydrochaeris hydrochaer; , :e:-' :om sabor de porco; as abelhas, .ngllstllla, Melipona quadrifasciata e " ":lstica, produzem bom mel, sobretudo 2.~ ::,:::: _ :Jescreve a bolsa marsupial da sariguei:l. :;. .::!rita, referindo o nmero de crias, mais o:; :::~e- ~

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  • e seus costumes, casas, barcos,

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    . Tudo relatou num livro apenas ~ ~99 e cujo ttulo, traduzido em pOltugus,

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    -, Rio da Prata, desde o ano de 1534 ~ ~ :c!1dncia para o fabuloso (Taunay,

    :.:.': assegura ter visto na margem do rio do Sul) uma serpente com mais de ':-::-":.~lento, que matava, por constrio, ndios

    animais de grande porte de que se ~~ :~.-Se sucuri, Eunectes murinus, espcie

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    Cabeza de Vaca (1490?-1564?), a da Prata, tocou o Brasil em ~~:g'Jmas observaes sobre animais _~ 5.::.::.1 Catarina. Assim, Cabezade Vaca

    ::,. i bicho-da-taquara) da borboleta ~~. grandes, brancas e gordas, que se

    comiam fritas; a dourada, Salminus maxillosus, peixe excelente, cujo caldo cura toda a espcie de lepra ou gafeira; o veado-campeiro, Ozotoceros bezoarticus; os pecaris - cateto, Tayassu ta cajus , e queixada, Tpecari -, que Cabeza de Vaca designa por javalis; a capivara, Hydrochaeris hydrochaeris, de carne excelente e denominada 'porco-de-gua' pelo explorador espanhol.

    Rans Staden (1510 ?- 1576), artilheiro alemo natural de Resse, teve uma vida aventurosa que o levou por duas vezes ao Brasil (Franco, 1941; Horch, 1994), uma a Pernambuco (1547), a outra a Santa Catarina (1550-1554). Regressado Europa, publicou em 1557 o relato das suas aventuras, que tem conhecido grande nmero de edies e de tradues [vg Staden, 1837, 1988].

    Na parte do seu livro que intitula 'Relatrio sobre alguns animais daquela terra', que compreende os captulos 30 a 36 [Staden, 1988], apresenta comentrios sobre as espcies observadas. Reconheceu entre elas animais semelhantes aos da sua terra natal, como veados, javalis, leites, morcegos, embora maiores e hematfagos, etc. Alimentou-se de vrios e comenta as qualidades dietticas: o tatu, Dasypus septemcinctus, tem a carne gorda; a capivara, Hydrochaeris hydrochaeris, tem carne com sabor de porco; as abelhas, Tetragonisca angustula, Melipona quadriJasciata e Scaptotrigona postica, produzem bom mel, sobretudo as pequenas. Descreve a bolsa marsupial da sarigueia, Didelphis aurita, referindo o nmero de crias, mais ou menos seis, que nela se protegem. A capivara maior do que uma

    23

  • 24

    ovelha e tem cabea semelhante da lebre, embora de orelhas curtas. Corre velozmente e refugia-se na gua se assustada.

    Andr Thevet (1502-1592), franciscano francs, viajou para o Brasil como capelo da expedio de Nicolas Vtllegagnon (1510-1572). Na sequncia desta expedio, estabeleceu-se em 1555 um povoamento na Baa de Guanabara, onde hoje se situa Rio de Janeiro: 'Frana antrctica'. Os franceses cobiavam as produes brasileiras, nomeadamente plantas tintureiras e medicinais, especiarias, algodo, ouro, peles, plumas e animais exticos, sobretudo macacos, papagaios c colibris (Morisot, 1975; Magalhes, 1998). A Frana antrctica teve durao efmera, pois em 1560, os portugueses destroaram as suas fortificaes. Alguns franceses, todavia, permaneceram na regio misturados com os ndios (Brown, 1994; Perrone-Moiss, 1994). Regressado a Frana, Thevet publicou o seu relato sobre o Brasil (1558), no sem fantasias, sobretudo iconogrficas (Taunay, 1999), que lhe valeram fortes crticas de Jean de Lry. A despeito disso, o livro de Thevet (1558) foi traduzido e reeditado vrias vezes (vg Thevet, 1561). H tambm traduo moderna em portugus [Thevet, 1944]. Em Les singularits de la France antarctique, Thevet (1558) relata, de facto, a sua longa viagem por frica e Amrica, incluindo Madeira, Cabo Verde, Guin, Madagascar, etc., de tal modo que s no captulo 24 atinge a Frana antretica. Descreve mamferos, aves, rpteis, anfbios, peixes, moluscos e insectos do Brasil, publicando figuras, quase todas de muito m qualidade,

    que permitem duvidar sobre se e~ observou os animais. Referir-se-. ;::" tucano (p.91), Ramphastus 1 -" desmesurado, com o tamanho do .:::~ , preguia, Bradypus sp., de face lnr::.. : .. _ com os filhos sobre o dorso, que co Estreito de Magalhes. Insere O~::: .. ~ sobre os ndios e seus costumes guerra. antropofagia, funerais, etc.) e r. alimentam, prosseguindo depois o re;~::: _ Cuba, Florida, Canad e Terra No\~:.

    Taunay (1999) comenta com bonor:1: franciscano. Jean de Lry, porm, Villegagnon ao Brasil, includo na frac - '_: que este transportou, considera Tl:~ mentiroso. O franciscano , com fustigado por Lry nos seus livros Polmica religiosa e no propriamente . ~ observaes de cada um, na opinio de r

    A brevidade dos contactos destes com o litoral brasileiro ou a sua outros tcmas - os que respeita\:lr:'. humanas, por exemplo -, no lhes simples meno dos animais comest\e:s , ou conspcuos, que descreveram e comparao com as espcies europe: ::3 .. ' que conheciam. Assim, as referrL':' :" dietticas do tapir, ou anta, do tatu . ...:., ., bem corno as representaes caric os nomes europeus atribudos s

  • ~1bea semelhante da lebre, embora de OlTe 'velozmente e refugia-se na gua se

    1502-1592), franciscano francs, viajou .:::. ~--~:. 2omo capelo da expedio de Nicolas

    . - ~ 510-1572). Na sequncia desta expedio, .. - .:-;~ 1555 um povoamento na Baa de

    -:-.-::'~ se situa Rio de Janeiro: 'Frana :: ;'ranceses cobiavam as produes

    plantas tintureiras e medicinais, ouro, peles, plumas e animais

    macacos, papagaios e colibris - 5. "\ICis:alhes, 1998). A Franca antrctica

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    pois em 1560, os portugueses s~:~,s fortificaes. Alguns franceses,

    .. _':-.;;": er~1m :1a regio misturados com os ndios :...:.. ?er:one-.\10iss, 1994). Regressado a

    o seu relato sobre o Brasil (1558), iconogrficas (Taunay, 1999),

    de Jean de A despeito 8) foi traduzido e reeditado

    1). H tambm traduo

    :Li ClntCll'ctique, Thevet

    \iagem por Africa

    "\ Cabo Verde, Guin,

    no captulo 24

    scre\e mamferos, aves,

    - .;:S. e insectos do Brasil,

    :: __..,~ .c.:-::':iS mUlto qualidade,

    que permitem duvidar sobre se efectivamente, observou os animais. Referir-se-, em particular, um tucano (p.91), Ramphastus vitellinus, de bico desmesurado, com o tamanho do corpo do animal; a preguia, Bradypus sp., de face humana; e um animal com os filhos sobre o dorso, que denomina Su Cp. 109), do Estreito de Magalhes. Insere outras observaes sobre os ndios e seus costumes (alimentao, magia, guena, antropofagia, funerais, etc.) e plantas de que se alimentam, prosseguindo depois o relato da viagem at Cuba, Florida, Canad e Nova.

    Taunay (1999) comenta com bonomia os dislates do franciscano. Jean de Lry, porm, que tambm foi com Villegagnon ao Brasil, includo na fraco de protestantes que este transportou, considera Thevet um grande mentiroso. O franciscano , com efeito, duramente fustigado por Lry nos seus livros (Lry, 1580, 1604). Polmica religiosa e no propriamente levantada pelas observaes de cada um, na opinio de Magalhes (1998).

    brevidade dos contactos destes primeiros cronistas com o litoral brasileiro ou a sua maior curiosidade por outros temas os que respeitavam s populaes humanas, por exemplo -, no lhes permitiu ir alm da simples meno dos animais comestveis ou mais bizan'os ou conspcuos, que descreveram e denominaram por comparao com as espcies europeias ou domsticas que conheciam. Assim, as referncias qualidades dietticas do tapir, ou anta, do tatu, da capivara, etc., bem como as representaes caricaturais de Thevet e os nomes europeus atribudos s espcies mais comuns.

    25

  • Naturalistas pioneiros

    No obstante contribuies desiguais no

    Zoologia, este primeiro grupo de naturals:.::.~

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  • Naturalistas pioneiros

    No obstante contribuies desiguais no domnio da Zoologia, este primeiro grupo de naturalistas, todos conhecedores da natureza braslica do sculo XVI, foi, por assim dizer, o fundador da Histria natural do Brasil. Considera-se aqui culminado pela obra de Gabriel Soares de Sousa (c.1540-1592), que observou uma importante quantidade de espcies animais. Atendendo primeira divulgao, ainda que restrita, das observaes sobre os animais do Brasil, Jos de Anchieta (15341597), o 'naturalista' que tem prioridade. Por isso, se conferir aqui maior desenvolvimento aos seus comentrios, apresentando os dos naturalistas subsequentes desta primeira fase (1560-1587) mais na tentativa de preencher eventuais lacunas do relato de Anchieta. Ainda assim, o texto repetitivo, no s porque a atraco destes pioneiros se concentrava, por moti vos idnticos, em determinadas espcies, como ainda por certas particularidades de ordem biolgica, ou outra, serem to interessantes, que pareceu vantajoso realar os pormenores anotados por cada um deles.

    Respeitou-se, tanto quanto possvel, a grafia confelida por cada autor aos nomes tupi-guarani. Isso mostra a forma como soavam aos ouvidos de cada um, adaptados a lnguas ou dialectos eventualmente distintos, as nomenclaturas etnozoolgicas locais.

    Para j, a apresentao dos protagonistas desta fase pioneira, na maioria portugueses: Jos de Anchieta, Pro de :VIagalhes Gndavo (c.1540 ?), Jean de Lry,

    27

  • Femo Cardim (1548? 1625) e Gabriel Soares de Sousa.

    Jos de Anchieta. Foi o primeiro grande naturalista do Brasil. Natural das Ilhas Canrias, veio para Portugal com anos e estudou na Universidade de Coimbra (Frana, 1926a). Ingressou na Companhia de Jesus em 1551 e viajou para o Brasil em 1553, instalando-se na capitania de So Vicente. Viveu todo o resto da sua vida no Brasil, sendo nomeado provincial em 1578 (Horch, 1994). Dos seus escritos se depreende que, embora sem qualquer formao especfica de naturalista, foi um excelente observador. O que escreveu permaneceu, infelizmente. reservado finais do sculo XVIII, pois f-lo sob a forma de cartas enviadas ao padre da Companhia de Jesus. desejava [Anchieta, 1933a] que Anchieta escrevesse "acrca do que suceder connosco que seja digno de admirao ou desconhecido nessa parte do mundo."

    Assim, na sua CaIta de 3] de maio de 1560, Anchieta [1933a] refere cerca de setenta espcies animais . Utilizando, umas vezes, nomes portugueses, outras, a nomenclatura dos ndios, ultrapassa no nmero e qualidade de observao Hans Staden ou Andr Thevet. Uma preocupao evidente em Anchieta: esclarecer o padre geral sobre a utilidade ou perigosdade dessas espcies. Com efeito, trs quartos das espcies mencionadas so comentadas relati vamente a essas qualidades.

    28

    \1a1s de metade das espcies referidas algumas delas, como por exemplo o igllaragu (Trichechus l1Umatlls). I:' (Myrmecophaga tridactyla) e o uc: l/ovemcinctus), de excelente palatabilidad. - , Pterol1ura brasiliensis, Lutra el1udris e ~ .. ' fomeciam pele para a confeco de cir:tcs.:': anta (7pirus terrestris), para alm de cone uma pele to dura que com ela os ndios scudos de defesa. Diversas espcies de por exemplo A1elipona quadrifasciata e T,', mgllstula, fabricam mel que era utilizado co~'..

    feridas. Sobre os peixes, diz Anchieta ~ saudaveis nesta terra e podem-se come:' : ' prejudicar a sade, e na doena, Se~~

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    .. ;:::: cartas enviadas ao padre geral da - ;' ~ .1S, desejava [Anchieta, 1933aJ ;,,-'::'e\esse "acrca do que suceder

    de admirao ou desconhecido

    31 maio de 1560, Anchieta :::: :;;".::a de setenta espcies animais. . :"._'::ZeS. nomes portugueses, outras, a

    ultrapassa no nmero e Hans Staden ou Andr Thevet.

    em Anchieta: esclarecer o ou perigosidade dessas

    s quartos das espcies relativamente a essas

    Mais de metade das espcies referidas so comestveis, algumas delas, como por exemplo o peixe-boi, ou iguaragu (Trichechus manatus), o tamandu (Myrmecophaga tridactyla) e o tatu (Dasypus novemcinctus), de excelente palatabilidade. As lontras, Pterollura brasiliellsis, Lutra enudris e L.platensis, forneciam pele para a confeco de cintos. O tapir, ou anta (Tapirus terrestris), para alm de comestvel, tem uma pele to dura que com ela os ndios confeccionavam escudos defesa. Diversas espcies de abelhas, como por exemplo Melipona quadrifasciata e Tetragol1ura angustula, fabricam mel que era utilizado como curativo de feridas. Sobre os peixes, diz Anchieta [1933a]: " ...so mui saudaveis nesta tena e podem-se comer todo o ano sem prejudicar a sade, e at na doena, sem receio de sarna, que aqui no existe em parte alguma."

    Os papagaios, de diferentes espcies (Pyrrhurafrontalis, Amazona aestiva, etc.), so "todos bons para se comerem [mas] alguns deles produzem priso de ventre." Uma ave marinha, o guar (Eudocimus ruber, segundo o anotador de Anchieta, 1933a), exibe variao etria da colorao, sendo branca quando juvenil, cinzenta depois, branca menos alva a seguir c, enfim, prpura .

    plumas pw-preas, lindssimas, eram muito estimadas pelos ndios, que com elas se enfeitavam em pocas festivas [Anchieta, 1933a].

    Para alm das mencionadas, muitas outras espcies "so boas de comer-se", como escreve o jesuta: o jacar (Caiman latirostris); a capivara (Hydrochaeris hydrochaeris); todas as serpentes, venenosas ou no,

    29 ~,~

  • aps ser-lhes cortada a cabea; as onas, a que Anchieta chama panteras (Felis cOlIcolor e Panthera anca); os macacos (Alouatta caraya e Cebus robustus) , etc. Porm, h tambm muitas espcies perigosas ou nocivas, de que Anchieta deu notcia ao padre geral. Assim, a sucuryba, ou sucuri (Eunectes murinus), de maravilhoso tamanho e que engole um veado inteiro. Enrosca-se nas presas e mata-as "introduzindo-lhes a cauda pelo anus." Isto, ouvia Anchieta dizer, como ouvia dizer que, por no poderem digerir as grandes presas, lhes apodrece o ventre juntamente com a comida; depois, as rapaces rasgam-lhes o ventre e devoram-no, bem como o contedo. A serpente regenera o ventre "e volta a antiga frma."

    Perigoso tambm o jacar, que tem agudssimos dentes e pode engolir um homem. As garras e dentes das lontras podem, igualmente, maltratar as pessoas. Porm, o caso era verdadeiramente grave com as serpentes venenosas.

    As jararacas (Bothrops jararaca e B.atrox), abundantes em toda a parte, matavam as pessoas mordidas em vinte e quatro horas. No entanto, quem porventura no morresse, adquiria imunidade, como o prprio Anchieta observou por mais de uma vez. A bicininga, ou cascavel (Crotalus durissus), cuja mordedura paralisa a viso, o ouvido, os movimentos do corpo e, finalmente, provoca a morte. A ibibobca, ou coral (Micrurus frontalis e M.ibiboboca), mais rara, a biguatira, ou cotiara (Bothrops cotiara), e a bipeba, ou cobra-chata (Xenodon merremii), todas mortferas. J a biroianga,

    30

    -

    ou muurana (Pseudoboa cloelia). cf:':.::-: ~_ no mortfera; a sua mordedura pro\c : _ ~ _no corpo.

    Outros animais, sem que a sua more~ __ :-_ seja mortal, causam, todavia, grandes do::-e~ e Um escorpio, biquiba (Tityus bahic': . picada extremamente dolorosa durante - _. horas. Uma lagarta, que Anchieta diz se::- ~ecentopeia, coberta de pelos que, ao to.::-::.-e:produzem dor durante horas. Trata-se dJ,;~_ que significa "que queima como fogo" I se;.::anotadores de Anchieta, 1933a), ou l~~-::.:-._ lagarta da borboleta Megalopyge lcm,~:_ .. com Buzzi (1994). Os ndios usavam-na .:::::-:sexual, aplicando-a nas partes genitais: ~e resultavam por vezes infeces incur2.\e~ 1933a].

    Grande diversidade de moscas e mosq~:::: ~ de sangue importunam as pessoas. s:::-: yero. O marigui (Culicoides spp.). pc:-e~ praga terrvel. Habita a beira-mar e as..::: -; yoca um ardor extremamente incomc~::: alguns dias.

    Para alm destes e outros comentrios e ..:e' espcies, por vezes excelentes, Anchiec. ~ ~: a histria natural dos animais, freque:-:eobservao directa, mais raramente :',::- : Alguns dos seus relatos so muito cur:.,: ~:' descrio da mono de vero, grandes ::-. _- .

  • a cabea; as onas, a que Anchieta -- ~ -:-:- ..:5 cOHcolor e Panthera onca); os

    , . :;~ma caraya e Cebus robustus), etc. muitas espcies perigosas ou nocivas, deu notcia ao padre geral. Assim, a

    ,:,u sucuri (Eunectes murinus), de , ~ ~ :J.2lanho e que engole um veado inteiro.

    _ ,-':: ~2S ores as e mata-as "introduzindo-lhes a - = ' :,:-ClS," Isto, ouvia Anchieta dizer, como ouvia

    no poderem digerir as grandes presas, o \'entre juntamente com a comida; depois,

    :::S :-lsgam-lhes o ventre e devoram-no, bem A serpente regenera o ventre "e volta

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    -~=-as. 0Jo entanto, quem porventura no imunidade, como o prprio Anchieta

    de uma vez. A bicininga, ou '. IIS durissus), cuja mordedura paralisa a , :::,J. os movimentos do corpo e, finalmente, -=-='r:e. ibibobca, ou coral (Micrurus

    mais rara, a biguatira, ou cmiara), e a bipeba, ou cobra-chata l. todas mOltferas. J a biroianga,

    ou muurana (Pseudoboa cloelia), embora venenosa, no mOltfera; a sua mordedura provoca grande algidez no corpo.

    Outros animais, sem que a sua mordedura ou picada seja mortal, causam, todavia, grandes dores e incmodos. Um escorpio, biquiba (Tityus bahiensis), tem uma picada extremamente dolorosa durante vinte e quatro horas. Uma lagarta, que Anchieta diz ser semelhante centopeia, coberta de pelos que, ao tocarem no corpo, produzem dor durante horas. Trata-se da tatarana, nome que significa "que queima como fogo" (segundo um dos anotadores de Anchieta, 1933a), ou lagarta-cabeluda, lagarta da borboleta Megalopyge lanata, de acordo com Buzzi (1994). Os ndios usavam-na como excitante sexual, aplicando-a nas partes genitais; de tal prtica resultavam por vezes infeces incurveis [Anchieta, 1933a].

    Grande diversidade de moscas e mosquitos sugadores de sangue importunam as pessoas, sobretudo no vero. O marigui (Culicoides spp.), porm, era uma praga terrvel. Habita a beira-mar e a sua picada provoca um ardor extremamente incomodatvo durante alguns dias.

    Para alm destes e outros comentrios e descries de espcies, por vezes excelentes, Anchieta discorre sobre a histria natural dos animais, frequentemente por observao directa, mais raramente por ouvir dizer. Alguns dos seus relatos so muito curiosos. Assim, a descrio da mono de vero, grandes inundaes por

    31

  • ela provocadas e a piracma, ou seja, a 'sada dos peixes', que "se metem pelas ervas em pouca agua para desovar." Quando, no estio, a inundao maior e 'saiem' em cardumes considerveis. at mo se deixam apanhar2 Descreve, igualmente, a 'entrada dos peixes' - pira-iqu na linguagem dos ndios -, nos esturios e lagunas litorais em que desovam e estabelecem zonas de criao. Segundo o anotador de Anchieta [1933a], tratase sobretudo de espcies de Mugil. Os ndios enCUlTalavam-nos em cercas e atordoavam-nos com suco de timb (Paulinia pimwta, uma sapindcea, de acordo com um anotador de Anchieta, 1933a), colhendo-os depois em grandes quantidades.

    igualmente interessante o relato do encontro com uma serpente que Anchieta mata bastonada. Verifica, estupefacto, que do ventre dela saem as clias, em nmero de onze. O frade ignorava que a maioria dos ofdios so vivparos, no saindo os ovos do corpo da me, que, assim, os transporta e protege at ecloso. Ouvira, entretanto, contar que, por vezes, uma serpente fmea transporta quarenta crias.

    As aranhas, muito diversificadas, causavam-lhe uma viva repugnncia pelo aspecto e odor. Refere que um vespo (Pepsis elevata) as mata e transpOlta para as suas tocas, onde as come. No bem assim, pois o vespo depe a sua postura no corpo da aranha e so as larvas dele que se alimentaro da aranha (segundo um anotador de Anchieta, 1933a). A alimentao e postura de defesa do tamandu so descritos com pormenor por Anchieta, bem assim os

    32

    -

    hbitos do tapira, ou anta, e da (Bradypus tridactylus). O marspi (Didelphis aurita) tambm foi obsenad(, que diz j ter morto muitas, uma delas CC'C'. , bolsa marsupial. Quanto s puas do o~r:~ , l'il!OSUS), d crdito ideiaj antiga qualquer objecto, se movimentam ' penetrando-o, sobretudo se for carne. A,', :' ~ _ e resistncia que oferece a ser retirado escava so outras particularidades que

    Tambm lhe chamou a ateno o bicho-d~:.-~,.. mh. Vive no interior de um bambu, a

    tem a grossura de um dedo, sendo mui pelos ndios, que o comem assado. Alm diss .. ' com eles uma gordura utilizada para cozin'L:' . ,,:ouros (Buzzi, 1994). Diz Anchieta que se ,,:om o bicho-da-taquara "que em nada de porco estufada." .Ylas, diz mais: "Destes' - ,se tornam borboletas, outros saem ratos. a sua habitao debaixo das mesmas porm se transformam em lagartas, que :\creditaria o jesuta nesta espcie mltipla?

    Discorrendo sobre a grande diversidade c;:;

    Anchieta comenta a etno-nomenclatura .. S:.

    segundo ele, os ndios reconhecem

    espcies, mas raramente os gneros3 : , ....

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  • ~ ., piracma, ou seja, a 'sada dos --'.e:cm pelas ervas em pouca agua para

    no estio, a inundao maior e '.es considerveis, at mo se deixam _;;. igualmente, a 'entrada dos peixes'

    dos ndios -, nos esturios e desovam e estabelecem zonas de

    ,motador de Anchieta [1933a], trataespcies de Mugil. Os ndios encurra:e:.::as e atordoavam-nos com suco de

    uma sapindcea, de acordo Anchieta, 1933a), colhendo-os

    quantidades.

    :eressante o relato do encontro com uma ~'1.::hjeta mata bastonada. Verifica,

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    diversificadas, causavam-lhe uma viva aspecto e odor. Refere que um vespo

    ::5 mata e transporta para as suas tocas, bem assim, pois o vespo depe

    -- .::orpo da aranha e so as larvas dele da aranha (segundo um anotador de

    ~. _ e :~ostura de defesa do tamandu so ~. ~'~::nenor por Anchieta, bem assim os

    hbitos do tapira, ou anta, e da preguia, ou aig (Bradypus tridactylus). O marspio da sarigueia (Didelphis aurita) tambm foi observado por Anchieta, que diz j ter morto muitas, uma delas com sete crias na bolsa marsupial. Quanto s puas do ourio (Coendou villosus), d crdito ideiaj antiga de que, ao tocarem qualquer objecto, se movimentam por si prprias, penetrando-o, sobretudo se for carne, A fora do tatu e resistncia que oferece a ser retirado dos buracos que escava so outras particularidades que Anchieta anota.

    Tambm lhe chamou a ateno o bicho-da-taquara, ou rah. Vive no interior de um bambu, a taquara-do-mato, e tem a grossura de um dedo, sendo muito apreciado pelos ndios, que o comem assado. Alm disso, obtinham com eles uma gordura utilizada para cozinhar e engraxar couros (Buzzi, 1994). Diz Anchieta que se faz um guisado com o bicho-da-taquara "que em nada difere da carne de porco estufada." Mas, diz mais: "Destes insectos uns se tomam borboletas, outros saem ratos, que construem sua habitao debaixo das mesmas taquaras, outros

    porm se transformam em lagartas, que roam as ervas." .-\creditaria o jesuta nesta espcie de heterogonia mltipla?

    Discorrendo sobre a grande diversidade de formigas, Anchieta comenta a etno-nomenclatura braslica, pois, segundo ele, os ndios reconhecem nominalmente as espcies, mas raramente os gneros3 : " ... assim, no h nome generico da formiga, do caranguejo, do rato e de muitos outros animais; das especies, porm, que so quasi infinitas, nenhuma deixa de ter o seu nome

    33

    I

  • proprio ..." Uma dessas fonnigas lhe chamou a ateno: arruivada, cheirando a limo quando triturada e construindo grandes ninhos subterrneos. Os ndios chamamlhe i (Atta sexdens). Anchieta descreve o ciclo dela com imprecises naturais no seu tempo, assinalando a ansiedade com que os ndios aguardam a sada dos grandes enxames de fonnas aladas, que " ... muitas vezes ... formam uma nuvem, no ar." Aps a fecundao, as rainhas procuram no solo lugares adequados fundao de novas colnias e nesta altura que os ndios as colhem em grande quantidade. Assadas em vasilhas de ban'o so um excelente petisco, deleitvel e saudvel na opinio, fundamentada na experincia, de Anchieta. A i paga tambm um pesado tributo a vrias espcies de aves - trs espcies semelhantes a andorinhas, segundo Anchieta -, que lhes devoram o abdomen. Assim, muito poucas formigas aladas escapam, diz o frade-naturalista.

    Atta sexdens, i, ou sava-limo, vive em fonnigueiros subterrneos formados por 'panelas' interligadas. As formigas do gnero Atta cortam plantas (destroem as rvores, segundo Anchieta) e transportam o material vegetal para as colnias, vivendo custa de um fungo, geralmente Pholiota gongyllophora, que cresce sobre aquele material orgnico (Buzzi, 1994). I parece ser um nome mais particularizado para as formas sexuadas e aladas, afinal as que interessavam aos ndios como alimento.

    No se alarga muito sobre as aves o excelente jesuta. Pouco junta s referncias dietticas ou utilitrias j

    34

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    conspcuos.

    informao de 1585. No se ficc_: -_ :J.rta ao padre geral. Vinte cinco ancs_~._,,"'Tbm ao geral da Companhia de ~,Jbre o Brasil conhecido [Anchieta ;:Jltam igualmente referncias aos cc=-:~_. "obre 'carnes' reala que s ento corr.::;_ ::nimais domsticos do Reino, Todavia, os "animais da terra", existe=-::-: c;;:-::mbora, em geral, no se encontre:-- __ ~ambm o pescado abundante, pois ~, so portos de mar. abundante e "-~20me sbre tudo e sbre leite, e \:::::: . :1em vinagre e d-se aos enfennos de JU outras aves." Baleias h muitas e;:"

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    - - __ '. ~ =::-c as a \'es o excelente jesuta. -::-=:-~-~:::s dietticas ou utilitrias j

    mencionadas. No entanto, tambm acerca delas insere algumas curiosas notas. Assim, sobre o guainumbf I Colibri serrirostris), que se alimentaria apenas de orvalho. E um dos "gneros" de guanumbf, segundo se afirmava, gera-se da borboleta. Era a crena do tempo, refere um dos anotadores de Anchieta [1933a]; mas, nem por isso, mais esta referncia deixa de legitimar, por

    ..

    parte de Anchieta, a aceitao da heterogonia como possibilidade. Tambm ter observado a ema (Rhea americana), a que chama avestruz, e a anhma (Anhma comuta), que zurra como um asno e descrita por Anchieta nos seus traos morfolgicos e comportamentais mais conspcuos.

    A informao de 1585. No se ficou Anchieta pela carta ao padre geral. Vinte cinco anos depois enviaria, tambm ao geral da Companhia de Jesus, uma informao sobre o Brasil conhecido [Anchieta 1933b]. Agora, no faltam igualmente referncias aos comeres. Na seco sobre 'carnes' reala que s ento comearam a chegar animais domsticos do Reino, sendo ainda poucos. Todavia, os "animais da terra", existem em abundncia, embora, em geral, no se encontrem para comprar. Tambm o pescado abundante, pois todas as capitanias so portos de mar. abundante e "to bom que se come sbre tudo e sbre leite, e s vezes sem azeite nem vinagre e d-se aos enfermos de febre como galinha ou outras aves." Baleias h muitas e grandes por toda a costa. Da janela do seu cubculo, na Baa, Anchieta via-as no mar "andar saltando". Faziam-se grandes

    35

  • chacinas de peixes-bois na foz dos rios e a sua carne era muito apreciada: "cozinha-se com couves e sabe carne de vaca; se com especiaria, sabe a carneiro e tambem a porco ..." Os peixes-bois podiam atingir 450 kg de peso.

    Havia muitas tartarugas, algumas enormes, "que 20 homens no podiam volver". E capivaras e lontras, bem como mariscos por toda a costa. As ostras eram tantas que havia ilhas cheias das suas valvas. Fazia-se com estas uma cal para os edifcios "to boa como a de pedra."

    Na seco que intitula 'Bichos', Anchieta [1933b] adverte dos perigos que representam no Brasil as serpentes venenosas, jacars e onas. Este clima, diz Anchieta, "parece influir peonha nos animais e serpentes e assim cria muitos imundos, como rates, morcegos, aranhas muito peonhosas." Refere os coats (Nasua spp.), brincalhes que tudo revolvem e fmtam e "so de estima por estas e outras habilidades que tm.". Torna a mencionar a preguia, que parece um co felpudo, como um perdigueiro pOltugus, e muito feia: "a cara parece de mulher velha mal toucada."

    As formigas, inmeras e diversificadas, so a destruio daquela terra: "minam as casas, as igrejas, as camaras ... se as deixam, em uma noite no fica folha nos roados de mandioca e nas parras, laranjas, limes, e hortalias de POltugal ... " Os lavradores tinham que as combater com fogo e gua, pois se assim no fosse, no havia cultura que lhes resistisse4

    36

    Pra de Magalhes Gndava. de 1540 e foi professor e humanist:::. :-:. cmara de D.Sebastio, viveu aI 2ntes de 1561 (Horch, 1994), cJntemporneo de Anchieta. Seguncic :':: -Gndavo viveu na Baa e em Ilhus._ :'cm essas capitanias. Regressado a ---: ._ "m primeiro manuscrito que ~rovncia do Brasil' e dedicou ral;!'L:

  • _\es-bois na foz dos rios e a sua carne ::-~ee;ada: "cozinha-se com couves e sabe

    se com especiaria, sabe a carneiro e ~ :-: .-. ..,. Os peixes-bois podiam atingir 450

    "'''' usa::;, algumas enormes, "que 20 volver". E capivaras e lontras, bem ~ : ~ s toda a costa. As ostras eram tantas

    eheias das suas valvas. Fazia-se com :x~r2 os edifcios "to boa como a de

    _~ _e intitula 'Bichos', Anchieta [1933b] , ___ ;:; __ que representam no Brasil as

    .e:,_osas, jacars e onas. clima, diz ~ :e::e :ntluir peonha nos animais e serpentes

    :~-,,:::os imundos, como rates, morcegos, ~ ... :" ~eonhosas." Refere os coats (Nasua

    que tudo revolvem e fUltam e "so de :S:::3 e outras habilidades que tm.". Torna ._::'~'eguia, que parece um co felpudo,

    portugus, e muito feia: "a cara \elha mal toucada."

    ~::::eras e diversificadas, so a destruio "~::,_am as casas, as igrejas, as camaras ... , e:-::.lma noite no fica folha nos roados

    . ::'5 :J3.1TaS, laranjas, limes, e hortalias radores tinham que as combater se assim no fosse, no havia ~':: s: s-

    Pra de Magalhes Gndavo. Nasceu em Braga cerca 1540 e foi professor e humani sta insi gne. Moo de

    cmara de D.Sebastio, viveu algum tempo no Brasil, antes de 1561 (Horch, 1994), pelo que ter sido a contemporneo de Anchieta. Segundo Nomura (1996a), Gndavo viveu na Baa e em Ilhus, pois descreve muito bem essas capitanias. Regressado a Portugal, escreveu um primeiro manuscrito que ntitulou 'Tratado da Provncia do Brasil' e dedicou ranha-av, D.Catarina. Depois, retocou e aumentou esse texto, intituJando~o agora 'Tratado da Tena do Brasil' e consagrando~o em dedicatria ao Cardeal D.Henrique [Gndavo, 1980]. No ficou ainda satisfeito e aperfeioou o texto, dandolhe o novo ttulo de 'Histria da Provncia de Santa Cruz' e dedicando-o a D.Lionis Pereira, que foi governador de Malaca. Foi este ltimo manuscrito, mais uma vez revisto e aumentado, que Antnio Gonalves, de Lisboa, imprimiu em 1576 [Gndavo, 1958]. O nmero de exemplares impressos ter sido relativamente pequeno, pois em Portugal, nessa poca, no se incentivava a divulgao de publicaes sobre as colnias .

    Quando se compara o que Gndavo [1965] escreveu sobre a fauna em 'Tratado da Provncia do Brasil' (editado pela primeira vez em 1965) com a verso impressa em 1576 ( reeditada em 1958), verifica-se aumento significativo nas suas informaes. Com efeito, em Gndavo [1958] so dedicados quatro captulos (VI a IX) fauna. No captulo 'Dos animaes e bichos venenosos que h nesta provncia', Gndavo [1958] diz no existirem

    37

  • - -

    animais domsticos antes de os pOltugueses a chegarem. Depois, levaram de Cabo Verde cavalos e bois, que, na poca em que Gndavo visitou o Brasil, formavam j notveis contingentes5 "Os outros animaes que na terra se acharam, todos so bravos de natureza, e alguns estranhos nunca vistos em outras partes", escreveu ele. Muitos veados e porcos de diversas espcies " ... monteses como os desta terra ... e outros mais pequenos, que tem o embigo nas costas ... " Estes ltimos so os pecaris6 , actualmente denominados cateto (Tayassu tacaju) e queixada (T.pecari). Mas, Gndavo observou outras espcies: antas (Tapirus terrestris), cotas (Dasyprocta azarae), pacas (Agouti paca), tatus (Dasypus novemcinctus) e coelhos (Sylvilagus brasiliensis). De todos aponta caracteres morfolgicos e comportamentais mais conspCuos e qualidades dietticas. Assim, considera a came dos veados e porcos muito saborosa e to sadia que se dava aos doentes; a da anta com o sabor da de vaca; a do tatu a melhor e mais estimada, sabendo quase como galinha, etc. A paca pelada como o leito e no esfolada porque a pele muito tenra e saborosa. No havia restlies caa (" ... nam h la impedimto de coutadas como nestes Reinos...") e um nico ndio, se bom caador, sustentava a sua casa s com carne do mato.

    H, contudo, outros animais sobre os quais Gndavo se alarga por particulatidades no dietticas. Est neste caso

    _ bo jaauar (Panthera onca), que designa por tigre e de que refere a ferocidade e prejuzos causados caa. Os "ceriges", ou sarigueias (Ddelphis aurita), de que

    38

    descreve a bolsa marsupial e a dispos:,,, seu interior, conjecturando sobre a pali~ morfologia e hbitos da preguia (BrclLi~ ." . e do tamando (Mynnecophaga pormenorizadamente. E ainda os saguis (Leontopithecus e Callithrix). Tambm se ocupou das serpentes. As 5'...:_ .. ::nuy grdes), Eunectes murinus, que engc::.::--:' :mimal da terra por grde que seja". E :~~ \enenosas, umas, Crotalus duriss1l5,

    rabo hu causa que soa quasi como _ outras, peonhentas" ... especialmer:e chamam Gerarcas [Bothrops] ... que se.: ::norder algu pessoa de maravilha iura sam vinte e quatro horas." Nas "lagartos muy grdes ... cujos testiculos c

    almisquere "Referia-se aor:J.C l. .atirostris.

    =--Iavia muitos outros animais venenosos::. _::

    :-:3.0 refere, pois seria histria muito co:::-:~

    ~oderia deixar de os haver " ... pela dispo::,:

    - dos climas que a senhoream '" porque c,~:::- .

    -=:le procedem da mesma terra, se tornerr. ::-

    ~JS podrides das hervas, matos, e

    se com a influencia do Sol ... muitos e m :Je por toda a terra est esparzidos .. ,"

    esta 'criao' influenciada pelo ::;:: \'erificou, Anchieta compartilhava: ani:::espontaneamente gerados da POdlido .:.-:::-' - lo do calor solar.

    l

  • ~ . ~F,~~4!t ,~.ti.. ::~~.'::JS antes de os portugueses a chegarem.

    Cabo Verde cavalos e bois. que, na lr:davo visitou o Brasil, formavam j

    . "Os outros animaes que na tena :~.::.os sao bravos de natureza, e alguns

    - . -.: c: -.. em outras partes", escreveu ele. :: -':. . s e porcos de di versas espcies " ...

    desta tena ... e outros mais pequenos, ~.20 nas costas ... " Estes ltimos so os

    .. :.:::nente denominados cateto (Tayassu ._ .. _~" rT.pecari). Mas, Gndavo observou

    _ ~. _S' 2.ntas (Tapints terrestris), cotas (Dasy(Agouti paca), tatus (Dasypus

    e coelhos (Sylvilagus brasliensis). De .. ~ .:~.:.::teres morfolgicos e comportamentais ~ : .. =.' e qualidades dietticas. -' - . a carne dos veados e porcos muito

    que se dava aos doentes; a da anta . '::.: e vaca; a do tatu a melhor e mais

    quase como galinha, etc. A paca e no esfolada porque a pele

    -orosa. No havia restries caa (" ... ~ ... -: dimto de coutadas como nestes

    :: ..:-.~nico ndio, se bom caador, sustentava carne do mato.

    animais sobre os quais Gndavo se .. __ .::.~idades no dietticas. Est neste caso

    .., que designa por tigre e de e prejuzos causados caa. Os

    .!;.:eias (Didelphs aurita), de que

    -

    descreve a bolsa marsupial e a disposio das crias no seu interior, conjecturando sobre a pario do animal. A morfologia e hbitos da preguia (Bradypus torquatus) e do tamando (Mynnecophaga tridactyla), que refere porrnenorizadamente. E ainda os bogios (Alouatta) e saguis (Leontopithecus e Callithrix). Tambm se ocupou das serpentes. As sucuris ("cobras muy grdes), Eunectes murinus, que engolem "qualquer animal da terra por grde que seja". E as serpentes venenosas, umas, Crotalus durissus, que "tem na pta do rabo hu cousa que soa quasi como cascavel ... ", outras, peonhentas " ... especialmente hus a que chamam Gerarcas [Bothrops] ... que se acert de morder algu pessoa de maravilha escapa, e o mais que dura sam vinte e quatro horas." Nas lagoas e rios havia "lagartos muy grdes ... cujos testiculos cheiro melhor que almisquere "Referia-se ao jacar, Caiman latirostris .

    Havia muitos outros animais venenosos que Gndavo no refere, pois seria histria muito comprida. E no poderia deixar de os haver " ... pela disposiam da terra e dos climas que a senhoream ... porque como os ventos que procedem da mesma terra, se tomem inficionados das podrides das hervas, matos, e alagadios, geramse com a influencia do Sol ... muitos e mui peonhtos, que por toda a terra est esparzidos ... " Crena da poca esta 'criao' influenciada pelo clima, que, como se verificou, Anchieta compartilhava: animais venenosos espontaneamente gerados da podrido com a participao do calor solar.

    39

  • Pra de Magalhes encontrou grande vatiedade nas finas e alegres cores das aves do Brasil. Porm, apenas trata das "que na terra sam mais estimadas dos Portugueses e ndios ... " Entre as rapaces havia guias, aores e gavies. As guias (na realidade, a harpia, Harpia harpyja) eram capturadas pequenas, ainda no ninho, e criadas em cativeiro pelos ndios, que se adornavam com as suas penas. "Os Aores sam como os de c... " escreveu Gndavo [1958], assinalando que dificilmente lhes escapa ave ou outra presa que persigam1, e os gavies (Accipiter striatus) tambm destros e atrevidos.

    So diversas as espcies de aves que "se comem e de que os moradores se aproveitam". Os macucagos (Tinarnus solitarius), pretos e maiores que galinhas, muito saborosos e estimados. Os jacs (Penelope obscura), de pescoo vermelho e crculo branco na cabea, tambm muito gostosos. "H tamb na terra muitas perdizes, pombas, e rolas como as deste Reino, e muitos patos e ads bravas pelas lagoas e rios desta costa..." bom de ver que, neste caso, Gndavo aplicou nomes de espcies portuguesas a brasileiras superficialmente semelhantes. Com efeito, no Brasil chama-se perdiz a Rhynchotus rufescens, pomba a Colwnba speciosa, rola a Columbina talpacoti, pato-da-mato a Cairina moschata e aden a Dendrocygna viduata.

    As cores e capacidades imitativas dos papagaios fascinaram Gndavo. Os anapurs (Amazona aestiva), maiores que aores, de cores muito variadas " ... accomodanse mais conversaam da gte que

    40

    -

    qualquer outra ave , .." Por isso e pela s-;::. ~_ beleza valem muito, ", .. entre os lndios ,~_ escravos .. ," Os caninds (Ara araralmaL f0l1110S0S e estimados, so azuis e exibem amarelas nas asas. As arras (Ara macao '.. c_ semeadas de algumas penas amarelas, con~ . cauda muito longa. Os papagaios verdade;'cs pequenos, do tamanho de pombas, mas 05 mais facilmente e melhor. Verdes claros, a cabea amarela e as espduas vermelhas. ~~ (Amazona amazonica), verdes escuras e azul, falam dificilmente. H tambm uns I~e~pouco maiores que pardais, os tuyns rostris), que tm penas verdes e finas, caudCl :-:~ e bico e patas brancas. E ainda os ma:'.:: - _ ~ maracana), do tamanho de melros. bico muito grosso, verdes e que "falam co:-:~ - : dos outros."

    Outras aves notveis so os goars (ElIdoc;; marinhas e do tamanho de gaivotas; mvenis, so pardas aos dois anos, pret25 .::_ .::armesim do mais puro finalmente9 . As americana) tm "mais officio de animaes ~e:-:-e tanta carne como um carneiro grande, ~-\5 -_~ enormes e, por isso, a altura do animal.::: espdua a de um homem. Pescoo imensa::-.':::-:: e cabea pequena, como a de um pato. i: pretas, exibem penas muito bonitas que 5:::_. -::hapus. Pascem ervas e no voam: con::-Jbertas.

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    qualquer outra ave ... " Por isso e pela sua raridade e beleza valem muito, " ... entre os lndios dous ou tres escravos ..." Os caninds (Ara ararauna), tambm muito

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    as rapaces havia guias, aores e (na realidade, a harpia, Harpia ~ :_::':~lrndas pequenas, ainda no ninho, e

    -,:', ;;::ro pelos ndios, que se adornavam __ c ~=':'::S, "OS Aores sam como os de c.,,"

    [1958], assinalando que dificil_ ': :,::- ~l a \'e ou outra presa que persigam 7, e

    striatus) tambm destros e

    , _.~ espcies de aves que "se comem e de --, ,:::':'es se aproveitam", Os macucagos

    ), pretos e maiores que galinhas, . ~':~ e estimados, Os jacs (Penelope

    coo vermelho e crculo branco na gostosos. "H tamb na terra

    - ::-.::-. e rolas como as deste Reino, bravas pelas lagoas e rios desta

    -_. '::e \er que, neste caso, Gndavo aplicou ~;-= __ e5 pOl1uguesas a brasileiras superficial

    Com efeito, no Brasil chama-se perdiz -:,'C'5cens. pomba a Columba speciosa, -:,1 ralpacoti, pato-do-mato a Cairina

    ___ ::: a Dendrocygna viduata.

    ;; _ "':1.::idades imitativas dos papagaios - _:1\ Os anapurs (Amazona aestiva),

    "ores, de cores muito variadas con versaam da gte que

    formosos e estimados, so azuis e exibem algumas penas amarelas nas asas. As arras (Ara macao), vermelhas, semeadas de algumas penas amarelas, com asas azis e cauda muito longa. Os papagaios verdadeiros8 so mais pequenos, do tamanho de pombas, mas os que falam mais facilmente e melhor. Verdes claros, tm quase toda a cabea amarela e as espduas vermelhas. As co ricas (Amazona amazonica), verdes escuras e de cabea azul, falam dificilmente. H tambm uns pequeninos, pouco maiores que pardais, os tuyns (FOlpUS crassirostris), que tm penas verdes e finas, cauda muito longa e bico e patas brancas. E ainda os marcanaos (Ara maracana), do tamanho de melros, cabea grande e bico muito grosso, verdes e que "falam como cada um dos outros."

    Outras aves notveis so os goars (Eudocmus ruber), marinhas e do tamanho de gaivotas; brancas quando juvenis, so pardas aos dois anos, pretas depois e carmesim do mais puro finalmente9 As hemas ( Rhea americana) tm "mais officio de animaes terrestres" e tanta carne como um carneiro grande, As patas so enormes e, por isso, a altura do animal ao nvel da espdua a de um homem. Pescoo imensamente longo e cabea pequena, como a de um pato. Pardas, brancas e pretas, exibem penas muito bonitas que se usam em chapus. Pascem ervas e no voam; correm de asas abertas.

    41

  • ~ ....._---

    Os animais marinhos ocupam dois dos captulos que Gndavo dedicou fauna braslica. O peixe era abundantssimo, diversificado, saboroso e saudvel. Para comear, Gndavo trata detidamente o peixe-boi (Trichechus manatus), tanto nos seus hbitos como nas qualidades dietticas1 o . O peixe-boi , de facto, um sirnio, grupo que os zologos renascentistas, dadas as adaptaes vida aqutica exibidas por estes mamferos, incluiam nos peixes.

    Entre os verdadeiros peixes, Gndavo reala trs espciesl1 Os camboropins (Tarpon atlanticus), grandes como atuns, de escamas duras e maiores que nos outros peixes, de paladar excelente e muito saudveis. Pescavam-nos com arpo e colhendo-os por trs para que o arpo se inselisse entre as escamas e no fosse repudiado pela dura superfcie delas. Os tamoats (Calichthys callichthys), de gua doce e do tamanho de sardinhas " ... cubertos de hus cchas ... c as quaes andam armados da maneira dos Tatus ... e sam muito saborosos ..." Os mayacs (Lactophrys), pequenos e semelhantes a xarrocos, "... muy peonhtos ... especialmente a pele ... que se hu pessoa gostar hum s bocado della, logo naquella mesma hora dara fim a sua vida ..." Logo que saem da gua "incho de maneira que parece hu barriga cha de vto ... "

    Tambm se ocupa das baleias e do mbar "que diz que procede dellas." Arribavam muitas costal 2, bem como grande quantidade de mbar, o qual enriquecera alguns moradores. Sobre o mbar, que produzido no intestino do cachalote (Physeter macrocephalus) , Gndavo

    42

    expande e discute as curiosas hipteses constitudo, diz Gndavo, pelas conforme acreditavam os ndios: esperma delas; ou ainda, um licor jo mar e que, bebido em excesso pe:_~ :cgurgitado. Gndavo sabia, por:-. encontrado mbar no intestino das --qualquer semelhana entre ele e as fez:: ~ :enninal. Por isso, no podia ser nem ?ois esperma "he aquillo a que cham:'. :- :: ?or este mar grde quantidade ... " H:: qualidades: um pardo, a que chamam O pardo, muito estimado, atingia menos odorfero, vale muito menos.

    ::\0 captulo seguinte, Gndavo des..:::':;' marinho que se matou na Capitania " ano de 1564, a hipupira, ou demnic-:. \elmente uma otria (Otaria plzalus australis). Gndavo v_ .. :aanha de Baltesar Ferreira, que lutcL: e o matou. Embora aparecesse rararr.e:-: j era conhecida naquelas paragers. " captulo, Gndavo presta uma mistrios do mar e ao acerto da incre.:::..:. no revelado: "E assi tambem de\'e a', ::~' monstros de diversos pareceres, largo e espantoso mar se escond. :::: estranheza e adlniraam: e tudo se po:'e .:~: que pare: porque os segredos da me:":: revelados todos ao homem, pera que ~ ':

  • -- - ~ ~Jrinhos ocupam dois dos captulos que - ~ :ec:cOU fauna braslica. O peixe era

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    _:_:-'. e escamas duras e maiores que nos outros ~~ ,::,~iladar excelente e muito saudveis.

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    - ::dlichthys), de gua doce e do tamanho - - - -~ ..... cubertos de hus cchas ... c as quaes _:-:-_.:.C:JS da maneira dos Tatus ... e sam muito

    .. Os mayacs (Lactophrys), pequenos e - - -:~ ~ J xarrocos, "... muy peonhtos ... - :-:e:-:e a pele ... que se hu pessoa gostar hum _.:.: ~eJ:l. logo naquella mesma hora dara fim a

    .. =-'2g0 que saem da gua "incho de maneira ~ ~ ~ e- .:} barriga cha de vto ... " -- ~~ =:-..:pa das baleias e do mbar "que diz que : .:.e:,:,~ .. " _-\rribavam muitas costal 2 , bem como

    ~ .__ :-::.:.de de mbar, o qual enriquecera alguns -:; ~ S -=-=-e o mbar, que produzido no intestino - .. -:c P seter macrocephalus), Gndavo

    expande e discute as curiosas hipteses do tempo. Seria constitudo, diz Gndavo, pelas fezes das baleias, conforme acreditavam os ndios; para outros, seria o esperma delas; ou ainda, um licor que nasce no fundo do mar e que, bebido em excesso pelas baleias, seria regurgitado. Gndavo sabia, porm, j ter sido encontrado mbar no intestino das baleias e no haver qualquer semelhana entre ele e as fezes do intestino terminal. Por isso, no podia ser nem fezes, nem esperma, pois esperma "he aquillo a que cham balso, de que h por este mar grde quantidade ... " H mbar de duas qualidades: um pardo, a que chamam gris, outro preto. O pardo, muito estimado, atingia elevado preo. O preto, menos odorfero, vale muito menos.

    No captulo seguinte, Gndavo descreve um monstro marinho que se matou na Capitania de So Vicente no ano de 1564, a hipupira, ou demnio-d'gua, provavelmente uma otria (Otaria flavescens ou Arctocephalus australis). Gndavo relata com pormenor a faanha de Baltesar Ferreira, que lutou com o monstro e o matou. Embora aparecesse raramente, a hipupira j era conhecida naquelas paragens. A terminar o captulo, Gndavo presta uma curiosa homenagem aos mistrios do mar e ao acerto da incredulidade perante o no revelado: " E assi tambem deve aver outros muitos 11;r-''''monstros de di versos pareceres, que no abismo desse

    ~ . :~- ~

    ~largo e espantoso mar se escond, de nam menos ;-t estranheza e admiraam: e tudo se pode crer, por difficil que pare: porque os segredos da natureza nam foram revelados todos ao homem, pera que com razam possa

    43

  • negar, e ter por impossi vel as cousas que no vio, nem de que nunqua teve noticia."

    Jean de Lry, Estudante de teologia de nacionalidade francesa, Lry vivia em Genebra quando Calvino aceitou, em 1555, enviar para a Frana antrctica um contingente de protestantes, a solicitao de Villegagnon (PerroneMoiss, 1994). Lry passou dez meses no Brasil, anotando o que observava, sobretudo o que se relaciona com a vida dos ndios. No entanto, as suas exploraes limitaram-se ilha ocupada pelos franceses na Baa de Guanabara e a algumas lguas em terra firme.

    De volta Europa, iniciou a redaco do seu li vro em 1563. A primeira edio foi publicada em 1578. Com sucessivas correces e adies, publicaram-se, at 1611, mais quatro edies. Considerada uma grande obra da literatura de observao, etnogrfica e geogrfica do sculo XVI, a 'Viagem' cumpriu um papel que o governo de Lisboa, tentando proteger-se dos estrangeiros, no facilitava aos autores portugueses: a divulgao das terras sob o seu domnio. Com efeito, raramente as edies portuguesas excediam os 300 exemplares (Morisot, 1975). As observaes sobre animais do Brasil tambm so contempladas no livro de Lry (1580)1 3. Distribuem-se por trs captulos de ttulos sugestivos: 'Animais, caa, grandes lagartos, serpentes e outros bichos monstruosos do Brasil' (captulo X); 'Diversidade das aves da Amrica, todas diferentes das nossas: grandes morcegos, abelhas, moscas, mosquitos e outros parasitas estranhos

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    desse pas' (captulo XI); 'Sobre algc-~ ~: comuns entre os indgenas da Amlico. e ~ ,_ de os pescarem' (captulo XII). A iniciar o captulo X, Lry ad"er:e quadrpede do Brasil semelhante aos e.::-:::os domsticos eram muito raros. Ka E;-l~ __ ; designao geral dos animais bravios soo.-, :_ ._ =so. Decide comear as descries peles -=- __ = para comer'. Assim, o tapiroussoll. oc -.C--. terrestris), com pelo avermelhado e longl~. ::- _ \'aca, meio asno, sendo embora diferente ce _ destes animais. A pele tambm valios:: e :-:. fabricando-se com ela escudos para defes.:. " de regresso a Frana, conta Lry, transpor:.:.- _' "ivos e objectos da cultura local. Por:-:~. : "i agem demorou excessivamente, a fOIT.e . . ' :, era tanta que tiveram de comer os an::-:~ __ ' escudos de pele de anta, depois de grel::--_.:.::: ' da anta como a de vaca. Os indgen.:.s ;: sobre um aparato de toros de madeira. :, -=- .. :: uoucan. Tambm o usam para grelha:' ~ e humana.

    Carne de boa qualidade tm tambm L ~ i Ozotoceros bezoarticus, Mazama 5> Blastoceros dichotomus), semelhan::es _ coras, mas de pelo longo como as cab:- :,s, ,Tayassu tacaju), que o javali deste r~:' :: dorso um poro pelo qual respira e sopra (c:~' : ~em na cabea, diz Lry); o agouti (Da:>__ .:' .. que como um lei to de um ms de :::.:.:::: gostoso; o tapiti (Sylvilagus brasilie71sis , ::' _:::

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  • as causas que no via, nem

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    e adies, publicaram-se, at ." ..:_::'::' edies. Considerada uma grande

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    S,)t. 1975). , , :: s, Jre animais do Brasil tambm so

    Lry (1580)13. Distribuem-se ~

  • a lebre no gosto, mas mais avermelhado que ela; o pag, ou pague (Agouti paca), do tamanho de um co e sabor a vitela; o sarigoy, semelhante a um toiro, de carne tenra e boa, porm s aps lhe terem sido retirados os rins; quando no, cheira mal; o tatou (Cabassous lugubris, Priodontes giganteus), de carne branca e muito saborosa!". Os ndios fabricavam cofres com as placas dos tatus, os quais designavam por caramemo.

    Carne comestvel encontravam-na os ndios tambm nuns lagartos cinzentos, os tOUOllS (Tupinambis teguixin); em grandes sapos, que grelhavam inteiros; em serpentes, que, tanto quanto Lry sabia, tm um gosto adocicado.

    Lry registou muitas outras curiosidades sobre os mamferos. Uma, particularmente interessante, sobre a preguia, hay, que nunca ningum tinha visto comer e, por isso, se acreditava viver do vento.

    As aves e outros animais voadores so o tema do captulo XL As comestveis eram, globalmente, designadas por oura. Os portugueses haviam introduzido a galinha, arignan-miri, cujos ovos, arignan-ropia, os Tupi no comiam por os julgarem venenosos. Nestas condies, a galinha-domstica multiplicou-se e, mais ainda, por elas tambm no serem aproveitadas. que a marcha pesada destas aves fazia-os crer que, se ingerissem a sua carne, ficariam impedidos de correr ao serem atacados por inimigos. Por idnticas razes, tambm no comiam peixes maus nadadores, como as raias.

    46

    ~:\celente carne a dos iacous (Pe71elop~ _I curinga), que so como faises; a do /1:,_ :. "ull7enbachii), grande e colorido como (\ ~.::. 'wcacoa (Tinamus solitanus) e do Crypturellus obsoletus), parecidos com ;randes como gansos e com o gosto dos _-\cerca de duas espcies de papagaios. L:>: : p.150): " ...quanto plumagem, no se acre':::::. :odo o universo se possam encontrar ~_ :naravilhosa beleza ... no para glorificar a n3.C::'::_ =-azem os profanos, mas sim o excelente e Cliador delas."

    papagaios, aiourous, de que reconhece espcies, atraem-no pela sua capacidade de -:-:-::_ propsito, cita Plnio e o 'funeral do con-o w "e ~ e Thevet, para mais uma vez o contradize::, ~ : algum diz na sua Cosmografia, [que] ninhos pendurados em ramos de rvores p.:.~_ serpentes no lhes comam os ovos, direi que vi o contrrio no Brasil: fazem todos L'S buracos de rvores, redondos e duros _....

    o tOllcan (Ramphastos dicolorus), de mais longo que todo o corpo, tem plumas - ::'. pelos ndios. Tambm o panou (Pyroderos quiampian (Ramphocoelus bresilius) e o 5 (Ramphodon naevius) so aves de plumagem apreciada.

    As abelhas, que no so semelhantes s e-.:::-.::-:-e parecem pequenas moscas escuras, depos: :.:.--:(yra) e a cera (vetic) em buracos de nores =

    l

  • mas mais avermelhado que ela; o pag, Excelente carne a dos iacous (Penelope spp., Pilipe paca), do tamanho de um co e jacutinga), que so como faises; a do nwutou (CrCL,(

    semelhante a um toiro, de porm s aps lhe terem sido reti

    , ::-::' s: quando no, cheira mal; o tatou ::?ubris, Priodontes giganteus), de carne saborosa! 4. Os ndios fabricavam cofres

    tatus, os quais designavam por

    encontravam-na os ndios tambm cinzentos, os touous (Tupinambis

    grandes sapos, que grelhavam inteiros; tanto quanto Lry sabia, tm um

    muitas outras curiosidades sobre os ,na, particularmente interessante, sobre a

    nunca ningum tinha visto comer e, viver do vento.

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    . , .. galinha-domstica multiplicou-se e, mais 2..5 tambm no serem aproveitadas. que

    ~::sada destas aves fazia-os crer que, se _ sua carne, ficariam impedidos de correr ao . .:.':os por inimigos. Por idnticas razes,

    - .. :: .:omiam peixes maus nadadores, como as

    blumenbachii), grande e colorido como o pavo; a do mocacoila (Tinamus solitarius) e do ynambou-ouassou (Crypturellus obsoletus), parecidos com perdizes, mas grandes como gansos e com o gosto dos precedentes. Acerca de duas espcies de papagaios, Lry escreve (p.l50): " ...quanto plumagem, no se acredita que em todo o universo se possam encontrar aves de mais maravilhosa beleza ... no para glOlificar a natureza, como fazem os profanos, mas sim o excelente e admirvel Criador delas."

    Os papagaios, aiourous, de que reconhece trs ou quatro espcies, atraem-no pela sua capacidade de imitao. A propsito, cita Plnio e o 'funeral do corvo que palrava' e Thevet, para mais uma vez o contradizer (p.154): " ... algum diz na sua Cosmografia, [que] fazem os seus ninhos pendurados em ramos de rvores para que as serpentes no lhes comam os ovos, direi de passagem que vi o contrrio no Brasil: todos os ninhos em buracos de rvores, redondos e duros ... "

    O toucan (Ramphastos dicolorus), de bico grosso e mais longo que todo o corpo, tem plumas muito estimadas pelos ndios. Tambm o panou (Pyroderos scutatus), o quiampian (Ramphocoelus bresilius) e o gonambuch (Ramphodon naevius) so aves de grande beleza e plumagem apreciada.

    As abelhas, que no so semelhantes s europeias, pois parecem pequenas moscas escuras, depositam o mel (yra) e a cera (yetic) em buracos de rvores. Os ndios

    47

  • sabem colh-los e separ-los. O mel, comem-no; com a cera fazem rolos grossos como braos com os quais vedam os bas de madeira onde conservam as plumagens. Se assim no fizessem, as plumas seriam rodas por insectos que tudo destruem. Os escorpies (espcie indeterminada) so pequenos, mas a sua picada dolorosa e pode ser mortaL Lry teve experincia prpria, ao ser picado no polegar, que imediatamente inchou. Ento, o apoticrio da expedio, que tinha escorpies mortos e conservados em azeite, aplicou-lhe um sobre o ferimento, impedindo assim que o veneno se espalhasse pelo corpo. A despeito das dores que o molestaram durante vinte e quatro horas, Lry escapou com vida a este acidente. Os indgenas actuam da mesma maneira: quando so picados, matam o escorpio e esmagam-no sobre a parte ferida.

    Pira o nome que os indgenas do a todos os peixes. Duas espcies, kurema (Mugil liza) e parati (M. curema), so excelentes para comer, tanto cozidas como assadas. H outros peixes muito bons como, por exemplo, o camouroupouy-ouassou (Tarpon atlanticus) e o acarapep (Cichlaurusfacetus). O plimeiro grande (ouassou, em tupi, quer dizer grande ou gordo, declara Lry). Outros, como o acara-bouten (Lutjanus vivanus) e o pira-ypochi (Synbranchus lnarnwratus), no so agradveis para comer.

    Nas guas doces h grande diversidade de peixes de pequenas e mdias dimenses, colectivamente designados pelo vernculo tupi pira-miri (nlri significa pequeno). Tambm os h maiores e de boa carne, como por

    48

    ::\cmplo o tamoa-ata (Calichthys

    ':: cabea monstruosa, o pana-pana (Sph:"

    _ry j vira outro peixe, marinho e monstruQ~,='. _-.'

    Disforme, sarapintado e do tamanho de ..:::-' ~'ocinho enorme e serridentado, de tal 'ora de gua, fazia perigar as pernas das "

    ~s seus movimentos; carne durssima, a ::-oder comer-se. Nomura (1966a) identifica-= _. ::-eXe-serra (Pristis sp.).

    ~-=-el71o Cardim. Ingressou na Companhia . 556. No Colgio de vora adquiriu uma ::-Iumanidades. Partiu para o Brasil em 1583 co::-:

    do padre visitador Cristvo de Gou\e:.:c e sse ano e 1590 visi tou todas as capi tan::::.~. _ ?emambuco a So Vicente, tendo contactado: =:-:'

    Anchieta. Escreveu vrios tratados sobre ::esignadamente o que aqui mais interessa,

    e terra do Brasil e de algumas cousas no[_ se acham na teITa como no mar'. Segundo '\:

    ~ 996a), este tratado ter sido escIito em 1" _, ~:..:blicado em portugus em 1885. Ao _;.lrcUm conhecia os escritos de Plnio, Isidoro ce 5_ Sicolau Monardes e vrios navegadores

    -\zevedo, 1997). 1598 foi enviado a Roma como proc:.:::_..::

    ,rovncia do Brasil e a permaneceu at 1601. .":'." :: Lisboa foi feito prisioneiro por corsrios :::= ~'icando retido em Inglaterra at 1603. Dura:-.:e :: -. em Londres, confiscaram-lhe os manuscritos. q-..:e S ?urchas fez traduzir e publicar em 1625

  • _:-_-.os e separ-los. Ornei, comem-no; com grossos como braos com os quais

    . ' - .... _5 de madeira onde conservam as plumagens. , ~- - ,fizessem, as plumas seriam rodas por

    .~ ,,,rir. destruem. Os escorpies (espeie i so pequenos, mas a sua picada

    ser mortal. Lry teve experincia picado no polegar, que imediatamente :~,o. o apoticrio da expedio, que tinha

    - .::~ :~:0:1:os e conservados em azeite, aplicou-lhe =':::l~mento, impedindo assim que o veneno se

    'e COlpO. A despeito das dores que o .. -..:' ~:'ante vinte e quatro horas, Lry escapou

    ,. es::e acidente. Os indgenas actuam da mesma so picados, matam o escorpio e

    soare a parte ferida.

    : - :-~e que os indgenas do a todos os peixes. ~::es. kllrema (Mugil liza) e parati (M. ':: :::\celentes para comer, tanto cozidas como

    outros peixes muito bons como, por : ,[ 11 1OlirGUpouy-ouassou (Tmpon atlanticus)

    Cichlaurusfacetus). O primeiro grande , quer dizer grande ou gordo, declara

    s. como o acara-bouten (Lutjanus - ":'ra-:.pochi (Synbranchus mannoratus),

    \elS para comer.

    ::::::s h grande diversidade de peixes de as dimenses, colectivamente designados

    pira-miri (miri significa pequeno). :naiores e de boa came, como por

    exemplo o tamoa-ata (Calichthys callichthys). E um de cabea monstruosa, o pana-pana (Sphyrna tibura) . Lry j vira outro peixe, marinho e monstruoso, em Cabo Frio. Disfolme, sarapintado e do tamanho de um vitelo; focinho enorme e serridentado, de tal forma que, mesmo fora de gua, fazia perigar as pernas das pessoas com os seus movimentos; carne durssima, a ponto de no poder comer-se. Nomura (l966a) identifica-o com um peixe-seITa (Pristis sp.).

    Ferno Cardim. Ingressou na Companhia de Jesus em 1556. No Colgio de vora adquiu uma fOlmao em Humanidades. Partiu para o Brasil em 1583 como secretrio do padre visitador Cristvo de Gouveia. Entre esse ano e 1590 visitou todas as capitanias, desde Pernambuco a So Vicente, tendo contactado com Jos de Anchieta. Escreveu vrios tratados sobre o Brasil, designadamente o que aqui mais interessa, intitulado 'Do clima e teITa do Brasil e de algumas cousas notveis que se acham na terra como no mar'. Segundo Nomura (1996a), este tratado ter sido escrito em 1584 e s foi publicado em portugus em 1885. Ao que parece, Cardim conhecia os escritos de Plnio, Isidoro de Sevilha, Nicolau Monardes e vrios navegadores portugueses (Azevedo, 1997) . Em 1598 foi enviado a Roma como procurador da provncia do Brasil e a permaneceu at 1601. Ao voltar a Lisboa foi feito prisioneiro por corsrios ingleses, ficando retido em InglatelTa at 1603. Durante a priso, em Londres, confiscaram-lhe os manusclitos, que Samuel I

    Purchas fez traduzir e publicar em 1625 sob o ttulo

    49

  • A treatise ofBrasil written by a Portugal which had long lived there. Esta obra constituda pelo manuscrito j atrs referido e por um outro intitulado 'Do princpio e origem dos ndios do Brasil e de seus costumes, adorao e cerimnias'. Porm, a autoria do tratado de Purchas foi atribuda, por desconhecimento, a outro indivduo. A partir de 1604, Ferno Cardim viveu o resto da sua vida no Brasil, de que foi provincial entre 1604 e 1609 (Azevedo, 1997). Da leitura do manuscrito de Cardim fica a ideia de que complementou observaes prprias, de resto efectuadas sobre assinalvel nmero de espcies (cerca de 150), com descries e comentrios escritos por Jos de Anchieta. No que se segue, apresentar-se-o, de forma resumida, excertos de Cardim [1997] que sugerem urna e outra situao. De facto, durante a sua longa estadia em Roma ou pelo contacto directo com Anchieta, ou em ambas as ocasies, Cardim ter tido a oportunidade de conhecer os relatos de Anchieta.

    Cardim [1997, p.78] verificou que a preguia (Bradypus tridactylus) se alimenta "de certas folhas de figueiras, e por isso no podem ir a Portugal, porque corno lhes faltam, morrem logo." Na realidade, a rvore de cujas folhas se alimenta , segundo Azevedo (1997), a imbaba (Cercopia sp.). Recorda-se que haviam contado a Jean de Lry que a preguia no se alimenta, vive do vento.

    Tal como, anterionnente, Anchieta e Gndavo escreveram, tambm Cardim considerava a aco do clima essencial nas produes da natureza. Assim, a propsito dos animais venenosos, diz ele (p.84): "Parece que este clima

    50

    -

    --":1 peonha, assim pelas infinitas cobras ~;:.,'s muitos Alacrs, aranhas, e outros animaIS -:-_:

    ,:.s lagartixas so tantas que cobrem as pc.:,;: : _~2S, e agulheiros delas." De facto, nenhum ':~:'. -,:.:Jralistas pioneiros' reconheceu tantas

    ;;~entes como Cardim: dezassete espcies. :- . duas de bodeos (gibias), oito de

    sete de colubrdeos, das quais trs indete=-=-:.:::-_ \"omura, 1996a). Porm, no s nos animais venenosos ou Te:'e_

    ~ue a aco do clima se manifesta, pois tamb::: =..... parece influir formosuras nos pssaros, e ~oda a terra cheia de bosques, e arvoredos. 255 ~ de formosssimos pssaros de todo gnero e ~ _-\cerca do guainumbig, um beija-flor (troqui~de= qual Nomura apresenta trs hipteses de

    jiz Cardim (p. 88) que " ... tm dois princpios _= gerao; uns se geram de ovos corno outros outros de borboletas, e cousa para se ':)orboleta comear-se a converter neste ?orque juntamente borboleta e pssaro e 2onvertendo at ficar neste formosssimo 20usa maravilhosa, e ignota aos filsofos pois U:::1 .. sem corrupo se converte noutro." Tambr. ::.: aproxima de Anchieta, acreditando - e cc-entusiasmo -, numa forma de heterogonia.

    :\1uito interessantes so as consideraes de acerca do peixe-boi (Trichechus l1tanatlls). na seco intitulada 'Dos peixes que h na Aprecia gastronomicamente a sua carne Cp. l ::

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    facto, durante a sua longa estadia ,::' .:on:acto directo com Anchieta, ou

    Cardim ter tido a oportunidade -e:3.:os de Anchieta.

    -:" - Sc \'erificou que a preguia (Bradypus :';; _.: :ner.ta "de certas folhas de figueiras, e ~.: .:'::::,:" II a Portugal, porque como lhes faltam,

    .:.: ::-ealidade, a rvore de cujas folhas se :: ;":':1 Azevedo (1997), a imbaba

    ~orda-se que haviam contado a Jean no se alimenta, vive do vento.

    . :;;:- .~.eme, Anchieta e Gndavo escreveram, ~:::-:5derava a aco do clima essencial

    :atureza. Assim, a propsito dos ele (p.84): "Parece que este clima

    influi peonha, assim pelas infinitas cobras que h, como pelos muitos Alacrs, aranhas, e outros animais imundos, e as lagartixas so tantas que cobrem as paredes das casas, e agulheiros delas." De facto, nenhum outro dos 'naturalistas pioneiros' reconheceu tantas espcies de serpentes como Cardim: dezassete espcies, entre as quais duas de bodeos (gibias), oito de vperdeos e sete de colublideos, das quais trs indeterminadas (Nomura, 1996a). Porm, no s nos animais venenosos ou repelentes que a aco do clima se manifesta, pois tambm (p. 84) "... parece influir formosuras nos pssaros, e assim como toda a teITa cheia de bosques, e arvoredos, assim o de formosssimos pssaros de todo gnero de cores."

    Acerca do guainumbig, um beija-flor (troquildeo) para o qual Nomura apresenta trs hipteses de identificao, diz Cardim (p. 88) que " ... tm dois princpios de sua gerao; uns se geram de ovos como outros pssaros, outros de borboletas, e cousa para se ver" uma borboleta comear-se a converter neste passarinho, porque juntamente borboleta e pssaro e assim se vai :onvertendo at ficar neste formosssimo passarinho; cousa maravilhosa, e ignota aos filsofos pois um vivente sem COITupo se converte noutro." Tambm aqui se aproxima de Anchieta, acreditando - e com que entusiasmo -, numa forma de heterogonia.

    :'vluito interessantes so as consideraes de Cardim acerca do peixe-boi (Trichechus manatus), que inclui na seco intitulada 'Dos peixes que h na gua salgada' . Aprecia gastronomicamente a sua carne (p. 130): " ... e

    51

  • no gosto se se coze com couves, ou outras ervas, sabe vaca, e concel1ada com adubos sabe a carneiro, e assada parece no cheiro, a gordura de porco, e tambm tem toucinho." Por isto se verifica que o seu paladar no diferia muito do de Anchieta, no obstante explicitao em termos diferentes. Mas, poderia ser consumido em dias de abstinncia preocupao maior de todos os frades -, apesar de se lhe chamar peixe? Cardim no sabia bem, pois (p. 130) "j houve alguns escrpulos por se comer em dias de peixe; a carne toda de febras, como a de vaca ... "

    Cardim descreve bem o peixe-boi do litoral brasileiro (Trichechus manatus), diagnosticando-o, inclusi vamente

    porventura, sem o saber -, do peixe-boi do Amazonas (T inunguis). Com efeito, diz ele (p. 130): " ... tem dois braos de comprimento de um cvado com suas mos redondas como ps, e nelas tem cinco dedos pegados uns aos outros, e cada um tem sua unha como humana ... " [o itlico meu].

    Tambm refere os benefcios medicinais e dietticos do peixe-boi. Assim, considerando as 'pedras' que o peixeboi tem na cabea, sobre os olhos possivelmente os ossos timpnico e peritico, que se separam muito facilmente dos outros (Almaa, 1998) -, refere que (p. 130) " ... feita em p e bebida em vinho, ou gua, faz deitar a pedra, como aconteceu que dando-a a uma pessoa ... antes de urna hora botou uma pedra como urna amndoa, e ficou s, estando dantes para mOlTer." A expulso de clculos renais por aco das 'pedras' do peixe-boi j havia sido referida por Anchieta, corno

    52

    tambm a saudvel qualidade da sua ca::caracteriza em termos semelhantes - .

    peixe sadio c nestas partes que 5;: = leite, e sobre carne, e toda uma quat'es:-:~~ ::

    nrio sem azeite nem vinagre, e no ca~s:c .

    outras enfermidades corno na Europa. ~:: ~

    enfermos de cama, ainda que tenham, ou e,=:,

    ~o cabo."

    :\'0 litoral, viam-se muitas baleias, por \ez;:s ~

    :i:1quentajuntas, principalmente de "

    ~uando parem os filhos. So elas que

    -=i ue se v no mar, alimentando-se dele,

    JS outros animais. costa,

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    Chelonia mydas, Eretmochelys irnbricafa . _ ..

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    :=ardim descreve a postura, os ovos e ec.:

    ?eixes venenosos tambm os h no Jliamaya (Spheroides testudineus).

    trigonus) e carapeaaba (Chaetodoi' ., ::spcies cuja pele, espinhos, fgado e e\itar, pois a sua ingesto, diz Cardim, mc:-:_ :] treme-treme (Narcine brasiliensis), -~a; ao tocar-se-lhe fica-se dormente e . .lramuru (Gymnothorax moringa) urna :J~.,_ _5 de Portugal, escreve Cardim, acrescenta:-:::': " .. e dizem que os naturais que tm ajuntarr:e-': . Joras, porque os acham muitas \'ezes . c "'Oroscados, e nas praias esperando as ditas L:'::. _::1da o amoreat (Thalassophryne spp. I, -=-:_. ::las dos ps. E mais um animal

  • _.2e com couves, ou outras ervas, sabe _e:"::1da com adubos sabe a carneiro, e

    -_::: ::-= 2heiro, a gordura de porco, e tambm isto se verifica que o seu paladar do de Anchieta, no obstante

    ,_ termos diferentes. Mas, poderia ser :-:-. ;:::1S de abstinncia - preocupao maior

    apesar de se lhe chamar peixe? '::,::':[1 :Jem, pois (p. 130) "j houve alguns

    ; -' Se comer em dias de peixe; a carne . 2000 a de vaca ... "

    o peixe-boi do litoral brasileiro diagnosticando-o, inclusivamente

    5e:::1 saber -, do peixe-boi do Amazonas C~'m efeito, diz ele (p. 130): " ... tem dois

    :-:'.::,:imento de um cvado com suas mos e nelas tem cinco dedos pegados

    __ '_ s. cada um tem sua unha como meu].

    beneficios medicinais e dietticos do .~'::-:--". considerando as 'pedras' que o peixe. __ ~~3.. sobre os olhos - possivelmente os

    peritico, que se separam muito ...:tros (Almaa, 1998) -, refere que (p.

    '. ::::-:: p e bebida em vinho, ou gua, faz - ... 2C''110 aconteceu que dando-a a uma - ::: ~ uma h ora botou uma pedra como _... ~ .,'-'-'-" s, estando dantes para morrer." .. .,~:culos renais por aco das 'pedras' .. -..l\ia sido referida por Anchieta, como

    tambm a saudvel qualidade da sua carne, que Cardim caracteriza em termos semelhantes (p. 130): "Todo este peixe sadio c nestas partes que se come sobre leite, e sobre carne, e toda uma quaresma, e de ordinrio sem azeite nem vinagre, e no causa sarna nem outras enfermidades como na Europa, antes se d os enfermos de cama, ainda que tenham, ou estejam muito no cabo."

    No litoral, viam-se muitas baleias, por vezes quarenta ou cinquentajuntas, principalmente de Maio a Setembro, quando parem os filhos. So elas que deitam o mbar que se v no mar, alimentando-se dele, bem como todos os outros animais. costa, arribam tartarugas enormes (Chelonia lnydas, Eretmochelys imbricata) - uma delas nem vinte homens conseguiram levant-la -, de que Cardim descreve a postura, os ovos e a ecloso.

    Peixes venenosos tambm os h no litoral brasileiro. Guamaya (Spheroides testudineus), itaoca (Lactophys trigonus) e carapeaaba (Chaetodol1 striatus) so espcies cuja pele, espinhos, fgado e tripas tm de se evitar, pois a sua ingesto, diz Cardim, mortal. O pur, ou treme-treme (Narcine brasiliensis), parecido com a raia; ao tocar-se-Ihe fica-se dormente e dolorido. O caramuru (GymnothorCL,( moringa) uma moreia como as de Portugal, escreve Cardim, acrescentando (p. 139):

    .~"... e dizem que os naturais que tm ajuntamento com as cobras, porque os acham muitas vezes com elas enroscados, e nas praias esperando as ditas morei as." H ainda o amoreat (Thalassophryne spp.), que pica as solas dos ps. E mais um animal enigmtico, terepo

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  • 54

    monga. Ser uma cobra ? Ser uma sanguessuga ?Eis as hipteses colocadas com interrogao por Nomura (1996a) e Azevedo (1997), respectivamente. Cardim diz dele, com o toque de mistrio que o desconhecido propicia (p. 140): " uma cobra que anda no mar ... qualquer cousa viva que lhe toca nela to fortemente apegada, que de nenhuma maneira se pode bolir ... e assim leva a pessoa para o mar e a come ..."

    No relato de Cardim no podiam faltar os monstros marinhos, a que dedica uma seco, 'Homens marinhos, e Monstros do mar'. Mais pormenOlizado que os seus antecessores, Cardim descreve a igpupira, ou demniod' gua, nos seguintes termos Cp. 141): " ... parecem-se com homens ... de boa estatura, mas tm os olhos muito encovados ... as fmeas parecem mulheres, tm os cabelos compridos, e so formosas ... acham-se estes monstros nas barras dos rios doces." A igpupira, ou hipupiara (como lhe chamou Gndavo), deve corresponder ao lobo-marinho (Otariaflavescens), ou talvez ao leo-marinho (Arctocephalus australis), conforme identificao de Nomura (1996a). So ambas espcies meridionais que, acidentalmente, se encontram ao longo do litoral sul-americano. Cardim indica Jagarigpe (Baa) como a localidade em que tinham sido vistas igpupiras. Mas, vai mais longe no conhecimento dos hbitos do monstro (p. 142): " O modo que tm de matar : abraam-se com a pessoa to fortemente beijando-a, e apertando-a consigo que a deixam feita toda em pedaos, ficando inteira, e como a sentem morta do alguns gemidos como de sentimento, e largando-a fogem; e se

    levam alguns comem-lhes somente os olhos. :-l::~ ~~: pontas dos dedos dos ps e mos, e as geri:::: assim os acham de ordinrio pelas praias co:::: ~, cousas menos." Coitado do homem que cedess;: encantos destas formosas criaturas.

    No litoral abundavam mmiscos, caranguejos e ribeirinhas. Cardim refere as guas-mortas, ou cs.:: . (Physalia physalis), infinitas em nmero e ". muito dolorosals. Menciona ainda caranguejos. ~=:~' u (Ucides cordatus), de que descreve a ;-;-: ...:-.::: _ carapaa; e moluscos, como a ostra (Cra.i's ~ rizophorae) , e coralirios, como o coral- ::- ~ (Mussimilia spp.), um e outro muito importa:::e5 produo de caL

    Quanto s aves, o guigratoto, ou tu-tu (R pterus chilensis), a que Cardim chamava em po:-:..:; _. 'tinhosa', (p. 149): " ... pssaro que tem acide- s_. morte, e que morre e torna a viver, como quem te~:c " coral, e so to grandes estes acidentes que muitas '.;:=~ os acham os ndios pelas praias, os tomam nas :r-.:'.. cuidando que de todo esto mortos os botam eles se caindo se alevantam e se vo embc:-::. Descreve a variao etria do guar (Eudocimus i-::: em termos mais explcitos que os naturalistas ': ~ precederam (p. 151): "Este pssaro do tamar.~-:: _~ uma Pega ... quando nasce preto, e depois s ~-'--_ pardo; quando j voa faz-se todo branco mais pomba, depois faz-se vermelho claro, et tandem .. :-:- _se vermelho mais que a mesma gr, e nes~.:. :: permanece at morte ... "

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    _- cobra? Ser uma sanguessuga? Eis as ":2das com interrogao por Nomura

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    que anda no mar ... qualquer causa ~il nela to fortemente apegada, que de

    se pode balir ... e assim leva a pessoa - ~ _ .::ome "

    no podiam faltar os monstros dedica uma seco, 'Homens marinhos,

    ._ r:1ilr'. Mais pormenorizado que os seus Crdim descreve a igpupira, ou demnio

    : ~ ~e termos (p. 141): " ... parecem-se estatura, mas tm os olhos muito

    25 fmeas parecem mulheres, tm os _ .-:-::-:cos. e so formosas ... acham-se estes - _5 -='3.rras dos rios doces." A igpupira, ou

    ~:r:10 lhe chamou Gndavo), deve COlTes-< -mminho (Otaraflavescens), ou talvez --.0 tArctocephalus australis), conforme

    ~e ::\omura (1996a). So ambas espcies ~ =,.,le. acidentalmente, se encontram ao longo

    . _. ~_._ .. __"_. CardimndicaJagarigpe (Baa) em que tinham sido vistas igpupiras.

    __ 5 :onge no conhecimento dos hbitos do >+21: " O modo que tm de matar : ~:: ~ =::1 pessoa to fortemente beijando-a, e

    que a deixam feita toda em pedaos, e como a sentem morta do alguns

    de sentimento, e largando-a fogem; e se

    levam alguns comem-lhes somente os olhos, narizes e pontas dos dedos dos ps e mos, e as genitalias, e assim os acham de ordinrio pelas praias com estas causas menos." Coitado do homem que cedesse aos encantos destas formosas criaturas.

    No litoral abundavam mariscos, caranguejos e aves ribeirinhas. Cardim refere as guas-mortas, ou caravelas (Physalia physalis), infinitas em nmero e de 'picada' muito dolorosals . Menciona ainda caranguejos, como o u (Ucides cordatus), de que descreve a muda da carapaa; e moluscos, como a ostra (Crassostrea rizophorae) , e coralirios, como o coral-branco (Mussimilia spp.), um e outro muito importantes na produo de cal.

    Quanto s aves, o guigratoto, ou tu-tu (Belonopteros chilensis), a que Cardim chamava em portugus 'tinhosa', (p. 149): " ... pssaro que tem acidentes de morte, e que morre e torna a vi ver, como quem tem gota coral, e so to grandes estes acidentes que muitas vezes os acham os ndios pelas praias, os tomam nas mos, e cuidando que de todo esto mortos os botam por a, e eles se caindo se alevantam e se vo embora ... " Descreve a variao etria do guar (Eudocimus ruber) em termos mais explcitos que os naturalistas que o precederam (p. 151): "Este pssaro do tamanho de uma Pega ... quando nasce preto, e depois se faz pardo; quando j voa faz-se todo branco mais que uma pomba, depois faz-se vermelho claro, et tandem tornase vermelho mais que a mesma gr, e nesta cor permanece at morte ..."

    55

  • Na gua doce havia peixe diversificado, de grande qualidade e muito saudvel, que se dava aos doentes 'como medicina' . Quanto s cobras de gua doce refere a sucurijuba (Eunectes murinus), repetindo o relato de Anchieta sobre o apodrecimento do ventre repleto, sua destruio, neste caso pelos corvos, e renovao postetior. PonnenOliza, no entanto, sobre a recomposio do corpo (p. 153): " ... e a razo dizem os ndios naturais , porque no tempo que apodrece tem a cabea debaixo da lama ... " Fica-se tambm a saber que o esterco de jacar tem propledades medicinais, em particular para as belidas, que seriam manchas na crnea, segundo Azevedo (1997). Entre os lobos-d'gua havia um chamado bapina (talvez um peixe-boi, segundo ::"Jomura, 1996a), que Cardim define assim (p. 155): "Estes so certo gnero de homens marinhos do tamanho de meninos, porque nenhuma diferena tm deles; destes h muitos, no fazem mal." E ainda uma rela, guararigeig (talvez Hyla aurantiaca), sobre a qual Cardim diz (p. 157): " ... cousa espantosa o medo que dela tm os ndios naturais, porque s de a ouvirem, morrem, e por mais que lhes preguem no tm outro remdio seno deixar-se morrer, to grande a imaginao, e apreenso que tomam de a ouvir cantar; e qualquer ndio que a ouve morre, porque dizem que deita de si um resplendor como relmpago."

    Enfim, refere os animais domsticos que haviam sido introduzidos de Portugal, aclimatando-se bem no Brasil: cavalos, vacas, porcos, ovelhas, galinhas, perus, adens e ces, que existiam todos em abundncia. S as cabras

    56

    eram poucas. Quanto aos ndios Cp. 1 o gnero de carnes, ainda de animais :-:':''':' . cobras, sapos, ratos e outros bichos ser;:" _-

    Gabriel Soares de Sousa. Ao sair de Sousa integrava uma armada de .., , dirigia a Moambique. Todavia, o seu bar' ~-= -se e aportou Baa em 1569. Gostan, :.. pessoa empreendedora, Soares de SCi..S":' empresrio aucareiro. Observador ~, naturalista que mais espcies reconhece~;. durante a sua primeira estadia no dezasseis anos -, foram por ele observadas c _ ~ mais de 350 espcies animais. Em 158":' . .::.;seu manusclito '::"Jotcia do Brasil' a Crist\ em Madrid. Desse manuscrito fizeram-,,;: cpias annimas. Agradado com a de Soares de Sousa, Filipe I concece..:.-,, privilgios e, entre eles, licena para a e\minas de esmeraldas no Brasil. A regresse __ iniciou a busca das minas. ::"Jo entanto.. -=-=-:.' seguinte, vtima de doena tropical Academia das Cincias de Lisboa editaL: ;:-', . ' primeira vez de forma completa ':\'or: ..... '::" (Albuquerque, 1989; Tavares 1994). O seu relato zoolgico, que muito e'~ _ , grande nmero de espcies sobre que i1.e:.:::.' .. reduzido aos aspectos considerados ma:s _ ::

    O nhandu, ou ema (Rhea americana', _ como as avestruzes de frica.

  • _,',:', ~J peixe diversificado, de grande :-... - s2.udvel, que se dava aos doentes . - _' Quanto s cobras de gua doce refere

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    _~.. , :';::5te caso pelos corvos, e renovao ,~'~:'~:1za, no entanto, sobre a recomposio _: ~ : " ", e a razo dizem os ndios naturais

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    . ; : ~ 5): .'Estes so certo gnero de homens _..::-:-'c'.nho de meninos, porque nenhuma _-,' '::'e:;::5: destes h muitos, no fazem mal."

    guararigeig (talvez Hyla aurantiaca), - :':''::lm diz (p. 157): " .. , cousa espantosa

    __ ,,_ .~"H os ndios naturais, porque s de _.. ::-:::-e::::1. e por mais que lhes preguem no

    deixar-se morrer, to grande que tomam de a ouvir cantar;

    a ouve morre, porque dizem que como relmpago."

    domsticos que haviam sido aclimatando-se bem no Brasil:

    -:' :":05. ovelhas, galinhas, perus, adens e todos em abundncia. S as cabras

    eram poucas. Quanto aos ndios 169) " ... comem todo o gnero de carnes, ainda de animais imundos, como cobras, sapos, ratos e outros bichos semelhantes ... "

    Gabriel Soares de Sousa. Ao sair de Lisboa, Soares de Sousa integrava uma armada de trs barcos que se dirigia a Moambique. Todavia, o seu barco tresmalhou-se e aportou Baa em 1569. Gostando da terra e pessoa empreendedora, Soares de Sousa tomou-se empresrio aucareiro. Observador atento, foi o naturalista que mais espcies reconheceu. Com efeito, durante a sua primeira estadia no Brasil - cerca de dezasseis anos -, foram por ele observadas e comentadas mais de 350 espcies animais. Em 1587, apresentou o seu manuscrito '1\otcia do Brasil' a Cristvo de Moura, em Madrid. Desse manuscrito fizeram-se numerosas cpias annimas. Agradado com a excelente monografia de Soares de Sousa, Filipe I concedeu-lhe vrios privilgios e, entre eles, licena para a explorao de minas de esmeraldas no Brasil. A regressou em 1591 e iniciou a busca das minas, No entanto, morreu no ano seguinte, vtima de doena tropical indeterminada. A Academia das Cincias de Lisboa editou em 1825, pela

    vez de forma completa 'Notcia do Brasil' [Albuquerque, 1989; Tavares 1994). O seu relato zoolgico, que muito extenso dado o

    nmero de espcies sobre que incide, ser aqui -eduzido aos aspectos considerados mais relevantes.

    O llhandu, ou ema (Rhea americana), to grande :omo as avestruzes de frica. Havia muitos e os

    57

  • malhados de preto, diz Soares de Sousa, no tm tanta penugem como os da Alemanha (7). Na Baa, h uma ave de rapina, oacau (Herpetotheres cachinnans), que se alimenta de serpentes. Ento, [Soares de Sousa, 1989, p. 162], "quando o gentio vai de noite pelo mato que se teme das cobras, vai arremedando estes pssaros para as cobras fugirem." Quanto tiejuba (Caryothrauste canadensis), um passarinho pequeno que se alimenta de pedrinhas que apanha no cho.

    No que respeita gibia (Constrictor constrictor), que pode atingir 50-60 palmos, repete a histria, com algumas variantes, dos seus antecessores: a constrio das presas e penetrao, neste caso do sexo, com a ponta da cauda at morte da presa; o apodrecimento das presas ingeridas no ventre da serpente; a limpeza do ventre e do resto do corpo da gibia pelos urubus (Cathartes aura); a recomposio do corpo da gibia. Isto ouvia-se dizer a muita gente que andava pejo serto. As boitiapoias (Chironius cannatus) so cobras longas de 50-60 palmos e delgadas, que usam outra estratgia para matar as presas e depressa: enfiam-lhes a ponta da cauda nos ouvidos. Tambm h serpentes 'vingativas', como a suruCltCU, uma vbora (Lachesis muta). Os ndios capturam-nas em armadilhas (p. 185) " ... e se o macho acha ali a fmea presa e morta, espera ali o armador com quem se cinge e no o larga at que o mata e toma a esperar ali at que venha outra pessoa a quem morde somente e com esta vingana se vai daquele lugar."

    Os ndios comiam rs, algumas muito gostosas na opinio de Soares de Sousa. E sapos, a que chamavam curucus

    58

    . Bufo marinus); mas, a estes (p. 8Tipas e fressura de maneira que

    porque se rebenta fica a came tcC.:: -:: no escapa quem a come ou alguma. .. =ressura."

    Para alm da socana, lagarta de i J1egalopyge sp.), com cujo plo (p. 1 S~ fazem crescer a natura ... ", nos cajueiro~ ~ lagartas (p.189) " ... todas cobertas de pL::o .-5 sentem gente debaixo, sacodem este aonde chega, se levanta logo tamanha ine:-.'::; ~ que das urtigas, o que dura todo um di a ... " .. vive no cajueiro parece ser Protambll":" pirilampo buijeja (fmea neotnic2 __ illuminator), que (p. 181) " ... se o toma logo a juntar e andar como dantes " S~ . -se um ... com uma faca em muitos pedac s ::: logo ajuntar ... o embrulharam em urr. dias e cada dia o despedaavam em rr: _ va-se logo a juntar e reviver ... " A formiga usaba (Atta sexdens), lhe merece comentrios (p. 190), pois" . seno que trazem espias pelo campo aos formigueiros porque se viu muitas quatro ... e encontrarem outras no ca::-:::--:com elas ..." As is, fmeas da antelior. C~ -:-:-.: pelos ndios, e os cupins, trmitas CC-:-:.. construes em madeira, que Soares distingue das formigas, so outras entre de insectos que este naturalista

  • ~-:'~~. diz Soares de Sousa, no tm tanta __ -- Alemanha C?). Na Baa, h uma

    _ .' _. ',iU? (Hel]Jetotheres cachnnans), que ~:' ... cntes. Ento, [Soares de Sousa, 1989,

    gentio vai de noite pelo mato que se .:.~. ..li arremedando estes pssaros para

    -;; -:':-:1." Quanto tiejuba CCaryothrauste cC .::;, passarinho pequeno que se alimenta .: _e ..lpanha no cho.

    ":.:. .:: ?ibia CConstrictor constrictor), que palmos, repete a histria, com algumas

    . ~ 'e.:s antecessores: a constrio das presas : - ;:;5:e caso do sexo, com a ponta da cauda _ -; :'C511: o apodrecimento das presas ingeri das

    a limpeza do ventre e do resto do pelos urubus (Cathartes au.ra); a

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    so cobras longas de 50-60 palmos : __ ..::5.:;m outra estratgia para matar as presas :'

  • "

    ---

    o homem-marinho, ou upupiara, no podia deixar de ser comentado. Nos rios da Baa havia muitos durante o Vero. Conta histria idntica dos predecessores, com os inevitveis afogamentos e mutilaes produzidas pela upupiara. O peixe-boi, goargo, descrito com pormenor, bem assim as suas qualidades dietticas e medicinais, j referidas no presente estudo. No mar e na sua orla h enorme diversidade animal, ruscernvel pela sua utilidade ou perigosidade. Assim, o baiacu (Lactophrys spp.), peonhento na pele, fgado e fel, que faz inchar at rebentar a quem comer algumas dessas partes. Em contrapartida, as ostras, leriuau (Ostrea puelchana), so enormes e muito gostosas, tanto cruas como assadas ou fritas. E h um molusco teredindeo, ubiraoca, que fura a madeira dos navios e (p. 211) " ... para este gusano no fazer tanto dano nas embarcaes, permitiu a natureza que o que se cria na gua salgada morra entrando na gua doce e o que se cria na doce morra na salgada ... "

    Na gua doce h mexilhes enormes (uniondeos 7), mas menos saborosos que os do mar. Em terra, na proximidade da gua doce, vive o goanhamu, ou caranguejo-do-mato (Cardisoma guanhumi), muito grande e azul, que muito gostoso na condio de se lhe retirar o fel.

    Outros comenfadores da natureza. ~ais ou menos contemporneos de Ferno Cardim e Gabriel Soares de Sousa, alguns visitantes deixaram tambm notcia sobre a fauna do Brasil (Nomura, 1966a). Entre eles, Anthony

    60

    Knivet (15607-16207), um corsrio por doena no Rio de Janeiro. recapturado vrias vezes, viveu no Bras:} do sculo XVI, regressando a Inglatel--:-:: =-do sculo XVII. A escreveu um relate> [Knivet, 1947J que foi publicado por S~~:-em 1625 (Horsch, 1994). A sua contrib-..::, , no entanto, mnima.

    Bem reduzida fo~ igualmente, a particip:c; Afonso (1548-1618), jesuta. Partiu . ndia em 1596. Por avaria, o seu barco te na Baa, onde o jesuta fez algumo's zoolgicas, muito poucas (Frana. 19> 1996a). "ylais importante foi o contributo de (1560-1597), outro jesuta, que percom:: So Vicente a Pernambuco, anotando o _.::,: " Em 1590, escreveu uma narrativa episto> _ provincial em Portugal, manuscrito algumas coisas notveis do Brasil e dc dos ndios' (Black, 1989). Embora S. __ observado uma diversidade animal relato repetitivo, sobretudo do de mesmas crenas quanto aos movimentos :.:':: ~puas de canduguau (Coendou prehf7; das presas por introduo da cauda c.:.: ."" constrictor), as propriedades mediei;;;;.:;, da cabea do peixe-boi (Trichech: i :'nascimento do mbar em poas de gL ~: a descrio estranhamente minuciosa

  • --o - - ~=. ou upupiara, no podia de _::. = "'\.::s rios da Baa havia muitos durante : - -_ :":s:ria idntica dos predecessores, -_ =, .:Jogamentos e mutilaes produzidas

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    _ ~ __ orla h enorme diversidade animal, - _ S":.l utilidade ou perigosidade. Assim, o

  • ruivo e boa estatura) e das fmeas (cabelo longo e formosas) da igpupiara, o apodrecimento, destruio e recomposio do corpo da sucurijuba (Eunectes murinus), etc. Por outro lado, Soares [1989J juntou pormenores interessantes s descries de autores anteriores como, por exemplo, que: a sarigueia (Didelphis sp.) pode albergar no marspio at oito crias; ajararaca (Bothrops jararaca) pode parir sessenta e quatro filhos; as piranhas (Pygocentrus piraya) arremetem ao homem, podendo com-lo; a postura do jacar (Caiman latirostris) contituda por 30-40 ovos com o tamanho dos de pata, etc.

    Tambm o manuscrito de Francisco Soares ficou esquecido durante sculos, vindo a ser publicado no Brasil em 1923. Entretanto, visitantes estrangeiros, mesmo se permanecendo fugazmente no Brasil, encontravam eco diferente nos seus pases de origem, divulgando a nova terra de forma no conseguida em Portugal. Esto neste caso, logo em princpios do sculo XVII, os missionrios franceses que partiram para o Brasil.

    62

    ~~------------------~--------

  • De pifce monachihabitu,

  • Muitos livros do Renascimento, ainda com forte impregnao dos bestirios medievais, descreviam e representavam animais fabulosos, A primeira figura, de Thevet (1558), representa um animal do Estreito de Magalhes, Seria assim que Thevet imaginou uma sargueia? As trs figuras seguintes, de Rondelet (1554), referem-se a animais aquticos, o "monstro leonino", o "peixe com hbito de monge" e o "peixe com hbito de bispo", respectivamente, todos descritos no texto do li vro, Enfim, a ltima representa o "demnio-d'gua", um hpupira, descrito e figurado por Gndavo (1576),

  • --riI ,li

    A grande e necessria ligao dos ndios brasileiros com a natureza revelada por formas muito variadas, As figuras representam esculturas zoomrficas em diabase da autoria de paleoamerndios, da costa brasileira, Segundo Castro Faria (1959) representam, respectivamente, um peixe carangdeo, dois peixes (o superior voltado para a esquerda, o inferior para a direita), talvez do gnero Geophagus, uma baleia e um golfinho, As reprodues das figuras devem-se cortesia do Professor Lus Vicente,

  • t

    Sarigueiras

    Eis como Staden (1557) representou Didelphis allrita e Frei Cristvo de Lisboa (1627) e Marcgraf (1648) representaram Didelphis mersupialis,

  • u

    '"

    ,- ,

    Tatus

    Dasypus septemcinctus, segundo Hans Staden (1557). Dasypus novemcinctus em Frei Cristvo de Lisboa (1627). Dasypus sexcinctus e Tolypentes tricinctus em Marcgraf (1648).

  • Preguia

    Brodvpus sp., em Thevet (1558). Bradypu,,- tridactvlus. segundo Frei Cristvo de ( 1648).

  • Q

  • Tucanos

    RamphaSfUs vi!elllUs, segundo Thevet (:55S, Pteroglossus bitorquatuJ; segundo Frei ficao de acordo com Oren.

  • A ltima figura do Livro rn da obra sobre as ayes de ?::-: ~ (1555) esta cabea de ave. que o autor legenda aSSl:I: de ave trazido das terras novas", Jean de Lry ( 1:":figura de Belon, atrbuindo-a a um tucano (Romplitu':,,' Nomura, 1966),

    o guainumbi, Agyrtrina leucogasyer (?), segundo \'12.::;;: ~ c

  • Alguns comentrios aos relato- cp,,:: sobre zoologia do Br2'1

    Nos ltimo anos, Hitoshi Nomun::

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    quem, e o que, escreveu acerca ..:: =: .

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    Alguns comentrios aos relatos quinhentistas sobre zoologia do Brasil

    Nos ltimo anos, Hitoshi Nomura tem vindo a publicar excelentes trabalhos, metdicos e sistemticos, sobre quem, e o que, escreveu acerca da zoologia braslica. Outras contribuies so, por exemplo, as de Frana (1926 a,b), Almaa (1991a,b, 1993a, b) e Tavares (1993). Estas, porm, so de ndole mais restrita, pois se cingem a naturalistas portugueses 1 6 ou apenas ao conhecimento de certos grupos animais, vg mamferos (Almaa, 1991a) ou crustceos (Almaa, 1993a; Tavares, 1993). Os conjuntos antes considerados, 'primeiros cronistas' e 'naturalistas pioneiros', so, como se verificou, heterogneos sob vrios pontos de vista. Um destes nos interessa em particular: o da cultura histrico-natural especfica de cada um dos seus componentes. Ora, sob este aspecto, nenhum deles parece destacar-se significativamente, a despeito de algum conhecimento de autores clssicos e renascentistas (Plnio, Pierre Belon, etc.) exibido por Jean de Lry e tambm atribudo a Cardim (Azevedo, 1997). De resto, o humanismo no carreou um interesse cientfico imediato pela natureza. Na continuidade das preocupaes medievais, o interesse conferido aos animais foi de carcter utilitrio e o de facultarem um caminho indirecto para atingir o homem e falar dele (Ceard, 1990). O animal era evocado, sobretudo, como representao do sub-humano, privado da dignidade conferida pela razo (Higman, 1990). Entre ns, Gil Vicente glosou muito frequentemente os animais e a sua vida (Lemos, 1922).

    89

  • 90

    I

    As descries e comentrios de Jean de Lry afiguram-se to ingnuas quanto as dos restantes elementos do mesmo contingente. Entende-se bem que este grupo, mesmo aqueles dos seus componentes que frequentaram o ensino superior, no mostre traos de cultura histrico-natural especfica. A Universidade portuguesa, tanto em Lisboa como em Coimbra, e os colgios jesutas do sculo XVI (e seguintes) no culti varam as cincias experimentai s e de observao, limitando-se a um ensino livresco e escolstico. A desconfiana em relao a Lutero e Erasmo, a xenofobia e a vigilncia da Inquisio contriburam para um isolamento de Portugal relativamente Europa, talvez mesmo de uma ruptura com ela, que muito poucos conseguiram superar (Rosado Fernandes, 1993). Seja como for, e no obstante essa ingenuidade, os naturalistas do sculo XVI registaram enOlme quantidade e diversidade de elementos sobre a vida animal no Brasil, o que, noutras circunstncias scio-culturais, teria ecoado muito diferentemente na Europa quinhentista. Descreveram grande nmero de espcies que nunca tinham sido observadas por europeus; levantaram muitas questes que no sabiam ou no podiam na poca solucionar; divulgaram muitas crenas e supersties; enfim, pode dizer-se, que estabeleceram as fundaes da Histria natural no Brasil. De alguns destes aspectos se ocupar seguidamente o presente trabalho.

    Nomenclatura etnozoolgica. Todas as etnias que tm grande dependncia dos produtos da natureza para a sua subsistncia e sobrevivncia so boas conhecedoras

    das espcies que vivem no seu ambiente e desen\;:' sistemas de denominao que as conceptualizam. no passado recente isto foi verificado: Mayr et al. ~;. ~:: referem uma tribo de papuas das montanhas da :.;Guin que reconhecia 137 das 138 espcies existentes no seu territrio.

    A ligao dos ndios brasileiros vida evidentemente, muito intensa. Alm disso, antiga, cc:"::".. provam as esculturas animalistas encontradas em_~2.Z: arqueolgicas costeiras (sambaquis) e represen:.:::- -' sobretudo peixes (Castro Faria, 1950). A nomenc:.::.:,,:~. tupi para os animais muito diversificada, -' procurou demonstrar nos relatos dos natt:ra::s~.:.. anterionnente mencionados. Os nomes dos animais f:::-.:....grafados por cada um deles de forma particular e :lS se manti veram no presente trabalho. No h que permitam afirmar que todas, ou quase espcies fossem reconhecidas pelos indgenas, porm, recebiam mais do que um nome disti:L consoante a fase de desenvolvimento ou o se:

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    especfica. A Universidade portuguesa, tanto em ~::::::J como em Coimbra, e os colgios jesutas do sculo I e seguintes) no cultivaram as cincias expelimentais ::~ Jcservao, limitando-se a um ensino livresco e - ~~'''~v. A desconfiana em relao a Lutero e Erasmo, .~- ~;~h;n e a vigilncia da Inquisio contriburam para -,'c': amento de Portugal relati vamente Europa, talvez

    de uma ruptura com ela, que muito poucos - s::::guiram superar (Rosado Fernandes, 1993).

    ;;~:: :omo for, e no obstante essa ingenuidade, os do sculo XVI registaram enorme quantidade

    ;;;:-sidade de elementos sobre a vida anmal no Brasil, _~ ..:e. .1outras circunstncias scio-culturais, teria ecoado

    diferentemente na Europa quinhentista. Descre::-.::::: grande nmero de espcies que nunca tinham ::. Jbservadas por europeus; levantaram muitas

    ~~:5es que no sabiam ou no podiam na poca ":C:OTIEr; divulgaram muitas crenas e supersties; '~:::::. pode dizer-se, que estabeleceram as fundaes

    natural no Brasil. De alguns destes aspectos .c..:;mr seguidamente o presente trabalho.

    ;;clatura etnozoolgica. Todas as etnias que tm dependncia dos produtos da natureza para a

    ..:: s_:,sistncia e sobrevivncia so boas conhecedoras

    das espcies que vivem no seu ambiente e desenvolvem sistemas de denominao que as conceptualizam. Mesmo no passado recente isto foi verificado: Mayr et alo (1953) referem uma tribo de papuas das montanhas da ~ova Guin que reconhecia 137 das 138 espcies de aves existentes no seu territrio.

    A ligao dos ndios brasileiros vida animal era, evidentemente, muito intensa. Alm disso, antiga, como provam as esculturas anmalistas encontradas emjazidas arqueolgicas costeiras (sambaquis) e representando sobretudo peixes (Castro Faria, 1950). A nomenclatura tupi para os animais muito diversificada, conforme se procurou demonstrar nos relatos dos naturalistas anteriormente mencionados. Os nomes dos anmais foram grafados por cada um deles de forma particular e assim se mantiveram no presente trabalho. No h elementos que permitam afirmar que todas, ou quase todas, as espcies fossem reconhecidas pelos indgenas. Algumas, porm, recebiam mais do que um nome distintivo, consoante a fase de desenvolvimento ou o sexo (vg Atta sexdens). Os relatos dos naturalistas mostram que, em geral, as espcies eram designadas por nomes primrios simples (Berlin, 1992). Exemplos: iguaragu, tamandu, tatu, sucuriba, ibbca, bipeba, tatarana, etc. Tambm atribuam nomes primrios a fases de desenvolvimento da mesma espcie, como por exemplo, usaba (obreiras) e i (fmeas) deAtta sexdens. Nomes secundrios (isto , com um nome subordinado contrastante) eram aplicados a conjuntos de espcies (pira-min, peixes

    91

  • 92

    pequenos), a espcies (inamb-ua, inamb-grande) ou a fases do ciclo de uma espcie (arinh-miri, galinha; arinh-roupi, ovo de galinha). Anchieta [1933aJ queixava-se do abuso de nomes (plimrios) na nomenclatura indgena. Segundo o jesuta, os ndios reconheciam nominalmente as espcies, mas raramente os gneros, no existindo nome genrico da fonniga, do caranguejo, do rato e de outros animais; as espcies, porm, tinham todas nome prprio. evidente que Anchieta usava 'gnero' e 'espcie' em acepo aristotlica, ou seja, 'espcie' no sentido de morfoespcie e 'gnero' como agregado de morfoespcies com algum tipo de semelhana entre si reconhecido pelo observador.

    A nomenclatura tupi foi um utenslio poderoso na discriminao das espcies brasileiras ensaiada pelos primeiros naturalistas com objectivos utilitrios. Ser este o tema que se comentar nas prximas linhas.

    Para que servem os animais. Olhar para a natureza para descobrir o til e o fantstico foi uma preocupao medieval cujas razes plausveis j foram discutidas pelo autor do presente estudo (Almaa, 2000). Esta inteno projectou-se bem para dentro do Renascimento, s gradualmente cedendo tambm lugar procura do conhecimento pelo prprio valor dele, numa revivescnciada curiosidade clssica de investigao da natureza. Aquelas preocupaes estavam na base do desejo expresso pelo geral dos jesutas a Jos de Anchieta: que este lhe escrevesse, relatando tudo o que encontrava no

    Brasil digno de admirao ou desconhecido na ~Anchieta assim o fez. E assim fizeram com ou ::.;:intenes os que lhe sucederam.

    O modelo seguido por todos eles responde. co;- ; : variantes, s seguintes questes: (1) quais as '~;:~ :-. para comer, (2) quais as de melhor qualidade. ' :devem cozinhar-se, (4) que outros produtos --extraem do animal (pele, plumas, ossos, dentes. quais as espcies venenosas, (6) que --oferecem estas espcies, (7) como se tratam ::~ mordeduras ou picadas, (8) quais as espcies :-dati vas, (9) quais as destruidoras de bens, (10 I - :- ~: marinhos e outros, etc. Os inquritos ~. ~;: te-se, acabam todos por responder a estas semelhantes.

    Uma inteno parece bvia. Tratando-se de te=:-: : . recm-descobertos pelos europeus, prevenir que:---' de forma a assegurar-lhe subsistncia e sobre\'\r:~_ = porm, levanta outra questo. Por que no h dos naturalistas portugueses desenhos ou es:,,-, - . mesmo toscos, dos animais que conheceram e. ;' ::':- descreveram to minuciosamente? Por qu:: - -Gndavo, o nico naturalista portugus que edito;~ :--:-. sobre o Brasil no tempo prprio, no apresent:: -:~::-= iconografia, a no ser a de um 'monstro' nu:- ~ a hipupira? E Gndavo foi um observador:- ~ rigoroso dos animais brasileiros. Que grande devia ter o fantstico sobre o real, o que pode:-i ~::~ ndice de quanto a medievaldade ainda se imI'::--pOltugueses do renascimento.

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    _.~:-:o;; I. a espcies (inamb-ua, inamb-grande) _-::~;:s do ciclo de uma espcie (arinh-miri, galinha; . ~-")lIpi, ovo de galinha). -_.~.- [1933a] queixava-se do abuso de nomes

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    caranguejo, do rato e de outros animais; as ::c:: ~ s. porm, tinham todas nome prprio. evidente

    usava 'gnero' e 'espcie' em acepo ou seja, 'espcie' no sentido de mOlfoesp

    como agregado de morfoespcies com de semelhana entre si reconhecido pelo

    - ~ :-:_enclatura tupi foi um utenslio poderoso na das espcies brasileiras ensaiada pelos

    - ~:-:os natumlistas com objectivos utilitrios. Ser este se comentar nas prximas linhas.

    selvem os animais. Olhar para a natureza o til e o fantstico uma preocupao

    -:ujas razes plausveis j foram discutidas pelo presente estudo (Almaa, 2000). Esta inteno

    -:Xl-se bem para dentro do Renascimento, s ":_::-:1ente cedendo tambm lugar procura do - :'r:;.ento pelo prprio valor dele, numa revives

    2uriosidade clssica de investigao da natureza.

    .::5 preocupaes estavam na base do desejo geral dos jesutas a Jos de Anchieta: que

    . - escrevesse, relatando tudo o que encontrava no

    Brasil digno de admirao ou desconhecido na Europa. Anchieta assim o fez. E assim fizeram com tal ou idnticas intenes os que lhe sucederam .

    O modelo seguido por todos eles responde, com poucas variantes, s seguintes questes: (1) quais as espcies boas para comer, (2) quais as de melhor qualidade, (3) como devem cozinhar-se, (4) que outros produtos teis se extraem do animal (pele, plumas, ossos, dentes, etc.), (5) quais as espcies venenosas, (6) que perigosidade oferecem estas espcies, (7) como se tratam as suas mordeduras ou picadas, (8) quais as espcies incomodativas, (9) quais as destruidoras de bens, (10) monstros marinhos e outros, etc. Os inquritos efectuados, repete-se, acabam todos por responder a estas questes ou semelhantes.

    Uma inteno parece bvia. Tratando-se de territrios recm-descobertos pelos europeus, prevenir quem viesse de fonna a assegurar-lhe subsistncia e sobrevivncia. Isto, porm, levanta outra questo. Por que no h nos relatos dos naturalistas portugueses desenhos ou esquemas, mesmo toscos, dos animais que conheceram e, por vezes, descreveram to minuciosamente? Por que que Gndavo, o nico naturalista portugus que editou um livro sobre o Brasil no tempo prprio, no apresenta qualquer iconografia, a no ser a de um 'monstro' que nunca viu, a hipupira? E Gndavo foi um observador crtico e rigoroso dos animais brasileiros. Que grande peso relativo devia ter o fantstico sobre o real, o que poder ser um ndice de quanto a medievalidade ainda se impunha aos portugueses do renascimento .

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  • 94

    Neste aspecto, os naturalistas portugueses atrasaram-se e muito. S com Frei Cristvo de Lisboa, cujo manuscrito foi completado na terceira dcada do sculo XVII, surgem nomes e descries acompanhados de iconografia. Os estrangeiros, desde Rans Staden e Andr Thevet, ambos com obra impressa sobre o Brasil em 1557, apresentam alguns desenhos de animais, embora pouco fiis os de Thevet e toscos os de Staden. Isso, provavelmente, contribuiu para o grande xito das obras que publicaram, ambas com vrias edies e tradues, o que uma medida do seu sucesso.

    Clirna e criao. No sculo XVI e seguintes ningum duvidava, pelo menos explicitamente, da criao divina, tal como descrita no Gnesis. Assim sendo, tomava-se problemtica a criao de pragas, parasitas e animais venenosos que matavam pessoas por um Deus de bondade infinita. Talvez existissem para castgar os pecadores. Muitas vezes, porm, eram atingidos aqueles que no podiam ser pecadores, por exemplo crianas. Esta contradio gerou tenses muito grandes que, mais tarde, no mbito da Teologia natural, viriam a constituir uma das motivaes para a ideia evolucionista.

    Porm, se Deus tivesse concedido algum poder criador natureza, como muito mais tarde foi ponto assente para Lamarck, a formao de espcies perigosas ou prejudiciais no teria a sua chancela directa. No entanto, o fundamentalismo religioso opunha-se tenazmente a qualquer acto de criao por procurao. Quando Jean de Lry (1580, p.150). calvinista, se maravilha com as cores de certas espcies de papagaios, previne

    imediatamente que o seu panegrico no se glorificar a natureza, como fazem os profanos. ::-:-.::' '. o excelente e admirvel Criador delas (o itlico ::-:-:: A ideia de um poder gerador da natureza mui:c --: e documentada, pelo menos, desde os filsorc;; ~: socrticos. O grande propugnador dela foL tc.:::: Aristteles, que a sistematizou, alis como a conheceu da natureza ou que reflectiu sobre muito sobre este tema; por isso, se resumidamente as suas i dei as acerca dele. . Aristteles, muito insectos nasceriam a partir em putrefaco e outros no prprio interior dos de dejectos que se acumulam nos orgos Animais, 539 a); certos peixes a partir do lodo, e de matrias em decomposio que os cobrer:: 569 a). Para Aristteles, a causa respons\c' -. gerao espontnea seria o movimento e condies climtcas (Gerao dos Animais" : Em Anchieta, Gndavo, Cardim e outros enco::-.-ideias muito semelhantes quanto origem dos venenosos. Para Anchieta [1933b], o responsvel pela cliao de animais peonhentos, as aranhas e serpentes. Gndavo [1958] mais o clima e os ventos daquela terra, infectaccs podrido das ervas e zonas alagadas gera, por do sol, a diversidade de animais venenosos, E C [1997, p,84] segue caminho idntico ao atribuir;::c , a causalidade da grande diversidade de serpemes, :_e aranhas peonhentas e de outros animais irr:. Para todos em geral tambm o clima o respc:-s pelas maravilhosas cores da plumagem de cert2.5

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    Heterogonia. Tambm ideia muito antiga a de que de uma espcie se pode gerar outra, diferente. No se confunda esta ideia com a de evoluo saltacionista, pois a heterogonia uma questo de origem, no de mutao evolutiva, sistmica ou outra. Na heterogonia, espcies conhecidas teriam, por vezes, Oligem noutras espcies tambm conhecidas. Aristteles, inevitavelmente, discorreu sobre a questo. Assim, no mar, nasce da vasa, da areia ou das matrias em decomposio um . peixe mido que no cresce nem se reproduz. Em certos locais (H.A., 569 b) este peixe mido produzia lampadinha (Sprattus sprattus), esta, por seu lado, clerin (peixe indeterminado), o qual Olginava sardinha (Sardina pilchardus). Teofrasto dedica muita ateno heterogonia nos vegetais (Histria das Plantas, Livro II). Para ele pode ser uma questo de 'lugares e de ares'. Dizia-se que em certos locais a semente de uma planta silvestre originava uma planta cultivada, como se dizia que da cevada podia nascer trigo e vice-versa. Teofrasto considerava estas transformaes das plantas contra a natureza e prodigiosas. Assim, a hortel-de-gua (Mentha aquatca), que vive em valas, rios, guas estagnadas e lugares hmidos, converter-se-ia, segundo Teofrasto, em hortel (Mentha viridis), espcie domstica, na ausncia de cuidados que o impedissem. Em certas condies, Triticwn monococcum e T. dicoccum originariam o trigo comum. Seria um caso semelhante modificao produzida nas sementes por mudana de solo: alteravam a sua conformidade consoante o solo em que eram semeadas.

    Estas hipteses, que hoje arrecadamos no curiosidades do passado, fizeram vida durante enraizando numa das dificuldades mais persister::e:.Biologia: a definio de espcie l 7 .

    A verdade que para os naturalistas de quinhe:-: ... , heterogonia parecia uma hiptese crvel. Para o bicho-da-taquara, lagarta da borboleta smerintha, originava no s a borboleta, como taL. ~e ratos e lagartas que cortam a erva. E uma ,~ _ . colibri ("um dos gneros de guainumbf) uma borboleta. Cardim foi mais longe, pois apreciou, maravilhado, a borboleta a converter-se e'' colibri, passando em fase intermdia por borbole:_ :: pssaro simultaneamente. At comenta ser esta ~ ...::' _. vilha - um ser vivo converter-se noutro sem

    .

    (o itlico meu) -, ignorada pelos filsofos. S~ _::-:' espontanesta poderia tecer tal comentrio. Como se ver, outros naturalistas do Brasil acreditar:::=-:-: - _ heterogonia.

    Viviparidade das serpentes. A estupeface ':::.: Anchieta ao ver sair as crias do corpo de uma ser;-e-:: que matara bastonada significativa da sua insuEc:e":: formao histrico-natural. Com efeito, muito an::i;' : conhecimento de que muitos ofdios so vi\p:::r::; Aristteles j fazia a distino entre animais o\par" ~ e vivparos, considerando nos ltimos, dois tipos (Gc:,- ..,: dos Animais, 718 b). Ao primeiro, dizia Alist:e: pertencem o homem, o cavalo, o co e todos os ani:: .... pelferos, incluindo os aquticos, como golfinhos. _.

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    Tambm ideia muito antiga a de que de _:-::-.':' espcie se pode gerar outra, diferente. No se

    esta ideia com a de evoluo saltacionista, jeterogonia uma questo de origem, no de

    eyolutiva, sistmica ou outra. Na heterogonia, ,::e5 conhecidas teriam, por vezes, Oligem noutras

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    , : _.:.s (H.A., 569 b) este peixe mido produzia -::: adinha (Sprattus sprattus), esta, por seu lado, : ;-'n (peixe indeterminado), o qual originava sardinha

    pilchardus). dedica muita ateno heterogonia nos vegetais

    .stria das Plantas, Livro lI). Para ele pode ser uma __ e~:3.o de 'lugares e de ares'. Dizia-se que em certos . .:: ':':5 a semente de uma planta silvestre originava uma

    cultivada, como se dizia que da cevada podia -.:.~,:er trigo e vice-versa. Teofrasto considerava estas :~ _::-.s='ormaes das plantas contra a natureza e

    - ~,jigiosas. Assim, a hortel-de-gua (Mentha que vive em valas, rios, guas estagnadas e

    ,_z::es hmidos, converter-se-ia, segundo Teofrasto, em i.Y1entha viridis), espcie domstica, na ausncia

    ::. ...:idados que o impedissem. Em certas condies, "::::iill! lllonococcum e T. dicoccum originariam o :::-:~: .::omum. Seria um caso semelhante modificao

    nas sementes por mudana de solo: alteravam conformidade consoante o solo em que eram

    , .e.idas.

    Estas hipteses, que hoje arrecadamos no ba das cUliosidades do passado, fizeram vida durante sculos, enraizando numa das dificuldades mais persistentes da Biologia: a definio de espcie! 7 .

    A verdade que para os naturalistas de quinhentos a heterogonia parecia uma hiptese crvel. Para Anchieta, o bicho-da-taquara, lagarta da borboleta Myelobia smerintha, originava no s a borboleta, como tambm ratos e lagartas que cortam a erva. E uma espcie de colibri ("um dos gneros de guainumb) gerar-se-ia de uma borboleta. Cardim foi mais longe, pois at viu e apreciou, maravilhado, a borboleta a converter-se em colibri, passando em fase intermdia por borboleta e pssaro simultaneamente. At comenta ser esta maravilha - um ser vivo converter-se noutro senz corrupo (o itlico meu) -, ignorada pelos filsofos. S um espontanesta poderia tecer tal comentrio. Como adiante se ver, outros naturalistas do Brasil acreditaram na heterogonia.

    Viviparidade das serpentes. A estupefaco de Anchieta ao ver sair as crias do corpo de uma serpente que matara bastonada significativa da sua insuficiente formao histrico-natural. Com efeito, muito antigo o conhecimento de que muitos ofdios so vivparos. Aristteles j fazia a distino entre animais ovparos e vivparos, considerando nos ltimos, dois tipos (Gerao dos Animais, 718 b). Ao primeiro, dizia Aristteles, pertencem o homem, o cavalo, o co e todos os animais pelferos, incluindo os aquticos, como golfinhos, baleias

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  • e outros cetceos. Neste grupo, a parturio origina crias que j estavam formadas no interior da me. No segundo grupo, constitudo por selceos e vboras, ainda que a cria nasa j forn1ada, as fmeas produzem, internamente, ovos. E estes ovos so 'pelfeitos', isto , o embrio desenvolveu-se dentro deles e custa das substncias nutritivas contidas no ovo. Os dois grupos de animais vivparos, distinguiu-os Aristteles como o dos animais 'internamente vivparos' e 'externamente vivparos', respectivamente.

    At ao sculo XX foi comum denominarem-se os animais 'externamente vivparos' por ovovivparos, no sentido de indicar que, a despeito dos embries se desenvolverem dentro do corpo materno, a sua nutrio era assegurada pelas reservas do ovo. As vantagens da ovoviviparidade pareciam bvias: as fmeas procuram as presas, transportando a sua postura protegida no interior do corpo, onde incubada, e sem consumirem energia na alimentao dos embries. No entanto, todas as formas de transio entre a viviparidade e a ovoviviparidade foram sendo conhecidas, demonstrando graus muito diversos de dependncia nutricional entre os embries e a me e estruturas mais ou menos complexas relacionadas com tal dependncia. Essas formas de transio preencheram todos os intervalos entre um simples processo de incubao interna de algumas serpentes e a estrutura placentria complexa de celtos tubares. E assim, o conceito de ovoviviparidade foi abandonado, adaptando-se complementarmente um conceito de viviparidade mais alargado.

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    Crenas e supersties. Para alm da heteros:on:::.. _._ ~

    justificou um tratamento mais particularizado, h .

    __

    muito interessantes a comentar nesta seco.

    ainda hoje, de prever serem muitas e variadas as C:-~- _'

    e supersties entre os indgenas do Brasil,

    entre os prprios naturalistas do sculo XVI.

    Comecemos pelos 'monstros'. A orao co::: Gndavo [1958] termina o captulo sobre o mc':-,~'marinho, orao que antes se reproduziu, da admirao pelo misterioso. Os pormenores de Baltasar Ferreira contra a hipupira, eventual:::e- ,_ um animal grande, mas assustado, que apenas procc' __ fugir para o mar, demonstram o fascnio exercido::: _ . desconhecido nas pessoas. Porm, Cardim vai mais :,;--:-,-_ e, na mesma 'espcie' de monstro, pelo menos no nome, distingue os homens das mulheres. serem formosas, e descreve a tcnica de matar. e mutilar as presas. No lhe ficando atrs, Soare' Sousa repete as histrias e at indica os locais e :c em que as hipupiras se encontram com freg Jean de Lry, mais discreto, refere apenas cabeas monstruosas, como o peixe-serra.

    Outras crenas, como por exemplo as das couendou, com movimento autnomo e penetra;-;~e. e :.. das 'vboras vi ngati vas' , j nessa poca eram Relativamente a espcies semelhantes, Alberto registara histrias idnticas (Almaa, 2000). A preguia que, de acordo com Lry, vive do \e-:-~: pois nunca ningum a viu alimentar-se, foi durou pouco. Cardim desvaneceu-a, afirmando

  • _~:-C'5 cetceos. Neste grupo, a parturio origina :::-, ~s Je j estavam formadas no interior da me. No

    ,~~ grupo, consttufdo por selceos e vboras, ainda nasa j formada, as fmeas produzem,

    - :~:-::-:;:;=nente, ovos. E estes ovos so 'perfeitos', isto , desenvolveu-se dentro deles e custa das nutritivas contidas no ovo. Os dois grupos vivparos, distinguiu-os Aristteles como o s 'internamente vivparos' e 'externamente , respectivamente.

    _,,__ :1 sculo XX foi comum denominarem-se os animais :er:-,amente vivparos' por ovovivparos, no sentido ,_, __, que, a despeito dos embries se desenvol~:'em dentro do corpo matemo, a sua nutrio era _~ eprada pelas reservas do ovo. As vantagens da

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    do corpo, onde incubada, e sem consumirem na alimentao dos emblies. No entanto, todas _~ ,::~as de transio entre a vivipmidade e a ovovivi

    foram sendo conhecidas, demonstrando graus di versos de dependncia nutricional entre os

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    _- .::.::.onado, adaptando-se complementarmente um de vivi paridade mais alargado.

    Crenas e supersties. Para alm da heterogonia, que justificou um tratamento mais particularizado, h situaes muito interessantes a comentar nesta seco. Frequentes ainda hoje, de prever serem muitas e variadas as crenas e supersties entre os indgenas do Brasil, bem assim entre os prprios naturalistas do sculo XVI.

    Comecemos pelos 'monstros'. A orao com que Gndavo [1958] termina o captulo sobre o monstro marinho, orao que antes se reproduziu, elucidativa da admirao pelo misterioso. Os pormenores da luta de Baltasar Ferreira contra a hipupira, eventualmente um animal grande, mas assustado, que apenas procurava fugir para o mar, demonstram o fascnio exercido pelo desconhecido nas pessoas. Porm, Cardim vai mais longe e, na mesma 'espcie' de monstro, pelo menos idntico no nome, distingue os homens das mulheres, que diz serem formosas, e descreve a tcnica de matar, lamentar e mutilar as presas. No lhe ficando atrs, Soares de Sousa repete as histrias e at indica os locais e pocas em que as hipupiras se encontram com frequncia. Jean de Lry, mais discreto, refere apenas peixes de cabeas monstruosas, como o peixe-serra.

    Outras crenas, como por exemplo as das puas do couendou, com movimento autnomo e penetrante, e a das 'vboras vingativas' ,j nessa poca eram antigas. Relativamente a espcies semelhantes, Alberto Magno registara histrias idnticas (Almaa, 2000). A preguia que, de acordo com Lry, vive do vento, pois nunca ningum a viu alimentar-se, foi crena que durou pouco. Cardim desvaneceu-a, afirmando que no

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  • 100

    podia trazer-se para Portugal por lhe faltarem as folhas da planta de que se nutria. Durante quanto tempo, porm, se acreditou que a tiejuba se alimentava de pedrinhas? E a buijeja que, por mais que se despedaasse, se reconstituia sempre?

    Mais geralmente aceite pelos naturalistas, embora com variantes, era a crena de que as serpentes (slIcuryba, gbia, boitiapia), no acto de constrio, matam as presas enfiando-lhes a cauda no nus, no sexo ou nos ouvidos. E o apodrecimento do ventre e sua ingesto por aves necrfagas, que s deixariam ficar a cabea e a coluna vertebral, seguida de reconstituio e revivescncia do animal. Muito estranha tambm a mortal apreenso dos ndios quando ouviam cantar areIa guararigeg, que tanto espantou Ferno Cardim.

    Com estranheza, tal vez mesmo uma ponta de superstio, foram observadas pelos naturalistas certas situaes sem explicao plausvel na poca. o caso da mordedura das jararacas, quase sempre mortal, mas inofensiva para aqueles que j haviam sido mordidos e sobreviveram. Hoje compreendem-se os mecanismos desta imunidade adquirida; na poca de Anchieta parecia milagre. Mais difcil de explicar, porm com certa comprovao, o relato de Lry sobre a aco anti-dispersiva do veneno de escorpio proporcionada pelos humores do prprio escorpio. Experincias j antigas (Phisalix, 1922) sugerem a existncia de substncias anti-txicas no sangue dos escorpies, que neutralizam at cerio ponto a aco do seu veneno.

    Os franceses no :'\Iar8rl., ~

    A cobia que o Brasil de europeus fez com que os malogro da Frana antrctica, - explorao das riquezas do no\ ~ expedio francesa conseguiu feitorias na costa entre a ilha de :'\1

  • ~',':; ~r::lzer-se para Portugal por lhe faltarem as folhas ::' ..:.r:ta de que se nutria. Durante quanto tempo,

    se acreditou que a tiejuba se alimentava de . E a buUeja que, por mais que se despe

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    boitiapia), no acto de constrio, matam as _ .:S enfiando-lhes a cauda no nus, no sexo ou nos .' '::'os. E o apodrecimento do ventre e sua ingesto

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    que tanto espantou Ferno Cardim.

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    na poca de Anchieta parecia milagre. Mais ~:l de explicar, porm com certa comprovao, o

    cie Lry sobre a aco anti-dispersiva do veneno _::: :::s.::orpio proporcionada pelos humores do prprio ~ .. ,"'; " Experincias j antigas (Phisalix, 1922)

    a existncia de substncias anti-txicas no sangue eS2orpies, que neutralizam at certo ponto a aco sec: \eneno.

    Os franceses no :Maranho

    A cobia que o Brasil despertava noutros pases europeus com que os franceses, mesmo aps o malogro da Frana antrctica, no desistissem da explorao das riquezas do novo pas. 1594, uma expedio francesa conseguiu a fixao de algumas feitoJias na costa entre a ilha de Maranho e o Amazonas. De tal forma que o rei de Frana enviou, em 1604, La Ravardiere com o propsito de estabelecer na costa norte uma zona de colonizao francesa, a qual ficar conhecida por 'Frana equinocial' (Magalhes, 1998) . Em Maro de 1612, parte para a ilha de Maranho uma misso de frades capuchinhos cujo superior era Yves d'vreux e em que participavam Arsene de Paris, Ambroise d'Amiens e Claude d'Abbeville. Arsene mou'eu pouco depois de chegar ao Brasil; os outros frades, por doena ou outras razes, permaneceram apenas uns meses no Maranho. Claude chegou ao Maranho em Agosto de 1612 e voltou para Frana em Dezembro do mesmo ano. acompanhado de seis ndios Tupinambs; em Abril de 1613 estava em Paris. Tal como a Frana antrctica, tambm a Frana equinocial teve vida breve; estoutra aventura francesa ficou liquidada em 1615 (Magalhes, 1998). o curto perodo que Claude d'Abbeville ( ? - 1632) permaneceu no Maranho bastou-lhe para preparar uma interessante crnica sobre a regio, intitulada Histoire de la mission desperes capucins en l'isle de Maragnan et terres circonvoisins e que foi publicada em 1614.

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  • ~este livro, sem figuras, so dedicados quatro captulos (39-42) aos animais. O captulo 39 ocupa-se das aves, descrevendo o frade mais de sessenta espcies e ainda um morcego hematfago, andheure (Desmodus rotundus). As aves so apreciadas pela qualidade da carne (havia muitas consideradas excelentes por Claude) e beleza da sua plumagem. Para o frade ningum podia deixar de se encantar e admirar a sapincia e providncia de Deus ao contemplar a enorme diversidade e beleza das aves que Ele ps no Maranho (Abbeville, 1614, p.244). No captulo referente aos peixes - melhor se diria, aos animais aquticos, pois comporta mamferos, rpteis, peixes e crustceos descreve mais de cinquenta espcies, referindo todavia que h uma infinidade de espcies e, por isso, apenas menciona as melhores e mais comuns. Para comear, o peixe-boi, ou ouaraoua (Trichechus manatus), que os franceses denominavam vache de mer, 'peixe' com carne de excelncia. Chama a ateno para o perigo de se ser espetado pelo aguilho da cauda de batides como o yaebouyre (Dasyatis guttata) e o narinnary (Aetobatus narinari). Entre os peixes dulciaqucolas relata o choque produzido pela enguia-elctrica, pourak (Electrophorus electricus), que frustrava e magoava quem tentasse mat-la espadeirada. Refere tambm a piranha-amarela, ou pyrain (Serrasalmus nattereri), cujo nome tupi significa 'tesoura' e alude aos dentes cortantes. Dos caranguejos, merece referncia o aouara oussa (Ocypode quadrata), branco e grande, que busca mbar-cinzento no espraiado e o transporta para as suas tocas.

    102

    O captulo 41 dedicado aos boa descrio do tamandu 01:, tyla), que bom para comer e cor:s~:-:mais idosos, fica-se a saber que ingerem facilmente a sua carne. se alimenta de formigas, tm receio coragem para a guerra. H tambm '. __ preguias, una (Bradypus tridacry (Choloepus didactylu.s), e a obsen'a -.::._ atacam uma rvore, s a abandonam ~ todas as folhas.

    Quanto serpente boy-t (Crotalz'.' frade (p.233) que ela exibe na por.:.::. bexiga ruidosa, que soa como se es':' ~:: ervilhas, parecendo que Deus e a me..:.. para advertir o homem da sua preseD~ ~ ~ um animal to perigoso. De facto. ouviam o seu sinal, logo procura\ - _ serpente, embora no a comessem. Bc:.. perigosos. O iouboy (Boa cOl1stric~" . classifica de muito venenosa, cenaee:--. tara-gou.y boy (Cnemidophonls lagarto, perigoso e no-comest\e:. (Liophis miliaris), que, a despeito C: ndios comiam. E sapos enormes. c marinus), de carne branca e muito ~ __ fidalgos franceses comerem com gra:-:c:e ~- :: Enfim, um ltimo captulo zoolgcc. 'animais imperfeitos'. O frade avisa (p.25- . a parte h animais pelfeitos e imperfe':::

  • ~:: ~:= ~1 \TO, sem figuras, so dedicados quatro captulos ~ 1 -., .- - --r _ i aos ammaIs_

    = ~ -=-;,f:ulo 39 ocupa-se das aves, descrevendo o frade

    .- _s de sessenta espcies e ainda um morcego

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    .. .::preciadas pela qualidade da carne (havia muitas

    . -s:deradas excelentes por Claude) e beleza da sua

    - .. -=-.::gem. Para o frade ningum podia deixar de se

    - : ":'::-. :~lr e admirar a sapincia e providncia de Deus ao

    . - :;:;:-:;plar a enorme diversidade e beleza das aves que

    ~:..- no Maranho (Abbeville, 1614, p.244). '. - .:::ptulo referente aos peixes - melhor se diria, aos

    aquticos, pois comporta mamferos, rpteis, e5 e crustceos -, descreve mais de cinquenta

    referindo todavia que h uma infinidade de e, por isso, apenas menciona as melhores e

    --_:_.s ,:omuns. Para comear, o peixe-boi, ou ouaraoua ',:,fC!zUS manatus), que os franceses denominavam

    mer, 'peixe' com carne de excelncia. Chama para o perigo de se ser espetado pelo aguilho de batides como o yaebouyre (Dasyatis

    e o narinnary (Aetobatus narina ri). dulciaqucolas relata o choque produzido

    ictrica, pourak (Electrophorus elecfrustrava e magoava quem tentasse mat-la

    Refere tambm a piranha-amarela, ou ISerrasalmus nattereri), cujo nome tupi significa ::-~.-. e alude aos dentes cortantes. Dos caranguejos, --;:'ece referncia o aouara oussa (Ocypode quadrata), --.:::-._ e grande, que busca mbar-cinzento no espraiado

    "':msporta para as suas tocas.

    o captulo 41 dedicado aos animais terrestres. Aps boa descrio do tamandua (Myrmecophaga trdactyla), que bom para comer e consumido pelos ndios mais idosos, fica-se a saber que os mais jovens no ingerem facilmente a sua carne. que, como o tamandu se alimenta de formigas, tm receio de ficar fracos e sem coragem para a guerra. H tambm boas descries das preguias, una (Brad}pus tridactylus) e una ouassou (Choloepus didactylus), e a observao de que, quando atacam uma rvore, s a abandonam aps terem comido todas as folhas.

    Quanto serpente boy-t (Crotalus durissus), diz o frade (p.233) que ela exibe na ponta da cauda uma bexiga ruidosa, que soa como se estivesse cheia de ervilhas, parecendo que Deus e a natureza lha deram para advertir o homem da sua presena e precav-lo de um animal to perigoso. De facto, quando os ndios ouviam o seu sinal, logo procuravam e matavam a serpente, embora no a comessem. Havia outros rpteis perigosos. O iouboy (Boa constrictor), que Claude classifica de muito venenosa, certamente por engano. O tara-gouy boy (Cnemidophorus ocell;fer), espcie de lagarto, perigoso e no-comestvel. O tarehuboy (Liophis miliaris), que, a despeito de ser temvel, os ndios comiam. E sapos enormes, courourou (Bufo marinus), de carne branca e muito boa, que Claude viu fidalgos franceses comerem com grande enlevo.

    Enfim, um ltimo captulo zoolgico dedicado aos 'animais imperfeitos'. O frade avisa (p.254) que em toda a parte h animais perfeitos e imperfeitos (incmodos

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  • 104

    para o homem). Estes ltimos so designados por insectos, havendo quem tambm os chame Armulosa, ou Al1l1ulata. So pequenos animais sem sangue e sem apndices, segundo Claude. Refere vrias espcies do Maranho e detm-se no bicho-do-p, ou f011 (Tunga penetrarlS), cujos malefcios ponnenoriza, aconselhando regras higinicas para os evitar. At a predao exercida por um grilo, koeuioup (Gryllus assinzilis) , sobre o bicho-do-p entra nas consideraes do frade, que, a propsito, reflecte sobre o ciclo da natureza Cp. 258): as galinhas e animais semelhantes comem os koeuioup, que por seu lado comem o bicho-do-p; este incomoda o homem e o homem come a galinha.

    Assim observa e interpreta a natureza o frade de Abbeville. Atendendo a que o seu li vro o produto de apenas cerca de quatro meses de observaes, no se pode deixar de admirar o feito de Claude, que o primeiro a divulgar a fauna do Maranho. A sua curiosidade e alguma preparao (Claude mostra-se conhecedor de Alistteles e Plnio) justificaro a rapidez com que observou, anotou, redigiu e imprimiu o livro sobre o Maranho. As preocupaes dominantes do frade no contrastam com as dos restantes naturalistas: discriminar o que bom para comer ou perigoso para o homem e o que belo ou finalizado. Tudo para glria do Deus criador.

    Rpido foi, igualmente, o superior da misso, Yves d'vreux (15707-16307), que, em 1615, teve impressa a sua obra sobre o Maranho. Ao que parece, todavia, os exemplares do livro foram destrudos logo aps a

    impresso, segundo PelTone-Moiss (199-1-) ?'~

    incmodo recordar a Frana equinocial perante ,'~:;:"_

    aliana entre Frana e Espanha (a que a cor

    Portugal e, p011anto, o Brasil, estavam ligados). D;:~

    se da nota com que Franois de Rasilly abre a

    edio do trabalho de Yves d'vreux [1985J. L .... ,

    au nord du Brsilfait en1613 et 1614, que o

    da primeira, Franois Huby, ter sido subon:ad.:::- '

    proceder quela destruio. Foi Rasilly quem COr.5;:; ..

    recuperar, dois anos e meio aps a public

    destruio) do li vro, o trabalho de Yves

    mutilado da maior parte do prefcio e das pal1e5 _.. ,_

    de alguns captulos. Este recuperado estar na k~

    segunda edio, publicada em 1864.

    Mais filosfico e literrio no estilo, mas mau obsec ~_ ..

    Yves d'vreux deixou um texto sem figuras e r.~;::

    simples de interpretar, em virtude de usar

    nomes de espcies europeias para a fauna do

    Descreve a variao etria da plumagem de

    ruber, chamando-lhe courlis rouge, nome que se .::.:

    aos maaricos (Numenius sp.). Na sequncia _'-::_

    de Aristteles, atribui as caractersticas da p]um;::;;:_

    da pelagem, incluindo a sua colorao, ao .:~= _

    alimentao e sua quantidade, excessiva ou n3.". :

    corpo. Observou a iguana (Iguana iguana). me-~

    nando as cores e hbitos do animal.

    Em um captulo, Yves descreve uma pesca comu:-.. :~'::'

    dos indgenas do Maranho e regies vizinhas.

    meses aps a poca das chuvas - quando as ch:::

    desvaneceram, mas no completamente,

  • tomem). Estes ltimos so designados por - ;:::~(15. havendo quem tambm os chame Annulosa,

    So pequenos animais sem sangue e sem ~~.:-es, segundo Claude. Refere vrias espcies do ~.~:' .. :"::-:o e detm-se no bicho-do-p, ou ton (Tunga

    cujos malefcios pormenoriza, aconselhando _:-_s :liginicas para os evitar. At a predao exercida

    .:~ grilo, koeuioup (Gryllus assimilis), sobre o :-do-p entra nas consideraes do frade, que, a

    reflecte sobre o ciclo da natureza (p. 258): as e animais semelhantes comem os koeuioup, que

    .:' seu lado comem o bicho-do-p; este incomoda o .eD e o homem come a galinha.

    ~,; ::1 observa e interpreta a natureza o frade de ~. ~ :::-e\ Atendendo a que o seu livro o produto de .- ::::"._5 cerca de quatro meses de observaes, no se ':e deixar de admirar o feito de Claude, que o

    a divulgar a fauna do Maranho. A sua ..~3:dade e alguma preparao (Claude mostra-se . -~e2edor de Aristteles e Plnio) justificaro a rapidez

    observou, anotou, redigiu e imprimiu o livro . :::-:'e o ::\1aranho. As preocupaes dominantes do

    :;o contrastam com as dos restantes naturalistas: . s_::minar o que bom para comer ou perigoso para . ~~em e o que belo ou finalizado. Tudo para glria . :Je'JS criador.

    foL igualmente, o superior da misso, Yves -"em (1570?-1630?), que, em 1615, teve impressa

    sobre o Maranho. Ao que parece, todavia, e\emplares do livro foram destrudos logo aps a

    impresso, segundo Perrone-Moiss (1994) por ser incmodo recordar a Frana equinocial perante a recente aliana entre Frana e Espanha (a que a coroa de Portugal e, portanto, o Brasil, estavam ligados). Deduzse da nota com que Franois de Rasilly abre a segunda edio do trabalho de Yves d'vreux [1985], Voyage au nord du Brsilfait en 1613 et 1614, que o impressor da primeira, Franois Huby, ter sido subornado para proceder quela destruio. Foi Rasil1y quem conseguiu recuperar, dois anos e meio aps a publicao (e destruio) do livro, o trabalho de Yves d'vreux, mutilado da maior parte do prefcio e das partes finais de alguns captulos. Este recuperado estar na base da segunda edio, publicada em 1864,

    Mais filosfico e literrio no estilo, mas mau observador, Yves d'vreux deixou um texto sem figuras e menos simples de interpretar, em virtude de usar sobretudo nomes de espcies europeias para a fauna do Maranho. Descreve a variao etria da plumagem de Eudocimus ruber, chamando-lhe courlis rouge, nome que se aplica aos maaricos (Nwnenius sp.).:Na sequncia das ideias de Aristteles, atribui as caractersticas da plumagem e da pelagem, incluindo a sua colorao, ao tipo de alimentao e sua quantidade, excessiva ou no, no corpo. Observou a iguana (Iguana iguana), mencionando as cores e hbitos do animal.

    um captulo, Yves descreve uma pesca comunitria dos indgenas do Maranho e regies vizinhas. Alguns meses aps a poca das chuvas - quando as cheias se desvaneceram, mas no completamente, deixando

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  • 106

    inmeras poas e valas com pouca gua e muito peixe retido -, os indgenas efectuavam a sua pesca anual. Enorme quantidade de peixe era colhido e defumado no local (boucan), sendo depois consumido medida das necessidades. Na mesma campanha, capturavam-se jacars adultos, crias e ovos. Os animais grandes eram cortados em pedaos, seguidamente defumados e conservados. As crias cozidas inteiras e logo consumidas, bem como os ovos. Faziam, igualmente, grandes colheitas de tartarugas, que transportavam vivas nas canoas. Yves no saboreava estes cozinhados, que lhe repugnavam e, nas suas locubraes tericas, seguia Santo Isidoro e Solinus, que haviam escrito sobre animais do Egipto.

    A caa dos ratos, formigas e lagartos , seguidamente, considerada. Os ndios desprezavam os ratos domsticos, embora os caassem, mas para servirem de alvo ao exerccio de arco e flecha dos jovens. Porm, consideravam deliciosos os ratos silvestres (Echimys armatus, Kerodon rupestris). Comiam-nos defumados ou grelhados e preferiam-nos a qualquer outro mamfero. As grandes fonrugas aladas (Atta sexdens) eram tambm muito apreciadas pelos ndios do Maranho. Os lagartos marinhos, uns grandes, taroire (Dracaena guianensis), outros pequenos, tojou (Tupinambis teguixin), viviam no espraiado. Com tanta carne como um coelho ou uma lebre, eram cozidos ou grelhados e um grande petisco para os franceses. Todavia, mais uma vez o frgil Yves se recusou a provar. Os lagartos terrestres (Hemidactylus mabouia, introduzido de frica) eram colhidos nos telhados das habitaes e muito apreciados pelos indgenas, que os comiam grelhados. Yves d'vreux

    verificou que perdem a cauda, atribuindo tal envelhecimento do animal. Na sua opinio, regeneram, ainda que Aristteles, escreve rIS : ~, p. 167], tenha dito que sim. Aranhas, cigarras e mosquitos preenchem UIT. ~ .. captulos. Para comear, a viva-negra (LatrolL -. macrans), grande como um punho, lenta, vem1e::--,'::' muito venenosa. Atemoriza os ndios e, segundo o f;-' alimenta-se da 'conupo do ar' [p. 168]. Depois. ' diversidade de espcies, grandes e pequenas, construtoras de teias, acorrendo imediatamente qU2:''::~ alguma presa se emalha e sugando-lhe a cabe~:: o: . corpo. No entanto, o que abundava no Maranho e-as cigarras, muito diversas no tamanho e no produzido. Yves teve curiosidade em saber corr: " produziam e descreve a sua experincia "primeiro retm o ar no ventre e dilatam o corpo: qG::':' . as asas externas, fortes, tocam as internas, delgJ:::~ difanas, obrigando estas a bater contra os flancos, circula e produz o som." Tambm havia ' . espcies de mosquitos e, entre elas, a mais tem\el ::':::~:: os franceses, o marigoin (Culicoides sp.), qCe atormentava quando iam pescar peixes-bois.

    Os ndios usavam um grilo, coujou (Grillus assim!' Eneoptera surinamensis), como animal de compar.:-- .::. Yves tentou estudar este glilo que, segundo ele [p, ~ - .:. nasceria de gerao e de corrupo. Porqu de cc-:.- o? Porque, quando se construa uma cabana e se c':: '::-:-. de palma fresca, rapidamente o tecto ficava cober:. . coujous. O calor do sol, actuando sobre a palma \,

  • - -::::::-as poas e valas com pouca gua e muito peixe ~.:_':' -. os indgenas efectuavam a sua pesca anual. : - =:-::1': quantidade de peixe era colhido e defumado no . = _. i bOllcan), sendo depois consumido medida das -t;:s:dades. Na mesma campanha, capturavam-se

    _. '::'::-~3 adultos, crias e ovos. Os animais grandes eram em pedaos, seguidamente defumados e

    As crias cozidas inteiras e logo consumidas, r':-. :0:110 os ovos. Faziam, igualmente, grandes colheitas :.::.::-:arugas, que transportavam vivas nas canoas. Yves 3aboreava estes cozinhados, que lhe repugnavam suas locubraes tericas, seguia Santo Isidoro ~ ..:nus, que haviam escrito sobre animais do Egipto.

    _.:..~ a dos ratos, formigas e lagartos , seguidamente, .s:derada. Os ndios desprezavam os ratos doms. embora os caassem, mas para servirem de alvo ~\erccio de arco e flecha dos jovens. Porm,

    '::-.s:deravam deliciosos os ratos silvestres (Echimys :;:~IS, Kerodon rupestris). Comiam-nos defumados

    . --;::lhados e preferiam-nos a qualquer outro mamfero. ,~ ;:.::.ndes fonnigas aladas (Afta sexdens) eram tambm

    apreciadas pelos ndios do Maranho. Os lagartos uns grandes, taroire (Dracaena guianensis),

    -::-5 pequenos, tojou (Tupinambis teguixin), viviam s~raiado. Com tanta carne corno um coelho ou urna , eram cozidos ou grelhados e um grande petisco

    _=-_ ,:5 franceses. Todavia, mais urna vez o frgil Yves . -:: :usou a provar. Os lagartos terrestres (Hemidac

    . ;!:abouia, introduzido de frica) eram colhidos :;::bados das habitaes e muito apreciados pelos

    que os comiam grelhados. Yves d'vreux

    verificou que perdem a cauda, atribuindo tal perda ao envelhecimento do animal. Na sua opinio, no a regeneram, ainda que Aristteles, escreve Yves [1985, p. 167], tenha dito que sim. Aranhas, cigarras e mosquitos preenchem um dos captulos. Para comear, a viva-negra (Latrodectus mactans), grande como um punho, lenta, vermelha e muito venenosa. Atemoriza os ndios e, segundo o frade, alimenta-se da 'corrupo do ar' [p. 168]. Depois, urna diversidade de espcies, grandes e pequenas, muitas construtoras de teias, acorrendo imediatamente quando alguma presa se emalha e sugando-lhe a cabea e o corpo. No entanto, o que abundava no Maranho eram as cigarras, muito diversas no tamanho e no som produzido. Yves teve curiosidade em saber como o produziam e descreve a sua experincia [p. 170]: "primeiro retm o ar no ventre e dilatam o corpo; quando as asas externas, fortes, tocam as internas, delgadas e difanas, obrigando estas a bater contra os flancos, o ar circula e produz o som." Tambm havia diferentes espcies de mosquitos e, entre elas, a mais temvel para os franceses, o marigoin (Culicoides sp.), que os atormentava quando iam pescar peixes-bois.

    Os ndios usavam um grilo, coujou (Grillus assimilis ou Eneoptera surinamensis), corno animal de companhia. Yves tentou estudar este grilo que, segundo ele [p. 172], nasceria de gerao e de corrupo. Porqu de corrupo? Porque, quando se construa uma cabana e se cobria de palma fresca, rapidamente o tecto ficava coberto de coujous. O calor do sol, actuando sobre a palma verde,

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  • 108

    produziria o animal, visto que, colocando palma seca,j isso no acontecia. Mas, tambm se reproduzia sexuadamente e de que maneira. A multiplicao da espcie s limitada pelos seus predadores, que so muitos: lagartos, macacos pequenos chamados sapajous (Saimiri sciums), galinhas e formigas grandes. Havia um animal do tamanho de um lagarto, a que Yves chama camaleo, mas uma iguana (Iguana iguana), e descreve, considerando-o [p. 174] portador de um humor excessivo emfrio (o itlico meu), que o tornaria muito venenoso para algum animal que o comesse. Ento, a natureza, para que ele no envenenasse com a sua excessiva frieza os frutos em que toca, fez com que habite os ramos das rvores que apenas servem para queimar. Havia, ainda, uma infinidade de moscas, umas diurnas, outras nocturnas. Entre elas, as moscas-do-mel, cujos ninhos o frade observou, concluindo que a reproduo da mosca virginal. Tambm se encontravam vespas, uma das quais, negra, constri um complexo ninho de ban'o no alto das rvores. Yves observou pormenorizadamente este ninho, mas um dia bateu com a cabea na cmara da fmea e ela [p. 178] " ... julgando mal a sua inteno, pensou que ele o fizera por afronta e, ento, encolerizada, procurou-lhe os olhos para ferrar ... felizmente Deus desviou-lhe o aguilho para a sobrancelha do frade ..." Apesar disso, a dor foi enorme, a ponto de o frade cair por terra e permanecer doente vrios dias.

    A ona (Panthera anca) o animal mais selvagem do Brasil. Solitria, no procura o homem, sendo raras vezes observada. Caa macacos e ces. Tambm h onas

    -marinhas - que deviam realmente ser lontras brasiliensis) -, to agressivas quanto as tenes";;:~ Encontra-se, igualmente, grande diversidade e de macacos, alguns dos quais pescam caranguej mexilhes. A uns e outros partem com pedras se excessivamente rijos para os seus dentes. 1\as terras vizinhas da ilha de Maranho vem-se guias, cujas plumas so muito apreciadas pelos nd~c~ E uma ave de dimenses considerveis, o ouira-ollas.~-: (Harpia harpija), predadora de macacos, de que S~ levou um exemplar para Frana. Tambm araras ~ caninds, de plumas igualmente desejadas, que =~ indgenas capturam vivas e conservam nas suas casas. C processo de captura muito curioso: fazem esconder-:.:c ~ com folhas de palmeiras no cimo das rvores; as aves se aproximam do-lhes uma cacetada qe ::.~ atordoa e cair ao solo, sem as matar. Ainda ... ~ grande quantidade de aves ribeirinhas a que chan ... :::" garas e andorinhas-do-mar e outras que designou ~~-melros. Termina a sua crnica zoolgica descre\e-.;::': um colibri e os seus minsculos ovos.

    A Frana equinocial assinalou a ltima aventura cesa no Brasil. Independentemente da qualidade _~ estudos produzidos - mais autntico o de Cl2.~C::;;: d'Abbeville, escolstico e afastado da natureza c c::~ Yves d'vreux -, de apreciar a diligncia dos capuchinhos, que, em perodo restrito, viajaram o Maranho, a permaneceram alguns meses, regre~saram a Frana, escreveram e publicaram as suas sobre o Brasil. Marcaram bem a diferena entre L:-':":

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    ainda, uma infinidade de moscas, umas diurnas, ..s nocturnas. Entre elas, as moscas-do-mel, cujos

    o frade observou, concluindo que a reproduo da 3_.:. \rginal. Tambm se encontravam vespas, uma

    --~.". negra, constri um complexo ninho de barro no " ~5 6ryores. Yves observou ponnenorizadamente este

    ~ _. rT.as um dia bateu com a cabea na cmara da fmea ::'. 178J " ... julgando mal a sua inteno, pensou que zera por afronta e, ento, encolerizada, procurou

    ::' ~'S :-lhos para ... felizmente Deus desviou-lhe o ' ... :::'0 para a sobrancelha do frade ... " Apesar disso, a - ~--:~ enorme, a ponto de o frade cair por terra e -~::.ne.:er doente vrios dias.

    =.. ~::. I PClllthera onca) o animal mais selvagem do Solitria, no procura o homem, sendo raras vezes

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    -marinhas que deviam realmente ser lontras (Pteronura brasiliensis) -, to agressivas quanto as terrestres. Encontra-se, igualmente, grande diversidade e quantidade de macacos, alguns dos quais pescam caranguejos e mexilhes. A uns e outros partem com pedras se forem excessivamente rijos para os seus dentes . N as terras vizinhas da ilha de Maranho vem-se grandes guias, cujas plumas so muito apreciadas pelos ndios . E uma ave de dimenses considerveis, o ouira-ouassou (Harpia harpija) , predadora de macacos, de que se levou um exemplar para Frana. Tambm araras e caninds, de plumas igualmente desejadas, que os indgenas capturam vivas e conservam nas suas casas. O processo de captura muito curioso: fazem esconderijos com folhas de palmeiras no cimo das rvores; quando as aves se aproximam do-lhes uma cacetada que as atordoa e faz cair ao solo, sem as matar. Ainda viu grande quantidade de aves ribeirinhas a que chamou garas e andorinhas-do-mar e outras que designou por melros. Termina a sua crnica zoolgica descrevendo um colibri e os seus minsculos ovos.

    A Frana equinocial assinalou a ltima aventura francesa no Brasil. Independentemente da qualidade dos estudos produzidos mais autntico o de Claude d' Abbeville, escolstico e afastado da natureza o de Yves d'vreux -, de apreciar a diligncia dos frades capuchinhos, que, em perodo restrito, viajaram para o Maranho, a permaneceram alguns meses, regressaram a Frana, escreveram e publicaram as suas obras sobre o Brasil. Marcaram bem a diferena entre uma

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  • 110

    intelectualidade aberta, que no tinha nada a perder por isso, e uma poltica de secretismo, afinal de pouco valendo, pois a comercializao dos produtos do Brasil manteve sempre viva a cobia dos estrangeiros. Como adiante se ver, Portugal s perdeu com isso, pelo menos dos pontos de vista cultural e cientfico.

    Frei Cristvo de Lisboa e outros natural5t2"; do seu tempo

    Cristvo Severim (1583-1652) tomou o nome ~~ :;:::~ Cristvo de Lisboa ao tornar-se frade de S:-:- ~ Antnio. Estudou na Universidade de vora e -::-:-:- . para o Maranho em 1624. O Maranho era, na e-::-~. um vastssimo territrio que inclua tambm Cear. 2::: __ Par e Amazonas. A permaneceu onze anos. Empe:--.- . _ se na elaborao de uma 'Histria natural e me~__ . Maranho', que continuou a escrever ao regress Lisboa e reuniu em quatro volumes. Parte dest2 -"referia-se aos animais e plantas do Maranho e n:l.:: autoria de Frei Cristvo. Ter incumbido algJc escrever e talvez outra pessoa de fazer os desen:-:c portugus deste cdice revela pouca cultura, ao :--:~ que os desenhos so de boa qualidade; feitos 2. . cobertos, quase todos, de tinta (Walter, 19671. H razes para acreditar que o cdice sobre os ar.: e rvores ter sido separado do resto da 'Histla ::"' e moral do Maranho' e entregue ao gravado:' . Baptista para efeitos de prova e oramento. duas gravuras e, aparentemente, o cdice j n:lc das mos do gravador e de quem, depois, herdou os seus bens. Presume-se que assim acontecido porque a 'Histria natural e ~ desapareceu, ao que parece no incndio que SL:~ ao terramoto de 1755, enquanto o cdice em se conservou at aos nossos dias. Foi ~ 1933 e integrado no Arquivo Histrico Colonial. s;::- _:

  • 1 I

    ._. _ -:Jalidade aberta, que no tinha nada a perder por .:ma poltica de secretismo, afinal de pouco

    - ~-.~:!. pois a comercializao dos produtos do Brasil -::.e sempre viva a cobia dos estrangeiros. Como .-::e se \cr, Portugal s perdeu com isso, pelo menos

    . :: ':-;[OS de vista cultural e cientfico.

    Frei Cristvo de Lisboa e outros naturalistas do seu tempo

    Cristvo Severim (1583-1652) tomou o nome de Frei Cristvo de Lisboa ao tornar-se frade de Santo Antnio. Estudou na Llniversidade de vora e partiu para o Maranho em 1624. O Maranho era, na poca, um vastssimo tenitrio que inclua tambm Cear, Piau, Par e Amazonas. A permaneceu onze anos. Empenhouse na elaborao de uma 'Histria natural e moral do Maranho', que continuou a escrever ao regressar a Lisboa e reuniu em quatro volumes. Parte desta obra referia-se aos animais e plantas do Maranho e no da autoria de Frei Cristvo. incumbido algum de a escrever e talvez outra pessoa de fazer os desenhos. O pOltugus deste cdice revela pouca cultura, ao passo que os desenhos so de boa qualidade; feitos a lpis e cobertos, quase todos, de tinta (Walter, 1967). H razes para acreditar que o cdice sobre os animais e rvores ter sido separado do resto da 'Histria natural e moral do Maranho' e entregue ao gravador Joo Baptista para efeitos de prova e oramento. Fizeram-se duas gravuras e, aparentemente, o cdice j no saiu das mos do gravador e de quem, depois, guardou ou herdou os seus bens. Presume-se que assim tenha acontecido porque a 'Histria natural e moral' desapareceu, ao que parece no incndio que sucedeu ao terramoto de 1755, enquanto o cdice em referncia se conservou at aos nossos dias. Foi encontrado em 1933 e integrado no Arquivo Histrico Colonial, sendo

    111

  • exibido em 1934 no Porto, durante a Exposio Colonial Portuguesa (Pina, 1942). O cdice parece mais um livro de notas participado por duas ou mais pessoas, do qual se partiria para obra mais apurada. Seja como for, a sua elaborao verificou-se entre 1624 e 1627 (\Valter, 1967) e consta de 198 folhas de papel, das quais 164 com 259 desenhos (116 de peixes, alguns repetidos; 21 de mamferos e rpteis, sem texto acompanhante; 67 de aves; e 55 de vegetais) e nas 30 restantes os comentrios sobre as espcies. ainda um frontispcio e trs folhas iniciais com ndice alfabtico das espcies. Ao regressar a Lisboa, em 1635, Frei Cristvo ter procurado obter, sem xito, subsdios para a publicao da sua 'Histria natural e moral'. A verdade que s a parte relativa Histria Natural persistiu, sendo publicada com 340 anos de atraso [Frei Cristvo de Lisboa, 1967]. A impresso transmitida por Walter (1967) no seu valioso estudo sobre este cdice perfeitamente sensvel a quem consulte 'Histria dos animais e rvores do ?vfaranho'. Figuras de boa qualidade, mas texto que parece sem retoques finais, ttulos adequados e portugus mais fluente e culto. Vejam-se as diferentes seces por ordem da numerao original das figuras.

    Peixes do Maranho. Pelos ttulos de seces seguintes se depreende que 'Maranho' tem aqui o sentido restritivo da provncia encaixada entre o Par e o Cear. Ao estilo da poca, Frei Cristvo (toma-se o patroci

    112

    nador da obra como seu autor, embora saibam~s no o foi) inclui em 'Peixes' os animais aquti,>:,~ =:

    independentemente da sua efectiva ~,'_ taxonmica. A seco 'Peixes do ?vfaranho' a 55 espcies, todas com denominaes vernc 65 figuras inseridas nas primeiras 28 folhas nume:-_~,~ Para comear, as duas figuras da folha 1 TPT','P"'"T' guaragua, peixe-boi, ou vaca-do-mar manatus), sirnio que, como se verificou anterior:::::~:;-::: era muito comum em todo o litoral brasileiro e ;;~ apetecido. As figuras so diagnosticamente desenn:::..:_, pois so visveis as mamas axilares, caracterstic::. .::.: ; sirnios, e as unhas, caracterstica da espcie. A figura da folha 5 representa outro mamfero, um pocosi, ou golfinho-saltador (Stenella longir}'i~,'.-;segundo Nomura, 1996b). Os rpteis tambm esto representados nesta se.: -~: Uma tartaruga, goroana, ou oroana (Dennoct; coriacea), figura na folha 25. E os crustceos corno o camaro poty (Macrobrachiuln acantlui': nas folhas 25 e 42, e o caranguejo cery (Callil;" _.. bocourti), na folha 26. Ambas as espcies foram ,,---' por Almaa (1993; identificao de L.B.Holthuis I. excepo de pocosi, todas estas espcies 53C'. ,expresso de Frei Cristvo, "muito boas de co:-:~=:' assim como os ovos da goroana.

    As restantes espcies desta seco so peixes. identificados e estudados pormenorizadamen: .Carvalho (1964). Preocupao dominante de

  • em 1934 no Porto, durante a Exposio Colonial (Pina, 1942).

    c:.::e parece mais um livro de notas participado por .. _.~ ~~ mais pessoas, do qual se partiria para obra mais

    Seja como for, a sua elaborao verificou-se 624 e 1627 (Walter, 1967) e consta de 198 de papel, das quais 164 com 259 desenhos (116

    -o :-e:\es, alguns repetidos; 21 de mamferos e rpteis, ~:-:-, :e\.to acompanhante; 67 de aves; e 55 vegetais) -_~ ~o restantes os comentrios sobre as espcies. H -:.:: 'lill frontispcio e trs folhas iniciais com ndice

    das espcies. Ao regressar a Lisboa, em 1635, - _. Cristvo ter procurado obter, sem xito, subsdios .:.:':: :: :;:mblicao da sua 'Histria natural e moral'. A

    que s a parte relativa Histria Natural '::'~: 3:1'J. sendo publicada com 340 anos de atraso [Frei

    de Lisboa, 1967]. transmitida por "Valter (1967) no seu valioso _~,=, sobre este cdice perfeitamente sensvel a quem

    '. - s.:: te 'Histria dos animais e rvores do Maranho'. ..s de boa qualidade, mas texto que parece sem

    _. =,:,;:eS finais, ttulos adequados e portugus mais fluente , Vejam-se as diferentes seces por ordem da

    original das figuras. '

    ,C.' ao Maranho. Pelos ttulos de seces seguintes - _e?:'eende que 'Maranho' tem aqui o sentido

    .. :: '. da provnci a encaixada entre o Par e o Cear. :: ..10 da poca, Frei Cristvo (toma-se o patroci

    nador da obra como seu autor, embora saibamos que no o foi) inclui em 'Peixes' os animais aquticos em geral, independentemente da sua efectiva posio taxonmica. A seco 'Peixes do ~aranho' refere-se a 55 espcies, todas com denominaes vemculas, e 65 figuras inseridas nas primeiras 28 folhas numeradas.

    Para comear, as duas figuras da folha 1 representam o guaragua, peixe-boi, ou vaca-do-mar (Trichechus manatus), sirnio que, como se verificou anteriormente, era muito comum em todo o litoral brasileiro e muito apetecido. As figuras so diagnosticamente desenhadas, pois so visveis as mamas axilares, caracterstica dos sirnios, e as unhas, caracterstica da espcie. A primeira figura da folha 5 representa outro mamfero, um cetceo, pocosi, ou golfinho-saltador (Stenella longirrostris, segundo Nomura, 1996b). Os rpteis tambm esto representados nesta seco. Uma tartaruga, goroana, ou oroana (Dermochelys coriacea), figura na folha 25. E os cmstceos decpodes, como o camaro poty (Macrobrachium acanthurus), nas folhas 25 e 42, e o caranguejo cery (Callinectes bocourti), na folha 26. Ambas as espcies foram referidas por Almaa (1993; identificao de L.B.Holthuis). A excepo de pocosi, todas estas espcies so, na expresso de Frei Cristvo, "muito boas de comer", assim como os ovos da goroana.

    As restantes espcies desta seco so peixes, todos identificados e estudados pormenorizadamente por Carvalho (1964). Preocupao dominante de Frei

    113

  • Cristvo: indicar os que "so bons de comer", na realidade a maioria (trs quartos das espcies). A fraco que sobra, um quarto, no presta para comer ou s parcialmente aproveitvel (o fgado, por exemplo) ou aps precaues j conhecidas (remoo das vsceras, pele e espinhos).

    Peixes de lagos e rios. No cdice, o ttulo efectivo desta seco longo e toscamente redigido: "Agora falaremos de peixes que se tomam de agua doce, em lagos e rios e perizes de agua doce, onde h muito grande quantidade de peixe que no so bons de comer; e ns comearemos primeiro a falar naqueles que so melhores de comer."

    Nesta seco, que compreende 21 espcies designadas por nomes indgenas e representadas por 20 figuras, tambm so includos crustceos decpodes e quelnios. O primeiro, poti, j considerado na seco anterior e representado na folha 42. Entre as tartarugas, esto figuradas a gerara (Kinostemum scorpioides) na f. 43, e a matamata (Chelusfimbriata) na f. 44. A primeira e o camaro "muito bons de comer". A matamata "no se come", diz Frei Cristvo.

    Os peixes formam a fraco restante e so todos "bons de comer", at o poraque, ou peixe-elctrico (Electrophorus electricus, segundo Carvalho, 1964), de que algumas pessoas se alimentam. Kotveis so a piranha (Serrasalmo nattereri, sego Carvalho, 1964), cuja voracidade Frei Cristvo testemunhou. Interessante

    114

    tambm a mosuinha (Tripor:,> c Carvalho, 1964), que Frei C11st\ comer para doente."

    Peixes do Par. Vinte cinco por nomes vernculos e represem:;c..:., . (fs. 44-60). Entre elas, um cettc;::. porco-marinho (Inia geoffrel1Sis). e "::-:'" .. (Podocnemis cayennensis), de cuja gordura se fazia manteiga ..-'\' so mesmo peixes e, pelo menos. consideradas "boas para comer".

    Mamiferos e rpteis. Segue-se um::. (fls. 62-73), sem texto corresponde:-:~~ . dezoito espcies de mamferos e . comentrios de Frei Cristvo a que ::.:..:~. interesse indicar as espcies figuradas e 'e'~..:: lineanos (vila-Pires, 1989; ::\01'1:'::':. mamferos:

    capiuara Hydroc1w tamandoai Cyclops paca Das)proct~; ,._

    quali

    suasu

    soasu Edoceros Li:. -tatu Dasypus i;

  • \3.0: indicar os que "so bons de comer", na '_Ceie a maioria (trs quartos das espcies). A fraco

    _.. _, _. um quarto, no presta para comer ou s - ~. ':::::1ente aprovetvel (o fgado, por exemplo) ou

    .-::- ~ ~ :::-ecaues j conhecidas (remoo das vsceras, .~:: ~ espinhos).

    ,',~,' ele lagos e rios. No cdice, o ttulo efectivo _::~:.:: seco longo e toscamente redigido: "Agora _.:::-e:11OS de peixes que se tomam de agua doce, em _:: 5 e rios e peTizes de agua doce, onde h muito .:-.:'e quantidade de peixe que no so bons de comer; .. :'5 .:omearemos primeiro a falar naqueles que so

    -::::-.ores de comer."

    ': ;;3' seco, que compreende 21 espcies designadas . :"comes indgenas e representadas por 20 figuras,

    includos crustceos decpodes e quelnios. . ~ "U_H~, poti, j considerado na seco anterior e -;;::,-.:sentado na folha 42. Entre as tartarugas, esto '=":::das a gerara (Kinosternum scorpioides) na f. 43,

    ":,itall1ata (Chelus fimbriata) na f. 44. A primeira "muito bons de comer". A rnatamata "no

    , diz Frei Cristvo.

    formam a fraco restante e so todos "bons ~ omer", at o poraque, ou peixe-elctrico

    electricus, segundo Carvalho, 1964), :;; :'je algumas pessoas se alimentam. Notveis so a

    .-- ',., (Serrasalmo nattereri, sego Carvalho, 1964), ',Jracidade Frei Cristvo testemunhou. Interessante

    tambm a mosuinha (Triportheus angulatus, sego Carvalho, 1964), que Frei Cristvo diz ser "muito bom comer para doente."

    Peixes do Par. Vinte cinco espcies tambm designadas por nomes vernculos e representadas por trinta figuras (fs. 44-60), Entre elas, um cetceo, pira iaguara, ou porco-marinho (Inia geoffrensis), e uma tartaruga,jurara (Podocnemis cayennensis), ambas boas para comer e de cuja gordura se fazia manteiga. As restantes espcies so mesmo peixes e, pelo menos, dois teros delas so consideradas "boas para comer".

    Mamferos e rpteis. Segue-se uma srie de 22 figuras (fls. 62-73), sem texto correspondente, representando dezoito espcies de mamferos e trs de rpteis. Sem comentrios de Frei Cristvo a que aludir, ser de algum interesse indicar as espcies figuradas e respectivos nomes lineanos ( vila-Pires, 1989; Nomura, 1996b). os mamferos:

    capiuara Hydrochaeris hydrochaeris

    tamandoai Cyclops didactylus

    paca Dasyprocta primnolopha

    quari Nasua nasua

    suasu Blastoceros bezoarticus

    soasu Edoceros dichotomus

    tatu Dasypus novemcinctus

    115

  • paca Agouti paca

    tarnbu Trichomys apereoides

    sapagiou Mazama americana

    maracaya Fe!is pardalis

    machacha Saimiri sciureus

    guariba A1arikina tamarin

    porco tarasu Tayassll pecari

    quasini Procyon cancrivorus

    tarnandua Myrmecophaga tridactyla

    priguisa Bradypus tridactylus.

    E as espcies de rpteis representadas so as seguintes (nomes lineanos segundo Nomura, 1996b): synynbu (Iguana iguana), tiuasu (Tupinambis teguixin) e cunara (lloplocercus spinosus) . Como se referiu, no foram conservados os comentrios de Frei Cristvo a estas espcies. Todavia, a avaliar pelos restantes, plausvel que se refelissem qualidade diettica de cada uma delas.

    Aves ribeirinhas. Tambm nesta seco o arrazoado do cdice bem mais longo: "Comearemos agora pelos pssaros que andam ao longo do mar e lagos e rios de agua doce, assim os que so bons de comer e outros, que so honrados pelas penas."

    So 22 espcies designadas por nomes indgenas, que correspondem a 21 figuras (fls. 74-87). Frei Cristvo

    116

    considera quase todas (quatro qu;ntos ~,~ de comer", os adultos ou os pintos. _-\ : no tem apreciao diettica e inclui ficao segundo Oren, 1990): arase; glossus bitorquatus), guahi tocanc, aphia (Tityra cayana) e vacho. c..: phastos tucanus).

    Aves dos matos e campinas. Quarenta ~ __ , so quantas Frei Cristvo reconhe';: campinas do .Maranho. Representam-r.2s 88-109). Uma delas (f. 107), most:-2.. ::._ morcego hematfago, amdura (Desl;: segundo vila-Pires, 1989). Tal como na seco anterior, Frei Crist"'~' - C: no registo do nmero de ovos de cada o maior empenhamento nas aves est 2,: para a beleza da plumagem, capacid~L:; " sons articulados e outros aspectos de Apenas um quarto das espcies come:qualidade diettica.

    No seu conjunto, a obra de Frei confirma inteiramente a opinio que Walter (1967) no seu estudo: descri~s sobre as espcies redigidos em portegus . desenhos de muito melhor qualdae :: _ permitindo com frequncia o diagns::~.~ '-_ Na globalidade foi descrito e ou figuradc _:-:~

  • ",~ica Agouti paca

    11 Trichomys apereoides

    ~.;pa5ioll Mazama americana

    ;;:a]"acaya Felis pardalis :;:ichacha Saimiri sciureus

    z"aria Marikina tamarin

    n}i'CO tarasu Tayassu pecari

    Procyon cancrivorus

    -;liIwl1dua Myrmecophaga tridactyla

    ;" ,'igllsa Bradypus tridactylus.

    - -,-S e3pcies de rpteis representadas so as seguintes -: ~eS lineanos segundo Nomura, 1996b): synynbu

    :,;na iguana), tiuasu (Tupinambis teguixin) e (Hoplocercus spinosus) . ~ -.0 se referiu, no foram conservados os comentrios

    Cristvo a estas espcies. Todavia, a avaliar :>.: s restantes, plausvel que se referissem qualidade

    de cada uma delas.

    . ,; ieirinhas. Tambm nesta seco o arrazoado bem mais longo: "Comearemos agora pelos ~ _ss~ros que andam ao longo do mar e lagos e rios de

    assim os que so bons de comer e outros, ~ _: sEto honrados pelas penas." ~ c .:.: espcies designadas por nomes indgenas, que ..-:--:~s~cm.e.m (\ 'll t\'S\\t(\~ \f\:i!,.ll\-~l).13te.l Cn~t()\1C)

    considera quase todas (quatro quintos das espcies) "boas de comer", os adultos ou os pintos. A fraco restante no tem apreciao diettica e inclui trs espcies (identificao segundo Oren, 1990): arasari tocano (Pteroglossus bitorquatlls), guahi tocano, ouyta opian, ou aplzia (Tityra cayana) e vadIO, ou tocano (Ramphastos tucanus).

    Aves dos matos e campinas. Quarenta e quatro espcies so quantas Frei Cristvo reconhece nos matos e campinas do Maranho. Representam-nas 45 figuras (fls. 88-109). Uma delas (f. 107), mostra, de facto, um morcego hematfago, amdura (Desmodus rotundus, segundo Avila-Pires, 1989). Tal como na seco anterior, Frei Cristvo meticuloso no registo do nmero de ovos de cada espcie. Todavia, o maior empenhamento nas aves est aqui deslocado para a beleza da plumagem, capacidade imitativa de sons articulados e outros aspectos de apreo na poca. Apenas um quarto das espcies comentado quanto qualidade diettica .

    No seu conjunto, a obra de Frei Cristvo [1967J confirma inteiramente a opinio que sobre ela emitiu Walter (1967) no seu estudo: descries e comentrios sobre as espcies redigidos em portugus muito pobre; desenhos de muito melhor qualidade e criteriosos, permitindo com frequncia o diagnstico das espcies. Na globalidade foi descrito e ou figurado um importante

    117

  • 118

    nmero de espcies por iniciativa de Frei Oistvo: duas dezenas de mamferos, sete de aves, uma de rpteis e cerca de uma centena de peixes.

    Outros naturalistas mais ou menos contemporneos de Frei Cristvo consignaram, em doses muito diferenciadas, elementos sobre a fauna do Brasil. Mencionam-se a seguir os principais.

    Ambrsio Fernandes Brando (c.1560 c.1630). Chegou ao Brasil em 1583 e permaneceu at 1618. Proprietrio de engenhos de acar ('senhor de engenho') na Paraba, escreveu um livro 'Dilogo das Grandezas do Brasil' , que apenas foi publicado de forma completa em 1930 (Nomura, 1996b; Paiva, 2000). Nessa obra refere considervel nmero de espcies: cerca de trinta e cinco mamferos, setenta aves, uma dezena de rpteis, cinco de peixes, uma de crustceos, alguns moluscos e dois insectos (Nomura, 1996b).

    Frei Vicente do Salvador (1564 ? - 1639 ?). Nasceu nos alTedores de Sal vador e estudou na Universidade de Coimbra. Ingressou nos franciscanos em 1599. autor de 'Histria do Brasil', obra completada em 1627, mas publicada de forma completa apenas em 1899 (Moiss, 1994). Na Baa observou algumas espcies, sete dezenas, sobretudo de aves e mamferos, que menciona num dos captulos do seu livro (Nomura, 1996b).

    Christobal de Acui1a (1597-1675). Nasceu em Burgos e ingressou na Companhia de Jesus em 1612. Enviado ao

    Chile e Peru, foi designado para acompar' expedio que faria o reconhecimento do Rio ~,\, Saiu de Quito em Fevereiro de 1639 e na\'ego __ _ Par, onde chegou em Dezembro do mesmo ~" observaes efectuadas durante a longa \'iage:-::~ ~ _' inseridas num livro publicado em Madrid em 16-1 ~. teve vrias tradues (vg Acuna, 1682) e foi Manuel Rodriguez em obra mais volumosa (Roc::"::;_ 1684), onde forma parte (captulos VIII-XIIIi cc '.' lI. Aqui refere algumas espcies (cerca de dezena e n'_ de mamferos, aves e rpteis que observou c -:, descida do Amazonas.

    As observaes de Acuna so muito interessace :::

    exemplo: em relao ao peixe-boi, cujas

    alimentares no se cansa de elogiar,j prev a sm:. e\" -

    (Rodriguez, 1684, p. 107). A carncia de sal e a

    medocre do seu sucedneo (cinza de certa

    palmeira) obrigavam a conservar a carne das rr..::: .. :- ~

    apenas defumada pelo fogo de madeira (bollcm: . .::~

    a preservavam por um ms ou pouco mais (Acuf.~ .. .:: :

    captulo 25).

    Para conservar o peixe vivo, os indgenas faziam: _;:

    artificiais, pouco profundas e rodeadas de paliadecs, ~.

    as quais orientavam a gua na poca das

    Depois, paulada na superfcie da gua, atordo:::.

    peixe, colhendo-o mo (Rodriguez, p.108).

    colheita e conservao das tartarugas igualmente, ardilosa: quando elas se desloca\arr:;,.::. margens onde faziam as posturas, deixa\'arr~ . juntassem muitas; depois, a con-er, iam-nas voltanc.: ~ -:

  • espcies por iniciativa de Frei Cristvo: duas . . '::5 de mamferos, sete de aves, uma de rpteis e

    __ ce UDa centena de peixes.

    ",. =s naturalistas mais ou menos contemporneos de - ~~ C:istvo consignaram, em doses muito diferen: _==5. eleDentos sobre a fauna do Brasil. Mencionam

    os principais.

    Ferrwndes Brando (c.1560 - c.1630). ao Brasil em 1583 e permaneceu at 1618. ::::--~,",:etrio de engenhos de acar ('senhor de

    ') na Paraba, escreveu um livro 'Dilogo das do Brasil' , que apenas foi publicado de forma

    __ :-~?:eta em 1930 (Nomura, 1996b; Paiva, 2000). y:-~) refere considervel nmero de espcies:

    "~ .. ', trinta e cinco mamferos, setenta aves, uma _:ena de rpteis, cinco de peixes, uma de crustceos,

    _ "::-.5 moluscos e dois insectos (Nomura, 1996b).

    \ 'cente do Salvador (1564 ? - 1639 ?). Nasceu l:Tedores de Salvador e estudou na Universidade de

    Ingressou nos franciscanos em 1599. autor __ 'Kstlia do Brasil', obra completada em 1627, mas :: _::-::;:ada de forma completa apenas em 1899 (Moiss, . :.,:J..:. I '\ 1 Baa observou algumas espcies, sete dezenas,

    de aves e mamferos, que menciona num dos do seu livro (Nomura, 1996b).

    de Acuiia (1597-1675). Kasceu em Burgos : . - --essou na Companhia de Jesus em 1612. Enviado ao

    Chile e Peru, foi designado para acompanhar uma expedio que faria o reconhecimento do Rio Amazonas . Saiu de Quito em Fevereiro de 1639 e navegou at ao Par, onde chegou em Dezembro do mesmo ano. As observaes efectuadas durante a longa viagem foram inseridas num livro publicado em Madrid em 1641. O livro teve vrias tradues (vg Acufia, 1682) e foi includo por Manuel Rodriguez em obra mais volumosa (Rodriguez, 1684), onde forma parte (captulos VIII-XIII) do Libra !I. Aqui refere algumas espcies (cerca de dezena e meia) de mamferos, aves e rpteis que observou durante a descida do Amazonas.

    As observaes de Acufia so muito interessantes. Por exemplo: em relao ao peixe-boi, cujas qualidades alimentares no se cansa de elogiar, jprev a sua extino (Rodriguez, 1684, p. 107). A carncia de sal e a qualidade medocre do seu sucedneo (cinza de certa espcie de palmeira) obrigavam a conservar a carne das matanas apenas defumada pelo fogo de madeira (bO/.lcan); assim a preservavam por um ms ou pouco mais (Acufia, 1682, captulo 25). Para conservar o peixe vivo, os indgenas faziam lagoas artificiais, pouco profundas e rodeadas de paliadas, para as quais orientavam a gua na poca das inundaes. Depois, paulada na superfcie da gua, atordoavam o peixe, colhendo-o mo (Rodriguez, p.l 08). A colheita e conservao das tartarugas vivas era, igualmente, ardilosa: quando elas se deslocavam para as margens onde faziam as posturas, deixavam que se j untassem muitas; depois, a correr, iam-nas voltando sobre

    119

  • 120

    o dorso; faziam um buraco na carapaa de cada uma, passavam por ele uma corda e conduziam o gmpo para a gua, transportando-o amarrado canoa; em reservatdos artificiais em que, ento, as colocavam, alimentavam-nas com folhas e ramos de rvores. A carne, como os ovos, so considerados excelentes alimentos, ainda que os ltimos um pouco indigestos; da gordura, sendo salgada, fazia-se a melhor mantei ga. As fmeas produzem 200-300 ovos, cuja incubao dura 40 dias (Acufa, captulo 26).

    Richard Fleckno (1600-1678). Jesuta irlands que permaneceu alguns meses de 1648 no Rio de Janeiro. Na viagem de Lisboa ao Brasil e no Rio de Janeiro observou duas dezenas de espcies de que d notcia em livro publicado em Londres por volta de 1655 (No mura, 1997).

    Simo de Vasconcelos (1597-1671). Jesuta portugus com longa permanncia no Brasil a partir de 1616. Autor de vrias obras relativas ao Brasil, numa delas, 'Crnica da provncia do Brasil', publicada em Lisboa em 1663, insere uma contribuio zoolgica diminuta, referindo seis espcies de mamferos e quatro de aves (Nizza da Silva, 1994; Nomura, 1997).

    Naturalistas e artistas no Brasil holands

    Como se, por si s, as dquezas do Brasil, espe.::: :,:-~o acar e o pau-brasil, no bastassem para arra:r :, ~ : :

    das potncias europeias, a reunio, em 1580.

    de Portugal e Espanha no mesmo soberar'.o.

    ficou-a e ampliou-a. Portugal e as suas colnias

    a compartilhar com a Espanha os inimigos dest2 .. ~.

    poderosos. Nomeadamente a Holanda,

    do sculo Xv1I, cuja burguesia mercantilista

    Espanha pela independncia do pas.

    O mercantilismo foi tambm o modo de pene:L:!: .. , holandeses no BrasiL Criaram, para isso, em 162 ~. companhia meio pblica, meio pdvada, a Compagnie, que viria a conseguir uma fixao brasileiro. Aps uma primeira tentativa de Salvador da Baa em 1624, liquidada pelos poc_:;:, __ no ano seguinte, os holandeses conseguiram em Olinda (Pernambuco) em 1630 (Magalhe5 .. ~ ~

    1637, foi nomeado governador e capito-ge:-Brasil holands Joo Maurcio (1604-1679), c;::- __ Nassau-Siegen, que se acompanhar (ou utilize:..:. - . servio) de vrias indi vidualidades que retratari:::::-. ~ ~ um a seu modo, o Brasil holands: Caspar K:::-:.:c: (Gaspar Barlu), historiador; \Villem Pies (Piso l , Georg Marcgraf, naturalista; Albert Eckhout e Fr::::,~ pintores; Zachru1as \Vagener, despenseiro epinto::- :::::'-De uma ou outra forma, todos contribuirarr.. divulgao da fauna nordestina, cabendo logicamente, o seu estudo cientfico.

  • . ~ : :'aziam um buraco na carapaa de cada uma, ele uma corda e conduziam o grupo para a

    ::-,::,;-:spOltando-o amarrado canoa; em reservatrios ~:.::.:s em que, ento, as colocavam, alimentavam-nas

    e ramos de rvores. A carne, como os ovos, . ~ -~.5:cerados excelentes alimentos, ainda que os ltimos - =1':0 indigestos; da gordura, sendo salgada, fazia-se - .::. manteiga. As fmeas produzem 200-300 ovos, -.::.:bao dura 40 dias (Acufia, captulo 26).

    ..' Fleckno (1600-1678). Jesuta irlands que --..:.:-.eceu alguns meses de 1648 no Rio de Janeiro. Na

    de Lisboa ao Brasil e no Rio de Janeiro observou .__ ~ c;:;zenas de espcies de que d notcia em livro

    em Londres por volta de 1655 (Nomura, 1997).

    \lasconcelos (1597-1671). Jesuta portugus ::1ga permanncia no Brasil a partir de 1616. Autor .":5 obras reI ati vas ao Brasil, numa delas, 'CrnGa

    _-;=. \:ncia do Brasil', publicada em Lisboa em 1663, :~-e '.lma contribuio zoolgica diminuta, referindo seis - _ ::e5 manferos e quatro de aves (Nizza da Silva,

    N omura, 1997).

    Naturalistas e artistas no Brasil holands

    Como se, por si s, as riquezas do Brasil, especialmente o acar e o pau-brasil, no bastassem para atrair a cobia das potncias europeias, a reunio, em 1580, das coroas de Portugal e Espanha no mesmo soberano, diversificou-a e ampliou-a. POltugal e as suas colnias passaram a compartilhar com a Espanha os inimigos desta, vrios e poderosos. Nomeadamente a Holanda, grande potncia do sculo XVII, cuja burguesia mercantilista lutava contra Espanha pela independncia do pas .

    O mercantilismo foi tambm o modo de penetrao dos holandeses no Brasil. Criaram, para isso, em 1621, uma companhia meio pblica, meio pri vada, a West-Indische Compagnie, que viria a conseguir uma fixao no nordeste brasileiro. Aps uma primeira tentativa de assalto a Salvador da Baa em 1624, liquidada pelos portugueses no ano seguinte, os holandeses conseguiram instalar-se em Olinda (Pernambuco) em 1630 (Magalhes, 1998). Em 1637, foi nomeado governador e capito-general do Brasil holands Joo Maurcio (1604-1679), conde de Nassau-Siegen, que se fez acompanhar (ou utilizou no seu servio) de vrias individualidades que retratatiam, cada um a seu modo, o Brasil holands: Caspar Barlaeus (Gaspar Barlu), historiador; Willem Pies (Piso), mdico; Georg Marcgraf, naturalista; Albert Eekhout e Frans Post, pintores; Zacharias Wagener, despenseiro e pintor amador. De uma ou outra forma, todos contriburam para a divulgao da fauna nordestina, cabendo a Marcgraf, logicamente, o seu estudo cientfico.

    121

  • 122

    O governo de Joo Maurcio (1637-1644) foi marcado pelas suas excelentes qualidades de organizador. O domnio holands alargou-se, chegando a ocupar a faixa costeira desde sul do Recife at oeste de Cear. Parece, no entanto, que a tolerncia religiosa de Joo Maurcio no Brasil holands coabitavam judeus, calvinistas e catlicos -, desagradava aos portugueses, que nunca deixaram de flagelar os novos senhores do nordeste. E, na sequncia da independncia de Portugal, em 1640, as coisas complicaram-se para os holandeses. Em 1654, j cingidos ao Recife, entregaram a cidade. O Brasil voltou, assim, a ser exclusivamente portugus (Magalhes, 1998). A divulgao da fauna nordestina pelos holandeses assumiu formas variadas, literrias e ou iconogrficas, que se completam, a despeito da sua disperso por vrios centros europeus. Aqui, sero consideradas apenas as principaisI 8.

    Historia Naturalis Brasiliae. Aps regresso Holanda, Joo Maurcio subsidiou a publicao desta obra, que, de facto, rene duas de autores diferentes. A primeira, de W.Piso (1611-1678), intitula-seDe Medicina Brasiliensi, libri quator e, portanto, compreende quatro livros (conjuntos de captulos). A segunda da autoria de G.Marcgraf (1610-1643), tendo sido publicada postumamente. Intitula-se Historiae Renan Naturalium Brasiliae, libri oeto. Quatro dos oito livros que a compem so dedicados aos animais. Numerosas gravuras realizadas a partir de pinturas do prprio Marcgraf e, possivelmente, tambm de Eckhout, fizeram deI a a obra de referncia da

    fauna brasileira. No obstante, mesmo compie:::~~ com as descries de Marcgraf, parte das gra\ "permite identificao segura da espcie, pelo me~ - o crustceos (Holthuis, 1991; Tavares, 1993). Em Historia RerwnNaturalis o livro quarto de~~ aos 'Peixes' e aos 'Peixes crustceos'. Na prin;e~= .. :(86 gravuras) descrita quase uma centena de es-e' Os 'peixes crustceos' (19 gravuras) incluem 3 e.;~e: de crustceos (Holthuis, 1991) cirrpedes. es:~:::-. podes, ispodes e decpodes -, e uma estrel2.-d,>-O livro seguinte ocupa-se das Aves (57 grZ:.. descrevendo-se mais de uma centena de espcies. sexto refere-se aos 'Quadrupedes e Serpentes', 33 gravuras e descrevendo cerca de sessenta ('5;';; ~ sobretudo de mamferos (45 espcies), mas t2.:11:-e-rpteis. O livro stimo dedicado aos insectos. (YJ ~ artrpodes terrestres, pois inclui miripodes e entre as espcies descritas (mais decinquenta I e :'e-:sentadas (29 gravuras). Enfim, um ltimo livro cor,s.:c;:-: s regies e indgenas. De um modo geral, as g~ ::", so de fraca qualidade.

    Dez anos mais tarde (1558), Piso publicou ou::' :De lndiae utlsque re naturali et medica. c.". descreve e representa muitas das espcies j Marcgraf (1648). Foi, por isso, acusado de -Marcgraf, o que, segundo Holthuis (1991), se _ bastante injusto.

    o Thierbueh de Zaeharias Wagener. :-: Dresden, Wagener (1614-1668) foi um dos mer.:: e~

  • . =--:J ce Joo Maurcio (1637-1644) foi marcado ~"':25 excelentes qualidades de organizador. a

    alargou-se, chegando a ocupar a faixa sul do Recife at oeste de Cear. Parece,

    : :----:0. que a tolerncia religiosa de Joo Maurcio::: ~_5" holands coabitavam judeus, calvinistas e '.::: =,S -, desagradava aos portugueses, que nunca

    flagelar os novos senhores do nordeste. E, da independncia de Portugal, em 1640, ~ ~5':;'S complicaram-se para os holandeses. Em 1654,

    ao Recife, entregaram a cidade. a Brasil a ser exclusivamente portugus (Magalhes,

    da fauna nordestina pelos holandeses assumiu . ariadas, literrias e ou iconogrficas, que se ~-::: :=:2:11. a despeito da sua disperso por vrios centros :::'=:'5..-\qui, sero consideradas apenas as principais18.

    Satllralis Brasiliae. Aps regresso Holanda, subsidiou a pubhcao desta obra, que, de

    , -;:one duas de autores diferentes. A primeira, de 1-1678), intitula-se De Medicina Brasiliensi, .~a;or e, portanto, compreende quatro livros

    - _:-,",J5 de captulos). A segunda da autoria de (1610-1643), tendo sido publicada postuma

    Histonae Renun Naturalium Brasiliae, -~, Quatro dos oito livros que a compem so .:c~=s 3.0S animais. Numerosas gravuras realizadas a

    .::- =-- ;:'lnturas do prprio Marcgraf e, possivelmente, '-~ Eckhout, fizeram dela a obra de referncia da

    fauna brasileira. No obstante, mesmo complementadas com as descries de Marcgraf, parte das gravuras no pennite identificao segura da espcie, pelo menos nos crustceos (Holthuis, 1991; Tavares, 1993). Em Historia Rerum Naturalis o livro quarto dedicado aos 'Peixes' e aos 'Peixes crustceos'. Na primeira parte (86 gravuras) descrita quase uma centena de espcies. as 'peixes crustceos' (19 gravuras) incluem 31 espcies de crustceos (Holthuis, 1991) - cirrpedes, estomatpodes, ispodes e decpodes -, e uma estrela-do-mar. a livro seguinte ocupa-se das Aves (57 gravuras), descrevendo-se mais de uma centena de espcies. a livro sexto refere-se aos 'Quadrpedes e Serpentes', inserindo 33 gravuras e descrevendo cerca de sessenta espcies, sobretudo de mamferos (45 espcies), mas tambm de rpteis. a livro stimo dedicado aos insectos, ou melhor, artrpodes terrestres, pois inclui miripodes e aranhas entre as espcies descritas (mais de cinquenta) e representadas (29 gravuras). Enfim, um ltimo livro consagrado s regies e indgenas. De um modo geral, as gravuras so de fraca qualidade.

    Dez anos mais tarde (1558), Piso publicou outra obra, De lndiae utiusque re naturali et medica, em que descreve e representa muitas das espcies j includas em Marcgraf (1648). Foi, por isso, acusado de plagiar Marcgraf, o que, segundo Holthuis (1991), se afigura bastante injusto .

    o Thierbuch de Zacharias Wagener. Natural de Dresden, Wagener (1614-1668) foi um dos mercenrios

    123

  • 124

    enviados pela West-Indische Compagnie ao Brasil. Ocupou o cargo de despenseiro de Joo Maurcio. Pintor amador, Wagener retratou a natureza nordestina. Teixeira (1997a) escreveu o seguinte sobre a obra de Wagener: " ... a inesistvel atraco da Europa seiscentista pelo extico e pelo desconhecido parece constituir o principal fio condutor do relato de Wagener ... voltando-se para a divulgao das maravilhas do Novo Mundo em uma esfera bem mais popular, ainda que no exactamente inculta ou desprovida de conhecimentos ..."

    O Thierbuch encontra-se em Dresden (KupferstichKabinett) e composto por 110 pranchas, precedidas de um curto prefcio do autor. Esto representados 106 animais, 11 vegetais, 8 tipos humanos e 10 mapas, plantas de edifcios e paisagens. o resultado de sete anos de permanncia no Brasil e, ainda que um trabalho sem preocupaes tericas, todas as pinturas so acompanhadas de notas sobre as espcies. A sua execuo , no entanto, inferior de outras do perodo holands do Brasil e h sugestes (Teixeira, 1997a) de que algumas de Wagener sejam cpias de outras efectuadas na mesma poca e inseridas em Libri Principis.

    Libri picturariA 32-38. A coleco de pinturas do Brasil reunida por Joo Maurcio no permaneceu toda com ele. Muitas foram oferecidas por Joo Maurcio a soberanos europeus na inteno, ao que parece, de obter favores deles. A parte mais importante coube ao Eleitor de Brandenburg. Outras fraces, mais pequenas, a Frede11co III, da Dinamarca, e a Lus XIV, de Frana.

    A coleco oferecida ao Prnci pe Eleitor foi cc na Biblioteca do Estado da Prssia, em Be,';::-' Segunda Guena Mundial. Os desenhos reunidos em sete volumes, Libri picturati A 3: ,; ~estes, quatro grandes volumes de pinturc.3 - , (Theatrum) , mais dois volumes de aguare' . Principis, ou Manuais, e um volume pequer.o : figuras, Miscellanea Cleyeri. Um dos \'o:~:,,-' Theatrum, dedicado apenas s aves, foi dero:--,:!cones Volatiliwn. Durante a guena foram na Silsia e perderam-se. Reapareceram em 1':"-Biblioteca Jagiellon, em Cracvia (Boeseman er o' Holthuis, 1991).

    Aguarelas de Leninegrado. A histria das figura3. ::: :-; no fica por aqui. Em 1934, Soloviev descobriu do sculo XVII, representando animais do Br2.~ arquivos da Academia das Cincias da "-Leninegrado. Trata-se de uma importante 145 folhas em que esto pintados 283 animais e r.2.: ~ , folhas de texto. Desconhece-se como forar ::: _:., Leninegrado, a despeito de algumas iniciat'

  • ~s West-Indische Cornpagnie ao Brasil. :: argo de despenseiro de Joo Maurci o. Pintor ~ -:', \\-agener retratou a natureza nordestina. Teixeira

    :- -::. escreveu o seguinte sobre a obra de Wagener: _:-::-eslstvel atraco da Europa seiscentista pelo

    desconhecido parece consti tuir o principal :..::or do relato de \Vagener ... voltando-se para a

    das maravilhas do Novo Mundo em uma esfera """:"" :-:"'_::.:s popular, ainda que no exactamente inculta ou

    de conhecimentos ..."

    encontra-se em Dresden (Kupferstich::1 e composto por 110 pranchas, precedidas

    -:-:- ::".11'to prefcio do autor. Esto representados 106 """:""-'-:s. 11 vegetais, 8 tipos humanos e 10 mapas, plantas

    e paisagens. o resultado de sete anos de ncia no Brasil e, ainda que um trabalho sem

    tericas, todas as pinturas so acompaT'otas sobre as espcies. A sua execuo , no -:~. in:erior de outras do perodo holands do Brasil .: s:...gestes (Teixeira, 1997a) de que algumas de

    ~~ ,,-1 cpias de outras efectuadas na mesma

    - :. :nseridas em Libri Principis.

    -,,:_~!!rariA 32-38. A coleco de pinturas do Brasil .. ;'01' Joo Maurcio no permaneceu toda com ele. -J:'am oferecidas por Joo Maurcio a soberanos

    na inteno, ao que parece, de obter favores " _-\ parte mais importante coube ao Eleitor de

    Outras f1'aces, mais pequenas, a Frederico ::lamarca, e a Lus XIV, de Frana.

    A coleco oferecida ao Prncipe Eleitor foi conservada na Biblioteca do Estado da Prssia, em Berlim, at Segunda Guena Mundial. Os desenhos haviam sido reunidos em sete volumes, Libri picturati A 32-38. Entre estes, quatro grandes volumes de pinturas a leo (Theatrurn) , mais dois volumes de aguarelas, Libri Principis, ou Manuais, e um volume pequeno com 35 figuras, Miscellanea Cleyeri. Um dos volumes de Theatrurn, dedicado apenas s aves, foi denominado Icones Volatilium. Durante a guena foram postos a recato na Silsia e perderam-se. Reapareceram em 1977 na Biblioteca Jagiellon, em Cracvia (Boeseman et al., 1990; Holthuis, 1991).

    Aguarelas de Leninegrado. A histlia das figuras, porm, no fica por aqui. Em 1934, Soloviev descobriu aguarelas do sculo XVII, representando animais do Brasil, nos arquivos da Academia das Cincias da URSS, em Leninegrado. Trata-se de uma importante coleco com 145 folhas em que esto pintados 283 animais e mais sete folhas de texto. Desconhece-se como foram parar a Leninegrado, a despeito de algumas iniciativas para o esclarecimento da sua origemj terem sido tomadas no sculo XIX. Aps pormenorizadas investigaes recentes (Boeseman et aI., 1990), concluiu-se que as aguarelas de Leninegrado so cpias de moderada qualidade feitas a partir dos Manuais e Theatrurn atrs referidos. Algumas esto incompletas, sugerindo cpias apressadas. O que aqui mais interessa o facto de constiturem outra importante referncia para o conhecimento da fauna nordestina no sculo XVII.

    125

  • 126

    Casa de campo do Eleitor da Saxnia. Porm, h mais. Prximo de Dresden, o Prncipe Eleitor da Saxnia, Johann Georg I, mandou construir (1648-1650) uma casa de campo (Hoflossnitz). Para decorao do tecto do salo principal foram efectuadas 80 pinturas a leo, sem data ou assinatura, de aves observadas no Brasil holands. O tecto composto por 80 nichos mais ou menos rectangulares e cada um deles exibe uma pintura representando uma a trs aves, num total de 88 exemplares pertencentes a 77 espcies (Teixeira, 1977b). Como Albert Eckhout, o principal pintor animalista de Joo MaUl1cio, esteve mais tarde, entre 1653 e 1663, ao servio do Eleitor da Saxnia, tem-lhe sido atribuda a autoria das pinturas de Hoflossnitz. Tambm estas pinturas so cpias de figuras includas em Libri picturati (Teixeira, 1977b).

    Outros participantes. Ainda que com representao vestigial, ou quase, na zoologia do Brasil holands, h a referir a participao de outras individualidades. Comease por Johan de Laet (1595-1649), director de WestIndische Compagnie e responsvel pela ida de Marcgraf para o Brasil e pela edio da obra pstuma deste naturalista (1648). Como directorque se preza, sintetizou em obra prpria publicada em 1633 o que j se sabia sobre o Brasil atravs dos relatos de Thevet, Lry e autores portugueses. Nessa obra refere algumas espcies de crustceos (Tavares, 1993). Gaspar Barlu (1584-1648) escreveu a histria do governo de Joo Maurcio, publicada em 1647. Refere algumas

    dezenas de espcies, sobretudo peixes, do :L -:~

    nordeste. Tanto Barlu como Laet nunca

    Brasil.

    Albert Eckhout (161O? 1664), j muito anteriormente, merece, no entanto, referncia

    pela representao de qualidade de mais de uma ,:~:-,:=

    de espcies do norte do Brasil, sobretudo a \es.

    Johan Nieuhof (1618-1671) foi enviado pela Com;,_

    ao Brasil, a permanecendo cerca de nove anos. "'=, uma obra sobre a sua viagem ao Brasil, public3.~':' :::1682, em que refere algumas dezenas de esp,::,:~ nordeste, sobretudo rpteis.

    Comentrio. Para alm do que se referiu, o e;;~ =

    iconogrfico de Joo Maurcio encontra-se

    duzido em pintura mural, tapearia, livro, etc. no:'::'.,:

    que a orientao de um homem de cultura cor.~,:

    durante a pelmanncia de apenas alguns anos no EC:- ~': '

    brasileiro. Assim se compreende que a iconografia :'~'-.::: :..

    por Joo Maurcio tenha sido o veculo de divulg2.;~= uma fauna tropical e extica, cuja novidade era are:,: - .

    na Europa. E que a obra de Marcgraf, a despeito

    qualidade das gravuras, marque o pioneirismo

    cientfico da Regio Neotropical.

    No seu conjunto, os portugueses, bem aE:e;; -

    Marcgraf, haviam descrito muito mais espcies de 3

    e, por vezes, melhor do que ele. S Gabriel S02.::-;;~

    Sousa ultrapassou Marcgraf no nmero de esp,:

  • do Eleitor da Saxnia. Porm, h mais. Dresden, o Principe Eleitor da Saxnia, Johann

    - ::-:; ". mandou construir (1648-1650) uma casa de Hot7ossnitz). Para decorao do tecto do salo foram efectuadas 80 pinturas a leo, sem data ,~ ...:.tura, de aves observadas no Brasil holands. O

    : ~: composto por 80 nichos mais ou menos e cada um deles exibe uma pintura

    s:::-::ando uma a trs aves, num total de 88 exemplares .__ -.:entes a 77 espcies (Teixeira, 1977b). Como - - . Eckhout, o principal pintor animalista de Joo

    _:-:~; esteve mais tarde, entre 1653 e 1663, ao servio ~.e~~or da Saxnia, tem-lhe sido atribuda a autoria , --:.11'as de HojlJssnitz. Tambm estas pinturas

    de figuras includas em Libri picturati (Tei- ~9nb).

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    ,~.. de Laet (1595-1649), director de West.. ~. Col71pagnie e responsvel pela ida de Marcgraf :. '. Brasil e pela edio da obra pstuma deste _.::;ta (1648). Como directorque se preza, sintetizou . . prpria publicada em 1633 o que j se sabia

    atravs dos relatos de Thevet, Lry e . ";: S ;,ortugueses. Nessa obra refere algumas espcies -.::.s :iceos (Tavares, 1993).

    33l'lu (1584-1648) escreveu a histria do governo .- . - . :'launcio, publicada em 1647. Refere algumas

    dezenas de espcies, sobretudo peixes, do norte e nordeste. Tanto Barlu como Laet nunca estiveram no Brasil.

    Albert Eckhout (1610 ? - 1664), j muito citado anteriormente, merece, no entanto, referncia especial pela representao de qualidade de mais de uma centena de espcies do norte do Brasil, sobretudo aves.

    Johan Nieuhof (1618-1671) foi enviado pela Companhia ao Brasil, a permanecendo cerca de nove anos. Escreveu uma obra sobre a sua viagem ao Brasil, publicada em 1682, em que refere algumas dezenas de espcies do nordeste, sobretudo rpteis.

    Comentrio. Para alm do que se referiu, o esplio iconogrfico de Joo Maurcio encontra-se ainda reproduzido em pintura mural, tapearia, livro, etc. notvel o que a orientao de um homem de cultura conseguiu durante a permanncia de apenas alguns anos no nordeste brasileiro. Assim se compreende que a iconografia reunida por Joo Maurcio tenha sido o veculo de divulgao de uma fauna tropical e extica, cuja novidade era apetecida na Europa. E que a obra de Marcgraf, a despeito da pouca qualidade das gravuras, marque o pioneirismo do estudo cientfico da Regio Neotropical.

    No seu conjunto, os portugueses, bem antes de Marcgraf, haviam descrito muito mais espcies do Brasil e, por vezes, melhor do que ele. S Gabriel Soares de Sousa ultrapassou Marcgraf no nmero de espcies de

    127

  • mamferos, rpteis, anfbios e insectos que descreveu e, no que respeita s aves e aos peixes, ficou muito prximo do naturalista alemo. E at j havia boa iconografia de significativo nmero de espcies do Maranho antes da que Joo Maurcio reuniu. Porm, Frei Cristvo no conseguiu public-la.

    128

    Princpios do sculo XVIII

    Conforme se assinalou em 'Introduo', o a::: ::-. publicao da primeira edio de Systel1lCl 11m;!', ,.' 1735, tomado como limite da fase pr-lineana. -se-o, por isso, trs naturalistas que, de uma ou fOlma, se ocuparam da zoologia do Brasil nas prime:, dcadas de setecentos.

    Os dois primeiros, Amde EFrzier (1682engenheiro militar francs, e George Shelvocke I 1728), marinheiro ingls, observaram ambos. coincidncia, espcies da fauna catarinense (Ez:::,:1716). As suas contribuies, ainda que modestas. divulgadas em livros publicados em tempo prprio, e outro registaram duas dezenas de espcies, peixes (Nomura, 1998). O terceiro foi Albertus Seba (1665-1736), alerr:.3.:_. nascimento que viveu em Amesterdo a maior parte __ _ vida. Comerciante de produtos farmacuticos. Se:'_ tomou-se um homem muito rico e devotou-se cc tuio de um gabinete de Histria natural. Adqu::-::-:_ exemplares de provenincias diversas nos barco~ ~_. aportavam a Amesterdo, Seba reuniu uma extraord::-:.:.c:-: _ coleco de Histria natural, que vendeu, em 1717. Pedro, o Grande, da Rssia. Comeou, de seguida. -:._ nova coleco (Holthuis, 1969). Empreendeu. ec': publicao das descries e figuras dos exemplares _..:. reunira. A obra foi concebida e publicada em duas . __ simultneas e em tudo idnticas, excepto na lngua: u:::.:.c e-latim e holands, a outra em latim e francs. Trat2.5 ::::

  • rpteis, anfbios e insectos que descreveu e, Princpios do sculo XVIII - . -: -- ;espeita s aves e aos peixes, ficou milito prximo

    alemo. E at j havia boa iconografia de ;-'::ati\o nmero de espcies do Maranho antes da

    :yfaurcio reuniu. Porm, Frei Cristvo no public-la.

    Conforme se assinalou em 'Introduo', o ano de publicao da primeira edio de Systema naturae, 1735, tomado como limite da fase pr-lineana. Referir-se-o, por isso, trs naturalistas que, de uma ou outra forma, se ocuparam da zoologia do Brasil nas primeiras dcadas de setecentos.

    Os dois primeiros, Amde F.Frzier (1682-1773), engenheiro militar francs, e George Shelvocke (16901728), marinheiro ingls, observaram ambos, por coincidncia, espcies da fauna catarinense (Frzier, 1716). As suas contribuies, ainda que modestas, foram divulgadas em livros publicados em tempo prprio. Um e outro registaram duas dezenas de espcies, sobretudo peixes (Nomura, 1998). O terceiro foi Albertus Seba (1665-1736), alemo de nascimento que viveu em Amesterdo a maior parte da sua vida. Comerciante de produtos farmacuticos, Seba tomou-se um homem muito rico e devotou-se constituio de um gabinete de Histria natural. Adquirindo exemplares de provenincias diversas nos barcos que aportavam a Amesterdo, Sebareuniu uma extraordinria coleco de Histria natural, que vendeu, em 1717, ao czar Pedro, o Grande, da Rssia. Comeou, de seguida, uma nova coleco (Holthuis, 1969). Empreendeu, ento, a publicao das descries e figuras dos exemplares que reunira. A obra foi concebida e publicada em duas edies simultneas e em tudo idnticas, excepto na lngua: uma em latim e holands, a outra em latim e francs. Trata-se de

    129

  • uma obra monumental, em quatro volumes com 449 lminas de soberba qualidade. Em contrapartida, o texto acompanhante medocre (Ho1thuis, 1969). O ttulo varia com a edio, embora o latino, naturalmente, se mantenha. Abreviadamente, conhecida em toda a parte como 'Thesaurus'.

    O volume I, que contem a maior parte dos mamferos, aves e anfbios, foi publicado em 1734. O segundo, incluindo os rpteis, sobretudo serpentes, em 1735. O terceiro, dedicado aos peixes, invertebrados marinhos e algas, em 1759, sendo reeditado com pgina de ttulo nova em 1761. Enfim, o ltimo volume, consagrado aos insectos, minerais e fsseis, em 1765 (Holthuis, 1969). Seba nunca esteve no Brasil nem foi um naturalista de campo. Qual, ento, a sua importncia para o conhecimento da zoologia brasileira? Muito simplesmente por as figuras da sua obra, que so magnficas, serem urna referncia objectiva frequente na fixao da nomenclatura lineana (Linnaeus, 1758). Por exemplo: as espcies figuradas no primeiro e segundo volumes de Thesaurus (Seba, 1734-1735) so referncias, por vezes nicas, de cerca de 65% das espcies lineanas de e anfbios, e 45% de mamferos, da Amrica (Linnaeus, 1758).

    130

    Comentrios finais

    Neste bosquejo zoolgico do Brasil na poca pr-::-= _.h a realar, primeiramente, a heterogeneldJ:::= ::.. contribuies, embora, quase todas, apenas de r;::::_~~: faunstica19 Isso se deve, basicamente, a dois Em primeiro lugar, s diferenas nas prprias pani:::.- ':.::' individuais, pois algumas so vestigiais, outras c::.: - _ mas apesar disso diminutas, outras ainda, coe:- -:: exemplo as de Cardim, Soares de Sousa, Frei - . e Marcgraf, de grande amplido. Em segundo :-....,; diversidade geogrfica delas, que se centraran en~ . - ou regies diferentes do extenso pas que o Bras~: ::' nada perder da disperso geogrfica dos existentes e tambm para beneficiar do para o mesmo local ou regio, quase sempre a dos naturalistas se dirigiu mais para este grupo animal, se entendeu que, mesmo as mnimas, podiam revelar-se de utilidade neste quali tativo.

    Eis por que se contabiliza um total de 32 longo do perodo pr-lineano, ou seja, nos sucederam ao descobrimento do Brasil. A , naturalmente, representada por histria de Portugal e a do Brasil intimamente nesta fase do percurso das duas o contrrio que seria de estranhar. De muito a assinalar que todos os portugueses que escre\"er:1::-' copiosamente, ou menos, sobre a zoologia B-_~ conheceram em primeira mo a natureza do tem de dizer-se, corno a maioria dos naturalistas

  • ~-:c. -:':~ monumental, em quatro volumes com 449 lminas - - - -~. ~.~ qualidade. Em contrapartida, o texto acompa

    _:-_:~ medocre (Holthuis, 1969). O ttulo varia com a ; ~~'. embora o latino, naturalmente, se mantenha. _.:;]damente, conhecida em toda a parte como

    ';.7. ~: ru 5'.

    : . ":::::e I, que contem a maior parte dos mamferos,

    ::: c e anfbios, foi publicado em 1734. O segundo,

    . __ :-do os rpteis, sobretudo serpentes, em 1735. O

    . - - -0. dedicado aos peixes, invertebrados marinhos

    _:=,:c.s. em 1759, sendo reeditado com pgina de ttulo

    -. .::. em 1761. Enfim, o ltimo volume. consagrado aos

    . ~~::JS. minerais e fsseis, em 1765 (Holthuis, 1969).

    :: :..:nca esteve no Brasil nem foi um naturalista de Qual, ento, a sua importncia para o conheci

    zoologia brasileira? Muito simplesmente por as sua obra, que so magnficas, serem uma

    objecti va frequente na fixao da nomenclatura - -~;] (Linnaeus, 1758). Por exemplo: as espcies

    no primeiro e segundo volumes de Yhesaurus .",. 734-1735) so referncias, por vezes nicas, de

    das espcies lineanas de rpteis e anfbios, mamferos, da Amrica (Linnaeus, 1758).

    Comentrios finais

    Neste bosquejo zoolgico do Brasil na poca pr-Jineana, h a realar, primeiramente, a heterogeneidade das contribuies, embora, quase todas, apenas de natureza faunstica19 Isso se deve, basicamente, a dois factores. Em primeiro lugar, s diferenas nas prprias participaes individuais, pois algumas so vestigiais, outras maiores, mas apesar disso diminutas, outras ainda, como por exemplo as de Cardim, Soares de Sousa, Frei Cristvo e Marcgraf, de grande amplido. Em segundo lugar, diversidade geogrfica delas, que se centraram em locais ou regies diferentes do extenso pas que o Brasil. Para nada perder da disperso geogrfica dos elementos existentes e tambm para beneficiar do facto de que, para o mesmo local ou regio, quase sempre a ateno dos naturalistas se dirigiu mais para este ou aquele grupo animal, se entendeu que, mesmo as contribuies mnimas, podiam revelar-se de utilidade neste esboo qualitativo.

    Eis por que se contabiliza um total de participantes ao longo do perodo pr-lineano, ou seja, nos 235 anos que sucederam ao descobrimento do Brasil. A maioria deles , naturalmente, representada por portugueses (9). A histria de Portugal e a do Brasil entrelaavam-se to intimamente nesta fase do percurso das duas naes que o contrrio que seria de estranhar. De muito positi vo, h a assinalar que todos os portugueses que escreveram, mais copiosamente, ou menos, sobre a zoologia do Brasil, conheceram em primeira mo a natureza do pas. De resto, tem de dizer-se, como a maioria dos naturalistas referidos

    131

  • neste trabalho; na realidade, apenas trs fizeram excepo ao estudo directo - Laet, Seba e Barlu.

    Restam, assim, vinte e nove 'naturalistas-exploradores', talvez melhor dizendo, 'colonizadores e naturalistas', pois foi quase sempre como actividade secundria que observaram e escreveram sobre a fauna braslica. S Marcgraf exerceu, profissionalmente, as funes de naturalista, isto , foi remunerado para estudar a Histria natural do Brasil. Os restantes, com mais ou menos cultura, talento ou vocao, escreveram o que podiam, sempre, ou quase, com objectivos utilitrios muito compreensveis.

    Para alm dos portugueses, esperar-se-ia participao significativa de individualidades de pases que exibiram reivindicaes tenitoriais no Brasil ou ao servio desses pases. Assim foi, de facto. Franceses e holandeses (ou estrangeiros por eles contratados) ocupam o segundo lugar no contingente de observadores da fauna (6). Metade da participao 'holandesa' foi constituda por alemes ao servio de West-Indisches Compagnie: Marcgraf, Wagener e Nieuhof.

    H ainda a referir a presena de espanhis, que diminuta (3) relativamente ao perodo - sessenta anos -, durante o qual Portugal e Espanha compartilharam os mesmos soberanos. Para alm disso, espordica e tangencial (Cabeza de Vaca e Acufa), se exceptuarmos Anchieta, de longa e bem-querida permanncia no Brasil. Os restantes europeus fOllTIam um assorti que a aventura, a religio ou os servios relacionaram com o Brasil, em geral

    132

    por curtos perodos: ingleses (2), italianos (1), (1) e belgas (1). Tambm se afigura interessante conhecer a funcional no Brasil do contingente de naturalis::::~ ~ referncia. Distribuio funcional que tem de naturalmente, com o distanciamento devido aos pelo --:~.~trs sculos que nos separam deles. Verifica-se. ':S5~ que a fraco pesada de religiosos (13). Cat;:: vrias ordens, com predominncia de jesutas. ___ calvinista. O contingente seguinte o de 'mi:i ~.::.:: aventureiros', que inclui indivduos (6) de formaes e patentes. Depois, em termos de numrica (3), vrios grupos: 'mdicos e profess - _3 'proprietrios e comerciantes' e 'funcionrios' . E m2..:s.:: cronistas, um naturalista e um pintor profissionais,

    Quando se pensa que, nos sculos XVI e XVII, Se;;::muitas as pessoas culturalmente apetrechadas p:'lra o que observavam, e talvez ainda em menor propo::-; .. : ::

    que emigravam para o Brasil, no de estranha::- c.' _

    fraco mais impOltante seja a dos religiosos.

    esprito implica um mnimo de cultura e, por isso. ;:: _;; religiosos das diferentes ordens passavam pelos cc'

    e universidades. Todavia, a preocupao que

    nos seus escritos histrico-naturais em geral e

    em particular, foi muito mais de ndole utilitria .. __

    terica ou reflexiva. Isto curioso e sugere ~_~

    medievalismo ainda se fazia sentir na zoologia

    sculo XVI e at nos seguintes (Almaa, 1998. :': ': .

    Que os aspectos utilitrios da natureza constitusse;;~. preocupao essencial dos naturalistas pr-line:::.:-. : ~

  • :r.::oal~o; na realidade, apenas trs fizeram excepo ~'. directo - Laet, Seba e Barlu.

    ::: ':_~. assim, vinte e nove 'naturalistas-exploradores', dizendo, 'colonizadores e naturalistas' ,pois

    - _~:se sempre como actividade secundria que ~~.;:ram e escreveram sobre a fauna braslica. S

    exerceu, profissionalmente, as funes de ~: __:lsta, isto , foi remunerado para estudar a His

    do Brasil. Os restantes, com mais ou menos -:. talento ou vocao, escreveram o que podiam,

    ::re. ou quase, com objectvos utilitrios muito : ----::-eensveis.

    dos portugueses, esperar-se-ia participao ,2ativa de individualidades de pases que exibiram

    r.2aes territoriais no Brasil ou ao servio desses , _-\ssim foi, de facto. Franceses e holandeses (ou

    ',. _:-:geiros por eles contratados) ocupamo segundo lugar de observadores da fauna (6). Metade da

    _ .::pao 'holandesa' foi constituda por alemes ao '; ce West-Indisches Compagnie: ~1arcgraf,

    ,.Cf e Nieuhof.

    a referir a presena de espanhis, que diminuta :.:.ti \amente ao perodo - sessenta anos -, durante o

    e Espanha compartilharam os mesmos :: ~ ':::-:05. Para alm disso, espordica e tangencial ::-eZ:l de Vaca e Acufa), se exceptuarmos Anchieta,

    e bem-querida permanncia no Brasil. OS -.:C5 europeus formam umassorti que a aventura, a - 0'1 os servios relacionaram com o Brasil, em geral

    por curtos penodos: ingleses (2), italianos (1), irlandeses (1) e belgas (1).

    Tambm se afigura interessante conhecer a distribuio funcional no Brasil do contingente de naturalistas em referncia. Distribuio funcional que tem de apreciar-se, naturalmente, com o distanciamento devido aos pelo menos trs sculos que nos separam deles. Verifica-se, assim, que a fraco pesada de religiosos (13). Catlicos de vrias ordens, com predominncia de jesutas, e um calvinista. O contingente seguinte o de 'militares e aventureiros', que inclui indivduos (6) de diferentes formaes e patentes. Depois, em termos de igualdade numrica (3), vrios grupos: 'mdicos e professores', 'proprietrios e comerciantes' e 'funcionrios'. E mais dois cronistas, um naturalista e um pintor profissionais.

    Quando se pensa que, nos sculos XVI e XVII, no seliam muitas as pessoas culturalmente apetrechadas pararegistar o que observavam, e talvez ainda em menor proporo as que emigravam para o Brasil, no de estranhar que a fraco mais importante seja a dos religiosos. Cuidar do esprito implica um mnimo de cultura e, por isso, que os religiosos das diferentes ordens passavam pelos colgios e universidades. Todavia, a preocupao que espelharam nos seus escritos histrico-naturais em geral e zoolgicos em particular, foi muito mais de ndole utilitria do que terica ou reflexiva. Isto curioso e sugere que o medievalismo ainda se fazia sentir na zoologia braslica do sculo XVI e at nos seguintes (AI maa, 1998,2000). Que os aspectos utilitrios da natureza constitussem a preocupao essencial dos naturalistas pr-lineanos

    133

  • compreensvel: elucidar os que viessem sobre as possibilidades da terra. Assim sendo, porm, menos fcil compreender por que no foram divulgados na poca prpria pelos portugueses, que afinal formaram o contingente numericamente mais forte dos primeiros tempos. Condicionalismos de vrios tipos, nenhum suficiente por si s, o explicaro. Decorrem eles das polticas dos governos e das ordens religiosas e da poca.

    Os sucessivos governos portugueses aps 1500 desejaram, aparentemente, manter o sigilo sobre as capacidades da terra brasileira. A cobia por parte de outras potncias europeias era grande, nomeadamente a de Frana e de Holanda. Divulgar os 'produtos naturais' - as riquezas do tempo -, pareceria talvez despertar desejos estranhos e ilegtimos. distncia, soa a ingnuo este propsito. Bastava a comercializao dos produtos para divulgar a sua provenincia com amplido mais que suficiente.

    Embora limitado o cmputo literatura em que se divulgaram elementos sobre a zoologia do Brasil, parece que o interesse na publicao das coisas do Brasil no seu tempo prprio esteve, de facto, mais do lado de estrangeiros: Schmidel, Staden, Thevet, Lry, Knivet, Claude d'Abbeville, Yves d'Evreux, Acufa, Fleckno, Piso, Marcgraf, Laet, Barlu, Nieuhof, Frzier, Shelvocke e Seba. Dos nove participantes portugueses somente dois editaram publicaes no mesmo perodo: Gndavo em 1576 e Simo de Vasconcelos em 1665. Outros, como Gabriel Soares de Sousa e Frei Cristvo, no conseguiram publicar as suas obras.

    134

    J&

    plausvel que, em certas ordens

    a informao do Brasil fosse tambm a re g-:-::.

    sido o caso dos jesutas, em particular .... ___ _

    Portugal. Os jesutas fornecerarr. a maior ccc~ .

    (7) entre os religiosos que viajaram c 3 -_

    conhecimentos sobre a terra, transmitidos '

    e acumulados por provinciais e

    permanecido, pelo menos inicialmente. res;:

    ordem. Facultando-os, naturalmente. ou:rc's

    conforme sugerem a repetitividade de c:e:~=

    informaes (vg Cardimrelativamente a

    seguimento de modelos expositivos idnticos I'

    Soares relativamente aCardim:Black.19 . ""'::

    que, entre os jesutas que publicaram'

    zoolgicas sobre o Brasil no perodo em refer:J.':::: _. ,

    em 1641, Fleckno em 1655 e Simo de ';:.:: ,

    1665 -, s o ltimo estava vinculado aPortug2.

    Todas estas sugestes - insiste-se na repeti~:'.. suscitadas apenas pela literatura inserindo zoolgica. Por isso mesmo, caso para perguntar :-..::-.}; em Portugal, durante 235 anos, pensou qc.c. no fosse sob uma perspectiva cultural, seria divulgar na Europa conhecimentos emprimeir2. ::::'. da fauna do Brasil? Tanto mais que o interess_ exotismo e a novidade eram a regra, como _ iniciativas de Joo Maurcio. Se o poder no \ cultura por si s, nem condimen tada com tanta utilitria a cultura era boa para di vul a acoo > O peso dos sigilos foi excessivo para os esclarecidos e inovadores?

  • elucidar os que viessem sobre as possibili::.::. terra. Assim sendo, porm, menos fcil ::~ee:1der por que no foram divulgados na poca

    pelos portugueses, que afinal formaram o numericamente mais forte dos primeiros

    - ~ _3 Condicionalismos de vrios tipos, nenhum ._. e:1:e por si s, o explicaro. Decorrem eles das ... ::::s dos governos e das ordens religiosas e da poca.

    .' ~_:e5si\'os governos portugueses aps 1500 dese_- -- J.parentemente, manter o sigilo sobre as capacidades _::'-:-3. ':Jrasileira. A cobia por parte de outras potncias

    _::- _.:13 era grande, nomeadamente a de Frana e de Di vulgar os 'produtos naturais' - as riquezas do

    - ~ _. pareceria talvez despertar desejos estranhos e ..:nos. distncia, soa a ingnuo este propsito. .:.'. J. a comercializao dos produtos para divulgar a

    _ :-~.:::.\eninciacom amplido mais que suficiente. :-:'.:- --a limitado o cmputo literatura em que se

    elementos sobre a zoologia do Brasil, parece .. :,. :eresse na publicao das coisas do Brasil no seu .::') prprio esteve, de facto, mais do lado de

    Schmidel, Staden, Thevet, Lry, Knivet, ._.:.~_ d' :\bbeville, Yves d'Evreux, Acuna, Fleckno, Piso,

    . Laet, Barlu, Nieuhof, Frzier, Shelvocke e "" r:ove participantes portugueses somente dois

    _ . .:.~ J.:TI publicaes no mesmo perodo: Gndavo em :: ~ e Simo de Vasconcelos em 1665. Outros, como ~ _. o.e: Soares de Sousa e Frei Cristvo, no conse

    publicar as suas obras.

    plausvel que, em certas ordens religiosas, o sigilo sobre a informao do Brasil fosse tambm a regra. Talvez tenha sido o caso dos jesutas, em particular dos vinculados a Portugal. Os jesutas forneceram a maior comparticipao (7) entre os religiosos que viajaram para o BrasiL Os conhecimentos sobre a ten'a, transmitidos epistolannente e acumulados por provinciais e gerais, parecem ter permanecido, pelo menos inicialmente, reservados ordem. Facultando-os, naturalmente, a outros jesutas, conforme sugerem a repetitividade de certo tipo de informaes (vg Cardim relativamente a Anchieta) ou o seguimento de modelos expositivos idnticos (vg Francisco Soares relativamente a Cardim; Black, 1989). Note-se que, entre os jesutas que publicaram informaes zoolgicas sobre o Brasil no perodo em referncia - Acuna em 1641, Fleckno em 1655 e Simo de Vasconcelos em 1665 -, s o ltimo estava vinculado a PortugaL

    Todas estas sugestes - insiste-se na repetio -, so suscitadas apenas peI a literatura inserindo informao zoolgica. Por isso mesmo, caso para perguntar: ningum em Portugal, durante 235 anos, pensou que, quanto mais no fosse sob urna perspectiva cul tural, sel1a interessante divulgar na Europa conhecimentos emprimeim mo acerca da fauna do Brasil? Tanto mais que o interesse pelo exotismo e a novidade eram a regra, como provam as iniciativas de Joo Maurcio. Se o poder no valorizava a cultura por si s, nem condimentada com tanta diversidade utilitria a cultura era boa para di vulgao pblica? Ou o peso dos sigilos foi excessi vo para os portugueses esclarecidos e inovadores?

    135

  • Notas

    1 A primeira edio impressa do relato de traduo francesa de cerca de 1525, Le 1'Qyc,ge

    per les Espaignolz es is[es resumo, sem nome de autor. A despeito dos nenhuma edio foi impressa em sua vida i ';c\'.e::. ~ 2 Como o anotador de Anchieta [

    3 Sobre os princpios da classificao etnobiolgi.::~ e nomenclatura, uma e outra por vezes comple\..:s .. _ (1992).

    evidente que, neste ponto, Anchieta ~::~=.=.; s s formigas (Himenpteros), como sobretud:: (Ispteros). As trmitas, tambm denomil1aj~, brancas', ainda hoje constituem uma praga '10 ::i ~ responsveis por elevados prejuzos econmcos urbanas, monumentos, florestas, pastagens. etc. Sobre o tema ver Fontes e Filho (1998). 5 Esta informao de Gndavo no confere .::c~.

    Anchieta muito mais tarde, em 1585. Nesta data . .:::=

    apenas comeavam a desenvolver-se os

    domsticos trazidos do Reino. Como podiam.

    contingentes importantes antes de 156P Os '"

    referiam-se, possivelmente, a diferentes zoms

    Brasil.

  • Notas

    ; A primeira edio impressa do relato de Pigafetta foi uma traduo francesa de cerca de 1525, Le voyage et navigation, falct per les Espaignolz es isles Mollucques, que apenas um resumo, sem nome de autor, A despeito dos esforos de Pigafetta. nenhuma edio foi impressa em sua vida (Nowell, 1962). 2 Como o anotador de Anchieta [1933a1 correctamente assinala, o 'sair do rio' uma fora de expresso, Os peixes buscam os leitos de montante em que o substrato, a temperatura e a oxigenao da gua so adequados desova, Este instinto fortssimo e os mais tnues fios de gua so aproveitados para a deslocao rio acima. Os peixes ficam, ento, muito vulnerveis a qualquer acto de captura, inclusivamente apanha directa, mo, J observei comportamento idntico da boga Chondrostoma wllkommi em afluentes do Guadiana, No princpio da Primavera, grandes cardumes desta espcie empreendem a migrao reprodutora e qualquer veio de gua, por pequeno que seja, percorrido pelos peixes. Deixam, ento, capturar-se facilmente, at mo,

    3 Sobre os princpios da classificao etnobiolgica e respectiva nomenclatura, uma e outra por vezes complexas, ver Berlin (1992). 4 evidente que, neste ponto, Anchieta [1933b 1 refere-se no s s formigas (Himenpteros), como sobretudo s trmitas (Ispteros), As trmitas, tambm denominadas 'formigasbrancas', ainda hoje constituem uma praga no Brasil, sendo responsveis por elevados prejuzos econmicos. Afectam reas urbanas, monumentos, florestas, pastagens, terras agrcolas, etc. Sobre o tema ver Fontes e Filho (1998), 5 Esta informao de Gndavo no confere com a dada por Anchieta muito mais tarde, em 1585. Nesta data, diz Anchieta, apenas comeavam a desenvolver-se os contingentes de animais domsticos trazidos do Reino. Como podiam, pois, formar j contingentes importantes antes de 1561? Os dois autores referiam-se, possivelmente, a diferentes zonas geogrficas do Brasil.

    137

  • 6 Os pecaris tm uma glndula odorfera dorsal, cuja abertura sugeria a Gndavo 'um umbigo nas costas'. Devido a esta caracterstica, Cuvier, em 1817, criou para eles o nome genrico Dicotyles, que significa 'dois umbigos'. Durante muito tempo, as duas espcies de pecaris permaneceram neste gnero. Posteriormente, verificou-se que o nome Tayassou, criado por Fischer em 1814, tinha prioridade.

    7 Nomura (l996a) no refere qualquer nome Ineano para os 'aores' de Gndavo. 8 Nomura (1996a) identifica o nome anapur de Gndavo com o nome actual 'papagaio-verdadeiro', ambos atribufdos a Amazona aestiva. Talvez porque aqueles a que Gndavo chamou 'papagaios-verdadeiros' no fossem seno jovens dos seus anapurs. Ambos, de facto, so referidos por Gndavo como bons faladores, embora o anapurl de tamanho grande ("maiores que aores") e os papagaios-verdadeiros mais pequenos ("do tamanho de pombas"). 9 Note-se que as fases de colorao desta variao etria indicadas por Gndavo no coincidem exactamente com as citadas por Anchieta. lO J se referiram extensamente noutra publicao (Almaa, 1998) os comentrios de Gndavo sobre o peixe-boi. Por isso, no sero aqui repetidos. 11 Nomura (l996a) no identifica os peixes referidos por Gndavo. Os nomes lineanos que indico so, portanto, da minha exclusiva responsabilidade. Baseei-me nos nomes vernculos e descries de Gndavo, de Nomura (l996a ), quando comenta outros naturalistas do Brasil, e de Carvalho (1964), no seu estudo dos peixes de Frei Cristvo de Lisboa. 12 So vrias as espcies de cetceos que se aproximam das costas do Brasil, pelo que seriam incertas as identificaes eventualmente indicadas. n ,. E a segunda edio (1578) fac-similada do livro de Lry que

    se segue. Na opinio do seu anotador, Jean-Claude Morisot, esta a edio que contem o melhor de Lry.

    138

    ;4 Lry assinala no ter visto animais se:-:-,e'- -:~,

    figura no fim do terceiro livro das suas -"

  • . :~;s :m uma glndula odorfera dorsal, cuja abertura : Gndavo 'um umbigo nas costas'. Devido a esta

    ,':

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  • Edio do Museu Bocage

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  • ou peixe-boi, Trichechus I1wnat/lS, era aitamente ameClalla eOlOmzaoore~, Fizeram-se vcrdadeiras razias desta espcie.

    extino, Hoje euma espcie