A Vontade-Bicho

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Romance de Roberto Carlos Costa.

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  • A VONTADE-BICHO

    Romance de

    Roberto Carlos Costa

  • PREFCIO

    Quando recebi os originais das mos de Roberto Carlos, nada imaginei alm da delicadeza com que deveria me portar ao ter, comigo, um pedao da sua inteligncia. Os trabalhos de direo de uma pea de teatro, prestes a estrear, me fizeram protelar a leitura. Eu no tinha o direito de fazer isso comigo. Como empurrar pra frente um prazer como o que A VONTADE-BICHO me haveria de proporcionar?

    H pessoas que nascem com o maravilhoso privilgio de saber escrever. De ter o dom da estratgia literria em que a arrumao das palavras expe, fielmente, as idias concebidas e que s precisam desse pendor para se tornarem consumidas.

    Deitei-me numa rede amiga de uma manh radiante e, despretensiosamente, iniciei a leitura. Cac, personagem principal, me foi sendo apresentado paulatinamente, na sala ao lado, e seus dramas de um cotidiano sofrido comearam a compor um cenrio sentimental, atraente e vibrante. A TV anunciava 5 minutos para a partida de um Grande Prmio de Frmula Um, na sala ao lado. Mergulhei na leitura acompanhando Cac j, agora, ao lado do gato com quem haveria de ter problemas futuros ao necessitar dividir uma escassa refeio. No intuito de matar a fome lanou-se

  • aventura de subtrair da quitanda do gorducho avermelhado o que lhe fizesse saciar o apetite.

    A criada me ps em mos o jornal do domingo, cheio de tudo quanto eu gostaria de saber. Fica no cho. A TV anuncia a volta de apresentao dos pilotos E Cac quem larga na frente, deixando para trs Schumaker, Hill, Alesi e Barriquello. Segue at encontrar a famlia chinesa que haveria de lhe dar a mo.

    Tudo se desenvolve numa linguagem que corre numa pista plana onde o talento posto prova e vence, com facilidade, os obstculos aparentemente difceis. A tcnica de estruturar esta Novela-Romance ou este Romance-Novela nos transporta dos planos do foi, do que e do que ser, com habilidade de escritor tarimbado. No h rebuscamentos, sofisticaes, poses e tudo caminha dentro de uma convico de escrita a par de um objetivo de alcance bem definido.

    Li tudo, de um flego s. O jornal do domingo haveria de ser lido, somente, tarde e a notcia da vitria de Damon Hill j no me abalaria em nada, pois Cac era o grande vencedor da manh.

    Prevejo que a trajetria de Roberto Carlos Costa no campo literrio longa e segura. Tem a inspirao e a capacidade de compor adequadas, a par de um estilo prprio e de uma linguagem polida, rica de imagens que, no conjunto, transmitem ao leitor a satisfao que s os que sabem escrever podem conseguir.

  • A VONTADE-BICHO o arauto de um grande autor. Resta que no se gaste na volpia de produzir e que burile sua sensibilidade, to bem herdada do pai, Alderico Costa, inesquecvel companheiro de palco do Teatro de Amadores de Pernambuco.

    Reinaldo de Oliveira

  • Sumrio

    O INSTINTO HUMANO .............................................................. 8

    UM DIA DE CO ....................................................................... 10

    VIDA DE CO ............................................................................ 33

    A VIDA FASCINANTE ............................................................ 37

    PODERIA SER A CONSCINCIA ............................................. 45

    RETORNO TERRVEL REALIDADE ..................................... 51

    A CULPA NO ERA DELE... ..................................................... 57

    O LIMITE DA CONSCINCIA .................................................. 73

    O PEDIDO DE UMA FAMLIA AMIGA ................................... 84

    NO PARARIA MAIS DE PENSAR ........................................... 90

  • 8

    A Vontade-Bicho

    Captulo um

    O INSTINTO HUMANO

    Havia uma nvoa frente, como se uma penumbra cobrisse os olhos daquele que passava a viver um percurso de vida diferente. Apenas golpes de conscincia guiavam seus passos at ali, onde no sabia como nem quando chegara. Sentia-se fraco, sonolento e seu instinto humano garantia algumas atividades sobreviventes. Fazia-o reconhecer que era gente, precisava de um teto, de se alimentar e de descanso. Aqui e ali, tropegamente, encontrava apoio numa rvore ou poste daquela calada que no conhecia de lugares que, por mais que olhasse e fustigasse a memria, no o situavam nem orientavam. Aquele instinto humano, sabia, era seu nico trunfo, caso quisesse saber de onde vinham aquelas crianas, aquelas grades, o medo... Mal sentia a pele, a respirao se dava com dificuldade e um suor frio molhava at mesmo sua alma.

    Maltrapilho, sujo, mal cheiroso e desorientado, estava exposto ao mundo so e insano. Poderia ser confundido com qualquer pessoa ruim, suspeita, moribunda, capaz dos mais hediondos atos, de verdadeiras atrocidades. Era terrvel desconhecer o que fazia ali, onde morava, quem era. As pessoas cruzavam seu caminho apressando o passo, esquivando-se, negando o olhar, indignando-se, temendo-o, assustadas. Por

  • 9

    Roberto Carlos Costa

    qu?... Fechava os olhos e era como um apago completo onde fagulhas iluminavam pontos daquele escuro desconforto. Imagens iam e vinham desconhecidas, desconectadas, involuntariamente, requerendo descomunal esforo para encontrar uma fresta, uma brecha por onde retornar realidade que, por mais estranha que lhe parecesse, ainda era seu porto seguro. No tinha vontades, as dores consumiam seu esprito, seus nervos, suas entranhas, tal o desjejum prolongado, a longa caminhada, insnia e stress. Ningum lhe estendia a mo ou mostrava interesse pelo seu estado, por aquela situao. Estava deriva, abandonado e sentindo uma grande fraqueza, muito medo, vergonha e desejo de sumir num estalo de dedos, transportar-se para outro lugar qualquer, possuir outro corpo e outra mente. Estava impelido a desistir de tudo, ali mesmo...

  • 10

    A Vontade-Bicho

    Captulo dois

    UM DIA DE CO

    Cac saia do banheiro j bem atrasado, ou, cedo, dependendo do que desejasse fazer. Tinha a toalha cobrindo suas partes, o que incomodava nem era sua cueca, bem como, no estava nu -, mas, principalmente, porque havia cado na poa de gua que o Box do banheiro ausente permitiu formar durante o banho. Teve vontade de tirar a toalha que lhe impunha todos os incmodos possveis de se imaginar aps um banho frio. O subconsciente evitava, atravs de sinais invisveis, que suas partes ntimas congelassem, transferindo o sofrimento para os ps que se agarravam ao cho de cermica no aquecida. Andava com dificuldade tentando evitar que, ao levantar cada p, viesse uma nova surpresa desagradvel. Eram ps de batrquio, daqueles quarenta e dois ou quarenta e quatro, brancos, candidatos a um joanete quando ficasse mais idoso e com tufos de pelos pretos encaracolados. O calo no calcanhar no incomodava mais, porm, a unha do dedo do p direito, o que chuta a bola, tinha encravado e estava mais azulada que as outras nove unhas, cinzentas de frio eram os pensamentos e preocupaes que ocupavam Cac.

    Dirigindo-se ao quarto, sentou no tamborete em frente pequena penteadeira, onde um espelho revelava uma figura que

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    Roberto Carlos Costa

    ele via todos os dias, toda vez que se olhava. Nivelou a silhueta da cabea alinhando uma espcie de crina que ali nascera desde pequeno, no limite superior. No ficou muito satisfeito porque, em que pese tenha conseguido o que queria, percebeu que teria de continuar a higiene do canto de um dos olhos. Lanou-se para perto do espelho com tanta violncia que tomou um susto. Esticou o pescoo, arregalou os olhos e tentou puxar a ponta mida da toalha, no conseguindo, pois, estava presa a ele e seu peso. No houve jeito. Repetiria a sequncia de atos incomuns de todos os dias, desde que mergulhara naquele poo de insanidade. Ento, mesmo condenando a si mesmo, impressionado com o impulso de comportar-se assim, riscou o dedo indicador na toalha, no s para limpar a eterna sujeira, bem como, para coar aquela regio, um de seus maiores prazeres na vida que, agora, experimentava. Na sequncia, com toda emoo que pde captar, apertou o sensvel dedo sobre aquela pequena crosta amarelada no canto do olho direito e, aos poucos, foi removendo sem esquecer de aproveitar aquela gostosa coceirinha, comum nessas ocasies. Ridculo! - Esbravejava consigo, segundos aps a cena incomum. Logo, lembrou que aquilo que obtivera de si prprio, ainda pela manh, minutos aps um demorado banho, chamava-se remela e no hesitou em guard-la no lugar de hbito, na parte de baixo do forro do mvel. Tateou e, tranquilizado, confirmou que naquele lugar ainda jaziam as remelas anteriores e outros estandartes que vinha colecionando ali, desde que comprara a penteadeira e passara a viver s naquele quarto de aluguel. Olhou em volta, confirmando que estava s, vivendo aquele

  • 12

    A Vontade-Bicho

    conturbado momento vida incoerente, no mnimo. Se pudesse ter domnio de si mesmo, se deixaria derreter num choro incontido. Na verdade, no tinha convico de estar acordado. Alis, tinha certeza de muito poucas coisas.

    Deu sua primeira risada do dia, seja por mera satisfao, ou, rindo de si prprio, ao verificar a enorme fome que sentia naquele momento e no estava certo se poderia saci-la. Cac sabia que o problema no era a falta de dinheiro, j que no dispunha mais desse artigo na sua bagagem. H quase um ms estava naquela penso que o acolhera como um salvador da ptria, pois, dos oito cmodos existentes, apenas o dele tinha ocupao. O fato que seu pouco dinheiro acabara na semana anterior. Novamente fome, medo, ansiedade, insegurana, sonho ou realidade, vai e vem de imagens, lapsos de memria, dvida sobre tudo. Rir ou cho