a urss e a contra-revolução de veludo (v) .nas valas, os cadáveres, mãos e pés cortados, unhas

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    Para a Histria do Socialismo

    Documentos

    www.hist-socialismo.net

    Traduo do francs por LM, reviso e edio por CN, 01.06.11 (original em http://www.marx.be/FR/AutresDocuments/Livres/ContrerevolutionVelours/Velours0.htm#tablematieres)

    _____________________________

    A URSS e a contra-revoluo de veludo (V)

    Ludo Martens

    Primeira parte

    Julho de 1990

    Quando o Vampiro dos Crpatos atacou Timisoara

    E depois houve a Romnia O horror, o pavoroso, o impensvel. Treze mil e duzentas pessoas presas pela Securitate em Timisoara: 7600 foram

    imediatamente passadas pelas armas. Nas valas, os cadveres, mos e ps cortados, unhas arrancadas, cabeas meio arrancadas dos corpos, caras queimadas com cido, a maior parte dos corpos esventrados e sumariamente recosidos. Testemunhas viram os tanques passar sobre crianas. A mulher do pastor Laszlo Tokes, grvida de seis meses, foi obrigada pela Securitate a abortar.

    Sente ainda, sem dvida, caro leitor, a emoo que o invadiu na vspera de Natal de 1989, no momento em que leu essas linhas no jornal La Libre Blgique.1 Depois, o telejornal da TF1 revelou-lhe que acabava de se descobrir, na Romnia, cadveres esvaziados de sangue. E foi assim que ficou a saber que Ceausescu, que sofria de leucemia, renovava o seu sangue todos os meses fazendo matar inocentes.2

    Depois de tantas revelaes traumatizantes, como no ter escolhido como seu o lado da liberdade e da democracia? Como no se associar homenagem prestada por esse homem poltico francs ao levantamento vitorioso do povo e do exrcito contra o comunismo, o sistema poltico mais bestial e criminoso que oprimia a Romnia desde h mais de 40 anos?3

    Do que foi feito de todas estas revelaes que nos gelaram o sangue, falaremos depois. Notemos por agora que nos parece impossvel abordar a experincia dos pases de Leste, entre

    1 La Libre Belgique, 26 de Dezembro 1989, Charniers et excutions sommaires: les Roumains au bout de l'horreur, por R.V.

    2 NRC-Handelsblad, Raymond Van den Boogaard, Massagraf in Timisoara werd kerkhof van betrouwbaarheid.

    3 Le Pen Jean-Marie, Le Monde, 27 de Dezembro de 1989, La Roumanie aprs l'excution de Nicolae Ceausescu et les ractions.

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    os quais a Romnia, por um canudo,4 abstraindo-nos do conjunto da histria revolucionria deste sculo e da actual situao mundial no seu conjunto.

    Em 20 anos, encontrmos bastantes militantes de esquerda que se excitavam tanto com os erros do socialismo, colocando mal a questo, que por fim se arrumaram do lado da barbrie imperialista. No decurso de conferncias que demos durante este ltimo ano, alguns levantaram-se para exclamar: ditadura da burocracia romena ou chinesa, prefiro a democracia burguesa. Nada pode ilustrar melhor a passagem de uma certa esquerda para o lado do imperialismo. Para melhor situar as nossas posies no que respeita ao Leste e Romnia, lembremos ento alguns factos que so essenciais para julgar na sua perspectiva verdadeira as revolues pela democracia e pela liberdade.

    Democracia imperialista, ditadura das multinacionais

    A democracia burguesa, nascida com a Revoluo Francesa passou por muitas transformaes para vir a ser hoje a democracia das multinacionais, uma democracia imperialista. Alis, a comemorao da tomada da Bastilha ofereceu-nos algumas imagens maravilhosas que ilustram como a democracia burguesa se transformou em democracia imperialista: Mitterrand festejando 200 anos de revoluo ao lado de um Mobutu; ainda Mitterrand arrastando atrs de si um longo squito de dignitrios chegados das colnias e das neocolnias francesas s festividades do 14 de Julho; Mitterrand, sempre ele, limpando da histria os Robespierre e os Saint-Just. E, vendo os folhetins televisivos que a Frana produziu em 1989, adquire-se a convico de que Lus XVI e Maria Antonieta foram os heris de 1789. E neste ambiente que uma certa esquerda ataca encarniadamente a ditadura burocrtica dos regimes socialistas, para afirmar que o nosso regime poltico, l por ser burgus, no deixa de representar a melhor encarnao da Democracia. Forma hbil para mascarar os traos essenciais do nosso sistema de ditadura da grande burguesia.

    Nos nossos pases capitalistas, as eleies livres no so outra coisa seno um biombo para esconder os verdadeiros centros de poder: conselhos de administrao das multinacionais, altos cenculos das instituies do Estado. O parlamento apenas uma cena (muitas vezes vazia) onde se desenrolam peas trgico-cmicas; no o lugar onde se decidem as batalhas reais entre os interesses socioeconmicos antagnicos. Raymond Aron pretende que num regime pluralista o poder emana da competio entre os grupos e as ideias.5 Mas quem poder ter iluses sobre a natureza das eleies livres organizadas nos Estados Unidos, esse grande bastio da democracia burguesa? Os partidos republicano e democrata agrupam foras e interesses bastante diversos, canalizam toda a espcie de protestos, mas fazem-no sob a direco e a dominao sem falhas da grande burguesia americana. H competio, crtica e autocrtica, checks and balances,6 democracia, mas apenas no interior de uma nica classe e numa ptica apenas, a da defesa da livre empresa e do sistema imperialista mundial. A maneira como os chefes dos republicanos e dos democratas competem em patriotismo para mergulhar na guerra contra o Panam diz muito sobre este pluralismo de voz nica.

    A nossa democracia apenas um derivado, afinal bastante marginal, de trs dados materiais fundamentais.

    4 No original utilizada a expresso idiomtica par le petit bout de la lorgnette, cuja traduo literal pela pequena ponta da luneta. (N. Ed.)

    5 Aron Raymond, Dmocratie et totalitarisme, d. Gallimard, 1965, p. 169. 6 Em ingls no original, a expresso checks and balances designa o sistema de poderes e contrapoderes

    (freios e contrapesos) que visa garantir o equilbrio poltico na democracia burguesa. (N. Ed.)

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    As multinacionais e os seus aliados directos, os pequenos e mdios patres possuem todos os meios de produo que constituem as alavancas mais importantes da ordem social.

    Controlam todas as engrenagens vitais da mquina do Estado, instrumento de coaco concebido para proteger a ordem econmica existente.

    Dominam os aparelhos ideolgicos (redes de ensino, media, igrejas) para justificar a ordem capitalista que impem como uma ordem natural.

    Esta democracia, profundamente enraizada na espessa camada das empresas capitalistas que cobre os nossos pases, inseparvel da histria e da realidade actual do imperialismo. Enquanto se no manifestam foras significativas para atacar frontalmente os fundamentos do capitalismo, a ditadura burguesa exerce-se de maneira liberal, pluralista e democrtica.

    Esta fachada democrtica tem, alm do mais, a vantagem de camuflar uma actividade sistemtica de espionagem contra todas as foras opostas ao sistema, um trabalho de infiltrao, de controlo das actividades da esquerda, realizado numa to larga escala que no est ao alcance de nenhuma ditadura aberta do terceiro mundo. E logo que uma crise profunda desponta ou que o regime se aventura numa guerra externa (guerra das Malvinas, ataque contra a Lbia, agresso ao Panam), as medidas extraordinrias apagam as aparncias democrticas.

    Desde 1981, j vimos muitos progressistas que, seguindo o trilho de Mitterrand, rejeitaram estas verdades julgadas demasiado elementares. Bebendo a grandes goles o dio anticomunista que os media quotidianamente nos servem, passaram a detestar a tal ponto os erros e as fraquezas dos pases socialistas que acabaram por tornar-se defensores da nossa democracia, sistema imperfeito, concordam, mas a humanidade ainda no encontrou nada melhor.7 Ento, toca a andar em frente, sob a batuta do tio Franois. E passemos sobre os pormenores, as colnias francesas que as nossas tropas guardam, o reforo das multinacionais francesas, aquelas pequenas guerras no Tchad, no Mdio-Oriente ou noutros lugares onde o dever de ingerncia nos chama.

    Com efeito, um trao distintivo da democracia burguesa actual que ela se apresenta como uma democracia imperialista. A verdadeira natureza da nossa democracia exprime-se mais claramente na realidade poltica, econmica e social do terceiro mundo. Fazem-nos crer que os pases industrializados abrigam homens inteligentes e diligentes que, pelo seu trabalho intenso, conquistaram o bem-estar e a democracia. Fora deste paraso situa-se o imenso espao selvagem do terceiro mundo, que est apenas no incio do processo de arranque econmico e que muitas vezes regido por dspotas sanguinrios que caracterizam as sociedades atrasadas.

    Na realidade, o nosso mundo, ou pelo menos o mundo imperialista, j se tornou numa aldeia e os seus bairros mais miserveis dependem da junta de freguesia onde se sentam, sob o ar enganador de velhos sbios, as multinacionais. O neocolonialismo em frica, na Amrica Latina e na sia no seno a ditadura poltica e econmica da nossa grande burguesia que impe a sua vontade atravs dos chefes locais: presidentes da Repblica, altos funcionrios, banqueiros, grandes empresrios e comerciantes do terceiro mundo. Quem quiser apanhar a face autntica da nossa democracia, tem de observar os massacres, os genocdios, o terror estatal que organizam, supervisionam e justificam no Salvador e no Peru, em Moambique e no Zaire, na Palestina e na Turquia, nas Filipinas e na Indonsia. Em praticamente todos os pases do terceiro mundo, os quadros dos servios de represso oficiais foram formados e treinados pelo Ocidente e muitas vezes colocados sob a superviso directa de oficiais superiores vindos do mundo livre. Os esquadres da morte que se encarregam das tarefas

    7 La crise du mouvement rvolutionnaire, deuxime congrs du PTB, Maro de 1983, pp. 52-55.

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    sujas, dos assassnios selvagens, so quase todos oriundos destes servios oficiais e

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