A universidade pública sob nova perspectiva*

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  • A universidade pblica sob nova perspectiva

    Revista Brasileira de Educao 5

    A universidade pblica sob nova perspectiva*

    Marilena ChauiUniversidade de So Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas

    I.

    A universidade uma instituio social e como

    tal exprime de maneira determinada a estrutura e o

    modo de funcionamento da sociedade como um todo.

    Tanto assim que vemos no interior da instituio

    universitria a presena de opinies, atitudes e proje-

    tos conflitantes que exprimem divises e contradi-

    es da sociedade. Essa relao interna ou expressiva

    entre universidade e sociedade o que explica, alis,

    o fato de que, desde seu surgimento, a universidade

    pblica sempre foi uma instituio social, isto , uma

    ao social, uma prtica social fundada no reconhe-

    cimento pblico de sua legitimidade e de suas atribui-

    es, num princpio de diferenciao, que lhe confere

    autonomia perante outras instituies sociais, e es-

    truturada por ordenamentos, regras, normas e valo-

    res de reconhecimento e legitimidade internos a ela. A

    legitimidade da universidade moderna fundou-se na

    conquista da idia de autonomia do saber em face da

    religio e do Estado, portanto, na idia de um conhe-

    cimento guiado por sua prpria lgica, por necessi-

    dades imanentes a ele, tanto do ponto de vista de sua

    inveno ou descoberta como de sua transmisso.

    Em outras palavras, sobretudo depois da Revoluo

    Francesa, a universidade concebe-se a si mesma como

    uma instituio republicana e, portanto, pblica e laica.

    A partir das revolues sociais do sculo XX e com

    as lutas sociais e polticas desencadeadas a partir de-

    las, a educao e a cultura passaram a ser concebidas

    como constitutivas da cidadania e, portanto, como

    direitos dos cidados, fazendo com que, alm da vo-

    cao republicana, a universidade se tornasse tam-

    bm uma instituio social inseparvel da idia de de-

    mocracia e de democratizao do saber: seja para

    realizar essa idia, seja para opor-se a ela, no correr

    do sculo XX a instituio universitria no pde fur-

    tar-se referncia democracia como uma idia re-

    guladora. Por outro lado, a contradio entre o ideal

    democrtico de igualdade e a realidade social da divi-

    so e luta de classes obrigou a universidade a tomar

    posio diante do ideal socialista.* Conferncia na sesso de abertura da 26 Reunio Anual da

    ANPEd, realizada em Poos de Caldas, MG, em 5 de outubro de 2003.

  • Marilena Chaui

    6 Set /Out /Nov /Dez 2003 No 24

    Vista como uma instituio social, cujas mudan-

    as acompanham as transformaes sociais, econ-

    micas e polticas, e como instituio social de cunho

    republicano e democrtico, a relao entre universi-

    dade e Estado tambm no pode ser tomada como

    relao de exterioridade, pois o carter republicano e

    democrtico da universidade determinado pela pre-

    sena ou ausncia da prtica republicana e democr-

    tica no Estado. Em outras palavras, a universidade

    como instituio social diferenciada e autnoma s

    possvel em um Estado republicano e democrtico.

    Postos os termos desta maneira, poderia supor-

    se que, em ltima instncia, a universidade, mais do

    que determinada pela estrutura da sociedade e do Es-

    tado, seria antes um reflexo deles. No , porm, o

    caso. exatamente por ser uma instituio social di-

    ferenciada e definida por sua autonomia intelectual

    que a universidade pode relacionar-se com o todo da

    sociedade e com o Estado de maneira conflituosa,

    dividindo-se internamente entre os que so favor-

    veis e os que so contrrios maneira como a socie-

    dade de classes e o Estado reforam a diviso e a

    excluso sociais, impedem a concretizao republi-

    cana da instituio universitria e suas possibilidades

    democrticas.

    Se essas observaes tiverem alguma verdade,

    elas podero ajudar-nos a enfrentar com mais clareza

    a mudana sofrida por nossa universidade pblica nos

    ltimos anos, particularmente com a reforma do Es-

    tado realizada no ltimo governo da Repblica. De

    fato, essa reforma, ao definir os setores que com-

    pem o Estado, designou um desses setores como

    setor de servios no exclusivos do Estado e nele

    colocou a educao, a sade e a cultura. Essa locali-

    zao da educao no setor de servios no exclusi-

    vos do Estado significou: a) que a educao deixou

    de ser concebida como um direito e passou a ser con-

    siderada um servio; b) que a educao deixou de ser

    considerada um servio pblico e passou a ser consi-

    derada um servio que pode ser privado ou privatizado.

    Mas no s isso. A reforma do Estado definiu a uni-

    versidade como uma organizao social e no como

    uma instituio social.

    Uma organizao1 difere de uma instituio por

    definir-se por uma prtica social determinada de acordo

    com sua instrumentalidade: est referida ao conjunto

    de meios (administrativos) particulares para obten-

    o de um objetivo particular. No est referida a aes

    articuladas s idias de reconhecimento externo e in-

    terno, de legitimidade interna e externa, mas a opera-

    es definidas como estratgias balizadas pelas idias

    de eficcia e de sucesso no emprego de determina-

    dos meios para alcanar o objetivo particular que a

    define. Por ser uma administrao, regida pelas idias

    de gesto, planejamento, previso, controle e xito.

    No lhe compete discutir ou questionar sua prpria

    existncia, sua funo, seu lugar no interior da luta de

    classes, pois isso, que para a instituio social uni-

    versitria crucial, , para a organizao, um dado de

    fato. Ela sabe (ou julga saber) por que, para que e

    onde existe.

    A instituio social aspira universalidade. A or-

    ganizao sabe que sua eficcia e seu sucesso depen-

    dem de sua particularidade. Isso significa que a insti-

    tuio tem a sociedade como seu princpio e sua

    referncia normativa e valorativa, enquanto a organi-

    zao tem apenas a si mesma como referncia, num

    processo de competio com outras que fixaram os

    mesmos objetivos particulares. Em outras palavras, a

    instituio se percebe inserida na diviso social e po-

    ltica e busca definir uma universalidade (imaginria

    ou desejvel) que lhe permita responder s contradi-

    es, impostas pela diviso. Ao contrrio, a organiza-

    o pretende gerir seu espao e tempo particulares

    aceitando como dado bruto sua insero num dos

    plos da diviso social, e seu alvo no responder s

    contradies, e sim vencer a competio com seus

    supostos iguais.

    Como foi possvel passar da idia da universida-

    de como instituio social sua definio como orga-

    nizao prestadora de servios?

    1 A distino entre instituio social e organizao social

    de inspirao francfurtiana, feita por Michel Freitag em Le

    naufrage de luniversit. Paris: Editions de la Dcouverte, 1996.

  • A universidade pblica sob nova perspectiva

    Revista Brasileira de Educao 7

    A forma atual do capitalismo caracteriza-se pela

    fragmentao de todas as esferas da vida social, par-

    tindo da fragmentao da produo, da disperso es-

    pacial e temporal do trabalho, da destruio dos refe-

    renciais que balizavam a identidade de classe e as

    formas de luta de classes. A sociedade aparece como

    uma rede mvel, instvel, efmera de organizaes

    particulares definidas por estratgias particulares e

    programas particulares, competindo entre si. Socie-

    dade e natureza so reabsorvidas uma na outra e uma

    pela outra porque ambas deixaram de ser um princ-

    pio interno de estruturao e diferenciao das aes

    naturais e humanas para se tornarem, abstratamente,

    meio ambiente; e meio ambiente instvel, fluido,

    permeado por um espao e um tempo virtuais que

    nos afastam de qualquer densidade material; meio

    ambiente perigoso, ameaador e ameaado, que deve

    ser gerido, programado, planejado e controlado por

    estratgias de interveno tecnolgica e jogos de po-

    der. Por isso mesmo, a permanncia de uma organi-

    zao depende muito pouco de sua estrutura interna e

    muito mais de sua capacidade de adaptar-se celere-

    mente a mudanas rpidas da superfcie do meio

    ambiente. Donde o interesse pela idia de flexibilida-

    de, que indica a capacidade adaptativa a mudanas

    contnuas e inesperadas.

    A viso organizacional da universidade produziu

    aquilo que, segundo Freitag (Le naufrage de

    luniversit), podemos denominar como universidade

    operacional. Regida por contratos de gesto, avalia-

    da por ndices de produtividade, calculada para ser

    flexvel, a universidade operacional est estruturada

    por estratgias e programas de eficcia organizacio-

    nal e, portanto, pela particularidade e instabilidade

    dos meios e dos objetivos. Definida e estruturada

    por normas e padres inteiramente alheios ao conhe-

    cimento e formao intelectual, est pulverizada

    em microorganizaes que ocupam seus docentes e

    curvam seus estudantes a exigncias exteriores ao

    trabalho intelectual. A heteronomia da universidade

    autnoma visvel a olho nu: o aumento insano de

    horas/aula, a diminuio do tempo para mestrados e

    doutorados, a avaliao pela quantidade de publica-

    es, colquios e congressos, a multiplicao de co-

    misses e relatrios etc.

    Nela, a docncia entendida como transmisso

    rpida de conhecimentos, consignados em manuais

    de fcil leitura para os estudantes, de preferncia ri-

    cos em ilustraes e com duplicata em CD-ROM. O

    recrutamento de professores feito sem levar em

    considerao se dominam ou no o campo de conhe-

    cimentos de sua disciplina e as relaes entre ela e

    outras afins o professor contratado ou por ser um

    pesquisador promissor que se dedica a algo muito

    especializado, ou porque, no tendo vocao para

    pesquisa, aceita ser escorchado e arrochado por con-

    tratos de trabalho temporrios e precrios ou me-

    lhor, flexveis. A docncia pensada como habilita-

    o rpida para graduados, que precisam entrar

    rapidamente num mercado de trabalho do qual sero

    expulsos em poucos anos, pois se tornam, em pouco

    tempo, jovens obsoletos e descartveis; ou como

    correia de transmisso entre pesquisadores e treino

    para novos pesquisadores. Transmisso e adestramen-

    to. Desapareceu, portanto, a marca essencial da do-

    cncia: a formao.

    Por sua vez, a pesquisa segue o padro organi-

    zacional. Numa organizao, uma pesquisa uma

    estratgia de interveno e de controle de meios ou

    instrumentos para a consecuo de um objetivo deli-

    mitado. Em outras palavras, uma pesquisa um

    survey de problemas, dificuldades e obstculos para

    a realizao de um objetivo, e um clculo de meios

    para solues parciais e locais para problemas e obs-

    tculos locais. O survey recorta a realidade de manei-

    ra a focalizar apenas o aspecto sobre o qual est des-

    tinada a interveno imediata e eficaz. Em outras

    palavras, o survey opera por fragmentao. Numa

    organizao, portanto, pesquisa no conhecimento

    de alguma coisa, mas posse de instrumentos para in-

    tervir e controlar alguma coisa. Por isso mesmo, numa

    organizao no h tempo para reflexo, a crtica, o

    exame de conhecimentos institudos, sua mudana

    ou sua superao. Numa organizao, a atividade

    cognitiva no tem como nem por que se realizar. Em

    contrapartida, no jogo estratgico da competio do

  • Marilena Chaui

    8 Set /Out /Nov /Dez 2003 No 24

    mercado, a organizao mantm-se e firma-se se for

    capaz de propor reas de problemas, dificuldades,

    obstculos sempre novos, o que feito pela frag-

    mentao de antigos problemas em novssimos

    microproblemas, sobre os quais o controle parece ser

    cada vez maior. A fragmentao, condio de sobrevida

    da organizao, torna-se real e prope a especializa-

    o como estratgia principal e entende por pesqui-

    sa a delimitao estratgica de um campo de inter-

    veno e controle. evidente que a avaliao desse

    trabalho s pode ser feita em termos compreensveis

    para uma organizao, isto , em termos de custo-

    benefcio, pautada pela idia de produtividade, que

    avalia em quanto tempo, com que custo e quanto foi

    produzido. Reduzida a uma organizao, a universi-

    dade abandona a formao e a pesquisa para lanar-

    se na fragmentao competitiva. Mas por que ela o

    faz? Porque est privatizada e a maior parte de suas

    pesquisas determinada pelas exigncias de merca-

    do, impostas pelos financiadores. Isso significa que a

    universidade pblica produz um conhecimento desti-

    nado apropriao privada. Essa apropriao, alis,

    inseparvel da mudana profunda sofrida pelas cin-

    cias em sua relao com a prtica.

    De fato, at os anos 1940, a cincia era uma

    investigao terica com aplicaes prticas. Sabe-

    mos, porm, que as mudanas no modo de produo

    capitalista e na tecnologia transformaram duplamente

    a cincia: em primeiro lugar, ela deixou de ser a in-

    vestigao de uma realidade externa ao investigador

    para tornar-se a construo da prpria realidade do

    objeto cientfico por meio de experimentos e de

    constructos lgico-matemticos como escreveu um

    filsofo, a cincia tornou-se manipulao de objetos

    construdos por ela mesma em segundo lugar e,

    como conseqncia, ela tornou-se uma fora produ-

    tiva e, como tal, inserida na lgica do modo de pro-

    duo capitalista. A cincia deixou de ser teoria com

    aplicao prtica e tornou-se um componente do pr-

    prio capital. Donde as novas formas de financiamen-

    to das pesquisas, a submisso delas s exigncias do

    prprio capital e a transformao da universidade

    numa organizao ou numa entidade operacional.

    II.

    Tomada sob a perspectiva operacional, a univer-

    sidade pblica corre o risco de passar por uma moder-

    nizao que a faa contempornea do sculo XXI, sem

    que se toque nas causas que deram origem a esse

    modelo universitrio. Desse desejo de modernizao

    acrtico e pouco reflexivo, so sinais duas idias apre-

    sentadas com insistncia crescente pelos organismos

    internacionais que subsidiam e subvencionam univer-

    sidades pblicas. A primeira idia a de sociedade do

    conhecimento; a segunda, uma nova concepo da

    educao permanente ou continuada.

    A transformao do capital e da cincia, a que

    nos referimos anteriormente, articulada s mudanas

    tecnolgicas referentes circulao da informao,

    produziu a idia de sociedade do conhecimento, na

    qual o fator mais importante o uso intensivo e com-

    petitivo dos conhecimentos.

    Mas o que significa exatamente sociedade do

    conhecimento?

    Ao se tornarem foras produtivas, o conhecimento

    e a informao passaram a compor o prprio capital,

    que passa a depender disso para sua acumulao e

    reproduo. Na medida em que, na forma atual do

    capitalismo, a hegemonia econmica pertence ao ca-

    pital financeiro e no ao capital produtivo, a informa-

    o prevalece sobre o prprio conhecimento, uma vez

    que o capital financeiro opera com riquezas puramen-

    te virtuais, cuja existncia se reduz prpria informa-

    o. Entre outros efeitos, essa situao produz um

    efeito bastante preciso: o poder econmico baseia-se

    na posse de informaes e, portanto, essas tornam-se

    secretas e constituem um campo de competio eco-

    nmica e militar sem precedentes, ao mesmo tempo

    em que, necessariamente, bloqueiam poderes demo-

    crticos, os quais se baseiam no direito informao,

    tanto o direito de obt-las como o de produzi-las e

    faz-las circular socialmente. Em outras palavras, a

    assim chamada sociedade do conhecimento, do ponto

    de vista da informao, regida pela lgica do merca-

    do (sobretudo o financeiro), de sorte que ela no

    propcia nem favorvel ao poltica da sociedade

  • A universidade pblica sob nova perspectiva

    Revista Brasileira de Educao 9

    civil e ao desenvolvimento efetivo de informaes e

    conhecimentos necessrios vida social e cultural.

    Em resumo: a noo de sociedade do conhecimento,

    longe de indicar uma possibilidade de grande avano e

    desenvolvimento autnomo das universidades enquanto

    instituies sociais comprometidas com a vida de suas

    sociedades e articuladas a poderes e direitos demo-

    crticos, indica o contrrio; isto , tanto a heteronomia

    universitria (quando a universidade produz conheci-

    mentos destinados ao aumento de informaes para o

    capital financeiro, submetendo-se s suas necessida-

    des e sua lgica) como a irrelevncia da atividade

    universitria (quando suas pesquisas so autonoma-

    mente definidas ou quando procuram responder s

    demandas sociais e polticas de suas sociedades). O

    sinal da heteronomia claro, por exemplo, na rea das

    chamadas pesquisas bsicas nas universidades latino-

    americanas, nas quais os objetos e mtodos de pes-

    quisa so determinados pelos vnculos com grandes

    centros de pesquisa dos pases que possuem a hege-

    monia econmica e militar, pois tais vnculos so pos-

    tos tanto como condio para o financiamento das

    pesquisas quanto como instrumentos de reconheci-

    mento acadmico internacional. O sinal da irrelevncia,

    por outro lado, aparece claramente na deteriorao e

    no desmantelamento das universidades pblicas, con-

    sideradas cada vez mais um peso para o Estado (don-

    de o avano da privatizao, da terceirizao e da

    massificao) e um elemento perturbador da ordem

    econmica (donde a desmoralizao crescente do tra-

    balho universitrio pblico).

    Outro aspecto que tem sido muito enfatizado

    pelos organismos internacionais que discutem o ensi-

    no superior que a sociedade do conhecimento

    inseparvel da velocidade, isto , a acentuada redu-

    o do tempo entre a aquisio de um conhecimento

    e sua aplicao tecnolgica, a ponto dessa aplicao

    acabar determinando o contedo da prpria investi-

    gao cientfica. Fala-se numa exploso do conheci-

    mento, quantitativa e qualitativa, tanto no interior das

    disciplinas clssicas como com a criao de discipli-

    nas novas e novas reas de conhecimento. Segundo

    alguns autores, o conhecimento levou 1.750 anos para

    duplicar-se pela primeira vez, no incio da era crist;

    depois, passou a duplicar-se a cada 150 anos, depois

    a cada 50 anos e estima-se que, a partir de 2000, a

    cada quatro anos duplicar a quantidade de informa-

    o disponvel no mundo.

    Penso que se poderia acrescentar aqui: as cifras

    sobre a quantidade e a velocidade dos conhecimen-

    tos, as cifras provenientes da publicao de artigos

    nos quais so apresentadas descobertas cientficas,

    pode levar-nos ainda a uma outra reflexo, qual seja:

    a quantidade de descobertas implicou uma mudana

    na definio de uma cincia? Em outras palavras, a

    qumica, a matemtica, a biologia e a histria (para

    ficarmos com os exemplos mais freqentes) foram

    redefinidas em termos de seus objetos, mtodos, pro-

    cedimentos, de tal maneira que poderamos dizer, por

    exemplo, que, hoje, a mudana epistemolgica na

    qumica equivaleria mudana da alquimia para a qu-

    mica no sculo XVII? Ou que, hoje, a mudana epis-

    temolgica na histria equivaleria quela que, no

    sculo XIX, rompeu com a tradio historiogrfica

    de narrativa dos memorabilia, levou a separar natu-

    reza e cultura, a considerar a historicidade como o

    modo de ser do homem e a buscar uma soluo para

    o tema clssico (que define a histria desde Herdoto

    e Tucdides) da alternativa entre contingncia e ne-

    cessidade? Ou ainda: sabemos que a mudana episte-

    molgica fundamental entre a cincia clssica e a

    contempornea, sculo XX, encontra-se, de um lado,

    no fato de que a primeira julgava alcanar as coisas

    tais como so em si mesmas enquanto a segunda no

    titubeia em tomar seus objetos como constructos, e,

    de outro, no fato de que a cincia clssica julgava

    operar com as idias de ordem e conexo causais

    necessrias enquanto a cincia contempornea tende

    a abandonar a idia de leis causais e a elaborar noes

    como as de probabilidade, regularidade, freqncia,

    simetria etc. Ao falar em exploso do conhecimento e

    em exploso epistemolgica, podemos dizer que a

    sociedade do conhecimento introduziu mudanas epis-

    temolgicas de tal monta que transformou as cin-

    cias? Houve mudana na estrutura das cincias nos

    ltimos 30 ou 40 anos?

  • Marilena Chaui

    10 Set /Out /Nov /Dez 2003 No 24

    Essas perguntas so suscitadas por dois moti-

    vos principais: 1) o fato, por exemplo, de que a qu-

    mica descubra novas substncias ou que a matemti-

    ca desenvolva novos teoremas poderia ser considerado

    simplesmente como aumento quantitativo dos conhe-

    cimentos, cujos fundamentos no mudaram nos lti-

    mos 30 ou 40 anos, aumento quantitativo decorrente

    tanto de novas tecnologias usadas nas pesquisas quan-

    to do aumento do nmero de pesquisadores no mun-

    do inteiro; 2) a quantidade de publicaes precisa ser

    tomada cum grano salis, pois sabemos que essa quan-

    tidade pode exprimir pouca qualidade e pouca inova-

    o porque: a) os chamados processos de avaliao

    da produo acadmica, dos quais dependem a con-

    servao do emprego, a ascenso na carreira e a ob-

    teno de financiamento de pesquisas, so baseados

    na quantidade de publicao de artigos e do compare-

    cimento a congressos e simpsios; b) a quantidade

    de pontos obtidos por um pesquisador tambm de-

    pende de que consiga publicar seus artigos nos peri-

    dicos cientficos definidos hierarquicamente pelo

    ranking; c) os grandes centros de pesquisa s conse-

    guem financiamentos pblicos e privados se continua-

    mente provarem que esto alcanando novos conhe-

    cimentos, uma vez que a avaliao deixou cada vez

    mais de ser feita pelos pares e passou a ser determina-

    da pelos critrios da eficcia e da competitividade (ou-

    tro sinal de nossa heteronomia). Essas perguntas tam-

    bm se referem a um problema de fundo, qual seja, a

    mudana imposta ao tempo do trabalho intelectual e

    cientfico.

    Sabemos que uma das caractersticas mais mar-

    cantes da cultura contempornea o que David Harvey

    denominou compresso espao-temporal. De fato, exa-

    minando a condio ps-moderna, David Harvey2 ana-

    lisa os efeitos da acumulao flexvel do capital, isto

    , a fragmentao e disperso da produo econmi-

    ca, a hegemonia do capital financeiro, a rotatividade

    extrema da mo-de-obra, a obsolescncia vertiginosa

    das qualificaes para o trabalho em decorrncia do

    surgimento incessante de novas tecnologias, o de-

    semprego estrutural decorrente da automao e da

    alta rotatividade da mo-de-obra, a excluso social,

    econmica e poltica. Esses efeitos econmicos e

    sociais da nova forma do capital so inseparveis de

    uma transformao sem precedentes na experincia

    do espao e do tempo. Essa transformao desig-

    nada por Harvey com a expresso compresso espao-

    temporal, isto , o fato de que a fragmentao e a glo-

    balizao da produo econmica engendram dois

    fenmenos contrrios e simultneos: de um lado, a

    fragmentao e disperso espacial e temporal e, de

    outro, sob os efeitos das tecnologias da informao,

    a compresso do espao tudo se passa aqui, sem

    distncias, diferenas nem fronteiras e a compres-

    so do tempo tudo se passa agora, sem passado e

    sem futuro.

    Podemos acrescentar colocao de Harvey que

    falar do presente, como muitos hoje falam, como sen-

    do a era da incerteza, indica menos uma compres-

    so filosfico-cientfica da realidade natural e cultu-

    ral e mais a aceitao da destruio econmico-social

    de todos os referenciais de espao e de tempo cujo

    sentido se encontrava no s na percepo cotidiana,

    mas tambm nos trabalhos da geografia, da histria,

    da antropologia e das artes. Em vez de incerteza, mais

    vale falar em insegurana. Ora, sabemos que a inse-

    gurana no gera conhecimento e ao inovadora, e

    sim medo e paralisia, submisso ao institudo, recusa

    da crtica, conservadorismo e autoritarismo.

    Na verdade, fragmentao e disperso do espa-

    o e do tempo condicionam sua reunificao sob um

    espao diferenciado e um tempo efmero, ou sob um

    espao que se reduz a uma superfcie plana de ima-

    gens e sob um tempo que perdeu a profundidade e se

    reduz ao movimento de imagens velozes e fugazes.

    No caso da produo artstica e intelectual (hu-

    manidades), a compresso do espao e do tempo

    transformou o mercado da moda (isto , do descar-

    tvel, do efmero determinado pelo mercado) em pa-

    radigma: as obras de arte e de pensamento duram

    uma temporada e, descartados, desaparecem sem

    2 David Harvey. A condio ps-moderna. So Paulo:

    Loyola, 1992

  • A universidade pblica sob nova perspectiva

    Revista Brasileira de Educao 11

    deixar vestgio. Para participar desse mercado ef-

    mero, a literatura, por exemplo, abandona o roman-

    ce pelo conto, os intelectuais abandonam o livro pelo

    paper, o cinema vencido pelo videoclipe ou pelas

    grandes montagens com efeitos especiais. Para a

    ideologia ps-moderna, a razo, a verdade e a hist-

    ria so mitos totalitrios; o espao e o tempo so su-

    cesso efmera e voltil de imagens velozes e a com-

    presso dos lugares e instantes na irrealidade virtual,

    que apaga todo contato com o espao-temporal en-

    quanto estrutura do mundo; a subjetividade no a

    reflexo, mas a intimidade narcsica, e a objetivida-

    de no o conhecimento do que exterior e diverso

    do sujeito, e sim um conjunto de estratgias monta-

    das sobre jogos de linguagem, que representam jo-

    gos de pensamento. A histria do saber aparece como

    troca peridica de jogos de linguagem e de pensa-

    mento, isto , como inveno e abandono de para-

    digmas, sem que o conhecimento jamais toque a

    prpria realidade.

    A compresso espao-temporal produz efeitos

    tambm nas universidades: diminuio do tempo de

    graduao e ps-graduao, do tempo para realizao

    de dissertaes de mestrado e teses de doutorado. A

    velocidade faz com que, no plano da docncia, as

    disciplinas abandonem, cada vez mais, a necessidade

    de transmitir aos estudantes suas prprias histrias,

    o conhecimento de seus clssicos, as questes que

    lhes deram nascimento e as transformaes dessas

    questes. Em outras palavras: a absoro do espao-

    tempo do capital financeiro e do mercado da moda

    conduzem ao abandono do ncleo fundamental do

    trabalho universitrio, qual seja, a formao.

    E isso se torna tambm muito evidente quando

    se v a discusso da segunda idia, qual seja, a edu-

    cao permanente ou continuada. Afirma-se que, dian-

    te de um mundo globalizado e em transformao cons-

    tante, a educao permanente ou continuada uma

    estratgia pedaggica indispensvel, pois somente com

    ela possvel a adaptao s mudanas incessantes,

    se quiser manter-se ativo no mercado de trabalho. A

    educao permanente ou continuada significa que a

    educao no se confunde com os anos escolares;

    isto , a educao deixa de ser preparao para a vida

    e torna-se educao durante toda a vida.

    Precisamos ponderar crtica e reflexivamente

    sobre essa idia. De fato, no se pode chamar isso

    de educao permanente. Como vimos anteriormen-

    te, a nova forma do capital produz a obsolescncia

    rpida da mo-de-obra e produz o desemprego es-

    trutural. Por isso, passa-se a confundir educao e

    reciclagem, exigida pelas condies do mercado

    de trabalho. Trata-se de aquisies de tcnicas por

    meio de processos de adestramento e treinamento

    para saber empreg-las de acordo com as finalida-

    des das empresas. Tanto assim, que muitas empre-

    sas possuem escolas, centros de treinamento e reci-

    clagem de seus empregados, ou fazem convnios com

    outras empresas destinadas exclusivamente a esse

    tipo de atividade. E essa atividade pressupe algo

    bsico, ou seja, a escolaridade propriamente dita.

    Muitas vezes tambm, a competio no mercado de

    trabalho exige que o candidato a emprego apresente

    um currculo com mais crditos do que outros ou

    que, no correr dos anos, acrescente crditos ao seu

    currculo, mas dificilmente poderamos chamar a isso

    de educao permanente porque a educao signifi-

    ca um movimento de transformao interna daquele

    que passa de um suposto saber (ou da ignorncia)

    ao saber propriamente dito (ou compreenso de si,

    dos outros, da realidade, da cultura acumulada e da

    cultura no seu presente ou se fazendo). A educao

    inseparvel da formao e por isso que ela s pode

    ser permanente.

    III.

    Se quisermos tomar a universidade pblica por

    uma nova perspectiva, precisamos comear exigin-

    do, antes de tudo, que o Estado no tome a educao

    pelo prisma do gasto pblico e sim como investimen-

    to social e poltico, o que s possvel se a educao

    for considerada um direito e no um privilgio, nem

    um servio. A relao democrtica entre Estado e

    universidade pblica depende do modo como consi-

    deramos o ncleo da Repblica. Este ncleo o fun-

  • Marilena Chaui

    12 Set /Out /Nov /Dez 2003 No 24

    do pblico ou a riqueza pblica e a democratizao

    do fundo pblico significa investi-lo no para assegu-

    rar a acumulao e a reproduo do capital que o

    que faz o neoliberalismo com o chamado Estado

    mnimo , e sim para assegurar a concreticidade dos

    direitos sociais, entre os quais se encontra a educa-

    o. pela destinao do fundo pblico aos direitos

    sociais que se mede a democratizao do Estado e,

    com ela, a democratizao da universidade.

    A reverso tambm depende de que levemos a

    srio a idia de formao.

    O que significa exatamente formao? Antes de

    mais nada, como a prpria palavra indica, uma rela-

    o com o tempo: introduzir algum ao passado de

    sua cultura (no sentido antropolgico do termo, isto

    , como ordem simblica ou de relao com o ausen-

    te), despertar algum para as questes que esse

    passado engendra para o presente, e estimular a

    passagem do institudo ao instituinte. O que Merleau-

    Ponty diz sobre a obra de arte nos ajuda aqui: a obra

    de arte recolhe o passado imemorial contido na per-

    cepo, interroga a percepo presente e busca, com

    o smbolo, ultrapassar a situao dada, oferecendo-

    lhe um sentido novo que no poderia vir existncia

    sem a obra. Da mesma maneira, a obra de pensamen-

    to s fecunda quando pensa e diz o que sem ela no

    poderia ser pensado nem dito, e sobretudo quando,

    por seu prprio excesso, nos d a pensar e a dizer,

    criando em seu prprio interior a posteridade que ir

    super-la. Ao instituir o novo sobre o que estava

    sedimentado na cultura, a obra de arte e de pensa-

    mento reabre o tempo e forma o futuro. Podemos

    dizer que h formao quando h obra de pensamen-

    to e que h obra de pensamento quando o presente

    apreendido como aquilo que exige de ns o trabalho

    da interrogao, da reflexo e da crtica, de tal manei-

    ra que nos tornamos capazes de elevar ao plano do

    conceito o que foi experimentado como questo, per-

    gunta, problema, dificuldade.

    Pensando numa mudana da universidade pbli-

    ca pela perspectiva da formao e da democratiza-

    o, creio que podemos assinalar alguns pontos que

    so a condio e a forma dessa mudana:

    1. Colocar-se claramente contra a excluso como

    forma da relao social definida pelo neolibe-

    ralismo e pela globalizao: tomar a educao

    superior como um direito do cidado (na qua-

    lidade de direito, ela deve ser universal); defe-

    sa da universidade pblica tanto pela amplia-

    o de sua capacidade de absorver sobretudo

    os membros das classes populares, quanto pela

    firme recusa da privatizao dos conhecimen-

    tos, isto , impedir que um bem pblico tenha

    apropriao privada. Romper, portanto, com o

    modelo proposto pelo Banco Mundial e implan-

    tado no Brasil com a pretenso de resolver os

    problemas da educao superior por meio da

    privatizao das universidades pblicas ou pe-

    los incentivos financeiros dados a grupos pri-

    vados para criar estabelecimentos de ensino

    superior, que provocou no s o desprestgio

    das universidades pblicas (porque boa parte

    dos recursos estatais foram dirigidos s em-

    presas universitrias) como a queda do nvel

    do ensino superior (cuja avaliao era feita por

    organismos ligados s prprias empresas).

    2. Definir a autonomia universitria no pelo cri-

    trio dos chamados contratos de gesto, mas

    pelo direito e pelo poder de definir suas nor-

    mas de formao, docncia e pesquisa. A au-

    tonomia entendida em trs sentidos princi-

    pais: a) como autonomia institucional ou de

    polticas acadmicas (autonomia em relao aos

    governos); b) como autonomia intelectual (au-

    tonomia em relao a credos religiosos, parti-

    dos polticos, ideologia estatal, imposies em-

    presariais e financeiras); c) como autonomia

    da gesto financeira que lhe permita destinar

    os recursos segundo as necessidades regio-

    nais e locais da docncia e da pesquisa. Em

    outras palavras, a autonomia deve ser pensa-

    da, como autodeterminao das polticas aca-

    dmicas, dos projetos e metas das instituies

    universitrias e da autnoma conduo admi-

    nistrativa, financeira e patrimonial. Essa auto-

  • A universidade pblica sob nova perspectiva

    Revista Brasileira de Educao 13

    nomia s ter sentido se: a) internamente, hou-

    ver o funcionamento transparente e pblico das

    instncias de deciso; b) externamente, as uni-

    versidades realizarem, de modo pblico e em

    perodos regulares fixados, o dilogo e o deba-

    te com a sociedade civil organizada e com os

    agentes do Estado, tanto para oferecer a todos

    as informaes sobre a vida universitria,

    como para receber crticas, sugestes e de-

    mandas vindas da sociedade e do Estado. Isso

    significa tambm que a autonomia inseparvel

    da elaborao da pea oramentria anual, pois

    esta que define prioridades acadmicas de

    docncia e pesquisa, metas tericas e sociais,

    bem como as formas dos investimentos dos

    recursos. Para que haja autonomia com car-

    ter pblico e democrtico preciso que haja

    discusso dos oramentos por todos os mem-

    bros da universidade, segundo o modelo do

    oramento participativo. Finalmente, a autono-

    mia universitria s ser efetiva se as universi-

    dades recuperarem o poder e a iniciativa de

    definir suas prprias linhas de pesquisa e prio-

    ridades, em lugar de deixar-se determinar ex-

    ternamente pelas agncias financiadoras.

    3. Desfazer a confuso atual entre democratiza-

    o da educao superior e massificao. Para

    isso, trs medidas principais so necessrias:

    a) articular o ensino superior pblico e outros

    nveis de ensino pblico. Sem uma reforma ra-

    dical do ensino fundamental e do ensino mdio

    pblicos, a pretenso republicana e democrti-

    ca da universidade ser incua. A universidade

    pblica tem que se comprometer com a mu-

    dana no ensino fundamental e no ensino mdio

    pblicos. A baixa qualidade do ensino pblico

    nos graus fundamental e mdio tem encaminhado

    os filhos das classes mais ricas para as escolas

    privadas e, com o preparo que ali recebem, so

    eles que iro concorrer em melhores condies

    s universidades pblicas, cujo nvel e cuja qua-

    lidade so superiores aos das universidades pri-

    vadas. Dessa maneira, a educao superior p-

    blica tem sido conivente com a enorme exclu-

    so social e cultural dos filhos das classes po-

    pulares que no tm condies de passar da

    escola pblica de ensino mdio para a universi-

    dade pblica. Portanto, somente a reforma da

    escola pblica de ensino fundamental e mdio

    pode assegurar a qualidade e a democratizao

    da universidade pblica. A universidade pblica

    deixar de ser um bolso de excluses sociais e

    culturais quando o acesso a ela estiver assegu-

    rado pela qualidade e pelo nvel dos outros graus

    do ensino pblico; b) reformar as grades curri-

    culares atuais e o sistema de crditos, uma vez

    que ambos produzem a escolarizao da uni-

    versidade, com a multiplicao de horas/aula,

    retirando dos estudantes as condies para lei-

    tura e pesquisa, isto , para sua verdadeira for-

    mao e reflexo, alm de provocarem a frag-

    mentao e disperso dos cursos, e estimular a

    superficialidade. preciso diminuir o tempo em

    horas/aula e o excesso de disciplinas semestrais.

    Dependendo da rea acadmica, as disciplinas

    podem ser ministradas em cursos anuais, per-

    mitindo que o estudante se aprofunde em um

    determinado aspecto do conhecimento. pre-

    ciso tambm no somente assegurar espao para

    a implantao de novas disciplinas exigidas por

    mudanas filosficas, cientficas e sociais, como

    tambm organizar os cursos de maneira a asse-

    gurar que os estudantes possam circular pela

    universidade e construir livremente um curr-

    culo de disciplinas optativas que se articulem s

    disciplinas obrigatrias da rea central de seus

    estudos; c) assegurar, simultaneamente, a uni-

    versalidade dos conhecimentos (programas

    cujas disciplinas tenham nacionalmente o mes-

    mo contedo no que se refere aos clssicos de

    cada uma delas) e a especificidade regional (pro-

    gramas cujas disciplinas reflitam os trabalhos

    dos docentes-pesquisadores sobre questes es-

    pecficas de suas regies). Assegurar que os

    estudantes conheam as questes clssicas de

  • Marilena Chaui

    14 Set /Out /Nov /Dez 2003 No 24

    sua rea e, ao mesmo tempo, seus problemas

    contemporneos e as pesquisas existentes no

    pas e no mundo sobre os assuntos mais rele-

    vantes da rea. Para isso so necessrias condi-

    es de trabalho: bibliotecas dignas do nome,

    laboratrios equipados, informatizao, bolsas

    de estudo para estudantes de graduao, aloja-

    mentos estudantis, alimentao e atendimento

    sade, assim como convnios de intercmbio

    de estudantes entre as vrias universidades do

    pas e com universidades estrangeiras.

    4. Revalorizar a docncia, que foi desprestigiada

    e negligenciada com a chamada avaliao da

    produtividade, quantitativa. Essa revalorizao

    implica: a) formar verdadeiramente professo-

    res, de um lado, assegurando que conheam

    os clssicos de sua rea e os principais pro-

    blemas nela discutidos ao longo de sua hist-

    ria e, de outro lado, levando em considerao

    o impacto das mudanas filosficas, cientfi-

    cas e tecnolgicas sobre sua disciplina e so-

    bre a formao de seus docentes; b) oferecer

    condies de trabalho compatveis com a for-

    mao universitria, portanto, infra-estrutura

    de trabalho (bibliotecas e laboratrios realmen-

    te equipados); c) realizar concursos pblicos

    constantes para assegurar o atendimento qua-

    litativamente bom de um nmero crescente de

    estudantes em novas salas de aulas (o proces-

    so de democratizao aumentar o acesso s

    universidades); d) garantir condies salariais

    dignas que permitam ao professor trabalhar

    em regime de tempo integral de dedicao

    docncia e pesquisa, de maneira que ele te-

    nha condies materiais de realizar permanen-

    temente seu processo de formao e de atua-

    lizao dos conhecimentos e das tcnicas

    pedaggicas; e) incentivar o intercmbio com

    universidades do pas e estrangeiras, de ma-

    neira a permitir a completa formao do pro-

    fessor, bem como familiariz-lo com as dife-

    renas e especificidades regionais e nacionais

    bem como as grandes linhas do trabalho uni-

    versitrio internacional.

    5. Revalorizar a pesquisa, estabelecendo no s

    as condies de sua autonomia e as condies

    materiais de sua realizao, mas tambm recu-

    sando a diminuio do tempo para a realizao

    dos mestrados e doutorados. Quanto aos pes-

    quisadores com carreira universitria, preci-

    so criar novos procedimentos de avaliao que

    no sejam regidos pelas noes de produtivi-

    dade e de eficcia e sim pelas de qualidade e de

    relevncia social e cultural. Essa qualidade e

    essa relevncia dependem do conhecimento,

    por parte dos pesquisadores, das mudanas fi-

    losficas, cientficas e tecnolgicas e seus im-

    pactos sobre as pesquisas. Quanto relevn-

    cia social das pesquisas, cabe s universidades

    pblicas e ao Estado fazer um levantamento

    das necessidades do seu pas no plano do co-

    nhecimento e das tcnicas e estimular traba-

    lhos universitrios nessa direo, asseguran-

    do, por meio de consulta s comunidades

    acadmicas regionais, que haja diversificao

    dos campos de pesquisa segundo as capacida-

    des e as necessidades regionais. As parcerias

    com os movimentos sociais nacionais e regio-

    nais podem ser de grande valia para que a so-

    ciedade oriente os caminhos da instituio uni-

    versitria, ao mesmo tempo que esta, por meio

    de cursos de extenso e por meio de servios

    especializados, poder oferecer elementos re-

    flexivos e crticos para a ao e o desenvolvi-

    mento desses movimentos. Ou seja, a orienta-

    o de rumos das pesquisas pode ser feita

    segundo a idia de cidadania.

    6. A valorizao da pesquisa nas universidades

    pblicas exige polticas pblicas de financia-

    mento por meio de fundos pblicos destinados

    a esse fim por intermdio de agncias nacio-

    nais de incentivo pesquisa, mas que sigam

    duas orientaes principais: a) projetos propos-

  • A universidade pblica sob nova perspectiva

    Revista Brasileira de Educao 15

    tos pelas prprias universidades; b) projetos

    propostos por setores do Estado que fizeram

    levantamentos locais e regionais de demandas

    e necessidades de pesquisas determinadas e

    que sero subvencionadas pelas agncias. A

    avaliao dos projetos, para concesso de fi-

    nanciamento, e a avaliao dos resultados de-

    vem ser feitas por comisses democraticamente

    escolhidas pelas comunidades universitrias, em

    consonncia com a definio de um programa

    nacional de pesquisas, definido pelo conjunto

    das universidades aps o levantamento das ne-

    cessidades, interesses e inovaes das pesqui-

    sas para o pas. Alm dessa avaliao do con-

    tedo, deve haver uma avaliao pblica dos

    objetivos e aplicaes das pesquisas e uma ava-

    liao pblica, feita pelo Estado, sobre o uso

    dos fundos pblicos. Em outras palavras, a

    universidade deve publicamente prestar con-

    tas de suas atividades de investigao socie-

    dade e ao Estado.

    7. Adotar uma perspectiva crtica muito clara tan-

    to sobre a idia de sociedade do conhecimento

    quanto sobre a de educao permanente, tidas

    como idias novas e diretrizes para a mudana

    da universidade pela perspectiva da moderni-

    zao. preciso tomar a universidade do pon-

    to de vista de sua autonomia e de sua expres-

    so social e poltica, cuidando para no correr

    em busca da sempiterna idia de modernizao

    que, no Brasil, como se sabe, sempre significa

    submeter a sociedade em geral e as universi-

    dades pblicas, em particular, a modelos, cri-

    trios e interesses que servem ao capital e no

    aos direitos dos cidados.

    MARILENA CHAUI doutora em filosofia e professora titu-

    lar na Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da Univer-

    sidade de So Paulo. Pela importncia e consistncia de sua obra,

    em junho de 2003, recebeu o ttulo de Doctor Honoris Causa, pela

    Universidade de Paris VIII, primeira mulher brasileira a receber o

    referido ttulo nessa universidade. uma das maiores especialistas

    do mundo em Spinoza, tendo publicado Spinoza: uma filosofia da

    liberdade (So Paulo: Moderna, 1995), A nervura do real: imann-

    cia e liberdade em Spinoza (So Paulo: Companhia das Letras,

    1999) e Poltica em Spinoza (So Paulo: Companhia das Letras,

    2003). Foi secretria municipal de cultura, na Prefeitura de So

    Paulo, durante a gesto de Luza Erundina (1989-1992). Atuou

    como uma das lderes do movimento nacional contra a implanta-

    o das licenciaturas curtas para a formao de professores em

    nvel superior e defensora da manuteno da filosofia nos currculos

    do ensino mdio brasileiro, durante o ltimo governo militar. Publi-

    cou, inclusive, o livro Convite filosofia, que se constituiu em

    referncia didtica obrigatria para todos os que defendiam a per-

    manncia da disciplina nos currculos. Publicou ainda grande nme-

    ro de artigos e pelo menos dez livros, entre os quais se destacam: O

    que ideologia, da Coleo Primeiros Passos, editada pela Brasi-

    liense, com mais de cinqenta edies, constituindo-se em obra de

    referncia tanto nos cursos de ensino mdio como nos de gradua-

    o; Cultura e democracia; o discurso competente e outras falas

    (So Paulo: Moderna, 1980); Conformismo e democracia; aspec-

    tos da cultura popular no Brasil (So Paulo: Brasiliense,1986); e

    Escritos sobre a universidade (So Paulo: Ed. UNESP, 2001). Atual-

    mente coordena a pesquisa Filosofia no sculo XVII.

    Recebido em outubro de 2003

    Aprovado em outubro de 2003

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