à sombra do libertador

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R ICHARD G OTT

SOMBRA DO LIBERTADORHugo Chvez Frias e a transformao da Venezuela

R ICHARD G OTT

SOMBRA DO LIBERTADORHugo Chvez Frias e a transformao da Venezuela

EDITORA EXPRESSO POPULAR

Copyright 2004, by Editora Expresso Popular Ttulo original: A LA SOMBRA DEL LIBERTADOR - Hugo Chvez Fras y la transformacin de Venezuela Traduo: Ana Corbisier Reviso: Orlando Augusto Pinto e Geraldo Martins de Azevedo Filho Projeto grfico, capa e diagramao: ZAP Design Foto da capa: Venpres Impresso e acabamento: Cromosete Dados Internacionais de Catalogao-na-Publicao (CIP) (Biblioteca Central - UEM, Maring PR., Brasil)G685s Gott, Richard sombra do libertador: Hugo Chvez Fras e a transformao da Venezuela / Richard Gott ; traduo Ana Corbisier. -1.ed.-- So Paulo : Expresso Popular, 2004. 304 p. Ttulo original: A la sombra del libertador: Hugo Chvez Fras y la transformacin de Venezuela. Livro indexado em GeoDados-http://www.geodados.uem.br 1. Fras, Hugo Chvez Poltico. 2. Venezuela Poltica. 3. Venezuela Golpe militar. I. Ttulo. CDD 21.ed. 320.987 Eliane M. S. Jovanovich CRB 9/1250

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sem a autorizao da editora. 1 edio: dezembro de 2004 EDITORA EXPRESSO POPULAR Rua Abolio, 266 - Bela Vista CEP 01319-010 So Paulo-SP Fone/Fax: (11) 3112-0941 Correio eletrnico: [email protected] www.expressaopopular.com.br

Sumrio

REPORTAGEM ENVIADA DE CARACAS ........................................................ 7 DEBAIXO DE CHUVA ....................................................................................... 21 PRIMEIRA PARTE PREPARANDO-SE PARA O PODER 1. JOGO DE BEISEBOL EM HAVANA ............................................................ 49 2. AS PROMOES MILITARES DE HUGO CHVEZ ............................. 59 3. A REBELIO EM CARACAS, O CARACAZO ............................................ 71 4. O PACOTE ECONMICO QUE PS FIM PRESIDNCIA DE CARLOS ANDRS PREZ ..................................................................... 79 5. DOUGLAS BRAVO E O DEBATE ENTRE CIVIS E MILITARES .......... 89 6. A INTERVENO MILITAR DE CHVEZ ............................................... 97 7. O GOLPE DO VICE-ALMIRANTE HERNN GRBER ..................... 107 8. LUIS MIQUILENA E A FRENTE PATRITICA DE 1989 .................... 115 9. TORRIJOS E VELASCO, TRADIO DA REBELIO MILITAR NA AMRICA LATINA ................................................................................ 123 SEGUNDA PARTE REVIVENDO O PASSADO 11. O LEGADO DE SIMN BOLVAR .......................................................... 135 12. ROBINSON CRUSOE E A FILOSOFIA DE SIMN RODRGUEZ ............................................................................................... 149 12. EZEQUIEL ZAMORA CLAMA POR HORROR OLIGARQUIA ......................................................................................... 159 TERCEIRA PARTE PREPARANDO A DERRUBADA DO ANTIGO REGIME 13. A PRISO DE YARE - PROCURA DE ALIADOS POLTICOS ...... 169 14. CAUSA R, PTRIA PARA TODOS (PPT) E A POLTICA EM GUAYANA ............................................................................................. 177 15. AS ELEIES PRESIDENCIAIS DE 1998 ............................................... 189

QUARTA PARTE CHVEZ NO PODER 16. A FORMAO DE UMA ASSEMBLIA CONSTITUINTE .............. 199 17. MANUEL QUIJADA E A REFORMA DO PODER JUDICIRIO ..... 207 18. AL RODRGUEZ ARAQUE E A NOVA POLTICA PARA O PETRLEO ................................................................................... 211 19. O PROGRAMA ECONMICO DO GOVERNO DE CHVEZ ....... 221 20. UM NOVO FUTURO AGRCOLA PARA A VENEZUELA ................ 229 21. JOS VICENTE RANGEL E A POLTICA EXTERNA ......................... 243 22. A GUERRA CIVIL NA COLMBIA E O FUTURO DO SONHO BOLIVARIANO ................................................................... 255 23. NOVOS DIREITOS PARA OS POVOS INDGENAS ........................... 265 24. TEODORO PETKOFF E A OPOSIO A CHVEZ ........................... 273 EPLOGO OS MILITARES E A SOCIEDADE CIVIL ...................................................... 281

MAIO DE 2002 REPORTAGEM ENVIADA DE CARACASRICHARD GOTT

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maravilhosa cidade de Caracas se espraia sob inumerveis colinas cujos cumes aparecem sobre as nuvens que se espalham no vale em perodos de chuva. Milhares de pessoas vivem em ladeiras ngremes, nos barrios, um termo comumente traduzido para o ingls como ,* pouco adequado realidade, visto no serem simplesmente favelas. Embora sobras de madeira e zinco sejam muito usados, ali tambm existem casas de alvenaria. Sua principal caracterstica a proximidade, com os barracos empilhados uns sobre os outros, lutando pelo espao. Uma vasta massa de pessoas vai e vem, em constante movimento. Alguns so brancos, mas a grande maioria tem a pele escura, sejam negros ou de origem indgena. A Venezuela situase geograficamente entre o Brasil e as ilhas do Caribe, e os filhos de escravos e indgenas superam em nmero os descendentes dos colonos europeus. As pessoas so alegres e dispostas, mas, em umCabana, choa... urbana. (N. do E.)

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dos pases mais ricos da Amrica Latina, vivem em constante e absoluta pobreza. Faltam educao e sade. assim. Muita gente consegue sobreviver como camel, l embaixo, no vale. O ar claro e a paisagem, imponente, de tirar o flego. A atmosfera a de uma cidade de montanha da Europa medieval, ainda que os servios sejam mais modernos. A gua e a energia eltrica chegam a todo o pas, mas o servio de coleta de lixo precrio e, com freqncia, os resduos amontoam-se nos despenhadeiros das encostas e ao longo das estreitas caladas que ligam esses imensos conglomerados urbanos. So bairros no planejados, portanto, nem os nibus, nem os carros podem manobrar nesses morros. A insegurana a principal preocupao: grades de metal e portas de segurana so os objetos mais caros e mais importantes das construes. Dos morros, os pobres vem abaixo os bairros dos ricos. Uma pequena minoria de venezuelanos brancos vive em grandes extenses urbanizadas, com empregados e piscinas, lojas e supermercados e vai para seus escritrios em automveis com ar-condicionado, por avenidas sem fim. A imagem da frica do Sul nos vem cabea. Soweto contra os subrbios brancos de Johannesburgo. O apartheid no est legalizado na Amrica Latina, mas existe, mesmo assim. Os colonos brancos comandaram o continente desde os tempos da conquista e, em pases como a Venezuela, o fluxo constante de imigrantes europeus, nos sculos 19 e 20, reforaram a elite branca e seu inerente racismo; um fenmeno que domina hoje o cenrio poltico do pas. H trs anos, depois de uma dcada de crise poltica e do colapso dos velhos partidos polticos corruptos, o sistema democrtico levou Presidncia um homem do povo. Com ancestrais negros e indgenas, e a enftica retrica de um provinciano, Hugo Chvez comeou a organizar uma revoluo. Um tenente-coro-

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nel carismtico e popular identificou as semelhanas que havia entre os soldados e o povo que era a sua origem. Com a sua formao a partir de diversos idealistas do sculo 19, assim como de revolucionrios nacionalistas, incluindo Simn Bolvar, o libertador da Venezuela e de metade da Amrica Latina, entregouse tarefa de romper as barreiras entre a Fora Armada e o restante da sociedade, utilizando soldados como ponta-de-lana de seus projetos de desenvolvimento. O Plano Bolvar foi posto em ao, utilizando quartis como escolas, dividindo com o povo os servios de sade reservados aos militares, tentando pr para funcionar, novamente, com aes mais dinmicas, um setor pblico moribundo. O descontentamento com a revoluo de Chvez por parte da elite branca do pas, de generais do Exrcito e de homens de negcio conservadores, ficou evidente desde o comeo. E foi assim que, em abril, os contra-revolucionrios deram um golpe de Estado no mais puro estilo Pinochet. Aboliram a Constituio e a Assemblia Nacional e enviaram batalhes armados para perseguir, dar busca e assassinar famlias de destacados seguidores de Chvez. Mas o golpe foi to violento que entrou em colapso em apenas um par de dias, destrudo unicamente pela aliana que Chvez vinha construindo, com tanto empenho, entre os soldados e o povo. Chvez agora reconhecido como a figura mais causa interesse da Amrica Latina, desde o apogeu de Fidel Castro. Sua experincia poltica o projeto latino-americano mais realista, desde a Revoluo Cubana. No continente, as pessoas observam com ateno o que se pode aprender com seu modelo, enquanto para o resto do mundo o primeiro chefe de Estado que se integra abertamente ao movimento contra a globalizao. Em seu discurso na cpula entre a Europa e a Amrica Latina, em Madri, no ms de maio, e

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com uma linguagem antiglobalizao, deplorou a falta de liderana poltica e condenou aquele tipo de reunio como uma perda de tempo: Os lderes vo de cpula em cpula reclamou enquanto seus povos vo de abismo em abismo. O projeto de Chvez mais poltico do que econmico, e se deve tanto a seu estilo e retrica quanto a polticas concretas. Seu objetivo poltico minar as bases do poder das elites entrincheiradas que nunca se preocuparam em implementar reformas econmicas moderadas para melhorar o nvel de vida dos setores populares. Sua principal inovao interna, o Plano Bolvar, envolve mais formalmente a Fora Armada nos projetos de desenvolvimento, especialmente em escolas e hospitais. Nas questes internacionais, o propsito do governo foi aumentar a receita de seu maior gerador de divisas, Pdvsa, empresa petrolfera estatal, o que foi obtido graas renovao da Opep e estabilizao dos preos do petrleo em nveis razoavelmente altos uma importante vitria de Chvez assim como ao aumento dos impostos