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SOCIOLOGIAS

DOSSISociologias, Porto Alegre, ano 7, n 14, jul/dez 2005, p. 376-437

A Sociologia no Brasil: histria, teorias e desafiosENNO D. LIEDKE FILHO *

ste estudo focaliza a histria da Sociologia no Brasil, analisando os traos principais das etapas e perodos de sua institucionalizao e evoluo como disciplina acadmico-cientfica, as recepes de tradies sociolgicas europias e norte-americana pela sociologia brasileira, assim como a situao atual da Sociologia, os principais campos de pesquisa, os novos temas e novas abordagens que vieram a ser propostos para a explicao e/ou compreenso da situao social brasileira. A emergncia e evoluo da Sociologia como disciplina acadmicocientfica no Brasil e na Amrica Latina divide-se nas seguintes etapas e perodos:

E

A Herana Histrico-cultural da Sociologia Perodo dos Pensadores Sociais Perodo da Sociologia de Ctedra Etapa Contempornea da Sociologia Perodo da Sociologia Cientfica Perodo de Crise e Diversificao* Professor Colaborador do Programa de Ps-Graduao em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil.

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Perodo de Busca de uma Nova Identidade 1 Os principais acontecimentos, caractersticas institucionais, bem como as problemticas, os temas e as influncias tericas dominantes ao longo dessas etapas e perodos da evoluo da Sociologia no Brasil, apresentados esquematicamente na Figura 1, sero analisados em detalhe a seguir.

I - A Herana Histrico-cultural da Sociologia no Brasil- O perodo dos pensadores sociais O perodo dos Pensadores Sociais, tambm chamado por alguns autores de perodo pr-cientfico, corresponde historicamente ao perodo que se estende das lutas pela Independncia das naes latino-americanas at o incio do sculo XX. Durante esse perodo a elaborao de teoria social tendeu a ser desenvolvida por pensadores e mesmo homens de ao (polticos), sob a influncia de idias filosfico-sociais europias ou norte-americanas como, por exemplo, o iluminismo francs, o ecletismo de Cousin, o positivismo de Comte, o evolucionismo de Spencer e Haeckel, o social-darwinismo americano de Sumner e Ward e o determinismo biolgico de Lombroso. Sob as influncias desses autores buscava-se equacionar duas problemticas centrais a formao do Estado nacional brasileiro, opondo liberais e autoritrios,2 e a questo da identidade nacional, tendo como ncleo a questo racial opondo os que sustentavam uma viso racista e os inspirados pelo relativismo tnico-cultural.3

1 A reconstruo da evoluo da sociologia no Brasil e na Amrica Latina apresentada aqui sucintamente, foi desenvolvida , em detalhe em Liedke Filho (1990a). 2 Sobre o pensamento autoritrio na Primeira Repblica, ver Lamounier, 1977. 3 Entre outros, ver Maio, 1996.

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INFLUNCIASLOMBROSO SPENCER COMTE DURKHEIM DEWEY ESCOLA NOVA E DEMOCRATIZAO ESCOLA DE CHICAGO MARX (WEBER) MANHEIM GOLDMANN GRAMSCI LUCKCS ALTHUSSER SARTRE

ELIAS HABERMAS FOUCAULT GIDDENS BOURDIEU WEBER

SOCIOLOGIAS

TEMAS

RELAES RACIAIS E DEMOCRACIA RACIAL ESTUDOS DE COMUNIDADE TRANSIO PARA A MODERNIDADE

IDENTIDADE NACIONAL

MISCIGENAO RACIAL VISO PESSIMISTA

MISCIGENAO RACIAL VISO OTIMISTA

DOIS BRASIS

MULTI-CULTURALISMO RAAS GNERO DIREITOS HUMANOS VIOLNCIA DESIGUALDADES SOCIAIS RELIGIES REPRESENTAES SOCIAIS IDENTIDADES SOCIAIS NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS REATIVAO DA SOC. CIVIL AUTORITARISMO X DEMOCRATIZAO

Sociologias, Porto Alegre, ano 7, n 14, jul/dez 2005, p. 376-437

PROBLEMTICASVISO RACISTA X RELATIVISMO QUESTO RACIAL LIBERAIS X AUTORITRIOS FORMAO ESTADO NACIONAL

SOCIEDADE TRADICIONAL X SOCIEDADE MODERNA MODERNIZAO X DEPENDNCIA X NACIONALISMO SUBDESENVOLVIMENTO X DESENVOLVIMENTO

ETAPAS DA SOCIOLOGIAPENSADORES SOCIAIS

Ctedras em Escolas NormaisSOCIOLOGIA DE CTEDRA 1924 1934 1937

Curso Sociologia e Poltica USP Escola Livre Sociologia e PolticaSOCIOLOGIA CIENTFICA

Expanso PG Cassaes1957 CRISE E DIVERSIFICAO

Grupos de Pesquisa CNPq BUSCA DE NOVAIDENTIDADE 1984/5 2002 1985

1954 1945

1974 1964

1888/9

1930

Figura 1 - A Sociologia no Brasil

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Azevedo (1957 e 1962) sugere que a evoluo dos estudos de Antropologia e de Sociologia sobre a sociedade brasileira apresenta uma etapa anterior ao ensino e pesquisa, a qual se estende da segunda metade do sculo XIX at 1928;4 caracterizada predominantemente pelas grandes expedies de investigao cientfica das culturas indgenas (1818 a 1910), quando ...sbios alemes e de outras nacionalidades ... se puseram em contato com grande nmero de tribos, (abrindo) novas perspectivas aos estudos etnolgicos e, com as obras (resultantes) trouxeram contribuio notvel aos progressos nesse vasto domnio de investigaes cientficas (Azevedo, 1962, p. 111). Paralelamente ao florescimento dos estudos sobre as tribos indgenas e, no entender de Azevedo, sob a influncia destes, iniciaram-se os estudos de Antropologia Fsica e Cultural tendo por temtica principal os negros e as culturas africanas no Brasil, destacando-se autores tais como Batista Lacerda, Nina Rodrigues e Roquette Pinto. Os estudos sobre as tribos indgenas e os negros no Brasil, ao prepararem o caminho para a posterior institucionalizao do ensino e da pesquisa, constituram o ponto de partida para a evoluo da sociologia propriamente dita (Azevedo, 1962). Azevedo considera que esta etapa dos precursores ou pioneiros da nova cincia no Brasil, autodidatas, eruditos ou diletantes que cediam a influncias variveis e sucessveis de obras que lhes caam nas mos e passavam a ser as fontes inspiradoras de seus trabalhos, significou a acentuao do pensamento sociolgico e poltico, a princpio tnue e difuso, tendo por referncias o positivismo, o evolucionismo e as influncias da escola antropolgica italiana, as teorias antropogeogrficas e, finalmente, da ecologia humana e da antropologia cultural anglo-americana (Azevedo, 1962).4 Esta etapa foi, no entender de Azevedo, antecedida por uma fase pr-cientfica caracterizada pela contribuio etnogrfica dos cronistas (sculos XVI-XVIII)

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Sobre o sentido social das cincias sociais neste perodo dos pensadores sociais, interessante deixar tambm registrado aqui que Fernandes (1977), analisando as razes pelo interesse nos conhecimentos sociolgicos, ento indica que podem ser identificados dois perodos: um primeiro perodo de autodidatismo inicia-se j no terceiro quartel do sculo XIX, correspondendo fase de desagregao da ordem social escravocrata, e caracterizado pela explorao de conhecimentos sociolgicos como recurso parcial de interpretao. A inteno principal no fazer investigao sociolgica propriamente dita, mas considerar fatores sociais na anlise de certas relaes como, por exemplo, as conexes entre o Direito e a Sociologia, a literatura e o contexto social, o Estado e a organizao social. Um segundo perodo tem incio em princpios do sculo, quando a sociologia frutifica tanto sob a forma de anlise histrico-geogrfica como sociolgica do presente, quanto sob a inspirao de um modelo mais complexo de anlise histrico-pragmtica, em que a interpretao do presente se associa a disposies de interveno racional no processo social (Fernandes, 1977, p. 27). - O perodo da Sociologia de Ctedra O perodo da Sociologia de Ctedra iniciou-se nos pases latino-americanos em fins do sculo passado, quando ctedras de Sociologia foram introduzidas nas Faculdades de Filosofia, Direito e Economia. No Brasil, esse perodo teve incio em meados da dcada de vinte, quando foram criadas as primeiras ctedras de Sociologia em Escolas Normais (1924-25), enquanto disciplina auxiliar da pedagogia, dentro do esforo democratizante do movimento reformista pedaggico que tem sua expresso maior no movimento da Escola Nova. Neste momento, ocorreu a proliferao de publicaes como os manuais e coletneas para o ensino de Sociologia, os quais procuravam divulgar as idias de cientistas sociais europeus e norte-americanos renomados, tais como Durkheim e Dewey,

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bem como idias sociolgicas acerca de problemas sociais como urbanizao, migraes, analfabetismo e pobreza. Ao mesmo tempo, a questo da miscigenao racial no Brasil passou a ser tratada em uma perspectiva otimista como em Casa Grande e Senzala de Gilberto Freyre (2000). Azevedo (1951), enfocando esta fase de introduo do ensino da Sociologia em escolas do Pas (1928-1935), argumenta que a origem da consolidao da Sociologia na mesma deve ser procurada, no em uma nica causa determinante, seno em mltiplas causas que esto estreitamente ligadas, sendo possvel distingui-las unicamente para fins analticos. A multiplicidade de fatores decorrentes dos contatos, conflitos e acomodaes de povos e culturas diversas; o contraste entre as sociedades em mudana e as culturas de folk remanescentes em toda a vasta extenso territorial; a variedade de paisagens culturais e a contemporaneidade ou justaposio nas realidades concretas, de sculos ou de camadas histricas, deveriam certamente sacudir a ateno e despertar o interesse pelo estudo cientfico dessas realidades sociais vivas e atuais, postas sob os olhos de todos e que no escaparam, pela intensidade dos fenmenos, aos observadores menos atentos. Porm, acrescenta Azevedo (1962), ...[o] que nos compeliu a essa revoluo intelectual, que nos iniciou no esprito crtico e experimental, em todos os domnios, e nos abriu o caminho aos estudos e as pesquisas sociolgicas, foi, no entanto, o desenvolvimento da indstria e do comrcio nos grandes centros do pas e, part