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    A sociologia da instabilidade Uma teoria sobre o conhecimento sociolgico

    I. Uma perspectiva sociolgica para o sculo XXI A questo positivista A questo da violncia Uma brevssima histria da sociologia 1968 e a emergncia da revoluo neo-liberal O que a sociedade, actualmente? Contribuio da sociologia para a sociedade actual II. Estados de esprito um programa sociolgico Estados-de-esprito Segredos sociais e nveis de repugnncia Sociologia das prises III. Manifesto positivista Sr. Blair regresso a Deus A igualdade: valor inspirador do positivismo Abrir a sociologia s cincias biolgicas e normativas Centralidades temticas e objectos marginais Sociologia dos direitos humanos IV. Dimenses e essncias sociais Potencialidades e realidades Introspeco e teste de hipteses V. Naturezas sociais Diferentes estratgias de afirmao da teoria social O sujeito Naturezas sociais VI. Dinmicas sociais Institucionalizaes e transformaes sociais Reproduo e disposies sociais Dinmicas sociais VII. Emoes enquanto os operadores de estados-de-esprito (Passagem ao acto: pensamento religioso e pensamento belicoso) A actualidade das redes terroristas Culpabilizao pecado original dos intelectuais ocidentais? Transversalidade do modus operandi Tempo e institucionalizao ocidental, segundo algumas das principais dimenses sociais A culpa VIII. Culpa e fidelidade Individuao: libertao A natureza social e a artificialidade das instituies Institucionalizao: culpa, excluso e integrao

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    Quadros: Quadro I.1. Mutaes epistemolgicas entre a sociologia clssica e a actual Quadro I.2. Teses histrica e sociolgica sobre fenmeno do encarceramento Quadro VI.1. Motores da diferenciao social moderna Quadro VI.2. Dinmicas sociais modernizadoras Quadro VII.1. Operadores de mudana de estados-de-esprito mais tpicos da civilizao Quadro VIII.1. Fontes de dinmicas de violncia social estruturante

    A sociologia da instabilidade Uma teoria sobre o conhecimento sociolgico

    Resumo: A teoria social emerge da grande violncia do sculo XIX. Institucionaliza-se com o Estado Social e a promessa de paz duradoira, assumida como profecia que se auto-realiza. Reencontra-se no incio do sculo XXI com as suas prprias origens e fantasmas. Palavras-chave: teoria social, naturezas sociais, estados-de-esprito

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    A sociologia da instabilidade Uma teoria sobre o conhecimento sociolgico

    () semeamos histrias ao vento e esperamos que elas protejam a estabilidade do universo e a nossa prpria estabilidade citado de Goffman por Rogrio Ferreira de Andrade (2000) Institucionalizaes e colapsos de sentido nas organizaes, http://www.bocc.ubi.pt/pag/andrade-rogerio-institucionalizacoes.pdf, 2007-04-23:7 Impressiona a repugnncia sentida pelos socilogos tanto perante a violncia como perante a espiritualidade, por via da teoria social que adoptaram atravs da sua disciplina. Dir-se-ia que mais do que fora do mbito de aco da disciplina, violncia e espiritualidade so imorais, e deveriam ser banidas das relaes sociais ou, pelo menos, das teorias sociolgicas. Tal repugnncia palpvel para quem faa experincias simples e reprodutveis: experimentem questionar um socilogo teoricamente bem formado sobre como se deve abordar a espiritualidade humana, ou perguntem-lhe o que acha da possibilidade de existir um conceito sociolgico chamado estados-de-esprito. Observem as reaces. Questionem um socilogo sobre a natureza violenta das sociedades modernas, procurando defender a ideia de que cada vez a violncia politicamente induzida maior medida que a modernidade se instala (a tese inversa da que defendeu Norbert Elias no seu merecidamente clebre Processo Civilizacional). Consoante a postura de quem esteja a organizar a experincia, de esperar que o socilogo ou desenvolva uma postura condescendente (face ignorncia sociolgica do seu interlocutor) ou reclame contra o arcasmo, tradicionalismo, reaccionarismo do experimentador. A menos que goste da ideia de oposio s polticas dominantes e possa ancorar a a sua concordncia (a guerra, a excluso, a explorao, etc.). Muito poucos, porm, remetidos para o mbito social mais estrito, no tecero loas s sensibilidades anti-violentas das sociedades modernas actuais, em particular das classes mdias avessas luta de classes. Mas ser a repugnncia um sentimento favorvel investigao cientfica de fenmenos sociais to banais? Como lidam os socilogos com tal sentimento visceral quando confrontados o que acontece recorrentemente, evidentemente com factos sociais intensamente espirituais ou violentos? Como lidam com o medo, a paixo, a ira ou a compaixo? Tanto se evitam estes temas, que acabou por se desenvolver, a partir dos anos 80, uma sociologia extica e especializada com o nome de sociologia das emoes, onde tambm a a violncia e a espiritualidade so cuidadosamente evitadas.1 A teoria social promove uma espcie de higienizao das relaes sociais, para o que utiliza a inspirao cartesiana de distinguir os problemas do corpo (sociologia do corpo)2 das problemas da alma (sociologia das emoes), como se no fossem corpo e emoes, um

    1 Uma das estratgias mais populares para evitar problemas tericos e metodolgicos restringir a observao e a anlise da sociedade ao nvel das representaes sociais dos fenmenos sociais mais completos e intensos. 2 Certamente no por acaso a sociologia do corpo emerge como especialidade na mesma poca histrica em que emerge a sociologia das emoes.

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    complexo integrado na prtica, de facto organismo, regulao homeosttica centrada no crebro e mente, cf. Antnio Damsio (1999). O que aconteceu com a teoria social desde que Durkheim fez equivaler as ideias de sociedade e conscincia colectiva, entendida esta como o resultado da evoluo da espiritualidade essencial da humanidade, cuja sociognese procurou contribuir por estabelecer no seu Formas Elementares da Vida Religiosa? O que aconteceu com a teoria social desde que Karl Marx fez equivaler transformao das relaes sociais a fenmenos revolucionrios, eminentemente violentos? Como a sociologia desenvolveu a ideia da ascendncia espiritual crist e radical do esprito do capitalismo? At que a sociologia acompanhou a economia ao expurgar dos seus horizontes o estudo cientfico da moral social? O trabalho que se segue no uma resposta cabal e acabada s questes levantadas. to s uma compilao provisria, ainda que estruturada e sistemtica, de argumentos e sugestes de auto-questionamento, escrita a pensar em fixar uma etapa de reflexo sociolgica. As investigaes prisionais desenvolvidas tiveram efeitos inspiradores,3 bem como o ensino de teorias e mtodos sociolgicos. Especialmente o trabalho com os alunos dos mestrados cujos programas foram desenvolvidos com base na vontade de lanar pontes de interdisciplinaridade com o direito e com as cincias da sade (saberes onde a violncia e a espiritualidade esto particularmente presentes)4 foi um estmulo para o trabalho de produo deste livro. Faz parte desse questionamento a proposta terica e metodolgica cujos fundamentos e linhas gerais so apresentadas no livro, proposta essa que tem sido explorada pelo autor nos ltimos anos, na investigao e na docncia. Tal proposta continua em desenvolvimento.5 A proposta sugere o aprofundamento da ambio cientfica das teorias sociais, em particular em torno do programa de descoberta de estados-de-esprito essenciais que, eventualmente, possam vir a constituir uma nova tabela peridica a partir da qual seja possvel imaginar, como um lego, o estudo da construo das sociedades. Prope mobilizar mtodos fenomenolgicos de identificao observacionais introspectivos, do tipo da que Max Weber props quando afirmou ser a principal tarefa do socilogo atribuir sentido aco social dos indivduos, e mtodos analticos que possam fixar as caractersticas de cada estado-de-esprito, bem como o seu papel na histria da evoluo das sociedades em cada civilizao concreta. O cumprimento de tal programa recomenda modstia, isto a capacidade de concentrar a ateno dos socilogos nos detalhes a aprofundar em cada circunstncia, o que depende sempre da vontade e da intuio para aproveitar as circunstncias da prpria investigao para melhor conhecer o que a sociedade, em vez de partir para a pose romntica de resolver os problemas do mundo. Esse o prprio fundamento da racionalidade: organizar o pensamento para organizar a aco que, de seguida, h-de testar e aumentar a qualidade prtica do pensamento. J a ambio de mudar o mundo a fazer cincia uma iluso irrealista, ainda que muito difundida.

    3 Referem-se aqui os trabalhos anteriormente desenvolvidos em livro sobre os ttulos de Prises na Europa, Celta, 2003, Esprito Proibicionista, por publicar, e Esprito de Submisso, a publicar em breve em castelhano pela Anthropos de Barcelona. 4 Tratam-se dos mestrados de Instituies e Justia Social, Gesto e Desenvolvimento URL:http://mijsgd.ds.iscte.pt e Risco, Trauma e Sociedade URL:http://iscte.pt/~apad/risco, ambos do Departamento de Sociologia do Instituto Superior de Cincias do Trabalho e da Empresa em parceria com a Escola de Gesto e com o Departamento de Antropologia, respectivamente. 5 Cf. http://iscte.pt/~apad/estesp e em http://iscte.pt/~apad/social%20natures, em lngua inglesa.

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    Prope-se inverter a lgica dominante que assume corresponder a um estado de equilbrio a normalidade pessoal e social. Tais estados so como ideais ou ancoragens ideolgicas eventualmente susceptveis de ajudarem estabilizao emocional dos socilogos e dos seus leitores mas errneas do ponto de vista cientfico. A sociedade, como as pessoas, palpita de vida, de instabilidade, permanentemente, embora por vezes de forma mais enrgica que outras, s vezes com evolues inesperadas e espectaculares. A instabilidade a regra. A estabilidade um objectivo desejvel sempre que a vida est periclitante, no nascimento, na in

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