A Sociedade Simples No Código Civil de 2002

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<p>A SOCIEDADE SIMPLES NO CDIGO CIVIL DE 2002</p> <p>A SOCIEDADE SIMPLES NO CDIGO CIVIL DE 2002</p> <p>FLVIO J. S. ARANTES</p> <p> Aluno do 2 ano do curso de Direito da Unesp (Franca-SP).</p> <p>1. Introduo. 2. Principais alteraes no Direito Societrio. 2.1 Quanto s espcies societrias. 2.2 A Teoria da Empresa. 2.3 A sociedade simples e a empresria. 2.4 Peculiaridades da sociedade simples. 3. Sociedade Simples. 3.1 O contrato social. 3.2 Direitos dos scios. 3.2.1 Direito de participao nos lucros. 3.2.2 Direito de participar nas deliberaes sociais. 3.2.3 Direito de fiscalizar a gesto dos negcios. 3.2.4 Direito de retirada da sociedade (direto de recesso). 3.2.5 Demais direitos dos scios. 3.3 Deveres dos scios. 3.3.1 Deveres perante os demais scios. 3.3.1.1 Dever de integralizao das quotas. 3.3.1.2 Dever de buscar o objeto social. 3.3.2 Deveres dos scios perante terceiros. 3.3.3 Deveres remanescentes aps a retirada do scio. 3.4 A administrao da sociedade. 3.4.1 Conceito e qualificao do administrador. 3.4.2 Deveres e competncias do administrador. 3.4.3 Responsabilidade do administrador. 3.5 A dissoluo da sociedade. 3.5.1 Dissoluo total. 3.5.2 Dissoluo parcial. 4. Bibliografia</p> <p>1. Introduo</p> <p>O advento do Cdigo Civil de 2002 de grande interesse no estudo do Direito Comercial, a contar pelo prprio nome da disciplina, que o novo cdigo passa a chamar de Direito Empresarial. A introduo do Livro II Do direito de empresa ao texto do cdigo substituiu a primeira parte do antigo Cdigo Comercial datado de 1.850 por uma nova lei que unifica o direito obrigacional privado, tratando tanto das obrigaes civis como das obrigaes comerciais, ou agora, empresariais.</p> <p>Mais que isso, o novo cdigo traz inovaes importantes, consolidando na legislao importantes teorias desenvolvidas pela doutrina e a evoluo da prpria economia ao longo destes ltimos 150 anos, adequando a legislao realidade atual. Dentre as inovaes, o reconhecimento da Teoria da Empresa substitui a figura do comerciante pela figura de empresrio, a sociedade comercial pela sociedade empresarial, dando tratamento atualizado a institutos como o registro das sociedades empresariais, o seu nome, dos prepostos da empresa e da escriturao mercantil, incorporando instrumentos de novas tecnologias.</p> <p>No campo do Direito Societrio, inmeras incorporaes podem ser citadas, dentre as mais relevantes: o reconhecimento expresso da personalidade jurdica da sociedade matria que no era tratada pela legislao comercial at ento, o reconhecimento legal da sociedade de fato ou irregular agora denominada sociedade em comum e da sociedade entre cnjuges, que agora passa a ter tratamento especfico, o direito das minorias, dentre outras inovaes. </p> <p>Dentre estas, destaca-se uma nova espcie normativa de sociedade a sociedade simples grande novidade no Direito Societrio, que vem substituir a figura da sociedade civil, incorporando, entretanto, novas possibilidades de constituio e abrangendo tambm outras atividades, como as cooperativas, alm das atividades tpicas das sociedades civis (profissionais liberais).</p> <p> Ainda, como nova espcie de sociedade, o interesse jurdico no estudo das sociedades simples potencializado, pois o novo cdigo estabelece tambm que ela funcione como regra geral para as demais espcies de sociedades, indicando que na omisso da lei ou em caso de conflito na legislao, sejam aplicadas subsidiariamente as regras da sociedade simples, e determinando ser esta a natureza jurdica de importantes atividades empresariais.</p> <p>Assim, de suma importncia a reciclagem de conhecimentos, visando incorporar as atualizaes do Cdigo de 2002 ao conhecimento da matria, e neste trabalho ser apresentada uma abordagem das principais alteraes ocorridas no Direito Societrio com a entrada em vigor do novo Cdigo, em relao s espcies de sociedades, e tambm uma apresentao das principais caractersticas da sociedade simples, atentando para que suas regras aplicam-se supletivamente para os demais tipos societrios, funcionando como verdadeira regra geral do direito societrio atual, nisso consistindo a maior relevncia de seu estudo.</p> <p>Neste sentido, em uma primeira parte sero apresentadas as principais mudanas quanto aos tipos societrios existentes antes e aps a entrada em vigor do novo Cdigo, em seguida os principais conceitos e classificaes aplicveis ao novo Direito Empresarial, e finalmente uma terceira parte com um aprofundamento nas regras referentes sociedade simples.</p> <p>Nesta ultima parte, so apresentados os principais aspectos relativos ao contrato social, responsabilidade dos scios perante a sociedade, perante terceiros, administrao e dissoluo da sociedade, concluindo o presente estudo.</p> <p>2. Principais alteraes no Direito Societrio</p> <p>Com a entrada em vigor do novo Cdigo Civil em 2002 o Direito Comercial sofreu uma profunda alterao. Foi revogada a primeira parte do antigo Cdigo Comercial de 1850 pela introduo na Parte Especial do novo Cdigo do Livro II intitulado do Direito de Empresa.</p> <p>Tal alterao, entretanto, no implica nem na revogao total do Cdigo de 1850 a sua Parte Segunda, que trata do comrcio martimo, continua em vigor e nem na unificao do direito comercial em uma s lei haja vista que temas importantes continuam regulados por leis especiais como a lei de falncias, leis que regulam os ttulos de crdito duplicatas, letras de cmbio, cheques e mesmo a Lei das S. A.s.</p> <p>2.1 Quanto s espcies societrias</p> <p>Antes de 2002, o Direito Societrio era regulado em parte Pelo Cdigo Comercial, que regulava as sociedade comerciais, e em parte pelo Cdigo Civil, que regulava as sociedades civis. </p> <p>Existiam, ao todo, 7 tipos de sociedades comerciais, e a sociedade civil. A seguir, so enumeradas tais sociedades, sendo as 5 primeiras apresentadas ainda pelo Cdigo de 1850, a sociedade por quotas de responsabilidade em 1919 (Decreto 3.708/19) e a sociedade em comandita por aes criada em 1976, pela Lei 6.404/76, que tambm regulamentou o funcionamento das sociedades annimas (Lei das S.A.).</p> <p>i. i. as sociedades annimas;</p> <p>ii. ii. as sociedades em comandita simples;</p> <p>iii. iii. as sociedades em comandita por aes.</p> <p>iv. iv. as sociedades em nome coletivo;</p> <p>v. v. as sociedades em conta de participao;</p> <p>vi. vi. as sociedades por quotas;</p> <p>vii. vii. as sociedades de capital e indstria;</p> <p>J com o advento do Cdigo de 2002, a adoo da Teoria da Empresa substitui a figura do comerciante pela do empresrio, desaparecendo as sociedades comerciais e surgindo ento as sociedades empresariais. No lugar da sociedade civil, surge a sociedade simples, ou no empresarial, como oposio s sociedades empresariais.</p> <p>O Novo Cdigo, ao apresentar as novas espcies de sociedades, apresenta-as tambm de forma nova, atravs da classificao quanto personificao[1]. De acordo com esta classificao, as sociedades dividem-se entre sociedades personificadas, ou seja, aquelas dotadas de personalidade prpria e distinta da dos scios a personalidade jurdica, que a sociedade adquire porque assim dispe a lei e sociedades despersonificadas, onde no existe a autonomia patrimonial entre scio e sociedade, confundindo-se tanto o patrimnio como as pessoas dos scios com a prpria sociedade.</p> <p>Avana tambm o novo Cdigo ao reconhecer e estabelecer os critrios de aquisio da personalidade jurdica das sociedades, que de acordo com o Art. 985 do Cdigo, se inicia com o arquivamento, no registro prprio e na forma da lei, de seus atos constitutivos. Assim, uma vez reconhecida a personalidade jurdica da sociedade, separa-se o patrimnio dos scios do patrimnio da sociedade. Lembra-nos Hentz[2], entretanto, que esta separao no absoluta, havendo casos em que pode haver a desconsiderao da personalidade jurdica da sociedade, no caso de desvio da finalidade que determinou sua constituio (fraudes patrimoniais, por exemplo). a disregard doctrine, originada na commum law norte-americana.</p> <p>De acordo com o critrio da personificao, temos as sociedades personificadas:</p> <p>i. i. as sociedades simples (no empresarial)</p> <p>ii. ii. as sociedades annimas;</p> <p>iii. iii. as sociedades em comandita simples;</p> <p>iv. iv. as sociedades em comandita por aes;</p> <p>v. v. as sociedades em nome coletivo;</p> <p>vi. vi. as sociedades limitadas;</p> <p>E despersonificadas:</p> <p>vii. vii. as sociedades em comum; </p> <p>viii. viii. as sociedades em conta de participao;</p> <p>Comparando-se os dois sistemas quanto s espcies anteriores ao novo Cdigo e as espcies atuais, conclui-se que:</p> <p>a) a) no Direito Empresarial desaparece sociedade de capital e indstria;</p> <p>b) b) as sociedades por quotas de responsabilidade passam a ser denominadas apenas de sociedades limitadas;</p> <p>c) c) reconhecida uma nova espcie de sociedade, a sociedade em comum, antigamente conhecida por sociedade de fato ou irregular, que agora passa a ter os efeitos de sua constituio e dos atos por ela praticados regulados no Cdigo Civil de 2002;</p> <p>d) d) surge a figura da sociedade simples, em substituio antiga sociedade civil.</p> <p>2.2 A Teoria da Empresa</p> <p>Quando dissemos que o novo Cdigo, ao adotar a Teoria da Empresa, substituiu a figura do comerciante pela do empresrio, no explicamos a extenso desta afirmao. A importncia reside no tratamento legal dado pessoa do comerciante no sistema anterior, onde a lei faz distino na aplicao de determinado instituto para o comerciante e para o no comerciante.</p> <p>Assim, o no pagamento de obrigaes poderia implicar na falncia, se a pessoa fosse comerciante, e na insolvncia, se no comerciante, na regra anterior ao novo Cdigo. O processo falimentar muito mais desejvel, sob o ponto de vista do devedor, ao instituto da insolvncia. Entretanto, o problema maior recaia sempre sobre a caracterizao do comerciante.</p> <p>De acordo com o Cdigo de 1850, o comerciante era aquele que praticava, de forma profissional e habitual, atos de comrcio. Entretanto, o conceito de atos de comrcio tornou-se, nos dias atuais, um conceito bastante restrito frente realidade da economia. Outras atividades econmicas produtivas, como a industria e a prestao de servios, colocaram-se juridicamente no mesmo plano da figura do comerciante, no se enquadrando suas atividades, entretanto, no conceito do ato de comrcio. No se trata mais da distino entre atos de comrcio e civis.</p> <p>O que a Teoria da Empresa faz justamente deslocar o ncleo da distino entre os atos agora empresariais e no empresariais para o conceito de Empresa, de maneira a descrever melhor a natureza das atividades desenvolvidas. Assim, os conceitos de mediao e especulao, ou ainda o de interposio de pessoas na troca[3], inerentes aos atos de comrcio, deixam de ser decisivos na caracterizao da natureza da atividade praticada.</p> <p>Embora o Cdigo Civil de 2002 no traga um conceito de Empresa, ele define em seu Art. 966 a figura do Empresrio: Considera-se empresrio quem exerce profissionalmente atividade econmica organizada para a produo ou circulao de bens ou de servios.</p> <p>A partir Exposio de Motivos do novo Cdigo Civil podemos distinguir ainda trs condies para a caracterizao do Empresrio:</p> <p>a) a) Exerccio de atividade econmica e, por isso, destinada criao de riqueza, pela produo de bens ou de servios ou pela circulao de bens ou servios produzidos;</p> <p>b) b) Atividade organizada, atravs da coordenao dos fatores da produo - trabalho, natureza e capital - em medida e propores variveis, conforme a natureza e objeto da empresa;</p> <p>c) c) Exerccio praticado de modo habitual e sistemtico, ou seja, profissionalmente, o que implica dizer em nome prprio e com nimo de lucro.</p> <p>Ricardo Negro[4] resume tais condies em trs palavras: economicidade, organizao e profissionalidade. Utilizando estes trs elementos, pode-se conceituar a Empresa como sendo um organismo destinado prtica de atividades econmicas, de forma habitual e sistemtica, destinada criao de riqueza. um conceito muito mais eficiente do que o conceito de atos de comrcio, limitado perante a realidade econmica atual.</p> <p>2.3 A sociedade simples e a empresria</p> <p>Por outro lado, no Art. 981 do Cdigo Civil de 2002 conceituada a Sociedade: Celebram contrato de sociedade as pessoas que reciprocamente se obrigam a contribuir, com bens ou servios, para o exerccio de atividade econmica e a partilha, entre si, dos resultados. Ponto interessante do conceito de sociedade a pluralidade de pessoas, ou seja, no existe sociedade formada por uma nica pessoa. Desta forma, no h de se falar em sociedade quanto ao empresrio individual (autnomo). Tambm a prtica de atividade econmica e a partilha dos resultados so novos elementos trazidos ao conceito de sociedade, quando comparamos os conceitos estampados nos Cdigos de 1916 e de 2002. </p> <p>Por sociedade empresarial podemos entender, ento, o exerccio coletivo aquele realizado por mais de uma pessoa da atividade empresarial. Complementando este conceito, o pargrafo nico do Art. 966 dispe que No se considera empresrio quem exerce profisso intelectual, de natureza cientfica, literria ou artstica, ainda com o concurso de auxiliares ou colaboradores, salvo se o exerccio da profisso constituir elemento de empresa. Ao excluir do conceito de empresrio as atividades intelectuais, o legislador preservou a distino existente entre a sociedade comercial e a sociedade civil do Cdigo de 1916. Assim, no regime do Novo Cdigo Civil (2002), o empresrio caracterstico equivale ao antigo comerciante do Cdigo Comercial de 1850. </p> <p>Feita esta anlise preliminar, j possvel uma interpretao precisa do Art. 982, que por excluso conceitua a Sociedade Simples: Salvo as excees expressas, considera-se empresria a sociedade que tem por objeto o exerccio de atividade prpria do empresrio sujeito a registro e simples as demais. A sociedade simples tem, ento, seu conceito abstrado do conceito original da sociedade civil do Cdigo de 1916, sendo a sociedade formada por aqueles que exercem profisso intelectual (gnero), de natureza cientfica, literria ou artstica (espcies), ainda que com o concurso de auxiliares e colaboradores.</p> <p>Rubens Requio[5] ensina que a sociedade simples tem sua origem no direito societrio suo, tendo sido tambm adotado seu conceito pelo direito italiano. Consultado o Art. 530 do Cdigo de Obrigaes suo, verifica o autor que tambm l o conceito da sociedade simples apresentado por excluso: A sociedade uma sociedade simples, no sentido do presente ttulo, quando ela no oferece caractersticos distintivos de uma das outras sociedades reguladas pela lei. J Srgio Campinho[6] identifica o professor italiano Tlio Ascarelli como grande expoente de sua doutrina.</p> <p>Neste sentido, Ricardo Negro[7], citando Galgano, considera que o novo contrato social mesmo originrio do Cdigo Civil italiano de 1942, desconsiderando o antecedente suio. Explica ainda, que o modelo da sociedade simples foi concebido em nosso ordenamento jurdico com dupla finalidade: uma primeira, de se distinguir das sociedades empresrias, adotando objeto diverso da atividade empresarial, e u...</p>