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  • A Revoluo Constitucionalista de 1932:

    historiografia e histria.

    Marcelo Santos de Abreu

    Literatura testemunhal

    Menotti del Picchia, na apreciao que fez de So Paulo venceu!, afirmava: a

    revoluo paulista transformou-se, calados os canhes, numa guerra literria.

    Gastaram-se mais palavras para descreve-la do que fitas de metralhadora para sustenta-

    la1. Sua afirmao registra o esforo intelectual empreendido, sobretudo pelos

    constitucionalistas, para fixar a memria dos eventos polticos e militares que

    caracterizaram a revoluo. Em 1933, era possvel perceber a surpreendente quantidade

    de ttulos acerca da Revoluo Constitucionalista. Este movimento se inicia no mesmo

    ms da deposio do governo revolucionrio de So Paulo e se estende ao longo da

    dcada de 1930 at o Estado Novo. Publicaram-se 114 ttulos somente entre 1932 e

    1938! A produo editorial sobre a Revoluo Constitucionalista concentra-se nos anos

    de 1932, 1933 e 1934. A maior parte das obras foi editada em So Paulo2.

    Em 1932, a indstria editorial paulista publicou 177 ttulos. Entre outubro e

    dezembro do mesmo ano, apareceram 30 ttulos sobre o movimento constitucionalista.

    Em 1933, as editoras paulistanas levaram a um pblico leitor restrito, 210 ttulos: cerca

    de 40 (20% ) versavam sobre a revoluo do ano anterior. A fora que o apelo imediato

    memria de 1932 e seus desdobramentos polticos tinham naquele contexto tambm

    atestada por iniciativas singulares. Jos Olympio lanou seu segundo livro como editor

    em maio de 1933: Itarar, Itarar: notas de campanha, do combatente

    constitucionalista Honrio Sylos. A mesma editora laou dois outros ttulos sobre o

    tema: Sala da Capela, de Vivaldo Coaracy, no final de 1933, e Dirio de um

    combatente desarmado, de Sertrio de Castro, em maro de 1934. Considerando os

    riscos da atividade editorial na dcada de 1930, um iniciante s se aventuraria a publicar

    trs livros sobre um mesmo tema se satisfizesse o pblico leitor.

    Considerar o interesse do pblico leitor implica questionar a situao social dos

    produtores dessa literatura testemunhal. Pode-se afirmar com relativa segurana que h

    uma coincidncia entre os autores e seu pblico. possvel que os mais de oitenta livros Professor Assistente Universidade Federal de Uberlndia. Doutorando PPGHIS. 1 MELLO, Arnon de. So Paulo venceu! 4 ed. Rio de Janeiro, Flores e Mano, 1933. p. 267. 2 CAMARGO, ureo de Almeida. Roteiro de 1932. Revista de Histria, So Paulo, v. 45, n. 91, jul-set, 1972. p. 203-260.

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    publicados entre 1932 e 1933, fossem consumidos por leitores que tiveram

    envolvimento direto com o movimento revolucionrio: os protagonistas da poltica, os

    voluntrios da guerra, os jornalistas, os militares envolvidos no conflito armado e os

    representantes da retaguarda, como as associaes femininas e as classes

    conservadoras (Associao Comercial de So Paulo e FIESP). Boa parte dos autores

    formou-se na Faculdade de Direito do Largo de So Francisco. A formao jurdica da

    elite poltica e intelectual paulista era uma marca desse tempo3. Os produtores dos

    testemunhos compartilhavam, portanto, a mesma formao profissional, o que equivale

    a dizer que possuam os mesmos hbitos de pensamento, uma maneira comum de

    perceber a poltica e o campo especfico em que atuavam. Estes autores entendiam a

    Revoluo Constitucionalista como um fato marcante na histria brasileira e sentiam-se

    parte dela; e procuravam afirmar uma verso dos acontecimentos. Mas o que pensavam

    sobre a histria?

    No havia no Brasil um grupo de historiadores profissionais. A pesquisa e

    interpretao do passado realizavam-se nas academias. Em So Paulo, o lugar social4

    onde a histria se produzia era o Instituto Histrico e Geogrfico de So Paulo. Ali,

    cultivava-se uma noo pica da histria associada incorporao dos procedimentos

    metodolgicos da historiografia. Porm, a crtica das fontes e o apego objetividade

    garantida pelo distanciamento temporal conferiam apenas uma aparncia moderna a

    um contedo prefigurado miticamente5. No caso da historiografia paulista, o mito

    fundador de So Paulo e da nacionalidade confundia-se com o estudo do bandeirismo.

    Segundo a interpretao que se afirma e desenvolve na dcada de 1920, o bandeirismo

    paulista fundara a nacionalidade ao delinear o territrio e o tipo racial tipicamente

    brasileiro, o mameluco. Por isso a imagem do bandeirante foi acionada durante o

    movimento constitucionalista, desde a articulao poltica ao movimento armado6. No

    mesmo sentido, os testemunhos constitucionalistas se apropriaram da imagem do

    bandeirante e construram a continuidade entre o bandeirismo e a Revoluo

    Constitucionalista. O prefcio do obscuro engenheiro Aaro Jefferson Ferraz para a obra

    3 LOVE, Joseph. A locomotiva; So Paulo na federao brasileira (1889-1937). Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982. p. 230; e MICELI, Srgio. Intelectuais e classe dirigente no Brasil (1920-1945). So Paulo, Difel, 1979. p. 35 e ss. 4 CERTEAU, Michel de. A escrita da histria. 2a ed. Rio de Janeiro, Forense, 2007. 5 FERREIRA, Antonio Celso. A epopia bandeirante; letrados, instituies, inveno histrica (1870-1940). So Paulo, UNESP, 2002. p. 148. 6 ABUD, Ktia Maria. O sangue itimorato e as nobilssimas tradies (a construo de um smbolo paulista: o bandeirante). So Paulo, FFLCH, 1985. (doutorado).

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    do prefeito de Cachoeira, Agostinho Ramos, atesta o quanto este vnculo era difuso

    entre os autores da literatura revolucionria e seu pblico leitor. O prefaciador dizia que

    o autor do livro era testemunha feliz desse galopar destemeroso dos bandeirantes de

    32 fato que entusiasmava pela repetio, em nossos dias, dos feitos dos nossos

    antepassados7.

    Encontra-se aqui um elemento comum ao conjunto das memrias publicadas

    naquele momento: a condio de testemunha dos acontecimentos narrados. A

    reivindicao dessa condio como atributo da veracidade da narrativa uma das

    principais marcas da guerra literria. Os testemunhos tambm se alimentavam das

    formas da imaginao histrica representadas pela produo do IHGSP ao procurar

    documentar ao mximo os depoimentos8. Esperava-se, assim, assegurar a verdade do

    relato. Os autores pareciam ter conscincia disso uma vez que apresentavam suas obras

    como contribuio histria da Revoluo Constitucionalista. O valor do testemunho

    escrito preferencialmente acompanhado de farta documentao era uma forma de

    escapar da deformao imaginativa e difluente (sic) com que a tradio oral costuma

    desfigurar a verdade das coisas9.

    A inteno de contribuir para a histria residia na criao das memrias como

    documentos para o futuro como no texto de Menotti del Picchia. Depois de esclarecer

    que a pressa em recorrer memria das cenas e personagens mais em foco

    determinava o aodamento na composio do trabalho, avaliava que a pesquisa futura

    poderia corrigir algum detalhe da narrativa cuja verdade se encontrava no esprito de

    conjunto, que um tpico ou a mutao de umas linhas, modificadas por uma rigorosa

    reviso de mincias, no podero de nenhuma forma modificar10. Nessa passagem, a

    autoridade do relato no est na documentao exaustiva que se exigia dos trabalhos

    histricos, mas no esprito de conjunto da narrativa. possvel perguntar se este

    esprito de conjunto resumia-se exclusivamente ao seu relato ou era parte de uma

    narrativa mais ampla constituda pelo conjunto das memrias que tinham um mesmo

    7 RAMOS, Agostinho. Recordaes de32 em Cachoeira. So Paulo, Revista dos Tribunais, 1937. p. 7.

    8 SARAIVA, Joo. Em continncia Lei; episdios da Revoluo Constitucionalista. So Paulo, Ed. do Autor, 1933; e SILVA, Herculano. A Revoluo Constitucionalista: subsdios para sua histria organizados pelo Estado Maior da Fora Pblica, So Paulo, 1932. So Paulo, Civilizao Brasileira, 1932. 9 BARROS, Guilherme A. de. A resistncia do Tnel. So Paulo, Piratininga, 1933. p. 7. 10 PICCHIA, Menotti del. A revoluo paulista vista atravs de um testemunho gabinete do governador So Paulo, Cia. Editora Nacional, 1932. p. 5.

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    fundo comum: a justia da causa paulista, da luta dos constitucionalistas contra os

    ditatoriais, da democracia contra a ditadura.

    Os testemunhos deslocavam a interpretao para o futuro, tempo em que a

    avaliao objetiva dos acontecimentos se tornaria possvel. Contudo, inmeros prefcios

    e introdues indicavam as causas da Revoluo Constitucionalista e suas

    conseqncias conformando uma interpretao suficientemente difusa que governava a

    exposio dos fatos lembrados. Assim, os testemunhos configuravam uma narrativa

    cannica do evento sustentada numa percepo comum dos fatos polticos anteriores e

    subseqentes ao movimento de 1932. Os autores viam a Revoluo Constitucionalista

    como revelao de um sentido na histria brasileira: o desenvolvimento gradual dos

    princpios do liberalismo poltico e da democracia.

    Na narrativa cannica o movimento constitucionalista seria o sacrifcio de So

    Paulo pela democracia e autonomia estadual feridas com a poltica dos interventores

    militares, tenentes. O tema do sacrifcio articula-se ao da unidade regional, pois o

    movimento marcou a unio sagrada dos paulistas, consubstanciada na Frente nica

    reunindo partidos concorrentes, unidos pelo esprito de tolerncia tpico do libera