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  • A reportagem multimídia interativa em dispositivos móveis: o caso da série TAB

    Liliane de Lucena Ito1 Leire Mara Bevilaqua2

    Resumo: O aumento considerável de acessos à internet via dispositivos móveis no Brasil motivou um questionamento específico sobre reportagens digitais: como o formato da reportagem multimídia interativa, dadas as suas características-chave (sofisticação no layout, multimidialidade e interatividade), vem sendo adequado a devices como tablets e smartphones? A fim de investigar essa questão, o presente estudo realizou uma análise comparativa e sistematizada entre as versões computador, tablet e smartphone de quatro reportagens digitais da série TAB. Investigou-se como uma iniciativa periódica vem apresentando seu conteúdo em diferentes dispositivos, considerando-se a possibilidade de, longitudinalmente, haver modificações – positivas ou negativas – nesta publicação em específico. Os resultados indicam que, apesar do esforço por parte da produção em oferecer conteúdos semelhantes em todas as versões, a publicação no desktop é sempre a mais completa. Além disso, nas edições publicadas mais recentemente, parece haver uma certa simplificação no formato, o que ocorre em todas as versões analisadas.

    Palavras-chave: Reportagem multimídia interativa. Dispositivos móveis. Webjornalismo. Novos formatos jornalísticos. TAB.

    1 Graduada em Jornalismo e mestra em Comunicação Midiática, ambas pela Unesp;

    doutoranda em Comunicação vinculada ao PPGCom da Unesp (Bauru, SP). Bolsista CAPES. Membro do Grupo de Pesquisa Comunicação e Cibercultura – Cibercom. E-mail: lilianedelucena@gmail.com

    2 Jornalista da TV Unesp e mestra em Televisão Digital; doutoranda em Comunicação vinculada ao PPGCom da Unesp (Bauru, SP). Membro do Grupo de Pesquisa Comunicação e Cibercultura – Cibercom. E-mail: leirebevilaqua@gmail.com

  • 2

    1. INTRODUÇÃO

    No Brasil, os dados mais recentes sobre o uso da internet no país indicam que,

    pela primeira vez em 2014, os acessos à web oriundos de tablets ou smartphones

    (23,1%) ultrapassam o número de acessos feitos unicamente por meio de

    computadores (17,4%). Os dados são provenientes da Pesquisa Nacional por

    Amostra de Domicílios (PNAD), realizada pelo Governo Federal. Já o jornalismo, por

    sua vez, presencia um processo de valorização crescente de produtos jornalísticos

    digitais. Há uma tendência de que a circulação digital de jornais supere a circulação

    impressa nos próximos anos. Segundo dados do Instituto Verificador de Comunicação

    (IVC), órgão sem fins lucrativos que audita oficialmente a tiragem de jornais, revistas,

    websites, entre outros veículos de comunicação brasileiros, em 2015, a queda de

    jornais em papel foi de 13% ante o crescimento do paywall em 27%. A relação “papel

    em queda / digital em ascensão” vem se repetindo há alguns anos, o que justifica a

    estimativa de superação do digital em detrimento da versão tradicional impressa.

    A articulação entre esses dois cenários – o maior acesso à internet via

    dispositivos móveis e o crescimento da tiragem digital dos jornais – pode estar no

    cerne das iniciativas recentes dos veículos de mídia em oferecer conteúdo relevante

    e adequado ao consumo móvel. Adequado tanto no sentido de explorar suas

    potencialidades, como a tactibilidade e a portabilidade, como também ajustar-se a

    suas possíveis limitações, como aquelas relacionadas à velocidade de acesso à

    internet ou à capacidade de processamento do dispositivo em si. Tal adequação

    possui elementos complexos, o que faz com que estejamos ainda em um momento

    de experimentações, em que surgem indagações sobre a linguagem das produções

    voltadas ao mobile, uma vez que o uso do dispositivo móvel pode estar relacionado a

    contextos de acesso determinados, possivelmente mais fugazes ou de ócio (IGARZA,

    2009 apud PELLANDA et al, 2015).

    Uma das principais dúvidas acerca da linguagem jornalística para dispositivos

    móveis relaciona-se ao tamanho/tempo ideal de conteúdo a ser oferecido. Tamanho

    de texto, uma vez que acredita-se que narrativas extensas dificilmente são lidas no

    celular, por exemplo; e tempo de audiovisual, já que um vídeo muito extenso pode vir

    a travar caso a conexão à internet não seja a ideal.

  • 3

    Tais questionamentos levam a crer que determinados gêneros jornalísticos,

    como a reportagem, que geralmente possui maior extensão textual/tempo de

    audiovisual seriam incompatíveis ao consumo em dispositivos móveis. Assim, o

    objetivo deste artigo é analisar como a reportagem multimídia interativa vem sendo

    apresentada em três principais versões: para computadores de mesa, tablets e

    smartphones.

    2. A série de reportagens TAB3

    Em outubro de 2014, é publicada pela primeira vez no portal Uol uma

    reportagem que reunia os elementos usuais da reportagem do impresso –

    aprofundamento, contextualização, maior liberdade de linguagem – a recursos

    disponíveis graças à convergência de meios existente na web. Denominada

    “Economia Compartilhada”, o texto, de forma longa e verticalizado, traz interatividade,

    hipertextualidade e multimidialidade, três das principais características do

    webjornalismo, inaugurando assim um formato até então inédito no portal de notícias

    que, hoje, é o sexto em acessos no Brasil4.

    Inicialmente planejada para ser um projeto experimental de 16 edições, as

    reportagens semanais surpreenderam positivamente em qualidade e quantidade de

    acessos e, assim, tornaram-se um projeto sem data de término, que tem perdurado

    até os dias atuais5.

    Dois pesquisadores – uma no Brasil e um em Portugal – nomearam narrativas

    semelhantes ao TAB com terminologias específicas, que possuem algumas

    diferenciações entre si. Para Longhi (2014) trata-se de um novo gênero jornalístico

    que surge com força depois de 2012, possibilitado pelo atual patamar tecnológico em

    que fatores como o lançamento da versão 5 da linguagem de programação HTML

    tornam-se decisivos para uma melhor navegação e sofisticação no design. A autora

    refere-se ao formato como grande reportagem multimídia (GRM).

    3 Disponível em: < tab.uol.com.br>. 4 Dados extraídos do ranking Alexa. Disponível em: < http://www.alexa.com/siteinfo/uol.com.br

    >. Acesso em 11 ago. 16. 5 Até a finalização deste trabalho, 83 reportagens do TAB haviam sido publicadas.

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    Já Canavilhas (2014), além de salientar a questão da navegação verticalizada

    e intuitiva, integrada a conteúdos multimídia, atenta-se a uma característica particular

    do layout de tais reportagens: o uso da técnica de parallax scrolling que, no

    webdesign, simula o efeito 3D na tela que surge com o movimento de elementos

    diversos conforme o usuário vai rolando a página para baixo, quando este avança na

    leitura do texto. Para Canavilhas, tal tipo de reportagem denomina-se como

    reportagem paralaxe.

    O expoente das reportagens do tipo é Snow Fall6, publicada pelo The New York

    Times em 2012. Segundo Canavilhas (2014), o material jornalístico “ [...] recebeu

    cerca de 2,9 milhões de visitas na primeira semana, com períodos em que 22 mil

    utilizadores acederam simultaneamente à reportagem” (CANAVILHAS, 2014, p. 3). A

    grande surpresa no número de acessos – inclusive muitos oriundos de usuários que

    nunca tinham entrado uma única vez no site do NYT – acenou para a possibilidade de

    que o formato, até então experimental, despertasse o interesse de usuários capazes

    de se ater a uma leitura mais longa, imersiva e interativa.

    No Brasil, empresas jornalísticas de grande porte, como Folha de S. Paulo, O

    Estado de S. Paulo e O Globo, passaram a investir em seus próprios “Snow Falls”,

    cada um a seu tempo. No caso da Folha, a reportagem “A Batalha de Belo Monte”7,

    publicada em 2013, é um marco importante, pois exigiu toda uma rotina de produção

    diferenciada (em que uma equipe de 15 jornalistas trabalhou no material por dez

    meses) e resultou na publicação de um material sem precedentes – em qualidade,

    interação, recursos imagéticos e multimidiáticos – no site do veículo em questão,

    inaugurando também uma série de reportagens especiais não-periódicas.

    Em relação à periodicidade, pode-se dizer que este é o grande diferencial do

    TAB. As edições são lançadas com destaque na home do portal às segundas-feiras,

    dia da semana em que a audiência do site é consideravelmente maior em relação aos

    6 Reportagem publicada pelo The New York Times em 2012, ganhadora do Pulitzer e tida como

    marco nas reportagens digitais por conta de sua originalidade na apresentação dos dados. Disponível em: < http://www.nytimes.com/projects/2012/snow-fall/#/?part=tunnel-creek > . Acesso em 29 mar. 16.

    7 Disponível em: < http://arte.folha.uol.com.br/especiai