a relevância e os objetivos da metafísica moral de immanuel kant

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  • INCONIDENTIA: Revista Eletrnica de Filosofia Mariana-MG, Volume 2, Nmero 3, julho-dezembro de 2014.

    Faculdade Arquidiocesana de Mariana - Curso de Filosofia

    A RELEVNCIA E OS OBJETIVOS DA METAFSICA MORAL DE

    IMMANUEL KANT

    Renata Cristina Lopes Andrade

    Resumo: sabido que Kant se props em sua metafsica moral (ou metafsica dos costumes) justificar a

    existncia de uma proposio prtica fundamental, a saber, uma lei prtica. Podemos dizer que a filosofia

    prtica kantiana representa, em sua inteno primeira, a busca e a fixao de uma lei moral por excelncia, a qual

    possa se apresentar enquanto um princpio prtico universal a ser seguido. H, no momento de fundamentao da

    moralidade, a preocupao de encontrar (e fixar) uma lei prtica a qual possa ditar todo o dever-ser, ou seja, tudo

    aquilo que deve necessariamente acontecer do ponto de vista moral; uma lei que determine o agir e a ao com

    valor moral. No Prefcio Fundamentao Kant deixa claro sua principal, seno a nica, tarefa tratando-se de

    uma metafsica moral: a descoberta e justificao do princpio supremo da moralidade. No presente trabalho no

    iremos entrar no mrito de como Kant apresenta e justifica a existncia dessa proposio prtica fundamental,

    antes, trataremos da apresentao, da relevncia, dos objetivos centrais e de alguns dos aspectos essenciais da

    prpria Metafsica dos Costumes de Kant.

    Palavras-chave: Kant, Metafsica Moral, Princpio Prtico, Moralidade.

    Abstract: It is known that Kant proposed in his metaphysics moral (or metaphysics of morals) justify the

    existence of a fundamental practical proposition, namely, practical law. We can say that Kant's practical

    philosophy is, in its first intention, the search and setting a moral law par excellence, which can present itself as a

    universal practical principle to be followed. There, at the time of foundation of morality, concern to find (and

    fix) the law practice which can dictate the whole duty-being, ie, everything must necessarily happen the moral

    point of view; a law that determines the action and the action with moral worth. In the Preface to Kant makes

    clear Groundwork their main, if not the only, task in the case of a moral metaphysics: the discovery and

    justification of the supreme principle of morality. In this paper we will not go into the merits of how Kant

    presents and justifies the existence of this fundamental practical proposition, before, us deal with the

    presentation, of relevance, of the core objectives and some of the essential aspects of their Metaphysics of

    Morals Kant.

    Keywords: Kant, Metaphysics Moral, Practical Principle, Morality.

    Introduo

    Kant, ao iniciar o prefcio da Fundamentao da metafsica dos costumes, aponta que a velha

    filosofia grega dividia-se em trs cincias, a saber: a Fsica, a tica e a Lgica. Segundo o

    filsofo, a diviso grega da filosofia est perfeitamente conforme a natureza das coisas e nada

    mais h para retificar, a no ser assinalar, devidamente e com clareza, o princpio sob o qual

    Doutora em Educao pelo Programa de Ps-Graduao em Educao da Faculdade de Filosofia e Cincias da

    Universidade Estadual Paulista Jlio de Mesquita Filho Campus de Marlia. Pesquisadora de Ps-Doutorado

    em Psicologia Psicologia e Desenvolvimento Moral pela Universidade Estadual Paulista Jlio de Mesquita

    Filho Cmpus de So Jos do Rio Preto. renatacrlopes@yahoo.com.br.

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    tal diviso se sustenta, isto , o carter formal ou material de todo conhecimento racional, nas

    palavras de Kant:

    Todo conhecimento racional : ou material e considera qualquer objeto, ou formal e

    ocupa-se apenas da forma do entendimento e da razo em si mesma e das regras

    universais do pensar em geral, sem distino dos objetos (KANT, 1980a, p. 103).

    O conhecimento racional formal ou filosofia formal chama-se Lgica1. O conhecimento

    racional material ou filosofia material duplo e, considerando que se ocupa de determinados

    objetos e das leis as quais tais objetos esto submetidos, a filosofia material preocupa-se com

    uma dupla legislao: as leis da natureza e as leis da liberdade. A cincia que cuida das leis

    da natureza a Fsica, tambm chamada de Filosofia Natural; a cincia que cuida das leis da

    liberdade a tica ou Filosofia Moral. Focaremos a nossa ateno, nesse momento, na

    filosofia material, ou seja, no conhecimento racional material: a Filosofia Natural (fsica) e a

    Filosofia Moral (tica).

    A fsica ou filosofia natural cuida da determinao das leis da natureza como objeto da

    experincia; a tica ou filosofia moral trata da determinao das leis da liberdade, isto , leis

    para a vontade humana na medida em que esta afetada pela natureza. Nesse sentido, a fsica

    ou filosofia natural cuida das leis segundo as quais tudo acontece e a tica ou filosofia moral

    das leis segundo as quais tudo deve acontecer2.

    Seguindo com as consideraes kantianas no prefcio da Fundamentao sobre a diviso

    geral da filosofia e o princpio sob o qual esta diviso est assentada, observamos que a

    filosofia material, tanto a fsica quanto a tica, pode ter a sua parte pura e a sua parte

    emprica3. A parte emprica da filosofia aquela que baseia os seus princpios na experincia

    1 A Lgica [...] uma cincia a priori das leis necessrias do pensamento, mas no relativamente a objetos

    particulares, porm a todos os objetos em geral; portanto uma cincia do uso correto do entendimento e da razo

    em geral, mas no subjetivamente, quer dizer, no segundo princpios empricos (psicolgicos), sobre a maneira

    como pensa o entendimento, mas sim, objetivamente, isto , segundo princpios a priori de como ele deve

    pensar (KANT, 1992, p. 33). 2 Vale observar que em sua investigao moral Kant ir tambm ponderar sobre as condies sob as quais muitas

    vezes no acontece o que deviria acontecer do ponto de vista da moral, tal investigao apresenta-se enquanto

    uma das preocupaes posteriores do filsofo ao tratar da moralidade. Porm, primeiro, para Kant, necessrio

    determinar, com preciso, as leis segundo as quais tudo deve acontecer as leis do dever-ser. Veremos, em

    seguida, como Kant justifica a necessidade de determinao das leis do dever-ser. 3 Ao contrrio da Lgica, que no pode ter uma parte emprica e as suas leis universais e necessrias asseguradas

    por princpios tirados da experincia.

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    e, portanto, em princpios a posteriori, denominada de filosofia emprica; por outro lado, a

    parte pura da filosofia apia-se em princpios a priori4 e denomina-se filosofia pura.

    A filosofia pura, quando se destina a objetos especficos, como o caso da fsica que tem por

    objeto a natureza, bem como da tica que tem por objeto os costumes, chama-se Metafsica.

    Eis que daqui decorre a existncia de uma dupla metafsica: uma metafsica da natureza, a

    fsica ou filosofia da natureza e, metafsica dos costumes, a tica ou filosofia moral.

    A filosofia moral ter, desse modo, uma parte pura e uma parte emprica. A parte emprica

    chamada por Kant de Antropologia prtica, enquanto que a parte pura, de Moral

    propriamente dita ou Metafsica dos costumes5. Segundo as consideraes kantianas, no

    perdendo de vista a diviso geral da filosofia proposta pelos gregos, unida ao princpio sob o

    qual tal diviso se sustenta, chegamos existncia de uma Metafsica dos costumes. Ou seja,

    da diviso geral da filosofia proposta pelos gregos unida ao princpio sob o qual tal diviso se

    sustenta, a filosofia moral apresenta-se devidamente constituda por duas partes: i) a Moral,

    propriamente dita, ou Metafsica dos costumes, a qual pertence filosofia pura, isto , apia-

    se em princpios a priori e, ii) a Antropologia prtica que diz respeito filosofia emprica.

    Noutras palavras, partindo da diviso geral da filosofia, no se esquecendo do princpio sob o

    qual tal diviso se apia, chegamos diviso da filosofia moral e existncia de uma

    metafsica dos costumes ( existncia de uma metafsica moral), a qual separada de tudo o

    que possa ser emprico6. De acordo com Kant:

    Ora, a moralidade a nica conformidade das aes a leis que pode ser derivada, de

    um modo completamente a priori, de princpios. Em decorrncia disto, a metafsica

    dos costumes propriamente a moral pura, a qual no se funda sobre qualquer

    Antropologia (quaisquer condies empricas) (KANT, 1983, p. 409).

    Resta-nos agora compreender o que exatamente se pretende quando se separa todos os

    elementos puros dos elementos empricos ao tratar da moralidade, o que se deseja ao fundar

    uma moral a priori, isto , ao instituir uma metafsica dos costumes. Tambm devemos

    compreender quais os objetivos especficos da metafsica moral, o porqu ela deve ser

    desenvolvida e estabelecida antes da parte emprica da moral, ou seja, a antropologia moral ou

    4 Kant (1983, p. 24), chama de a priori no o que independe desta ou daquela experincia, mas o que

    absolutamente independente de toda a experincia. 5 Tendo em vista as preocupaes da presente tese, digno observar que desde o prefcio da Fundamentao da

    metafsica dos costumes Kant j acena com a diviso da Filosofia Moral em pura e emprica. 6 Os elementos empricos da moral ficaro a cargo, por exemplo, da antropologia moral que ser desenvolvida

    por Kant aps o estabelecimento de sua filosofia moral pura.

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