a reclamação constitucional no direito comparado

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A Reclamao Constitucional no Direito Comparado

Marcelo Navarro Ribeiro Dantas Mestre e Doutor em Direito (PUC/SP) Desembargador Federal (TRF5) Professor de Cursos de Graduao e Ps-Graduao em Direito (UFRN e UnP)

SUMRIO: 1. Introduo; 2. Direito Americano; 3. Direito Alemo; 4. Direito Austraco; 5. Direito Espanhol; 6. Direito Francs; 7. Direito Italiano; 8. Direito Portugus; 9. Direito Comunitrio.

1. Introduo

At por sua peculiar origem entre ns nascida na jurisprudncia do Supremo Tribunal em meados do sculo passado, com base no princpio dos poderes implcitos, para fazer face a alguns problemas observados no cumprimento de decises judiciais daquela Corte pode-se dizer que, em princpio, a reclamao constitucional um , instituto jurdico genuinamente brasileiro.

Conseqentemente, a pesquisa no Direito Comparado, a priori, seria provavelmente baldada, quanto a encontrar, em outros pases, medida efetivamente homloga.

Apesar disso, prevaleceram os conselhos de MARC ANCEL, em seu excelente Utilidade e Mtodos do Direito Comparado1, valendo, portanto, imaginar que, no seria infrutfero o esforo, porque

a ausncia, pelo menos aparente, [nos ordenamentos jurdicos estrangeiros] de uma instituio diretamente correspondente [ que se est tomando como referncia] (...), no significa necessariamente uma lacuna de tal legislao estudada, e ela no conduz forosamente a uma divergncia fundamental das solues positivas na prtica. ... ... preciso sempre insistir, se esforar para encarar o sistema em sua realidade funcional e operacional.2

Assim, mesmo prevendo que no se iria achar algo exatamente parificvel reclamao constitucional, buscar-se-ia ver, em cada um dos sistemas estrangeiros escolhidos, como funcionam e operam os meios jurdicos existentes, para atingir as finalidades aqui desempenhadas por ela, e, com isso, perceber como, em cada parte, o Direito acomodou-se s condies locais da sociedade, da economia, da mentalidade, das tradies jurdicas e do grau de fora das instituies, especialmente as judicirias.

A outra questo refere-se eleio dos sistemas jurdicos a pesquisar. No poderia jogar-se este trabalho numa busca genrica, a todos os ordenamentos estrangeiros. Procurou-se, ento, dentre eles, os mais interessantes sob o ponto de vista da jurisdio constitucional onde se cr situar-se a reclamao, consoante em outro tpico vai

1 2

Porto Alegre, Sergio Antonio Fabris, 1980, trad. Srgio Jos Porto. ANCEL, Marc, Utilidade e Mtodos do Direito Comparado, cit., p. 117.

ser exposto , e que mais influncias e ligaes tiveram ou tm com o Direito Brasileiro, principalmente nos aspectos mais pertinentes ao tema sob estudo.

Assim, foram escolhidos os Estados Unidos, bero da judicial review e da teoria dos poderes implcitos, to importantes na formao da reclamao em nosso pas; a Alemanha e a Itlia, matrizes doutrinrias da nossa doutrina processual; a ustria, ptria do controle concentrado da constitucionalidade; a Frana, pelo peso de sua tradio jurdica no sistema romano-germnico, a que somos filiados; Portugal e a Espanha, pelas profundas razes que em nas instituies ibricas, em face do processo de colonizao, deita o direito indgena; e, finalmente at por uma questo de atualidade do tema o ordenamento comunitrio europeu, que pode ser um espelho onde se mirar o Brasil, na busca de sua insero em realidade semelhante, mesmo que ainda muito embrionria, o Mercosul.

Evidentemente, se se tivesse divisado, no curso da investigao, algum instituto muito curioso ou realmente assemelhado reclamao, oriundo de outra nao, terse-ia feito meno especial, mas isso no ocorreu.

Ainda, resta dizer que a diretriz maior da pesquisa foi estudar a estrutura judiciria e processual de cada um dos pases antes listados, para verificar o que que existe, em termos de medidas, administrativas ou jurisdicionais, tendentes a preservar a competncia ou impor o cumprimento das decises de suas respectivas cortes supremas ou tribunais superiores, consoante cada caso. O nomen juris reclamao, em si, no foi utilizado como guia para essa investigao3.3

Se nem c no Brasil o vocbulo serve para identificar um instituto jurdico, imagine-se valer-se dele

Com efeito, h reclamaes no Direito Processual Portugus, mas nenhuma delas sequer se parece com a que o objeto deste estudo. Algumas so similares a certas reclamaes administrativas que existem entre ns; mas a maioria se parece com alguns dos nossos recursos.4 Em outras legislaes pode haver medidas cujo nome, traduzido literalmente, seja tambm reclamao. No Direito Alemo, v.g., existe a Beschwerde, que se pode verter, em lngua portuguesa, por queixa ou reclamao, um recurso jurdico com o objetivo de fazer a instncia superior reexaminar a deciso ou medida recorrida, em geral uma Beschluss (deciso interlocutria proferida por tribunal) ou uma Verfugung (medida ou providncia, geralmente de natureza cautelar, estabelecida por uma corte).5 Nenhuma das que se viu, porm, realmente comparvel de que ora se trata6.

As diferenas entre os sistemas enfocados so grandes, tanto de um para outro, como em relao ao nosso; por outro lado, h diversas similitudes, at pelos motivos h pouco expostos. Mas sobre isso se falar a partir de agora, referindo o que foi encontrado.

4

5

6

(ou das equivalentes tradues) como norte para uma busca no estrangeiro... SILVEIRA, Jos dos Santos, Impugnaes das Decises em Processo Civil Reclamaes e Recursos, Coimbra, Coimbra Editora, 1970, esp. s pp. 35/105: existem reclamaes para retificao de erros materiais em decises judiciais, para esclarecimento de dvidas (parece com os embargos de declarao), para suprimento de nulidades, para reforma de custas e multas, por defeitos da especificao e do questionrio, por vcios nas decises sobre matria de fato, contra os despachos do relator (semelha-se ao agravo regimental), da deciso que no admita recurso ou retenha o agravo (esta chega a lembrar um pouco a reclamao constitucional para preservao de competncia, mas em verdade seu papel o do nosso agravo de instrumento). Cf. MACHADO, Luiz, Pequeno Dicionrio Jurdico Alemo-Portugus, Rio de Janeiro, CLC, 1981, pp. 106, 107 e 334. Isso para no falar na Verfassungsbeschwerde, literalmente reclamao constitucional exatamente o ttulo deste trabalho que reveste caractersticos distintos da reclamao constitucional brasileira (em geral, traduz-se em portugus o nome desse remdio como recurso constitucional), ainda que alguns traos comuns entre ambas possam ser vagamente similares, conforme se vai mostrar.

2. Direito Americano A anlise da Constituio americana, por sua conciso, diz-nos pouco do sistema judicial daquele pas7. Evidentemente, tratando-se os Estados Unidos de um Estado Federal, possuem Justia no mbito da Unio e na dos Estados. A Suprema Corte , ao mesmo tempo como nosso Supremo Tribunal Federal rgo de cpula do Judicirio e corte constitucional. Mas a Constituio simplesmente previu (art. III, seo 1) a existncia da Suprema Corte e dos tribunais inferiores que fossem oportunamente estabelecidos por determinaes do Congresso. A maior parte da matria normativa atinente ao Judicirio americano, por conseguinte, est no plano da legislao, quando no do costume.

Vale lembrar, neste passo, o esclarecimento de GORDON S. WOOD:

um engano se pensar que os norte-americanos tm somente uma Constituio escrita... ... tm, alm de sua Constituio escrita que, por sinal, bem curta, realmente cerca de 6.000 palavras uma Constituio no-escrita. (...) porque muito do que acontece no constitucionalismo norte-americano no escrito... ... ... Ela um conjunto de costumes e prticas crescendo em volta da gente. Um documento de 6.000 palavras viabilizando o seu funcionamento. Nenhum documento de 6.000 palavras pode, por si s, responder a todas as perguntas que precisam ser respondidas por um governo moderno.8

7

8

Cf. Constituio dos Estados Unidos da Amrica, in Constituio do Brasil e Constituies Estrangeiras, v. I, Braslia, Senado Federal, 1987, trad. Jorge Miranda, pp. 413/458. WOOD, Gordon S. A Constituio dos Estados Unidos da Amrica, in Seis Constituies: Uma Viso Comparada, (Joo Paulo M. Peixoto et Walter Costa Porto, orgs., s. i. de trad.), Braslia, Insituto Tancredo Neves Fundao Friedrich Naumann, 1987, p. 33 e 44.

No que tange ao interesse deste trabalho, destaca-se a competncia da Suprema Corte dos Estados Unidos para a apreciao do writ of certiorari, regulado em seu Regimento Interno9, nos arts. 10 a 16, onde desponta o primeiro desses dispositivos, verbis,

Art. 10. Consideraes a respeito da apreciao de writ of certiorari. A apreciao de um writ of certiorati [pela Suprema Corte] no uma matria de direito, mas de escolha judicial. Uma petio de writ of certiorari s ser admitida por razes fortes.10

Entre essas razes, as alneas a a c do referido dispositivo listam vrias hipteses, quase todas referentes a conflitos de deciso entre tribunais de apelao em questes importantes, ou decises em questes de relevncia federal tomadas em conflito com deciso de tribunal de ltima instncia ou divergentes do usual, que meream a apreciao da Suprema Corte; decises de tribunais estaduais de ltima instncia, de relevncia federal, conflitantes com decises de outro tribunal estadual de ltima instncia ou de um tribunal federal; ou deciso de um tribunal, estadual ou federal, a respeito de questo federal relevante, que ainda no tenha sido, mas deva ser, estabelecida pela Suprema Corte, ou que conflite com deciso relevante desta.119

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The Supreme Court of the United States Rules, normas adotadas em 26 de julho de 1995 para viger em 2 de outubro de 1995 (cf. http://www.lsu.edu/guests/poli/public_html/ctrules.htm, informao eletrnica na internet). Traduziu-se livremente. No original: Rule 10. Considerations Governing Review on Writ of Certior

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