A rádio Colméia de Pato Branco na revolta dos Posseiros de 1957

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  • A RDIO COLMIA DE PATO BRANCO NA REVOLTA DOS POSSEIROS DE 1957

    PEGORARO, verly. Mestre em Histria Social pela Universidade Federal Fluminense. Professora colaboradora da Universidade Estadual do Centro-Oeste Unicentro, em Guarapuava PR. E-mail: everlyp@yahoo.com.br.

    Este artigo apresenta a participao da Rdio Colmia de Pato Branco no levante agrrio conhecido como Revolta dos Posseiros de 1957, que envolveu colonos, posseiros, companhias de terras e o governo do Paran na luta pela posse de terra no Sudoeste do Estado. nico veculo de comunicao da regio nessa poca, em meio a uma populao em sua grande maioria analfabeta, o rdio desempenhava a funo de informador, mediador e conselheiro. Seus radialistas eram tidos em grande considerao pelos ouvintes. Foi dessa forma que Ivo Thomazoni, radialista da Colmia em Pato Branco, foi gradativamente assumindo o papel de uma das lideranas do levante. A emissora no apenas fornecia informaes sobre as dificuldades enfrentadas por colonos e posseiros para o pblico ouvinte, mas tambm alimentava a imprensa de Curitiba, pois somente no ms de outubro de 1957 alguns veculos de comunicao enviaram reprteres para cobrir in loco o conflito. Enquanto a imprensa da capital do Estado, distante do cotidiano de luta, abordava principalmente o aspecto poltico do movimento agrrio, a imprensa regional tomava parte direta no confronto, embora sem abandonar os seus prprios interesses partidrios.

    Palavras-chave: Rdio Colmia de Pato Branco, Revolta dos Posseiros de 1957, Histria do Paran.

    Trinta e um anos depois da instalao oficial da radiodifuso no Brasil1, a

    pequena comunidade de Villa Nova (que futuramente passaria a ser chamada de Pato

    Branco) recebe o primeiro veculo de comunicao do Sudoeste do Paran: a Rdio

    Colmia. At ento, os poucos habitantes que o vilarejo possua tinham apenas o

    telgrafo e o alto-falante instalado na praa central como formas de divulgao de

    notcias, alm das conversas informais, claro.

    Os irmos gachos Paulo e Otvio Rotilli, alm de Norberto Bonher e Venignus

    Elisius Winkelmann, formaram sociedade para administrar a concesso da rdio, que foi

    autorizada pela portaria nmero 119 do Dirio Oficial de 16 de fevereiro de 1954, a

    funcionar na freqncia 1520 KHz com potncia de 100 watts2.

    1 20 de abril de 1923 a data de instalao da radiodifuso no Brasil. Um ano antes, em 7 de setembro de 1922, o rdio tem suas primeiras transmisses experimentais no Rio de Janeiro, como parte das comemoraes ao Centenrio da Independncia.2 MIOTTO, Cirene Vanzella. Rdio Celinauta 50 anos: ondas que unem o Sudoeste do Paran. Pato Branco: Fadep, 2004, p. 43.

    mailto:everlyp@yahoo.com.br

  • Otvio Rotilli tinha concesso do governo federal para instalar trs emissoras de

    rdio: uma em Pato Branco, uma em Toledo e outra em Francisco Beltro, todas no

    Paran. Posteriormente, foram autorizadas outras para vrias cidades, como Campo

    Mouro, Unio da Vitria e Cascavel, resultando na Rede Colmia de Rdios3.

    A Rdio Colmia de Pato Branco, portanto, foi a primeira do conjunto, passando

    a funcionar em carter experimental em 31 de maio de 1954 e inaugurada oficialmente

    em 31 de julho do mesmo ano, tendo como diretor administrativo Otvio Rotilli e

    diretor tcnico Francisco Norberto Bonher.

    Contudo, foi atravs do radialista Ivo Thomazoni que a emissora tornou-se um

    dos principais megafones de uma luta agrria que j acontecia no Sudoeste paranaense

    h vrias dcadas. De origem catarinense, Thomazoni ingressou na Rdio Colmia em

    meados de 1954. Trabalhou na redao e na locuo, tornando-se, em pouco tempo,

    responsvel pelo departamento informativo. Entrava ao ar s 12h30min, para

    retransmitir informaes colhidas das rdios Farroupilha, Nacional e Gacha e tambm

    do Reprter Esso. dele a primeira reportagem externa da emissora, na inaugurao da

    Igreja dos Ucranos. Cobertura de eleies, jogos de futebol, corridas de cavalos, alm

    da transmisso de rituais catlicos, tambm fazem parte de sua experincia como

    locutor da emissora pato-branquense.

    O incio da era televisiva, na dcada de 1950, exigiu do rdio a busca de novos

    rumos para garantir seu espao na sociedade. A linguagem popularizou-se mais,

    buscando uma identificao maior com o seu pblico, em grande parte analfabeta ainda.

    Fortaleceram-se o radiojornalismo e a prestao de servios4, alis, duas reas fortes da

    Rdio Colmia em Pato Branco. O radiojornalismo da emissora tinha uma

    peculiaridade, revelada por Inelci Pedro Matiello, um dos primeiros funcionrios da

    emissora pato-branquense, trabalhando como sonoplasta e, posteriormente, como

    radialista esportivo e comentarista televisivo.

    Na regio, ns tnhamos correspondentes. A dona Erta era correspondente em Chopinzinho. Ela

    mandava pelo correio as notcias, os avisos, as notcias de um fato extraordinrio. A dona Nelza

    Braun (...) era correspondente em Mangueirinha. (...) E as notcias daqui ns mesmos

    procurvamos por a. E as notcias de fora do Paran ns cortvamos do jornal, o gilete press,

    3 Ibid., p. 18.4 ORTRIWANO, Gisela. O rdio no Brasil. In: A informao no Rdio. So Paulo: Summus, p. 21.

  • ns cortvamos com gilete para dar notcias principais, ento, mesmo com atraso, passava a

    gilete para divulgar no rdio5.

    interessante observar que os prprios ouvintes tornavam-se reprteres e

    editores das informaes que, posteriormente, fariam parte do contedo jornalstico da

    Rdio Colmia. Reprteres porque esses correspondentes iam atrs dos fatos,

    procurando por pessoas que pudessem dar informao. Editores porque funcionavam

    como filtros das notcias que achavam mais interessantes ao pblico, da qual faziam

    parte tambm. Era um trabalho voluntrio feito por correspondentes que gozavam de

    credibilidade por parte dos locutores, segundo Matiello.

    Ns colocamos um aviso no ar, quem se interessava em ser correspondente da Rdio Celinauta6.

    Muitas pessoas vinham para c e no tinha ordenado nenhum, faziam isso por amor, quer dizer, o

    rdio at hoje forte, era mais forte ainda, no tnhamos televiso, ento faziam esse trabalho

    por amor, gratuitamente para a rdio. Essas pessoas, tnhamos em Beltro, Vitorino, Clevelndia,

    Maripolis, no tnhamos asfalto, era uma coisa... Mas funcionava direitinho (...) no tinha outro

    recurso, absolutamente, no tinha telefone, no tinha nada. Era atravs disso7.

    Vale ressaltar que os jornais de Curitiba demoravam muito para chegar a Pato

    Branco. Na dcada de 1950, ainda no existia asfalto nas estradas que conduziam o

    Sudoeste capital. Uma viagem at Curitiba poderia demorar vrios dias, ao contrrio

    das cerca de seis horas que leva atualmente (a distncia entre Curitiba e Pato Branco

    de aproximadamente 500 quilmetros). Portanto, a regio alimentava-se quase que

    exclusivamente das informaes transmitidas via Rdio Colmia.

    O alcance regional garantia a interatividade entre pblico e radialistas, pois

    moradores de diversos municpios acompanhavam a programao. Assim, se algum

    precisava dar um aviso a um parente ou amigo que morava em uma cidade vizinha,

    utilizava este veculo de comunicao. Credita-se a essa interatividade e a esse respeito,

    inclusive, a participao ativa da Rdio Colmia na Revolta dos Posseiros, assunto que

    tratarei mais adiante.

    5 MATIELLO, Inelci Pedro. Entrevista gravada concedida a verly Pegoraro em 7 de julho de 2006 em Pato Branco. Em todas as declaraes dos depoentes contidas neste artigo, optei por no editar suas falas, seguindo a metodologia utilizada pelos historiadores.6 A Rdio Colmia passou a denominar-se Rdio Celinauta em fins de 1957, como explicarei mais adiante. Nessa declarao, Matiello quer referir-se a Rdio Colmia ainda.7 MATIELLO, Inelci Pedro. Entrevista ...

  • ... em 55, que eu me lembro bem, o Nilton Gotli era locutor da rdio tambm, ele abria o estdio,

    as pessoas entravam no estdio e davam o recado. Aqui a Fulana de Tal, o Fulano de Tal,

    quero avisar meu pai, no sei aonde, meu irmo, Fulano, venha a Pato Branco amanh, ou

    estarei a amanh, me encontre na encruzilhada. O prprio povo ia para o microfone, se

    identificava e dava o aviso. Sem cobrar nada, veja a importncia!8

    A Rdio Colmia de Pato Branco gozou de exclusividade at o incio de 1957,

    quando surgiu a Rdio Colmia em Francisco Beltro. Alm do conflito de terras que

    permeou a histria do Sudoeste em 1957, outro fator marcou a trajetria da Rdio

    Colmia nesse ano. Os frades franciscanos, que h algum tempo manifestavam interesse

    em comprar a emissora de Otvio Rotilli, finalmente conseguiram adquiri-la. Matiello

    revela que Rotilli, assim como Thomazoni e outros envolvidos na revolta, corriam risco

    de vida, sendo constantemente ameaados. Ento, Rotilli achou por bem vender a

    emissora de Pato Branco e de outras cidades tambm9.

    Dessa forma, em outubro de 1957, justamente no ms em que os colonos

    tomaram as cidades do Sudoeste como manifestao contra as companhias grileiras de

    terras, a Provncia Franciscana adquiriu oficialmente a Rdio Colmia de Pato Branco

    por 1 milho e 800 mil cruzeiros. No Livro das Crnicas dos Franciscanos em Pato

    Branco, consta como objetivos da compra da emissora os seguintes: unicamente acabar

    com a propaganda protestante e espalhar o bem. Nessa venda, houve a mudana do

    nome de Rdio Colmia para Rdio Celinauta, cujo significado aquela que conduz ao

    Cu (Coeli = cu e Nauta = navegante).

    A Revolta dos Posseiros de 1957

    Antes de tratar efetivamente da participao da Rdio Colmia de Pato Branco

    na Revolta dos Posseiros de 1957, cabem algumas explicaes sobre o levante. O

    Sudoeste do Paran, desde o incio de seu povoamento, foi uma terra marcada por

    disputas10. A regio era formada basicamente por duas glebas, a Misses e a Chopim.

    8 MATIELLO, Inelci Pedro. Entrevista ...9 MATIELLO, Inelci Pedro. Entrevista ...10 H uma vasta bibliografia sobre as disputas de terras no Sudoeste do Paran. Alguns exemplos: FOWERAKER, Joe. A Luta Pela Terra. A economia poltica da fronteira pioneira no Brasil de 1930 aos dias atuais. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981; LAZIER, Hermgenes. Anlise histrica da posse de terra no Sudoeste paranaense. Curitiba: SECE/BPP, 1986; NADALIN, Srgio Odilon. Paran: ocupao do territrio, populao e migraes. Curitiba: SEED, 2001; RGO, Rubem Murilo Leo. Terra de Violncia: Um Estudo sobre a Luta pela Terra no Sudoeste do Paran. So Paulo: USP, 1979. Dissertao de mestrado em sociologia. (datil.); WACHOWICZ, Ruy Christovam. Paran, Sudoeste: ocupao e colonizao. Curitiba: Ltero-Tcnica, 1985; WESTPHALEN, Ceclia. Nota prvia ao estudo da ocupao da terra no Estado do Paran.

  • Estas, mesmo em disputa entre os governos federal e estadual h vrios anos, foi cedida

    a colonos principalmente vindos do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina atravs

    da Colnia Agrcola General Osrio (Cango). Outro fator agravava a situao: as

    mesmas terras foram negociadas como pagamento Clevelndia Industrial e Territorial

    Limitada (Citla), uma companhia de terras que tinha entre seus scios o governador do

    Paran no perodo, Moyss Lupion. Essa transao foi contestada legalmente, devido s

    inmeras irregularidades da operao. Entretanto, essa companhia e mais duas a

    Companhia Comercial e Agrcola Paran Ltda. e a Imobiliria Apucarana Ltda.

    (juridicamente desmembradas da Citla) continuaram atuando na regio. Alm desses

    pretensos proprietrios, ainda havia inmeros posseiros que estavam l h vrias

    dcadas.

    As companhias imobilirias eram classificadas de grileiras devido s

    irregularidades dos ttulos de propriedade que emitiam, j que o seu direito de posse foi

    negado pela justia e, mesmo assim, vendiam terras sem autorizao legal, mediante

    falsas escrituras de propriedade11. Os posseiros, por sua vez, eram alvo das companhias

    grileiras que reclamavam a titulao das terras. As companhias foravam colonos e

    posseiros a comprar as reas onde moravam, exigindo uma entrada para oficializar a

    transao e a assinatura de promissrias. Como os representantes das empresas sabiam

    que o que faziam era ilegal, tinham pressa em acertar a situao, arrecadando o

    mximo de dinheiro no menor tempo possvel.

    aqui que surge a figura do jaguno, homem de ndole duvidosa contratado para

    a manuteno da ordem imposta pelas companhias12. Quando a situao no se fazia de

    forma amigvel, ele era contratado para forar os colonos e os posseiros a sarem das

    terras ou a pagarem a dvida. A violncia comeou a ser freqente entre os jagunos e

    os colonos que no sabiam o que fazer para garantir suas propriedades. Expulses,

    espancamentos, estupros e at mesmo assassinatos aconteciam e eram relatados atravs

    das duas emissoras de rdios locais e de boca em boca. Para garantir que o direito de

    propriedade privada fosse respeitado, valiam os mecanismos de persuaso e de ameaa

    para que os colonos e os posseiros reconhecessem quem eram os verdadeiros

    possuidores daquela rea.

    Boletim da UFPR, n 7, pp. 1-52, 1968.11 MOTTA, Mrcia. Grilagem. IN: MOTTA, Mrcia (org.). Dicionrio da Terra. Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira, 2005, p. 238.12 BARROS, Luitgarde. Jaguno. IN: Ibid., p. 267.

  • Em 1957, colonos e posseiros estabeleceram diversas estratgias de resistncia e

    luta s investidas dos jagunos contratados pelas companhias grileiras para amedront-

    los e expuls-los de suas terras. Entre os dias 9 e 12 de outubro desse ano, posseiros e

    colonos se organizaram em um conflito armado, tomaram as suas cidades e expulsaram

    as companhias de terras e os jagunos, alm de exigir a designao de novas autoridades

    municipais13.

    As emissoras Colmia, tanto em Pato Branco como em Francisco Beltro,

    desempenharam papel relevante durante o conflito. Primeiramente, porque Ivo

    Thomazoni, radialista da Colmia em Pato Branco, foi gradativamente assumindo o

    papel de uma das lideranas do levante. J em Francisco Beltro, eram os prprios

    acionistas da emissora que tomavam partido a favor dos colonos. Neste artigo, irei me

    deter na participao da Rdio Colmia de Pato Branco nesse movimento agrrio.

    A porta-voz dos colonos

    A princpio, o radialista Ivo Thomazoni revela que os diretores da Colmia em

    Pato Branco no queriam envolver-se na questo entre colonos e companhias de terras.

    Entretanto, Matiello acrescenta que foi principalmente a insistncia de Jcomo Trento

    (mais conhecido como Porto Alegre), de quem falarei a seguir, que convenceu os

    dirigentes da emissora sobre a importncia de divulgar o que estava ocorrendo.

    Eu lembro bem que o Thomazoni conversou com o dono da rdio, o Rottili, que no queria que a

    rdio entrasse na revolta, mas, o apelo popular, do prprio Porto Alegre, e tanta gente... eu me

    lembro de uma senhora que perdeu o marido e quatro filhos....isso eu me lembro bem. Chegou na

    rdio e eu me lembro, falando com...