A Racionalidade Econômica na Política Educacional em São ... ?· A Racionalidade Econômica na Política…

Download A Racionalidade Econômica na Política Educacional em São ... ?· A Racionalidade Econômica na Política…

Post on 23-Nov-2018

212 views

Category:

Documents

0 download

TRANSCRIPT

  • Pro-Posies- vol. 13, N. 1 (37)- Jan/abr. 2002

    A Racionalidade Econmica na PolticaEducacional em So Paulo*

    Aparecida Neri de Souza1

    Resumo: Anlise do projeto educacional implementado no estado de So Paulo, no perodoentte 1995e 1998, buscando apreender como a educao considerada importante esttatgiapara o desenvolvimento e est ancorada numa racionalidade econmica e burocrtica. Aanlise foi realizada a partir de estudos em dez escolas pblicas estaduais de ensino bsicoe os discursos governamentais produzidos pela Secretria de Esdado da Educao.

    Palavras-chave: poltica educao, trabalho de professores, racionalidades econmicase burocrtica, ensino bsico.

    Abstract:Analysis of the educational project implemented in the state of So Pauloin the period between 1995 and 1998, trying to understand how education is consideredna important strategy for development and is based on na economic and bureaucraticrationality. The article is based on research in tem state elementary public schools andgovernment discourses produced by the State Secretary of Education.

    Key-words: Educational policy, professors' work, economic and bureaucratic rationality,elementary education.

    Este texto analisa a reforma educacional paulista, no perodo de 1995 a 1998, buscan-do apreender como a educao considerada importante estratgia para o desenvolvi-mento e est ancorada numa racionalidade econmica e burocrtica. A anlise foi realiza-

    da a partir de estudos em dez escolas pblicas de ensino bsico2 e de discursosgovernamentais produzidos pela Secretria de Estado da Educa03* Este texto refere-se tese de douIoracb - A poltica educacional para o desenvoMmento e trabalho docente -

    defendida em 12108/1999, na Faculdade de Educao da UNICAMP.sob a orientao da Profa.Ora. UlianaRo/fsenPetJilliSegnini,ponto de partida para a construo do projeto de ps-doutoracb - Reformas do ensinomdio e da educao pofissiord: mudanas na orgcnizao dotrabcihodocente? (acordo CapefJCofecub).

    1. Professora doutora no Departamento de Cincias Sociais Aplicadas Educao na Faculdade deEducao. UNICAMP.

    2. Asescolas foram selecionados a partirda localizao geogrfica (regio metropolitana da GrandeSo Pauloe Campinas), tamanho, tipo de ensino e perfilsocioeconmico da populao.

    3. Adescentralizao da educao (1997, conferncia proferida no Chile);A gesto educacional noEstadode So Paulo(1998,conferncia proferidaem So Paulo)e Diretrizeseducacionais para o Estadode So Paulo(1995),alm dos veculosde comunicao entre a Secretaria e a rede pblica de ensino,em especial o jomal"Escola.Agora",documentos institucionais.teleconferncias e a pginanaintemet.

    78

  • Pro-Posies- vol. 13, N. 1 (37) - Jan/abr. 2002

    A concep'o de educao, presente nas propostas governamentais4, parte do pressu-posto de que h uma nova conformao social, econmica e poltica que est modifican-do os padres de produo e organizao do trabalho e deve orientar as reformas e/ouinovaes educacionais.

    Da premissa de que educao um fator que permitiria ao pas participar competitiva-mente do mercado globalizado, a Secretaria de Estado da Educao (SEE) analisa a edu-cao na perspectiva de que o sistema educacional paulista enfrenta uma crise de eficin-cia, de eficcia e de produtividade, mais do que uma crise de universalizao de direitos.

    Assim, os problemas educacionais, apontados pela Secretaria de Estado da Educaoso identificados como disfuncionalidades do sistema educacional e expressariam a inca-pacidade do Estado em administrar as polticas educacionais.

    Os ndices de desempenho do sistema mostram claramente o quanto ele ineficaz.Em 1992, no ensino fundamental e mdio, as perdas por evaso e repetncia alcana-ram 1.476.000 alunos, o que representa cerca de 25% de alunos matriculados na rede.Se lembrarmos que cada aluno custa em mdia US$ 220,00 para o Estado, o nmeroacima representa um desperdcio da ordem de US$324.720.000. Em relao Secreta-ria Estadual de Educao e ao aproveitamento de seus recursos disponveis, podemosafirmar que prevalece uma extrema ineficincia, notadamente, pelo gigantismo da m-quina burocrtica e pela ausncia de mecanismos de controle sobre o sistema de ensino.(SEE, 1995, p. 301)

    A correo das disfuncionalidades como objetivo das reformas educacionais, , a par-tir desta tica, condio para o projeto de modernizao da sociedade brasileira. Assim, apoltica educacional centra-se no objetivo de resolver ou mitigar as disfuncionalidades dosistema educacional, em particular, e formar recursos humanos necessrios ao projeto demodernizao, indispensvel para incluir o Brasil no rol das economias desenvolvidas,consoante o novo modo de desenvolvimento capitalista.

    O diagnstico dos problemas educacionais conclui que a "crise educacional no mais a mesma" e que o seu "eixo norteador" a ausncia de mecanismos de controlesocial e econmico. Portanto, a racionalizao de custos da produo da educaoescolar torna-se o objetivo principal das mudanas propostas. Assim, desloca-se anfase dos processos educativos para os de reorganizao das funes administrati-vas e de gest05.

    As diretrizes traadas pela Secretaria de Estado da Educao, para eliminar asdisfuncionalidades do sistema educacional, organizaram trs eixos de interveno, subor-dinados lgica da racionalidade econmica: 1) Melhoria da Qualidade de Ensino, 2)Mudanas nos Padres de Gesto e 3) Racionalizao Organizacional.

    4. Assimcomo nos diversosRelatriossobre o DesenvolvimentoMundialproduzidos pelo Banco Mundial:Pobreza (1990); O desafio do desenvolvimento (1991);O trabalhador e o processo de integraosocial (1995); Do plano ao mercado (1996); O Estado em transformao (1997) e Prioridades yestratgias para Ia educacin (1996).

    5. "Gesto educacional -cabe definiros escopos normativospara a adoo de formas participativas dedireo e regulao escolares (com gradual autonomizao). disseminarconhecimentos e mtodosde gesto logstica orientadas para padres de eficincia e eqidade e estabelecer incentivosdiferenciados de carreira (salarial ou no) que premiem o melhor desempenho instituclonal:(Albuquerque.1993).

    79

  • Pro-Posies - vol. 13,N. 1 (37)- Jan/abr. 2002

    o primeiro eixo, a Melhoria da Qualidade de Ensino se realiza por intermdio: a)reorganizao da rede de ensin06; b) da valorizao do magistri07; c) de classes de acele-rao da aprendizagem; d) de salas ambientes; e) de avaliao do rendimento escolar(Sistema de Avaliao de Rendimento Escolar no Estado de So Paulo/ SARESP); f) dosRecursos Pedaggicos (livro didtico) e g) de projetos especiais nas escolas8 (SEE, 1998).

    O segundo eixo, Mudanas nos Padres de Gesto, concretiza-se mediante adesconcentrao e a descentralizao da gesto da educao (extino das Divises Regi-onais de Ensino, transferncia de recursos financeiros para as escolas e municipalizaodo ensino) (SEE, 1998).

    O terceiro eixo, a Racionalizao Organizacional, realiza-se por intermdio de: a)enxugamento da mquina e eliminao de duplicidades; b) informatizao administrativae c) reorganizao da rede de ensino (SEE, 1998).

    A melhoria da qualidade de ensino, segundo a Secretaria de Educao, definida apartir de uma dupla dimenso: de um lado, a distribuio eficiente dos recursos destina-dos educao ( por intermdio da Reorganizao da Rede de Ensino - e, de outro pelocontrole eficaz da produtividade das instituies escolares) mediante o Sistema de Avali-ao do Rendimento Escolar no Estado de So Paulo, as Classes de Acelerao da Apren-dizagem e o Projeto de Recuperao nas Frias. As prticas pedaggicas devem ser carac-terizadas, neste contexto, pela eficincia produtiva das instituies escolares portadorasde qualidade. Desta forma, a baixa qualidade da educao escolar pode ser localizada nouso racional dos equipamentos e prdios escolares, e no na falta de vagas ou escolas; nosprofessores mais capacitados, e no na falta de professores para determinados compo-nentes curriculares, e na melhoria do gasto educacional, evitando desperdcios. Para me-lhorar a educao ( com os mesmo recursos financeiros, mas utilizando-os eficientemente( necessrio, tambm, prope o governo paulista, mudar os padres de gesto e promo-ver uma racionalizao organizacional, que combinam, contraditoriamente, duas lgicas:a centralizao e a descentralizao de funes e responsabilidades educacionais. Adescentralizao realiza-se por intermdio da municipalizao, isto , da transfernciadas instituies escolares para os municpios. A centralizao concretiza-se pelo desen-volvimento de sistemas de avaliao e de informaes gerenciais "que facilitam o plane-jamento, o controle e a tomada de decises" (SEE, 1998). Portanto, centraliza-se o con-trole pedaggico e descentraliza-se os mecanismos de financiamento e gesto educacionais.

    Sendo a educao para a competitividade o fim visado pela reforma da educao emSo Paulo (1995-1998), como as aes polticas se organizam para reafirmar a racionalidadeda poltica educacional? Quais so os projetos de adequao dos meios - programas,medidas e aes - aos fins propostos da educao como estratgia de desenvolvimento?6. Areorganizaoda rede ensinotem porobjetivos:(a)racionalizaono usodos equipamentos:(b)

    melhoriado planejamentoda rede fsica:(c)eliminaodas desigualdadesna prestaode servios;(d)Melhorescondiesde trabalho;(e)enxugamentoda mquinae eliminaoda duplicidade(SEE.1998).

    7. Programade EducaoContinuada,NovaCarreirae Salriossoas aes govemamentaispropostascomo valorizaodo magistrio(SEE.1998).

    8. Soeles:(1)ProjetoComunidadePresente;(2)Prevenotambm se ensina;(3)Copa 98;(4)Internetna educao; (5)Sistemasolar; (6)DireitosHumanos;(7)Basquete na Escola;(8)Parcerias;(9)Informatizao educacional; (10)Brasil500 anos (SEE.1998).

    80

  • PrO-Posies- vol. 13. N. 1 (37) -Jan/abr. 2002

    A educaao enquanto importante estratgia para o desenvolvimento, de acordo com aSecretaria de Educao, vincula-se lgica da racionalidade econmica, neste sentido, aqualidade da educao escolar "diz respeito reduo de desperdcios, de tempo de tra-balho, de custos e de fora de trabalho" (Bruno, 1997,p.41) e ser bem-sucedida mediantea incorporao de modelos gerenciais que privilegiem o estabelecimento de metas quegarantam a produtividade.

    As administraes anteriores no se propuseram nunca a implantar um sistema efici-ente de gerenciamento das unidades escolares, que permitisse conhecer a real situao emque essas se encontram (..,) Os ndicesdedesempenhodosistema(educacional)mostravamclaramen-te o quanto eleera ineficai;As perdaspor evasoe repetnciaalcanavamcercade 30% do total dealunos matriculados na rede implicandogrande desperdciofinanceiro para o Estado. (...) Em relaoaSEE e ao aproveitamentoracionalde seus recursosdisponveis,podia-seqfirmarqueprevaleciaumaextremaineficincia,notadamentepelogigantismoda mquina burocrticaepela ausnciade mecanis-mos de controlesobre o sistema de ensino, adotando um modelo de atendimento sem uma estratgia de

    trabalho definida, o que contribuapara a sub-utilizao de recursoshumanos,fsicos, materiais, condu-

    zindo ao uso inadequado dos recursosfinanceiros, alm de dificultar qualquer alternativa deparceria e

    cooperaoentreospoderespblicose outrossetoresda sociedadecivil.(Neubauer, 1997, p.2-4).A organizao, nesta perspectiva, difere da instituio (escolar? e se define pela sua

    instrumentalidade, pois est referida a um conjunto de prticas para obteno de um obje-tivo particular. As operaes propostas so deftnidas como estratgias balizadas pelas idiasde eficcia e de sucesso na obteno do objetivo. Assim, o que se compreende comoracionalidade organizacional est movida pelas idias de gesto, controle, planejamento,previso e xito. O sucesso e a eficcia da organizao educacional dependem de sua parti-cularidade, so um fim em si mesma (Chaui, 1998, 1999). Esta concepo de educaoparece estar sobre as divises sociais e polticas e s contradies inerentes a essas divises.

    (..,) a teoria da organizaopretende no discutir o problema central do poder (..,) atrs do

    discurso da racionalidade, nessa luta, a organizao abriga-separa legitimar a empreitada e

    desqualificar uma realidade que ela mutila (fragtenberg, 1978, p.16-23).

    Na discusso da gesto educacional formulada pela Secretaria de Educao, ob-serva-se dupla dimenso: a primeira refere-se concepo de que a educao umservio social e cientfico que pode ser desenvolvido por entidades pblicas no esta-tais (Bresser Pereira, 1998); e a segunda refere-se ao exerccio do poder tecnocrticopotencializado pela utilizao da informticalO e pelos sistemas de controle (avaliao

    9. AInstituio"aspira universalidade.Aorganizao sabe que sua eficcia e seu sucesso depende daparticularidade. (Chaul. 1999. p.5-3).

    lO:Para evitar o reaparecimento de focos de concentrao de poder no nvellocal. cabe. cada vezmais. demandar a partiCipao da comunidade e Integrao mais orgnica com o meio social (...)Maisdo que nunca. fazia-seImprescindvelInstituirum sistema eficazde dados gerenclais. com controleinformatlzado das estatsticas educacionais: (Neubauer. 1997. p. 8). O Projeto de Informatizao.como integrante do eixo Racionalizao Organizaclonal. "um sistema de Informaes gerenclaisque facilita o planejamento. o controle e a tomada decises. racionalizando a gesto escolar emelhorando a qualidade dos servios prestados pelo Govemo populao do Estado.. Asescolasesto conectadas em rede com as Delegacias de Ensinoe com os rgos centrais da SEE.portanto

    81

  • Pro-Posies- vol. 13. N. 1 (37) - Jan/abr. 2002

    de resultados)l1 propostos como reguladores da autoridade e despersonalizao dopoder (Bruno, 1997; Pags, 1987; Motta, 1987). As mudanas caminham na direoda criao de unidades descentralizadas as escolas, com autonomia 12e conectadas Secretaria de Educao que exerce o controle da definio dos parmetros curriculares(contedo do trabalho docente), das informaes educacionais, da distribuio dosrecursos e das formas de alocao do trabalho docente (contratao, quantidade detrabalho, remunerao etc.).

    A proposta de abertura institucional de parcerias com outros setores, dentro e fora doEstado; a flexibilidade para adotar solues alternativas e diferenciadas para ampliar asoportunidades de escolarizao e melhorar a qualidade de aprendizagem; a capacidade decoordenar a iniciativa e atuao de diversos parceiros em torno de prioridades estabelecidasdetermina a disposio do atual governo de promover uma mudana significativa nospadres de gesto, a serem aperfeioados atravs de alguns pontos complementares eessenciais. So eles: racionalizao do fluxo escolarl3; instituio de mecanismos de avali-ao dos resultados; aumento da autonomia administrativa, financeira e pedaggica dasescolasl4. (SEE, 1995, p. 308)

    A partir do diagnstico de que o sistema educacional inoperante pelo fato de sedefrontar com problemas tais como as diferenciaes socioeconmicas de alunos e pro-fessores e a estrutura burocrtica altamente centralizada, foi proposta a "descentralizaoe a desconcentrao de recursos e competncias", mediante a "multiplicao dos centrosde poder" e pela participao dos sujeitos envolvidos no processo educacional por inter-mdio do "controle direto dos usurios". Nesse movimento, as mudanas caminham nadireo de constituio de redes de servios educacionais, nas quais as unidades escolares

    as matrculasesto Informatizadas.oacompanhamento de faltase notasdosalunos.a vidafuncionaldos professorese o controle das compras. estoque e patrimnio.Tambm foirealizadoo Cadastramentodos alunosdas redes estadual. municipaise privadade ensino 'com o objetivode moralizar'epotencializaro usodos recursospblicos(...)o que possibilitaro rastreamentoanualde cada alunoatravsde seucdigo de Identificao(evitando.assim.tantoas duplas.como as falsasmatrculas).O sistemade cadastramento possibilitar.tambm. um estudo crlteriosoda maioradequao eracionalizaono usodos equipamentosescolares: (SEE.1994.p.305).

    11.0Programade Avaliaodo RendimentoEscolardo Estadode SoPaulo(SARESP).criadoem 1996.tem porobjetivo"obterdados para a formulaode polijicaseducacionaise de informaras escolascom dados objetivosacerca dos pontoscrticosdo processode ensinoaprendizagem"(...)Asescolaspaulistastambm participamdo Sistemade Avaliaodo EnsinoBsico(SAEB).criadoem 1991.doMinistrioda Educao e do Desporto(MEC)que tem objetivo'contribuirpara a formulao de poUlicasdo ensinopblicono Brasile estabelecer um sistemade controlede ensinodos contedosmnimosprevistosnoscurrculose dos padresde qualidade da escola brasileira"(Neubauer.1997.p. 18).

    12.Autonomiaaquipode serentendida na sua dimensode gesto de receitase despesas. de acordocom as normas pelas quais as Secretariasde educao estabelecem metas e Indicadoresdedesempenho. possvelafirmarque a autonomia refere-se.to somente. ao gerenciamento empresarialda escola. isto. como cumprir as metas e alcanar os indicadores. a escola tem autonomia paracaptar recursos de outras fontes. fazendo as propaladas parcerias com a empresa privada.

    13.Asmedidas de correo do fluxoescolar: (a)Classes de Acelerao: intensificao do ensino e voltadopara a recuperao dos alunos que esto com Idade defasada em relao srie que cursa; ProjetoRecuperao nas Frias.durante o ms de janeiro;Matriculapor Dependncia; Recuperao Contnuae Ciclosque acaba com a reprovao por srie: CiClOI(1 a 4 srie);Ciclo 11(5 a 8 srie).

    14.Aautonomia se pauta fundamentalmente na transferncia de recursos financeiros diretamente paraas Associaes de Paise Mestres (APMs)elou para contas especiais em nome do diretor da escolapara compra de material pedaggico. limpeza. pequenas reformasetc.

    82

  • Pro-Posies- vol. 13, N. 1 (37)- Jan/abr. 2002

    so coordenadas pela Secretaria (ou pelo setor pblico no estatal) que efetivamente exer-ce o poder de controle15, As mudanas caminham em direo autonomia e participa-o no interior dos limites e possibilidades descritos; efetivamente caminham em direo racionalizao dos recursos.

    Assim foram dois os projetos implementados: o primeiro reorganizou a estruturaburocrtica da Secretaria, por intermdio de "vrias aes desencadeadas com o objetivode enxugar a gigantesca estrutura da Secretaria da Educao e eliminar as duplicidadesencontradas numa estrutura morosa, ineficiente e cheia de disfunes" (SEE, 1998)16;e,o segundo, descentralizou e desconcentrou as atividades de administrao da educaoescolar mediante a "busca de novas parcerias (empresrios, professores, pais, sindicatos,universidades, etc.) entre os quais os municpios se constituiro em parceiros privilegia-dos" para prestao dos servios educacionais (SEE, 1995)17,

    A reorganizao das funes administrativas e de gesto da escola pblica tinhapor objetivo enfrentar a "m qualidade da oferta dos servios prestados pelo rgoresponsvel pela educao no Estado de So Paulo atravs de suas escolas". Essa mqualidade refletia-se administrativamente na "rede gigantesca, centralizao das deci-ses, nos rgos e nas instncias com duplicao de funes, nos fluxos de informa-es desorganizados ou inexistentes, na desestmulo profissional acompanhado deceticismo em relao ao Estado e na falta de planejamento educacional". Alm disso,politicamente, h "ausncia de vontade poltica para municipalizar" tanto de prefei-tos como sindicatos de educadores e tcnicos da Secretaria. Acrescente-se a isso, a"ausncia de participao poltica dos pais". No mbito pedaggico, h "irracionalidadeno uso do espao fsico (prdios mal ocupados), convivncia de crianas de 7 at 20anos no mesmo espao, salas de aula iguais s celas de mosteiros, inexistncia decoordenador pedaggico, falta de material pedaggico adequado, dificuldades emcapacitar os professores, inexistncia de avaliao do ensino ministrado", e, por fim,h tambm "irracionalidade nos gastos dos recursos da educao, indefinio do quese constituam em gastos com educao, salrios vergonhosos e desigualdade do cus-to-aluno" (Neubauer, 1997).

    A Secretaria de Educao, ao propor as mudanas nos padres de gesto, pautou-se nalgica que orienta a racionalidade capitalista na contemporaneidade, denominada flexvel.Assim, colocou-se a centralidade da poltica educacional no quanto a educao escolarproduz, em quanto tempo e com qual custo. Nesta forma intensificada, as categorias

    15. O controle exercido atravs da distribuiode recursos,definio dos meios de acompanhamentoe avaliao dos resultados, do estabelecimento de canais de distribuiode informaes, definiodos padres gerais de funcionamento da escola.

    16.Asaes mencionadas foram: extinodas DivisesRegionaisde Ensino,extinode algumasDelegacias de Ensino,demisso de 6.057 funcionriosterceirizadoscom salriose condies detrabalho melhores quando comparados com os funcionrios da Secretaria, demisso de 2.000funcionriosda Fundao para o Desenvolvimentoda Educao. reduo do nmero de funcionriosafastados de seus postos de trabalho e no contratao de 20.000 professorespara o ensino religioso(SEE,1998,home page)

    17. Hduas medidas que envolvem parcerias, a primeira o Programa de Parceria Educacional Estadoe Municpio,responsvel pela munlcipalizao do ensino, isto, pela transferncia de escolas e alunospara osmunicpios;o outro o ProgramaEscolaem Parceria responsvelpelas parcerias com empresase organizao no govemamentais

    83

  • Pro-Posies - vol. 13, N. 1 (37) - Jan/abr. 2002

    quantidade, tempo e custo que orientaram as mudanas, no priorizaram o contedodas politicas educacionais, ou seja, o que, como e para qu ou para quem se produz aeducao escolar (Arendt, 1991)18.

    Buscar-se construir na Secretaria uma mquina administrativa leve, gil e flexvel,eficiente e moderna, capaz de ser capaz na implantao de uma nova politica educacional.(SEE, 1995, p.304)

    A qualidade, nesta perspectiva, encontra-se subordinada concepo de produtivida-de do sistema educacional, de reduo das perdas (evaso e repetncia), de tempo detrabalho, de custos e de fora de trabalhol9. H que se potencializar a utilizao dos meiosfsicos e materiais, por intermdio da reorganizao das escolas da rede pblica estadual,privilegiando os padres de gesto. Dentre todos os programas, que compem a reformade ensino paulista, foi a Reorganizao das Escolas da Rede Pblica Estadual20 que maiorimpacto teve sobre as escolas, desde a promulgao da lei 5.692, de agosto de 1971, quereorganizou o ensino de primeiro e segundo graus.

    O Programa Reorganizao da Rede Pblica Estadual consistiu em redistribuir osalunos em prdios diferenciados por modalidade de ensino. Segundo a proposta (SEE,Corrigindo Rumos, 1995) haveria escolas com: a) as quatro primeiras sries do ensinofundamental, funcionando apenas com dois perodos diurnos; b) as quatro sries finaisdo ensino fundamental, funcionando com dois perodos diurnos e, de acordo com asnecessidades locais, poderia ministrar aulas noite; c) ensino mdio, funcionando em trsturnos: dois diurnos e um noturno; d) as quatro sries finais do ensino fundamental e oensino mdio, funcionando em trs turnos: dois diurnos e um noturno.

    As classes de educao especial, pela sua especificidade, seriam organizadas juntocom as quatro sries iniciais do ensino fundamental.

    Os critrios utilizados para redistribuir os alunos pelos prdios escolares existen-tes foi o padro arquitetnico dos edifcios. As quatro sries iniciais do ensino funda-mental, com populao escolar, em sua maioria, na faixa etria entre 7 e 14 anos,foram deslocadas para as escolas com padres arquitetnicos mais simples. As de-

    18. Refiro-me compreenso de ARENDT(1991)sobre a capacidade que a sociedade -marcada pelaIndiferena em relao s coisas pblicas. pelo individualismoe atomizao, pela competio e poruma Instrumentalizao de tudo o que diz respeito aos homens -teve de engendraro fenmenototalitrio.como que no mundo nada tem valore tudo se transformaem meros finspara seus objetivos.Essa sociedade, sem referncia ao outro e construo da humanidade como medida de valor,acaba sendo regida pela racionalidade Instrumental.

    19. "Aflexibilidadena combinao e na gesto dos insumos e a vigilnciado desempenho essencialpara lograrum ensino eficaz.(...)Se necessitam trscondies para lograrestes resultados: aspiraescompartilhadas quanto aos objetivos de aprendizagem da escola. profissionalismopor parte dosdocentes e autonomia da escola na atribuio flexveldos recursos da educao' (Banco Mundial.1996a. p. 8-9).-

    20. Decreto 40.473,de 21.11.1995 instituio Programa Reorganizao das Escolasda Rede PblicaEstadual;Decreto 40.510. de 5.12.1995 dispe sobre o Programa de Reorganizao: Resoluo SE-265,de04.12.1995dispe sobre o Programa de Reorganizao. Educao Paulista:SEE(1995).CorrigindoRumos-mudar para melhorar: uma escola para a criana, outra para o adolescente. manual de orientaotcnica:. (1995)Reorganizao das escolas da rede pblica estadual: propostas de discusses na reade recursos humanos; SEE(1995).Mudar para melhorar: uma escola para a criana. outra para oadolescente-o currculodo ensinofundamental e mdio: SEE(1995).Mudarpara melhorar:uma escolapara a criana. outra para o adolescente -recursos hamanos e outras Informaes complementares.

    84

  • Pro-Posies - vol. 13, N. 1 (37)- Jan/abr. 2002

    mais sries foram reagrupadas nas escolas que poderiam ter laboratrios, quadraspoliesportivas, biblioteca, etc.

    O Programa (que reorganizou as escolas para atender as faixas etrias especficas) estassociado concepo de eficincia, economia e eficcia da gesto educacional e tevecomo principal conseqncia a:quebra da organizao da escola estadual de ensino fun-damental e mdio. A partir do programa de reorganizao, a rede de ensino foi segmenta-da em trs escolas:de 1a a 4asrie, de 5aa sa srie e de ensino mdio. A concepo deeficcia de programa se apresenta com um fim em si mesma e a qualidade de ensino estsubordinada instrumentalidade da reduo dos desperdcios e dos custos na ocupaodos prdios escolares.

    O Programa de Reorganizao das Escolas da Rede Pblica Estadual partiu do pressu-posto de que a oferta de vagas no Estado de So Paulo era suficiente, com raras exceeslocalizadas e pontuais; portanto as dificuldades de escolarizao referiam-se ao desempe-nho da escola estadual, o que tornava necessrio "potencializar ao mximo os equipamen-tos existentes" (SEE, 1995). O diagnstico realizado pela Secretaria de Educao afirmavaque o agrupamento de vrias sries21em um mesmo prdio "no alcanou a eficcia preten-dida", j que contribua para o aumento do quadro de professores22e de funcionrios admi-nistrativos, como resultou numa jornada "encurtada" de muitos professores e para o "altograu de subutilizao" dos edificios (SEE, 1995).

    (...) a diversijicao acentuada das necessidades cumculares e, conseqentemente de professores

    variados, gerando uma srie de distores na rede de ensino que precisava urgentemente ser reor-

    ganizada e racionaliif1da (...) o custo social decorrente do uso de um equipamento sub-utilizado

    era, conjrme esperado, alto (Neubauer, 1997, p.3).

    O objetivo central do Programa de Reorganizao, era, portanto, a "racionalizaodos investimentos em recursos humanos, fsicos e materiais" e o enfrentamento das"disfuncionalidades" do sistema educacional, que se traduziam: a) na reprovao acentu-ada na 5asrie do ensino fundamental; b) em professores com jornadas de trabalho frag-mentadas em diversas escolas; c) nas matrculas em cursos noturnos de jovens ainda noinseridos no mercado de trabalho; e, d) nas facilidades para os municpios assumirem osencargos educacionais com o ensino fundamental23.

    A reorganizao e racionalizao dos equipamentos escolares visar, portanto, a fixa-o do corpo docente na escola, a composio adequada da jornada de trabalho, a con-centrao de recursos materiais, didticos e financeiros, bem como a instalao de salasambiente diferenciadas, indispensveis a um projeto de melhoria da qualidade do ensino.(SEE, 1995, p.306).

    21 . At 1995 os escolas estaduais estavam organizados para atendertadas os oito sriesdo ensino fundamentalnum mesmo prdio e, s vezes, havia tambm classes com ensino mdio no mesmo espao que oensino fundamental. Portanto, crianas e jovens de diferentes faixosetrias conviviam num mesmo ambienteescolar. Essa forma de agrupamento foicriada em So Paulo na gesto do governador Abreu Sodr (1967-1970), com a integrao dos antigos cursos primrio e ginasial (RUSPEREZ.1994).

    22, As escolas com poucas salas de aula tinham poucas turmas para cada srie. Cada professor ministrapoucas aulas e para completar sua jomada necessitava trabalhar em duas ou mais escolas.

    23. AReorganizao da Rede criou condies para que os municpiOsassumissem parte dos escolas estaduais.

    85

  • Pro-Posies - vol. 13, N. 1 (37) -Jan/abr. 2002

    A implementao do Programa de Reorganizao, no segundo semestre de 1995,enfrentou inmeras dificuldades, dado o alto grau de centralizao das decises porparte dos rgos centrais24. Com base nos dados estatsticos ( nmero de alunos, clas-ses, salas, sries) que indicavam como estavam organizadas as escolas, foram tomadasas decises sobre as mudanas na distribuio dos alunos e professores. O debate comos sindicatos de professores, com associaes de moradores, Conselhos de Direitos eTutelares das Crianas e Adolescentes foi pouco expressivo. Os espaos decisrioseram, majoritariamente, as reunies entre delegados de ensino, supervisares e diretores,e as decises referiam-se distribuio de alunos e no ao perfil de atendimento quecada escola assumiria.

    A Tabela 1 evidencia o movimento de diminuio de salas de aula durante osltimos trs anos, em decorrncia da reorganizao da rede e da municipalizao doenSIno.

    Tabela 1 - So Paulo: Reorganizao da rede pblica (1995 a 1998)

    FONTE: Secretaria de Estado da Educao

    24. Ahome page da Secretaria de Educao, ao fazer um balano dos procedimentos para reorganizara rede fsica confirma o processo aqui descrito: "o planejamento foifeito nas delegacias de ensino(...) envolveu a apresentao e discusso do projeto com os usurios da escola - mais de 6.000diretores participaram de reunies em outubro de 1995 e as aulas na rede estadual foram suspensasem novembro para que professores. alunos e famlias tomassem conhecimento dos objetivos damudana. (http://www.educacao.sp.gov.br/acoes/reorganiz/proc.htm)

    86

    Modalidade 1995 1996 1997 1998

    Ensino Fundamental (EF) 3.660 1.604 1.329 1.107

    Ensino Mdio (EM) 104 142 164 167Ensino Fundamental e Mdio 2.460 894 738 773

    1a a 4asries (EF) 559 2.554 2.007 1.9035a a sa srie (EF) - 458 567 5015a a 8a srie (EF) + EM - 1.066 1.247 1.468

    Reorganizadas - 4.220 3.985 4.039(63%) (66%) (68%)

    No Reorganizadas 6.783 2.478 2.067 1.880

    (37%) (34%) (32%)

    Total 6.783 6.718 6.052 5.919

    (100%) (100%) (100%)

    Unidocentes 3.361 2.210 1.352 1.122

  • Pro-Posies - vol. 13.N. 1 (37)- Jan/abr.2002

    No primeiro semestre de 1996, a reorganizao j resultara no fechamento de 8.016classes e em 77 escolas e, embora o Programa, ainda, no tivesse atingido a totalidade dasescolas, apenas 63% das escolas haviam sido reorganizadas. Tambm contribuiu para adiminuio do nmero de escolas sob a responsabilidade do poder pblico estadual oprocesso de municipalizao do ensino, iniciado em maro de 1996 com o Programa deParceria Educacional Estado e Municpio25.

    Houve forte resistncia ao Programa de reorganizao. Os pais de alunos, entidadesestudantis e de professores26, diretores e supervisores, deputados estaduais e prefeitosprotestaram contra o contedo do programa e sua forma de implementao. Dentre osdiversos protestos destaca-se a ao do Conselho Estadual dos Direitos da Criana e doAdolescente solicitando a suspenso do programa.

    O projeto educacional implantado por Rose Neubauer vem sendo imposto de formaabsolutamente autoritria, provocando fechamento de classes, demisses de professores,superlotao de salas, promoo automtica dos alunos sem parmetros pedaggicos con-sistentes; ao mesmo tempo, o governo estadual busca transferir a maior parcela do ensinofundamental para os municpios, de forma a desonerar-se dessa responsabilidade, prejudi-cando os professores e comprometendo no mdio e longo prazo a gesto do sistema e aqualidade do ensino. (professora ensino mdio, representante sindical na escola, 1998)

    Dentre os problemas apontados pelos pais e professores, estavam o fato de muitas dasescolas fechadas terem melhor qualidade de ensino do que suas substitutas; a distncia entrea escola e a residncia do aluno era maior, e muitas vezes, o deslocamento era perigoso (porexemplo atravessar uma avenida de grande fluxo); os irmos ficaram separados em escolasdistintas; e principalmente, a mudana do perfil do aluno at ento atendidos.

    Embora a reorganizao da rede tenha contribudo para desarticular o coletivo dealunos e professores, no pode ser creditado somente a ela os problemas apontados pelosdocentes em relao ao perfil dos alunos, a "disciplina" ou violncia escolar27. Se, "aescola, como outra instituio qualquer, est planificada para que as pessoas sejam todasiguais" (Guimares,1996, p.78), a diferena, a diversidade, o confronto mobilizam deter-minadas estratgias defensivas dos professores, o outro (neste caso a reorganizao) oresponsvel por essa tenso em face do desconhecido, do novo, que se estabelece no seutrabalho. Nesse sentido, a ambigidade das relaes entre o conhecido e o novo articula oque chamaramos de crise de autoridade do professor.

    A crise de autoridade na educao guarda a mais estreita conexo com a crise datradio, ou seja, com a crise de nossa atitude perante o mbito do passado. sobremodo

    25. Decretono.40.673.de 16.12.1995.Em1998havia978escolasmunicipollzadas.segundoo Centrode InformaesEducacionaisda Secretariode Educao.

    26.-Desdeo primeiromomento a APEOESPmanifestou-secontra essa reorganizao.Imediatamenteaps o anncio das primeirasmedidas organizamos,Juntocom os demais segmentos dascomunidades escolares,centenas de manifestaesem todo o estado, conseguindo.em algunscasos, impedir o fechamento de escolas. Porm apesar de vrias manifestaes, abaixo-assinados e outras Iniciativasde professores.pais.alunose da populao em geral, o governoIgnoroutodos os apelos e levou adiante a reorganizao, demonstrando o autoritarismoe aprepotncia que seriama marca registrada dessa gesto: (Jornalda Apeoesp, especial, fevlmar, 1999.p. 3)

    27. Sobreesta temtica verGUIMARES(Org.)(1998),Na mirada violncia:a escola e seus agentes;AQUINO(Org.)(1996),Indisciplinana escola: alternativostericos e prticas.

    87

  • Pro-Posies - vol. 13,N. 1 (37) -Jan/abr. 2002

    difcil para oeducador arcar com esse aspecto da crise moderna, pois de seu ofcioservir de mediador entre o velho e o novo, de tal modo que sua prpria profisso lheexige um respeito extraordinrio pelo passado. (Arendt, 1992, p. 243/244)

    Essa tenso entre os novos e os tradicionais (valores) presentes no trabalho docenteno da mesma natureza da resistncia em relao reforma educacional paulista. Huma tentativa em preservar a identidade da docncia construda com grande esforo. No apenas apego ao passado, rotina ou tradio, mas a forma de ser docente tem de serreconstituda continuamente, a fim de que este professor sobreviva a cada reforma.

    O sentido do Programa de Reorganizao para os professores das quatro sries inici-ais diverso dos colegas das quatro sries finais do ensino fundamental. Enquanto, paraos primeiros, havia ocorrido melhoria das condies de trabalho, principalmente nos as-pectos que se referem s condies fsicas das salas de aula, higiene e disposip domaterial de trabalho com alunos. Para os demais havia intensificado o trabalho docente, onmero de alunos e turmas por professor havia aumentado substancialmente. Mas paraambos os grupos as condies de salrio e jornada no haviam sido modificadas.

    Ciclo, promoo automtica, classes de acelerao, reorganizao: nada importa paramudar a educao. Isto ocasionou sobrecarga para o professor. O professor tem 1.200alunos, 800 alunos com uma disciplina. E o tempo? Voc fica esgotado. Como se atuali-zar? (professor, ensino mdio, antiga Escola-Padro. 1998)

    Com a reorganizao das escolas da rede pblica estadual, os professores28 foramdistribudos entre as diversas escolas, os coletivos de docentes passaram, pelo menos, umsemestre para se (re)organizar.

    Eu trabalhava h vinte anos na outra escola, eu vim para uma escola que no escolhi, todas ns

    viemos de outra escola (professora, 1a a 4a srie, 1996).

    No processo de reorganizao cada prdio escolar concentrou determinadas sries doensino fundamental. Como h mais alunos nas quatro sries iniciais,em razo da seletividadedo ensino, este tipo de escola foi predominante. Cada uma destas escolas organizou asclasses com o nmero mximo de aluno proposto pela reorganizao29,"potencializando ouso dos prdios". Simultaneamente, tambm foram transferidos os professores para traba-lhar com essas sries, primeiramente os efetivos e no segundo momento (em atribuiocentralizada na Delegacia de Ensino), aqueles com vnculo de emprego temporrio pude-ram escolher as aulas ou as classes disponveis. Nesse remanejamento foram desativadasinmeras escolas e professores com vnculo de trabalho temporrio, foram demitidos.

    O nmero de professores desempregados foi expressivo, no incio da implementaoda Reorganizao das Escolas da Rede Pblica Estadual, como pode ser verificado atra-vs da Tabela abaixo.

    28. Os professores que tinham vnculo de emprego efetivo foram remanejados junto com os alunos para asescolas mais prJdmas:os OOmitidosem catertemporio (ACi)participaam de afTibuiode aulas uificxx:Iapor Delegocia de Ensino.k) temporrio patencialmente havia a possibilidade de escolher a nova escola. Aatribuio centralizacb no DEno foigeneralizada para o conjunto do Estada. Eminmeras DEs:os professoresefetivos ou temporrios poderiam optar por acompanhar os alunos ou escolher outra unidade de trabalho.

    29. Anualmente h uma resoluo da Secretaria de Educao organizando o nmero de alunos por classe,atualmente as sries iniciais devem ser organizadas com 40 alunos e as finaise o ensino mdio com 45.

    88

  • Pro-Posies- vol. 13, N. 1 (37) - Jan/abr. 2002

    Tahela 2 - So Paulo: Professores e Reorganizao da rede estadual30

    FONTE: Secretaria de Estado da Educao, Centro de Informaes EducacionaisObs: compem a diferena aposentadorias e licenas sade.

    o projeto educacional de Rose Neubauer provocou fechamento de classes, demitiu prrifessores,

    superlotou classes (professora, 5a a 8a srie, 1996).

    A reforma educacional, ao privilegiar a racionalidade tcnica na implementao e naconduo dos processos de deciso, contribuiu para negar a dimenso poltica: desprezandoa via democrtica de legitimao do poder e de manifestao dos interesses dos professores,pais e alunos. O caminho escolhido pela Secretaria de Estado da Educao privilegiou umaforma particular de saber, aquele construdo pelo grupo que atualmente dirige a educaopaulista. Esses dirigentes atribuem s pesquisas que realizaram, na suas trajetrias profissi-onais, um carter de universalidade que legitima o poder exercido em nome deste saber. Aoreduzir o espao da poltica competncia tcnica consideram que s justo o poder que exercido em nome do saber, supostamente universal (Habermas, 1983).

    Referncias bibliogrficas

    Albuquerque, R. C. de, (1992). Um novo olhar sobre o Estado: A Perspectiva Neoliberal.So Pauloemperspectiva.So Paulo: SEADE, vol 5, nA, p. 92-98, out./dez.

    Appay, B. (1997a.) Contrle Social et Flexibit (1997). ln: APPA)', Batrice etTHEBAUD-MON)', Annie (Dir.) PrcarisationSociale,Travail et Sant. Paris: lRESCO/CNRS.

    Aquino, J. G. (Org.) (1998). lndisciplina na Escola: Alternativas Tericas e Prticas. SoPaulo: Summus.

    Arendt, H. (1991). A Condio Humana. Rio de Janeiro: Forense.Arendt, H. (1992). Entre o Passado e o Futuro. So Paulo: Perspectiva.Barth, R. S. (1990). lmprovising Schools from Within. So Francisco: Jossey-Bass.Bourdieu,P. (1976).Le ChampScientifique.ActesdeIaRechercheenSciencesSociales,no.2/3, juin.Bresser Pereira, L. C. (1998). A Reforma do Estado nos Anos Noventa: Lgica e

    Mecanismos de Controle. Revista de Cultura Poltica Lua Nova, no. 45, pA5-95.

    30. Acontagem dos professores foirealizada aps a atribuio de aulas e o inciodo ano letivode 1996.portanto a diferena refere-se aos professores que ficaram desempregados, foram aposentados ouentraram em licena. No dispomos de dados sobre o nmero de professores que se aposentaramou se licenciaram. Mas a estimativa de que seja aproximadamente 10%. conforme indicaesverbais de tcnicos do Departamento de RecursosHumanos, da Secretaria de Estado da Educao

    89

    Professor l (PEB 1) Professor II Professor III (PEB2)Efetivo ACT Efetivo ACT Efetivo ACT

    Dez/1995 480416 47.021 20 43.614 29.699 77.906

    Maro /1996 48.068 34.392 19 17.656 29.696 650414

    Diferena 348 12.629 01 25.958 03 120492

  • Pro-Posies - vol. 13. N. 1 (37) - Jan/abr. 2002

    Bruno, L. (1997). Poder e Administrao no Capitalismo Contemporneo. In: OUVEIRA,Dalila Andrade (Org.). Gesto Democrtica da Educao -Desafios Contemporneos.Petrpolis: Vozes.

    Chau, M. (1998). A Universidade Hoje. Praga- Estudos Marxistas. So Paulo: Hucitec,no. 6, p. 23-32.

    . (1999). A Universidade Operacional. Folha de So Paulo, So Paulo,09/05, Suplemento Mais, p. 5-3.

    Consed. Polticas Pblicas de Qualidade na Educao Bsica. Brasilia: CONSED, p. 15-26.Esteve,]. M (1991). Mudanas Sociais e Funo Docente. In: NVOA, Antnio (Org.).

    Profisso,Professor.Porto: Editora Porto.Girin,]. & Grosjean, M. (dir) La Transgression des Regles au Travail. Paris: L'Harmattan.Guimares, . M.(1998). Na Mira da Violncia - a Escola e seus Agentes. Cadernos

    Cedes. Campinas: CEDES, no. 47.Habermas,]. (1983). Tcnica e Cincia Enquanto "Ideologia". Os Pensadores. So Paulo:

    Abril Cultural, p. 313-343.Leite, M. de P. (1992). A Interseco da Sociologia do Trabalho e da Educao. Revista

    Educao & Sociedade, Campinas: CEDES, p. 15-20.Mello, G. N. de & Silva, R. N. da (1993). Mudanas nos Padresde GestoEducacionalno

    Contextoda ReformadoEstado. So Paulo: FUNDAP (rnimeo).Merrian, S.B. (1988). The CaseStu4J Researchin Education.San Francisco: ]ossey-Bass.Motta, F. c.P. (1986). Organizao e Poder - Empresa, Estado e Escola. So Paulo:

    Atlas.

    Neubauer da Silva, R. (1996). A Identidadedo Profissionaldo Educadore as Polticasda SEE-SP. In: IV Congresso Estadual Paulista sobre Formao de Educadores. (CD-ROM(,3Uas de So Pedro.

    .et alii (Coords.) (1994). Programade Educaopara o Estado de SoPaulo.Documento preliminar, setembro (candidato Mrio Covas).

    . (1996). Plano de Metas da Atual Gesto da Secretaria de Estado daEducao e Anlise do Perfil da Secretaria. So Paulo: Estudos emAvaliaoEducaciona~no. 13, p. 7-12, jan./jun. .

    . (1997). A Gesto Educacional no Estado de So Paulo. Brasil.Santiago: OREALC/UNESCO, IX Seminrio Taller Regional de Polticas y GestionEducativas.

    . (1998). Descentralzao da Educao. So Paulo; FUNDAP,Seminrio Internacional sobre Financiamento e Descentralizao da Educao.

    Pages, M. et alii (1987). O Poder das Organizaes. So Paulo: Atlas.Paiva, V. & Warde, M.]. (1994). Novo Paradigma de Desenvolvimento e Centralidade do

    Ensino Bsico. In: PAIVA, V. (Org.) Transformao Produtiva e Eqidade -A Questo doEnsino Bsico.Campinas: Papirus.

    Rus Perez,]. R. (1994). A Poltica Educacional do Estado de So Paulo: 1967-1990.Faculdade de Educao, Universidade de Campinas. Tese (Doutorado).

    Segnini, L. R.P. (1998). Educao,Trabalho e Desenvolvimento:Uma Complexa Relao. IWorkshop do Projeto de Pesquisa "Conceitos Empregados na Educao Profissional",NETE/FE/UFMG.

    90

  • Pro-Posies- vol. 13, N. 1 (37) -Jan/abr. 2002

    Tanguy, L. (1g97). Racionalizao Pedaggica e Legitimidade Politica. In: ROP, Franoisee TANGUY; Lucie (Orgs.). Saberese Competncias- O UsodeTaisNoesna Escolae naElnpresa.Campinas: Papirus.

    Tommasi, L.; Warde, M. J.; Haddad, S. (Orgs.) (1996). O Banco Mundial e as PolticasEducacionais.So Paulo: Cortez, PUCSP, Ao Educativa.

    Tragtenberg, M. (1978). A Escola como Organizao Complexa. In: Garcia, Walter E.(Org.) Educao Brasileira Contempornea -Organiiflo e Funcionamento. So Paulo: Mc Graw-Hill do Brasil/ Rio de Janeiro: FENAME.

    Vinokur, A. (1997). Flexibilit du Travai" Flexibilization de L'ducation. In: Appay, B. &Thebaud-Mony, A. (Dir.) PrcarisationSociale, Travailet Sant. Paris: lRESCO/CNRS.

    91

Recommended

View more >