A questão ambiental em Marx - Guilhermo Foladori

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<ul><li> 1. A questoambiental emMarx*GUILLERMO FOLADORI**Introduo Toda transformao ocorrida na realidade constitui a verdadeira provapara as teorias e mtodos cientficos. Por isso, o desafio de confront-las coma realidade e de polemizar em tomo de suas modificaes ou rejeies deveser recebido com aprovao. Neste sentido, as trs ltimas dcadasconstituram a prova mais difcil para o pensamento marxista desde a suaorigem. Primeiro, pelas significativas transformaes no mundo do trabalhoocorridas desde meados dos anos setenta. O crescimento do setor de servios,a expanso da flexibilizao do trabalho, os processos de automao, otrabalho em tempo parcial, etc so questionadores evidentes da vigncia dotrabalho assalariado e do papel da classe operria, como central na explicaomarxiana das contradies internas do sistema capitalista c suas tendncias deevoluo.Em segundo lugar, pela derrocada do socialismo real em fins da dcadapassada, compreendida por muitos como a comprovao mais contundentedos erros da teoria marxiana, ainda que devamos manifestar que esseargumento confunde as coisas de cabo a rabo, j que Marx dedicou sua vida anlise c crtica do funcionamento do sistema capitalista, enquanto poucoteorizou sobre o socialismo. No obstante, o desmoronamento de umasociedade que pretendia converter-se em uma etapa de desenvolvimentosuperior ao capitalismo, certamente, questiona a possibilidade de que istoocorra ou, pelo menos, destri a utopia daqueles que possuem ideais poucoconsistentes.*Traduo do castelhano de Patricia Vieira Trpia. Agradecimentos a Eduardo Mei pela cuidadosareviso.**Professor da Universidade da Repblica, Uruguai. Membro do conselho de colaboradoresinternacionais de Crtica marxista. 140 . A QUESTO AMBIENTAL EM MARX</li></ul><p> 2. Em terceiro lugar est a crise ambiental. Ela tambm constitui um desafioao materialismo histrico como mtodo e teoria do valor-mais valia-lucrodesenvolvida por Marx em O Capital. Ou no est em flagrante oposio concepo marxiana a possibilidade de que o capital, em seu de-senvolvimento, se depare com limites naturais, antes que com a oposio daclasse operria?Neste artigo, estabelecemos um dilogo em torno deste ltimo aspecto,tanto com os analistas que vem nos problemas ambientais uma contundentecomprovao do "pequeno flego" do pensamento marxiano quanto comaqueles que defendem, com diversos argumentos, a atualidade do marxismo.A crtica ecolgica ao marxismoDe uma perspectiva ecolgica, as crticas ao marxismo so variadas emuitos sustentam-nas. No obstante, tal qual assinala John Bellamy Foster(1)em um artigo muito esc1arecedor, estas podem ser agrupadas em doisgrandes temas: o das foras produtivas e o do valor. Sob o primeiro, incluir-se-iam as crticas direcionadas a mostrar que Marx considerava odesenvolvimento das foras produtivas como positivo em si mesmo, queentendia a produo de uma perspectiva prometica, que tomava a naturezato somente como um objeto a ser dominado e que, ao utilizar os conceitos deproduo ou de produtividade, no levava em conta os prejuzos que a aohumana poderia provocar na natureza. O segundo tema inclui a crtica a Marxpor ele ignorar o papel.da natureza na teoria do valor-trabalho.Quo produtivista foi Marx? Este primeiro tema tem, por sua vez, duas vertentes. De um lado, aquelaque pode ser considerada como a base filosfica de Marx, criticada comoprodutivista, coincidente com o esprito do mito de Prometeu; ou porconsiderar a natureza to-somente como o objeto de trabalho e de exploraoeconmica. Tratar-se-ia de uma concepo antropocntrica comum poca,que no podia entender a libertao do ser humano, se no fosse atravs dadominao de toda a natureza (2). Por outro lado, podemos agrupar as formu-1. John Bellamy Foster, Marx and the environment. Monthly review, New York: julho/agosto 1995.2. 100 Benton, Greening Marx. New left review, London, 194: 1992. Anthony Giddens, Acontemporary critic of historical materialism. London, McMillan, 1981. Victor Ferkiss, Nature,technology and saciety. New York, New York University Press. 1993. Norberto Bobbio, Whichsocialism?". R. Bellamy, Marxism, socialism and democracy, Minneapolis, University of Minessota Press,1987. John Clark, Marxs inorganic body. Environmental ethics, 11(3): 1989. CRTICA MARXISTA. 141 3. laes em torno dos possveis limites fsicos ao desenvolvimento econmico.Neste contexto, a cincia e a tecnologia teriam, para Marx, capacidadeilimitada, desconsiderando aquilo que atualmente se denomina "resultadosimprevistos" do uso tecnolgico e tambm os potenciais limites fsicos aodesenvolvimento econmico. Inclumos tambm aqui o tratamento indistintodado por Marx aos recursos naturais renovveis e no-renovveis (3).No que diz respeito ao mito de Prometeu, enquanto reificador datecnologia, Ted Benton critica Marx por sua "viso prometica e produtivistada histria (4)", Vctor Ferkiss critica: "A atitude de Marx face ao mundosempre conserva aquela crena prometica glorificadora da conquistahumana da natureza(5)"; ou ainda John Clark:O "homem" prometico de Marx (...) um ser que no se sente em casa nanatureza, que no v a Terra como a "morada" da ecologia. um espritoindomvel que deve submeter a natureza em sua busca da auto-realizao (u.)Para tal ser, as foras da natureza, seja na forma de sua prpria naturezainterna ingovernvel ou dos poderes ameaadores da natureza exterior, devemser subjugadas (6).Se bem que Bellamy Foster assinala que este mito reivindica tanto atecnologia quanto a criatividade e libertao das amarras religiosas (7).Todavia, os significados do mito so diametralmente opostos nos usos quedele fazem Plato e squilo. De tal forma que o mito de Prometeu tanto podeser considerado como reivindicador dos avanos produtivos do ser humano,como tambm da libertao do ser humano de suas prprias amarras sociais. neste sentido o resumo que se segue de Bellamy Foster:To importante era o mito de Prometeu para a Grcia Antiga, que a oposiode classe na democracia, entre os cidados trabalhadores e os aristocratasopositores democracia, pode ser vista nas formulaes radicalmente distin-3. Ted Benton, "Marxism and natural limits". New left review, London, 178: 1989. Joan Martnez Alier &amp; KlaussSchlpmann, La ecologia e la economa. Mxico D.F., Fondo de Cultura Econmica, 1993. James OConnor, "Lasegunda contradiccin del capitalismo: sus causas y consecuencias". El cielo por asalto. Buenos Aires: otoo 1991. JosManuel Naredo, La economa en evolucin, Madrid, Siglo XXI, 1987.4. Ted Benton, "Marxism and natural limits". New left review, London, 178: 1989.5. John Bellamy Foster, "Marx and the environment". Monthly review, New York: julho/agosto 1995, p.109.6. Ibidem.7. "O crime de Prometeu, aos olhos de Zeus, foi ler erguido a humanidade da degradao e misriaprimitiva at um nvel em que pudesse rivalizar com os deuses. Foi apropriadamente castigado para loda aeternidade." (Robert Nisbet, Histria da idia de progresso, Braslia, Editora da Universidade de Braslia,1985).142. A QUESTO AMBIENTAL EM MARX 4. tas deste mito, representadas respectivamente pelo Prometeu acorrentado de squilo e pelo uso do mesmo mito por Plato em seu Homem poltico. Marx, compreendendo o carter de classe revolucionrio do conflito na antigidade, identificou-se claramente com o Prometeu de squilo, antes que com o de Plato (8). Mas, alm da reificao da tecnologia no mito de Prometeu, ser difcilalcanar a desejada harmonia com a natureza sem um desenvolvimentotecnolgico; claro que no como a atual tecnologia capitalista, que em lugarde libertar o ser humano do trabalho o converte em seu escravo, e em lugar deutilizar racionalmente os recursos, esgota-os e desperdia-os. E neste sentido,a crtica de Marx acumulao do capital, que constitui o cerne de seutrabalho cientfico, est muito mais prxima de uma harmonia com a naturezado que do domnio prometico em sua verso produtivista, equivocadamenteressaltada por alguns leitores; ou, como disse Marshal Berman: Finalmente, positivo que Marcuse afirme, como sempre tem afirmado a Escola de Frankfurt, o ideal de harmonia entre o homem e a natureza. Porm, para ns, igualmente importante compreender que, qualquer que seja o contedo concreto deste equilbrio e harmonia (3,4) questo por si mesma bastante espinhosa(3,4), sua criao requereria uma extensa atividade e luta prometica (9).As palavras esto hoje em dia envolvidas por uma peculiar subjetividadeque tende a rejeitar certas expresses mais por seu significado literal ouvulgar, do que pelo contexto em que foram empregadas, como por exemplo,domnio sobre a natureza como oposto a equilbrio ou harmonia com anatureza. Bellamy Foster menciona o trabalho de William Leis TheDomination of nature, no qual demonstra que expresses como "controle danatureza" ou "domnio sobre a natureza" eram correntes entre os pensadoresdo sculo XIX. Mas, ao contrrio de um domnio unilateral sobre a natureza,tanto Marx quanto Engels criticaram o capitalismo por sua arrogncia frente aela; j nos Manuscritos econmico-filosficos de 1844, Marx reivindicava anecessidade de uma reconciliao em uma futura formao econmica (10).Por sua vez, Engels considerou inclusive os efeitos secundrios, no deseja-8. Ibidem, p. 111. Bellamy Foster retoma aqui as pesquisas histricas de Leonard P. Wessell Jr.Prometheus bound: the mythic structure of Karl Marxs scientific thinking. Louisiana State UniversityPress, 1984; e Linda M. Lewis The promethean politics of Milton, Blake and Shelley, University orMissouri Press, 1922.9. Marshall Berrnan, Todo lo slido se desvanece en el aire. La experiencia de la modernidad. Mxico D.F., Siglo XXI,1988, p. 127.10. Karl Marx, "Manuscritos econmico-filosficos de 1844" Marx-Engels, Escritos econmicos varios. Mxico D.F.,Grijalbo, 1966. CRTICA MARXISTA. 143 5. dos, da tecnologia. A seguinte citao poderia muito bem ser um pargrafo dolivro de Alfred Crosby Imperialismo ecologico. La expansin biologica deEuropa. 900-1900 (11), onde o autor mostra as transformaes ecolgicasfruto da expanso populacional europia, no obstante ter sido escrita cemanos antes:Os introdutores da batata na Europa no podiam saber que, com o tubrculofarinceo, propagavam tambm a doena da escrofulose. E, da mesmamaneira, ou parecida, tudo nos faz lembrar, passo a passo, que o homem nodomina a natureza, e nem muito menos maneira como um conquistadordomina um povo estrangeiro, quer dizer como algum que alheio natureza,seno que fazemos parte dela com nosso corpo, nosso sangue e nosso crebro,que nos encontramos em meio a ela e que todo nosso domnio sobre a natureza(3,4)e a vantagem que, em funo disto, levamos face s demais criaturas (3,4)consiste na possibilidade de chegar a conhecer suas leis e de saber aplic-lascorretamente (12). E tambm esteve atento ao que hoje em dia chamaramos de resultadosno previstos da tecnologia:No devemos, sem dvida, nos vangloriar de nossas vitrias humanas sobre anatureza. Esta se vinga de ns por cada uma das denotas que lhe infringimos. certo que todas elas se traduzem principalmente nos resultados previstos ecalculados, porm acarretam, ademais, outros imprevistos, com os quais nocontvamos e que, no poucas vezes, contraminam os primeiros. Aqueles quedestruram os bosques da Mesopotmia, Grcia, sia Menor e outras regies,para obter terras cultivveis, no imaginavam que, ao faz-lo, lanavam asbases para o estado de destruio em que se acham atualmente estes pases, jque, ao devastar os bosques, acabaram com os centros de condensao e dearmazenamento de umidade (13). Como conciliar as crticas que se fazem a Marx, por uma supostamentalidade produtivista, que considera o avano tecnolgico positivo em simesmo, com formulaes como as seguintes? E todo progresso da agricultura capitalista no somente um progresso na arte de esgotar o operrio, seno por sua vez na arte de esgotar o solo (...) A produo capitalista, conseqentemente, no desenvolve a tcnica e a combinao do processo social de produo seno solapando, ao mesmo tempo, os mananciais de toda a riqueza: a terra e o trabalhador (14).11. Alfred. W. Crosby, Imperialismo ecolgico. La expansin biolgica de Europa, 900-1900. Barcelona,Crtica/Grijalbo, 1988.12. Friedrich Engels, Dialtica de la naturaleza. Mxico D.F., Grijalbo, 1961, pp. 151.152.13. Ibidem.14. Karl Marx, El Capital, Siglo XXI. Mxico D.F., 1979, tomo I, vol 2, pp. 612.611.144. A QUESTO AMBIENTAL EM MARX 6. certo que, entre os dois resultados da produo capitalista, esgotar ooperrio e o solo, Marx dedica sua ateno ao primeiro. Seu objeto de estudofoi a anlise do sistema capitalista e de seus efeitos sobre a classe operria.No obstante, seu mtodo lhe permitiu ver mais alm do seu objeto deestudo, assinalando os impactos concomitantes da produo capitalista sobrea natureza. Engels foi explcito no Anti-Dhring, quando comparou o usocapitalista da cincia com o aprendiz de feiticeiro, que desencadeia foras danatureza mas incapaz de control-las (15).A magnitude da crise ambiental atual no pde ser prevista por Marx, eno o foi. Mas tampouco pode-se atribuir-lhe um desinteresse pelo futuro domundo natural. Todas as suas formulaes partem de uma filosofia de uniodo ser humano com a natureza, nas palavras de Marx, A natureza o corpo inorgnico do homem; ou seja, a natureza enquanto no o prprio corpo humano. Que o homem vive da natureza quer dizer que a natureza seu corpo, com o qual deve manter-se num processo constante, para no morrer. A afirmao de que a vida fsica e espiritual do homem se acha integrada com a natureza no tem outro sentido que o de que a natureza se acha integrada consigo mesma e que o homem parte da natureza (16). Em Las formas que preceden a la produccin capitalista (17), Marxprocura entender as razes pelas quais o ser humano separou-se de seus laoscom a natureza, e consigo mesmo, e reivindica uma prtica para recuperaraquela unidade. O conceito que atualmente se utiliza como argumento de conscientiza-o acerca da importncia da harmonia com a natureza o de garantir sgeraes futuras um meio ambiente melhor do que o existente - foi inclusiveutilizado por Marx com as mesmas palavras, a tal ponto que a seguinte frasepoderia passar como parte de um discurso escrito nos dias atuais e no hcem anos atrs: Do ponto de vista de uma formao econmico-social superior, a propriedade privada do planeta nas mos de indivduos isolados parecer to absurda como a propriedade privada de um homem nas mos de outro. Nem sequer15. Giuseppe Pretipino, EI pensamiento filosfico de Engels. Naturaleza y sociedad en la perspectivaterica marxista. Mxico D.F., Siglo XXI, 1977.16. Karl Marx, "Manuscritos econmico-filosficos de 1844" Marx-Engels, Escritos econmicos varios. Mxico D.F.,Grijalbo, 1966, p. 67.17. Karl Marx, Elementos fundamentales para la critica de la economia poltica (Grundrisse) 1857-1858,Mxico D.F., Siglo XXI, 1984, tomo I.CRTICA MARXISTA. 145 7. toda a sociedade, uma nao, mais ainda, todas as sociedade contemporneasjuntas so proprietrias da Terra. Somente so seus possuidores, seususufruturios, e devem melhor-la, como boni patres familias, para asgeraes futuras (18). pertinente critica...</p>