A PSICOLOGIA E O CAMPO EPISTÊMICO: DO JULGAMENTO ?· campo de julgamento é preciso dar sentido a sua…

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  • A PSICOLOGIA E O CAMPO EPISTMICO: DO JULGAMENTO POSITIVAO DE UMA PLURALIDADE

    Muitos discursos podem ser lanados com relao a uma cincia, mesmo que ela esteja

    buscando reconhecimento enquanto tal. Pode-se buscar fundament-la, descrev-la, histori-la,

    positiv-la, legitim-la, critic-la. Todas estas atitudes no trato com os saberes so reunidas sob

    a marca genrica de epistemologia. Contudo, a palavra epistemologia1 muitas vezes soa como

    mgica e instanciadora. Como se um fundamento epistemolgico garantisse por decreto a

    fundao de uma cincia. Esta tem sido a sina das cincias humanas: discutir infindamente sua

    fundamentao legal, mais do que qualquer outro tipo de saber. notadamente o caminho

    inverso das cincias naturais, que somente reconheceram-se cincias aps terem se realizado.

    Contudo, a epistemologia tem sido o espao de discusso sobre a psicologia, o foro onde

    advogado seu estatuto como cincia, condenado seu status de ideologia e constatada sua

    incmoda pluralidade consensual. Muitos discursos cruzam a psicologia partindo da

    epistemologia. Todos com sentidos muito diversos. Dentre as muitas posturas que atravessam

    o vocbulo epistemologia (discusso sobre a natureza do conhecimento cientfico ou geral - em

    sua possibilidade, sua fonte, sua essncia, suas formas, seus rituais, suas condies, seus

    mecanismos de progresso), o que ele assume perante a psicologia basicamente o de

    julgamento. Antes de se dirigir natureza do conhecimento psicolgico, ela pergunta: s

    conhecimento?. A epistemologia tem aqui, pois, o sentido legalizante, conforme aventado

    por Stengers (1989, p. 80). A orientao deste trabalho ser tentar transmutar esta discusso

    de fundamento em fundao, ou seja, ao invs de aguardar pacientemente que uma lei

    complementar d corpo constituio epistmica, tentarei fundamentar o legal no juris-

    prudente, transformando o que h de fato no que de direito. Tal ser o objetivo deste

    captulo: inventariar os discursos epistemolgicos sobre a psicologia, visando compreender seu

    singular modo de funcionamento. Mas, antes de tudo, impe-se catalogar os foros epistmicos

    em que a psicologia avaliada.

    1- O Mapa Epistmico

    Apesar da epistemologia se instalar com relao psicologia enquanto foro, necessrio

    considerar a disperso inerente a esta instncia, suas diversas jurisdies. Ainda que se defina

    genericamente epistemologia como estudo da constituio de conhecimentos vlidos (Jean

    Piaget, 1970, p. 107), o que perpassa este campo um conjunto de foras deslocando o foco

    de validade, ampliando-o, reduzindo-o, propondo-o em novas direes, tomando a 1 Segundo Robert Blanch, citado por Mrcio Marighela (1997, p.31), o termo epistemologia surge em 1906, significando teoria da cincia. Somente mais tarde, notadamente com Gaston Bachelard, que este termo ser correlacionado histria da cincia.

  • constituio deste campo a partir de diferentes fundamentos (ora do conhecedor, ora do

    conhecido) ou atravs de diversos motores (o refinamento do olhar, a inteligncia crtica, o

    consenso da comunidade cientfica, o regime de poderes). Este campo, gerado por fontes to

    diversas quanto as filosofias e as cincias existentes, delineado por questes, conceitos, e

    mtodos to mltiplos quanto os seus pontos de partida, tem apenas no termo epistemologia

    uma homonmia, que apenas rene discursos tensionados entre si, algo de resto, semelhante ao

    que ocorre ao seu julgado, a psicologia. O jri pois to mltiplo quanto o ru. Para mapear o

    campo de julgamento preciso dar sentido a sua multiplicidade. A linha mestra desta

    cartografia ser buscada em Piaget, notadamente em seu artigo A epistemologia e suas variedades

    (1970), um dos mapas mais detalhados no gnero. Contudo, outros mapas sero confrontados

    na busca de refinamento.

    De incio, deve-se diferenciar a epistemologia da teoria do conhecimento, ou

    gnosiologia, enquanto empresa fundadora da filosofia moderna (iniciada pois em Descartes), a

    fim de dar conta da possibilidade de todo e qualquer conhecimento (sua viabilidade, origem,

    essncia, espcies e critrios), e no apenas do conhecimento cientfico. Para Piaget (op. cit., p.

    26), esta distino no procede, uma vez que no h epistemologia independente das

    cincias. Na verdade, o mestre suo reconhece, no trabalho dos filsofos gnosiolgicos,

    epistemologias metacientficas, uma vez que oriundas da reflexo sobre cincias especficas e

    posteriormente generalizadas ao saber em geral. deste modo que estas epistemologias seriam

    desdobradas: Plato, partindo da matemtica; Aristteles, da lgica; Ren Descartes, Gottfried

    W. Leibniz e Immanuel Kant, da fsica matematizada; os empiristas, da fsica mecnica e de

    uma psicologia ainda por constituir; Georg W. Hegel e Karl Marx, da histria e da sociologia.

    Suas teorias do conhecimento nada mais seriam que filosofias prolongadas a partir de um

    ncleo cientfico, de onde se constituiriam como metacientficas. Piaget (op.cit. p.25),

    identificando o campo gnosiolgico como um subconjunto do epistemolgico, reconhece

    ainda duas outras sub-regies: a das que apoiando-se em uma crtica das cincias, procuram

    alcanar um modo de conhecimento distinto do conhecimento cientfico [epistemologias

    paracientficas]... e a das que permanecem no interior de uma reflexo sobre as cincias

    [epistemologias cientficas]. No primeiro caso, ns temos trabalhos como os de Bergson e Husserl.

    No segundo, o das epistemologias cientficas, estas se subdividem nos positivismos (que iro

    tomar da cincia uma metodologia ortopdica para qualquer saber que se queira legitimar),

    nas filosofias da cincia (que iro tomar da cincia uma reflexo e um modelo sobre o

    conhecimento em geral) e na epistemologia interior s cincias (que os cientistas em seus prprios

    domnios iro tomar para estabelecer suas prprias regras, reflexes e solues para suas

    crises).

  • As demais tentativas de categorizao da epistemologia seguiro um critrio mais

    doutrinrio que temtico, encarnando nela uma renovao conceitual com relao s

    gnosiologias. deste modo que Georges Canguilhem, citado por Manuel Carrilho (1979, p.

    22), promove uma conceituao mais delimitada da epistemologia:

    Ou a filosofia procura, numa cincia consagrada e em expanso [...] esclarecer-se sobre

    as vias e os meios de conhecimento, ou ela procura, numa cincia estabelecida e mais ou

    menos estvel, descobrir as razes que atrasaram e posteriormente permitiram o seu

    aparecimento. Se a primeira a posio tradicional que se situa no campo das teorias do

    conhecimento e das filosofias da cincia, a segunda conduz-nos a projetos mais recentes,

    que se encontram ou cruzam sob a designao comum de epistemologia.

    Para Michel Fichant (1973, p. 124), a distino, entre epistemologia por um lado e

    filosofia de cincia e teoria do conhecimento por outro, a renovao que a primeira impe s

    demais nas questes relativas ao papel do sujeito cognoscente e ao progresso na histria da

    cincia. A distino no remeteria s diversas parties na relao cincia X conhecimento em

    geral como para Piaget, mas a uma renovao de cunho doutrinrio. Assim, para a

    epistemologia o sujeito seria mais um inventor, um criador do que um mero descobridor de

    conhecimentos incrustados na natureza, e estes progrediriam mais atravs de saltos e rupturas

    do que na sua acumulao lenta, gradual e contnua.

    Grard Lebrun (1977, p. 11) tambm busca distinguir a epistemologia como um trabalho

    renovador perante uma reflexo racionalista sobre as cincias. Esta ltima, tendo seu chefe em

    Descartes, buscaria traar, a partir das cincias, o esboo de uma Verdade unificada e revelada

    atravs de uma Razo homognea. Se para esta reflexo racionalizante a cincia um caso da

    razo, para a epistemologia, esta, ao contrrio, produto das diversas prticas cientficas. Aqui

    no se busca uma cincia universal, mas cincias especficas, em suas demarcaes

    provisrias e instveis. Todo trabalho passa a no ser mais extrair uma verdade maior a partir

    das cincias, mas trabalhar direto sobre estas, destacando o aspecto autctone de seus

    princpios e a singularidade de suas montagens tericas. A epistemologia para Lebrun se funda,

    pois, nesta recusa a uma cincia, uma razo e uma verdade universais, e a conseqente

    afirmao de uma tomada histrica, filolgica, e cartogrfica dos saberes em sua singularidade.

    Contudo, Lebrun parece ir mais longe do que os prprios epistemlogos, recusando ver nestes

    qualquer compromisso com a idia de verdade e de progresso. Ao sugerir o trabalho do

    epistemlogo como mera radiografia do sistema de operaes e do campo de objetos em que

    funciona o discurso cientfico, buscando da a configurao do saber, de onde emergiriam as

    cincias concretas, Lebrun parece se aproximar mais da arqueologia foucaultiana. Ou mesmo

  • da genealogia nietzscheana: No lugar deixado pela sabedoria humana, eis que nascem os gaios

    saberes, as epistemologias saberes ainda adolescentes, agressivos, insolentes, dissolventes,

    desrespeitosos da cientificidade de direito divino, porque mais a respeito da cincia como

    trabalho e como documento (op. cit., p. 21). Se o afastamento da epistemologia com relao

    reflexo racionalizante pertinente, sua aproximao da arqueologia e da genealogia

    foucaultianas torna-se arriscada, pois torna as idias de progresso e verdade, to caras quela,

    meras fices.

    Um mapa possvel do campo epistemolgico pode ser desenhado em cinco regies, em

    funo das contribuies acima citadas e segundo, pois, uma ordem cronolgica e doutrinria:

    1) Teorias do conhecimento ou gnosiologias

    2) Filosofias da cincia

    3) Epistemologias cientficas

    4) Epistemologias paracientficas

    5) Epistemologias internas s cincias especficas

    teoria do conhecimento, cabe a reflexo sobre as condies do conhecimento em

    geral, parta ou no esta reflexo de uma cincia particular, como sugere Piaget. Contudo, todas

    teorias do conhecimento se aproximam de uma ontologia do sujeito, seja enquanto substncia

    pensante, alma imortal, mnada ou complexo de impresses. Neste aspecto, a epistemologia se

    identificaria com o seu sentido clssico e racionalizante, tal como denunciado por Lebrun.

    Representa o esforo inaugurado por Descartes e prolongado at bem recentemente por Pierre

    Duhem. Em contraste: se gnosiologia cabe tratar das condies do conhecimento em geral,

    psicologia cabe as do desconhecimento ou da iluso, pois como lembra Canguilhem (1973, p.

    109), ela se constitui enquanto desculpa do esprito razo.

    Por filosofia da cincia, entende-se a tomada do conhecimento cientfico como modelo

    para o conhecimento em geral. Representa a transio para uma reflexo inerente ao campo

    cientfico, como prprio da epistemologia contempornea. Neste caso as duas linhagens mais

    fecundas so a kantiana e a positivista. A primeira considera as prprias categorias e formas a

    priori do entendimento nos moldes da matemtica e da fsica mecnica da poca (final do

    sculo XVIII). Nas palavras de Stengers (1989, p.62), produz-se aqui uma captura conceitual,

    na medida em que as prprias condies do conhecimento so assimiladas s do conceito de

    identidade causal, gerado no plano inclinado de Galileu, enquanto operador inicial da fsica

    mecnica. A cincia no possuiria pois histria, seria um mero desdobramento do

    entendimento humano delimitado em esquema transcendental. Na perspectiva comteana isto

    no ocorre, uma vez que o conhecimento depende de um assentimento e um aperfeioamento

    do experimentar. Numa inverso do kantismo, aqui a cincia no est garantida num

    conhecimento a priori, mas se encontra assegurada naquela, na apropriao de suas normas. O

  • positivismo, na verdade, representa a passagem para a epistemologia, uma vez que se detm

    nas condies de possibilidade do conhecimento cientfico, reconhecidas aqui como exclusivas

    do mtodo experimental. Mesmo que seja para demarcar a inviabilidade de qualquer outro tipo

    de saber, todos reunidos sob a alcunha, agora pejorativa, de mera metafsica, ou non-sense,

    como operam os neo-positivismos.

    Se a gnosiologia inaugura-se no sculo XVII, a filosofia da cincia no final do XVIII, a

    epistemologia contempornea, prpria de nosso sculo. A epistemologia cientfica ir tomar

    como tema a prpria feitura da cincia, em sua concretude, sem nada dizer quanto ao

    conhecimento em geral. E nada ir marcar mais este fazer do que o seu constante refazer, ou

    a ultrapassagem incessante que a cincia impe a si prpria, inclusive das matemticas e da

    mecnica, que Kant tomava como formas do conhecimento. Se, como sugere Foucault (1969,

    p.15) a noo de ruptura passa na histria em geral de obstculo [...] ao elemento positivo que

    determina seu objeto e valida sua anlise, na Histria das Cincias ela se trata de um a priori.

    neste sentido que Fernando Gil (1979, p. 159) afirma que:

    Assim a epistemologia contempornea transforma-se a pouco e pouco numa

    epistemologia da histria das cincias, ao mesmo tempo que a histria das cincias

    aparece animada de uma inteno declaradamente epistemolgica, no se trata j de

    contabilizar a acumulao dos conhecimentos, mas de conhecer as condies de

    possibilidade de sua transmisso.

    Perante a superao da cincia mecnica, reificada antes nas condies e formas

    kantianas do entendimento, e a conseqente crise das cincias europias(conforme Edmund

    Husserl), ao mesmo tempo brotam duas modalidades de epistemologia: as paracientficas e as

    cientficas; as primeiras tentando dar conta da direo da ultrapassagem do modelo clssico, e as

    segundas do prprio ato de ultrapassar. deste modo que as epistemologias paracientficas

    tentam apontar um novo sentido para as cincias, enquanto as cientficas tratam de seu

    constante renovar atravs da histria, sem propor qualquer novo paradigma. Ao se fazer

    histria das cincias, a epistemologia cientfica no se torna um mero museu das idias, dos

    mtodos e seus instrumentos obsoletos. Seu sentido no est no passado, ou no ultra-

    passado, mas no futuro, no ultrapassar, ou seja, no progresso constante que mede esta

    superao. Se o sentido da cincia est no progresso, a questo derradeira da epistemologia

    cientfica o motor deste progresso. Refinamento experimental por parte dos positivistas;

    inteligncia crtica, pelos racionalistas; consenso (ou dissenso) da comunidade, segundo

  • Thomas Kuhn; regime de poderes para Isabelle Stengers2, so estes os principais motores

    sugeridos.

    Como visto, se os epistemlogos cientficos querem demarcar o motor das

    ultrapassagens cientficas, os paracientficos querem indicar a direo e sentido destas

    ultrapassagens: desejam propor novos rumos para a cincia. deste modo que os

    fenomenlogos, capitaneados por Husserl, iro propor a duplicao do trabalho cientfico, a

    ser concludo por fundamentaes eidticas, obtidas por sucessivas redues fenomenolgicas.

    Na cincia no basta somente estabelecer leis causais, contingentes, mas buscar o eidos ou

    essncia do fenmeno a par de todas as suas variaes. deste modo que ser proposta uma

    psicologia fenomenolgica, que encontra na intencionalidade (dupla implicao e referncia

    constante entre conscincia e mundo) o eidos (essncia) de todo fenmeno psicolgico. De

    modo diverso, Bergson ir se contrapor ao mecanicismo da cincia clssica. Ao contrrio da

    fenomenologia, a querela com o mecanicismo no visa a crtica das leis contingentes. Visa o

    prprio mecanismo cognitivo da cincia mecnica: a inteligncia. Esta seria apenas um

    instrumento cognitivo til no trato com os slidos descontnuos. No teria as vantagens

    cognoscentes da intuio, mescla de inteligncia (de carter til e construda) e instinto

    (certeiro e cego), e mais apta a conhecer o Real, identificado com o fluxo do vivido.

    Bergsonianos e fenomenlogos desejam uma cincia do vivido, estes para fundamentar a

    cincia e os primeiros para atingir as correntes do Real3.

    Se a considerao das cincias em sua ultrapassagem constante representa um passo na

    direo de uma delimitao na questo do conhecimento, maior passo ser dado na

    constituio das epistemologias regionais ou epistemologias interiores s cincias, no dizer de Piaget. Aqui

    realiza-se a singularizao mxima ressaltada por Lebrun. Mais do que tomar o conhecimento

    em geral, ou este como identificado s cincias, ou ainda estas em seu progresso geral, oferece-

    se aqui uma especificao mxima, para onde afunila o campo epistemolgico. Trata-se de uma

    epistemologia do cientista particular, no mais do filsofo (gnosiologia), do filsofo-cientista

    (filosofia da cincia) ou do cientista-filsofo (epistemologia cientfica). O olhar do cientista

    com relao s suas possibilidades torna-se mais microscpico, mais convergente aos

    problemas particulares de seu saber. Com isto, as grandes questes gerais de condio, de

    mtodo ou progresso cedem s regionais, autorizadas pelos prprios cientistas que

    2Deve-se destacar a singularidade da posio de Stengers nesta corrente, posto que ela distancia-se do poder demarcatrio que os epistemlogos se concedem, ao delimitarem o cientfico do no-cientfico, conforme se cumpra a marcha progressiva das cincias ou no. Por reconhecer este poder demarcatrio dos epistemlogos, que Stengers destaca-se destes. Contudo, esta autora parece sancionar este poder ao delimitar o cientfico, submetido aos riscos do operador em produzir fatos, do no-cientfico que apenas gera artefatos. 3 Dentre as Novas Alianas propostas pelo grupo Sujeito & Saber, referido na Introduo deste trabalho, se encontra a reativao de Bergson, como intercessor para uma nova concepo de tempo a servir de parmetro para a compreenso dos processos psicolgicos. Esforo de resto j delineado por Antnio Gomes Penna.

  • produzem seu prprio saber. No se discute mais o progresso; busca-se efetiv-lo na sua

    constante retomada crtica:

    Em tais casos, a crtica epistemolgica deixa de constituir uma simples reflexo sobre a

    cincia; ento se converte em um instrumento do progresso cientfico [grifo meu] como

    organizao interior dos fundamentos, e sobretudo na medida em que elaborada por

    aqueles mesmos que utilizaro e que sabem, portanto, que o que necessitam, em lugar

    de receb-los de fora, a ttulo de bens preciosos sim, mas pouco teis e s vezes molestos

    (Piaget, 1970, p. 56).

    2- A Psicologia Filosfica e a Filosofia das Cincias Mapeado o campo epistmico na sua direo temporal e espacial (afunilamento temtico),

    resta considerar como este se franqueia ao exame de um saber em petio de reconhecimento:

    o psicolgico. E, curiosamente, as primeiras peties foram julgadas antes mesmo deste saber

    se pleitear cientfico, tratando-se mesmo de um projeto em esboo. Pode-se dizer inclusive que

    a constituio deste frum foi fundamental para o surgimento da psicologia. No caso, o frum

    foi constitudo pela filosofia das cincias, tratando-se Kant e Comte de seus emritos juzes. O

    julgado: a psicologia filosfica, ou cincia do sentido interno, nas palavras de Canguilhem (1973,

    p. 111), tomando aqui este termo um sentido kantiano, enquanto durao ou forma temporal

    em que se processam os fenmenos conscientes. Suas linhas mais claramente esboadas

    partem do filsofo Christian von Wolff, que, em meados do sculo XVIII, buscou postul-la

    como cincia do eu ou da conscincia de si, dividindo esta tarefa entre uma Psychologia

    emprica e uma Psychologia rationalis. Se para Canguilhem (op. cit., p. 111) toda histria desta

    psicologia pode se escrever como a dos contra-sentidos dos quais as Meditaes [cartesianas]

    foram a ocasio, sem ter sua responsabilidade, a sua primeira forma, a emprica, constitui-se

    contra Descartes, enquanto uma histria natural do eu (conduzida no caso pelos empiristas), e

    a segunda, a racional, em seu suposto favor, confundindo-se a intuio axiomtica de um Eu

    Substancial com uma confidncia pessoal. Aqui mesmo na busca do favorecimento, um

    equvoco:

    O interior cartesiano, conscincia do Ego cogito, o conhecimento direto que a alma

    tem dela mesma, enquanto entendimento puro. As Meditaes so chamadas metafsicas

    porque elas pretendem atingir diretamente a natureza e a essncia do Eu penso, na

    apreenso imediata de sua existncia. A meditao cartesiana no uma confidncia

    pessoal (op. cit., p. 111).

  • O que Kant, na presidncia do foro, ir estabelecer a impossibilidade de se tomar o eu

    penso como intuio intelectual imediata, enquanto o eu me conheo (conferir Passos, 1992, p. 38).

    O eu penso seria uma mera funo lgica, de cunho analtico, da conscincia de si, ou

    conscincia da atividade espontnea do sujeito no entendimento. O conhecimento de si, enquanto

    faculdade sinttica, s seria produzido na juno do eu penso, como transcendental analtico,

    com o sentido interno, enquanto apreenso da multiplicidade emprica gerada no prprio corpo.

    Contestada esta premissa cartesiana do eu penso, a psicologia no encontra justificativa nem

    racional, nem emprica. Nem racional, uma vez que este Eu seria condio transcendental de

    toda cincia, e jamais sujeito a se tornar objeto da experincia. No mximo, pode-se obter

    uma srie de vivncias de duplo sinal (referidas ao eu e a um objeto), mas nunca algo fora do

    tempo (que seria condio da experincia), como a alma imortal. Nos Primeiros princpios

    metafsicos da Cincia da Natureza (publicado em 1876), prossegue a crtica da psicologia racional

    na impossibilidade da psicologia emprica. Esta no seria possvel no sentido da anlise e da

    sntese, como opera a qumica, uma vez que os fenmenos psquicos formam totalidades, cujas

    partes no podem nem ser separadas nem combinadas. De igual modo, uma psicologia

    matemtica, aplicada s modificaes do sentido interno, sucesso de vivncias, seria to

    restrita quanto uma geometria limitada ao estudo da linha reta. Por fim, a observao

    interna, ou vivncia introspectiva, altera o objeto observado, ou a vivncia original. No

    possvel que estes dois atos (o vivido e o observado) ocupem a mesma conscincia. Kant,

    especialmente neste veto introspeco, ter a companhia de Comte na recusa cientificidade

    da psicologia, no se tratando para o filsofo alemo nem mesmo de cincia impropriamente

    dita (formulada a priori, embora no matematizada), como seria a qumica da poca. O lugar

    da psicologia s poderia ser encontrado, segundo Canguilhem (1973, p. 114), numa

    Antropologia, como propedutica de uma teoria da habilidade e da prudncia, coroada por uma

    teoria da sabedoria.

    Mesmo mudando a cena (agora, sculo XIX), o julgado (a psicologia filosfica dos

    Idelogos, da Escola Escocesa e dos Eclticos) e o frum (positivismo), o veto persiste.

    Comte, na condio de magistrado da cincia nesta passagem da filosofia da cincia

    epistemologia cientfica, nem ao menos considera a psicologia em seu crculo das cincias,

    passando direto da Biologia Sociologia. Seria um ru sem direito cidadania, banido da

    comunidade cientfica. Lucien Lvy-Bruhl (citado por Penna, 1990, p.19) esclarece o veto: ele

    no se estende a toda e qualquer psicologia; apenas introspeccionista, qual o termo era

    fortemente associado. Resta a possibilidade expressa na Poltica Positiva (1851) de uma teoria

    positiva da alma de inspirao sociolgica e controle zoolgico. E esta psicologia possvel

    toma forma, na frenologia de Franz J. Gall, conforme expresso no Curso de Filosofia Positiva

    (1837). Aqui, atravs da experimentao e da observao do outro, cumpre-se o mtodo

  • cientfico, inviabilizado na introspeco pela mistura entre observador e observado. Mesmo

    que o encantamento pela frenologia tenha cedido busca de uma fundamentao sociolgica,

    tal como se expressa na Poltica Positiva, permanece a possvel autorizao a qualquer psicologia

    que, partindo dos caprichos do mtodo, mantenha seu objeto distncia de um outro

    (fisicamente objetivado)4 e profundidade da superfcie da pele. Apesar de quase todas

    psicologias se embalarem na cientificizao pela adoo do mtodo experimental, tal como

    legislado por Comte, somente a behaviorista percebeu que o rigor do mtodo, enquanto ponto

    de partida, impunha uma alterizao, uma fiscalizao do objeto, no justapondo, como as

    demais, a prtica experimental a um objeto subjetivado, e, pois, incontinente ao mtodo.

    por tal razo que qualquer behaviorismo ser em ltima instncia ontolgico e no apenas

    metodolgico.

    Concluso: o exame crtico da psicologia proporcionado por Kant e Comte fornece um

    dado central para a montagem do modelo buscado neste trabalho. O que foi

    considerado veto cientificidade da psicologia pode explicar a proliferao das

    cincias psicolgicas: a busca de transformar em objeto do conhecimento o prprio

    sujeito conhecedor conduz a uma indiferenciao, que, mais que paralisadora,

    fecunda na gestao de objetos-sujeitos, graas ausncia de distncia crtica na

    relao entre estes termos, apesar de desejada pela psicologia. Em linguagem

    kantiana, esta ausncia de controle emprico conduz proliferao de idias de

    razo (sem controle emprico), em que todas as diversas alternativas de conhecimento

    deste objeto so possveis.

    3- A Psicologia Cientfica e a Epistemologia das Cincias

    A inaugurao da cincia psicolgica no final do sculo XIX reflete a superao de alguns

    vetos kantianos e comteanos (no todos), assim como a caracterizao enquanto cientfica pelo

    rigor no uso de um mtodo experimental5. neste ponto que a cincia do sentido interno cede

    fsica do sentido externo (Canguilhem, 1973, p. 109). Fsica, no apenas pelo rigor do mtodo,

    mas pela questo que lhe cabe de justificar perante os fsicos por que o esprito, o sujeito do

    conhecimento, devido s iluses da experincia sensvel, no se identifica com a razo

    matemtica e mecnica, instrumento da verdade e medida da realidade(op. cit. p.109). Em sua 4 Na verdade, melhor seria falar de um objeto, mais apropriado s cincias naturais do que de um outro, mais condizente s cincias sociais como a antropologia e a histria e mesmo psicanlise. 5 O modelo de fundao desta cincia pode ser considerado inaugural, uma vez que reflete por um lado um ato institucional (a criao de um laboratrio de psicologia em Leipzig, 1879), e por outro a apropriao de uma srie de modelos presentes em outros saberes (fisiologia, psicofsica) aptos a levantar o veto kantiano e comteano. No se trata de operadores produzidos de forma autctone. No h a produo de um modo de conhecimento, que posteriormente ganha espao acadmico. A psicologia nasce, pelo contrrio, quase que por decreto acadmico.

  • prudncia, a psicologia agora no toma mais a intuio real do Eu puro, enquanto santurio da

    subjetividade, mas sua borda, sua periferia, seu lugar de desencontro e engano, o que Descartes

    designa por paixes, localizadas no encontro do corpo com o esprito. Portanto, a psicologia

    fisiolgica, quando surge, no uma cincia da alma ou do esprito, mas da experincia do

    sujeito, ponto de interseo entre o esprito, o corpo e o mundo. Nesta borda do sujeito, os

    vetos cedem com relao a sua antiga posio central: no se busca mais na psicologia o

    fundamento do conhecimento, mas seu desvio. neste interstcio entre o sujeito e o corpo

    que a fisiologia, atravs de Hermann L. F. von Helmholtz, ir decompor, de modo semelhante

    qumica, a experincia perceptiva em sensaes, assim como supor sua inversa sntese

    (inconsciente) pelo processo de inferncia inconsciente, operado pela experincia passada.

    Neste nterim, igualmente a psicofsica de Gustav Fechner ir demonstrar matematicamente a

    identidade entre o fsico e o espiritual pela equivalncia logartmica entre estmulo e sensao,

    muito longe pois de uma simples geometria da linha reta. Tomando o problema da

    representao ilusria, no interior da experincia perceptiva (ou imediata), coroada pelo

    conceito de sensao e garantida pela viabilidade da introspeco controlada dos fisilogos e

    psicofsicos que Wilhelm Wundt, s margens da subjetividade, proclama a psicologia como

    cincia independente.

    Os vetos menores propostos pela filosofia da cincia (impossibilidade de

    matematizao e anlise dos fenmenos mentais) so derrubados, mas no os principais: 1)

    como possvel se tomar como objeto, ou se sujeitar enquanto objeto da experincia (e

    portanto temporal), o que se configura como sujeito ou condio do conhecimento (mesmo

    que agora seja condio do erro)?; 2) como possvel acompanhar cientificamente um ato ou

    objeto mental, em que observador e observado se mesclam (mesmo que a introspeco

    controlada sempre se refira a um estmulo externo e constante)? Da pertinncia destes vetos,

    caracteriza-se a tenso fundadora do campo psicolgico, tal como descrita por Lus Cludio

    Figueiredo (1986, 1991), em que o sujeito no s se indiferencia do objeto, permitindo aqui

    uma relao de comunicao entre um termo e outro, contrariando o ideal de objetividade,

    como tambm este subjetivo tomado como fonte das iluses, considerando-se a poro

    perifrica e avessa aos rigores da epistme que dele agora se ocupa . Neste quadro tensionado,

    ou se busca a pureza de um objeto-sujeito, ou se apaga a singularidade deste em nome da

    objetividade cientfica. Da Pierre Grco (s/d, p.7) afirmar que por vezes tem-se certeza de

    produzir cincia, mas no uma psicologia (como no behaviorismo privilegiando uma

    objetividade sem sujeito) e, por outro, psicologia, mas jamais cincia (como no caso da

    psicologia fenomenolgica em sentido amplo, em que se privilegia a descrio da experincia

    subjetiva sem antepor a ela a busca de objetividade). O que caracterizaria, pois, as diversas

    matrizes ou moldes em psicologia seriam estes diversos modos de apreenso do subjetivo por

  • morfismos (cf. Eduardo Passos, 1992, p. 1) ou metforas cientficas de imagem objetivante6.

    Curiosa mistura de sujeito-objeto (o objeto um sujeito e vice-versa, produzindo objeitos e

    subjetos) em que a tentativa de separao produz os extremos de uma objetividade sem

    sujeito e de uma subjetividade sem rigor. No espao entre estes extremos espalham-se as

    psicologias, tentando equacionar este dilema sem que haja possibilidade de soluo. Pelo

    contrrio, a existncia de um objeto-sujeito a garantia da multiplicidade de solues, nos

    diversos modos de se objetivar este sujeito.

    Inaugurada a cientificidade da psicologia, esta cresceu e se multiplicou em seus

    morfismos, em suas metforas. Em diversos modos de objetivar o subjetivo, cada qual

    incomunicvel com os demais. As diversas psicologias so, pois, incompatveis entre si, mas

    sem conseguir, por outro lado, a rejeio das restantes. E por tal, prosseguiram acumulando-se,

    sucedendo-se sem se superar, e se mantendo mais por uma questo de moda intelectual do que

    de resistncia cientfica, coexistindo numa unidade muito mais consensual do que, enfim,

    lgica. Paralelamente a este nascimento e disperso inaugura-se o perodo das grandes

    epistemologias cientficas e de suas verses regionais. Todas elas, juizados de grandes e

    pequenas causas, lanaro a questo psicologia: s cientfica?, desdobrada atravs da

    pergunta s una?. As objees, pode-se adiantar, nada devero dos filsofos da cincia,

    sendo temperadas agora por um certo vis histrico, como prprio das epistemologias

    cientficas.

    Tratando-se das epistemologias cientficas, a primeira que vem baila a racionalista

    aplicada, e seu relator Canguilhem, oferece-nos uma anlise castica em seu demolidor O que

    psicologia? (1973). O incio da palestra, proferida em 19567, j anuncia o tom de seu parecer:De

    fato, de muitos trabalhos de psicologia, se tem a impresso de que misturam uma filosofia sem

    rigor, uma tica sem exigncia e uma medicina sem controle (op. cit., p. 105). A pergunta-

    ttulo do artigo visa a enunciao de um projeto que confira psicologia unidade, racionalidade

    e valor, tal como procede a epistemologia racionalista-aplicada, recusando-se qualquer

    definio deste saber em termos de eficcia, de resto mal fundada, como induz a crer a citao

    anterior. A nica resposta possvel a listagem dos diversos projetos metodolgicos, que

    6 Exceo a esta busca de metforas cientificizantes pode ser encontrada na psicanlise freudiana que, alm de se servir destas, busca outras fontes como mitologia, antropologia, arqueologia, histria antiga, tecnologia militar, literatura e outros domnios. Conferir David Leary (1990, p.18). 7 Elizabeth Roudinesco (1990) bem situa o contexto desta palestra em meados da dcada de 50: trata-se de uma resistncia ao processo de unificao e reconhecimento da psicologia enquanto cincia da conduta. Tal empreendimento, encaminhado por Daniel Lagache em 1949, com base em Pierre Janet, atingiria a medicina e a histria das cincias, dois domnios bem prximos aos de Georges Canguilhem. A primeira, por ameaar retirar a prtica psicanaltica da competncia mdica, e a segunda pelo eterno risco do psicologismo no esgotamento de uma epistemologia a servio da aproximao da verdade. Na dcada seguinte, tal artigo ser republicado no Cahiers pour analyse (1966), no contexto de outra disputa: a de um estruturalismo associado psicanlise e ao marxismo contra uma psicologia funcional e suposta alienadora das vicissitudes do inconsciente e das relaes de produo.

  • guardam entre si uma unidade que se parece mais a um pacto de coexistncia pacfica,

    concludo entre profissionais do que uma essncia lgica, obtida pela revelao de uma

    constncia numa variedade de casos (op. cit., p. 106). No havendo unidade de projeto, no

    h racionalidade e, pois, positividade. No se pode demarcar a histria da psicologia enquanto

    uma histria cientfica, ungida pela noo de progresso, e realizada na noo de ruptura, na

    superao dos erros primeiros. Talvez esta histria seja possvel no interior de cada projeto,

    mas no na psicologia como um todo. Na psicologia, ou no cabe nenhuma histria da cincia,

    ou cabem vrias.

    Na possibilidade ainda de uma possvel unidade insuspeita, Canguilhem buscar, no

    exame dos diversos projetos, recuar ao sentido original de cada um deles, procedendo

    histria da psicologia, pesquisa de resto frustrada quanto a seu objetivo. Contudo, antes de

    proceder ao exame, o epistemlogo francs deixa margem para que se compreenda a

    diversidade de projetos a partir das diversas imagens de homem presentes nestes sentidos

    originais. Esta sem dvida uma contribuio positiva de Canguilhem para que se compreenda

    a disperso do espao psicolgico :

    A partir disso pode-se rigorosamente falar de uma teoria geral da conduta, enquanto no

    se tiver resolvido a questo de saber se h continuidade entre linguagem humana e

    linguagem animal, sociedade humana e sociedade animal? possvel que, neste ponto,

    caiba no filosofia decidir, mas cincia de fato, a vrias cincias, inclusive a

    psicologia. Mas ento a psicologia no pode, para se definir, prejulgar aquilo a que ela

    chamada a julgar. Sem o que, inevitvel, que se propondo ela prpria como teoria geral

    da conduta, a psicologia faa alguma idia de homem (grifo meu) preciso ento

    permitir filosofia perguntar psicologia de onde ela tira esta idia e se no seria no

    fundo, de alguma filosofia (op. cit. p. 106).

    Tanto no positivismo quanto no racionalismo aplicado, o progresso da cincia visto

    dentro de uma clausura operacional, na atividade herica do cientista isolado, seja no

    refinamento experimental (positivismo), seja na crtica racional dos dados empricos

    (racionalismo aplicado). Uma outra corrente da epistemologia cientfica, a paradigmtica,

    estabelecida por Thomas Kuhn, introduz uma novidade ao estabelecer a comunidade dos

    cientistas como personagem principal desta epopia de progressos, que a histria da cincia.

    O novo personagem central no possui mais o charme herico do cientista individual em seu

    isolamento na busca da verdade. Tratando-se do produto de uma coletividade, o saber caminha

    dentro de um jogo de foras, interesses e crenas. Kuhn sustenta que todo progresso cientfico

    se processa na alternncia consenso/dissenso em torno de paradigmas. Na primeira fase, dita

  • cincia normal, todos os cientistas se alinham em torno de um molde geral de cincia, uma

    espcie de puzzle (quebra-cabeas), prtica com regras e solues bem definidas, cujo objetivo

    no buscar o desconhecido, mas organizar todo o universo sob a senha do conhecido. Isto

    seria no seu entender um paradigma8. Por outro lado, o momento revolucionrio se inaugura no

    dissenso, no atravessamento do conhecido pelo desconhecido, e em todo desarranjo das

    regras do jogo. A este perodo anmico, segue-se a busca de novos fundamentos

    epistemolgicos, assim como novas interpretaes para o paradigma em crise. Mediante a

    iminente superao, novos modelos so lanados, at que a comunidade se realinhe em torno

    de um deles. Uma cincia madura se define por esta possibilidade de alinhamento que,

    sucedida em fases de desalinho e realinhamento, garanta uma linhagem progressiva. Cincias

    como a psicologia se encontram numa revoluo permanente, buscando seus fundamentos,

    gerando novas interpretaes para os seus mltiplos paradigmas, produzindo-os sem

    possibilidade de qualquer sntese, ainda que momentnea. Como lembra Stengers (1993, p.61),

    a incomunicabilidade entre paradigmas rivais no se deve a diferenas tericas, mas a diferentes

    modos de se produzirem fatos e a diferentes padres de observabilidade. Na verdade, o

    modelo revolucionrio no seria o mais adequado para compreender a psicologia, uma vez que

    embutido da noo de progresso, e de possvel soluo para sua disperso. Para caracterizar a

    psicologia em sua disperso horizontal, melhor seria o modelo guerrilheiro, em que a disputa

    no introduz nenhuma revoluo ou superao na tomada de poder. Esta a principal lio

    do paradigmatismo de Kuhn: a psicologia no uma cincia normal, pois est

    condenada a uma disputa sem fim entre suas partes. Mesmo inviabilizada por sua

    imaturidade, a noo de paradigmas em psicologia atualizada por uma srie de

    epistemlogos regionais, por autores como Robert I. Watson, Irving Kirsch, Arthur Staats,

    David Krantz, Dorwin Cartwright e outros. Watson (1967), inclusive por prudncia, substitui,

    na anlise da psicologia, o termo paradigma por prescries, evitando a suposio de consenso.

    Em Kuhn, condena-se a disperso, mas no se oferece, como em Canguilhem, uma explicao

    para a diversidade psicolgica9.

    8A noo de paradigma vista por Margaret Masterman como vaga. Citada por Kneller (1978, p.64), destaca vinte e um sentidos para o termo. Isabelle Stengers (1993, captulo 3) traa uma compreenso algo diversa do que se pode entender como paradigma, ressaltando menos o seu carter normalizador do que a busca de desafio perante o estranho. Isto se d na medida em que esta autora assimila a concepo de paradigma sua noo de operador, enquanto acontecimento raro que modifica o saber/fazer instrui o campo fenomenal. Deste modo, a noo de paradigma tornar-se-ia investida de um poder de risco, de resto oposto primazia do mtodo das cincias laboratoriais, coroadas por uma burocracia da medida. 9 Na verdade, esta questo ser apropriada apenas pelos epistemlogos paradigmticos, internos psicologia, como David Krantz (1972). Este autor tomar esta tendncia prescrio, (e no ao paradigma), como intruso nos sistemas de um conjunto de crenas relevantes, transformando-os em escolas, tal como ocorre na filosofia. Recorre portanto a uma psicologia da cincia em que, pelo poder de certas crenas, a psicologia torna-se dividida em sistemas com privilgios temticos (p. ex. Gestalt e a percepo), marcados pela intolerncia e incompreenso entre as partes.

  • Ainda que questionvel sua perfilao junto aos epistemlogos cientficos, o trabalho

    de Stengers processa uma relevante reflexo sobre a cincia, e em especial, a psicologia na sua

    pretenso de ser cincia. De uma certa maneira, tal autora segue a anlise institucional

    inaugurada por Kuhn, sem se descuidar do esforo herico dos cientistas em estabelecer

    operadores experimentais decisivos na produo de uma verdade. Seu trabalho pode ser

    descrito como a busca de uma poltica das cincias: trata-se da correlao entre cincia e

    poltica, conforme os princpios leibnizianos de no ferir os sentimentos estabelecidos ou gerar

    pnico (Stengers, 1993, p.26). De modo mais especfico, tal autora tenta compreender os tipos

    de acontecimento que precedem a constituio das cincias, sem retificar ou denunciar (op.

    cit., pp.82-83). Neste aspecto, buscar a fundao, e no o fundamento das cincias, como

    tentativa de conferir um solo filosfico ou terico a estas. Tal atitude de cunho positivista,

    presente na sociologia das cincias, apenas exibiria o poder de julgar o mesmo, para alm das

    diferenas suscitveis. Sua poltica das cincias, pelo contrrio, deseja apenas seguir as diversas

    cincias em seu processo de fundao e demarcao (e no meramente fazer poltica), sem

    supor assimetria, desnvel ou ruptura com o que se torna ultra-passado por elas. Trata-se, no

    seu dizer, de uma atitude de humor, irmanando-se ao que imanente, avessa ironia, enquanto

    mera inverso do poder de julgar.

    Seu esquema pode ser entendido como a concatenao entre acontecimentos,

    interesses e capturas conceituais. De incio, deve ser estabelecido que o que demarca a cincia

    no a observncia de um mtodo, mas um acontecimento imprevisvel atrelado a uma

    captura de interesses pela comunidade cientfica. A parapsicologia, por exemplo, mesmo

    lanando mo de todos recursos metodolgicos existentes, no possui o mesmo

    reconhecimento que a teoria das cordas e supercordas na fsica, produzida ao largo de qualquer

    cnone experimental. Os acontecimentos demarcadores so em seu incio produzidos a par de

    qualquer necessidade, significado, contexto ou previso (Stengers, 1993, captulo IV). Trata-se

    de eventos inesperados, capazes de produzir o testemunho fivel de objetos, no risco de sua

    singularidade. Esta operao de risco produzida na sua novidade constitui o que Stengers

    denomina operador. A atribuio de um significado e de uma necessidade a estes eventos

    despidos de sentido inicial ser produzida a posteriori, graas aos interesses mobilizados entre os

    cientistas10. O interesse representaria o a priori da cincia (Stengers, 1993, p.104), onde se faz a

    diferena atravs da produo de aliados (op. cit., p.113). Neste aspecto a cincia tem suas

    10 Interesse deriva em efeito do latim interesse, que significa se situa entre. Declarar que o que liga cientistas o interesse tem algo portanto de tautologia. Mas se trata de uma tautologia com ressonncias subversivas[...] Interessar algum no significa forosamente acalentar seus desejos de poder, de dinheiro, de glria[...] Interessar algum por alguma coisa significa primariamente e antes de tudo arranjar para que essa coisa dispositivo, raciocnio, hiptese, no caso do cientista possa ter com ele, intervir em sua vida, enventualmente a transformar (Stengers, 1992, pp. 16-17).

  • fronteiras com a poltica esmaecidas; o bom cientista no apenas ousado, mas tambm aquele

    que conhece os interesses de sua comunidade. Entender a cincia tambm proceder a uma

    analtica dos poderes nela contida.11 Tais acontecimentos passveis de capturar interesses, por

    outro lado, so alvos de capturas conceituais, de uma significao que passa a organizar a sua

    interpretao e sua histria, fornecendo ao acontecimento um sentido do qual se encontrava

    inicialmente despido12. Nesta luta de interpretaes, cessa-se o tempo do acontecimento e se

    inicia o da histria. Quando uma comunidade cientfica se fecha atravs de seus conceitos e

    interesses em torno de alguns testemunhos definitivos, teramos uma caixa-preta. O prestgio

    de uma cincia se mede pelo nmero de caixas-pretas que ela possui (Stengers, 1992, p.27).

    Como a psicologia se encaixaria nesta abordagem a meio passo entre o casual e o necessrio,

    entre o singular e o coletivo, e entre o herico e o institucional?

    Em seu livro, Quem tem medo da cincia? (1989), produzido a partir de conferncias

    brasileiras, Stengers toma para reflexo alguns saberes psicolgicos, notadamente o

    behaviorismo, a epistemologia gentica e a psicanlise. Quanto ao behaviorismo (op. cit., p. 14

    e 82), notadamente o skinneriano, destacada sua fuga de qualquer risco, submetendo-se a

    uma burocracia da medida, coroada por uma epistemologia normatizadora, de resto, um

    mau sinal de poder, um poder no-produtivo, sem risco, um poder enfim que somente emana

    de cima a baixo. Como se pudesse se fazer uma cincia dura por decreto, ou por mrito,

    mutilando o seu objeto (Stengers, 1992, p.29). A produo de um operador em risco no se

    confunde com o uso burocrtico de um mtodo emprico, como propagam certos

    positivismos. Em prol de uma epistemologia herica, que valoriza o risco do acontecimento,

    o behaviorismo condenado na subservincia a uma epistemologia reguladora. Por tal, ele

    no se submete ao risco do operador. Ele um saber fraco; no produz poder; sofre-o.

    Com relao a Piaget (op. cit., p. 107), a denncia no de falta, mas de excesso, pela

    unilateralidade do poder exercido: seus protocolos clnicos no produzem fatos, mas artefatos,

    ou seja, extorquem suas testemunhas, as crianas. A purificao que o protocolo realiza 11 Stengers (1989) estabelecer sua anlise da cincia em torno da noo de poder. Ao contrrio do que se possa supor, no se trata de uma denncia da cincia em nome de sua essncia oculta, o projeto de uma relao de dominao do mundo (op. cit. p. 13). Poder, num sentido marcadamente foucaultiano, sem referncia a qualquer estado de apropriao substantiva por parte de um grupo dominante em detrimento dos demais, valendo-se para tal de estratgias negativas: violncia ou engodo. Trata-se de poderes mltiplos, fragmentados, que se exercem de formas diversas, operando positivamente na produo das coisas visveis e na enunciao das dizveis. Poder, em primeiro lugar, de se lanar no risco do operador, invocando o testemunho de seres insensveis ao nosso drama da verdade cientfica. Quando no ocorre este risco do fato, produz-se um artefato. Poder, em segundo lugar, em que um testemunho bem sucedido absorve toda realidade cognoscvel em um nico conceito (captura conceitual). Poder, em ltimo lugar, de se organizar o campo institucional da cincia, campo assptico e neutro por estratgia de seduo; tanto no conjunto dos interesses internos, que se definem no julgamento das pertinncias, quanto no dos externos, que buscam atrair o pblico interessado e, especialmente, os rgos de financiamento. 12 Eu defeni um conceito cientfico como tendo sempre duas faces, uma voltada para os fenomnos dos quais ele organiza o exame, a outra voltada para os cientistas que ele julga e hierarquiza em funo do tipo do interesse que eles alimentam em relao a este fenmeno (Stengers, 1992, p. 20).

  • produz portanto comportamentos-artefatos, ela no purifica, e sim produz comportamentos

    que s tm sentido em relao ao protocolo (op. cit. p. 108). Tal poder em excesso se espraia,

    graas aos pedagogos, em direo escola, ordenando, ao modo de uma captura conceitual,

    parcela significativa da prtica educacional atual, ao menos em pases como o nosso. No

    haveria outro modo de ensinar que no pelas estruturas em gnese, extorquidas dos

    protocolos piagetianos.

    Tal crtica13 ao artefato se estende em direo psicanlise (op. cit., p. 113), feita a

    ressalva de que esta, dentre os saberes psi, possui a iniciativa nica de produzir um operador

    (o clnico), no risco de captar testemunhos, no mais de objetos (como a fsica), mas de

    sujeitos. Sendo dedicado um captulo nico (o 4) a esta iniciativa herica, ela de incio

    contrastada s disciplinas racionais, fundadas a partir do conceito, como a antropologia e a

    lingstica estruturais. Na psicanlise, o risco da operao foi primeiro, precedendo a captura

    conceitual, empreendida especialmente pelo lacanismo estruturalista. Mas esta captura j estaria

    insinuada desde Anlise terminvel, anlise interminvel (1937), um dos ltimos textos de Sigmund

    Freud, em que se confessa a extrema dificuldade da cura, reduzindo as razes desta dificuldade

    existncia do inconsciente, outrora codificador conceitual da operao psicanaltica bem

    sucedida, tornado agora a priori do fracasso teraputico. A partir deste momento, a psicanlise

    torna-se um saber racional, teoria psicanaltica, promovendo uma captura conceitual sobre si

    prpria, cujo eterno fundamento estar no retorno aos textos sagrados e na busca das

    releituras consagradas, antigos, novos e novssimos testamentos de verdadeiros messias e

    falsos profetas. aqui que entra Jacques Lacan e, de certa maneira, toda epistme francesa,

    dos epistemlogos racionalistas aos lingistas e antroplogos estruturalistas, chegando enfim

    aos psicanalistas: o triunfo de poder do conceito. No caso, de modo semelhante a Immanuel

    Kant com relao fsica mecnica de sua poca, a prtica analtica no mais substrato da

    pesquisa, mas testemunho de uma verdade transcendental, no caso, a do inconsciente, de onde

    se invoca ento a cura como a certeza de sua prpria impossibilidade: Cura saber que no h

    mais cura. A nica alternativa para a psicanlise passar de um registro cientfico-tcnico para

    outro antropolgico-tico, tomando o sujeito numa atitude de converso, afastando-o das

    aparncias, de modo simetricamente oposto ao da metafsica clssica: contra as iluses do

    absoluto, e em prol da falta, do incompleto, do minsculo, que ele deve agora se dirigir, se

    conformar. Neste mundo governado pelo gnio maligno, a iluso no denunciada como o

    que oculta o essencial, mas como a prpria realidade, na qual perdemos o Real; o

    inconsciente representa esta mquina de iluses.

    13 Deve-se destacar que, para Stengers, crtica tem um sentido diferente do de denncia, referindo-se a anlise das prticas cientficas que produzem artefatos ao invs de fatos.

  • A psicanlise, pois, alm do fracasso do operador e de sua busca de soluo por uma

    autocaptura conceitual, padece de um terceiro pecado, em que se irmana aos demais

    saberes psi: a fatalidade do artefato. Mesmo tendo a psicanlise em todos seus momentos,

    pr e ps-captura, se posto em guarda contra os perigos da sugesto, desta que ela de

    fato se alimenta, como de resto, todas cincias humanas:

    Os descendentes de Freud lidam com seres que esto interessados na produo de saber

    operado a seu sujeito, por isso a diferena entre fato e artefato deve ser, nesse caso,

    ultrapassada. Contribumos, de maneira incontrolvel, para produzir aquilo com que

    lidamos. Lacan conseguiu at mesmo produzir converses sobre um modo novo, bem

    indito na histria da humanidade: criao de um dispositivo, tal, que a produo de

    converso se torna relativamente reprodutvel! Cabe menos critic-lo do que avaliar com

    humor o que ele nos ensinou (op. cit. p. 140).

    Em outro texto, La volont de faire des sciences (1992), Stengers sustenta que uma

    psicanlise para se tornar verdadeiramente herica ou cientfica deveria reestabelecer contato

    com o que pde excluir na sua demarcao como saber, no caso, a sugesto e a hipnose, uma

    vez que sua excluso teria se dado por razes mais ticas do que tcnicas. Tal tica diria

    respeito imagem de homem singular tal como destacada pela psicanlise, recusando em sua

    prtica o recurso ao entorpecimento, como seria prprio da sugesto. Contudo, a recuperao

    da hipnose e da sugesto diria respeito a uma tica do risco mais aprofundada, tica de resto

    associada prpria definio de cincia. Somente desta forma seria retomado o desafio da

    ferida narcsica, propagado pela psicanlise desde seu incio, evitando a sua cicatrizao em

    torno dos dispositivos tcnicos vencedores durante a sua demarcao.

    Sobre as psicologias, portanto, o que Stengers nos mostra que so saberes que no s

    no produzem, mas tambm no podem produzir operadores; trata-se do velho veto kantiano

    atualizado: no se cumprem as condies da experincia cientfica, aqui assimiladas raridade

    do operador enquanto acontecimento. E quando no buscam se fundar a partir da

    subservincia ao mtodo, ou de uma captura conceitual, operada a partir de outras cincias

    (fisiologia e o conceito de sensao, biologia e o conceito de adaptao, fsica e o conceito de

    campo, inteligncia artificial e o conceito de processamento de informao etc.), as psicologias

    se fundam a partir de uma autocaptura, como a psicanlise opera atravs de seu conceito de

    inconsciente. Captura ou autocaptura que atuar como um morfismo, uma

    metfora, uma imagem cientfica, tentando emprestar ao artefato ares de fato.

    Sero de fato os morfismos cientificistas que atuaro como frma do homem, em

    que este enfim se forma, ao buscar se conhecer. Idia clssica kantiana e comteana

  • para a qual o conhecedor - o mesmo que o conhecido - se molda quando julga

    conhecer. Apenas que intermediada pelo poder de um morfismo, capturado de uma

    outra cincia, e apto a conferir dignidade de objeto ao sujeito conhecedor,

    transformado agora em sub-jeto. Um processo que Foucault (1966) designou como

    duplicao do emprico no transcendental.

    Que alternativas restariam para os saberes psi, na impossibilidade de se fecharem as

    suas caixas pretas? A alternativa para a psicologia nesta epistemologia herica (em que este

    saber jamais pde se provar como tal) do operador poderia ser buscada na postura de Darwin

    e dos bilogos que, na ausncia de testemunhos definitivos, trabalhariam com tramas

    hipotticas condicionais, com ndices no lugar de provas, e com o humor dos testemunhos

    mltiplos, dispensando qualquer blefe reducionista (Stengers, 1992, pp.36-38). Ou ainda

    haveria o recurso da produo de romances coerentes, como j fazem os antroplogos:

    Eles querem, assim, testemunhar no de maneira verdadeira no sentido judicirio, e sim

    de maneira discutvel, no apenas daquilo que aprenderam, mas tambm da maneira pela

    qual aquilo que aprenderam os transformou, o carter pattico de sua experincia que o

    ideal judicirio de objetividade os obriga a ocultar (op. cit. p. 150).

    Aqui uma alternativa palpvel para psicologia.

    4- As Epistemologias Regionais: A Psicologia Julgada pelos Prprios

    Psiclogos O trabalho dos epistemlogos cientficos, e mais especificamente de Stengers, parece lanar

    elementos mais a fundo na anlise dos impasses psicolgicos apresentados na introduo deste

    trabalho. Se os filsofos da cincia apontam para a mistura sujeito-objeto, os epistemlogos

    cientficos apontam para mecanismos mais concretos no operar desta mistura realizada no seio

    da cincia psicolgica. Assim, a ausncia de operadores se processa paralela captura de

    conceitos (metforas, morfismos, imagens de homem etc.), que se efetivam base de

    artefatos. A psicologia pode ser entendida como uma imitao de cincia, mas que

    produz efeitos de subjetividade. O levantamento dos trabalhos dos epistemlogos-

    psiclogos visa trazer elementos ainda mais especficos para esta anlise.

    Desfavorecida nos foros das epistemologias cientficas e das filosofias das cincias,

    resta o recurso da psicologia auto-regulao, ou seja s suas prprias epistemologias

    regionais. Aqui o debate situa-se ainda sobre a unidade (sua existncia, sua possibilidade, e

    devido a que razes). Para resumir as duas principais posies ao problema posto: 1) a

    psicologia possui unidade real ou potencial, sendo sua disperso o produto de mltiplos

  • olhares positivos sobre um mesmo objeto, mltiplo em suas facetas; 2) a disperso da

    psicologia inerente no se trata aqui de negar sua cientificidade, mas entend-la como um

    dos vetores que produzem seu campo de disperso, ao buscar objetivar modos de subjetivao.

    Antes de se buscar este frum interno e auto-regulado em suas tendncias,

    necessrio registrar a existncia de uma instncia ainda mais interior: os prprios sistemas ou

    projetos em psicologia. Nestes, igualmente se pensa na totalidade da psicologia, mas a partir de

    um projeto que se realiza atravs da excluso dos demais. Neste sentido, trata-se de uma

    totalidade parcial, uma vez que na busca do total, os projetos tornam-se apenas foras no

    campo de tenses que marcam o global do espao psicolgico. Se, como sugere Jacques Cagey

    (cf. Michel Bernard, 1983, p. 45), na psicologia se instala a derradeira dialtica das cincias, uma

    vez que esta reflete, enquanto prisma multifacetado, as diversas perspectivas das cincias em

    movimento (fsica mecnica, termodinmica, teoria da informao, biologia da adaptao,

    sociologia etc.), pode-se ento afirmar que esta captura no apenas conceitual, mas tambm

    metaconceitual, ou seja, epistemolgica. Na psicologia se instala igualmente uma dialtica das

    epistemologias, em que, no interior de cada projeto, tambm se captura um representante do

    campo epistemolgico a atuar na defesa, em qualquer foro, desta psicologia e contra

    qualquer outra. Como por exemplo, o positivismo lgico com relao ao behaviorismo.

    Existem, por outro lado, algumas epistemologias originais como as de Wundt, Piaget, dos

    gestaltistas e da psicanlise. Trata-se de epistemologias psicologizadas; a relao entre os

    campos epistemolgico e psicolgico aqui direta, e no mais inversa.

    deste modo que Edward B.Titchener, contra Wilhelm Wundt, recorre ao positivismo

    das sensaes de Ernst Mach; que a Gestalt, mesmo partindo do vivido, chega, em seu monismo

    nomolgico (postulando as mesmas leis da forma operando em todos domnios: matria, vida e

    esprito), a uma nova aliana do real enquanto estrutural projeto, de resto, endossado por

    alguns estruturalistas, como Claude Lvi-Strauss; que o funcionalismo o pragmatismo

    atualizado no darwinismo; que o behaviorismo representar a ontologizao do positivismo,

    constituindo objetos dceis ao mtodo experimental; que Jean Piaget inverter o kantismo,

    tomando o sujeito transcendental em epistmico, ou seja, construdo em sua gnese ativa; que

    a psicologia histrico-dialtica tomar a revoluo marxista como horizonte de uma psicologia

    cientfica consagrada no conceito de ao enquanto trabalho; que o cognitivismo ir mais alm

    (especialmente em Noam Chomsky, Zenon Pylyshyn e Jerry Fodor - representantes do

    chamado ncleo duro), tomando as novidades da ciberntica, teoria da informao e

    simulao em computadores em um neo-cartesianismo da representao14.

    14 Neste neo-cartesianismo representacional, o sujeito, imagem e semelhana da mquina, processa em seus mdulos ou algoritmos inatos (quem sabe se programados por Deus ou pelo cdigo gentico) as informaes oriundas do meio. Esta representao tem seu mtodo de estudo numa representao de terceiro nvel, agora

  • 4.1- A psicologia como saber uno: real, potencial ou funcional Nesta primeira abordagem operada pelos psiclogos, existem aqueles que afirmam a unidade

    da psicologia com base no uso do mtodo cientfico-experimental. Mas tal suposio pode soar

    menos como pacificao e mais como declarao de guerra, pois resta identificar a legtima

    herdeira dentre as psicologias do esplio cientfico, pois quase todas se erguem a partir do

    rtulo positiva. Qualquer perspectiva de unidade pelo mtodo s possvel pela esperana

    futura, pela vinda do Messias galilaico que daria sentido, separando o joio do trigo em

    nossos achados difusos. Tal perspectiva positivista e evolucionista na raiz, endossada por

    autores como Edna Heidebreder (1964, p. 22), Marx e Hillix (1973, p. 118), sustenta que a

    principal funo dos sistemas ser esta matriz produtiva (ao mesmo tempo que depsito) dos

    dados a serem sintetizados em um futuro epistmico, expurgando-se todo o resduo

    explicativo. A principal finalidade dos sistemas seria, pois, fornecer condies para sua prpria

    dissoluo em uma esperada unidade, no restando outra alternativa por ora seno preencher

    com especulao a rarefao dos achados decisivos atuais. Da pode-se considerar a

    multiplicidade prpria da filosofia como razo da disperso inerente aos sistemas; trata-se de

    uma etapa necessria a ser corrigida numa histria positiva. Aqui, a unidade da psicologia

    assunto da futurologia.

    As solues de unidade que recorrem ao presente, e no ao futuro, apelam mais a um

    suposto objeto natural, abordado por tantos mtodos quantas forem suas facetas, e a uma

    orientao geral, to ecltica quanto possvel, como por exemplo a funcionalista. Pensar a

    unidade pelo objeto, como procede Franco Seminrio (1986), implica consider-lo to

    multifacetado quanto as orientaes metodolgicas que nele couberem (no caso do artigo

    citado, rastreiam-se dez orientaes). Ao contrrio da unidade positivista, em que a unidade de

    mtodo paira sobre distintos objetos, recua-se aqui ao aristotelismo15 atualizado na

    fenomenologia, sendo cada mtodo um recorte de um especfico eidos da realidade que

    predetermina em cada caso, o tipo de variaes a serem imaginariamente previstas (op. cit.,

    p.03). Tal suposto objeto natural monoltico seria iluminado em seus diversos contornos pelas

    luzes naturais dos diversos mtodos. Tomar a diversidade da psicologia se deter sobre a luz

    artificial, atravs da simulao em mquinas representativas, ou pensantes. Homens-calculadoras, ou mquinas-pensantes: que diferena faria? Nesta representao artificial do processo representativo, h pois, uma dupla simulao cartesiana, uma explcita, outra implicada. Na primeira, a simulao do homem-calculatrio pela mquina-pensante. Na segunda, a do demiurgo artfice, programador do real-calculatrio, pelo homo-faber. Ao ignorar a segunda simulao, de cunho cartesiano, interdita-se a prpria sada desta episteme na direo de um construtivismo, de um pragmatismo do artifcio, em que se evanesam as barreiras entre o natural e o artifcio 15 Deve-se lembrar, como prcede Lebrun (1977, p. 12), que para Aristteles cada regio ntica do ser demanda uma episteme prpria.

  • que a banha, ignorando o iluminado, ou no caso a conduta humana entendida [...] como

    integrao e sntese do fluxo e do sentido da existncia (op. cit. p. 16).

    Tomar a psicologia como cincia da conduta, sntese entre psicologia experimental e

    clnica, mas sob unidade funcional, a proposta de Daniel Lagache (1988), de resto endossada

    por Pierre Janet (seu fundador), Rne Zazzo e Paul Fraisse (cf. Michel Bernard 1983, pp. 31-

    36), Maurice Reuchlin (1979), 16 Egon Brunswik (Figueiredo, 1991, p. 196) e Walter H. A..

    Cunha (1986), para citar um nome brasileiro. O conceito conduta no conduz ao de

    comportamento, enquanto conjunto de movimentos fisicamente descritveis, tal como

    consagrado pelos behavioristas. Ele abarca tambm a conscincia doadora de significados, uma

    de suas manifestaes. Pode ser melhor definido como: o conjunto das respostas

    significativas mediante as quais o ser vivente em situao integra as tenses que ameaam a

    integridade e o equilbrio do organismo (Lagache, 1988). Nesta concepo o sentido funcional

    das condutas se destacaria por toda psicologia, esteja ele explicitamente presente, como no

    caso do conceito de adaptao, prprio do funcionalismo clssico, do behaviorismo e da

    epistemologia gentica, seja atravs de termos como homeostase em Cannon, tendncia ao equilbrio

    gestaltista e princpio da constncia em Freud.

    A tentativa de sntese funcional por parte de Daniel Lagache tpica, em que pese sua

    tentativa de unidade mais por convenincia do que por lgica, como denuncia Canguilhem

    (1973). De resto, trata-se de tendncia ditada pelo prprio funcionalismo clssico (cf. Ferreira,

    1992, p. 31)17. E esta se espelha em todas tentativas de unificao, sejam estas sintticas, eclticas

    ou construtivas (segundo distino de Figueiredo, 1991, p. 197). Pouco importa se a unificao

    emerge de transformaes nos enfoques e doutrinas (sinttica), ou a partir da eficincia de

    tcnicas (ecltica), ou ainda de um modelo de inteligibilidade (como o de Harr e Secord; cf.

    Figueiredo, op. cit., p.197). Tais modelos, de prtica cientfica original, possuiriam relaes de

    assimilao e oposio s matrizes originais inspiradoras. Seja na teoria, seja na prtica (no h

    a partir do funcionalismo sentido nesta distino: toda teoria se esgota numa prtica; uma

    prtica), a psicologia, a partir da Escola Funcional de Chicago, se encaixa nesta matriz

    porosa, sendo esta abertura um de seus principais triunfos na superao das correntes

    16 A proposta da unidade da psicologia enquanto cincia das condutas mostra-se de modo claro no processo de delimitao deste saber no contexto acadmico de lngua francesa. A fim de demarcar um territrio cientfico, e um rol de competncias e tarefas, que Lagache em 1949 pleiteou o seu A Unidade da Psicologia (1988), posteriomente recusada por Canguilhem (1973), tanto devido a razes epistemolgicas, quanto pela nova distribuio de eficcias com a medicina. A questo aqui diz respeito a quem cabe o exerccio da psicanlise, se aos mdicos ou aos psiclogos. Melhores indicaes podem ser buscadas em Roudinesco (1990). 17 Se no contexto universitrio francs, o ecletismo foi um efeito indesejvel na busca de unidade, no contexto norte-americano do incio do sculo, tratou-se de um dos ndices de provocao contra a sistematicidade da psicologia germnica, l representada por Titchener. Pode-se tambm tentar entender tal ecletismo como prprio da cultura norte-americana (hiptese por demais vaga), ou, mais especificamente, influncia do pensamento pragmatista, na recusa a qualquer sistema.

  • dogmticas. A Escola de Chicago o sistema que melhor representa a assistematicidade

    ecltica da psicologia e dos psiclogos em sua totalidade.

    Para Figueiredo (1991), esta necessidade de unificao funcional no remete a nenhum

    projeto original da psicologia, mas presena da matriz funcionalista no senso comum das

    sociedades modernas, marcado pela dominncia da racionalidade administrativa ou

    instrumental (op. cit., p. 197). Em minha dissertao (Ferreira, 1992, p. 30), pude sustentar

    que tal unificao visa o lastreamento da psicologia pelas suas prticas, como enfim procede o

    funcionalismo, alando estas condio de verificao e legitimao de nosso saber. Sendo a

    prtica o critrio de verdade e reconhecimento da psicologia, por que no a unidade pela

    tolerncia aos diversos modos instrumentais em que se estuda e promove a adaptao no

    crculo funcional da conduta? Neste estranho recurso de unidade, o que rene a disperso dos

    esforos o sentido prtico ou instrumental destes.

    As crticas ao modo como se instaura este frum no remetem apenas sntese por

    convivncia conveniente, mas violncia que esta promove no apagar das diferenas. Seria

    possvel conceber toda psicologia, ao modo de um gigantesco manual sobre as condutas,

    franqueando aos gestaltistas um captulo sobre percepo; aos behavioristas, um sobre

    aprendizagem; a Piaget, um sobre desenvolvimento e psicanlise, um sobre motivao? De

    incio, o autor de um sistema jamais assinaria abaixo dos demais captulos. Porque um

    sistema mais do que a escolha de um tema; um esboo de onde se delineia um

    certo projeto de epistemologia (o que cientfico?), um morfismo (uma metfora

    demarcando a textura do que real), uma idia de homem e um conjunto encadeado

    de problemas, objetos cientficos (conceitos) e mtodos, considerados pertinentes

    nesta tarefa. Por mais que se ponham certos termos semelhantes em cena (equilbrio, adaptao,

    funo), o pano de fundo, ou mesmo, a textura destes bem diversa. O equilbrio da boa forma

    no o mesmo da homeostase, de uma drive reduction de Clark Hull, ou ainda da

    equilibrao majorante de Piaget. Nem a funo a mesma, considerando as funes

    biolgicas do funcionalismo, as funes ou propriedades das partes num conjunto gestltico,

    ou a anlise funcional pelas conseqncias de Skinner, ou ainda as funes computacionais do

    cognitivismo. Nem ainda a adaptao a mesma, trate-se do equilbrio dos invariantes

    funcionais (Piaget), da seleo das variaes operantes (Skinner) ou a seleo lamarckeana pela

    conscincia adaptativa (funcionalismo clssico). Negar estas diferenas18 apagar os ncleos de

    resistncia pelos quais os sistemas se tensionam. Pois que, se no h refutao na psicologia, h

    18 Estas diferenas se realizam em todas ordens: epistemolgicas, sistemticas (conceitos, mtodos e questes), ontolgicas (viso de homem e de mundo) e prticas. A psicologia no uma cincia, mas vrias possibilidades de ser cincia.

  • oposio, tenso: o campo psicolgico um campo de resistncias. por tal razo que

    Foucault (1957, p. 143) designa a psicologia como um saber crtico.

    4.2- A unidade na disperso Considerar aqui as tentativas anteriores de unidade da psicologia (metodolgica, objetal e

    funcional) apenas conduz ao exame crtico destas empreitadas. Posto que, se por um lado a

    promessa de unidade uma mera aposta no triunfo do mtodo, por outro, a realizao de um

    pacto ecltico em torno das eficcias mais parece um acordo tcito de sobrevivncia das

    psicologias. Considerar tambm um objeto psicolgico natural dispersado pelos diversos

    olhares manter ainda a tenso em torno de qual seria o olhar mais natural dentre os existentes

    no campo. Desmontar tais tentativas de unidade bsico para que se tome a disperso

    psicolgica de modo positivo, como objetivo dos trabalhos expostos nesta seo. Ao

    contrrio de todas as tendncias vistas, a que ser agora delineada no busca qualquer unidade:

    deseja apenas positivar e justificar a disperso. Isto porque, ao contrrio de todas perspectivas

    consideradas at ento, a que agora se instaura no instrui nenhum tribunal pela lei (normativa,

    transcendental, racional, consensual, libertria ou conciliatria). O que ser buscado a lei, mas

    gestada a partir do modo de funcionamento da psicologia, na sua fragmentao e nas suas

    condies de possibilidade. Condies estas que, curiosamente, reavivam os vetos kantiano e

    comteano, no solucionados integralmente por qualquer psicologia, mesmo a behaviorista, que

    recusa a considerao de um objeto subjetivo19. Tais vetos centrais permanecem, enquanto

    focos de tenso e vetores de distribuio que, em suas solues extremas (objetivar o sujeito

    ou subjetivar o objeto), delimitam o campo psicolgico. No se condenar aqui a psicologia

    por no ser cincia, mas ver-se- neste af pela cientificidade um dos plos de tenso do

    campo.

    Tentativas de explicao da pluralidade da psicologia j haviam sido encaminhadas em

    trabalhos como os de Canguilhem (1973) e Stengers (1989), devendo-se esta s imagens de

    homem ou produo de artefatos por capturas conceituais, na impossibilidade de impor

    testemunhos no coagidos pelo saber. Esta pluralidade, de motivo condenao, convertida

    em razo de orgulho para psiclogos como S. Koch (citado em Figueiredo, 1991, p. 202), que

    vislumbram na radicalizao desta fragmentao uma situao mais produtiva que nas estreis

    tentativas de conciliao. Mais do que apagar as diferenas, busca-se compreend-las e 19No behaviorismo permanece a indiferenciao sujeito-objeto via comunicao, via comportamento verbal, suscetvel, como destaca Skinner, de produzir as regras e propsitos, atravs dos quais conhecemos as causas de nossa conduta , processo que diz respeito ao prprio tateamento que o analista experimental da conduta se vale em sua pesquisa. O behaviorista tambm pode reforar o conhecimento adequado de nossa conduta, bem como ser reforado por tal. O reforo ao comportamento verbal apaga as distncias entre sujeito e objeto, ou melhor, objeto e objeto, irmanando o organismo cientista ao organismo estudado atravs das regras ou propsitos (descries das causas de nossa conduta, aptas igualmente a controlar esta).

  • favorec-las. Conforme lembra Figueiredo (op. cit.), percebe-se no interior dos diversos

    projetos uma produo terica mais consistente, sistemtica e bem-sucedida do que nas

    pretensas snteses. Ao contrrio dos que consideraram a disperso a-cientfica, aqui na

    pluralidade20 que a psicologia se torna mais cientfica.

    Contudo, mais do que endossar, mister explicar as diferenas. David Leary (1990)

    tentar explic-las, remetendo s diversas metforas das quais as diversas psicologias se servem.

    Metforas que variam atravs de suas diversas fontes (cincias naturais e sociais, artes, tcnicas,

    polticas etc.); que exercem os mais diversos movimentos (refinam-se, alastram-se, retornam

    sobre si, enfraquecem, morrem); e que podem ser avaliadas conforme os mais diversos vetores:

    fora (quanto maior o seu poder de verdade, ou crena em sua realidade - em oposio sua

    tomada como simples metfora), extenso (quanto maior a sua generalidade em oposio sua

    especificidade), e durao (quanto maior a sua perseverana em oposio sua perenidade). O

    conhecimento psicolgico no possuiria, pois, nenhum operador cientfico apto a distinguir o

    valor destas metforas. As cincias naturais tambm produzem e se alimentam de metforas,

    mas constituem operadores; no os substituem por capturas conceituais. Neste ponto impe-se

    uma tica ao conhecimento psicolgico: ele ser tanto melhor, quanto menos se enrijecer em

    torno de uma nica metfora, tal como procedem as tendncias mais objetivistas, como o

    behaviorismo, preso a um morfismo fisicalista. Pelo contrrio, quanto maior a flexibilidade e

    profuso de metforas que um conhecimento propuser, mais valoroso ser este. E como

    exemplo de tal riqueza, Leary cita a psicanlise.

    Tal postura pluralista de resto endossada por Jacques Cagey (cf. Bernard, 1983, p.13),

    que, partindo de uma dialtica bachelardiana, denuncia a iluso de unidade e identifica o

    polimorfismo com a vitalidade e o crescimento da cincia (Figueiredo, 1991, p. 202). A

    dialtica bachelardiana manifesta-se na anlise do conhecimento cientfico, enquanto

    movimento de aproximao de nveis sucessivos, em que cada regio possuiria autonomia e

    operaes especficas. Tal dialtica se instaura na psicologia, uma vez que nesta se reproduzem

    as diversas perspectivas cientficas em movimento, consagrando-se esta como uma mquina de

    capturas conceituais, um espelho universal da cincia, que comea agora a ser reativado

    perante as novidades da biologia configuracional e da fsica das estruturas dissipativas. Mais

    uma vez procura se dar conta do reflexo e no do refletir, este sim, inerente psicologia em

    sua autonomia heternoma. Melhor que um espelho, Cagey pensa num prisma multifacetado

    20 Se esta multiplicidade sempre foi considerada perniciosa aos defensores do conhecimento enquanto representao, por outro lado, jamais mereceu elogios de seus opositores: a psicologia aqui foi tomada como um saber instrumental a servio das baixas formas de poder, conforme denunciado por Foucault. Curioso que este funcionamento involuntrio da psicologia nunca tenha sido comparado com alguns pressupostos das filosofias das diferena (como a de Deleuze), como o pluralismo do Real e o conhecimento visto, no como revelao, mas produo, no caso, de subjetividades, uma vez que estas tambm no so estticas e eternas.

  • que faz aparecer, dispersando-os, os eixos da cientificidade e permite restituir os elementos

    misturados de uma investigao complexa (apud Bernard, 1983, p. 46). A histria da

    psicologia ser, pois, a da assimilao dos modelos cientficos, reproduzindo os diversos

    estgios e regies da cincia em seus patamares, numa ordem no necessariamente cronolgica

    ou progressiva. A psicologia , portanto, criada imagem e semelhana das cincias: psicologia

    classificatria, mecnica, biolgica, fsica, informacional etc. Desta duplicao virtual, destaca-

    se, no tanto o operar cientfico, mas uma imagem, uma forma, um morfismo no dizer de Jean

    Laplanche, uma metfora segundo David Leary, um como se para Eduardo Passos (1992, p. 1),

    que ser decalcado sobre a subjetividade, ou sobre o homem, objeto da mais pura indefinio,

    ou melhor, definido no ato de se definir atravs destas formas21. E aqui impe-se a psicologia

    como intermediadora de capturas; a de conceitos e a de artefatos de subjetividade. Dos

    conceitos se captura uma forma, que por sua vez capturar fatos, produzindo-os em artefatos.

    Para Cagey, assim como para Stengers, a histria da psicologia se revela neste duplo decalque

    sendo: a histria decisiva das esperanas do psiclogo, dos esforos do homem para se

    pensar, para instituir uma relao ativa a si mesmo atravs dos quadros sucessivos dos seus

    diversos projetos cientficos (Cagey apud Bernard, 1983, p. 47).

    Michel Bernard (1983, p. 48), apesar de reconhecer em Cagey o mrito de legitimar a

    pluralidade da psicologia, assinala o demrito de reduzir a sua disperso epistemologia,

    ressaltando uma autonomia do esprito cientfico, expresso na pura busca de

    autoconhecimento. Esqueceria Cagey que os modelos cientficos provm de tcnicas, tratando-

    se de prticas sociais no caso da psicologia. A psicologia encontra seu fundo neste conjunto de

    experincias e prticas tcnicas sociais ou psicotcnicas das quais se diferenciam em saber-

    cincia, legitimando a partir da certos atos. o que Bernard quer demonstrar em seu

    interessante artigo A psicologia (1983): a psicotcnica precede a psicologia, e especialmente

    a psicologia aplicada que, na ameaa de se indiferenciar destas prticas primeiras,

    recorre a modelos cientficos-explicativos (morfismos) e epistemologias. Proveniente

    deste caldo psicotcnico, a psicologia purificada por uma veste de cincia, que lhe

    confira poderes de verdade, re-entorna sobre este mesmo caldo, arbitrando sobre o

    21 Um trabalho especialmente dedicado ao tema o de John Shotter, em seu Imagens de homem em pesquisa psicolgica (1977). Reconhece-se, mesmo no assentimento s opes mais materialistas, deterministas e naturalistas, uma livre escolha por parte de ns, seres humanos, nica espcie autodefinidora e inquisidora de sua prpria essncia. Por comportar uma escolha, que se impe como definitiva na nossa determinao, que Shotter deseja transmutar a psicologia, de cincia natural da conduta, em cincia moral da ao, coroada pela noo de responsabilidade. Mesmo reconhecendo esse papel produtivo da psicologia no forjar de nossa natureza, apresenta-se como problemtica a sua reduo a uma escolha responsvel, ainda que relevando o papel social desta opo. duvidosa que a forma com que se produzem e transmitem estas imagens seja tal que comporte a clareza da responsabilidade. O risco aqui o do paradoxo de se constituir uma psicologia determinstica, que optaria contra o claro ato de optar em que teria se forjado. Tais opes no envolvem tanto uma pessoa, ou um sujeito, como se quer crer, mas pelo contrrio, estes so um produto destas escolhas, produzidas nas malhas da histria.

  • legtimo e o ilegtimo, modelando nossas formas de sensibilidade e discurso,

    promovendo o que Deleuze denomina agenciamento. Em uma passagem brilhante de

    seu artigo, Bernard (1983, p. 71) descreve bem este imprinting que a psicologia produz sobre a

    cultura, tratando no apenas das transformaes na filosofia, nas cincias sociais, na arte, na

    religio e nas instituies, mas principalmente nas mais insuspeitas micro-relaes:

    Por isso, pode-se dizer que o domnio desta imagem [da psicologia] era tal que os

    indivduos se sentiam desapossados da sua liberdade, supondo doravante, submetidos a

    determinismos de que apenas o psiclogo competente possua a chave. Daqui a

    confuso, a angstia e, para muitos, a demisso fcil que encontra nesta circunstncia

    um libi privilegiado [...] De maneira geral, as relaes humanas, mesmo fora de

    qualquer contexto institucional, na simples espontaneidade dos contactos cotidianos, das

    conversas banais, dos dilogos amigveis ou amorosos, bem como das controvrsias

    renhidas e das disputas violentas, sofrem a refrao desta tomada de conscincia de

    segundo grau, que a existncia de uma cincia psicolgica constitui: independente das

    circunstncias histricas e polticas, o homem contemporneo j no pode ver o seu

    prximo como podiam ver-se dois indivduos vivendo no sculo XVII ou no sculo

    XVIII [...] Assim, cada um de ns transporta em si um psiclogo em potncia, tanto mais

    perigoso pelo fato de ser no s ignorante, mas tambm desrespeitoso da singularidade e

    da liberdade pessoal dos outros, que facilmente trata segundo a expresso de Stendhal

    como inseto.

    tratando desta cientificizao do cotidianoque Osmyr Gabbi lana seu instigante

    Leis, regras e psicologizao do cotidiano (1986). Neste artigo, Gabbi analisa como a psicologia toma

    o domnio das regras (convencionais e, pois, violveis) pelo das leis necessrias (e violveis

    apenas na refutao de sua universalidade), produzindo uma moral involuntria, legitimada por

    uma cientificidade autoconcedida, superior portanto a qualquer preceito tico justificado em

    seus prprios termos. A fim de dar conta desse apossar assptico (e a-tico) da moral cotidiana,

    Gabbi recorre genealogia foucaultiana, no agenciamento da verdade pelo poder: a verdade

    no existe fora do poder ou sem poder [...] A verdade deste mundo; ela produzida nele

    graas a mltiplas coeres e nele produz efeitos regulamentados de poder (Foucault, 1977,

    p.12). Portanto, revelar o poder que se instrui por uma verdade tem menos o tom de denncia

    do que o de reconhecer o carter produtivo de um discurso como o psicolgico, que instala as

    palavras e as coisas; em outros termos, o visvel e dizvel. Se os conselhos so dados,

    ouvidos e at perseguidos, porque se acredita que aquele que fala, sabe (Gabbi, 1986, p.

    495). O psiclogo no apenas o sujeito do suposto saber, mas do imposto poder. E os

  • poderes no so tomados no sentido poltico clssico, como emanao de um grupo soberano,

    agindo negativamente, excluindo, reprimindo, enganando. Trata-se de mltiplas foras

    microfsicas22 apossadas parcialmente por agenciamentos discursivos, geradores de verdade e

    operadores destes poderes. Verdade e poder so de agora em diante inseparveis, ainda que

    no gmeos. No h mais como pensar nas verdades psicolgicas, que no na captura de

    poderes, que a psicologia mesmo dissimula em sua objetividade. Resta apenas perguntar o

    porqu deste desejo de acesso verdade cientfica.

    Uma vez adentrado no domnio histrico, o das condies de possibilidade, cabe uma

    palavra sobre as novas histrias da psicologia que, no mesmo sentido plural da atual

    corrente, iro invocar a disperso de seu objeto. De modo contrrio s histrias das cincias,

    que tomam o progresso nesta ultrapassagem infinita de unidades bem estabelecidas

    (paradigmas, projetos ou sistemas), na histria da psicologia no h nem unidade, nem

    progresso. Progresso, se h, ocorre no interior de cada projeto, mas jamais no interior da

    psicologia, dada a impossibilidade de refutao neste saber. O alvo de trabalho destes neo-

    historiadores, como Roger Smith (1988) e Luis Alfredo Garcia-Roza (1977), ser denunciar os

    mitos da unidade, da continuidade e da evoluo, de resto descartados pela Nova Histria

    do grupo dos Annales. Em consonncia com esta escola, toda histria uma histria de um

    certo presente, marcado por seus referenciais, instrumentos, instituies, conceitos atuais (de

    tempo, perodo, sentido, evoluo), e questes versando sobre uma certo modo de

    subjetivao (ou mentalidade, usando um termo destes historiadores). Reconhecer este ponto

    de partida crucial para se dar conta da singularidade do outro a ser historicamente

    examinado. Sem demarcar o ponto de partida do historiador (o presente, sua identidade),

    arrisca-se confuso com o objeto visado (o outro histrico). Delimitar um eu, ou um

    ns, condio no apenas para estranhamento do outro, mas para a outrizao de ns

    mesmos. Quando falamos do prximo, ou para fazer mexerico, e nesse caso o estamos

    julgando, ou para descrev-lo como um estranho, sabendo que ns tambm o somos (Paul

    Veyne, 1989, p. 154). Neste presentismo aberto, o mesmo e o outro so estranhos, evitando

    o risco do mexerico, de tomar toda a diferena como juzo de inferioridade. o equvoco

    em que a histria tradicional da psicologia recai, tomando o modelo positivista como norma,

    observando desde as origens seu objeto (qual seria?) evoluir em ritmo monocrdico. Neste

    mau presentismo, oculto de si mesmo, o que se faz reificar o presente, vendo-o em germe

    desde o fundar dos tempos, no olhar mope e impreciso dos precursores, mas que desde ento

    balbuciariam algo sobre psicologia, a tomar forma somente na sua conjugao cientfica. De l

    at hoje, a voz e o olho tomariam prumo e o objeto teria sido descortinado. o que 22Da o ttulo da coletnea de artigos e entrevistas com Foucault organizados por Roberto Machado : Microfsica do poder (1982).

  • historiadores como Geoge S. Brett, Edwin G. Boring e Fernand-Lucien Mueller fazem; ao

    negar a estranheza do presente, eternizam-no, entronizam-no. Nem ao menos se questionam a

    partir de que condies a psicologia teria partido; ela simplesmente teria sido a mesma desde os

    tempos imemoriais. Tudo monoltico: tempo, objeto, progresso, cincia. O mesmo objeto

    que se supe atravessando os tempos igualmente enganoso:

    Na nsia de encontrar continuidades, os historiadores vislumbraram uma longnqua

    analogia entre a anima aristotlica, o cogito cartesiano e a conscincia, tal como

    vista pelos psiclogos do sculo XIX. Esqueceram-se, porm, que a anima aristotlica

    um princpio material, fsico, nada tendo em comum com o espirito dos cristos e

    ainda menos com o cogito cartesiano [...] Da mesma maneira, o cogito ergo sum

    pertence a um discurso filosfico no interior do qual adquire pleno sentido. Descartes

    no pretendia fazer e nem faz psicologia (Garcia-Roza, 1977, p. 24).

    Se, como Foucault (1969) considera, a noo de ruptura no opera mais como

    obstculo, e sim enquanto a priori com que se erguem as novas histrias, pensar as condies

    de possibilidade da psicologia dar conta dos eventos singulares e nicos raridades, ainda

    recorrendo ao filsofo francs que favoreceram a sua estranha constituio. Por que

    historicamente se constituiu um domnio ntimo, silencioso, condio do saber e do deliberar

    (o sujeito emprico) e, ao mesmo tempo, contra ele, uma srie de determinantes, tantos

    quantos morfismos puderem ser capturados (o sujeito transcedental)? Por que se tomou como

    objeto de conhecimento o que se impe como sua condio de conhecer e verificar (o homem

    como ser natural)? Por que buscou se tomar o controle do que se determinou como ponto de

    toda liberdade (o indivduo)? So questes que retiram o presente do conforto de sua

    identidade, ao mesmo tempo em que so oriundas deste, servindo na psicologia como pontos

    cardeais para mapear o seu espao de disperso, como guia de articulao das engrenagens nas

    quais esta funciona como mquina de mltiplas capturas. Aqui j se est no limiar entre a

    epistemologia e uma histria no-cientfica da psicologia, tema do prximo captulo.

    . 5- Concluso

    Neste ponto almeja-se positivar tudo aquilo a que as epistemologias conferiram um

    significante negativo. Mais do que positivar, tentar conferir um sentido, um modo de

    funcionamento. Chamar este modo de mquina atribuir-lhe uma lgica, ainda que esta inclua

    um terceiro excludo, e qui um quarto, um quinto e mesmo um infinito conjunto de

    possibilidades que se ponham em oposio. Aqui d-se ensejo idia de incompossveis de

    Deleuze, tal como retirada dos mundos possveis de Leibniz. Isto, posto que a lgica desta

  • mquina ctica, revelando um modo de funcionamento em que alternativas aparentemente

    contraditrias se realizam. Uma vez que a mquina adote uma certa alternativa, uma

    possibilidade dogmtica, ela opera de forma coerente e orgnica. Ao adotar um projeto, tal

    como o hardware de um computador aceita um programa, com conseqncias infinitas

    derivando dentro de uma linearidade. Contudo, mais interessante que a linearidade de uma

    lgica adotada, a possibilidade de vrias delas se efetivarem, realizando uma lgica plural, sem

    que as diversas linhas psicolgicas, regulares em si mesmas, percam sua tenso recproca.

    Trata-se mais do que uma mquina coerente (computacional), e sim passvel a vrias coerncias

    (multicomputacional). Uma mquina plstica de axioma inicial (software) zero, mas de

    possibilidades infinitas, operando tal como o homem, indefinido ou multidefinido na sua

    tentativa de definio infinda. Uma mquina pois de hardware tendendo a zero e de software

    processando ao infinito.

    Na linha de processamento desta mquina, mais do que a sucesso de premissas, tal

    como ocorre na lgica clssica, impe-se a sucesso de capturas de metforas, imagens,

    morfismos e sujeitos, dados em uma circularidade em que, partindo-se das prticas sociais,

    ganha-se o verniz epistemolgico, e retorna-se quelas potencializadas pelos juzos de

    verdadeiro e falso, possvel e impossvel, dizvel e indizvel... do bem e do mal. A psicologia

    pois esta mquina trifsica de decalque de prticas sociais e mudas (suas condies de

    possibilidade), em sua efetivao sob o dizvel da veste epistmica (captura conceitual e

    epistemolgica), gerando a produo de poderes reguladores, retornando estes sobre o caldo

    originrio das prticas sociais (gerando modos de subjetivao agora orientados pelo bem e o

    mal). Conforme a mxima foucaultiana: existem poderes (prticas mltiplas) que se efetivam

    em saberes, e saberes que produzem novos poderes, orientando o visvel, o dizvel e o

    exeqvel.

    Alguns exemplos do funcionamento da mquina podem ser dados. Um deles pode ser

    tomado a partir das consideraes de Foucault (1975) sobre a prtica do exame, enquanto

    dispositivo que sinaliza a inverso das relaes de poder e visibilidade na passagem da

    sociedade soberana (clssica) disciplinar (moderna). Se no perodo clssico, a visibilidade

    incidia sobre quem exercia o poder (o cortejo real, por exemplo), nesta nova fase, lana-se o

    olhar sobre quem, atravs dos registros de sade, civis, militares e fabris, sofre o poder. A

    partir daqui fundar-se-ia a existncia de indivduos, singularizados na peculiaridade de seus

    registros. Os testes psicolgicos, doutrinariamente embasados (por exemplo, a questo da

    inteligncia geral, multifatorial ou multimodal) e psicometricamente alinhados, do corpo

    cientfico a este dispositivo de visibilidade, separando as formas vlidas das invlidas de se

    registrar, medir e nomear os indivduos. Outras anlises mais macroscpicas poderiam

    relacionar certos sistemas como o funcionalismo e o behaviorismo a certas tcnicas de

  • instrumentalizao fabril, como o taylorismo, por exemplo, retornando sobre estas sob o signo

    da eficcia cientfica, alm de decalcar uma certa imagem instrumental de homem sobre os

    sujeitos a serem produzidos23.

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    23 Subsdios para esta considerao podem ser encontrados na dissertao de mestrado O mito da eficincia no ensino: o estudo crtico da tecnologia educacional de Lucola Santos (1980).

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