A PROTEÇÃO DO DIREITO FUNDAMENTAL À REPRODUÇÃO ?· americana e a revolução francesa, e, consequentemente,…

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<ul><li><p>www.derechoycambiosocial.com ISSN: 2224-4131 Depsito legal: 2005-5822 1 </p><p>Derecho y Cambio Social </p><p> A PROTEO DO DIREITO FUNDAMENTAL </p><p>REPRODUO ASSISTIDA NO BRASIL </p><p>Augusto Csar Leite de Resende1 </p><p>Jussara Maria Leal de Meirelles2 </p><p> Fecha de publicacin: 01/01/2015 </p><p>Sumrio: Introduo; 1. Evoluo histrica dos direitos </p><p>fundamentais; 2. Direito fundamental reproduo assistida; 3. </p><p>Dever do Estado de dar efetividade ao direito reproduo </p><p>assistida; 4. O papel do Poder Judicirio na eficcia do direito </p><p>reproduo assistida; 5. Consideraes finais; 6. Referncias. </p><p>RESUMO: </p><p>O nmero de homens e mulheres infrteis est crescendo em todo </p><p>o mundo; estima-se que, atualmente, de 15 a 20% dos casais tm </p><p>problemas reprodutivos, de modo que os procedimentos de </p><p>reproduo humana assistida so a nica esperana de procriao. </p><p>No entanto, os tratamentos de reproduo assistida so bastante </p><p>caros e, desse modo, inacessveis populao pobre do pas, </p><p>porque no assegurados pelo Estado por meio do Sistema nico </p><p>de Sade SUS. Desse modo, o presente trabalho cientfico tem </p><p>como objetivo principal apresentar, a partir de uma pesquisa </p><p>doutrinria e legislativa, argumentos favorveis ao </p><p>reconhecimento na ordem jurdica brasileira do direito </p><p>fundamental reproduo assistida. Analisar-se- tambm o dever </p><p>estatal de assegurar s pessoas com dificuldades reprodutivas o </p><p>acesso s tcnicas de fecundao artificial e a possibilidade do </p><p>1 Mestrando em Direito Econmico e Socioambiental pela PUCPR. Professor de Direito </p><p>Constitucional da Faculdade de Administrao e Negcios de Sergipe FANESE. Promotor de </p><p>Justia em Sergipe. E-mails: augusto@mpse.mp.br e aclresende@bol.com.br. </p><p> 2 Professora Titular de Direito Civil, integrante do Programa de Ps-Graduao em Direito </p><p>Econmico Socioambiental e do Programa de Ps-Graduao em Biotica, da Pontifcia </p><p>Universidade Catlica do Paran. Mestra e Doutora em Direito das Relaes Sociais pela </p><p>Universidade Federal do Paran. Ps-Doutorado no Centro de Direito Biomdico da </p><p>Universidade de Coimbra-Portugal. Procuradora Federal. E-mail: jumeirelles29@gmail.com. </p><p>mailto:augusto@mpse.mp.brmailto:aclresende@bol.com.brmailto:jumeirelles29@gmail.com</p></li><li><p>www.derechoycambiosocial.com ISSN: 2224-4131 Depsito legal: 2005-5822 2 </p><p>Poder Judicirio de determinar ao Estado que assegure aos </p><p>interessados o acesso s tcnicas de reproduo assistida. </p><p>Palavras-chave: Reproduo Assistida. Direito Fundamental. </p><p>Dever do Estado. Controle Judicial. </p><p>Introduo </p><p>O primeiro beb de proveta do mundo chama-se Louise Brown, nascida em </p><p>26 de julho de 1978, na cidade de Bristol, Inglaterra, proveniente de </p><p>fecundao gerada em laboratrio, no resultando, portanto, de uma </p><p>fertilizao no proveniente de uma relao sexual entre homem e mulher3. </p><p>No Brasil, o primeiro beb de proveta foi Ana Paula Bettencourt Caldeira, </p><p>nascida em 07 de outubro de 1984, na cidade de So Jos dos Pinhais/PR4. </p><p>O surgimento da fertilizao in vitro (ou fertilizao em </p><p>laboratrio), uma das tcnicas de reproduo humana assistida5, levou </p><p>esperana a diversos casais com problemas de fertilidade. Segundo Daniel </p><p>Blasioli Dentillo, no existem nmeros oficiais indicativos do nmero de </p><p>casais brasileiros com problemas reprodutivos, mas se estima que, no </p><p>mundo, de 15 a 20% dos casais tm dificuldade para gerar um filho em </p><p>algum momento de sua idade reprodutiva6. </p><p>3 MEIRELLES, Jussara. Notcia histrica. In: Gestao por outrem e determinao da </p><p>maternidade: me de aluguel. Curitiba: Genesis Editora, 1998, p.34. </p><p> 4 Conforme os registros do Conselho Regional de Medicina do Estado de So Paulo, o Dr. </p><p>Milton Nakamura considerado o responsvel pelo primeiro beb de proveta do Brasil, a </p><p>menina Anna Paula Caldeira. No entanto, relato publicado no nmero 23, de dezembro de 1985, </p><p>da revista Arquivos Mdicos, da Irmandade da Santa Casa de Misericrdia de So Paulo, </p><p>atribui ao Dr. Nilton Donadio, Diretor do Centro Biolgico de Reproduo Humana daquele </p><p>estabelecimento de sade, o primeiro sucesso da utilizao da tcnica, que resultou no </p><p>nascimento de uma menina, quatro meses mais velha que Anna Paula (MEIRELLES, Jussara. </p><p>Gestao por outrem e determinao da maternidade: me de aluguel... Op. cit., p. 34-</p><p>35. </p><p>5 Dentre as tcnicas de reproduo humana artificial ou reproduo humana assistida, merecem </p><p>destaque a inseminao artificial (I.A.) e a fertilizao in vitro (F.I.V.)... (MEIRELLES, Jussara </p><p>Maria Leal de. Tcnicas usuais da Reproduo Assistida. In: Reproduo assistida e exame de </p><p>DNA: implicaes jurdicas. Curitiba: Genesis Editora, 2004, p. 19). No entanto, a expresso </p><p>reproduo assistida no se limita a essas prticas de implantao de gametas ou embries </p><p>humanos no aparelho reprodutor feminino, com a finalidade de facilitar a procriao, pois todas </p><p>as prticas tcnicas e biolgicas que permitam a reproduo, interferindo no processo natural, </p><p>so consideradas reproduo assistida (MEIRELLES, Jussara Maria Leal de. Filhos da </p><p>Reproduo Assistida. In: PEREIRA, Rodrigo da Cunha (coord.). Famlia e cidadania: o novo </p><p>CCB e a vacatio legis. Belo Horizonte: IBDFAM/Del Rey, 2002, p. 393). </p><p>6 DENTILLO, Daniel Blasioli. Cresce demanda por tratamento de infertilidade, mas o </p><p>acesso ainda caro e seletivo. Cienc. Cult., So Paulo, v. 64, n. 4, Dec. 2012. Disponvel em </p></li><li><p>www.derechoycambiosocial.com ISSN: 2224-4131 Depsito legal: 2005-5822 3 </p><p>As tcnicas de reproduo assistida so consideradas </p><p>procedimentos de alta complexidade, como a fertilizao in vitro ou com </p><p>injeo intracitoplasmtica de espermatozoide, cujas despesas so de </p><p>aproximadamente R$ 12.000,00 por tentativa7. Desse modo, os tratamentos </p><p>de reproduo assistida so bastante dispendiosos e, portanto, inacessveis </p><p>populao de baixa renda porque no assegurados pelo Estado mediante o </p><p>Sistema nico de Sade - SUS. </p><p>Em virtude dos altos custos dos tratamentos de reproduo </p><p>assistida, o Ministrio da Sade instituiu, por meio da Portaria N. 426/GM, </p><p>de 22 de maro de 2005, no mbito do Sistema nico de Sade SUS, a </p><p>Poltica Nacional de Ateno Integral em Reproduo Humana Assistida, </p><p>assegurando o acesso a todos as pessoas aos servios de ateno bsica, </p><p>mdia complexidade e alta complexidade relacionadas reproduo </p><p>assistida, inclusive fertilizao in vitro e inseminao artificial. No entanto, </p><p>a referida Poltica Nacional de Ateno Integral em Reproduo Humana </p><p>Assistida foi extinta pela Portaria MS N. 2.048, de 3 de setembro de 2009, </p><p>deixando aparentemente desprotegidos casais de baixa renda incapazes de </p><p>arcar com os custos do tratamento de reproduo assistida. </p><p>Por essa razo, o presente trabalho cientfico tem por objetivos </p><p>principais apresentar argumentos jurdicos favorveis existncia na ordem </p><p>jurdica brasileira do direito fundamental de reproduo humana assistida, </p><p>ao dever estatal de assegurar s pessoas infrteis ou com dificuldades </p><p>reprodutivas o acesso s tcnicas de fecundao artificial e possibilidade </p><p>do Poder Judicirio determinar ao Estado a implementao de polticas </p><p>pblicas de acesso s tcnicas de reproduo assistida. </p><p>Para tanto, a pesquisa ser desenvolvida atravs de um mtodo </p><p>dedutivo, cuja tipologia ser a bibliogrfica com base em material j </p><p>publicado, com postura reflexiva e crtica acerca da identificao de novos </p><p>direitos fundamentais no sistema jurdico brasileiro a partir do contedo e </p><p>significado dos direitos vida e sade. </p><p>Nesse contexto, discutir-se-, primeiramente, a existncia ou no de </p><p>um direito fundamental reproduo humana assistida na ordem jurdica </p><p>nacional. Em seguida, abordar-se-o o dever do Estado de implementar </p><p> 67252012000400005&amp;lng=en&amp;nrm=iso&gt;. Acesso em 21 de maio de 2013. </p><p>7 SAMRSLA, Mnica et al . Expectativa de mulheres espera de reproduo assistida </p><p>em hospital pblico do DF - estudo biotico. Revista da Associao Mdica Brasileira, So </p><p>Paulo, v. 53, n. 1, Feb. 2007. Disponvel em </p><p>. Acesso em 21 de maio de 2013. </p><p>http://dx.doi.org/10.1590/S0104-42302007000100019 </p></li><li><p>www.derechoycambiosocial.com ISSN: 2224-4131 Depsito legal: 2005-5822 4 </p><p>polticas pblicas de acesso s tcnicas de reproduo assistida e a </p><p>discricionariedade do administrador pblico quanto convenincia e </p><p>oportunidade na assistncia reproduo assistida. </p><p>Aps, tratar-se- do controle judicial de polticas pblicas, tema que </p><p>provoca grandes debates nos meios acadmico e forense, na medida em que </p><p>existem posicionamentos tericos e jurisprudenciais negando ao Poder </p><p>Judicirio o poder/dever de compelir o Estado a implementar polticas </p><p>pblicas, sob os mais variados argumentos, tais como: suposta violao ao </p><p>princpio da separao dos Poderes, de violao da discricionariedade </p><p>administrativa e da clusula da reserva do possvel. </p><p>Por fim, sero abordadas as questes envolvendo a falta de recursos </p><p>pblicos para a concretizao do direito fundamental social de assistncia </p><p>reproduo humana assistida (reserva do possvel) e a sua insero no </p><p>contedo mnimo da dignidade da pessoa humana (mnimo existencial). </p><p>1. Evoluo histrica dos direitos fundamentais </p><p>Inicialmente, faz- se necessrio traar, ainda que em linhas gerais, a </p><p>evoluo histrica dos direitos fundamentais para a perfeita compreenso </p><p>do tema, uma vez que os direitos do homem so direitos histricos, ou seja, </p><p>nascidos em certas circunstncias caracterizadas por lutas em defesa de </p><p>novas liberdades contra velhos poderes e nascidos de modo gradual, no </p><p>todos de uma vez e nem de uma vez por todas8. O conhecimento da origem </p><p>e evoluo dos direitos fundamentais ao longo dos tempos essencial para </p><p>a sua correta interpretao e aplicao. </p><p>Os direitos fundamentais, desde sua origem, reconhecimento e </p><p>constitucionalizao, passaram por diversas mutaes, razo pela qual a </p><p>doutrina classifica os direitos fundamentais em geraes de direitos ou </p><p>dimenses de direitos como preferem alguns9, ou seja, a partir da ordem </p><p>cronolgica em que passaram ser constitucionalmente reconhecidos. Tais </p><p>direitos so, tradicionalmente, classificados em direitos de primeira, </p><p>segunda e terceira dimenses, encontrando ainda, na doutrina, classificao </p><p>dos direitos fundamentais em quatro e at cinco geraes. </p><p>A gnese histrica dos direitos humanos vem dos chamados </p><p>direitos do homem, que se referem aos direitos naturais, isto , inerentes </p><p> condio humana, que foram, posteriormente, reconhecidos e positivados </p><p>na esfera do direito constitucional de determinado Estado ou em tratados ou </p><p>8 BOBBIO, Norberto. A Era dos Direitos. Nova ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004, p. </p><p>25. </p><p>9 SARLET, Ingo Wolfgang. A eficcia dos direitos fundamentais. 8. ed. Porto Alegre: </p><p>Livraria do Advogado Ed., 2007, p. 55. </p></li><li><p>www.derechoycambiosocial.com ISSN: 2224-4131 Depsito legal: 2005-5822 5 </p><p>convenes internacionais. Por essa razo, pode-se afirmar que as origens </p><p>dos direitos humanos remontam ao chamado perodo axial, entre os sculos </p><p>VIII e II a.C., poca a partir da qual despontam as ideias de igualdade </p><p>essencial entre os homens e do ser humano considerado como um ser </p><p>dotado de liberdade e razo, premissas bsicas para a compreenso da </p><p>pessoa humana e para o reconhecimento de direitos universais e inerentes </p><p>ao homem10. </p><p>A antiguidade, por meio da religio e da filosofia, legou as </p><p>premissas chaves que, posteriormente, influenciaram o jusnaturalismo e a </p><p>sua concepo de que o ser humano, pelos simples fato de existir, </p><p>detentor de direitos naturais inalienveis, de modo que os valores da </p><p>dignidade humana, da igualdade entre os homens e da liberdade encontram </p><p>suas razes na filosofia clssica e no pensamento cristo11. </p><p>A primeira declarao embrionria de direitos fundamentais foi a </p><p>Magna Carta do Rei Joo Sem Terra de 1215 que, apesar de no poder ser </p><p>considerada uma declarao universal de direitos inerentes ao ser humano, </p><p>ela considerada o marco histrico dos direitos fundamentais porque, ao </p><p>reconhecer privilgios especiais aos bares feudais e ao clero, limitou o </p><p>poder dos monarcas na Inglaterra, impedindo assim o exerccio arbitrrio </p><p>do poder real. </p><p>Os princpios da Magna Carta de 1215 influenciaram os </p><p>movimentos liberais dos sculos XVII e XVIII, sobretudo a independncia </p><p>americana e a revoluo francesa, e, consequentemente, as declaraes de </p><p>direitos de 1776 e 1789, uma vez que consagravam direitos e liberdades </p><p>civis bsicos, tais como o devido processo legal e o habeas corpus. </p><p>No sculo XVII, ocorre um processo de racionalizao do Direito </p><p>Natural, afastando-se o jusnaturalismo da religiosidade. Nesse contexto </p><p>racionalista, a fonte do direito natural era a racionalidade dos seres </p><p>humanos, e no a vontade de Deus, concebendo-se a idia de direitos </p><p>naturais inalienveis do indivduo conferidos ao ser humano pelo simples </p><p>fato de existir e impostos ao Estado como forma de conteno da </p><p>autoridade do monarca. </p><p>O jusnaturalismo reconhecia a existncia de um conjunto de </p><p>princpios morais universalmente vlidos e imutveis que estabelecem </p><p>critrios de justia e direitos fundamentais inerentes natureza humana. </p><p>10 COMPARATO, Fbio Konde. A afirmao histria dos direitos humanos. 7. Ed. So </p><p>Paulo: Saraiva, 2011, p. 23-24. </p><p>11 SARLET, Ingo Wolfgang. A eficcia dos direitos fundamentais... Op. Cit., p. 45. </p></li><li><p>www.derechoycambiosocial.com ISSN: 2224-4131 Depsito legal: 2005-5822 6 </p><p>Carlos Nino Santiago aduz que a concepo jusnaturalista pode ser </p><p>caracterizada por duas teses, quais sejam: a) uma tese filosfica tica, que </p><p>afirma a existncia de princpios morais e de justia universalmente vlidos </p><p>e acessveis razo humana; e b) uma tese relativa definio do conceito </p><p>de direito, segundo o qual um sistema normaivo ou uma norma no podem </p><p>ser classificados como jurdicos se esto em desacordo com aqueles </p><p>princpios morais ou de justia12. </p><p>A doutrina jusnaturalista do sculo XVII inspirou os movimentos </p><p>liberais ocorridos na Europa, especialmente na Frana, e nas Colnias da </p><p>Amrica, influenciando de sobremaneira tambm as Declaraes de </p><p>Direitos da Virgnia e a Francesa, vidas em estabelecer limites ao poder do </p><p>Estado, mediante a positivao de direitos naturais. </p><p>No que pese as declaraes inglesas de direitos, tais como a </p><p>Petition of Right de 1628, o Habeas Corpus Act de 1679 e o Bill of Rights </p><p>de 1689, aprovados pelo Parlamento Britnico, tenham reconhecido </p><p>direitos bsicos do homem, foi na colnia de Virgnia, em 12 de janeiro de </p><p>1776, que surgiu a primeira Declarao de Direitos13, servindo de </p><p>inspirao para que as outras colnias americanas aprovassem Declaraes </p><p>semelhantes e para a constitucionalizao dos Direitos Fundamentais em </p><p>179114, uma vez que consagrava, por exemplo, o direito vida, liberdade, </p><p>propriedade e proteo opresso. </p><p>De fundamental importncia para a universalizao dos direitos da </p><p>pessoa humana foi a Declarao dos Direitos do Homem e do Cidado, </p><p>aprovada pela Assembleia Nacional francesa em 1789, pois assegurava </p><p>direitos e liberdades ao ser humano indistintamente, isto , </p><p>independentemente do status social, econmico, cultural ou racial do </p><p>indivduo...</p></li></ul>