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AOS PRESBTEROS Enzo Bianchi Prior de Bose1

O Filho no pode fazer nada por sua conta (Jo 5,19 e 30); Sem mim nada podeis fazer (Jo 15,5). Este nada que os discpulos partilham com Jesus exprime ao mesmo tempo a fora e a fraqueza do ministrio apostlico.

Joseph card. Ratzinger

INTRODUO Caros irmos presbteros na Igreja de Deus, Ao longo dos ltimos anos, em diversas circunstncias alguns bispos

da Igreja de Deus que est na Itlia me pediram para oferecer uma reflexo sobre a vida espiritual do presbtero. Sou um simples monge, um pobre leigo, definio que Pacmio dava de si ao grande Atansio patriarca de Alexandria, mas aceitei porque, sem t-lo desejado ou escolhido, me vi com freqncia ocupado na reflexo dos problemas que dizem respeito ao presbtero, alm da pregao de exerccios espirituais aos presbteros e no acompanhamento espiritual de muitos deles.

Vou procurar ser apenas um eco da Palavra de Deus e uma voz daquilo que escuto a muito tempo da vida eclesial e presbiteral, e irei partilhar convosco alguns pensamentos que, a partir da minha experincia, julgo teis, seno at mesmo urgentes, para uma vida presbiteral vivida no Esprito Santo e na fidelidade ao evangelho.

Mas antes de desenvolver estas reflexes, penso que seja necessrio fazer alguns esclarecimentos fundamentais, ou seja, esclarecimentos que se colocam como fundamento de todo o meu discurso. Vs presbteros participais da misso de Jesus, o Filho do Pai, e por isso no devereis nunca esquecer as suas palavras: Sem mim nada podeis fazer (Jo 15,5). S podeis exercer o vosso ministrio com Jesus, deixando a ele a plena e soberana iniciativa. No bastam as vossas capacidades, nem os vossos esforos para serdes enviados () por Jesus, como ele foi enviado pelo Pai (cf. Jo 13,20): absolutamente necessrio que vivais com ele (cf. Mc 3,14), em plena comunho com ele, e que procureis sempre trabalhar como enviados e pastores que participam da nica misso do Filho. Vs no possus nada de prprio para levar aos homens, vs no sois nada sem o Senhor que opera em vs e atravs de vs, no podeis fazer 1 Traduo de Padre Paulo Ricardo de Azevedo Jnior do original publicado por Edizioni Qiqajon, Magnano, 2004.

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nada seno em obedincia e comunho com o Filho no pode fazer nada por si mesmo; ele faz apenas o que v o Pai fazer (Jo 5,19). Tendo bem presente esta exigncia da vossa comunho radical com o Senhor Jesus, passemos agora para algumas indicaes de reflexo.

A ESPIRITUALIDADE PRESBITERAL

Estou profundamente convencido que a vossa espiritualidade

consiste apenas na vida espiritual vivida naquilo que fazeis como , como ministros da Igreja de Deus: uma s a espiritualidade da Igreja, fundada sobre o batismo e nutrida pela Palavra de Deus e pelos santos sacramentos, mesmo se ela vivida de forma diversificada, de acordo com a graa da situao na qual o Senhor desejou o seu servo.

Infelizmente ainda existem tentativas de propor uma espiritualidade presbiteral que poderamos chamar de espiritualidade do genitivo, ou seja, fundada sobre a declinao de cada um dos aspectos da vida do presbtero: espiritualidade eucarstica, espiritualidade diocesana, espiritualidade da caridade pastoral... Ao contrrio, a autntica espiritualidade do presbtero s pode ser alimentada e vivida atravs da realizao do seu ministrio. Em outras palavras, no exerccio do seu ministrio que os presbteros crescem na f e aprofundam a sua vida espiritual: preparando-se para anunciar a Palavra e, de fato, proclamando-a, eles tambm nutrem a si mesmos; celebrando a Eucaristia entram mais profundamente no mistrio pascal; como ministros da reconciliao impregnam a prpria vida de misericrdia; procurando anunciar o evangelho, hoje e aos outros, eles mesmos o compreendem de forma melhor; no confronto e no dilogo com os no cristos medem o dom da prpria f; escutando os irmos e as irms, e carregando as suas feridas, mostram o rosto do bom pastor que d a vida por suas ovelhas (Jo 10,11).

Aqui se insere tambm a questo da assim chamada presidncia presbiteral. necessrio que vs presbteros tenhais a clara conscincia de serdes cristos que foram chamados pelo Senhor e colocados pelo Esprito Santo para presidir a comunidade, ou seja, presidir o anncio da Palavra, a liturgia eucarstica e o cuidado pastoral. A forma deste ministrio de presidncia simples e no exige comportamentos especiais e ou estratgias particulares. Ele se expressa sobretudo na solidez e no discernimento: solidez na f (e portanto exerccio pessoal do sensus fidei) para poder confirmar os irmos e discernimento realizado com autoridade, com , para edificar a comunidade como corpo do Senhor.

Se quem preside completa e plasma estes carismas com o dom da misericrdia, exercitada para com a comunidade que lhe foi confiada (e o

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Senhor no priva jamais deste dom os que o pedem com sinceridade!), ento aparece na Igreja o cone do pastor belo e bom ( : Jo 10,11): o que d a vida pelos irmos (cf. Jo 10,11), que conhece os cristos do seu rebanho (cf. Jo 10,14), que caminha na frente da comunidade peregrinante (cf. Jo 10,3-4) e lhe fornece no tempo devido o alimento necessrio (cf. Lc 12,42). Pastor da comunidade, servo da comunho, o presbtero um cristo e um discpulo junto com os seus irmos, mas ao mesmo tempo tem a tarefa de gui-los; ele mesmo, por outro lado, guiado pelo Esprito Santo ao qual se abandona atravs de uma escuta e uma obedincia fiis, para que esteja altura de conduzir o rebanho de Deus no meio do qual o Esprito o colocou para presidir (cf. At 20,28).

Finalmente, necessrio recordar que a eficcia do vosso ministrio condicionada pela autenticidade e pela fidelidade com que o viveis: uma maior ou menor fidelidade ao evangelho no exerccio do vosso ministrio tem uma clara influncia sobre a evangelizao, sobre a presidncia da comunidade, sobre a celebrao dos sacramentos (PO 12; PDV 25). E vice-versa, o que fazeis como presbteros parte integrante de vossa vida espiritual e determinante para a vossa santificao: vivendo plenamente o vosso ministrio vs vos realizais plenamente como homens espirituais e por conseqncia vos santificais, ou melhor, acolheis as energias de santidade que Deus doa a quem aceita.

E quando apoiais ou acompanhais agremiaes particulares e movimentos no vos esqueais que, se verdade que seja possvel receber estmulos das experincias espirituais prprias de um grupo, no podeis, porm, deixar-vos capturar por alguma delas nem correr o risco de privatizar o vosso ministrio: fostes revestidos do ministrio presbiteral tendo como referncia a Igreja toda inteira, e este ministrio que deve plasmar a vossa vida e forjar a vossa santidade. Seria terrvel se uma espiritualidade particular configurasse a vida espiritual do presbtero mais do que o exerccio do seu ministrio: disto brotariam uma grave desarmonia e uma falta de unidade no nvel pessoal!

A RELAO COM O TEMPO

A tradio espiritual sempre insistiu na relao entre o cristo e o

tempo, mas talvez hoje seja necessrio afirmar com mais fora ainda que a vida autenticamente crist no pode prescindir da relao com o tempo. De fato, hoje, vivemos numa poca marcada pela acelerao, precipitao e automatizao do tempo, de tal forma que a patologia do viver o tempo se fez mais evidente e grave. O tempo o inimigo contra o qual se luta ou o fantasma que se persegue, o tempo foge de ns, ns perdemos tempo, no

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temos tempo, somos devorados pelo tempo: o tempo torna-se assim o dolo com o qual habitualmente e cotidianamente nos alienamos.

Mas, para ns cristos, o tempo o mbito dentro do qual est em jogo a nossa fidelidade ao Senhor: ou sabemos viver o tempo, orden-lo, sentindo-o como dom e compromisso, ou o idolatramos. no correr do tempo que devemos reconhecer o hoje de Deus (cf. Lc 19,9; Hb 3,74,11); aproveitando o tempo (Ef 5,16) que podemos subtra-lo do vazio e do sem sentido; ordenando o tempo que podemos tender para a orao incessante que nos foi pedida por Jesus e pelo Apstolo (cf. Lc 18,1; Ef 6,18; 1Tes 5,17).

Por isso, o presbtero deve santificar o tempo, ou seja, disciplinar, reservar, separar de forma inteligente o tempo para aquilo que ele e para aquilo que ele chamado a fazer. H prioridades que devem ser estabelecidas, h um tempo que deve ser considerado central no prprio dia e ao qual no se pode renunciar: um tempo para a ao por excelncia que edifica a comunidade, ou seja, a santa liturgia, um tempo para guiar a comunidade do Senhor nas diversas formas necessrias, um tempo para repousar. Sem uma disciplina do tempo, que uma verdadeira santificao do tempo, no h possibilidade de vida espiritual crist. De fato, muitos permanecem na espiritualidade sempre diletantes, no perseverantes, contraditrios, incapazes de um crescimento robusto justamente por causa de seu relacionamento alienado com o tempo. Comporta-se como insensato, diz o Apstolo, quem no sabe ordenar e viver o tempo (cf. Ef 5,15-16). Quando o tempo aparece sem adventus, um ternum continuum sem novidades essenciais, tempo que simplesmente se deixa passar, sem viv-lo de forma consciente e na conscincia da vinda do Senhor, ento no h nem memria, nem espera, nem capacidade de escutar hoje a Palavra do Senhor.

Sendo assim, o tempo no dever ser nem idolatrado nem esvaziado, deve ser, ao contrrio, organizado e vivido com conscincia e vigilncia, a servio do homem e do seu bem. Infelizmente uma m educao na ascese do tempo, sofrida principalmente pelas novas geraes, induz a uma vida desordenada na qual no se percebe nenhuma ordem de importncia objetiva e de urgncia para as diversas atividades e os vrios compromissos que devem ser realizados. Desta forma no se consegue nem sequer enxergar mais a prioridade do ministrio, e todas as atividades so consumidas em um vrtice que frustra a vida humana e torn