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A POLUIO SONORA NO ORDENAMENTO JURDICO

Fernanda Luckmann Saratt1

RESUMO O trabalho dedica-se a elucidar as caractersticas da poluio sonora, alertando sobre os seus efeitos nocivos, bem como faz uma anlise da legislao pertinente, da doutrina e da jurisprudncia. Busca-se elucidar os seus limites legais, bem como os instrumentos jurdicos que controlem ou limitem essa espcie de poluio. Palavras chaves: poluio sonora. efeitos nocivos. instrumentos jurdicos.

1. A poluio sonora A poluio ambiental caracteriza-se pela degradao da qualidade ambiental e

da vida da coletividade, com a ocorrncia de qualquer alterao adversa das

caractersticas do meio ambiente 2.

A Lei 6.938/1981, em seu artigo 3, inciso III, conceitua a poluio:

Art. 3 - Para os fins previstos nesta Lei, entende-se por: III poluio, a degradao da qualidade ambiental resultante de atividades que direta ou indiretamente: a) prejudiquem a sade, a segurana e o bem-estar da populao; b) criem condies adversas s atividades sociais e econmicas; c) afetem desfavoravelmente a biota; d) afetem as condies estticas ou sanitrias do meio ambiente; e) lancem matrias ou energia em desacordo com os padres ambientais estabelecidos.

Deste modo, percebe-se que existem diversos tipos de poluio, a depender do

bem jurdico afetado, como, por exemplo, a poluio do solo, a poluio atmosfrica,

a poluio visual, entre outros.

A poluio sonora ganha, paulatinamente, notoriedade na sociedade. Isto

porquanto, os rudos chegaram a um limite insuportvel, principalmente com a

1 Advogada, especialista em direito constitucional 2 FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de Direito Ambiental Brasileiro. 8. ed. So Paulo: Saraiva, 2007, p. 37.

intensificao do processo de urbanizao das cidades, com a aglomerao de casas e

atividades econmicas, com o trnsito, shows, entre outras fontes de emisso de

rudos.

Nota-se que o povo brasileiro tem a cultura do barulho, no entende a

nocividade que este proporciona, seja por falta de informao ou por falta de

represso pelo poder pblico. Todavia, a situao to alarmante que a Organizao

Mundial de Sade considera o Brasil como o futuro pas dos surdos3.

Alis, para a Organizao Mundial de Sade a poluio sonora considerada

como uma das trs prioridades ecolgicas para a prxima dcada4.

Compreende-se poluio sonora como a emisso de rudos desagradveis

que, ultrapassados os nveis legais e de maneira continuada, pode causar, em

determinado perodo de tempo, prejuzo sade humana e ao bem-estar da

comunidade5.

Para dis Milar a poluio sonora hoje um mal que atinge os habitantes

das cidades, consistindo em rudo capaz de produzir incomodo ao bem-estar ou

malefcios sade6.

Infere-se que o agente poluidor neste caso o rudo, no o som. Isto

porquanto, o som a sensao produzida no sistema auditivo; e o rudo um som

indesejvel, em geral de conotao negativa. 7.

Lus Paulo Sirvinskas esclarece que [...] som a emisso da voz humana, a

msica harmoniosa. Enfim, o som harmonioso e agradvel. Rudo, por seu turno, o

barulho irregular e desagradvel produzido pela queda de um objeto, por exemplo 8.

Logo, o critrio de distino o agente perturbador, que pode ser varivel,

envolvendo o fator psicolgico de tolerncia de cada indivduo 9.

Diante do exposto, verifica-se que o rudo um tipo de poluio corriqueiro e

sorrateiro, est impregnado na sociedade, sendo que seus efeitos no so de fcil

percepo, no causando tanto alerta quanto qualquer outro tipo de poluio.

3 SIRVINSKAS, Lus Paulo. Manual de Direito Ambiental. 3. ed. So Paulo: Saraiva, 2005. p. 184. 4 MAGRINI, Rosana Jane. Poluio sonora e a lei do silncio. RJ n 216, 1995, p. 20. Disponvel em: Acessado em 04 maio 2013. 5 SIRVINSKAS. op. cit., p. 185. 6 MILAR, dis. Direito do Ambiente: a gesto ambiental em foco. 6. ed. So Paulo: Revista dos Tribunais, 2009, p. 290. 7 BISTAFA, Sylvio R. Acstica aplicada ao controle de rudo. 2. ed. So Paulo: Blucher, 2011. p. 17. 8 SIRVINSKAS. op. cit., p. 185. 9 FIORILLO. op. cit., p. 161.

Todavia, como a seguir ser visto, os efeitos da exposio ao rudo trazem

consequncias gravssimas sade humana, sendo to nocivo quanto qualquer outro

tipo de poluio, afetando, inclusive, a integridade do meio ambiente.

2. Os Efeitos Nocivos da Poluio Sonora

Os efeitos nocivos da poluio sonora so uns dos principais responsveis pela

degradao da vida humana nas cidades ordinariamente, bem como culpados, na

grande maioria, pelos conflitos de vizinhanas que assolam o judicirio ptrio.

Na lio de Sylvio R. Bistafa, os efeitos nocivos da poluio sonora podem ser

divididos em fisiolgicos, psicolgicos e mecnicos:

[...] em nveis suficientemente elevados, podem causar perda da audio e aumenta da presso arterial (efeitos fisiolgicos), incmodos (efeitos psicolgicos), por exemplo, perturbao do sono, stress, tenso, queda do desempenho; interferncia com a comunicao oral, que por sua vez provoca irritao; pode causar danos e falhas estruturais (efeito mecnico) 10.

Lus Paulo Sirvinskas classifica os efeitos em direitos e indiretos. So diretos

os que acarretam problemas auditivos, dificuldade na comunicao com as pessoas,

dor de ouvido, incmodo etc. J os indiretos so os distrbios clnicos, insnia,

aumento da presso arterial, complicao estomacal, fadiga fsica e mental,

impotncia sexual etc.11

No mesmo sentido, Paulo Affonso Leme Machado elenca os efeitos do rudo:

Como efeitos do rudo sobre a sade em geral registram-se sintomas

de grande fadiga, lassido, fraqueza. O ritmo cardaco acelera-se e a presso arterial aumentar. Quanto ao sistema respiratrio, pode-se registrar dispneia e impresso de asfixia. No concernente ao aparelho digestivo, as glndulas encarregadas de fabricar ou de regular os elementos qumicos fundamentais para o equilbrio humano so atingidas (como supra-renais, hipfise etc) 12.

10 BISTAFA. op. cit. p. 17. 11 SIRVINSKAS. op. cit., p. 188. 12 MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. 19. ed. So Paulo: Malheiros Editores, 2011, p. 739.

A Organizao Mundial de Sade publicou um estudo no qual alerta como

efeitos do rudo perda da audio; interferncia com a comunicao; dor;

interferncia no sono; efeitos clnicos sobre a sade, efeitos sobre a execuo de

tarefas; incmodo; efeitos no especficos.13

luz de todas as consequncias acima expostas, foca-se na interferncia do

rudo no sono. Isto porquanto o ouvido, mesmo durante o sono, est sempre em alerta,

e quando existem rudos no ambiente o crebro no descansa, impedindo a reparao

da fadiga fsica e da fadiga mental ou nervosa do indivduo.14

Neste sentido, Waldir de Arruda Miranda Carneiro aduz:

Merece destaque, com efeito, o problema dos rudos nos perodos de descanso que, quando capazes de impedir ou interromper o sono, so especialmente perigoso. A inmeros riscos est exposto quem privado do descanso que necessita. Tal circunstncia induz o indivduo a um estado de torpor, diminui seus reflexos, reduz sua capacidade de concentrao e raciocnio. Na medida em que o desgaste se acumula a pessoa fica cada vez mais debilitada, exposta a complicaes fsicas e mentais. O esgotamento nervoso, nesses casos, pode ser crtico, e no menos importante.15

Imprescindvel alertar sobre a falsa adaptao ao rudo. Neste sentido, Paulo

Affonso Leme Machado leciona:

Primeiramente, assinale-se que encontramos uma iluso frequentemente difundida a adaptao ao rudo. Essa adaptao s aparente, pois se deixa de analisar os incmodos sofridos durante a noite. Pessoas que foram submetidas a controle de eletroencefalogramas, eletrocardiogramas etc. mostraram efeitos nocivos do rudo durante o sono. O sono assegura a reparao da fadiga fsica e da fadiga mental ou nervosa do indivduo. O sono composto de vrias etapas, cujas duraes variam no curso da noite. Primeiramente, h uma preponderncia dos estgios de sono lento ou profundo, assegurando-se principalmente a reparao fsica. Na segunda parte, onde o sono rpido ou paradoxal maior, assegura-se a reparao nervosa. Nas fases paradoxais, o sono relativamente leve e pode ser perturbado por rudos fracos, o que ir impedir ou entravar a reparao do sistema nervoso.16

13 LE BRUIT apud MACHADO. op. cit., p. 738. 14 MACHADO. op. cit., p. 739. 15 CARNEIRO, Waldir de Arruda Miranda. Perturbaes sonoras nas edificaes urbanas: rudos em edifcios, direito de vizinhana, responsabilidade do construtor, indenizao. 2. ed. So Paulo: Revista dos Tribunais, 2002. p. 21. 16 MACHADO. op. cit., p. 739.

Corroborando, Celso Antnio Pacheco Fiorillo aduz que psicologicamente

possvel acostumar-se a um ambiente ruidoso, mas fisiologicamente no.17

So to graves os efeitos do som poludo que Waldir de Arruda Miranda

Carneiro, citando Beltran, informa que podem causar anormalidades anatmicas nos

recm-nascidos.18

Nesse sentido, Antnio F. G. Beltro conclui:

Logo, a poluio sonora pode acarretar danos qualidade da vida humana, interferindo em sua sanidade, razo pela qual incumbe ao Poder Pblico, ou seja, Unio, Estados, Distrito Federal e Municpios, combat-la, conforme os arts. 23, VI, e 225, caput da Constituio da Repblica de 1988.19

Diante do

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