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  • A POLTICA ECONMICA DO 2 GOVERNO FERNANDO HENRIQUECARDOSO (1999-2002): A INTENO E O GESTO

    Jennifer Hermann.Professora-Adjunta

    Instituto de Economia da UFRJ (IE/UFRJ).

    1. Introduo

    O 1 governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso no Brasil (1 FHC, 1995-

    98) findou-se sob um cenrio adverso, marcado, internamente, pela ruptura da aliana de

    centro-direita (PSDB-PFL-PMDB) que viabilizou sua eleio em 1994 e, externamente,

    pela forte retrao dos fluxos de capital para economias emergentes, que culminou com a

    crise cambial de 1998/99 no Brasil.

    A despeito desse cenrio adverso, Fernando Henrique Cardoso assumiu o segundo

    mandato (2 FHC, 1999-2002) declarando o crescimento econmico e a gerao de

    empregos como as prioridades do segundo mandato. Durante a campanha para a reeleio,

    embora ressaltasse os mritos da poltica econmica de seu primeiro governo, apontando a

    estabilidade de preos como uma conquista histrica, o Presidente enfatizava que esta era

    apenas a primeira etapa de seu plano de desenvolvimento para o pas, cuja concluso

    exigia um segundo mandato. Em suma, se no perodo 1995-98, a prioridade fora a

    estabilizao de preos, entendida como pr-condio para a retomada do crescimento

    econmico no Brasil, agora que esta estava consolidada, o 2 FHC seria dedicado ao

    crescimento e criao de empregos.

    Na prtica, porm, o que se viu, aparentemente, foi a vitria das condies adversas

    sobre as boas intenes do Presidente. No 2 FHC praticou-se uma poltica econmica

    francamente recessiva, ancorada em ambiciosas metas de ajuste fiscal (efetivamente

    atingidas) e em elevada taxa bsica de juros. Nesse contexto, a taxa de crescimento do PIB

    foi medocre (mdia de 2,0% ao ano entre 1999-2002) e inferior do 1 FHC (de 2,6% ao

    ano); a taxa de desemprego aberto (do IBGE) foi de 11,7% da PEA em 2002;1 e a inflao,

    medida pelo IPCA (adotado como ndice oficial a partir de 1999), que havia chegado a

    1 No possvel comparar a taxa de desemprego pontual ou mdia dos perodos relativos ao 1 e 2 FHC enem mesmo do incio e do fim do 2 FHC, porque houve mudana na metodologia do IBGE. De todo modo,uma taxa de desemprego, ao final do governo, superior a 10% , sem dvida, um indicador de fracasso dapoltica de gerao de empregos.

  • 1

    nveis de primeiro mundo em 1998 (1,7% anual), elevou-se a partir de 1999, atingindo

    12,5% em 2002 (Tabela 1).2

    Este artigo discute as razes da flagrante distncia entre inteno e gesto na

    poltica econmica e na efetiva evoluo da economia durante o 2 FHC. Quatro

    condicionantes so enfatizados nessa anlise: o cenrio econmico internacional, a crise

    cambial de 1998-99 no Brasil, o contexto poltico interno e o modelo de poltica de

    desenvolvimento adotado (escolhido) pelo governo. As sees 2, 3, 4 e 5 tratam,

    respectivamente, dessas questes. A seo 6 conclui o artigo.

    Indicadores Mdia (1) 1999 2000 2001 2002 Mdia (1)

    1995-98 1999-02Tx. Cresc. Real do PIB (%) 2,6 0,8 4,4 1,4 1,5 2,0

    Tx. Cresc. Real do PIB per caita (%) 1,2 -0,5 3,0 0,1 0,2 0,7% FBCF/PIB (2) 20,9 19,7 19,7 19,8 18,7 19,5IPCA (IBGE) (% ao ano) (3) 22,4 / 1,7 8,9 6,0 7,7 12,5 8,8IGP-DI (FGV) (% ao ano) (3) 14,8 / 1,7 20,0 9,8 10,4 26,4 16,4Selic Real (% ao ano) (4) 21,8 15,9 11,0 9,5 5,3 10,4Var. Real do Cmbio (% ao ano) (4) -0,9 47,6 -8,3 20,8 10,7 16,0Fonte: Bacen, Boletim Mensal (Ago/2003), para PIB; IpeaData, para desemprego e FBCF.

    (1) Mdia aritmtica para FBCF e geomtrica para as demais variveis.

    (2) FBCF = formao bruta de capital fixo; FBCF e PIB a preos constantes de 1990.

    (3) Devido ao elevado desvio-padro da inflao no perodo 1995-98, optou-se por mostrar

    as taxas de incio (1995) e fim de perodo (1998), em vez da mdia.

    (4) Deflacionados pelo IPCA.

    1999-2002 e Mdias de 1995-98Brasil: Indicadores Macroeconmicos Selecionados

    Tabela 1

    2. O Cenrio Internacional em 1999-2002

    O 2 FHC foi, com raras e curtas interrupes, caracterizado por um cenrio de

    forte incerteza e de efetiva instabilidade no mercado financeiro internacional.

    O ano de 1999 se iniciou ainda sob os efeitos da crise de confiana nos mercados

    emergentes, que se seguiu grave crise cambial nos cinco tigres asiticos3, iniciada em

    meados de 1997. A abrangncia e gravidade da crise asitica e, principalmente, as

    semelhanas que comeavam a ser percebidas entre o modelo de poltica econmica desses

    pases e o de outras economias em desenvolvimento cujos traos comuns eram o cmbio

    2 Neste caso, a comparao em termos de mdias anuais tambm inadequada, porque o desvio padro dosdados de 1995-98 elevado. Este foi o perodo de consolidao (gradual) da estabilidade, durante o qual ataxa de inflao anual recuou de 22,4% para 1,7%. Assim, a comparao relevante entre o ano de 1998 e operodo 1999-2002.3 Pases em desenvolvimento do sudeste asitico, que tiveram acelerado ritmo de crescimento a partir demeados da dcada de 1980: Tailndia, Indonsia, Filipinas, Malsia e Coria do Sul.

  • 2

    fixo (ou semi-fixo) e as polticas de liberalizao comercial e financeira inaugurou uma

    longa fase de retrao dos fluxos de capital para todas elas e uma srie de crises

    (cambiais) de contgio4: na Rssia em meados de 1998, no Brasil e no Chile em 1999, no

    Equador em 2000, na Argentina em 2001-02, entre outras.

    Alm das perspectivas negativas que se formavam (e se confirmavam, em muitos

    casos) em torno das economias emergentes, a retrao dos fluxos de capital a partir de

    1998 refletiu tambm os efeitos financeiros da crise asitica nos pases industrializados. As

    efetivas perdas de capital sofridas por grandes bancos e fundos de investimento

    americanos, europeus e japoneses com atuao internacional e a queda nos lucros de

    empresas que mantinham vnculos comerciais com os tigres asiticos ajudaram a

    enfraquecer o fluxo internacional de negcios.

    A evoluo da economia americana, em particular, tornou-se motivo de forte

    preocupao, no s pelo tradicional papel dos EUA como grande mercado importador,

    mas tambm por conta da posio do pas no cenrio econmico mundial poca. Entre as

    grandes economias industrializadas, a americana era a nica que ainda mantinha um ritmo

    de crescimento vigoroso (em torno de 4% ao ano) no incio de 1999.5 A reverso deste

    quadro dificultaria imensamente a recuperao das economias em crise, podendo ainda

    conduzir outros pases a situaes semelhantes.

    A perspectiva de uma recesso nos EUA esteve presente ao longo de todo o binio

    1999-2000, alimentada pela queda dos lucros de bancos e empresas no-financeiras e,

    principalmente, pelo temor de que o Fed (Banco Central dos EUA) finalmente, colocasse

    em prtica uma poltica de aumento gradual da taxa bsica de juros. Desde fins de 1996, o

    Presidente da instituio, Alan Greenspan, demonstrava preocupao com o risco de

    inflao que o vigoroso crescimento da economia americana poderia implicar. Em fins de

    1998, o Fed, o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco do Japo chegaram e reduzir suas

    taxas bsicas de juros, visando evitar que a crise asitica resultasse em recesso mundial.

    Em meados de 1999, no entanto, passado o pior da crise (as economias afetadas

    comeavam a se recuperar, impulsionadas pela forte desvalorizao de suas moedas), o

    Fed implementou, de fato, uma poltica de aumento gradual da taxa bsica de juros. Essa

    poltica confirmou as perspectivas de desacelerao econmica nos EUA, que tornou-se

    ntida no segundo semestre do mesmo ano.

    4 Para uma descrio e discusso dos principais eventos da crise asitica vide Stiglitz e Furman (1998); sobreo conceito de crise de contgio, vide IMF (1998).

  • 3

    A partir de 2001, embora o Fed tenha iniciado uma poltica de corte nos juros, a

    economia americana no retomou o ritmo anterior de crescimento. O atentado de 11 de

    setembro ao centro financeiro e capital dos EUA, assumido pelo grupo terrorista afego

    Al Qaeda, o agravamento das dificuldades financeiras de uma srie de empresas

    americanas e a ameaa de guerra entre os EUA e o Iraque (ainda como desdobramento do

    atentado) frearam novamente a economia. Isto, aliado persistncia da recesso no Japo

    (que j se estendia desde 1993) e poltica de juros conservadora do BCE, reforou a

    tendncia retrao da economia mundial.

    Assim, o cenrio econmico internacional foi duplamente desfavorvel para o

    Brasil durante todo o 2 FHC. De um lado, retraiu-se o crdito externo para o pas (Tabela

    2), assim como para outras economias emergentes, apesar da insistente poltica de juros

    altos, mantida pelo Ministro Pedro Malan (Tabela 1). De outro, tornou-se mais difcil

    compensar esta perda com a gerao de supervits comerciais, devido retrao da

    demanda nos pases ricos.

    Discriminao Mdia 1998 1999 2000 2001 2002 Mdia1995-98 1999-02

    Transaes Correntes (TC) -26.438 -33.416 -25.335 -24.225 -23.215 -7.693 -20.117Balana comercial (fob) -5.598 -6.575 -1.199 -698 2.650 13.146 3.475Servios e rendas (lquido) -23.178 -28.299 -25.825 -25.048 -27.503 -23.229 -25.401Transferncias unilaterais 2.337 1.458 1.689 1.521 1.638 2.390 1.809

    Conta Capital e Financeira (CCF) 29.641 29.702 17.319 19.326 27.052 8.808 18.126

    Investimento externo direto (IED) 14.612 26.002 26.888 30.498 24.715 14.084 24.046Investimentos em carteira 15.394 18.125 3.802 6.955 77 -5.119 1.429Crditos comerciais (c. e longo prazo) 6.060 2.740 -7.284 -6.409 4.233 2.568 -1.723Oper. de regularizao (FMI, outros) 2.294 9.329 2.966 -10.323 6.757

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