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A Pesquisa Qualitativa sob a Perspectiva da Teoria da Legitimidade: Uma Alternativa para Explicar e Predizer Polticas de Evidenciao Contbil

Autoria: Jos Maria Dias Filho

Resumo: O presente trabalho examina a aplicabilidade de mtodos qualitativos, sob o enfoque da Teoria da Legitimidade, na busca de explicaes para polticas de evidenciao contbil. Parte-se do princpio de que a compreenso de muitos procedimentos adotados pela Contabilidade s pode ser alcanada satisfatoriamente quando se consideram diversas variveis de natureza ambiental, como o conjunto de crenas, valores e modelos organizacionais predominantes. A pesquisa orientada por mtodos qualitativos pode, inclusive, nos ajudar a compreender a Contabilidade como um mecanismo que afeta o mundo em que vivemos, as estruturas sociais, os meios de governana utilizados em determinada poca, as relaes entre o estado e o cidado, a maneira pela qual se gerenciam atividades e processos no mbito das organizaes, as relaes entre empregado e patro, enfim a maneira pela qual as pessoas interagem e se administram. Isso porque prprio do paradigma qualitativo buscar explicaes para fenmenos de natureza social a partir das caractersticas ambientais e dos diversos fatores que influenciam o comportamento dos indivduos, onde quer que eles se encontrem.

1. Introduo Estudos revelam que, nos ltimos anos, diversas empresas vm incrementando

voluntariamente o volume de evidenciaes de contedo social e ambiental. Observa-se, inclusive, que tais evidenciaes tornam-se cada vez mais complexas e menos vinculadas a padres normativos. Gray (2002), por exemplo, constatou que relatrios corporativos de natureza social e ambiental apresentaram um aumento de pelo menos 70% no perodo de 1980 a 1990. Comportamento parecido se observa no Brasil, j que muitas empresas tambm vm incorporando o hbito de ampliar suas evidenciaes sem nenhuma exigncia de carter normativo. Um dos relatrios que se enquadram nessa categoria e que vem sendo disseminando cada vez mais em nosso meio o chamado Balano Social. De acordo com Toms (2002), provvel que evidenciaes desse tipo surjam e se consolidem em certos ambientes com o mnimo de regulamentao. Essa tendncia tem levado a comunidade cientfica da rea contbil a investigar as razes pelas quais determinadas empresas resolvem expandir suas evidenciaes sem motivaes de ordem legal.

Sob o paradigma da Teoria Positiva da Contabilidade, considera-se a hiptese de que prticas de evidenciao voluntrias podem ser adotadas como estratgia para reduzir custos polticos. Porm, como teorias so abstraes da realidade, no se pode esperar que elas forneam explicaes absolutamente completas para certos comportamentos ou descries perfeitas de alguns fenmenos. Nesse caso, importante considerar a possibilidade de realizar investigaes sob a perspectiva de teorias alternativas. Seguindo essa lgica, um dos recursos tericos que tm sido propostos nos ltimos anos como alternativa para explicar e predizer prticas de evidenciao voluntria a Teoria da Legitimidade. Embora essa opo deva ser encarada com naturalidade, j que diferentes pesquisadores podem investigar o mesmo fenmeno com aparatos tericos alternativos, nota-se que ainda existe uma carncia de estudos sob essa perspectiva, pelo menos na rea contbil. Este trabalho pretende, portanto, estimular o debate em torno da possibilidade de explicar e predizer prticas de evidenciao com o apoio da Teoria da Legitimidade.

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2. Teoria da Legitimidade: breve caracterizao Derivada da Teoria dos Contratos, a Teoria da Legitimidade comea a ser utilizada na

rea contbil, particularmente em pesquisas que buscam explicaes para a adoo de certos mecanismos de evidenciao. Essa teoria baseia-se na idia de que existe um contrato entre as organizaes e a sociedade em que elas operam edificado em funo do sistema de crenas e valores vigentes. Sob esta perspectiva, as organizaes estariam sempre procurando estabelecer congruncia entre as suas atividades e as expectativas da sociedade. Parte-se do princpio de que elas se legitimam na medida em que conseguem alinhar suas prticas com as normas e padres de comportamento defendidos no ambiente em que operam.

Assim, se a continuidade de uma organizao depende da capacidade de atuar em sintonia com as expectativas da sociedade, de esperar que ela se esforce para que as suas atividades sejam aceitas e percebidas como legtimas. Adeptos da Teoria da Legitimidade argumentam que uma das estratgias que as organizaes utilizam para alcanar, manter ou recuperar legitimidade so as polticas de evidenciao corporativa. Trabalha-se com a hiptese de que algumas organizaes tendem a ampliar seus mecanismos de evidenciao independentemente de exigncias legais. Da a idia de que a Teoria da Legitimidade pode contribuir para explicar e predizer prticas de evidenciao no ambiente corporativo.

Suchman (1995) afirma que a legitimidade um recurso de ordem operacional que as organizaes utilizam para ganhar competitividade. Esse autor destaca que a depender do sistema de crenas e valores vigentes no ambiente em que elas atuam determinadas prticas podem contribuir para aumentar ou diminuir o grau de legitimidade, afetando a capacidade de angariar recursos para a sua sobrevivncia. Consequentemente, elas tendem a se esforar para que sejam percebidas como organizaes socialmente responsveis, completa o autor.

Seguindo o mesmo raciocnio, Hybels (1995) considera que a legitimidade no mais do que a representao simblica de uma avaliao coletiva que se faz da organizao, mas que tem o poder de afetar o fluxo de recursos vitais sua continuidade. Na seqncia, ele argumenta que um bom modelo de avaliao do grau de legitimidade da organizao deve incluir os stakeholders relevantes para o sucesso das suas atividades, assim considerados aqueles que podem afetar significativamente o fluxo de recursos necessrios ao cumprimento de sua misso e sua continuidade. Em funo disso, ainda segundo Hybels, as organizaes tendem a considerar pelo menos as expectativas dos seguintes elementos na definio de suas polticas de evidenciao: o estado, o pblico, a comunidade financeira e a mdia, independentemente de exigncia regulamentar. Afinal, esses atores tm potencial para esboar iniciativas capazes de interferir na vida das organizaes. Exemplo disso o poder de regulamentar, tributar, fazer concesses, firmar contratos, fornecer recursos financeiros, favorecer o ingresso de concorrentes no mercado, inibir ou estimular a competitividade, entre outras medidas do gnero.

Patten (2002) comprovou que em muitas situaes a mdia exerce um peso maior do que os demais atores sociais na escolha das estratgias de evidenciao em decorrncia do poder que ela tem de influenciar o julgamento dos indivduos. Esse autor verificou que quanto mais se atrai a ateno da mdia para certos comportamentos da organizao, mais se elevam as presses por parte do pblico, dos rgos reguladores e de outros agentes que podem afetar os seus destinos. De acordo com Neu et al.(1998), esta uma das razes pelas quais as empresas tentam gerenciar a sua legitimidade com apoio de mecanismos de evidenciao contbil. Em sua avaliao, empresas bem legitimadas no ambiente em que operam conseguem superar obstculos com maior facilidade, evitam custos decorrentes do incremento de mecanismos reguladores, garantem maior regularidade no fluxo de capitais, conseguem maior apoio de empregados, clientes e outros stakeholders.

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3. Motivaes para Aplicao do Paradigma Qualitativo na Pesquisa Contbil Tendo em vista que a pesquisa qualitativa busca a compreenso de um determinado

fenmeno a partir do contexto em que ele se manifesta, considerando aspectos histricos, polticos, econmicos, culturais e institucionais, provvel que esse tipo de investigao possa nos ajudar a compreender determinadas prticas contbeis e explicar a prpria evoluo do conhecimento em Contabilidade. Por exemplo, o fato de no se utilizar oramento em determinado grupo de empresas pode ter relao com as caractersticas econmicas e traos culturais predominantes na regio em que elas se inserem.

Essa idia baseia-se no fato de que a Contabilidade tende a refletir aspectos sociais, econmicos e institucionais do ambiente em que opera. Se algum estiver interessado em compreender por que se adotava este ou aquele procedimento contbil nos primrdios dessa disciplina, certamente dever considerar que, poca, seu papel quase se resumia prestao de informaes muito elementares acerca do patrimnio individual. Na verdade, em sua fase embrionria, a Contabilidade se limitava a simples inventrios fsicos de bens, visto que as operaes comerciais se realizavam exclusivamente por meio de escambo. Com o surgimento da moeda e a conseqente expanso das atividades comerciais, as prticas contbeis voltaram-se para o controle da evoluo financeira de determinados empreendimentos, mesmo assim ainda de forma rudimentar.

O mesmo raciocnio se aplica aos relatrios contbeis que se produziam antes da Revoluo Industrial. Se o objeto de interesse forem algumas de suas caractersticas, como o pequeno volume de informaes relacionadas a depreciao de equipamentos ou o baixo nvel de accountability, h de se considerar que at ento era muito limitada a necessidade de dados sobre custos de produo e relatrios voltados para usurios externos. De fato, foi o advento do sistema fabril e da produo em massa que veio alterar esse quadro de relativa estagnao em que se encontrava o conhecimento contbil. O crescimento das atividades industriais passou a demandar grandes volumes de capital e, consequentemente, a produo de informaes voltadas para novos agentes interessados na situao econmico-financeira das empresas, tais como investidores, credores e governo. A nfase no lucro como retorno aos acionistas, distinguindo-se de um retorno ao capital do proprietrio, bem como o surgimento das auditorias obrigatrias, so fenmenos que se relacionam tambm com a Revoluo Industrial.

Percebe-se, pois, que a Contabilidade tende a seguir os passos da sociedade, procurando ajustar-se ao ambiente poltico, econmico, cultural e institucional, para conservar o seu carter utilitrio. A face dinmica dessa disciplina pode ser visualizada nas seguintes palavras de HOPWOOD (1987, p.213): Accounting (...) is not a passive instrument of technical administration, a neutral means for merely revealing the pregiven aspects of organizational functioning. Instead its origins are seen to reside in the exercising of social power both within and without the organization. Da a idia de que a compreenso da teoria e das prticas contbeis pode ser facilitada por mtodos de investigao que nos permitam situ-las no contexto em que se desenvolvem, contemplando padres de comportamento, normas, crenas e valores predominantes em determinado sistema.

Sob o ponto de vista institucional, tambm verifica-se que a compreenso de certos fenmenos contbeis pode se beneficiar da pesquisa orientada por mtodos qualitativos. Assumindo que muitas organizaes procuram incorporar prticas e elementos estruturais que sejam percebidos como racionais no ambiente em que operam, a escolha de procedimentos e polticas contbeis pode est fortemente vinculada ao sistema de crenas e valores nele prevalecentes. Identific-las, portanto, pode ser o melhor caminho para se compreender por que uma empresa prefere certo procedimento contbil a outro que, a princpio, aparenta ser mais adequado sob o prisma puramente tcnico. A necessidade de se legitimar perante elementos que lhe do suporte pode levar a organizao a optar por prticas contbeis que

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mais se aproximem de uma racionalidade socialmente construda do que propriamente de seus modelos decisrios. COOPER et al. (1981), por exemplo, consideram que as organizaes aderem a certas prticas contbeis no propriamente porque elas habilitem os gestores a escolher as melhores alternativas de deciso, mas porque so percebidas no ambiente em que atuam como algo necessrio ao bom desenvolvimento de suas atividades.

Como se observa, a idia de que a pesquisa qualitativa pode contribuir para explicar a prtica contbil, especialmente no que se refere ao significado de conceitos, caractersticas dos sistemas de informaes e outros fatores do gnero, deve-se ao fato de que a Contabilidade no um simples mecanismo tcnico destinado apenas a identificar e mensurar eventos econmicos. Pelo contrrio, trata-se de um instrumento engajado na vida da sociedade, que gera conseqncias para os seus componentes. Assim, a preferncia por determinado mtodo de mensurao de resultados pode ser motivada pelos efeitos que ele exercer sobre direitos e deveres de acionistas, empregados, governo, unidades familiares, administradores etc. Transferncia de fluxos de capitais, alterao de polticas de juros, reconfigurao de processos produtivos, contrataes, demisses, fuses, sises e formao de parcerias so alguns dos eventos que podero encontrar justificativa em dados contbeis.

4. Ampliando a Compreenso dos Objetivos da Pesquisa Qualitativa Em sentido lato, a pesquisa tem por finalidade identificar repostas para determinadas

questes mediante a aplicao de mtodos cientficos, sejam eles qualitativos ou quantitativos. De acordo com Trujillo (2001) o objetivo fundamental da pesquisa tentar conhecer e explicar os fenmenos que ocorrem no mundo existencial, procurando descobrir como eles operam, qual a sua funo e estrutura, por que e como se manifestam e at que ponto podem ser controlados. De forma semelhante, Selltiz et al. (1999) afirmam que um dos propsitos da pesquisa proporcionar maior familiaridade em relao a determinado fenmeno, visando, inclusive, ao desenvolvimento de hipteses ou formulao de um problema mais preciso.

Quando o fenmeno em estudo complexo, de natureza social e no tende quantificao, os mtodos qualitativos tornam-se mais apropriados, principalmente se o entendimento do contexto sociocultural assumir grande significado para a pesquisa. Nesse caso, o objetivo bsico da investigao cientfica descrever a complexidade de determinado problema, analisar a interao de certas variveis, compreender e classificar processos dinmicos vividos por grupos sociais, colaborar no processo de mudana de determinado grupo e possibilitar, em maior grau de profundidade, o entendimento das particularidades do comportamento dos indivduos.

Ao contrrio da pesquisa de natureza quantitativa, a qualitativa no procura enumerar ou quantificar os eventos estudados nem se baseia em instrumental estatstico para efetuar a anlise de dados. Como bem salienta Glazier (1992), esse tipo de pesquisa no um conjunto de procedimentos que dependem fortemente de anlise estatstica para suas inferncias ou de outros mtodos quantitativos para a coleta de dados. De acordo com Godoy (1995, p.58), a pesquisa qualitativa parte de questes ou focos de interesses amplos, que vo se definindo medida que o estudo se desenvolve. Geralmente implica a obteno de dados descritivos sobre pessoas, lugares e processos interativos mediante contato direto do pesquisador com a situao estudada. Com isso, busca-se a compreenso dos fenmenos segundo a perspectiva dos sujeitos que participam da situao em estudo.

Como se observa, a pesquisa qualitativa fundamenta-se na idia de que um fenmeno pode ser melhor compreendido quando examinado no contexto em que ocorre e do qual faz parte. Para apreci-lo de forma integrada, o pesquisador deve mergulhar na realidade, procurando interpret-la a partir da perspectiva das pessoas nela envolvidas. A opo por essa modalidade de investigao deriva do tipo de problema a ser examinado e dos objetivos que se pretende alcanar. Entre as circunstncias que geralmente ensejam o uso de mtodos

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qualitativos destacam-se: quando se lida com problemas pouco explorados; quando o estudo de carter descritivo e o que se busca a compreenso do fenmeno em toda a sua complexidade; e ainda quando se faz necessrio compreender aspectos psicolgicos, fatos do passado, caractersticas de grupos dos quais se dispe pouca informao, estruturas sociais, atitudes individuais, motivaes, expectativas, valores, opinies etc. Reis (1994, p.11) sintetiza estas situaes, explicando que do ponto de vista terico a opo pelo mtodo qualitativo se justifica quando:

a) o pesquisador dispe de pouca informao a respeito do assunto a ser pesquisado, tornando-se necessrio explorar o conhecimento que as pessoas tm em funo de sua experincia ou at mesmo do senso comum;

b) quando o fenmeno especfico a ser estudado s pode ser captado atravs da observao ou quando o objeto da investigao o funcionamento de uma estrutura social que exige conhecimento de um processo etc.

c) quando procuramos explorar aspectos psicolgicos cujos dados no podem ser coletados adequadamente atravs de outra metodologia, em funo de sua complexidade.

Cabe considerar, entretanto, que a pesquisa qualitativa se define como tal no apenas por seu objeto de estudo ou por sua finalidade, mas principalmente pela forma como esse objeto estudado. Esse aspecto muito bem evidenciado por Kirk e Miller (1986, p.9), nos seguintes termos: tecnicamente uma observao qualitativa identifica a presena ou ausncia de alguma coisa, enquanto que a observao quantitativa envolve o grau com que isto est presente. Nessa mesma linha de raciocnio, Gordon e Langmaid (1990) destacam: ...a pesquisa qualitativa tem como preocupao central a compreenso das coisas, em vez de sua medio.

5. Caractersticas da Pesquisa Qualitativa: Uma Viso Geral Entre as diversas tentativas de caracterizao do paradigma qualitativo, considera-se

que a de Patton (1986) a que mais se aproxima da realidade, pois se assenta na idia de que a principal caracterstica da pesquisa em apreo sua aderncia tradio compreensiva ou interpretativa. Parte-se do princpio de que as pessoas agem em funo de suas crenas, percepes, sentimentos e valores e que, por isso mesmo, o seu comportamento tem sempre um significado que no se revela imediatamente. Dentre os elementos mais citados na literatura corrente para tipificar a pesquisa qualitativa, destacam-se:

a) a pesquisa qualitativa tem o ambiente natural como fonte direta de dados e o pesquisador como seu principal instrumento. Isso significa que a investigao de natureza qualitativa exige o contato direto e

prolongado do pesquisador com o ambiente e a situao que est sendo analisada. Estudos desse tipo tm como preocupao fundamental a anlise do mundo emprico em seu ambiente natural. Por exemplo, se a situao que est sendo examinada o comportamento dos usurios das informaes contbeis frente a determinadas decises de ordem econmica, o pesquisador dever observar o maior nmero de casos em que este ou aquele comportamento se manifesta.

Tendo em vista que os problemas so estudados no ambiente em que eles ocorrem naturalmente, sem qualquer manipulao intencional do pesquisador, esse tipo de estudo tem sido classificado tambm como naturalstico. Argumenta-se que o pesquisador realmente deve se manter em contato estreito e direto com a situao onde os fenmenos se manifestam naturalmente porque estes so muito influenciados pelo seu contexto. Parte-se do pressuposto de que as circunstncias particulares em que cada fenmeno ocorre so essenciais sua compreenso. As pessoas, os gestos, a cultura, as palavras estudas e outros elementos igualmente relevantes devem ser considerados frente ao contexto de que fazem parte. Por isso,

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geralmente afirma-se que o pesquisador deve se comportar como o instrumento mais confivel de observao, seleo, anlise e interpretao dos dados coletados.

a) a pesquisa qualitativa descritiva Nesse tipo de pesquisa, os dados coletados so ricos em descrio de pessoas,

situaes, fatos histricos, comportamentos, atitudes etc. O material coletado normalmente inclui transcries de entrevistas e depoimentos, fotografias, desenhos e extratos de vrios tipos de documentos. Segundo Trivios (1987, p.128), quando a investigao se baseia na fenomenologia, ela assume carter essencialmente descritivo. Esse autor explica que como as descries dos fenmenos esto impregnadas dos significados que o ambiente lhes atribui, e como elas so produto de uma viso subjetiva, evita-se qualquer expresso quantitativa, numrica, ou seja, todo tipo de mensurao. Isto significa que a interpretao dos resultados deve se basear na percepo de um fenmeno inserido em determinado contexto.

No mesmo trabalho, Trivios acrescenta que a pesquisa qualitativa de natureza histrico-estrutural, dialtica, parte tambm da descrio que intenta captar no apenas a aparncia do fenmeno, mas tambm a sua essncia. Busca-se identificar as causas de sua existncia, procurando explicar sua origem, suas relaes, suas conseqncias para a vida humana etc. O interesse do pesquisador, nesse caso, est em verificar como determinado fenmeno se manifesta nas atividades, procedimentos e interaes dirias, considerando-se o quadro de referncias dentro do qual os indivduos atuam e do significado ao mundo.

c) a preocupao com o processo muito maior do que com o produto Comentando essa caracterstica, Ldke e Andr (2001, p.12) explicam que o interesse

do pesquisador ao investigar um determinado problema principalmente o de verificar como ele se manifesta nas atividades, nos procedimentos e nas interaes cotidianas. A ttulo de exemplo, citam-se estudos desenvolvidos por Kramer e Andr (1984) que demonstraram como as medidas disciplinares de sala de aula serviam ao propsito de organizao para o trabalho e como esse fato interferia no clima de sala e no envolvimento das crianas nas tarefas propostas. Uma das caractersticas da pesquisa qualitativa , portanto, compreender a complexidade do cotidiano das pessoas, tendo em vista determinado contexto.

Trivios (1987, p.128) procura reforar esse aspecto, afirmando que a pesquisa qualitativa dedicada investigao histrico-estrutural considera o fenmeno no apenas em sua manifestao aparente, mas penetra em sua estrutura ntima, latente, inclusive no visvel simples observao. Busca-se descobrir suas relaes e avanar no conhecimento de seus aspectos evolutivos, procurando identificar as foras decisivas que explicam o seu desenrolar.

d) o significado a preocupao essencial na abordagem qualitativa Na pesquisa qualitativa, o significado que os indivduos atribuem s coisas e sua

prpria vida foco de ateno especial do pesquisador. Busca-se compreender os fenmenos que esto sendo estudados a partir da perspectiva dos participantes. Assim, a maneira como os indivduos encaram as questes que esto sendo focalizadas assume grande importncia na anlise qualitativa.

Ldke e Andr (2001, p. 12) acrescentam que, na medida em que se consideram os diferentes pontos de vista dos participantes, os estudos qualitativos permitem iluminar o dinamismo interno das situaes, muitas vezes inacessvel ao observador externo. Salienta-se, contudo, que o pesquisador deve se assegurar de que realmente conseguiu captar o ponto de vista dos participantes. Para tanto, ele deve avaliar suas percepes, procurando discuti-las abertamente com os participantes ou confrontando-as com as de outros pesquisadores.

Assim, verifica-se que a pesquisa qualitativa procura interpretar os fenmenos de forma profunda, visualizando os indivduos dentro de um quadro amplo e considerando principalmente suas dimenses cultural, social e histrica.

e) a anlise dos dados tende a seguir um processo indutivo

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Em estudos de cunho qualitativo, o pesquisador no parte de hipteses estabelecidas a priori, ou seja, no se preocupa em buscar evidncias que comprovem ou neguem suposies iniciais. Pelo contrrio, tudo comea com questes ou focos de interesse amplos, que vo se tornando mais diretos e especficos no transcorrer da investigao, conforme explicaes de Ldke e Andr (2001, p. 13). Destaca-se ainda que as abstraes se formam a partir da anlise dos dados, num processo de baixo para cima.

Na pesquisa qualitativa, principalmente, a interpretao dos fenmenos no um ato autnomo, isolado. Pelo contrrio, trata-se de uma atividade complexa que consiste na leitura de acontecimentos situados numa dimenso espao-temporal. Assim, o pesquisador de orientao qualitativa interpreta com o auxlio dos outros (sujeitos pesquisados, escritores, pessoas com as quais convive, referncias culturais, polticas etc.) e os significados vo sendo construdos por meio das interaes dirias. Como destacam alguns autores, o olhar qualitativo tpico de investigadores cujas estratgias de pesquisa privilegiam a compreenso do sentido dos fenmenos sociais para alm de sua explicao em termos de causa-efeito.

Do exposto, verifica-se que os estudos qualitativos se caracterizam basicamente pelos seguintes aspectos: so realizados numa situao natural; so ricos em dados descritivos, obtidos em contato direto do pesquisador com a situao estudada; enfatizam mais o processo do que o produto; preocupam-se em retratar a perspectiva dos participantes; tm um plano aberto e flexvel e focalizam a realidade de forma complexa e contextualizada. Alm disso, quanto aos objetivos vimos que eles procuram, principalmente: descrever a complexidade de um problema, atravs de dados profundos e reais; analisar um processo de interao entre certas variveis; compreender processos dinmicos, visando a classific-los; e compreender particularidades do comportamento dos indivduos e poder analis-las.

8. Concluses Partindo do princpio de que a compreenso das prticas contbeis exige que se

considerem diversos elementos vinculados ao contexto em que elas se manifestam, tais como fatores de ordem poltica, cultural, social e institucional, o presente trabalho procurou mostrar que a pesquisa em Contabilidade pode se beneficiar de mtodos qualitativos. De fato, se considerarmos que em cincias sociais no se pode formular nenhuma explicao satisfatria ignorando-se o contexto em que os fatos ocorrem, h de se concluir que muitos fenmenos contbeis s podem ser explicados adequadamente com o apoio de mtodos que considerem fatores de ordem ambiental. Por exemplo, a compreenso das caractersticas de determinado sistema contbil pode depender da anlise do conjunto de crenas, valores e modelos organizacionais que predominam em certo ambiente. Afinal, as prticas contbeis no resultam de princpios imutveis ou de leis que se encontram fora do controle humano, mas tendem a refletir um conjunto de interesses dos elementos que dela se servem.

A pesquisa orientada por mtodos qualitativos pode, inclusive, nos ajudar a compreender a Contabilidade como um mecanismo que afeta o mundo em que vivemos, as estruturas sociais, os meios de governana utilizados em determinada poca, as relaes entre o estado e o cidado, a maneira pela qual se gerenciam atividades e processos no mbito das organizaes, as relaes entre empregado e patro, enfim a maneira pela qual as pessoas interagem e se administram. Isso porque prprio do paradigma qualitativo buscar explicaes para fenmenos de natureza social a partir das caractersticas ambientais e dos diversos fatores que influenciam o comportamento dos indivduos, onde quer que eles se encontrem.

Por fim, desejamos salientar que no tivemos nenhuma inteno de estabelecer uma viso dicotmica entre mtodos qualitativos e quantitativos. Pelo contrrio, entendemos que hoje o pensamento predominante o de que os limites da pesquisa qualitativa podem ser contrabalanados pelo alcance da quantitativa e vice-versa. Sob essa perspectiva, os dois

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mtodos j no so percebidos como opostos, mas sim como complementares. Ademais, h de se considerar que mesmo na pesquisa quantitativa, muitas vezes to reverenciada como paradigma de representatividade, a subjetividade est presente. Afinal de contas, na escolha do tema a ser explorado, dos indivduos a serem entrevistados, no roteiro de perguntas, na bibliografia consultada e na anlise do material coletado, existe um autor, um sujeito que decide os passos a serem dados, como bem observam diversos autores.

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