A PERCEPÇÃO SOBRE O VOTO NO BRASIL: DIREITO OU ?· A história do voto no Brasil inicia-se com a aplicação…

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  • A PERCEPO SOBRE O VOTO NO BRASIL: DIREITO OU

    DEVER?

    Reinaldo Ramos da SILVA, Dra. Elizete Mello da SILVA

    Fundao Educacional do Municpio de Assis FEMA

    Fundao Educacional do Municpio de Assis FEMA

    rramos1995@hotmail.com, dedemelo@femanet.com.br

    RESUMO: Este texto uma reflexo sobre o voto no Brasil, a fim de analisar a

    percepo do voto no pas, com o seu contexto histrico, a importncia de seu exerccio

    para a efetividade da cidadania e do seu papel para o desenvolvimento da democracia.

    Observou-se, tambm, o atual estgio do voto no pas, os fatores preponderantes para o

    pleno desenvolvimento democrtico, a discusso sobre a concepo jurdico-filosfica

    conferida ao voto e o seu consequente carter obrigatrio ou facultativo.

    PALAVRAS-CHAVE: Voto; Cidadania; Democracia.

    ABSTRACT: This text is a reflection on the vote in Brazil in order to analyze the

    perception of the vote in the country, with its historical context, the importance of

    exercise for effective citizenship and their role in the development of democracy. There

    was also the current stage of voting in the country, the important factors for the full

    democratic development, the discussion about the legal and philosophical conception

    conferred to vote and his subsequent compulsory or optional character.

    KEYWORDS: Vote; citizenship; democracy.

    1. Introduo.

    O pargrafo nico do artigo 1 da CF/88 estabelece que todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos da

    Constituio Federal. A partir da, o regime de governo adotado no pas foi o da

    democracia semidireta, onde convivem instrumentos que permitem a deliberao direta

    do povo e outros que fazem com que a soberania popular seja exercida por meio de

    representantes eleitos.

    A vigente Constituio Federal assegura, em seu artigo 14, o direito ao sufrgio

    universal, que se concretizar pelo voto, direto e secreto, e com valor igual para todos,

    por meio das eleies que sero peridicas.

    Deste modo, o voto tem carcter obrigatrio para os maiores de dezoito anos e

    facultativo para os analfabetos, os maiores de setenta anos e os maiores de dezesseis e

    menores de dezoito anos. A obrigatoriedade do voto, embora prevista no art. 14 da CF,

    no clusula ptrea. So clusulas ptreas os votos direto, secreto e universal e

    peridico. Assim, o voto obrigatrio impe que todos devem ter maior

    comprometimento com os destinos do pas.

    Nesse mbito, percebemos a importncia do exerccio da cidadania por meio do

    voto, no poder e na responsabilidade dada ao eleitor para a escolha dos representantes

    que iro efetivar as garantias fundamentais de cada indivduo. Destarte, so divergentes

    as perspectivas doutrinrias sobre a natureza desse importante mecanismo democrtico,

    repartindo-se as vises e opinies, ora concebendo o voto como um dever, ora, como

    mailto:rramos1995@hotmail.commailto:dedemelo@femanet.com.br

  • um direito. A definio da natureza do voto determinante para estabelecer o seu

    carter, sendo um dever, ele necessariamente compulsrio, porm, como um direito,

    perfaz-se facultativo.

    2. O histrico do voto no Brasil.

    A histria do voto no Brasil inicia-se com a aplicao das Ordenaes do Reino,

    um cdigo eleitoral elaborado em Portugal ainda na Idade Mdia e que fora utilizado no

    Brasil-colnia por um longo perodo. Partindo de uma raiz bastante profunda, o voto no

    Brasil teve efetivamente a sua origem em meados de 1532 (32 anos aps o

    descobrimento), quando os moradores da Vila de So Vicente (So Paulo) elegeram o

    seu Conselho Municipal.

    At o final do perodo de Imprio o voto aqui era censitrio, adstrito s pessoas

    que possussem determinada renda, calculada sobre a posse da mandioca. H de se

    mensurar tambm, a suma importncia que o processo de independncia teve para a

    consolidao e aprimoramento das eleies no pas, pois, surgiu a necessidade de se ter

    um sistema poltico nacional prprio e conseguinte organizao eleitoral melhor

    elaborada. Pertinente ao tema pontua Jos Afonso da Silva:

    Proclamada a Independncia, o problema da unidade nacional impe-

    se como o primeiro ponto a ser resolvido pelos organizadores das

    novas instituies. A consecuo desse objetivo dependia da

    estruturao de um poder centralizador e uma organizao nacional

    que freassem e at demolissem os poderes regionais e locais, que

    efetivamente dominavam no pas, sem deixar de adotar alguns dos

    princpios bsicos da teoria poltica em moda na poca. (SILVA,

    2000, p. 74).

    Conhecer a histria do voto no Brasil essencial ao entendimento da

    democracia, outrossim, pontos primordiais para o esclarecimento desta devem ser

    destacados.

    A primeira legislao eleitoral confeccionada no Brasil (1824) possibilitou a

    eleio da Assembleia Geral Constituinte, responsvel pela formao da Constituio

    promulgada no referido ano.

    O voto para presidente e vice da repblica apareceu pela primeira vez na

    Constituio de 1891, o das mulheres e o voto secreto foram institudos apenas em

    1932, ano que surge tambm a Justia Eleitoral Brasileira.

    Em 1964 instaurou-se no Brasil o perodo da Ditadura Militar, que sob o prisma

    democrtico, representa o perodo de maior retrocesso em toda a histria do pas. Esse

    perodo foi marcado por uma sucesso de atos institucionais, com os quais, o governo

    militar moldada seus interesses de forma una e coercitiva, suprimindo uma srie de

    direitos, consoante o pensamento de Maria Paula Araujo, Izabel Pimentel da Silva e

    Desirree dos Reis Santos:

    Com os militares instalados no poder, comeava a temporada de

    punies e violncia praticadas pelo Estado. A montagem de uma

    estrutura de vigilncia e represso, para recolher informaes e afastar

    do territrio nacional os considerados subversivos dentro da tica

    do regime, e a decretao de Atos Institucionais arbitrrios estiveram

    presentes desde os primeiros meses de governo. Num primeiro

    momento, esse sistema abateu-se principalmente sobre lderes

    sindicais e comunistas vinculados a luta pelas reformas de base.

    (ARAUJO, PIMENTEL, REIS, 2013, p.17).

  • A ditadura no Brasil apresentou peculiaridades das demais experimentadas pelo

    mundo. Nesse nterim, vale ressaltar, que a escolha para ocupao de alguns cargos era

    feita ainda mediante eleio do povo, como os de vereadores, prefeitos, governadores,

    deputados e senadores. Porm, a presena de eleies no tornava o regime

    democrtico, conforme bem salientado pelo historiador Marcos Antnio da Silva:

    A ditadura no Brasil tinha a preocupao de manter uma espcie de

    cenrio de ambiente democrtico. Mas havia eleies em que

    condies? Os partidos existentes foram extintos. Foram criados

    partidos por ordem da ditadura em um bipartidarismo. O Executivo

    tinha o poder absoluto. Havia eleies, havia, mas eram eleies

    indignas de confiana. (apud CAPUCHINHO, 2014, grifo nosso).

    No mesmo sentido, o professor Luiz Antnio Dias ressalta que:

    Os militares sempre se preocuparam em passar um verniz na ditadura

    para tentar dar legitimidade, mas as eleies no tornavam o regime

    democrtico. Quando a ditadura sofria uma derrota, os militares

    fechavam o Congresso e mudavam as regras. (apud CAPUCHINHO,

    2014).

    Por fim, aps longo e gradual perodo de recuperao democrtica a

    Constituio Federal de 1988, fundada principalmente nos direitos sociais e na

    dignidade da pessoa, efetivou a atual democracia no pas, trazendo consigo novidades

    almejadas pela sociedade, quais sejam: a ordem poltica, jurdica e eleitoral.

    Trata-se da Constituio Cidad, como definiu Ulysses Guimares, em sua

    promulgao, caracterizando-a como o documento da liberdade, da democracia e da

    justia social do Brasil. Ademais, para o historiador Boris Fausto (apud. ARAUJO,

    PIMENTEL, REIS, 2013, p.40) a Constituio de 1988 refletiu o avano ocorrido no

    pas especialmente na rea da extenso de direitos sociais e polticos aos cidados em

    geral e s chamadas minorias.

    Segundo Jos Afonso Alves (2000, p.89), a referida Constituio um texto

    moderno, com inovaes de relevante importncia para o constitucionalismo brasileiro e

    at mundial.

    O cenrio eleitoral consolidado pela Carta Maior enseja segmentos obrigatrios

    e facultativos ao voto, conforme disposio do Artigo 14, pargrafo 1, da CF/88:

    1 O alistamento eleitoral e o voto so:

    I - obrigatrios para os maiores de dezoito anos;

    II - facultativos para:

    a) os analfabetos;

    b) os maiores de setenta anos;

    c) os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos.

    Ante o exposto, e ressalvando a meno aos analfabetos, pode-se concluir que o

    legislador brasileiro adotou o critrio cronolgico (idade) para aferir o exerccio do voto

    no pas, outrossim, impretervel questionar a suficincia de tal critrio promoo da

    maturidade poltica, da conscientizao sobre a importncia do voto, e do exerccio da

    cidadania para os atuais e futuros eleitores brasileiros. No obstante, e ainda sob o

    mtodo socrtico, a obrigatoriedade do voto consegue promover o desenvolvimento e o

    exerccio da cidadania no pas? Esta a melhor soluo para a sade da nossa

    democracia?

  • Para refletirmos sobre esses questionamentos, importante esclarecer os conceitos

    de Cidadania, e do que ser Cidado:

    O dicionrio parlamentar e poltico de Said Farhat (1996, p. 119) define que a

    palavra cidadania utilizada em trs sentidos intimamente correlacionados: designa a

    qualidade ou estado de ser cidado, todos os cidados, coletivamente, e o conjunto de

    direitos e deveres inerentes quela qualidade.. E cidado, o membro de uma

    comunidade nacional, no gozo dos direitos individuais e coletivos polticos, sociais,

    econmicos.

    Assim, exercer a cidadania possuir a plena conscincia dos seus direitos e

    obrigaes e coloc-los em prtica, gozando, tambm, dos preceitos constitucionais.

    3. A efetividade da cidadania pelo exerccio do voto.

    O exerccio do voto por si s no implica no pleno desenvolvimento da

    cidadania, uma vez que, para uma democracia bem consolidada, pressupem-se

    integrantes do grupo social, ativos e participantes da vida poltica, e que, no momento

    da efetivao de suas escolhas, as faam de forma consciente. A sacramentar o mesmo

    entendimento, Manoel Gonalves Ferreira Filho (2009, p.104), entende que para que

    um povo se possa governar, preciso que atinga certo grau de maturidade que no se

    resume na maioridade de seus membros, os eleitores.

    O mesmo autor, ao tratar da democracia, entende que ela no praticvel por

    qualquer povo, a qualquer momento e em qualquer circunstncia. A realidade e a

    cincia mostram que a democracia possui os seus pressupostos e condies essenciais

    ao seu desenvolvimento efetivo, e, ao tratar desses pressupostos, indica principalmente

    o pressuposto social e o econmico, estando interligados.

    Socialmente analisando, uma sociedade para estar preparada democracia

    precisa ter um nvel cultural mnimo, e no s de alfabetizao, assim, com grande

    maestria exemplifica:

    Implica, que esse povo saiba ser possvel mudar da rotina o seu

    destino, ou seja, necessrio que se liberte de comportamentos

    impostos por tradies e tabus que o induzam ao conformismo com

    sua situao. indispensvel, que tenha um mnimo de instruo que

    o habilite a compreender e apreciar a informao. Cumpre tambm

    que tenha senso de responsabilidade, tolerncia e respeito pelos

    dissidentes. Implica, enfim, que tenha um mnimo de experincia no

    trato da coisa pblica. (FERREIRA FILHO, 2009, p. 104).

    Sob o aspecto econmico, plausivelmente concluiu:

    O amadurecimento social no pode existir onde a economia somente

    fornea o indispensvel para a sobrevivncia com o mximo de

    esforo individual. S pode ele ter lugar onde a economia se

    desenvolveu a ponto de dar ao povo o lazer de se instruir, a ponto de

    deixarem os homens de se preocupar apenas com o po de todos os

    dias. (FERREIRA FILHO, 2009, p. 104 - 105).

    O supramencionado artigo 14, da Constituio Federal de 1988, no caput, sagrou

    o voto no pas como: A soberania popular ser exercida pelo sufrgio universal e pelo

    voto direto e secreto, com valor igual para todos (...) (grifo nosso).

    Deste modo, tambm foi estabelecido que essas caractersticas do voto (direto e

    secreto), no podem ser objeto de deliberao em emendas constitucionais, tendentes a

  • abolir, conjuntamente com a universalidade e periodicidade. (vide Art. 60, 4, inciso II

    CF/88).

    Classificado como um direito poltico, para que se possa votar necessrio

    anteriormente, do ponto de vista administrativo, tornar-se cidado. que, os direitos de

    cidadania so conquistados por meio do alistamento eleitoral, nos termos da lei, ou seja,

    a pessoa precisa se inscrever como eleitor Justia Eleitoral, e tal qualidade se

    materializar solenemente pelo ttulo de eleitor. Ressalta Jos Celso de Mello Filho

    (apud Macedo Nery, 2004, p. 3) que pela porta do alistamento eleitoral que se tem

    acesso aos domnios da cidadania.

    Muito se tem discutido acerca da natureza do voto, afinal, o voto um dever ou

    um direito? Encontra-se na doutrina brasileira duas posies dominantes e divergentes

    sobre a natureza do voto, bem compreendido nos dizeres de Regina Maria Macedo Nery

    Ferrari (2004, p.3): As duas escolas repartem as opinies, uma acolhe a ideia de

    soberania nacional e v o ato de votar como uma funo, a outra aceita a doutrina da

    soberania popular e entende o ato de votar como um direito.

    Quando o voto tido como um dever, ou uma funo, podemos destacar o

    pensamento de Sieys (1982), onde o supremo poder do Estado no cabe ao povo,

    conjunto de homens num determinado momento e em um determinado territrio, mas

    nao, que uma entidade abstrata e denota caractersticas mais profundas, passada

    pelas geraes. Neste entendimento, quem representa a nao e no o povo. Deste

    modo, ao votar o integrante acaba efetivando a vontade da nao soberana.

    Mas sobre Rousseau (apud Macedo Nery, 2004), deriva o entendimento do voto

    como um direito, enfatiza-se a ideia da soberania popular, sendo o poder soberano

    pertencente ao povo e cada membro desse corpo social titular de parte da soberania. O

    voto considerado ento como a expresso da vontade prpria, autnoma e individual

    daqueles que compe o quadro de eleitores.

    O voto possui invariveis caractersticas, e dentre elas, destacamos,

    oportunamente, algumas de suas espcies:

    Majoritrio: O candidato que obtiver maior nmero de votos que o(s) seu(s)

    concorrente(s), ser eleito.

    Proporcional: Baseado em um sistema de quocientes, consiste na diviso do

    nmero de votantes pelos postos a serem preenchidos, desta forma, o candidato que

    atingir determinado quociente estar eleito.

    Indireto: O eleitor outorga a outrem o seu direito de votar, ficando este

    incumbido de manifestar-se.

    Direto: efetivado na pessoa do eleitor, ou seja, de forma pessoal, no podendo

    ser delegado a terceiros.

    Distrital: O eleitorado dividido em distritos e cada distrito ter de eleger o seu

    representante parlamentar, que ficar vinculado s peculiaridades de seu distrito.

    Em Lista: Nessa modalidade o voto direcionado a um partido e no a

    candidatos, quanto mais o votos o partido obtiver mais candidatos sero eleitos. Desta

    maneira, o partido elaborar uma lista contendo os seus candidatos, em ordem de

    preferncia a serem eleitos.

    Secreto: Ocorre quando apenas o eleitor tem o conhecimento da efetivao do

    seu voto no momento da eleio.

  • Aberto: A escolha do candidato realizada pelo eleitor fica aberta ao

    conhecimento pblico no momento da eleio, ou seja, pode-se identificar qual

    candidato cada eleitor optou em votar.

    Nulo: Momento em que, numa eleio, o eleitor insere um nmero que no

    corresponde a nenhum candidato ou partido, desta forma, registra-se apenas para fins

    estatsticos.

    Branco: O voto em branco ocorre quando o eleitor no especifica no momento

    da eleio o candidato a ser votado, representado atualmente no sistema de urnas

    eletrnicas com uma tecla prpria, BRANCO. So registrados apenas por finalidades

    estatsticas, no sendo computados para nenhum candidato ou partido poltico.

    Como outrora salientado, os jovens que completam 16 anos de idade adquirem o

    direito ao voto, trata-se, guardadas as devidas propores, de uma maioridade poltico-

    eleitoral. um direito, tendo em vista o seu carter facultativo, que resultou das

    reinvindicaes do movimento estudantil poca da Constituinte de 1988, propiciando

    aos jovens a participao com os destinos do pas.

    Convm criticar tal medida? na adolescncia que o jovem passa pelas mais

    diversas transformaes da vida, sejam elas de ordem fsica, biolgica, psquica, moral,

    e porque no dizer social. Neste perodo da vida o ser humano busca sua afirmao e

    identificao com o meio social, tambm, realiza as suas escolhas que certamente

    definir o seu trajeto de vida, bem como a sua formao pessoal. Sendo assim, nada

    mais adequado do que ser inserido na vida poltica e cidad, j que a Democracia nos

    proporciona direitos liberdade, igualdade, e principalmente, direito de participao.

    Ademais, importante frisar que a insero na vida poltica e social deve ser

    respaldada e provida pela educao. Belssima a lio de Rousseau:

    Nascemos fracos, precisamos de fora; nascemos carentes de tudo,

    precisamos de assistncia; nascemos estpidos, precisamos de juzo.

    Tudo o que no temos ao nascer e de que precisamos quando grandes

    nos dado pela educao. (ROUSSEAU, 2012, p.04).

    Contudo, no se trata apenas de alfabetizao, mas sim de uma educao-poltica

    efetiva, que transforme jovens, em alunos-cidados ativos. Isto se torna possvel quando

    os adolescentes so devidamente instrudos e obtm contato com a coisa pblica. Ou

    seja, mostrar-lhes que com a sua participao se pode obter um futuro mais digno, justo

    e tico, sendo autores de uma mudana e no mais telespectadores de uma enjeitada

    realidade. No nos esqueamos, os jovens de hoje, so a sociedade do amanh.

    Ao tratarmos do assunto de uma educao-poltica:

    a constante participao no exerccio do poder que contribui

    com a educao de cidados ativos. A contribuio se d pela

    experincia direta, proporcionando ao cidado uma viso mais clara

    do funcionamento do governo e exigindo dele maior conscincia dos

    problemas do Estado. Participao popular e educao se fundem

    num crculo que deve ser preservado e aprimorado a cada

    instante, de gerao em gerao.(GOMES, 2006, p. 66, grifo

    nosso).

    Prevista pela Lei Maior de 1988, a educao assume papel preponderante para a

    efetivao da cidadania:

    Art. 205. A educao, direito de todos e dever do Estado e da famlia,

    ser promovida e incentivada com a colaborao da sociedade,

    visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o

    exerccio da cidadania e sua qualificao para o trabalho.

  • Como menciona o artigo acima exposto, a educao ser provida visando

    tambm o preparo das pessoas para o exerccio da cidadania. No sbio pensamento do

    Filsofo Mario Srgio Cortella, no se pode separar os conceitos de poltica e de

    cidadania, pois, um est diretamente relacionado ao sentido do outro, devendo ser

    abordados no ambiente educacional conjuntamente, completa:

    Ambas as palavras e aes se identificam. preciso recusar a recusa

    do termo poltica no espao educacional! Ainda temos essa rejeio ao

    conceito, como se ele pertencesse a uma rea menos significativa e

    menos decente que a cidadania. Ora, no se deve temer a identidade

    dos conceitos, pois s assim possvel construir cidadania, no sentido

    poltico do termo: bem comum, igualdade social e dignidade

    coletiva.(CORTELLA, 2002).

    Cortella tambm faz um alerta, que no papel da escola promover poltica

    partidria, porque partido ou questo de foro ntimo ou deve se dar nos seus espaos

    prprios, e que h uma diferena entre partidarizar (promover a poltica partidria) e

    politizar (promover a poltica em seu sentido amplo, da vida em sociedade), devendo ser

    a segunda obrigatoriamente difundida nas escolas, em seus projetos pedaggicos,

    possibilitando a efetividade da cidadania.

    Atualmente o voto no Brasil tem sido banalizado, e esta uma triste e rdua

    realidade a ser enfrentada. Seja pela falta de comprometimento com a poltica por parte

    da populao, de tempo hbil para se dedicar mais instruo, ou pela generalizada

    descrena nos candidatos, e at mesmo a no representao de quem conseguiu se

    eleger por meio do voto, fato : a poltica no Brasil vive pssimos dias!

    Casos de corrupo que vm tona, como os escndalos do Mensalo, do

    Petrolo e tantos outros, e a falta de esperana generalizada em encontrar nas eleies

    um candidato que seja no mnimo honesto e no esteja envolvido com um ou outro

    escndalo, faz com que a democracia v perdendo aos poucos a sua identidade e o voto

    o seu verdadeiro sentido, acarretando uma serie de efeitos negativos para todos os

    setores da sociedade.

    Em razo de todo esse cenrio prejudicial democracia brasileira, e

    consequentemente ao voto, evidencia-se que muitos brasileiros deixam de ir s urnas

    optar por seus representantes no dia das eleies, h tambm quem vai apenas para

    cumprir com o seu dever jurdico, o que no resulta no dever de cidado esperado de um

    eleitor, pois, efetivam os seus votos de maneira inconsciente, faltando com uma mnima

    reflexo prvia, fundamental tamanha importncia do exerccio desse direito. Mais

    lastimvel ainda quando se elegem os cativadores de multides, candidatos que obtm

    altos ndices de aprovao, no pelas suas propostas ou ideologias, mas,

    exclusivamente, por serem figuras carismticas e/ou miditicas.

    H de se criticar tambm o papel da mdia brasileira com relao s eleies,

    dever da mdia promover a informao e o conhecimento, porm, isso nem sempre

    ocorre de uma maneira imparcial. Dessarte, frente aos interesses polticos e econmicos

    ocultos, muitos meios de comunicao servem como instrumentos para a promoo de

    um partido ou candidato, deixando em segundo plano a incluso da informao, da

    discusso saudvel e equilibrada, que uma vida poltica desenvolvida requer.

    A exemplo, tal banalizao se escancara quando nos deparamos com situaes

    como a compra e venda de votos. Isso mesmo, compra-e-venda de votos, o voto como

    objeto de uma negociao monetria. A captao ilcita de sufrgio ou tambm

    denominado de crime de corrupo eleitoral previsto pelo artigo 299 do Cdigo

    Eleitoral:

  • Art. 299. Dar, oferecer, prometer, solicitar ou receber, para si ou para

    outrem, dinheiro, ddiva ou qualquer outra vantagem, para obter ou

    dar voto e para conseguir ou prometer absteno, ainda que a oferta

    no seja aceita: Pena recluso at quatro anos e pagamento de cinco

    a quinze dias-multa.

    Assim, ilustra Marcos Ramayana:

    No so alvos da captao ilcita de sufrgio promessas de melhorias

    em educao, cultura, lazer etc. O que a lei pune a artimanha, o

    toma l d c, a vantagem pessoal de obter voto. O pedido certo,

    determinado e especfico faz parte da petio inicial e deve ser

    cotejado com a tica da pessoalidade, do clientelismo e do

    amesquinhamento do voto. (RAMAYANA, 2009, p. 413).

    O voto vem sendo diminudo, descaracterizado em seu essencial valor e razo, e

    gradualmente banalizado.

    Os candidatos tm a oportunidade de divulgar suas ideias e projetos para a

    populao num perodo prximo s eleies, trata-se da propaganda poltica eleitoral. O

    marketing eleitoral vem se fortalecendo no pas, sejam pela propagao de cartazes,

    faixas, panfletos, vdeos, meios virtuais, comcios, ou slogans de campanha, os

    candidatos se esforam na tarefa de convencer os eleitores a tornarem seus adeptos. Esta

    a essncia da propaganda poltica, a arte do convencimento, para o filsofo Jean

    Baudrillard (apud RAMAYANA, 2009), a propaganda uma forma de venda, uma

    tcnica de influenciar a opinio pblica.

    Com o intento de promover o acesso informao e a discusso poltica para

    todos, cedido nas emissoras de televiso e de rdio um horrio destinado exposio

    das ideias e programas dos candidatos, previsto pela lei 9.504/97, o horrio eleitoral

    gratuito um importante instrumento para otimizar a participao poltica no pas.

    Existem adversidades, como a desigualdade de tempo entre os candidatos, em

    que os partidos mais fortes acabam possuindo quase todo o tempo disponvel, restando

    aos menores partidos, e no menos importante, poucos minutos para aproveitar dessa

    benevolente oportunidade.

    Ademais, com determinada frequncia os debates eleitorais so tomados por

    uma srie de calnias, ofensas, e ataques vida pessoal dos candidatos, desvirtuando-se

    a verdadeira discusso poltica na fissura de se sobrevaler aos demais candidatos, sem

    restries aos meios utilizados. Kant (apud MELLO, 2003) ao lidar com o espao da

    moral na poltica, condena a figura do moralista poltico e exalta o poltico moral: O

    poltico moral o que no subordina a moral s exigncias da poltica, mas o que

    interpreta os princpios da pureza poltica para faz-los coexistir com a moral.

    4. Crtica obrigatoriedade jurdica e a legitimidade do voto facultativo para o regime democrtico.

    A obrigatoriedade jurdica imposta pela Constituio Federal ao voto deve ser

    analisada com cautela. A obrigatoriedade jurdica aquela imposta por meio da lei e

    que o seu descumprimento enseja em sanes. Apesar da democracia em nosso pas

    ainda ser muito jovem, a ideia de promover a cidadania por esse mecanismo nos parece

    insuficiente. Alcanar o exerccio pleno da cidadania e o ttulo de cidado, no uma

    tarefa mecnica, to pouco, que se resume a titularidade de um documento. Requer, a

    princpio, o aprimoramento da participao, em sua qualidade.

  • No se trata tambm de uma aristocracia, que h participao apenas para os

    melhores, mas sim, de difundir o esprito poltico para toda a populao, despertar, abrir

    os olhos do povo, seja qual for sua condio social, para que o voto deixe de ser apenas

    um numero e que passe a representar efetivamente a vontade popular, expressada por

    meio de sua reflexo poltica consciente.

    O que se v que a obrigatoriedade jurdica imposta ao voto tem sido um

    mecanismo forte para promover a participao, mas se no for acompanhada de uma

    poltica educacional forte na rea, no passa de uma norma temerria, que impe apenas

    o dever jurdico ao voto, e no incute o dever poltico e social esperado do eleitor.

    Devemos, por conseguinte, valorizar o papel do dever-poltico, que s pode ser

    despertado e difundido por meio da educao em conjunto com o devido trato com a

    coisa pblica, e aviltar o dever jurdico, que tem nos conduzido a uma realidade no

    desejvel para nenhum povo, ensejando uma verdadeira runa dos ideais da democracia

    e do sistema representativo. A tratativa de temas a respeito da participao poltica e da

    escolha de representantes requer uma maior sensibilidade, planejamento e empenho por

    parte do poder estatal, sob pena de incorrer no erro de se formar seres alienados

    politicamente, ao invs de tpicos cidados.

    Segundo a Constituio Federal da Repblica, em seu Artigo 1, pargrafo

    nico: Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos

    ou diretamente, nos termos desta Constituio. (grifo nosso).

    Faz-se claro, a partir da, que o poder advm do povo, sendo este o formador da

    sua prpria soberania. Assim, consoante concepo de Jean Jacques Rousseau, de

    soberania popular, cada individuo tem o direito de expressar sua vontade, sendo um

    direito, o voto facultativo, uma escolha que requer liberdade e nada pode obrigar o

    cidado a votar. Todavia, haveria uma contradio entre os dispositivos constitucionais

    que estabelecem a soberania popular e a obrigatoriedade do voto?

    Adotar a ideia da soberania popular materializa o poder previsto pela Norma

    Maior, o povo deixa de ser uma figura abstrata de retrica, e se torna um povo concreto,

    real e livre de atrocidades antidemocrticas.

    Sobre tudo anteriormente exposto, destacamos que a adeso do voto facultativo,

    juntamente com outras medidas educacionais, pode e deve aprimorar a democracia no

    nosso pas, sobre a premissa de que o que confere legitimidade ao voto no a sua

    quantidade em si, ou seja, a massificao da participao, mas sim a qualidade,

    consistente num exerccio consciente, coerente, pensado, de verdadeiros cidados

    brasileiros.

    O voto facultativo a escolha livre, a opo por excelncia. Ningum

    vai Seo Eleitoral para anular seu voto ou votar em branco. J o voto

    obrigatrio um retrocesso democrtico que s interessa aos

    mercadores da conscincia, aos que aviltam a liberdade, valor maior do

    ser humano. (MEDEIROS VIEIRA, 1994).

    No cenrio mundial poucos so os pases que ainda insistem na adoo do voto

    obrigatrio em seus sistemas eleitorais. interessante trazer tona, que os pases que

    apresentam os melhores ndices de desenvolvimento econmico, social e cultural, bem

    como, detm os maiores PIB(s) do mundo, considerados como verdadeiros modelos a

    serem seguidos, como os Estados Unidos, Canad, Alemanha, Frana, Reino Unido,

    Itlia, Espanha, Rssia, ndia, Coreia do Sul, Japo e at a China, se utilizam do voto

    facultativo.

  • Ainda, baseado em dados da CIA (Central Intelligence Agency), o voto,

    atualmente, compulsrio em apenas 21 pases do mundo, sendo que 12 desses pases

    esto na Amrica Latina.

    Por fim, uma eventual mudana no sistema eleitoral brasileiro para abolir o voto

    obrigatrio e aderir ao voto facultativo seria perfeitamente possvel do ponto de vista

    jurdico, uma vez que o dispositivo constitucional que abrange a obrigatoriedade ao

    voto no uma clusula ptrea, ou seja, ele pode ser devidamente alterado por uma

    emenda constitucional.

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