a percepcao da mudanca

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SI SERIE rq78

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liDoutor em Lingstica pela Salford Unlverslty (G.-B.)Professor do Universidade Federal do Parpn

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Carlos Alberto Faraco

A

LINGSTICA

HISTRICAuma introduo ao estudo da histria das lnguas

A percepo da mudana

As lnguas mudamcom o passar do tempo

A realidade emprica central dalingstica histrica o fato de

que as lnguas humanas mudam com o passar do tempo. Em outras palavras, as lnguas humanas no constituem realidades estticas; ao contrrio, sua configurao estru tural se altera continuamente no tempo. E essa dinmica que cons titui o objeto de estudo da lingstica histrica, Os falantes normalmente no tm conscincia de que sua ln gua est mudando. Parece que, como falantes, construmos uma ima gem da nossa lngua que repousa antes na sensao de permanncia do que na sensao de mudana.

Muitas so as razes para se criar uma tal imagem da lngua. Entre elas, o prprio fato de que as mudanas lingsticas, embora ocorrendo continuamente, se do de forma lentaj o que faz com que s excepcionalmente percebamos esse fluxo histrico no nosso cotidiano de falantes.

Alm disso, as mudanas atingem sempre partes e no o todo da lngua, o que significa que a histria das lnguas se vai fazerido

num complexo jogo de mutao e permanncia, reforando aquela imagem antes esttica do que dinmica que os falantes tm de sua lngua.

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LINGSTICA histrica

A PERCEPO DA MUDANA

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Por outro lado, as culturas que operam com a escrita que , por suas propriedades, histria e funes sociais, uma realidademais estvel e permanente que a lngua falada desenvolvem um

Lenda do Rei Lear

Este rrey Leyr nom ouue filho, mas ouue trs filhas muy fermosas eamaua-as muito. E huum dia ouue sas rrazoes com ellas e disse-lhes

padro de lngua que, codificado em gramticas, cultivado pelos letrados e ensinado pelas escolas, adquire um estatuto de estabilidade

e permanncia maior do que as outras variedades da lngua, funcio nando, conseqentemente, nos como refreador temporrio demu danas, mas principalmente como ponto de referncia para a imagem que os falantes constrem da lngua.

H, porm, situaes em que os falantes acabam por perceber a existncia de mudanas. Isso ocorre quando, por exemplo, os fa lantes so expostos a textos muito antigos escritos cm sua lngua; ou convivem mais de perto com falantes bem mais jovens ou bem mais velhos; ou interagem com fak.ntes de classes sociais que tm estado excludas da experincia escolar e dacultura escrita, ou que tm pouco acesso a ambas; ou ainda quando escrevem e encontram dificul

que lhe dissessem verdade, qual d'ellas o amaua mais. Disse a mayor que nom auia cousa no mundo que tanto amasse como elle; e disse a outra que o amaua tanto como ssy mesma; e disse a terceira, que era a meor, que o amaua tanto como deue d'amar filha a padre. E elle quis-lhe mall porm, e por esto nom lhe quis dar parte do rreyno. E ca sou a filha mayor com o duque de Cornoalha, e casou a outra com rrey de Scocia, e nom curou da meor. Mas ela por sa vemtulra casou-se me lhor que nenha das outras, ca se pagou d'ella el-rrey de Frama, e filhou-a por molher. E depois seu padre d'ella em sa velhice fllharomIhe seus gemrros a terra, e foy mallandamte, e ouue a tornar aa meree d'ell-rrey de Frama e de sa filha, a meor, a que nom quis dar parte do rreyno. E elles reeberom-no muy bem e derom-lhe todas as cousas que lhe forom mester, e homrrarom-no mentre foy uiuo; e morreo em seu poder. (Transcrito de Vasconcelos, 1970, p. 40-1.)Lenda do Rei Lear

dades para se adequar a certas :struturas do padro de lngua cultivado socialmente na escrita.

Evidencia-se nessas situaes pelo contraste entre uma ima gem que se tem da lngua, e a realidade o fato de que a lngua pas sou ou est passando por mudanas. So situaesque envolvem ma nifestaes lingsticas ocorridas em momentos bem claramente dis tanciados no tempo; ou diferentes geraes convivendo no mesmo mo

Este rei Lear no teve filhos, mas teve trs filhas multo formosas oamava-as muito. E um dia teve cem elas uma discusso e disse-lhes

mento histrico; ou a ao lingstica de grupossociais no atingidos mais diretamente pelo policiamento social sobre as formas da lngua; ou aindao relativo conservadorismo da escrita. Elas deixam claro que no fluxo do tempo a lngua se transforma, isto , que estruturas e'Jf*

que lhe dissessem a verdade, qual delas o amava mais. Disse a maior que no havia coisa no mundo que amasse tanto como a ele; e disse a outra que o amava tanto como a si mesma; e disse a terceira, que era a menor, que o amava tanto como deve uma filha amar um pai. E ele lhe quis mal por Isso, e por Isso no lhe quis dar parte no reino. E casou a filha maior com o duque da Cornualha, e casou a outra com o rei da Esccia, e no cuidou da menor. Mas ela por sua sorte casou melhor que as outras, porque se agradou dela o rei da Frana, e tomou-a

por mulher. E depois a sou pai em sua velhice tiraram-lhe os genrosa terra, e ficou infeliz, e teve de recorrer merco do rei da Frana e

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palavras que existiam antes no ocorrem mais ou esto deixando de ocorrer; ou, ento, ocorrem modificadas em sua forma, funo e/ousignificado.

de sua filha, a menor, a quem no quis dar parte do reino. E eles o receberam muito bem e deram-lhe todas as coisas que lhe foram neces

srias, e o honraram enquanto foi vivo; e morreu na casa deles.

Desconsiderando as diferenas grficas (lembrar apenas que a

grafia portuguesa medieval tinha uma configurao fontica, tendom

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tivas iniciadas por preposio: O livro de que mais gostei foi Sempreviva. Elas esto em franco processo de desaparecimento no verncu lo, isto , na lngua falada em situaes espontueas de interao, nas quais se diz preferencialmente: O livro que mais gostei foi Sempreviva. Apesar disso, elas se mantm fortes na lngua escrita (cf. Tarailo, 1985, Cap. 4) e, por isso mesmo, constituem uma dificuldade es pecial para aqueles que escrevem, principalmente para os que ainda no desenvolveram um domnio amadurecido da escrita, dificuldade

bre a fala, decorrendo da a preservao de padres mais conservadores de linguagem e o conseqente bloqueio entrada de formas inovadoras. Segundo, as atividades escritas esto, cm sua maioria, ligadas a contextos sociais marcados de formalidade, e os estudos sociolingsticos mostram que h uma forte correlao entre situaes for mais e o uso preferencial de formas lingsticas mais conservadoras: o falante, para satisfazer s expectativas sociais, procura evitar nes ses contextos formas prprias do vernculo. Assim, inovaes comuns na lngua falada j aceitas, muitas vezes, at em situaes formais de fala no so, de imediato, acei tas na escrita, chegando, inclusive, a receber condenao explcita de gramticos e de outros estudiosos. Essa situao toda d ao lingista preciosas indicaes de pos sveis processos de mudana (ver, por exemplo, Cmara Jr., )972b). Alm disso, sugere a possibilidade de se estabelecer uma espcie de escala progressiva de implementao das mudanas: elas costumam se desencadear na fala informal de grupos socioeconmicos interme dirios; avanam pela fala informal de grupos mais altos na estrutu ra socioeconmica; chegam a situaes formais de fala e s ento co meam a ocorrer na escrita. Deve ficar claro, nesse ponto, que nem todas as mudanas pas sam necessariamente por essa escala. Muitas permanecem socialmen te estigmatizadas, o que lhes bloqueia o caminho da expanso por outras variedades da lngua, deixando-as como marcas identificadoras de variedades sem prestgio social. Por outro lado, vale lembrar que nem todas as diferenas entre fala e escrita so sinais de mudana; boa parte delas simplesmente decorrente de caractersticas prprias da oralidade em oposio quelas prprias da escrita. No custa observar, nesse sentido, que o fato de a substncia da escrita ser mais duradoura que a da fala permitiu, ao longo da histria da escrita, o uso e o desenvolvimento de, por exemplo, re

que pode despertar no falante a percepo de que sua lngua estmudando.

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cursos sintticos que no so adequados substncia da fala (por no serem compatveis com os limites da memria curta, com a qual ope ramos na fala), como sentenas longas contendo sucessivas intercalaes de outras sentenas. A comparao entre fala e escrita, nesse caso particular, ape nas nos revelar especificidades de cada uma das modalidades, no

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*fonoce^ul d * .eSttU1' U Seja'sonora de de Prin"Ps erela es que H organizao realidade sistema cada lngua

O que pode mudar nas lnguas Qualquer parte da lngua pode mudar, desde

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trica zmun"?fTna' COStXima^ distinS. em lingstica his-

aspectos da pronncia at aspectos de sua organizao semntica c

pragmtica.

Aclassificao geral das mudanas feita utilizando-se os dife

ZdaZtri? eT Se8mentS em dete"*in*dos ambiene^mnfZ " da TdanP fonoIg*a - que envolve alteraes, por 111: TerdC Unidades relaes entre essas chamado nemasU, portanto, no sistema deSonoras distintivas (~ unidades /o-

rentes nveis comuns no trabalho de anlise lingstica. Assim, na his tria duma lngua, pode haver mudanas fontico-fonolgicas, morfolgicas, sintticas, semnticas, lexicais, pragmticas. O nvel mais estudado at agora em lingstica histrica o Conetico-fonolgico. Como resultado, h, para a descrio de fen

.,h gus k T- Ss"bst,tui0 de Cl Por palavrasfim de slabaZtc?sol brasileiro alterou apronncia de |w\ no como alio, no portu dado, mas naoalterou onmero de fonemas do portugu (o |'con tmua existindo como unidade sonora distintiva). ''

lrio tcnico corrente entre os lingistas para