A Percepção Ambiental dos Pequenos Agricultores da ... ?· A Percepção Ambiental dos Pequenos Agricultores…

Download A Percepção Ambiental dos Pequenos Agricultores da ... ?· A Percepção Ambiental dos Pequenos Agricultores…

Post on 09-Nov-2018

212 views

Category:

Documents

0 download

TRANSCRIPT

  • A Percepo Ambiental dos Pequenos Agricultores da regio de

    Araraquara. Marina Strachman

    Mestranda do programa de Ps Graduao em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente-

    UNIARA marinastrachman@yahoo.com.br

    Maringela Tambelini

    Docente do programa de Ps Graduao em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente-

    UNIARA

    mtambelini@hotmail.com

    Introduo

    Na regio de Araraquara encontram-se solos frteis para o plantio, que

    necessitam de ateno especial, uma vez que estamos em rea de recarga do Aqfero

    Guarani, regio de arenito com remanescente de vegetao do cerrado e que, segundo

    REATTO et al. (1998), vm sofrendo degradaes decorrentes das modificaes

    ambientais induzidas pelo homem, entre os quais encontramos principalmente o

    desmatamento, o uso do fogo, a substituio da flora e fauna por lavouras, a

    introduo de insumos e pesticidas, dentre outros.

    KRONKA et al. (1998), reforam a gravidade da situao alertando

    especificamente sobre a regio em estudo: a regio de Araraquara sofreu uma

    reduo de 87% nas reas das diversas formaes de cerrado entre 1962 e 1992, nas

    quais a ocupao do solo foi substituda por cana-de-acar e citricultura.

    A discusso de questes relacionadas preservao ambiental, estrutura

    social, patrimnio cultural e aspectos econmicos na regio deveria realizar-se no s

    academicamente, mas tambm no mbito de toda a sociedade local, buscando

    partilhar responsabilidades na construo de um ambiente mais saudvel, em todos

    estes aspectos.

    A questo da sustentabilidade uma preocupao pertinente ao quadro

    ambiental e social na atualidade, entretanto existem interesses e tambm conceitos

    distintos para o estabelecimento de parmetros sobre o que seja um ambiente

    sustentvel. Os termos sustentabilidade e desenvolvimento sustentvel, esto

    mailto:marinastrachman@yahoo.com.br

  • associados a conceitos econmicos, ambientais, sociais, sendo a nfase dependente da

    rea de formao dos profissionais envolvidos na discusso.

    ALIROL (2001, p.24) refora esta idia ao dizer que diferentes atores no

    vem os problemas ambientais e de desenvolvimento da mesma maneira(...). O

    sentimento de responsabilidade, ou a idia que dele se faz, varia enormemente,

    conforme a categoria social ou profissional qual se pertence.

    Para GLIESSMAN (2000, p.52) a sustentabilidade significa coisas

    diferentes para distintas pessoas, mas h uma concordncia geral de que ela tem uma

    base ecolgica O mesmo autor (op. cit.) nos d a sua verso de sustentabilidade: no

    sentido mais amplo a sustentabilidade uma verso do conceito de produo

    sustentvel - a condio de ser capaz de perpetuamente colher biomassa de um

    sistema, porque sua capacidade de se renovar ou ser renovado no comprometida.

    Um estudo de algumas opes para o desenvolvimento sustentvel, incluindo

    prticas agrcolas alternativas utilizadas na regio, faz-se necessrio, pois a cidade de

    Araraquara uma das cidades do importante plo agrcola do Estado de So Paulo.

    Encontra-se situada em posio estratgica na rea central do Estado, cercada de

    grandes vias de escoamento (rodovia Washington Luiz, rodovia Anhangera, rodovia

    dos Bandeirantes, linha frrea e hidrovia). Este setor agrcola de grande importncia

    para o cenrio econmico do pas, atendendo o mercado interno e externo de acar e

    lcool e tambm um importante exportador de Citrus in natura e em suco.

    Em meio a este cenrio de indstrias de grande porte e de grandes produes

    agrcolas, encontram-se alguns stios onde pequenos agricultores rurais esto

    procura de melhores condies de produo e qualidade de vida.

    importante perceber as necessidades dos pequenos agricultores, entender

    sua dinmica de trabalho, antes de impor algum tipo de interveno no sentindo de

    adequar e controlar sua produo, pois as necessidades no so necessariamente as

    mesmas. Vrios fatores interferem nas questes dos valores adotados por cada

    agricultor, uma vez que valor um parmetro relativo s necessidades de cada

    indivduo.

    Neste sentido tornam-se necessrios os trabalhos de percepo e educao

    ambiental para sensibilizar, conscientizar e poder trabalhar conjuntamente as

  • dificuldades ou dvidas que o interlocutor possa vir a ter quando discutidas e

    apresentadas s questes ambientais. STRANZ, PEREIRA et alli (2002, p.222)

    enfatizam que a educao ambiental um processo permanente no qual os

    indivduos e a comunidade tomam conscincia do seu meio ambiente e adquirem

    conhecimentos, valores, habilidades, experincias e determinao que os tornem

    aptos a agir e resolver problemas ambientais presentes e futuros.

    Objetivos

    Este trabalho tem como objetivos caracterizar a percepo de uma parcela de

    pequenos produtores rurais da regio de Araraquara, discutir sua forma de produo

    frente a questo da sustentabilidade e gerar dados para a elaborao de um trabalho

    educativo adequado e direcionado para a agricultura sustentvel.

    Procedimentos metodolgicos

    O objeto de estudo desta pesquisa so os produtores agrcolas de hortifruti que

    comercializam na praa Pedro de Toledo aos sbados. De um total de 34 produtores

    que possuem bancas de venda neste local, 19 (56%) foram entrevistados. Estes foram

    escolhidos ao acaso, entre os presentes durante os quatro dias em que foram efetuadas

    as entrevistas, previamente estruturadas, com questes abertas, de acordo com

    VIERTLER (2002, p.16).

    Entre os nossos entrevistados encontramos trs universos relativamente

    distintos: 84% so provenientes de assentamentos da regio de Araraquara, sendo que

    63% so moradores do assentamento Monte Alegre, 21% so moradores do

    assentamento Bela Vista do Chibarro e 16% so pequenos proprietrios rurais da

    regio. O Monte Alegre um assentamento de rea maior que o Bela Vista do

    Chibarro (so 358 lotes no primeiro e 176 lotes no segundo), constitudo de seis

    ncleos (diviso adotada para a implantao das famlias). Sua rea encontra-se

    dentro do limite de trs municpios: Araraquara, Mato e Motuca. um assentamento

    mais populoso, portanto existem mais entrevistados provenientes deste local.

  • Resultados e Discusso

    Podemos perceber que a grande maioria dos agricultores entrevistados (84%)

    prefere viver no stio, 11% moram na agrovila e 5% (correspondente a um

    entrevistado) reside na cidade.

    Muitos migrantes se encontram entre os agricultores da regio, sendo 63% dos

    entrevistados provenientes de outros Estados, principalmente da regio nordeste. H

    ainda os originrios do Paran, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul; apenas 37%

    nasceram em Araraquara ou regio.

    Estes dados corroboram uma afirmao de SILVA (2003, p. 19) onde a partir

    de vrias pesquisas com trabalhadores da regio de Ribeiro Preto/SP, verificou-se

    que a migrao constitui um dos componentes de suas trajetrias.

    Tanto entre os nascidos em Araraquara e regio quanto entre os migrantes, as

    experincias vividas so bem semelhantes. So pessoas sofridas, que em sua maioria

    sempre viveu no campo ou alternou com algum outro tipo de atividade, por

    necessidade. Entre os migrantes, as histrias dos motivos que os fizeram vir para a

    regio so bem parecidas, relacionam-se com a esperana de encontrar um futuro

    melhor , como nos relata um de nossos entrevistados, nascido em Minas Gerais:

    Todos os nortistas, seja do norte do Brasil, ou do norte de Minas ficam a

    procura daquela melhora que nunca encontra, e no nosso Brasil para achar a

    melhora, s pedindo para Deus do cu descer na terra para comandar...

    Notamos a predominncia de casais com filhos (95%). O trabalho familiar

    tambm predominante; em 78% dos casos os casais trabalham com pelo menos um

    dos filhos, 84% dos casais trabalham juntos, em apenas 11% dos casos o entrevistado

    trabalha somente com um ou mais ajudantes no familiares.

    Muitos agricultores foram para os assentamentos com suas famlias e

    contando com a ajuda destes, com a inteno de resgatar um pouco da dignidade

    roubada pelas adversidades da vida na cidade, pelas condies impostas queles que

    no possuem uma formao acadmica mais especializada.

  • Para CHONCHOL (2003, p. 67) em artigo sobre assentamentos rurais de So

    Paulo, trata-se de trabalhadores de origem rural, que, sob os impactos da

    modernizao capitalista na agricultura, foram expulsos do campo a cerca de 30 anos,

    para as zonas urbanas. Desde ento, eles buscavam, sem sucesso, um habitat

    definitivo nas cidades da regio e um emprego permanente que lhes permitisse

    construir, na regio urbana, uma nova vida com suas famlias. As peregrinaes nas

    periferias urbanas sem, no entanto que tivessem abandonado o corte da cana-de

    acar - tm marcado este grupo de bias frias que, tanto quanto outros, sonharam

    com a cidade e agora desejavam retornar terra.

    Entretanto, ANTUNIASSI (2003, p 60.), diz que importante ressaltar que

    resta nos assentamentos uma populao de agricultores pobres, muitas vezes no limite

    da sobrevivncia e que somente graas a seus prprios esforos, podem ali

    continuar.

    Em 63% dos entrevistados neste estudo pudemos perceber que os filhos

    trabalham ou estudam fora, ou ento at j constituram outra famlia e moram em

    outra cidade.

    O problema da continuidade do trabalho com a terra real para estes

    agricultores, pois muitos dos seus filhos esto deixando as plantaes e a vida no

    campo. Essa problemtica se d por falta de renda suficiente para manter um padro

    de vida considerado razovel pela nova gerao - por razovel, aqui, deve-se

    entender: alimentao, vestimenta, sade, gua, energia, transporte, educao para

    quatro pessoas. Muitos destes agricultores no esto ganhando o suficiente para

    manter suas famlias na terra; ento, aquele que tem condio, sai procura de

    melhores oportunidades. Alm disso, defrontamo-nos com a falta de propostas

    concretas visando formulao de polticas pblicas que favoream economicamente

    e socialmente este grupo, e que sejam promotoras de atitudes favorveis ao processo

    de desenvolvimento sustentvel.

    A prefeitura Municipal de Araraquara, em uma iniciativa modelo, concede o

    transporte das mercadorias e da maioria dos assentados at as feiras e ainda, atravs

    de convnios, promove vrios cursos de capacitao para produtores rurais, em

    conjunto com o SAI, ITESP, REGAR e FMO.

  • De acordo com BARONE & FERRANTE (2003, p. 158) particularmente o

    poder pblico municipal (as Prefeituras) at recentemente, pouca participao tinha

    nos destinos dos assentamentos(...). J no segundo exerccio do governo Fernando

    Henrique Cardoso (1999-2002), atravs da poltica expressa no documento

    Agricultura Familiar, Reforma Agrria e Desenvolvimento Local para um Novo

    Mundo Rural, a importncia dessa esfera de governo cresce significativamente na

    gesto de polticas para os assentamentos. (...) H anos, a questo da descentralizao

    das experincias de assentamentos vem sendo discutidas.

    Para SPAROVEK (2003, p. 137), os fatores que fixam as famlias no campo

    so vantagens decorrentes diretamente do acesso a terra, o autor ainda ressalta que

    (...)o fator preocupante est relacionado aos valores absolutos de renda, que em

    muitos Estados foi muito baixo e que (...) a renda mensal por famlia nos

    assentamento do estado de So Paulo, assentadas de 1985 a 1994, de R$ 317,00

    (trezentos e dezessete reais).

    Em nosso levantamento verificamos que 68% ganham entre R$500,00 e

    R$1000,00 por ms, o que no modifica a condio citada por SPAROVEK (op.cit.),

    considerando-se que sua pesquisa apresenta dados at 1994.

    Nem todos vivem s de agricultura, 63% completam sua renda com o trabalho

    do filho ou marido, aposentadoria, aluguel, arrendamento de parte da rea para

    cultivo de cana, penso do filho, ou ainda o comrcio de peixes com pesque e pague.

    A maioria vive do trabalho agrcola desde a infncia de forma contnua ou

    alternando com outro tipo de servio. Percebemos um crculo vicioso neste dado que

    reflete a formao acadmica dos entrevistados; a maioria estudou somente por volta

    da 4 srie do ensino fundamental (68%) e 16% no sabem ler ou escrever.

    A questo social que este dado encerra preocupante e possui implicaes

    sobre questes ambientais e de sade pblica, pois alm de representar uma

    porcentagem da populao excluda de decises, privada de acesso cultural e de

    atividades sociais, tambm restringe as oportunidades de acesso s informaes que

    so freqentemente veiculadas sobre a temtica. Tais informaes so necessrias

    para a adoo de tcnicas agrcolas mais apropriadas, para a manuteno da sade da

    populao e para a sustentabilidade ambiental. A incluso social se faz necessria e

  • alguns no se contentam com o pouco que conseguiram. Dois dos entrevistados

    contaram que esto estudando novamente, pois na agrovila foram implantadas aulas

    noturnas.

    Acompanhe o depoimento de uma agricultora:

    Eu estudei at a 3 srie e ano passado voltei a estud; agora estou na 5

    srie! Eu t estudando noite na escola; bom estudar, eu me distraio.

    CORTELLA (2001, p. 52) lembra que: No podemos esquecer o

    analfabetismo de adultos! Muitos dentre aqueles que hoje falam euforicamente sobre

    o aumento da universalizao do ensino fundamental no Brasil, ou omitem

    deliberadamente a imensa massa de cidados adultos ainda analfabetos, ou, pior,

    defendem a no-necessidade de investir recursos para alfabetiz-los.

    preciso criar mecanismos que levem a comunidade a se interessar, a

    interagir, criar senso crtico e aprender a cuidar do espao a seu redor. SATO & PASSOS (2002, p. 248) comentam que a participao ativa da comunidade faz-se

    fundamental. Para tal participao, todavia, devem-se criar mecanismos educacionais

    eficientes que realmente incentivem o exerccio de cidadania da comunidade para a

    manuteno dos ambientes de uma forma sustentvel.

    Para SORRENTINO (2002, p.97) citando HALL (1993) a educao

    ambiental como instrumento para o desenvolvimento sustentvel no pode realizar-se

    por si s, necessita de apoios como:

    um sistema de formao e orientao da opinio pblica neste campo;

    um sistema de formao e capacitao de recursos humanos para a

    educao, tomada de decises, administrao e execuo de polticas;

    um sistema scio-econmico que satisfaa as necessidades bsicas de

    trabalho, alimentao, moradia, energia, vestimenta, sade e educao da populao;

    um sistema cientfico e tecnolgico que promova uma tecnologia limpa e

    adequada (de poucos dejetos ou sem eles);

    um sistema de administrao pblica e privada que demonstre, na prtica,

    capacidade e vontade de promoo e controle da sustentabilidade nas atividades de

    desenvolvimento;

  • uma poltica de participao cidad na tomada das decises e na execuo

    de obras de desenvolvimento;

    um sistema jurdico que contribua para considerar e cumprir com a

    sustentabilidade das atividades de desenvolvimento;

    um sistema financeiro que garanta os recursos econmicos necessrios para

    o desenvolvimento da educao formal.

    O modelo de agricultura que os entrevistados relataram utilizar varia entre o

    convencional (11%), a agricultura natural (84%) e temos uma entrevistada (5%)

    que produz plantas ornamentais. Entre os que disseram ser praticantes de agricultura

    natural, a maioria (56%) foi levada a esta forma de produo devido a questes

    econmicas. Muitos destes relataram claramente que comearam a prtica da

    agricultura natural por falta de recursos econmicos para a compra de insumos

    qumicos para a plantao; outros deram indcios de que os motivos que os levaram a

    essa prtica so econmicos.

    Para SCHORR (1996, p.14) agricultura convencional aquele sistema

    agrcola que possibilita uma produo alimentar em grande escala(...) a

    homogeneizao da produo e do ambiente e ainda ...preocupa-se em controlar e

    no em conviver com os chamados insetos e ervas daninhas, e busca excluir outros

    fatores ecolgicos e naturais, atravs do uso de tcnicas que possuem em sua base a

    utilizao de produtos qumico-sintticos, engenharia gentica industrial,

    biotecnologia, manejo mecnico intensivo de solos.

    Em artigo de EHLERS (2001, p.12) sobre agricultura orgnica, de acordo

    com a Lei N 659/99, aprovada em dezembro de 2000 pela Comisso de Agricultura e

    Poltica Rural do Congresso Nacional, considerado um sistema orgnico de

    produo: todo aquele em que se adotam tcnicas especficas, mediante a otimizao

    do uso de recursos naturais e socioeconmicos disponveis, tendo por objetivo a

    sustentabilidade econmica e ecolgica, a maximizao dos benefcios sociais, a

    minimizao ou a eliminao da dependncia de energia no renovvel e de insumos

    sintticos e a proteo do meio ambiente....

    WHITAKER & FIAMENGUE (2000, p.25) afirmam que a ao dos

    agricultores nos assentamentos da reforma agrria da Fazenda Monte Alegre (regio

  • de Araraquara S.P.), est promovendo uma transformao ambiental, devido

    diversificao no uso e na ocupao do solo da regio.

    Apesar desta diversificao no uso do solo e de se considerar que a maioria

    dos agricultores relata estar utilizando tcnicas naturais de produo, ainda

    encontramos uma grande distncia entre o que constatado e o que pode ser definido

    como forma sustentvel de produo.

    Assim, nas visitas de reconhecimento que fizemos a alguns stios, dois

    agricultores, que nas entrevistas disseram ser praticantes de agricultura natural,

    tinham aplicado, na poca das chuvas (janeiro/fevereiro), agrotxicos em suas

    plantaes. Um deles justificou a atitude como uma providncia emergencial

    necessria, visto que o tcnico passou em sua propriedade uma vez e retornou

    somente aps 60 dias.

    Portanto, parece que os tcnicos da Prefeitura e da REGAR, por motivos

    desconhecidos pela pesquisadora, esto tendo dificuldades em manter uma assistncia

    mais freqente queles agricultores naturais que optaram pela prtica mais

    recentemente. Estes agricultores no possuem o conhecimento tcnico necessrio

    para manter esta forma de produo diante das adversidades e, por medo de perder a

    colheita, recorrem s tcnicas convencionais por eles conhecidas, prejudicando a

    forma natural de produo.

    BARONE (2000, p.62) relata que, em uma entrevista com o corpo tcnico que

    trabalha junto ao Monte Alegre, uma frase dita por um entrevistado estamos

    aprendendo a fazer a Reforma Agrria camufla uma srie de fracassos,

    desentendimentos e abandono. Aps quinze anos do incio de uma poltica de

    assentamentos no Estado, pode-se avaliar que pouco ou nada se aprendeu (...) A

    prpria proposta de plantio de cana nos assentamentos, vista, nos ltimos cinco anos,

    como uma ameaa tanto para o Monte Alegre como para o Bela Vista, tem sua

    primeira divulgao dentro do corpo de tcnicos do Estado de So Paulo. O autor

    (op. cit) descreve mais adiante que a distncia cultural outro problema crucial

    nesta tensa relao. O que por vezes qualificado pelos agrnomos de pobreza

    cultural, no outra coisa seno a intraduzibilidade dos mundos distintos vividos

    por tcnicos e assentados.

  • Foi constatada, nas visitas e entrevistas, esta intraduzibilidade relatada por

    BARONE (2000, p.62), e que esse fato faz parte da histria dos assentamentos.

    Percebemos uma dificuldade para estabelecer uma forma de dilogo onde se valorize

    tanto o conhecimento tcnico quanto o tradicional.

    necessrio que haja um maior investimento em pessoal tcnico e condies

    materiais, criando maiores possibilidades para a adoo de novas idias e tcnicas.

    Uma questo que merece ateno relaciona-se aos produtores que praticam a

    agricultura natural por falta de crdito, e no por opo relacionada a preocupao

    ambiental. Estes devem ser conscientizados de que esta prtica promove benefcios

    ao solo, s plantas e sade, mas que podem ser perdidos com o retorno s prticas

    convencionais de cultivo.

    Os trabalhos educacionais de conscientizao ambiental podero contribuir na

    melhoria da relao entre tcnicos e agricultores, bem como na adoo e permanncia

    de tcnicas que favoream a sustentabilidade.

    O agricultor est procurando a melhor maneira para incrementar a produo e

    sai procura do auxlio tcnico. O poder pblico local tem as parcerias necessrias e

    o apoio tcnico (os prprios tcnicos da prefeitura, a FMO, o SAI e o ITESP), porm

    notamos que esta rede est ainda muito frgil. H necessidade de esforos conjuntos

    para seu fortalecimento, buscando tornar o pequeno produtor mais capacitado para

    lidar com as tcnicas naturais de produo, melhorando sua renda e sua qualidade de

    vida, e constituindo um elo forte na construo e manuteno de um ambiente mais

    saudvel.

    BIBLIOGRAFIA:

    ANTUMASSI, Maria Helena Rocha. 15 Anos de Assentamento de

    Trabalhadores, Rurais no Estado de So Paulo. In: BERGAMASSO, Sonia Maria

    P.P., AUBRE, Marion e FERRANTE, Vera Lucia B. Dinmicas familiar,

    produtiva, e cultural nos assentamentos rurais de So Paulo. Ed.

    FEAGRI/UNICAMP; UNIARA; INCRA. Campinas-SP, Araraquara-SP, So Paulo

    SP.p. 47-65. 2003.

  • ALIROL, Philippe. Como Iniciar um Processo de Integrao. In: VARGAS,

    Heliana C., RIBEIRO, Helena (orgs.). Novos Instrumentos de Gesto Ambiental

    Urbana. Editora da Universidade de So Paulo-EDUSP. So Paulo-SP. p. 21-42.

    2001.

    BARONE, Lus Antonio. Assistncia tcnica aos assentamentos de Reforma

    Agrria: da poltica reativa ao vazio de projeto o caso do Estado de So Paulo

    (Brasil).In: FERRANTE, Vera Lucia S. Botta. Retratos de Assentamentos. Caderno

    de Pesquisa , ano VI,n8. p.55-67.2000.

    BARONE, Lus Antonio & FERRANTE, Vera Lucia S. Botta. Assentamentos

    Rurais e Poder Local: Os Rumos da Descentralizao da Reforma Agrria. In:

    BERGAMASSO, Sonia Maria P.P., AUBRE, Marion e FERRANTE, Vera Lucia B.

    Dinmicas familiar, produtiva, e cultural nos assentamentos rurais de So

    Paulo. Ed. FEAGRI/UNICAMP; UNIARA; INCRA. Campinas-SP, Araraquara-SP,

    So Paulo SP.pg157-186. 2003.

    CHONCHOL, Maria E. F. Assentamento Monte Alegre: Conflitos e

    Negociaes nas Ocupaes e Terras. In: BERGAMASSO, Sonia Maria P.P.,

    AUBRE, Marion e FERRANTE, Vera Lucia B.(orgs.) Dinmicas familiar,

    produtiva e cultural nos assentamentos rurais de So Paulo. Ed.

    FEAGRI/UNICAMP; UNIARA; INCRA. Campinas-SP, Araraquara-SP, So Paulo

    SP. p. 65-78. 2003.

    CORTELLA, Mrio Srgio. Educao como Instrumento de Mudana Social.

    In: RIBEIRO, Helena; VARGAS, Heliana Comin (orgs). Novos Instrumentos de

    Gesto Ambiental Urbana. EDUSP- Editora da Universidade de So Paulo. So

    Paulo-SP. p. 43-55. 2001.

    EHLERS, Eduardo. Agricultura Orgnica: Princpios e Prticas. IN: Revista

    Agroecologia Hoje. p 11.agosto-setembro, 2001.

    GLIESSMAN, Stephen R. Agroecologia - Processos Ecolgicos em

    Agricultura Sustentvel. PortoAlegre - RS. Ed. Universidades/UFRGS. p. 52. 2000

    KRONKA, Francisco; NALON, Marco Aurlio; MATSUKUMA, Ciro Koiti,

    et al. reas de Domnio do Cerrado no Estado de So Paulo. So Paulo: Secretaria

    do Meio Ambiente. So Paulo-SP.1998.

  • SATO, Michle & PASSOS, Luiz Augusto. Biorregionalismo: Identidade

    Histrica e Caminhos para a Cidadania. In: LOUREIRO, Carlos F.B.

    LAYRARGUES, Philippe P. e CASTRO, Ronaldo S. (orgs.)Educao Ambiental:

    Repensando o Espao da Cidadania. Ed. Cortez. So Paulo SP. p. 221-252. 2002.

    SCHORR, Mauro Kassow. A Agroecologia, Agricultura Biodinmica e a

    Permacultura para as reas de Proteo Ambientais Brasileiras. Braslia-DF.

    p.14. 1996. animabc@terra.com.br

    SILVA, Maria Aparecida de M. Memrias Caminhantes em Busca de Terra.

    In: BERGAMASSO, Sonia Maria P.P., AUBRE, Marion e FERRANTE, Vera

    Lucia B. (orgs.). Dinmicas familiar, produtiva, e cultural nos assentamentos

    rurais de So Paulo. Ed. FEAGRI/UNICAMP; UNIARA; INCRA. Campinas-SP,

    Araraquara-SP, So Paulo SP. p. 19-46. 2003.

    SORRENTINO, Marcos. Desenvolvimento Sustentvel e Participao, In:

    LOUREIRO, Carlos Frederico B. et alli (Orgs). Educao Ambiental: Repensando

    o Espao da Cidadania. Editora Cortez. So Paulo, SP. p 15-22. 2002.

    SPAROVEK, Gerd. A Qualidade dos Assentamentos da Reforma Agrria

    Brasileira. Ed. Pginas& Letras. So Paulo-SP. 204p. 2003.

    STRANZ, Anamaria, PEREIRA, Fernanda S., GLIESCH, Anamaria et

    alli.Projeto Universidade Solidria - Transmitindo Experincias em Educao

    Ambiental. In: ZAKRZEVSKI, Snia B.B., VALDUGA, Alice T., DEVILLA, Ivano

    A. (orgs). Anais do I Simpsio Sul Brasileiro de Educao Ambiental, II

    Simpsio Gacho de Educao Ambiental, XVI Semana Alto Uruguai do Meio

    Ambiente. Ed. EdiFAPES. Erechim RS. p. 222. 2002.

    REATTO, Adriana; CORREIA, Joo Roberto; SPERA, Silvio Tulio. Solos do

    Bioma Cerrado: aspectos pedolgicos. In: SANO, Sueli Makito; ALMEIDA,

    Semramis Pedrosa. Cerrado: ambiente e flora. Planaltina: EMBRAPA- C PAC.

    1998.

    REIGOTA, Marcos. Meio ambiente e representao social. Ed. Cortez. So

    Paulo- SP. 87 p. 2001.

    VIERTLER, Renate Brigitte. Mtodos Antropolgicos como Ferramentas

    para Estudos em Etnobilogia e Etnoecologia. In: AMOROZO, Maria C.; MING, Lin

  • Chan; SILVA, Sandra P. Mtodos de Coleta e Anlise de Dados em Etnobiologia,

    Etnoecologia e Disciplinas Correlatas. Anais- UNESP. Rio Claro, SP. p.11-29.

    2002.

    WHITAKER, Dulce C.A., FIAMENGUE, Elis C. Assentamento de reforma

    Agrria:uma possibilidade de diversidade agrcola. In: FERRANTE, Vera Lucia S.

    Botta. Retratos de Assentamentos. Caderno de Pesquisa, ano VI, n 8. p.19-32.

    2000.

Recommended

View more >