A PERCEPÇÃO AMBIENTAL DOS MORADORES DA ?· RESUMO MACHADO, Mônica Pedrosa. A percepção ambiental…

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CINCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES

PROGRAMA DE PS-GRADUAO E PESQUISA EM GEOGRAFIA MESTRADO EM GEOGRAFIA

A PERCEPO AMBIENTAL DOS MORADORES DA COMUNIDADE

DO PASSO DA PTRIA EM NATAL-RN

MNICA PEDROSA MACHADO

ORIENTADOR: PROF. DR. ELIAS NUNES

NATAL-RN

2007

MNICA PEDROSA MACHADO

A PERCEPO AMBIENTAL DOS MORADORES DA COMUNIDADE

DO PASSO DA PTRIA EM NATAL-RN

Dissertao de Mestrado apresentada ao Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), como requisito parra a obteno do grau em Mestre em Geografia. Orientador: Prof. Dr. Elias Nunes

NATAL-RN

2007

Catalogao da Publicao na Fonte. Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Biblioteca Setorial Especializada do Centro de Cincias Humanas, Letras e Artes (CCHLA). NNBSCCHLA.

Machado, Mnica Pedrosa. A percepo dos moradores da comunidade do Passo da Ptria em Natal- RN / Mnica Pedrosa Machado. - Natal, RN, 2007. 92 f. Orientador: Prof. Dr. Elias Nunes. Dissertao (Mestrado em Geografia) Universidade Federal do Rio Gran- de do Norte. Centro de Cincias Humanas, Letras e Artes. Programa de Pos- graduao e Pesquisa em Geografia.

1. Comunidade do Passo da Ptria Natal (RN) Dissertao. 2. Lugar - Conceito Dissertao. 3. Ambiente Dissertao. 4. Percepo Disserta- o. I. Nunes, Elias. II. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. III. Ti- tulo. RN/BSE-CCHLA CDU 911.37

MNICA PEDROSA MACHADO

A PERCEO AMBIENTAL DOS MORADORES DA COMUNIDADE DO PASSO

DA PTRIA EM NATAL RN

A Dissertao de Mestrado apresentada ao Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte UFRN, como requisito para obteno do grau de Mestre em Geografia. Orientador: Prof. Dr. Elias Nunes

APROVADA EM: ___/____/_____

BANCA EXAMINADORA

_________________________________________________________________________ Orientador: Prof. Dr. Elias Nunes - UFRN

__________________________________________________________________________ Examinador Externo:Prof. Dr. Solange Terezinha de Lima Guimares

UNESP/RC

_________________________________________________________________________ Examinador Interno: Prof. Dr. Anelino Francisco da Silva UFRN

AGRADECIMENTOS

Terminar um mestrado sempre motivo de muita felicidade que gostaria de partilhar com os

meus bons amigos que me acompanham nesta trajetria.

Neste momento to especial quero agradecer a DEUS, para Ele o meu especial agradecimento

por ter me ensinado o significado do AMOR e pela graa redentora de estar com todos os

meus sentidos aguados para exercer o milagre de estar viva.

Aos meus pais por me ensinarem desde cedo a noo de solidariedade.

Aos meus filhos, Karina, Joo Paulo e Carla as minhas melhores produes.

A Vanessa e Alexandre pelo significado, cor e tom que deram minha vida.

Ao meu orientador, mais que tudo um bom amigo, o professor Elias Nunes, os meus sinceros

agradecimentos.

Ao Programa de Ps-Graduao em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do

Norte, que atravs da diversidade e competncia do seu corpo docente permitiu-me ampliar

conhecimentos acerca de uma geografia comprometida com a existncia.

Agradeo todos os habitantes da comunidade do Passo da Ptria que foram sempre muitos

solcitos e contriburam para a riqueza deste trabalho.

Agradeo a todos os amigos da turma de mestrado em especial ao Gustavo, companheiro de

todas as horas e de muitos trabalhos, pelas inmeras conversas e discusses enriquecedoras

que tivemos naquele perodo.

Por fim, no posso deixar de agradecer a todos os meus amigos que de maneira direta ou

indireta contriburam para chegar nesta etapa, pos muitos deles... no sabem que esto

includos na sagrada relao de meus amigos. Mas delicioso que eu saiba e sinta que os

adoro, embora no declare e no os procure! Vinicius de Moraes 2002.

A casa um estado da alma onde desguam lembranas e sentimentos de segurana, de proteo, de habitar e de fazer algo. um canto no mundo onde se rene o corao e a imaginao para construir imagens que elevam o sujeito.

(MACEDO, 2003).

RESUMO

MACHADO, Mnica Pedrosa. A percepo ambiental dos moradores da comunidade do

Passo da Ptria em Natal-RN. Natal, 2007.75 f. (Dissertao de Mestrado) - Programa de

Ps-graduao e Pesquisa em Geografia, Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Natal, 2007.

O presente trabalho intitulado: A percepo ambiental dos moradores da comunidade do

Passo da Ptria em Natal-RN tem como principal objetivo investigar a percepo dos

moradores em um ambiente degradado em fase de urbanizao, localizado margem do Rio

Potengi. Trata-se de uma rea de risco ambiental, que ao longo dos anos foi sendo

negligenciada pelo poder pblico, mas que atraiu inmeras pessoas pela facilidade de acesso

s reas urbanizadas da cidade de Natal e ao mesmo tempo pela riqueza advinda do mangue e

do mar. Assim, frente s presses econmicas pela falta de emprego, seus habitantes foram

construindo moradias aleatoriamente, sem a mnima proteo social, ocupando um espao

inadequado para a manuteno do equilbrio ambiental urbano. A comunidade pesquisada est

exposta a enchentes das mars, dos vetores de doenas, alm de atividades marginais como

gangues organizadas e indcios de trfico de drogas. O nosso intuito nesta pesquisa observar

a convivncia de seus moradores com o meio ambiente e suas perspectivas de transformao

cidad. A pesquisa tem como fundamentao terica os estudos de Tuan (1983), Nunes

(2000) e principalmente do mdico e cientista natural Wilhem Reich (1998) de quem

retiramos o conceito de percepo, servindo aqui de uma importante categoria para analisar

nosso corpus. O primeiro captulo deste trabalho discute o conceito de lugar, no numa viso

materialista histrica, mas dentro de uma perspectiva fenomenolgica; o segundo captulo

apresenta a repercusso da urbanizao na percepo da comunidade e o terceiro captulo trata

da anlise da percepo da comunidade do Passo da Ptria. A partir dessa anlise veio

confirmar que as condies de vida dos moradores so extremamente perigosas; no entanto, a

maior parte deles no percebe tais perigos, chegando a afirmar que se sentem bem em sua

comunidade.

Palavras-chave: Lugar; Ambiente; Passo da Ptria; Percepo.

ABSTRACT

This essay: The perception environmental of the Passo da Ptria dwellers in Natal-RN

has as its goal, investigate the perception of the dwellers in an degraded environment in ways

of urbanizing, at the Potengi River riverine. This is an area in zone environmental risk, which

year after year was even forgotten by the municipality, but which attracted a huge estranger

public because of its facility in access urbanized areas in Natal at the same rate of its natural

riches from the mangue and the sea. Front to problems of economical nature as scarce job

offers, its habitants build their dwellings without any kind order or social protection,

occupying an inadequate space for the well keeping of the urban environmental equilibrium.

The analyzed community is exposed to water floods, tropical diseases, and to criminal

problems like gangsters and drug dealers. We propose in such essay observe the connivance

of the dwellers with the natural environment and their expectations o citizen transformations.

This essay has as its bases the studies of Tuan (1983), Nunes (2000) and principally in

Wilhem Reich (1998) in who we found our concept of perception, that here plays like an

important analytical category to confront our corpus. Our first chapter debates the concept of

place, not in an historical materialistic vision, but within an phenomenological survey; the

second chapter presents the impacts of the urbanization in the community perception, and in

the third one is analyzed the perception of the Passo da Ptria community. Based in this

analyzes we confirmed that the conditions of living of the dwellers are extremely dangerous;

but, the most of them do not see such dangers, even saying that are well living in its

community.

Key words: Place; Environment; Passo da Ptria; Perception

LISTA DE ILUSTRAES Pg.

Fotografia 1 O trao vermelho indica as comunidades Passo da Ptria, Areado e Pantanal / Ocidental de baixo,,,,,,,..............................

23

Fotografia 2

Nesta foto pode ser visualizado o canal do Baldo..................... 24

Fotografia 3

A comunidade que se desenvolve em rea manguezal.............. 29

Fotografia 4

Coudbuster................................................................................ 32

Fotografia 5 Fotografia 6

Vista area do Bairro Cidade Alta e no alto a direita Passo da Ptria no esturio do Rio Potengi............................................... Mapa da Cidade de Natal...........................................................

39

40

Fotografia 7 A Prefeitura Municipal de Natal anuncia as obras de urbaniza-

o da comunidade do passo da Ptria ......................................

41

Fotografia 8 Pr do sol no esturio do Rio Potengi .......................................

44

Fotografia 9 Pr do sol no esturio do Rio Potengi........................................

44

Fotografia 10 Buero onde so lanados 50 mil metros cbicos de esgotos pela CAERN no esturio do Rio Potengi .................................. 50

Fotografia 11

Canalizao e cobertura do esgoto lanado no esturio do Rio Potengi ..................................................................................... 50

Fotografia 12

Observamos nesta imagem, o lixo, a lama e as pessoas convivendo nesta realidade.....................................................

51

Fotografia 13

Crianas brincando nos trilhos do trem..................................... 57

Fotografia 14

Crianas brincam na lama por entre mquinas e equipamentos da obra........................................................................................ 57

Fotografia 15

Movimentao de terras para a cobertura do canal do baldo...... 66

Fotografia 16

Estragos causados por mais uma inundao, proveniente de forte chuva................................................................................... 66

Fotografia 17

Esta cena comum no cotidiano da comunidade do Passo da Ptria, depois das chuvas................................................... 67

Fotografia 18 Mangue visto das palafitas, podemos observar nesta imagem o inicio da instalao da tubulao de prolongamento do esgoto da cidade.................................................................................... 67

Fotografia 19

Lixo, uma convivncia diria da populao............................... 68

Fotografia 20

Cor da lama que faz da convivncia da comunidade do Passo da Ptria...................................................................................... 69

Fotografia 21

Casa invadida pela lama das chuvas.......................... 70

Fotografia 22

Utenslios jogados pelo alagamento das chuvas........ 70

Fotografia 23

Marcas dagua proveniente das chuvas ................................... 71

Fotografia 24

Processo de construo das casas ao longo do canal do baldo... 74

Fotografia 25

Desnvel verificado entre o piso da casa e o piso da calada...... 74

Fotografia 26

Caixa coletora rebocada com gua circulante............................ 75

Fotografia 27

Pontos de visita, PVs acima d nvel dos pisos.... 75

Fotografia 28

Observando a posio deste cano, parece no estar muito diferente do que foi exposto pelo consultor Arajo mostrados na figura n. 19 ............................................................................ 76

Fotografia 29

Refluxo da mar/entupimento nas caixas.................................... 76

Fotografia 30

Aterro acima do nvel das casas.................................................. 77

Fotografia 31

Desabamento do muro de conteno.......................................... 78

Fotografia 32

Desnvel entre beco, PV e canal.................................................. 78

Fotografia 33

Refluxo em PVs com entupimento............................................. 79

Fotografia 34

Invaso da mar no aterro........................................................... 79

Fotografia 35

Acmulo de lama dentro e fora das residncias em construo do projeto de reurbanizao do Passo da Ptria... 80

Grfico 1

Distribuio de freqncia em percentual relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre o conhecimento da poluio do Rio............................................................................................... 29

Grfico 2

Distribuio de freqncia em percentual da percepo ambien- tal dos indivduos a cerca do uso do tabaco .......................... 35

Grfico 3

Distribuio de freqncia em percentual da percepo ambien-

tal dos indivduos a cerca da limpeza do Canal do Baldo......... 46 Grfico 4

Distribuio de freqncia em percentual da percepo ambi- ental dos indivduos sobre se gostam do lugar que moram.... 55

Grfico 5

Distribuio de freqncia em percentual da percepo ambie- ental dos indivduos se sentem discriminados morando nessa comunidade.................................................................................. 55

Grfico 6

Distribuio de freqncia em percentual da percepo ambi- ental dos indivduos que se sentem bem em transitar pela comunidade............................................................................... 56

Grfico 7

Distribuio de freqncia em percentual da percepo ambi- ental dos indivduos que afirmam no perceber a falta de segurana.................................................................................. 58

Grfico 8

Distribuio de freqncia em percentual da percepo ambi- ental dos indivduos sobre o que destruio ambiental......... 59

Grfico 9

Distribuio de freqncia em percentual da percepo ambien- tal dos indivduos sobre os riscos sociais e ambientais do lugar 60

Grfico 10

Distribuio de freqncia em percentual da percepo ambi- ental dos indivduos sobre os perigos dos esgotos lanados no Rio............................................................................................. 61

Grfico 11

Distribuio de freqncia em percentual da percepo ambi- ental dos indivduos sobre os prejuzos pela poluio do Rio 61

Grfico 12

Distribuio de freqncia em percentual da percepo ambien- tal dos indivduos sobre algum problema de sade na comuni- dade............................................................................................ 62

Grfico 13

Distribuio de freqncia em percentual da percepo ambien- tal dos indivduos sobre as pessoas da comunidade que j for- am hospitalizadas......................................................................... 63

Grfico 14

Distribuio de freqncia em percentual da percepo ambien- tal dos indivduos sobre o suprimento das necessidades bsicas 63

Grfico 15

Distribuio de freqncia em percentual da percepo ambien- tal dos indivduos sobre o consumo de lcool............................ 64

Grfico 16

Distribuio de freqncia em percentual da percepo ambien- tal dos indivduos sobre o aparecimento de ratos nas residencias 65

Grfico 17

Distribuio de freqncia em percentual da percepo ambien- tal dos indivduos sobre a ligao afetiva no lugar em que vive 65

Grfico 18 Distribuio de freqncia em percentual da percepo ambien- tal dos indivduos sobre a possibilidade de morar em outro lu- gar............................................................................................... 72

Grfico 19

Distribuio de freqncia em percentual da percepo ambien- tal dos indivduos sobre a reurbanizaoda comunidade............. 72

LISTA DE TABELAS

Pg.Tabela 1 Situaes de risco......................................................................... 25 Tabela 2

Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre o conhecimento da poluio do Rio................................................................................................ 29

Tabela 3

Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre o uso do tabaco.......................... 35

Tabela 4 Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo

ambiental dos indivduos sobre a limpeza do Canal do Baldo..... 45 Tabela 5

Mo de Obra Ativa....................................................................... 46

Tabela 6

Destino do lixo residencial........................................................... 49

Tabela 7 Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre se gostam do lugar que moram...........................................................................................

54

Tabela 8 Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre se eles se sentem discriminados morando nessa comunidade.........................................................

55 Tabela 9

Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre como os mesmos se sentem bem em transitar pela comunidade............................................... 56

Tabela 10

Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos que afirmam no perceber a falta de segurana...................................................................................... 58

Tabela 11

Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre o que destruio ambiental..... 59

Tabela 12 Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre os riscos sociais e ambientais do lugar......................................................................................... 60

Tabela 13

Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre os perigos dos esgotos lanados no Rio........................................................................................... 60

Tabela 14

Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre os prejuzos pela poluio do Rio............................................................................................... 61

Tabela 15

Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre algum problema de sade da comunidade.................................................................................. 62

Tabela 16

Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre pessoas da comunidade que j foram hospitalizados.................................................................... 62

Tabela 17

Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre o suprimento das necessidades bsicas.......................................................................................... 63

Tabela 18

Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre o consumo de lcool................. 64

Tabela 19

Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre o aparecimento de ratos nas residncias.................................................................................... 64

Tabela 20

Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre a ligao afetiva no lugar em que vive........................................................................................ 65

Tabela 21

Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre a possibilidade de morar em outro lugar....................................................................................

71

Tabela 22

Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre a reurbanizao da comunidade 72

SUMRIO

Pg.

INTRODUO ............................................................................................................ 16

Capitulo 1 COMO AS PESSOAS PERCEBEM O LUGAR VIVENDO NUM

ESPAO DEGRADADO...................................................................

18

Capitulo 2 REPERCUSSO DA REURBANIZAO NA PERCEPO DA

COMUNIDADE.................................................................................

36

Capitulo 3 ANLISE DA PERCEPO DA COMUNIDADE......................... 52

Captulo 4 CONSIDERAES FINAIS............................................................. 84

REFERENCIAS ............................................................................................................ 85

INTRODUO

Machado, Mnica Pedrosa Percepo ambiental dos moradores da comunidade do Passo da Ptria em Natal-RN.

16 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

INTRODUO

Este estudo foi motivado pela leitura do livro O meio ambiente da grande Natal

(Nunes, 2000), obra que nos suscitou curiosidade e interesse pela relao ser humano e meio

ambiente. No segundo semestre de 2003, cursamos a disciplina Questes ambientais urbanas,

no programa de Ps-Graduao em Geografia, ocasio em que comeamos a articular as

questes humanas e ambientais. Naquela poca a mdia fazia extensiva propaganda

governamental do projeto de reurbanizao da comunidade do Passo da Ptria, em Natal/RN.

Partimos ento, da problemtica ambiental de Natal, onde destacamos a faixa ribeirinha da

margem direita do rio Potengi, considerando o espao ocupado pela comunidade do Passo da

Ptria.

observvel a degradao ambiental no referido espao, embora para a maioria

das pessoas que l habitam, isso no seja plausvel e/ou gere indignao, principalmente, em

relao a maior parte dos habitantes daquela rea, que se submete e convive diariamente com

o ambiente afetado pela emisso de efluentes (esgotos com metais pesados e excrementos

humanos) que vem agredindo sobremaneira o ecossistema do esturio do rio Potengi e, com

efeito, a populao moradora.

Como objetivo de nossa pesquisa, vamos estudar a percepo dos moradores deste

lugar degradado em relao a sua convivncia neste lugar, do ponto de vista da sua

representao conceitual e das expectativas em relao a sua adaptabilidade e perspectivas de

transformao cidad para condies mais saudveis e do bem morar a partir da realidade

detectada em direo a mudanas positivas futuras.

De forma a fundamentarmos teoricamente nosso estudo, no intuito de

concretizarmos nossos objetivos, recorremos s contribuies sistemticas e histricas de:

Tuan (1983), Reich (1986), Nunes (2000).

Este estudo foi desenvolvido seguindo esta metodologia: Primeiro, fizemos uma

pesquisa no local da comunidade do Passo da Ptria, observando todo o ambiente, no qual

constatamos a degradao do referido espao que fica situado na regio do rio Potengi. Vimos

que o lugar est sendo atingido de forma degradante (esgotos abertos, lixo, dejetos, etc.). A

percepo dos moradores foi observada atravs das entrevistas que realizamos no local. O que

foi detectado que so pessoas angustiadas e medrosas em relao ao trfico de drogas, algo

constante na regio, e que as condies deste lugar so precrias: lixo, gua podre; uma vida

Machado, Mnica Pedrosa Percepo ambiental dos moradores da comunidade do Passo da Ptria em Natal-RN.

17 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

sem qualidade cidad. Observa-se que geograficamente o lugar precisa ser reorganizado em

todos os sentidos, inclusive no aspecto humano e existencial. Inclumos assim, em nosso

trabalho a teoria do mdico e cientista natural Wilhem Reich, j que o mesmo compreende a

condio de vida sob stress provoca no ser humano um processo de encouraamento, isto ,

a pessoa se sente separada do lugar em que vive e sua identidade com o ambiente em que vive

fica rompida.

Machado, Mnica Pedrosa Percepo ambiental dos moradores da comunidade do Passo da Ptria em Natal-RN.

18 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

Capitulo 1

COMO AS PESSOAS PERCEBEM O LUGAR VIVENDO NUM ESPAO DEGRADADO

Machado, Mnica Pedrosa Percepo ambiental dos moradores da comunidade do Passo da Ptria em Natal-RN.

19 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

1. COMO AS PESSOAS PERCEBEM O LUGAR VIVENDO NUM ESPAO DEGRADADO

Nesta pesquisa, vamos discutir o conceito de lugar, no dentro de uma perspectiva

materialista histria (SANTOS, 2002), que j vem sendo discutida por grandes cones da

Geografia; mas dentro duma perspectiva fenomenolgica. Tuan (1983), que a nosso ver o

reverso de uma mesma moeda, aborda a experincia humana afetiva, no espao e no lugar

vivido no cotidiano, na forma concreta do real.

O conceito de lugar tem sido alvo das diversas interpretaes ao longo do tempo e

entre os mais variados campos do conhecimento, tais como informa Santos (2002) e Carlos

(2002). Entretanto, procuramos centrar um olhar especfico sobre tais conceitos a partir da

contribuio de Tuan (1982), que reflete tal conceito,

[...] como um mero espao se torna um lugar intensamente humano uma tarefa para o gegrafo humanista, para tanto ele apela a interesses distintamente humansticos, como a natureza da experincia, a qualidade da ligao emocional aos objetos fsicos, as funes dos conceitos na criao da identidade do lugar (p. 149).

Ao tentar compreender o lugar a partir da percepo da experincia humana e no

meramente numa dimenso de causa e efeito (SANTOS, 2002), mas na sua verdadeira

dimenso existencial. Buscamos inspirao em algumas leituras sobre fenomenologia, bem

como na orientao cientfica e metodolgica que a professora Dra. Lvia de Oliveira vem

difundindo desde a dcada de 1970, e que consiste na tentativa de busca de uma ponte entre a

vida, o ambiente e as realizaes humanas (OLIVEIRA, 1996).

No final do sculo XIX e incio do sculo XX a Geografia europia j se ocupa da

dimenso cultural da sociedade, de acordo com Correa (2001, p. 9), a geografia cultural

desempenhou, na estria do pensamento geogrfico, um significativo papel, oferecendo uma

contribuio particular para a compreenso da ao humana sobre a superfcie terrestre. Tal

princpio est ancorado na viso historicista do pensamento geogrfico da poca.

Em Carlos (2002), vimos que

Os anos 70 marcam as grandes transformaes nos modos de pensar, fazer e ensinar a geografia. [...] a partir da matriz do historicismo, podemos abordar duas importantes tendncias: a marxista, que determinou as bases do movimento chamado Geografia Crtica ou Geografia Radical e a Fenomenologia (p.168).

Machado, Mnica Pedrosa Percepo ambiental dos moradores da comunidade do Passo da Ptria em Natal-RN.

20 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

Nesta dcada, surge no bojo do movimento fenomnico a contribuio de Lvia de

Oliveira (1980), que, no campo da Geografia Humanista, ou seja, humanstica, quando traduz

e divulga a obra de Tuan (1980), redimensionando a concepo de lugar, sistematizando a

Topofilia. A palavra topofilia uma palavra til quando pode ser definida em sentido amplo,

incluindo todos os laos afetivos dos seres humanos com o meio ambiente material, o que

vem ampliar tais conceitos considerando a experincia vivida pelo sujeito e a percepo dos

seus sentidos.

Tuan foi fortemente influenciado por Bachelard (2005)p.19 que foi o primeiro

terico a utilizar o termo topofilia, que define por espao feliz que visam determinar o

calor humano dos espaos de posse, dos espaos defendidos contra foras adversas, dos

espaos amados. P.16.

Santos (2002), por sua vez, apresenta o conceito de lugar como esta categoria da

existncia presta-se a um tratamento geogrfico do mundo vivido que leve em conta as

variveis de que nos estamos ocupando neste livro: os objetos, as aes, a tcnica, o tempo

(2002, p.315). O lugar acontece as articulaes de momentos histricos, aes humanas e a

tcnicas concebidas numa dinmica que se contradiz o tempo inteiro.

Porm, na concepo da Geografia Humanista, Santos (2002) afirma que para

apreender essa nova realidade do lugar, no basta adotar um tratamento localista, j que o

mundo se encontra em toda parte, afirma ainda que, devemos evitar o risco de nos perder

em uma simplificao cega (p.314). Portanto, lugar, alm de ser um conceito psico-afetivo,

tambm a experincia humana vivida no cotidiano. Neste aspecto, o cotidiano humano no

pode ser considerado de forma simplificada ou reduzida, pois dessa forma, negar-se-ia o

reverso da moeda do materialismo histrico. Como afirma Cobra (2001),

A reduo fenomenolgica (ou "epoche" no jargo fenomenolgico), o processo pelo qual tudo que informado pelos sentidos mudado em uma experincia de conscincia, em um fenmeno que consiste em se estar consciente de algo. Coisas, imagens, fantasias, atos, relaes, pensamentos eventos, memrias, sentimentos, etc. constituem nossas experincias de conscincia.

A linha de pensamento da geografia humanista caracteriza-se principalmente

pela valorizao das relaes de afetividade desenvolvidas pelos indivduos em relao ao seu

ambiente (LEITE, 1998, p. 9). Este fato nos remete a Mello (s/d) quando ele define o que

geografia a partir de Tuan, autor que considera o estudo da terra como o lar das pessoas

Machado, Mnica Pedrosa Percepo ambiental dos moradores da comunidade do Passo da Ptria em Natal-RN.

21 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

(p.1), esta idia vem sendo defendida pelos gegrafos chamados de humanistas acreditamos

que provavelmente diante do processo de globalizao, estes conceitos de espao e lugar

como lcus da experincia seja de certa forma uma tentativa de fortalecer a identidade e

cultura de cada lugar.

Uma outra colocao da Geografia Crtica, sobre a fenomenologia se fundamenta

na concepo que essa anlise aparece como contemplao desinteressada dos objetos do

mundo considerados como fenmenos e estabelece a suspenso de todas as idias prvias

sobre a natureza dos objetos. Nesse sentido, abstm-se da especulao e se limitam a

descrever as aparncias diretas (CARLOS, 2002, p. 166) e que ao descrever o lugar

enfocando o indivduo, sem o pensamento crtico, o debate ficaria esvaziado.

Os debates crticos so muito importantes para promover uma reflexo sobre os

aspectos histricos da realidade, mas sem considerar a experincia se torna um debate

desencardo, sem corpo um debate terico, como se existissem muitas cabeas sem corpos.

Neste sentido, vamos refletir o conceito de lugar descrito por Silva (1986, p. 30)

como o lcus de existncia, tentando recuperar a noo de totalidade deste conceito,

buscando sempre a compreenso das particularidades de cada indivduo diante do curso

existencial em que est circunscrito desde a sua concepo at a sua morte.

Ora como um debate sobre o conceito lugar ficaria esvaziado se este se define

paralelamente com o desenvolvimento psico-afetivo do ser humano, para uma criana

pequena a me o primeiro lugar (TUAN, 1983, p. 32), desde j podemos verificar que se

trata de um conceito carregado de afeto.

Conforme Tuan (1983, p. 3) o Espao e Lugar so termos familiares que indicam

experincias comuns; estes conceitos para ele, na perspectiva da experincia o significado de

espao se funde com o significado de lugar, portanto, ambos no podem ser definidos um sem

o outro. Portanto o lugar, sob a perspectiva experencial, no est somente ligado a vivencias

topoflicas, mas tambm, s topofbicas

Para sentir um lugar e para que este possa ter significado para um adulto

necessrio que ele se permita experienci-lo por algum tempo e assim criar vnculos afetivos,

que Tuan (1983, p. 65) chama de sentimentos topoflicos. Afirma ainda que [...] o espao

sem dvida, mais que um ponto de vista ou um sentimento complexo e fugaz. uma condio

para a sobrevivncia biolgica.

Machado, Mnica Pedrosa Percepo ambiental dos moradores da comunidade do Passo da Ptria em Natal-RN.

22 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

A construo do sentido de lugar no se restringe s emoes e sentimentos

relacionados somente a afetividade no sentido do amor, mas tambm s emoes contrrias

devidamente contextualizadas em relao no individuo e ao coletivo.

Segundo Merleau-Ponty (1989, p.42), [...] o mundo percebido seria o fundo

sempre pressuposto por toda racionalidade, todo valor, toda existncia. Uma concepo deste

gnero no destri nem a racionalidade, nem o absoluto. Busca faz-los descer terra.

Ento falaremos de uma Geografia Humanstica, que por sua vez podemos

associar a valores humansticos, e podemos evoluir em possibilidades sob o humanismo

dialgico, permitindo as novas concepes das vises holstica e ecolgica. A concepo

ecolgica est associada a uma escola filosfica especifica conhecida como ecologia

profunda, fundada pelo filsofo noruegus Arne Naess, no incio dos anos 70. uma ecologia

cujos princpios preconizam a valorizao tica da natureza, No separa os seres humanos

ou qualquer outra coisa do meio ambiente natural e respeita os limites objetivos de qualquer

ser vivo. Para a ecologia profunda, os valores humanos so equivalentes aos dos demais seres

da natureza, sendo que no cabe ao ser humano nenhum direito de dominao sobre as outras

espcies. Preza ainda pela garantia da riqueza e da diversidade da vida, que devem ser

garantidas s geraes futuras (NAESS, 1973).

Segundo Capra (1996) a ecologia profunda reconhece a independncia

fundamental de todos os fenmenos, indivduos e sociedades, todos encaixados nos processos

cclicos da natureza e dependentes desses processos. Ela reconhece o valor intrnseco de todos

os seres vivos e concebe o conjunto dos seres humanos como sendo apenas um fio particular

ligados teia da vida, numa rede de interdependncia.

Na concepo holstica com a publicao do livro de Holism and Evolution, em

1921, Jan Smuts, filsofo, general e estadista sul-africano, pode ser considerado o terico

fundador do movimento holstico no sculo XX. Em razo do aspecto relacional do ser

humano e de seu meio, a Ecologia uma das grandes preocupaes atuais do movimento

holstico. Weill (2000) foi um dos tericos que mais sintetizou o pensamento de Smuts ao

pensar holisticamente afirma que a transdisciplinariedade o caminho mais eficaz de integrar

a pessoa ao social e ao ambiental, e trabalhar todas as reas, corpo, mente e esprito.

A comunidade do Passo da Ptria localiza-se numa rea de 205.506 m2 e limita-se

ao Norte com o rio Potengi (margem direita), ao sul com a linha frrea (sem obedecer faixa

de domnio da ferrovia), ao leste com a Pedra do Rosrio e a oeste com a Base Naval

Machado, Mnica Pedrosa Percepo ambiental dos moradores da comunidade do Passo da Ptria em Natal-RN.

23 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

Almirante Ari Parreiras. constituda de trs sub-assentamentos que so: Passo da Ptria o

mais antigo e que inclui a Pedra do Rosrio; Areado e Pantanal (subdividido em Ocidental de

Baixo). Essas subdivises foram construdas ao longo do tempo pela prpria comunidade.

Areado (vizinha ao Passo da Ptria) se situa na parte mais baixa e esta sujeita a

inundaes. Foi assim denominada por ter surgido do aterro do canal de drenagem do rio

Potengi, chamado Canal do Baldo (ver foto 1) na dcada de 60, cujo material aterrou uma

parte do mangue, propiciando o surgimento dos primeiros moradores.

Fotografia 1. O trao vermelho indica as comunidades Passo da Ptria, Areado e Pantanal / Ocidental de baixo Autor - SEMTAS, 2003

As comunidades do Passo da Ptria, Areado e Pantanal, esto situadas em uma

rea de risco ambiental. Na Foto 2 podemos observar nas manchas brancas despejadas atravs

do canal do Baldo a quantidade de efluentes poluidores e malficos a sade do meio humano-

ambiental

Machado, Mnica Pedrosa Percepo ambiental dos moradores da comunidade do Passo da Ptria em Natal-RN.

24 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

Fotografia 2 - Nesta foto pode ser visualizado o canal do Baldo. Autor: SEMTAS, 2003

A comunidade do Pantanal ou Ocidental de Baixo caracteriza-se por ser cortada

por gamboas que tm seu volume aumentado com o movimento das mars. As regies mais

baixas sofrem alagamentos das mars mais altas nos meses de janeiro a agosto. Tem como

nico acesso uma rua localizada prximo ao Horto Municipal, sendo isolada dos demais pela

existncia do canal do Baldo e fazendo divisa com o muro da Base Naval Almirante Ari

Parreiras.

Apesar dos moradores da comunidade terem conscincia dos problemas provocados

pelo destino dos excrementos humanos da cidade aliado ao mau cheiro (quase insuportvel),

que este exala na comunidade, denuncia o bloqueio olfativo, uma espcie de disfuno

perceptiva, que precisaram desenvolver, para suportar a sua sobrevivncia neste espao

degradado.

Estes mecanismos adaptativos de percepo podemos cham-los de normticos,

normose segundo Weill (200) se trata de um conjunto de valores, atitudes e comportamentos

habituais, que levam ao sofrimento fsico ou moral, doena ou morte.

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25 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

Apesar dos diversos riscos existentes, a comunidade corre de fato um risco real

associado estrutura das precrias habitaes, que esto expostas as enchentes das mars, dos

vetores de doenas, a linha de trem e a presena de atividades marginais (detectou-se indcios

de trfico de drogas e gangs organizadas) parecem ter sido praticamente incorporados s suas

vidas; como se tivessem ficado amortecidos pela dura realidade a que so cotidianamente

submetidos ou por que tenham receio de falar sobre ela. A tabela 1 demonstra as situaes de

risco em que vivem os moradores da comunidade.

TABELA 1 - Situaes de risco

Tipo de risco

(tica dos moradores)

Passo da Ptria

Areado

Pantanal

Geral

Nenhum risco

209 71,9 100 35,5 138 39,8 447 48,5

Alagamento

50 17,2 64 22,7 171 49,3 285 31,0

Desabamento

16 5.5 54 19,1 17 4,9 87 9,5

Deslizamento

01 0,3 05 1,8 01 0,3 07 0,8

outros ou vrios riscos

03 1,0 28 9,9 12 3,5 43 4,7

no respondeu / no sabe

12 4,1 31 11,0 08 2,2 51 5,5

Total

291 100 282 100 347 100 920 100

Fonte: SEMTAS 2003

Para Reich (apud DADOUN, 1991) a condio de vida sob estresse, provoca estes

bloqueios que ele define como um processo de encouraamento, isto , quanto ele comea a

auto perceber-se e a ter conscincia de si e do contexto em que vive, e este movimento de

auto-percepo provoca no homem uma ruptura da relao unitria [...] que nutre a

identidade do homem com a natureza como qualquer coisa alheia, diferente, ameaadora; no

homem e fora do homem a natureza torna-se algo contra o que preciso se proteger (p.141).

Com este movimento, surge a angstia interferindo na auto percepo.

Quando nos propomos estudar como as pessoas percebem o lugar em que vivem,

nos deparamos com uma vasta concepo de conceitos sobre percepo e mais ainda, sobre o

lugar. Em virtude dessa diversidade de conceitos sobre percepo dentre as diversas escolas

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26 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

da psicologia e da diversidade de conceitos de lugar dentre as diversas correntes da geografia,

considerando meus interesses a experincia, o foco de nosso trabalho recair sobre a escola de

Wilhelm Reich.

Nossa pesquisa foi realizada num lugar ribeirinho, que ao longo dos anos foi sendo

negligenciado pelo poder publico, atraindo inmeras pessoas, pela facilidade de acesso as

reas urbanizadas da cidade de Natal e ao mesmo tempo pela riqueza advinda do mangue e do

mar. Ento diante as presses econmicas pela falta de emprego, foram construindo moradias

aleatoriamente, sem a mnima proteo social, ocupando um espao inadequado para a

manuteno do equilbrio ambiental urbano.

Diante da necessidade de nos aprofundar na percepo humana e sua relao com

o ambiente habitado, nos deparamos com inmeros vertentes conceituais de meio ambiente

que nos possibilita abordar qualquer localizao do espao, sempre que aja um intercambio

entre as atividades humanas, os recursos naturais e entre o uso e a ocupao do espao.

Pensar em meio ambiente a partir de Einstein (apud TIMBALYISS, 1996, p. 126)

o ambiente tudo que no seja eu. Isto nos remete a ampliar a viso, e deixar de lado os

conceitos fragmentados, cartesianos, e nos convidando a construir um saber mais amplo.

Como afirma Left (2002, p. 167) a emergncia do saber ambiental rompe o crculo do

perfeito das cincias, a crena numa Idia absoluta e a vontade de um conhecimento

unitrio, abrindo-se para a disperso do saber e para a diferena de sentidos existncia. O que

nos leva a corroborar com o proeminente autor no sentido de que a concepo de ambiente

encerra um saber complexo e interdisciplinar.

Portanto, a interdisciplinaridade uma prtica construda em conjunto e constante,

sem que as disciplinas percam suas identidades, mas que possam incorporar novas questes

para juntas caminharem em direo construo de um novo saber.

Nas palavras de Raynaut (2004, p.31 e 32):

A interdidsplinaridade sempre um processo de dilogo entre disciplinas firmemente estabelecidas na sua identidade terica e metodolgica, mas conscientes de seus limites e do carter parcial do recorte da realidade sobre a qual operam. Isso implica, por parte dos pesquisadores, respeitar o saber produzido por outras disciplinas e recusar qualquer hierarquia a priori entre elas, relativa ao poder explicativo dos fatos sobre os quais elas trabalham. Implica tambm, fundamentalmente, o desejo de aprender dos outros e a ausncia de toda postura defensiva de um territrio de poder simblico ou institucional.

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27 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

No Brasil a discusso a respeito das questes ambientais muito recente, surge a

partir de 1972, de uma forma equivocada, segundo Menezes (1996): Quando da realizao, em Estocolmo (Sucia), da Primeira Conferencia das Naes Unidas sobre o Meio Ambiente. Nela o governo brasileiro foi um dos principais articuladores do bloco dos pases em desenvolvimento que tinham uma posio de resistncia ao reconhecimento da problemtica ambiental (sob o argumento de que a principal poluio era a misria) e que se negavam a reconhecer o problema da exploso demogrfica (p. 37).

Hoje o Brasil assumiu o discurso scio-ambiental sem refletir no conceito, que

envolve uma concepo fragmentria de meio ambiente, nas duas vises do materialismo

dialtico, portanto faz-se necessria uma compreenso integrada do meio ambiente em suas

mltiplas e complexas relaes, envolvendo aspectos ecolgicos, psicolgicos, legais,

polticos, sociais, econmicos, cientficos, culturais e ticos (GOVERNO FEDERAL, 1999).

Historicamente, os problemas ambientais no Brasil se agravam a cada dia e podem

ser facilmente observados, principalmente nas Regies Metropolitanas. Segundo Monteiro

(1998, p. 380 - 2), este caos que encontramos nas grandes cidades fruto de uma

desarticulao dos diferentes domnios do saber humano at o homem da grande era

tecnolgica encontra, mesmo na cincia, uma limitao a sua capacidade de prever, com

exatido, toda uma srie de fenmenos complexos cujo princpio de ordem lhe escapa.

O meio ambiente se torna um saber complexo, que incorpora todos os fenmenos

da existncia, e a geografia desempenha papel fundamental nesta construo, na medida em

que, historicamente, colocou-se como cincia de interface entre natureza e sociedade

(SUERTEGARAY, 2004. p. 185). Isto confirma a preocupao dos estudiosos nas relaes

entre o ser social, o ser biolgico e a natureza sempre um desafio no mundo da cincia.

Essa relao homem e terra, Dardel (1990, p.7-8) chama de geograficidade que se

refere aos diferentes modos atravs dos quais sentimos e conhecemos os diferentes ambientes,

refere-se ao nosso relacionamento com os espaos e paisagens construdas e naturais. um

relacionamento definido liga o homem terra uma geograficidade do homem que o seu

modo de existncia e seu destino.

S atravs dos sentidos que o ser humano vai apreender o ambiente, ele precisa de

um perodo de tempo experienciando um lugar para que possa perceb-lo e assim criar

vnculos. Segundo Claval (1997, p. 93):

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28 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

O homem apreende o mundo atravs dos sentidos: ele observa as formas, escuta os barulhos e sente odores daquilo que o envolve. Os movimentos do seu corpo constituem uma experincia direta do espao. O gosto lhe revela, quando ele come ou bebe outras propriedades do mundo que o envolve.

Desta forma, dentro do contexto da experincia e do desenvolvimento psico-

afetivo, entre o conceito de espao e o conceito de lugar, permeia um novo conceito de meio

ambiente. Um conceito articulado, dinmico que denota movimento e transformaes. Em

Coelho (2001, p. 23), vimos que O ambiente ativo e passivo. ao mesmo tempo suporte

geofsico, condicionado e condicionante de movimento, transformador da vida social. Ao ser

modificado, torna-se condio para novas mudanas, modificando, assim, a sociedade.

Com esta afirmao acima mencionada por Coelho (2001), podemos averigu-la

70,61% da populao pesquisada se preocupa com a venda de droga na comunidade,

verificamos que situao de fragilidade ambiental, tornou a comunidade expostas a todos os

riscos sociais, inclusive a do trafico de drogas.

Na gesto ambiental, o conceito de fragilidade ambiental diz respeito a

suscetibilidade do meio ambiente a qualquer tipo de dano, inclusive poluio. Esta

fragilidade tem sido estudada sob a luz de trs diferentes conceitos, porm indissociveis:

preocupaes pro ou contra ambientais; iniqidade ambiental e condutas pro ou contra

ambientais.

A Lei de poltica Nacional do Meio Ambiente conceitua poluio de forma

abrangente: a degradao da qualidade ambiental resultante de atividades que direta ou

indiretamente: a) prejudiquem a sade, a segurana e o bem estar da populao; b) criem

condies adversas s atividades sociais e econmicas; c) afetem desfavoravelmente a biota;

d) afetem as condies estticas ou sanitrias do meio ambiente; e) lancem matrias ou

energia em desacordo com os padres ambientais estabelecidos. MACHADO (2001, p.492).

Segundo Almeida et al (2002, p. 10) a emoo pode ser uma chave das portas do

conhecimento, haver um dia conseguirmos integrar conhecimentos e sentimentos,

conscincia e saber. O meio ambiente sempre traz consigo a idia de valores culturais,

afetivos e cognitivos.

Como j nos referimos rea pesquisada um lugar de mangue, podemos

observar na imagem na foto 3.

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29 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

Fotografia 3 - comunidade que se desenvolve em rea de manguezal). Autor MACHADO, Mnica. 2005.

Como pudemos observar na figura acima, a comunidade tem intrnseca relao

com o mangue e o rio. Ao perguntarmos se eles percebiam o prejuzo causado pela poluio

do rio, 97,97% dos entrevistados afirmaram que sabiam, como podemos verificar na tabela 2 e

grfico 1.

TABELA 2 - Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre o conhecimento da poluio do Rio.

Sim No 290 6

97,97% 2.03%

Grfico 1 Distribuio da freqncia em percentual da percepo ambiental dos indivduos sobre o conhecimento da poluio do Rio.

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30 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

Vannucci (2003), relata a sua percepo a respeito do homem como morador dos

manguezais:

Quem em s conscincia escolheria os manguezais como um lugar para viver, se tivesse alternativa? Entretanto muito os fizeram atravs dos milnios da histria humana. Por que, quando e como o homem comeou a fixar residncias nos manguezais? O que ele faz ali, e como resolve seus problemas dirios? Em termos ecolgicos, podemos imaginar que, em seguida expanso espetacularmente rpida, distante e extensa do Homo sapiens, a espcie se adaptou a todos os tipos de ambientes, at mesmo os aparentemente mais inspitos; assim, tambm os manguezais, como nicho ecolgico, foram finalmente ocupados pelo homem. Na verdade, os manguezais propriamente ditos foram ocupados muito mais tarde, embora seus produtos fossem utilizados desde que o homem chegou at eles. [...] Quando o homem foi para ali? Em diferentes pocas geogrficas, histricas, evolutivas, dependendo da presso populacional e de necessidades especiais [...]. As moradias so semelhantes em todos os lugares, devido necessidade de constru sobre pilares e das latrinas comunitrias posicionadas sobre a correnteza, em cuja proximidade, incidentalmente, a pescaria bastante compensadora. [...] O homem do manguezal, como todas as variedades da mesma espcie, conseguiu fabricar bebidas alcolicas a partir de materiais disponveis no local, pois tambm nos manguezais elas tm o mesmo papel psicolgico e social, tanto em nvel individual como no de comunidade, e o mesmo efeito auto destruidor e coletivo. [...] Nos lugares em que o homem no aprendeu ou em funo de um ou mais motivos possveis esqueceu de praticar a arte de gerenciamento dos ecossistemas naturais, ou onde destru intencional e arbitrariamente os sistemas naturais, segui-se como conseqncia inevitvel, a degradao ambiental.

Porm, os moradores desta comunidade, no tm as caractersticas psicolgicas de

pessoas que se deslocaram para habitar o mangue pela pescaria propriamente dita como

afirmou Vannucci, mas pela falta de opo de morar em um outro lugar.

A comunidade do Passo da Ptria surgiu a partir do aumento de circulao de

mercadorias, em virtude da proximidade com o Porto, fez surgir a Feira do Passo, tornando

a rea um ponto no s de comrcio com tambm de boemia, caracterstica de zonas

porturias. Por ali circulavam frutas, verduras, legumes, carne, aves, criaes diversas, alm

de tijolo, telhas, madeira.

Para facilitar o acesso rea e a circulao de mercadorias, em 1865, o governo da

Provncia mandou calar a ladeira ngreme com uma pedra preta irregular. A feira que

acontecia aos sbados noite reunia pessoas de vrias camadas sociais: cavalheiros, soldados,

funcionrios pblicos, comerciantes, moas, pescadores dando uma conotao de integrao

entre as elas. Diante das impossibilidades de separar o ambiente fsico da complexidade

humana, deparamo-nos com a percepo que permite o nosso intercmbio com o mundo

fsico desde os primrdios da vida.

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31 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

medida que a criana se desenvolve cognitiva e afetivamente a idia de lugar

torna-se ainda mais especfica e geogrfica (TUAN, 1983. p. 34). Como exemplo e,

referindo-se a pergunta: Onde voc gosta de brincar? Tuan (1983), indica que a resposta e a

construo espacial do lugar vai se desenvolvendo a partir do amadurecimento dos rgos

sensoriais at o individuo poder ser capaz de conceituar e discriminar lugar e lugares;

Oliveira (1996, p.211), fundamentada em Piaget (1973), referenda tal concepo afirmando

que a construo do espao, tanto no plano perceptivo como no representativo, engendrada

pelas atividades perceptiva, representativa e operatria.

Na percepo, acrescentamos aos estmulos elementos de memria, do raciocnio,

do juzo e do afeto, portanto acoplamos s qualidades objetivas dos sentidos outros elementos

subjetivos e prprios de cada indivduo. Podemos compreender percepo inserida neste

movimento energtico e dinmico de troca da natureza com o humano (MARQUES, 2004).

A grande parte de estudos da percepo foram em grande parte inspirados em uma

escola de psicologia chamada gestalt a Gestalt e uma organizao espontnea do campo

sensorial que faz depender os pretensos elementos do todo articulados em todo mais

extensos. Merleau-Ponty (1989), afirma ainda, que no existe matria sem forma a somente

organizaes mais ou menos estveis, mais ou menos articuladas (IBDEM).

Desta forma a Gestalt inaugura os estudos da percepo infantil, por ser nesta fase

que a criana constri efetivamente a noo de espao e lugar acontece simultaneamente com

o desenvolvimento da linguagem, a partir de ento a construo do espao passa a ser

representativa, coincidindo com o aparecimento da imagem e do pensamento simblico

(OLIVEIRA, 1996. p. 210).

A partir dos conceitos inmeros de percepo elegemos um autor que d uma

dimenso mais ampla a seu respeito, Wilhem Reich (1897-1957) mdico e cientista natural

que, por quase quarenta anos, desenvolveu uma ampla pesquisa sobre os processos

energticos vitais e primordiais. Travou embates tericos na poca para trazer luz reflexes

respeito da preveno do funcionamento da vida natural, em 1952 inventa e utiliza o

cloudbuster1 (foto 4) para remoo do DOR2 atmosfrico. Em 1954-55 faz descobertas sobre

1 Cloudbuster, foi uma mquina que em 1952, por ocasio de uma seca que castigava a regio de Ellsworth, Maine-EUA,provocava uma mudana na direo dos ventos e comeavam a formar nuvens, precipitando assim a to almejada chuva. Reich comeava a pensar e tentar atuar sobre todos os fenmenos atmosfricos: chuva, vento, umidade, insolao, vegetao, deserto etc., considerados em suas relaes recprocas enquanto sistemas energticos. Mais preocupada em partir os ncleos atmicos, a cincia acadmica e

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32 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

a relao entre a energia orgone3 de morte e a origem dos desertos (desertos geogrficos e

deserto emocional humano) (BEDANI, 2005).

Fotografia 4. cloudbuster Autor : www.wilhemreichmuseum.org , 2005.

O seu principal objeto de estudo foi o funcionamento da bio-energia, a funo

bioenergtica da excitabilidade e motilidade da substncia viva (REICH, 2003). O

encaminhamento lgico e experimental desse trabalho conduziu-o descoberta de uma fora

bsica que atua no s nos seres vivos, mas tambm no cosmos. Esse tipo de energia foi

experimentalmente comprovado por Reich no perodo 1939-1940 e, ento, nomeado como

energia orgone csmica.

mecanicista no demostrou muito interesse pela realidade atmosfrica a qual o homem est inteiramente envolvido. Ao propor a sua Cosmic Orgone Engineering, abreviada em C.O.R.E., Reich nos faz abraar um espao novo e no entanto antigo e estranho, que por isso nos muito familiar. DADOUN, Roger.- Cem flores para Wilhem Reich So Paulo : ed. Moraes Ltda, 1991. pp.108-12. 2 DOR significa "Deadly" OR Energy, Energia Orgone Mortal. REICH, W. CHRONOLOGY OF THE SCIENTIFIC DEVELOPMENT OF WILHELM REICH, disponvel em: wwwhttp://www.wilhelmreichmuseum.org/biography.html, acesso : janeiro de 2005. 3 A energia orgone a Energia Csmica Primordial; universalmente presente e possvel de ser demonstrada visualmente, termicamente, eletroscopicamente e atravs do contador Geiger-Mueller. No organismo vivo: Bio-energia, Energia Vital. Descoberta por Wilhem Reich entre 1936 e 1940. (IBDEM).

http://www.wilhelmreichmuseum.org/biography.htmlhttp://www.wilhelmreichmuseum.org/biography.html

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33 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

Segundo Reich no meio ambiente todos os fenmenos esto interligados, so

sentidos e podem ser observvel em determinados momentos, a motilidade energtica

influencia o organismo humano alterando a sua percepo e auto percepo:

No fundo, a natureza dentro e fora de ns , s intelectualmente acessvel atravs de nossas impresses sensoriais. As impresses sensoriais so, basicamente, sensaes de rgo, ou, colocando de outra maneira, ns tateamos o mundo que nos rodeia atravs de movimentos de rgos (= movimentos plasmticos) (REICH, 2003. p. 67).

A partir deste pensamento, as idias esto sempre em movimento reformulam a

percepo de acordo com a funo natural, por funo natural entendemos os rgos do

sentido. Segundo Reich (2003, p. 58): Se nossas 'impresses' dos movimentos vitais refletem corretamente sua 'expresso'; se as funes bsicas da vida so idnticas em toda a matria viva; se as sensaes nascem das emoes; e se as emoes brotam de movimentos plasmticos reais, ento nossas impresses devem ser objetivamente corretas, contanto que, obviamente, nosso aparelho sensorial no esteja fragmentado, encouraado ou alterado de algum outro modo.

Devemos considerar que as relaes que se estabelecem entre os seres humanos

com outros da mesma espcie, com os animais, coma natureza e com o planeta como um todo,

so construdas em vrios nveis. Em cada nvel, iremos nos deparar com os valores, com a

cultura, com os aspectos psicolgicos, sociais, religiosos, energticos, enfim, com uma gama

de fatores que pertencem esfera do vivo. Isto nos faz pensar que o organismo humano

exposto as agresses ambientais est sendo fragmentado e por sua vez encouraado.

Reich entendia o ser humano e a natureza como uma mesma expresso da energia

orgone, uma energia que preenche todo o espao csmico e se expressa em diferentes

concentraes, movimentos e formas. Assim sendo, o homem, incluindo-se suas emoes,

evolui a partir da natureza, como um dos produtos de seu desenvolvimento (REICH, 2003, p.

192).

Os ambientes gelados nos impedem no s de percebermos a realidade em que

vivemos, mas tambm nos impedem de amar, corroborando com o pensamento reichiano,

Swaaij (2004, p. 39), afirma que as pessoas frias so geralmente almas sensveis por

sofrerem demais [...] por causa da dor da perda, elas fogem afastando-se do afeto dos outros

para no sofrerem de novo.

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34 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

Portanto, ambientes estressantes, que constantemente nos expem a situaes que

ameaam a vida, podem interromper o fluxo de emoes do organismo humano, alterando a

sua pulsao bem como a sua relao com o meio ambiente, e conseqentemente a sua

percepo.

Seguindo o curso do pensamento reichiano, podemos dizer que o que liga o ser

humano natureza a energia orgone e as funes que possui em comum, ou seja, a

capacidade de pulsar. Essa pulsao permite que o ser humano se expanda quando se sente

relaxado, e se contraia quando se sente ameaado, tal qual acontece com a natureza.

A proposta de Reich, no entrar num complicado debate filosfico, mas

entender o que o saber em si faz ao homem (2003, p. 302) que, mesmo sendo detentor de

tanta sabedoria, no consegue sequer resolver alguns problemas que coloca em risco a sua

prpria existncia. No intuito de melhor compreender essa questo, Reich prope uma forma

de pensar que foge dos tradicionais mtodos mecanicistas ou msticos, denominado por ele de

funcionalismo orgonmico.

Segundo Pucci Jnior (2002, p.35), a teoria reichiana apresenta vrios pontos em

comum com a ecologia, ou seja, a forma com que o vivo se relaciona com o meio e com os

demais seres vivos. No pensamento reichiano, no existe nada que seja completamente

separado. Estamos em constante ligao com a natureza e com tudo o que dela faz parte,

formando um nico campo de energia.

O funcionamento orgonmico tem o mesmo principio que se d coma formao

das nuvens. Quando o tempo est nublado, as nuvens se carregam energicamente at

romperem em forma de chuva.

No corpo humano podemos aplicar esse pensamento em vrias situaes onde a

impossibilidade de descarga energtica provoca a couraa muscular e por conseqncia, traz o

aparecimento da doena fsica e/ou psquica.

Para Reich (1985) o movimento bsico de todo e qualquer ser vivo a pulsao,

que um movimento de expanso e um movimento de contrao. Na presena da vida, nos

expandimos; na presena da ameaa da morte, nos contramos. Quando a ameaa de morte

prevalece, a pulsao diminui. Isso faz com que o ser humano reduza a possibilidade de entrar

em contato com a sade, e passe a se relacionar apenas com a patologia. O movimento

alterado pode ser prevalentemente expansivo ou pode ser prevalentemente contrativo.

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35 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

Segundo Capra (1996, p. 23): Quando mais estudamos os principais problemas

de nossa poca, mais somos levados a perceber que eles no podem ser entendidos

isoladamente. So problemas sistmicos, o que significa que esto interligados e so

interdependentes.

De acordo com Reich (1986), mente e corpo so indivisveis e, portanto, devem

ser estudados em conjunto. Ambos so capazes de se auto-regular em suas funes

fisiolgicas, energticas e emocionais e quando isso no possvel, o organismo fica

impossibilitado de expressar sua livre pulsao, e permanece num estado de contrao. Diz

Reich que uma experincia psquica pode provocar uma resposta somtica que produz uma

mudana permanente em um rgo (REICH, 1986, p. 63), um estado ao qual chamou de

couraa muscular. A couraa o maior obstculo ao crescimento do ser humano, que por sua

vez torna-se incapaz de expressar suas emoes biolgicas mais primitivas, transformando-se,

por conseqncia, numa pessoa com a percepo distorcida da realidade.

O alto consumo de lcool e fumo numa comunidade, reflete que as pessoas esto

recorrendo a recursos externos para suprir a angustias causadas pela fratura na dinmica entre

humano e ambiente, constatamos que 46,28% das pessoas fumam diariamente como podemos

verificar na tabela 3 e grfico 2.

TABELA 3 - Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre o uso do tabaco.

Sim No 137 159

46,28 53,72

Grfico 2 Distribuio da freqncia em percentual da percepo ambiental dos indivduos a cerca do uso do tabaco.

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Capitulo 2

REPERCUSSO DA REURBANIZAO NA PERCEPO DA COMUNIDADE

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2. REPERCUSSO DA REURBANIZAO NA PERCEPO DA COMUNIDADE

O processo de urbanizao de Natal, historicamente, sempre foi atrasado em

virtude da falta de condies de circulao das mercadorias, atravs da precariedade das

ferrovias e rodovias daquela poca. Este processo foi gestado principalmente a partir da cana

de acar, apesar da cultura do algodo, da agropecuria, da extrao do sal e de outros

minerais.

S em 1915 a tradicional estrada do Serid, que era usada pelos comboios em

direo ao porto de Natal, foi alargada. Mas em quase nada a urbanizao de Natal e do RN,

foi beneficiada, devido precariedade do porto de Natal que prejudicava as exportaes, este

fato aliado importncia do porto de Recife para as relaes de comrcio com o mercado

nacional e internacional (CLEMENTINO, 1995, p. 109).

Este escoamento das monoculturas e dos bens primrios para serem exportados em

Recife abortou, portanto, segundo Oliveira (1996, p. 38) uma rede urbana, ou criou um

padro de urbanizao muito pobre. As cidades do Rio Grande do Norte, inclusive Natal,

passaram a ser apenas um corredor de circulao de mercadorias, para o mercado nacional e

internacional.

Porm, com o advento da segunda guerra mundial, o processo de produo do

espao urbano em Natal j comea a se delinear da seguinte maneira:

1. Natal : centro administrativo at a segunda guerra mundial; 2. Natal : centro estratgico militar durante a segunda guerra; 3. Natal : centro administrativo e estratgico militar, ps guerra at os anos

60; 4. Natal : em transio para a sociedade urbana (anos 70 em diante.)

(CLEMENTINO, 1995, p.138).

A partir de 1970, como reflexo do desenvolvimento acelerado e desordenado, que

permeou todo o perodo do milagre brasileiro, o processo de urbanizao em Natal comea a

surgir, quando a Petrobrs passou a sediar plataformas continentais e poos de terras,

ampliando o crescimento da indstria da construo civil e de seus materiais.

Cabe ressaltar, que mesmo assim, o carter quase enclave das atividades da

Petrobrs no alterou at agora: as compras da empresa e de suas subsidirias ainda so feitas

praticamente fora do RN (CLEMENTINO, 1995, p. 273).

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A consolidao do processo de expanso urbana de Natal acontece a partir do

surgimento da atividade turstica, que dinamizava a construo civil, a partir das construes

de hotis, da valorizao imobiliria e da intensificao do fluxo migratrio ampliando a

oferta de empregos (COSTA, 2000).

Apesar do turismo ter favorecido a expanso de empregos, estes no foram

suficientes para suprir a demanda de desempregados que se instalavam na cidade. Estas

pessoas excludas do mercado de trabalho foram empurradas para a periferia, habitando

locais que geralmente se localizam em zonas de risco ambiental. Desde ento, foi

desencadeado um processo de degradao humana e ambiental, sem precedentes.

Um exemplo de um grande e controvertido, projeto turstico para Natal, foi o

projeto via costeira que segundo Costa (2000, p. 68), favoreceu o acesso das pessoas, rea

de proteo ambiental que depredam e destroem o meio ambiente do local, e dificulta o

acesso das pessoas praia em quase toda sua extenso, tornando-se exclusivos aos hspedes

ali instalados.

Com a comunidade do Passo da Ptria no foi diferente. O abandono do local, a

intensificao do processo de urbanizao da cidade e o adensamento das reas mais prximas

aos servios sociais bsicos propiciaram posteriormente o surgimento da subnormalidade,

principalmente com o surgimento das comunidades do Areado e Pantanal. (Ver foto 1).

Segundo o historiador Itamar de Souza, espalhavam-se pelos quadrantes do ptio,

botequins, barracas de caldo de cana, bancas de jogos de jaburu, jogos de dados, bacar

situados num flanco, pois do outro era destinado aos tabuleiros com gostosas tapiocas de

coco, alfenins, com figuras de animais e flores, sequilhos de goma, broas, doces secos, ps -

de moleque; iguarias que atraiam os muncipes. Nas altas horas da noite a boemia se

regalava nos bailes ou sabatinas.

A energia eltrica foi instalada em fevereiro de 1932 pelo prefeito Gentil Ferreira.

Com o crescimento da cidade surgiram a feira do Alecrim (Bairro vizinho) e o Mercado da

Cidade Alta, em 1937, alm da implantao da Linha frrea ou GREAT WESTERN. A feira

do Passo comeou a entrar em declnio, permanecendo como zona de baixo meretrcio at o

surgimento da Ribeira. Ficou no local apenas quem possua alguma relao de dependncia

com o Rio Potengi.

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Fotografia 5 Vista area do bairro Cidade Alta e no alto a direita do Passo da Ptria no esturio do Rio Potengi. Autor: SEMTAS, 2003.

Segundo Santos (2002, p. 110) o oramento urbano no cresce com o mesmo

ritmo com que surgem as novas necessidades. Diante desta afirmao podemos constatar que

aliado ao descaso das polticas pblicas, nos deparamos com a falta de infra-estrutura urbana

que encontramos atualmente. A dinmica do processo de urbanizao de Natal retrata um

quadro de desigualdades e excluso, pela falta de uma poltica urbana, que respeite e atualize

seu plano diretor.

Como acontece com a maioria dos municpios, Natal tambm no estava

preparada para enfrentar a intensificao do fluxo migratrio que abrangeu todo o estado a

partir da dcada de 70. De acordo com os dados da SEMTAS (2003); o surgimento das

primeiras favelas data da dcada de 60 (Braslia Teimosa, no bairro de Santos Reis e Me

Luiza, hoje bairro), com um pico de expanso em meados da dcada de 70, quando se

verificou a existncia de 30 reas com a configurao de favela, ampliando-se para 32 em

1981. A maioria desses aglomerados situa-se em reas pblicas (60,61%), de risco ou de

preservao ambiental (dunas - 34,85%, mangues 18,18%, e encostas 6,06%), distante do

centro da cidade e dos servios pblicos essenciais. (Ver foto 6).

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Fotografia 6. Mapa da cidade de Natal. Autor: SEMTAS, 2003. Comunidade Passo da Ptria

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Natal, por ser a capital do Estado e privilegiada em termos de acessibilidade viria,

tem facilitado sua ligao com diversos centros regionais, atravs de uma rede de transportes

rodovirios coletivos (nibus e alternativos) e ainda o transporte ferrovirio para alguns

municpios, que atravessa a comunidade do Passo da Ptria. O que, se por um lado um

aspecto positivo, por outro tem gerado impactos, que os governos locais no estavam em

condies de absorver. De qualquer maneira, contribui para que uma parte do contingente de

pessoas que chegam em busca de melhores condies de vida, seduzidas pela oferta de

melhores servios nas reas da sade, educao e comrcio e por todo o glamour que

naturalmente uma capital litornea j ostenta, fiquem margem dos mesmos servios pelos

quais se sentiram atradas.

A prefeitura Municipal de Natal, atravs da Secretaria Municipal de Trabalho e

Assistncia Social (SEMTAS), em convnio com o Programa Habitar Brasil financiado pelo

BID Banco Interamericano de Desenvolvimento a responsvel pela execuo do Projeto

integrado Passo da Ptria.(Ver foto 7).

Fotografia 7- A Prefeitura Municipal de Natal anuncia as obras de urbanizao da comunidade do Passo da Ptria. Autor: MACHADO, Mnica, 2004.

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O Programa Habitar Brasil prope, no bojo de sua concepo, o incremento

capacidade municipal de resolver os problemas habitacionais urbanos, a potencializao de

recursos para atenuar problemas de assentamentos subnormais e elevao da qualidade de

vida da populao urbana de baixa renda. Para tanto, subdivide-se em dois Sub-Programas

Desenvolvimento Institucional e Urbanizao de Assentamentos Sub-normais. O primeiro

deve possibilitar a capacitao institucional da prefeitura, no seu setor urbano e habitacional

para a populao de baixa renda, tendo como produto final um Plano Estratgico Municipal

para Assentamentos Sub-normais PEMAS. O segundo traz como eixo mestre a implantao

e desenvolvimento de projetos integrados de urbanizao de reas degradadas ou de risco,

ocupadas por sub-habitaes de famlias com renda mensal predominantemente de at 03

(trs) salrios mnimos, que compreenda a regularizao fundiria e a implantao de infra-

estrutura urbana e de recuperao ambiental nessas reas, assegurando a efetiva mobilizao e

participao da comunidade, na concepo e implantao dos projetos (Regulamento

Operacional Programa Habitar Brasil - BID).

Um plano estratgico nesta localizao nos leva a pensar que se trata do mesmo

modelo que Arantes (2000) se refere em seu texto uma estratgia fatal, a cultura das novas

gestes urbanas. O planejamento estratgico, neste contexto, surge como marketing da

cidade. O marketing e a publicidade passam a encadear, na poltica urbana, uma srie de

processos novos. A competio urbana, ao se inserir na escala internacional, instaura uma

nova hierarquia de lugares, independente dos vrios interesses em jogo. As tendncias atuais

do planejamento urbano e, particularmente, do inspirado no planejamento estratgico,

enfatizam a cultura como emblema, utilizando-a como rtulo para obteno de respaldos e

adeses unnimes, que ocultam interesses e fins, estes efetivamente estratgicos.

O planejamento estratgico como mais um eufemismo para gentrification, sem

contudo dizer que so a mesma coisa, segundo Arantes (2000, p. 31):

[...] a gentrificao uma resposta especfica da mquina urbana de crescimento a uma conjuntura histrica marcada pela desinsdustrializao e conseqente desinvestimento de reas urbanas significativas, a terceirizao crescentes das cidades, a precarizao da fora de trabalho remanescente e sobretudo a presena desastabilizadora de uma underclass fora do mercado.

As iniciativas de revitalizao dos centros urbanos reproduzem um processo de

gentrificao, isto , o enobrecimento de locais anteriormente populares. O resultado desse

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processo seria a produo de uma cidade desigual, com a expulso da populao de baixa

renda das regies revitalizadas em prol de interesses econmicos das elites, que se

beneficiariam.

Esse tipo de interveno com objetivos claros de reciclagem espacial e cultural da

imagem urbana, evidenciando clara tendncia gentrificao, tem incio na dcada de 60,

nos Estados Unidos e na Europa Ocidental. So inmeros os exemplos desta tendncia, como

os do Battery Park em Nova York e o da clssica requalifao do SoHo, em Manhattan.

Contemporaneamente, as intervenes buscam, cada vez mais, a reciclagem

imagtica dos lugares. Desta forma, antes da importncia conferida transformao da

paisagem fsica e cultural das cidades, encontra-se a inteno de gerar imagens recicladas e

sinteticamente estimuladoras de oportunidades econmicas.

Atualmente est sendo proposta uma interveno na Praa Andr de Albuquerque,

em Natal, atravs de um projeto intitulado Uma Janela para o Potengi, no qual, alm da

restaurao e integrao dos monumentos no contexto da cidade, uma das principais aes a

urbanizao do Passo da Ptria. Integrar esses dois projetos s trar benefcios para toda a

cidade, tanto no aspecto social, como no urbanstico, histrico e cultural.

Atravs da Lei 3.175/84 do Plano Diretor, foi instituda a Zona Especial de

Preservao Histrica (ZEPH), mediante criao de zoneamento especial, compreendendo a

Ribeira e parte da Cidade Alta. A unio entre a iniciativa privada e demais rgos pblicos,

deu incio a um processo de revitalizao (aproximadamente a partir de 1994), preservao

histrica e renovao urbana do Bairro da Ribeira, incentivando as atividades tursticas,

culturais e artsticas e abrindo caminho para outras iniciativas.

Segundo Antnio Jnior (2002), por volta de 1929 a 1930 Saint-Exupry, nas suas

viagens a Natal, subia na torre da matriz para apreciar o por do sol sob o Potengi, fato que o

inspirou na produo do seu best seller O Pequeno Prncipe.

Aterrissava para revisar e reabastecer sua aeronave, e algumas vezes chegava a

passar dias, buscando um merecido descanso. Encantado com o pr-do-sol encandeceste visto

das margens do Rio Potengi, disse tratar-se do mais belo do mundo. Cest merveilleuse!,

completou. Em O Pequeno Prncipe ele escreve: Assim eu comecei a compreender, pouco a

pouco, meu pequeno principezinho, a tua vidinha melanclica. Muito tempo no tivesse outra

distrao que a doura do pr-do-sol. (Ver fotos 8 e 9).

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Fotografia 8 - Por do sol no esturio do Rio Potengi Autor: SEMTAS, 2003.

Fotografia 9 - Por do sol no esturio do Rio Potengi Autor: SEMTAS, 2003.

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Pode-se afirmar que a reurbanizao ir promover mais um produto turstico na

cidade de Natal. Acredita-se que, para um investimento desta magnitude, em que esto sendo

envolvidos diversos atores de mltiplas competncias, os problemas estruturais deveriam ser

resolvidos. Entretanto esta comunidade dever permanecer ocupando o mesmo espao de

fragilidade ambiental. Isto nos leva a pensar que as questes a respeito das desigualdades

ambientais, em que os riscos so desigualmente distribudos um tema que ainda precisa

evoluir e ampliar o leque de participao social que suscite uma discusso pblica com os

diversos atores da sociedade (TORRES, 2000).

Ainda questiona-se a continuidade de sobrevivncia destas pessoas neste lugar:

qual ser o seu destino quando a especulao imobiliria surgir? Como podero se manter

neste espao quando sua renda menor que trs salrios mnimos, j que as diversas taxas de

iluminao pblica, dentre outras taxas, vo incidir sobre elas. Felipe (2002) afirma que os

excludos esto fora desta lgica, principalmente da lgica de uma globalizao de um lugar.

O autor faz uma citao muito pertinente de Milton Santos, quando este, se refere que o

destino das sociedades e de cada homem nos dias de hoje, regrado por essas novas

regulaes do espao (SANTOS, apud FELIPE, 2002, p. 229).

De um lado, os riscos sociais esto sendo de certa forma atendidos, visto que o

programa tem como principal finalidade melhorar a qualidade de vida da comunidade

(SEMTAS, 2003). Por outro lado, os riscos ambientais continuam presentes pela prpria

caracterstica da rea. Porm, a comunidade pesquisada acredita que a reurbanizao da sua

comunidade vai acabar com a poluio do rio. Constata-se isto quando 80,07% responderam

que acreditam na limpeza do Canal do Baldo. Como podemos observar na tabela 4 e grfico

3.

TABELA 4 - Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre a limpeza do Canal do Baldo.

Sim No 237 59

80,07 19,93

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80,07%

19,93%

Sim No

Grfico 3 Distribuio da freqncia em percentual da percepo ambiental dos indivduos a cerca da limpeza do canal do Baldo.

Segundo dados da SEMTAS, foram pesquisadas as variveis relativas

qualificao trabalho e renda, as quais apresentam um quadro catico. Em toda regio, uma

em cada trs pessoas, assinalaram a condio de desempregado e no Areado, os que

informaram estarem desempregados superam os 40%, num universo de 1.480 trabalhadores

declarados (recorte realizado a partir do levantamento identificado na tabela a seguir) e uma

populao adulta de 1.644 pessoas.

TABELA 5 - Mo de Obra Ativa

Situao da Mo de Obra Ativa

Passo da Ptria

Areado

Pantanal

Geral

Empregado CLT

121 26,5 64 14,4 131 22,6 316 21,4

Empregado sem contrato

30 6,6 55 12,4 55 9,5 140 9,5

Funcionrio pblico

21 4,6 06 1,4 20 3,4 47 3,2

Outros

77 16,8 90 20,3 151 26,0 318 21,5

Desempregados

126 27,6 179 40,4 186 32,1 491 33,2

no declararam

82 17,9 49 11,1 37 6,4 168 11,2

Total

457 100 443 100 580 100 1480 100

Fonte: SEMTAS 2003

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Considerando que o universo pesquisado foi de 1480 adultos trabalhadores, e se a

categoria desempregados, somarmos os integrantes das categorias outros e no

declararam, encontrou-se o nmero de 977 pessoas 65,9% desse segmento, numa situao

indicativa de total informalidade, cujos rendimentos ou fontes de sobrevivncia no se pde

na realidade detectar. Essas pessoas podem inclusive, passar para marginalidade, conforme

aventado pelos pesquisadores e tornar-se um problema muito mais complexo do que

inicialmente se possa supor.

Esses indicadores apontam para uma amostragem da dura realidade desta

comunidade, que ocupou desordenadamente as margens do Rio Potengi e, sem perceberem,

contriburam para a devastao do ecossistema estuarino, encontrando- se abandonados

prpria sorte e de certa forma com a conivncia do Estado.

Segundo Clementino (2002, p. 130), a Prefeitura no pode ser apenas uma

zeladoria da cidade e uma prestadora de servios sociais, mas tambm deve atuar como

indutora do desenvolvimento econmico; o conjunto de atividades que visam a fortalecer a

economia surge como resposta s transformaes polticas que aconteceram, a partir dos anos

80 e, particularmente, ante a intensidade das polticas de ajuste econmico que provocam

efeitos muito graves, como o desemprego. Com esta afirmao, Clementino nos faz refletir

como a questo da governabilidade est ausente nas tomadas de decises democrticas e

como termo gestor pblico, passa a ser mais real com o nosso modelo poltico,

contemporneo.

O conceito de gesto surgiu historicamente, a partir da gesto de empresas de

domnio privado, para a promoo do seu funcionamento e lucros, sem se esquecer da sua

perpetuao e do seu desenvolvimento. Como um bem, a relao de gesto pressupe que o

bem possudo, incluindo-se aqui sua destruio, aos projetos, usos e preferncias do sujeito,

o que manifesta a concepo plenamente desenvolvida do direito de propriedade que , de

ltima forma, um direito de destruir (RMOND-GOUILLOUD apud. GODARD, 1997, p.

209).

A partir da pouca probabilidade deste projeto promover um desenvolvimento

econmico eficiente, que favorea a incluso scio-econmica dos habitantes da comunidade

que ora pesquisamos, dificilmente eles perceberam que esto expostos a fatores scio-

ambientais desfavorveis; como habitam o lugar h algum tempo, eles j se sentem parte da

comunidade.

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O Plano Estratgico Municipal de Natal para Assentamentos Subnormais tem

como principal finalidade melhorar a qualidade de vida da comunidade, assegurando a

participao e insero efetiva dos beneficirios finais, na concepo, discusso, deciso e

implantao dos projetos executivos integrados. Especificamente quanto ao trabalho social,

seu objetivo maior ser o de contribuir para a incluso social, o resgate da auto-estima e

cidadania dos beneficirios, bem como dos princpios decisrios democrticos e da

participao da populao beneficiada (SEMTAS, 2003).

Este programa vai contemplar 920 (novecentos e vinte) famlias, 3.747 (trs mil,

setecentos e quarenta e sete) pessoas atravs de algumas aes dos projetos integrados:

remanejamento de 65 famlias, construo de 216 Unidades Habitacionais, melhorias em 382

Unidades Habitacionais, Urbanizao da rea (arruamento, iluminao pblica, drenagem

pluvial do canal, muro de arrimo para conteno das enchentes), 920 ligaes domiciliares de

esgotamento sanitrio condominial, quadra de esportes, posto de sade, dentre outras

melhorias. Pode-se observar, diante dessas aes descritas acima, que este programa no se

prope a contemplar a recuperao ambiental da comunidade Passo da Ptria, visto que ainda

haver pessoas vivendo numa rea de risco ambiental e de mangue.

Quanto coleta de lixo domiciliar, embora acontea regularmente para a maioria

da populao, ainda existem problemas localizados, como o das famlias que no informaram

e as do Passo da Ptria, especificamente as que moram na Pedra do Rosrio, por no ter

nenhuma condio de acesso normal ao local. Em alguns locais existem duas caambas

coletoras fixas, mas atualmente pelo estado em que se encontra, o lixo vem sendo jogado no

cho mesmo. No Passo da Ptria, Areado e Pantanal, a coleta feita no turno diurno, com

freqncia diria entre 7:00 e 13:00 h, por dois carroceiros, quatro garis e um encarregado.

Ainda esto cadastrados 05 catadores de lixo, que atuam regularmente na rea.

O quadro torna-se ainda mais alarmante quando se detecta que 722 famlias

83,9% jogam seu lixo em gua corrente. O que, associado s 198 famlias (21,5%), que apesar

da existncia de coleta diria e da maioria da populao (77%) estar ciente disto, tambm tm

a gua corrente como destino do seu lixo residencial. Este fato evidencia a complexidade do

problema da rea e a sua condio de alto risco, sob todos os aspectos (SEMTAS, 2003).

A seguir possvel observar a tabela que nos mostra a realidade do destino dos

resduos slidos da comunidade:

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Tabela 6 Destino do lixo residencial

Destino

Passo da Ptria

Areado

Pantanal

Geral

Apenas coleta regular

224 77,1 195 69,1 284 81,9 703 76,5

Queima

01 0,3 00 Zero 01 0,3 02 0,2

Enterra

00 Zero 03 1,1 00 Zero 03 0,3

Deposita em terreno baldio

01 0,3 00 Zero 13 3,7 14 1,5

Joga em gua corrente

65 22,3 84 29,8 49 14,1 198 21,5

TOTAL

291 100 282 100 347 100 920 100

Fonte: SEMTAS 2003

O tratamento de guas servidas em Natal no difere muito deste quadro assustador

com o qual nos deparamos atravs das notcias nos jornais da Cidade: A CAERN uma das responsveis diretas pela morte gradativa do Potengi. A companhia joga por dia 50 mil metros cbicos de esgoto sem tratamento no rio. O presidente do rgo, Jaime Calado, afirmou que ainda possvel resolver o problema e salvar o esturio, mas para isso, necessrio o incio dos trabalhos do Plano Diretor de Esgotamento Sanitrio de Natal. A homologao do PDES j foi feita e a governadora vai adjudic-lo. O plano diz como ser o tratamento do esgoto da capital e prev a criao ou reaproveitamento de projetos bsicos. O estudo vai apontar o local e a forma adequada para fazer este tratamento e tem um ano para ser realizado. Calado explicou que existem duas vertentes de esgotos em Natal. Uma vem dos bairros mais antigos da cidade e a outra do Distrito Industrial. O plano de esgotamento ter duas prioridades. Comear pelo tratamento dos efluentes, pois a ausncia dele foi um erro histrico. Depois, priorizaremos as reas nas quais o nitrato ainda no chegou, diz o presidente, referindo-se a poluio do lenol fretico potiguar devido falta de saneamento bsico (Dirio de Natal, matria intitulada, Relatrio da CPI 15/03/2003).

A interferncia do equilbrio energtico atmosfrico no organismo foi um dos

temas de pesquisa dos autores ps reichianos, que de acordo com Dadoun (1991, p. 57): [...]

no quadro das perspectivas orgonmicas, que Pierrakos ligou-se sobretudo, explorao dos

campos energticos: no homem, nas plantas e cristais, na atmosfera, na terra e no oceano

[...].

A forma destrutiva pela qual o homem tem historicamente se apropriado do meio

ambiente tem origem nas necessidades e nos desejos mais profundos, refletindo os impulsos

agressivos que trazem consigo e a que esto submetidos desde a mais tenra idade.

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No decorrer do processo das obras a comunidade foi extremamente agredida pelas

invases de gua e esgotos em suas residncias, trazendo prejuzos de todas as ordens

podemos observar nas fotos 10, 11 e 12, algumas imagens que retratam a realidade das

condies sub humanas em que estiveram submetidos.

Fotografia 10 - Buero onde so lanados 50 mil metros cbicos de esgotos pela CAERN no esturio do Rio Potengi. Autor: MACHADO, Mnica 2003.

Fotografia 11 Canalizao e cobertura do esgoto lanado no esturio do Rio Potengi. Autor: MACHADO, Mnica, 2005.

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Fotografia 12 Observamos nesta imagem, o lixo, a lama e as pessoas convivendo nesta realidade. Autor: MACHADO, Mnica, 2003.

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Captulo 3

ANLISE DA PERCEPO DA COMUNIDADE

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53 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

3. ANALISE DA PERCEPO DA COMUNIDADE

Wilhem Reich, um dos precursores dos movimentos de proteo ambiental, indica

em seu pensamento que preciso uma mudana radical nas relaes humanas, j que o

prprio ser humano se auto destri. Para o autor, o meio um dos elementos que influi nesse

processo. Segundo Pelizzaro (2002, p.106), a viso reichiana do ser humano uma viso

otimista, no qual Reich acreditava que todo ser humano poderia ser saudvel e, como

conseqncia, poderia nos oferecer uma sociedade mais saudvel, onde os valores humanos

pudessem ser respeitados.

Reich um dos autores que mais acredita no amor como um poderoso remdio

para a garantia da vida no nosso planeta, na dedicatria de seu livro Children of Future, On

the Prevention of Sexual Pathology, ele diz:

Ao longo de toda minha vida, tenho amado os bebs, as crianas e os adolescentes, e tambm sempre fui amado e compreendido por eles. Bebs costumam sorrir para mim pois tenho um profundo contato com eles, e crianas de dois ou trs anos mui freqentemente ficam compenetradas e srias quando olham para mim. Isto foi um dos grandes privilgios de minha vida, e quero expressar de alguma maneira meus agradecimentos por este amor que meus pequenos amigos me concederam. Possa o destino e o grande oceano de energia vital, no qual eles vieram e para o qual retornaro cedo ou tarde, bendiz-los com satisfao, alegria e liberdade durante suas vidas. Espero ter dado o melhor de mim para sua futura felicidade. Wilhelm Reich (1951-1983/52)

Neste novo olhar, este captulo tem como objetivo principal analisar a percepo

dos moradores da comunidade do Passo da Ptria a partir de informaes pesquisadas no local

e em jornais da cidade que possibilitem um abrangente referencial da experincia de viver

numa comunidade degradada, onde a comunidade pesquisada vive sob medo de enchentes,

tiroteios pelo trfico de drogas, fato que faz parte do cotidiano das pessoas que habitam este

lugar.

De acordo com o Dirio de Natal 31/07/2005; na matria intitulada, Tiroteio

assusta no Passo da Ptria gangues de jovens rivais vem protagonizando h mais de dois

anos cenas de terror na comunidade do Passo da Ptria. As disputas pelos pontos de droga do

local j fizeram vrias vtimas. A ltima delas, o ambulante Wagner Barros Alves, 21, morreu

com trs tiros na cabea. A famlia clamou por justia, mas nem chegou a registrar boletim de

ocorrncia no Posto Policial do bairro, localizado a 500 metros da casa onde moram, no Largo

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So Francisco. Disse Valderley Alves, 22, irm da vtima: No adianta. No vai acontecer

nada com as pessoas que matou ele. Aqui no vem policiamento noite. Os bandidos andam

com as armas na cintura. Desde aquele dia, no sa de casa. Por mim, ningum ficava sabendo

que estou aqui. Indagada sobre o que poderia ter motivado o crime, ela diz desconhecer.

Nega o envolvimento do irmo com as drogas e com uma das gangues que amedrontam a

comunidade. Segundo Valderley, o defeito de Wagner era confiar demais nas pessoas. Ele

era inocente. Meu irmo era na dele. Nunca matou nem fez mal a ningum, afirmou. Um dia

antes da morte do neto, a av Rita Barros, 83, chegou de Recife para visitar os netos e a filha.

Ficou sem ao. Abatida, repetia apenas que as coisas haviam mudado. E para pior. No meu

tempo no era assim. A gente danava, brincava, namorava.

As pessoas da comunidade evitam falar sobre o trfico de drogas, mas para sua

prpria segurana. Identificou-se um policial militar que tem familiares no bairro, proferindo

que, O Passo da Ptria est dividido. Existem duas gangues aqui. Uma comandada pelo

Clayton Galego, de 19 anos, e a outra por Tita Marujo, de 21 anos. Eles disputam os

pontos de venda de crack. A do Galego fica na favela do Passo da Ptria. A outra, no muro da

Base Naval.

Relacionando os aspectos afetivos referentes ao lugar vivido, 87,50% das pessoas

afirmaram que gostam do lugar que moram. (Ver tabela 7 e grfico 4).

TABELA 7 - Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre se gostam do lugar que moram.

Sim No 259 37

87,50% 12,50%

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55 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

Grfico 4 Distribuio da freqncia em percentual da percepo ambiental dos indivduos sobre se gostam do lugar que moram.

Tal afirmativa acima vem referendar o que detectamos no nosso levantamento de

dados: os moradores deste referido lugar ribeirinho, como podemos verificar na tabela 8 e

grfico 5, 64,53% dos moradores no se sentem discriminados morando nessa comunidade.

TABELA 8 - Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos Indivduos sobre se eles se sentem descriminados morando nessa

comunidade.

Sim No 105 191

35,47 % 64,53 %

Grfico 5 Distribuio da freqncia em percentual da percepo ambiental dos

indivduos se eles se sentem descriminados morando nessa comunidade. .

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visvel como a condio de perigo do lugar vivido no percebida pela maioria

dos habitantes deste lugar, quando 74,66% das pessoas afirmaram que se sentem bem,

transitando na sua comunidade. (Ver tabela 9 e grfico 6).

TABELA 9 - Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre como os mesmos se sentem bem em transitar pela comunidade.

Sim No 221 75

74,66 25,34

Grfico 6 Distribuio da freqncia em percentual da percepo ambiental dos indivduos como os mesmos se sentem bem em transitar pela comunidade. Na observao dos entrevistados est muito mais ligado s variaes da natureza

(alagamentos, para 31% = 285 famlias) do que a outras condies presentes, como a falta de

salubridade. E, curiosamente, para 48,5% dos entrevistados (447 famlias), no existe nenhum

risco.

Segundo uma moradora, com filhos e sobrinhos pequenos em casa, ao ser

interrogada como ela convivia com esse perigo constante, responde j ter se acostumado e

que, quando as crianas vo crescendo diz a elas para correrem da linha (onde muitas

brincam) quando ouvirem o barulho do trem.(Fotos 13 e 14).

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57 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

Fotografia 13 - Crianas brincando nos trilhos do trem. Autor: MACHADO, Mnica. 2004.

Fotografia 14 As crianas brincam na lama por entre mquinas e equipamentos da obra. Autor: MACHADO, Mnica, 2003 Podemos afirmar que a falta de medo referidas anteriormente pela comunidade

pesquisada, contidas nas tabelas, seria uma resposta decorrente do resultado do movimento da

angstia do ser humano, que sobrevivem em situaes de risco. A resposta a seguir corrobora

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58 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

com a afirmativa Reichiana, quando podemos observar na tabela 10 e grfico 7, que 51,01%

afirmam no perceber a falta de segurana.

TABELA 10 - Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambien- tal dos indivduos que afirmam no perceber a falta de segurana.

Sim No 145 151

48,99 51,01

Grfico 7 Distribuio da freqncia em percentual da percepo ambiental dos indivduos que afirmam no perceber a falta de segurana.

Podemos observar uma contradio diante das respostas da tabela 10 e grfico 7,

em que 151 pessoas afirmaram no perceber a falta de segurana, enquanto 145 pessoas

conseguem perceber que correm perigo convivendo no cotidiano, neste lugar. Sabemos que

todas as respostas so carregadas de emoo. Viver num lugar que a todo o momento nos

deparamos com agresses a nossa integridade, nos leva a construir recursos internos, ou seja,

para podermos sobreviver temos que aprender uma outra forma de perceber e sentir.

Ao verificarmos apenas uma pequena diferena, de apenas seis pessoas dentro do

universo dos moradores que responderam nossas perguntas, podemos aferir que, o lugar onde

experienciamos o seu cotidiano nos envolve de tal forma que muitas vezes nos leva a

distanciarmos do nosso domnio racional, que, segundo Maturana (1998, p.15), Quando

mudamos de emoo, mudamos de domnio de ao. Na verdade todos sabem isso na prxis

da vida, mas o negamos porque insistimos que o que define nossas condutas como humanas

elas serem racionais.

Confirmando este pensamento, Mendona (2004, p. 32) afirma que o que se

compreende hoje como meio ambiente elementos naturais e sociais conjuntamente faz

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59 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

parte da origem geogrfica. Sobre este elo entre o social e o natural, Nunes (2000, p.12)

afirma que:

Entretanto, trabalhos de campos realizados [...] permitiram observar que no suficiente simplesmente conhecer os elementos e atributos dos sistemas naturais como vegetao, solos, guas superficiais, aqferos subterrneos, relevos, rochas, e as inter-relaes existentes entre eles, mas tambm, como o homem est interferindo nesses ambientes.

Corroborando com o pensamento de Nunes (2000), 63,83% da populao pesquisada compreende o que destruio ambiental, como podemos averiguar na tabela 11 e grfico 8.

TABELA 11 - Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre o que destruio ambiental.

Sim No 189 107

63,85% 36,15%

Grfico 8 - Distribuio da freqncia em percentual da percepo ambiental dos

indivduos sobre o que destruio ambiental.

Por outro lado, os riscos ambientais continuam presentes pela prpria

caracterstica da rea. Os riscos, tanto sociais quanto ambientais, tendem ser cumulativos

(TORRES, 2000); este fato tambm confirma a percepo da populao pesquisada, como

podemos averiguar na tabela 12 e grfico 9.

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60 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

TABELA 12 Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre os riscos sociais e ambientais do lugar

Sim No 209 87

70,61% 29,39%

Grfico 9 - Distribuio da freqncia em percentual da percepo ambiental dos indivduos sobre os riscos sociais e ambientais do lugar.

Diante da impossibilidade de habitar a rea urbanizada da cidade, a comunidade,

mesmo percebendo os riscos continuam morando neste lugar. Podemos constatar a partir das

suas respostas. Ao perguntarmos se as pessoas sabiam que os esgotos de alguns bairros de

Natal so lanados no Rio Potengi, 97, 97% confirmaram que sabiam que conviviam com

resduos fecais na mar onde alguns moradores pescam e onde as crianas se banham, como

podemos observar na tabela 13 e grfico 10.

TABELA 13 - Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambien- tal dos indivduos sobre os perigos dos esgotos lanados no Rio.

Sim No 290 6

97,97% 2,03%

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61 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

.

97,97%

2,03%

Sim No

Grfico 10 - Distribuio da freqncia em percentual da percepo ambiental dos indivduos sobre os perigos dos esgotos lanados no Rio.

Podemos observar que a experincia de viver neste ambiente interfere

sobremaneira na percepo, sade e comportamento humanos, como podemos constatar ao

depararmos com a questo: Se a comunidade j havia tido algum prejuzo pela poluio do rio

(financeira ou sade), 64% afirmaram que sim; podemos observar na tabela 14 e grfico 11.

TABELA 14 - Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre os prejuzos pela poluio do Rio.

Sim No 191 105

64,53% 35,47%

Grfico 11 - Distribuio da freqncia em percentual da percepo ambiental dos indivduos sobre os prejuzos pela poluio do Rio.

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Podemos observar que uma grande parte da comunidade pesquisada,

correspondente a 46,62% se queixa sempre de algum mal e atribuem este fato a algum

problema de sade. O meio ambiente degradado altera a percepo, as atitudes e condutas

humanas, podemos verificar na tabela 15 e grfico 12.

TABELA 15 - Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre algum problema de sade da comunidade.

Sim No 158 138

53,38% 46,62%

Grfico 12 - Distribuio da freqncia em percentual da percepo ambiental dos indivduos sobre algum problema de sade da comunidade

Confirmando que h uma ruptura no fluxo energtico que permeia homem e

natureza, alterando o funcionamento harmnico dos organismos humanos e ambiental,

podemos constatar quando encontramos um alto ndice de pessoas que foram

hospitalizadas, 120 pessoas que corresponde a 40,54% do universo observado responderam

que j haviam sido hospitalizados. (Ver tabela 16 e grfico 13).

TABELA 16 - Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre pessoas da comunidade que j foram hospitalizadas.

Sim No 120 176

40,54% 59,46%

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Grfico 13 - Distribuio da freqncia em percentual da percepo ambiental dos indivduos sobre pessoas da comunidade que j foram hospitalizadas.

Aprofundar este conceito entender que num organismo vivo que pulsa, as

palavras deveriam estar conectadas as sensaes corporais, a percepo de si mesmo e do

meio ambiente. As sensaes corporais ficam comprometidas diante da sobrecarga de

interferncias, que alteram a pulsao livre dos organismos saudveis. Diante da percepo

que os nveis de expectativa de vida, constatamos que 50,68% das pessoas no esto se

sentindo supridas diante das necessidades bsicas da vida; podemos verificar na tabela 17 e

grfico 14.

TABELA 17 - Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre o suprimento das necessidades bsicas.

Sim No 146 150

49,32% 50,68%

Grfico 14 - Distribuio da freqncia em percentual da percepo ambiental dos indivduos sobre o suprimento das necessidades bsicas.

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64 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

E tambm constatamos que uma grande parte da comunidade pesquisada, ou seja,

46,28% destas pessoas consomem lcool diariamente. Ver a tabela 18 e grfico 15.

TABELA 18 - Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental

dos indivduos sobre o consumo de lcool.

Sim No 137 159

46,28% 53,72%

Grfico 15 - Distribuio da freqncia em percentual da percepo ambiental dos indivduos sobre o consumo de lcool.

Diante desta situao perguntamos se o aparecimento de ratos era freqente em

suas residncias. Das pessoas pesquisadas, 72,53% delas relataram que sim, e uma delas

informou que numa determinada noite acordou com o choro de seu beb de 9 meses, ao

verificar, percebeu que havia um rato roendo seu pezinho. (Ver tabela 19 e grfico 16).

TABELA 19 - Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre o aparecimento de ratos nas residncias.

Sim No 198 98

72,53% 27,47%

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Grfico 16 Distribuio da freqncia em percentual da percepo ambiental dos indivduos sobre o aparecimento de ratos nas residncias

Mesmo diante de tantas presses no cotidiano desta comunidade, a maioria das

pessoas carrega em si sentimentos topofilicos, quando 87,84% das pessoas pesquisadas se

julgam felizes vivendo neste ambiente degradado, isto demonstra que h uma ligao afetiva

entre o humano e o lugar. (Ver tabela 20 e grfico 17).

TABELA 20 - Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental

dos indivduos sobre a ligao afetiva no lugar em que vive.

Sim No 260 36

87,84% 12,16%

Grfico 17 - Distribuio da freqncia em percentual da percepo ambiental dos

indivduos sobre a ligao afetiva no lugar em que vive.

De acordo com o Jornal Tribuna do Norte de 22/04/2003, matria intitulada

moradores iniciam faxina nas casas aps enchentes vrias famlias da comunidade do

Areado, no Passo da Ptria, querem indenizao pelos danos causados pelas enchentes devido

s chuvas. Eles alegam que as guas do canal s invadiram as residncias por causa da

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movimentao das terras provocadas pelas obras da Secretria Municipal de Obras e Viao -

SEMOV. (Ver fotos 15, 16, 17, 18 e19).

Fotografia 15 - Movimentao de terras para cobertura do Canal do Baldo Autor: MACHADO, Mnica, 2003

Fotografia 16 Estragos causados por mais uma inundao, proveniente de forte chuva. Autor: MACHADO, Mnica, 2003

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Fotografia 18 - Mangue visto das palafitas, podemos observar nesta imagem o incio da

Fotografia 17 Esta cena comum no cotidiano da comunidade do Passo da Ptria, depois das chuvas. Autor: MACHADO, Mnica, 2003.

instalao da tubulao de prolongamento do esgoto da cidade. Autor: MACHADO, Mnica. 2002

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Fotografia 19 - Lixo, uma convivncia diria da populao.

Autor: MACHADO, Mnica. 2002

Durante as chuvas vrios moradores ficaram com gua na cintura. Muitos deles

perderam geladeiras e televises. Outros perderam roupas, colches e utenslios pessoais.

Durante a enchente, as casas tambm ficaram cheias de insetos e ratos. "No podemos ficar

com um prejuzo destes. A lama invadiu todos os cmodos das residncias", exclama o

autnomo Joo Bernardino. Ele mora ao lado do canal. Seu vizinho, o gari Wellington da

Silva, perdeu o refrigerador.

Os moradores das ruas ribeirinhas dizem sempre sofreram com as chuvas, mas

nunca as guas servidas do canal entraram nas casas. Eles alegam que a Construtora Celi est

jogando areia dentro do canal que contm guas pluviais e poludas das ligaes clandestinas

da cidade. Mesmo sem provas tcnicas definitivas, os moradores acreditam que o canal

aterrado seria o motivo da enchente desastrosa. Os engenheiros da Construtora Celi se

negaram a falar com a reportagem do Jornal Tribuna do Norte, 22/04/2004, matria intitulada

a maquiagem do Passo da Ptria e segundo este jornal, o Sr. Damio Pita, secretrio da

SEMOV, preferiu no comentar sobre os critrios tcnicos da obra, mas afirmou que a

situao da populao ribeirinha do Passo da Ptria sempre foi muito crtica. "Foi por isso que

a obra da Prefeitura inclui a construo de 216 casas at o final do ano, objetivando transferir

estes moradores das reas de risco". (Ver foto 20).

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Fotografia 20 - Cor da lama que faz parte da convivncia da comunidade do Passo da Ptria. Autor: MACHADO, Mnica. 2002.

Representantes da comunidade do Areado j encaminharam ao Ministrio Pblico

documento com fotos e registros tcnicos efetuados pelo Partido Verde. Eles solicitam ao

Ministrio Pblico a imediata indenizao dos eletrodomsticos perdidos. Nas fotos 21, 22 e

23 podemos verificar os estragos ocasionados pela invaso da gua. Aconteceram fatos

aterrorizantes, como relatou a moradora desta residncia, enfocando que neste dia, de intensa

chuva, encontrou seu filho de seis meses de idade boiando na gua.

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Fotografia 21 Casa invadida pela lama das chuvas. Autor: MACHADO, Mnica 2004.

Fotografia 22 - Utenslios jogados pelo alagamento das chuvas. Autor: MACHADO, Mnica, 2003

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71 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

Fotografia ente da chuva

os sentimentos e sensaes humanas de desajuste, desconforto, insegurana ou

at mesmo

do amor ao lugar e dos

estreitos vn

Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental

23: Marcas dagua proveni Autor: MACHADO, Mnica

A

de averso a determinado lugar, Tuan (1980) chama de topofobia que podemos

chamar como um processo inverso da topofilia que foi definida por ele como um sentimento

de bem estar e bem querer ao lugar, ambos os sentimentos topoflicos ou topofbicos

surgem sempre a partir da experincia vivida entre homem e o lugar.

Diante de tantas agresses podemos constatar que apesar

culos afetivos, 70,95% das pessoas se pudessem, morariam em outro lugar. (Ver

tabela 21 e grfico 18).

TABELA 21 - dos indivduos sobre a possibilidade de morar em outro lugar

Sim No 210 86

7 2 0,95% 9,05%.

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72 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

Grfico 18 - Distribuio da freqncia em percentual da percepo ambiental dos indivduos sobre a possibilidade de morar em outro lugar.

De acordo com a pesquisa 83,11% das pessoas acreditam que a reurbanizao da

comunidade vai lhes oferecer um espao de convivncia mais saudvel. (Ver tabela 22 e

grfico 19).

TABELA 22 - Distribuio da freqncia absoluta e relativa da percepo ambiental dos indivduos sobre a reurbanizao da comunidade.

Sim No 246 50

83,11% 16,89%

Grfico 19 - Distribuio da freqncia em percentual sobre a reurbanizao da comunidade.

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73 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

Numa reportagem do Jornal Dirio de Natal 28/07/2007, matria intitula tiroteio

assusta no Passo da Ptria no caderno Cidades a Polcia Federal diz que no ms de julho de

2007 no Passo da Ptria, foram apreendidos 40 quilos de maconha. A Policia Federal no

encontrou o restante da droga, que foi encontrada pelos acusados. A droga seria

comercializada no Centro da cidade no momento em que os policiais estavam de campana e

realizaram a priso do casal Maria Alzenir dos Santos, 29 anos, e Jackson Tavares de Moura,

19 anos; que utilizavam a comunidade reurbanizada como referncia para o trafico de drogas.

Contraditoriamente, o poder pblico do municpio de Natal, d inicio a projetos

deste porte, demonstrando, a falta de articulao entre os atores da prpria comunidade que

est sendo beneficiada, e que as aes esto voltadas essencialmente para a questo scio

econmica, podemos constatar nas observaes de Arajo (2004), enquanto consultor

ambiental e responsvel tcnico, para acompanhar este projeto de reurbanizao do Passo da

Ptria.

Segundo, Arajo (2004), consultor ambiental, contratado para a execuo do

projeto no eixo ambiental durante a execuo da obra, ele infere que a situao de desconforto

ambiental decorrente da execuo das obras do canal principal (do Baldo), da drenagem das

guas pluviais, da improvisao do esgotamento sanitrio em funo da no concluso das

obras e implantao definitiva do esgotamento condominial e estaes elevatrias, da varrio

e coleta do lixo, atingiu diretamente a comunidade ali residente.

Devido a equvocos na elaborao do projeto e na execuo das obras, Arajo

(2004), afirmou haver problemas na definio de cotas e no levantamento topogrfico que

ocasionaram o refluxo da mar avanando em direo ao continente e sobrecarregaram os

troncos coletores, gerando na comunidade reclamaes sobre o subdimensionamento dos

tubos ali existentes, contribuindo para o entupimento dos tubos e transbordamento das caixas

coletoras. Algumas destas caixas foram concludas e no cobertas, alm de terem sido

rebocadas com gua em circulao, o que contribuiu para o seu posterior entupimento. ..(Ver

fotos 24, 25 e 26).

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74 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

Fotografia 24 Processo de construo das casas ao longo do canal do baldo. Autor: MACHADO, MNICA, 2003

Fotografia 25 Desnvel verificado entre o piso da casa e o piso da calada Autor: MACHADO, Mnica, 2003

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75 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

Fotografia 26 - Caixa coletora rebocada com gua circulante Autor: ARAJO, Paulo Srgio. 2004.

Alguns pontos de visita e coleta (PVs) foram concludos com o nvel acima do

nvel dos pisos das residncias, o que invariavelmente provocar inundaes e refluxo de

esgotos, devido as elevaes da s mars, caso medidas ou de rebaixamento desses pontos ou

de elevao do nvel dos pisos, no sejam tomadas.(Ver fotos 27, 28 e 29).

Fotografia 27 Pontos de visita, PVs acima do nvel dos pisos. Autor: ARAJO, Paulo Srgio, 2004.

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Fotografa 28 - Observando a posio deste cano, parece no estar muito diferente do que foi exposto pelo consultor Arajo mostrados na figura n. 20. Autor: MACHADO, Mnica, 2002.

Fotografa 29 - Refluxo da mar/entupimento nas caixas Autor: ARAJO, Paulo Srgio, 2004.

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77 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

Fotogra 30 Aterro acima do nvel das casas.

e acordo com Arajo 2004, foi informado aos responsveis pela execuo da

obra que, e

O aterro em execuo est, por exemplo, numa cota superior s residncias

circunvizinhas, o que tambm ocasionar os transtornos de alagamentos provocados pelas

chuvas ou mars alta. O muro de conteno do aterro, e no de arrimo ou conteno da mar,

na linguagem explicativa do fiscal da SEMOV, quando da contestao da existncia de 49

rachaduras, do desabamento de aproximadamente seis metros nas proximidades do canal

principal (do Baldo), e do avano da mar sobre trs pontos, evidenciando no apenas

problemas provisrios na execuo da obra, mas a necessidade de redefinio da cota do

referido muro sob risco de alagamento em picos de mar e o conseqente refluxo na

drenagem de guas pluviais. (Ver foto 30).

fia Autor: ARAJO, Paulo Srgio, 2004.

D

m decorrncia das chuvas de inverno previstas para os meses subseqentes, e em

funo da concluso das obras do canal principal (do Baldo) para onde anteriormente as guas

e os esgotos fluam, os problemas de drenagem e esgotamento sanitrio tendem a se agravar.

No podemos entender os critrios de priorizao nas melhorias habitacionais e na construo

de novas unidades, que com razo provocam descontentamento e no so priorizados pelo

Machado, Mnica Pedrosa Percepo ambiental dos moradores da comunidade do Passo da Ptria em Natal-RN.

78 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

guem.

Fotografia 32 - Desnvel entre beco, PV e canal Autor: ARAJO, Paulo Srgio, 2004.

rgo competente, gerando sensaes de desconforto ambiental em toda a comunidade que

convive neste lugar. (Ver fotografia 31, 32 , 33, 34 e 35).

Fato que podemos verificar nas fotos que se se

Fotografia 31 - Desabamento do muro de conteno Autor: ARAJO, Paulo Srgio, 2004.

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79 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

pimento. Autor: ARAJO, Paulo Srgio, 2004.

Fotografia 34 - Invaso da mar no aterro. Autor: ARAJO, Paulo Srgio, 2004.

Fotografia 33- Refluxo em PVs com entu

Machado, Mnica Pedrosa Percepo ambiental dos moradores da comunidade do Passo da Ptria em Natal-RN.

80 PPGEO Programa de Ps-Graduao e Pesquisa em Geografia - 2008

ra das residncias em construo do projeto de

Autor: MACHADO, Mnica, 2003

Diante das fotos mostradas, verificamos que esta obra est sendo executada sob

uma viso de homens encouraados, eles encontram-se impedidos ou limitados para fazer

contato direto com a natureza, com as pessoas e com os processos da vida. Portanto,

desenvolveram um contato substituto que se caracteriza basicamente pela falta de

autencidade, querendo sempre levar vantagem em tudo o que faz, estabelecendo uma cultura

formada por hbitos e valores neurticos.

O pensamento reichiano muito parecido com o que sugere Morin (2002),

quando diz que o ecossistema se reproduz, se auto-regenera e se auto-regula de modo

extremamente complexo sem ter, portanto, uma memria prpria, um programa ecolgico, um

dispositivo gentico, um centro organizador. Mas a cada dia que passa, a natureza, da mesma

forma que as crianas, perde sua capacidade de auto-regulao, vtima das atrocidades

cometidas pelo prprio homem, que destri a sua raa e o ambiente em que vive sem se

preocupar com o que ir acontecer no futuro.

rma,

umano, provavelmente este tipo de idias conferiu ao

consciente coletivo da sociedade moderna o imaginrio da dominao mundial.

Fotografia 35 - Acmulo de lama dentro e fo reurbanizao do Passo da Ptria

A crena na superioridade da humanidade frente natureza de certa fo

indicaes de arrogncia do ser h

in

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e aparece velada, por trs de boas intenes, no

de cultura,

est

em est exposto s tentaes do diabo.

tes e adultos pode livrar o mundo das neuroses de

rter e da

Na medida em que a importncia de Deus foi diminuindo com o aumento da

crena no poder do homem, e conseqentemente a relao com as religies judaica e crist,

foi possvel chegarmos a um humanismo plenamente desenvolvido. Deus podia ento se

aposentado co meia penso, ainda exibido nas cerimnias apropriadas ostentando as velhas

medalhas, at ser, aos poucos desmistificado, castrado e abandonado (Ehrenfeld, 1978:5).

A peste emocional geralment

intuito de ajudar o outro e a sociedade. No entanto, com o passar do tempo, a pessoa,

ambiente de lugar, a cometido por essa doena, vai invadindo todos os espaos, como uma

erva daninha que invade uma plantao ou um cncer invade um organismo vivo, ela vai

dominando e destruindo tudo o que est a seu redor.

A peste emocional se trata de um estado humano quando existem almas vazias

que tem sede de sensaes fortes para encher seu deserto interior. Elas se inclinam, por isso,

para o mal. (Reich, 1951-1991, p.121).

De acordo com o que Castoriadis (1981) coloca em sua obra Da ecologia

autonomia, uma nova sociedade s possvel quando h autonomia na forma de pensar e de

ser dos indivduos. So necessrias mudanas de pensamento, de conscincia,

mudanas sociais para que possamos recriar nossos costumes e hbitos em prol da existncia

da vida humana, fora deste sistema que faz escravizar as pessoas que nele se incluem e

marginalizar os que no se enquadram em seus padres.

Se quisermos descobrir o homem preciso tomar conscincia de tendncias de

todo homem encouraado: o dio ao vivo. Em toda criana recm-nascida Deus

presente, a viva vida est pulsando, mas este Deus reprimido, contido e odiado. Este um

dos aspectos do assassinato permanente de cristo. O pecado uma criao do homem, e isto

sempre ficou escondido. O reino de Deus est dento do homem, mas o homem est em falta

com Deus, algo que as religies dizem. O homem o traiu e desde ento ele pecador

enquanto no retornar para Deus. Neste tempo o hom

Reich (1951-1991).

bem como diz Reich (1933-1995, p.491): s o restabelecimento de vida

amorosa natural das crianas, adolescen

ca peste emocional em diversas formas.

Verificando o cidado comum de hoje, por exemplo, um poltico, cidado acima

de qualquer suspeita que chega no poder e esquece suas origens, perdendo seus princpios,

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sive o pensamento racional) ser to

mido, co

um aprecivel valor monetrio, direta ou indiretamente (Ehrenfeld,

em conscincia eco-

tropossoc

suscita um movimento d Emil formas individuais (ticas e dietticas) e coletivas,

istenciais

natureza e a humanidade necessitar, sem dvida, como acabamos de dizer, de uma superao

saindo da condio de explorado para explorador, e na prtica acaba sendo ainda mais cruel

que o explorador que no saiu de uma classe social menos favorecida.

O porqu de o funcionamento vital (inclu

te nstitui um dos grandes mistrios da estrutura irracional humana. Reich (1951,

1976/52).

Diante destas figuras que observamos anteriormente, podemos verificar, que o

valor da reurbanizao no est na preservao do ambiente, nem to pouco na comunidade

em si, o valor atribudo a essa reurbanizao tem importncia na medida em que ela

proporcionar benefcios a um determinado segmento da nossa sociedade. A descoberta deste

valor transforma estas espcies e ambientes em recursos que so definidos como reservas de

mercadorias que tm

1978:138). E a sim, racionalmente eles merecero ser conservados.

Se faz urgente criar uma conscincia ecolgica que interfira no comportamento

humano, para Morin (1997), a conscincia ecolgica surge na esteira da cincia ecolgica, ao

reconhecer a (...) idia de duas faces de que e sociedade vitalmente dependente da eco-

organizao natural e de que esta est profundamente comprometida, trabalhada e degradada

pelos processos sociais.

A partir da, a conscincia ecolgica aprofunda-se

an ial; desenvolve-se em conscincia poltica na tomada de conscincia de que a

desorganizao da natureza suscita o problema da organizao da sociedade. Esta conscincia

ecopoltica

ex e militantes. (idem, ibdem).

Boff entende o ser humano como capaz de co-pilotar o processo evolucionrio,

mas para isto, os seres humanos devem se educar para estabelecer uma relao amistosa em

relao ao planeta, deve cuidar da herana que recebeu, mas fugindo dos objetivos que

buscam hoje em dia, o progresso ilimitado. Este saber poder ser capaz de transformar o ser

humano como um ser tico que assume a responsabilidade pelo destino bom de todo o planeta

(Boff, 1994:149).

aqui, entendemos que surge a questo de um saber transdisciplinar, enquanto

uma ao estratgia em busca de informao para indivduos que se tornem capazes so mais

de dominar, mas de seguir/guiar a natureza. Para Morin, Este novo casamento entre a

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rgia capacidade de perpetuar essa energia de vida,

ulo aos Romanos (13,8): a ningum fiqueis devendo coisa alguma, a no

r o amor

de tcnica atual que por sua vez necessita de uma superao do modo de pensar atual,

inclusive cientifico.

S atravs do amor, poder ser possvel uma mudana efetiva do pensamento e

comportamento humano, segundo Epsitein O amor a fora que nutre a realidade invisvel

que torna a verdade e a moralidade possveis, e, no alto desta realidade, est Deus. Amor,

caindo de cima para baixo como num chuveiro, permite que mundo criado da terra continue

funcionando. Cada um de ns traz ene

ajudando como seu agente aqui na terra [...] somente por amor que somos morais uns com

os outros [...] o amor o ingrediente especial na medicina espiritual. a fora nutritiva do

Universos e a emanao do corao de Deus.

Se o amor est bloqueado, contido ou restrito, ns permanecemos no mesmo nvel

do problema, no h possibilidade alguma de mudana, de acordo coma bblia Sagrada, na

Epstola de So Pa

se recproco: porque aquele que ama ao seu prximo cumpriu toda a lei pois os

preceitos no furtars, no cobiaras e ainda outros mandamentos que existam eles, se

resumem nessa palavra amar ao teu prximo como a ti mesmo.

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Captulo 4

CONSIDERAES FINAIS

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CONSIDERAES FINAIS

Observamos atravs deste trabalho de pesquisa, que os problemas ambientais no

Brasil que podem ser observados, principalm te, nas regies metropolitanas se agravam e

ue a discusso a respeito das questes ambien is se constitui em algo muito recente.

Na primeira parte do trabalho foi enfocada a concepo de lugar e sua relao

om os seres humanos. Podemos averiguar que a percepo do Passo da Ptria a de um

gar degradado e atingido por diversos problemas na sua verdadeira dimenso existencial. A

tuao de misria e abandono detectada em seu aspecto concreto e real. Esse efeito

egradante atinge o homem em sua plenitude humana, interferindo em seu processo de

rescimento, enquanto ser.

Na segunda parte tratamos sobre a percepo ambiental. Mostrou-se o processo de

rbanizao de Natal. Verificou-se que historicamente esse processo se deu de forma muito

nta, configurando-se em um quadro de desigualdades e excluso; e isto pela falta de uma

oltica urbana. Foi observado tambm que Natal no estava preparada para enfrentar do

uxo migratrio, algo que se intensificou a partir de 1970. Percebeu-se ainda que a

omunidade pesquisada ocupou desordenadamente as margens do esturio do Rio Potengi e

m perceberem contriburam com a devastao do ecossistema esturio. No observaram que

tais desfavorveis e desumanos.

Na terceira parte do trabalho foi feita a anlise da percepo da comunidade. Para

isso integra

s e de

contraband

engodo poltico e econmico que enfrentamos no cotidiano de

nossa comu

en

q ta

c

lu

si

d

c

u

le

p

fl

c

se

esto expostos a fatores scio-ambien

mos o pensamento do pesquisador Wilhem Reich, estudioso que tem a concepo

de que todo ser humano nasceu para ser saudvel. Observamos que a comunidade pesquisada

vive sob o medo de catstrofes como enchente, tiroteio por parte de gangue

istas de drogas. As anlises confirmam que as condies de vida so extremamente

perigosas, no entanto, a maioria dos habitantes deste lugar no percebe esses perigos,

afirmando que se sentem bem em sua comunidade.

Sendo assim, verificamos que este programa de reurbanizao financiado pelo

BID, que se prope a atender de forma essencial a recuperao ambiental da Comunidade do

Passo da Ptria, mais um

nidade, visto que ainda haver pessoas vivendo numa rea insalubre e de risco

ambiental, j que na realidade este programa no contempla o tratamento dos esgotos e a

despoluio do rio que ainda continuar a receber os efluentes.

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priorizado em nenhum

momento p

peste emocional, abandonado e trado por

muitos de s

parmos ativamente de nosso

destino com autonomia e aes ticas no plano privado e pblico, individual e coletivo.

Esperamos

Pudemos observar tambm que os laos topoflicos que a comunidade tem com o

lugar, no interfere na sua percepo quanto a degradao ambiental em que esto inseridos, e

o desconforto ambiental passa a ser um fato corriqueiro em virtude das obras de

reurbanizao, e que o descontentamento da comunidade no foi

elo Poder Pblico, mesmo diante das denncias feitas pelos principais peridicos

desta cidade.

Para nos fazer entender que crimes assim, s so possveis numa sociedade

doentia e dilacerada pela peste emocional como a nossa. So retratos vivos e coloridos dos

caminhos, que as Polticas Pblicas dotadas de homens com valores neurticos, optaram

trilhar.

Reich (1991) foi perseguido, vtima da

eus seguidores, porm nunca desistiu, porque amava intensamente seu trabalho e a

humanidade. Deixou registrada sua passagem por esta vida, e vai nos impressionar sempre, a

cada constatao de que seus estudos a cada ano que passa se torna mais atual e necessrio

para a humanidade.

Sem perder a esperana, porque acreditamos sobretudo no amor de DEUS,

estaremos todos mais conscientes da necessidade de partici

que este trabalho possa contribuir de forma cientfica para alertar que a

reurbanizao da comunidade do Passo da Ptria no contemplar as profundas e estruturais

necessidades sociais e econmicas de sobrevivncia daquela populao.

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REFERNCIAS

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