A percepção ambiental de frequentadores do Parque Ponte ... ?· A percepção ambiental de frequentadores…

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A percepo ambiental de frequentadores do Parque Ponte dos Bilhares em

Manaus AM

Larissa Ferreira Pereira

1

Susy Rodrigues Simonetti 2

Resumo: O objetivo geral deste estudo foi investigar a percepo ambiental dos

frequentadores do Parque Ponte dos Bilhares, em Manaus. Em suas especificidades,

investigou-se tambm o uso do espao do parque pelos seus frequentadores, identificou-se a

conduta ambiental dos mesmos e, por fim, elencaram-se danos ou problemas que eles

acreditam causar ao parque. Por meio de uma entrevista com os frequentadores, os resultados

da pesquisa, cuja abordagem qualitativa, permitem entender a relao topoflica estabelecida

entre os entrevistados e o espao investigado, podendo fornecer subsdios para sua

conservao e sustentabilidade. Espaos como o Parque Ponte dos Bilhares so importantes

reas de lazer para a populao de Manaus, por outro lado, necessita de manuteno constante

de seus equipamentos bem como cumprir sua funo promovendo atividades de educao

ambiental aos seus frequentadores.

Palavras-chave: Espao urbano; Parque; Percepo ambiental.

1 Acadmica do 8 Perodo do Curso de Turismo da Escola Superior de Artes e Turismo da Universidade do Estado

do Amazonas (UEA). Bolsista da Fundao de Amparo Pesquisa no Amazonas FAPEAM. E-mail:

lariissaferreira_@hotmail.com. 2 Bacharel em Turismo. Professora da Universidade do Estado do Amazonas UEA. Mestre em Cincias do Ambiente e Sustentabilidade na Amaznia pela Universidade Federal do Amazonas (PPGCASA/UFAM). (UEA). Doutoranda do PPGCASA/UFAM. Bolsista da Fundao de Amparo Pesquisa no Amazonas FAPEAM. E-mail: susysimonetti@hotmail.com.

Introduo

O ritmo acelerado da vida cotidiana, o trnsito, a violncia, a poluio, o excesso de

asfalto e concreto fazem com que a vida nos grandes centros seja cada vez mais estressante e,

at mesmo, perigosa. A busca por ambientes naturais tem aumentado bastante nos ltimos

anos. No entanto, ainda reduzido o nmero de pessoas que tm recursos financeiros e tempo

para viajar e entrar em contato com um ambiente natural, longe dos grandes centros urbanos.

Uma alternativa a esta situao so as descontinuidades de ocupao no tecido urbano,

ou seja, criar reas verdes nas cidades. As grandes ou pequenas reas verdes podem ser

parques municipais ou similares e jardins, praas ou parques lineares ao longo de fundos de

vales urbanizados, respectivamente. Tais reas tornam-se muito importantes, pois so elas que

permitem a preservao de parte significativa da paisagem natural, original ou recomposta, a

manuteno do valor esttico ou cientfico, a renovao do ar, facilitam o contato direto entre

os indivduos e o ambiente, incorporando a funo de reas para exerccio fsico e caminhada,

entre muitas outras funes.

A necessidade de compreender a relao homem-natureza, questes urbanas e o meio

ambiente, nos leva a investigar meios e buscar estratgias para que se possa diagnosticar a

percepo que a sociedade tem do ambiente em que est inserida. A percepo ambiental

estabelece os vnculos afetivos do indivduo com o ambiente vivido por meio das imagens

percebidas e seus significados, as sensaes, as impresses e os laos afetivos a construdos.

Mediante o exposto, percebe-se que as questes urbanas e ambientais necessitam ser

tratadas com maior detalhamento e proximidade, haja vista a arborizao precria nas

periferias urbanas e a falta de espaos para o lazer e a recreao, especificamente na cidade

Manaus. Nesse sentido, este estudo buscou investigar a percepo ambiental dos

frequentadores do Parque Ponte dos Bilhares (PPB), elegendo-o como lcus do estudo.

O referido parque foi selecionado por ser um parque urbano localizado em Manaus

que j se consolidou como um dos principais pontos de encontro e espao cultural e de lazer

da cidade. Alm das funes ambientais, sociais, de lazer, culturais, psicolgicas, histricas,

entre outras, as atividades nele desenvolvidas contribuem para uma melhor condio de vida

de quem o frequenta. Dessa forma, ele foi escolhido como lcus de estudo, proporcionando

relevantes fundamentos para o estudo dos parques urbanos de Manaus, assim como

acrescentou conhecimento acadmico acerca das reas verdes da cidade.

Tratou-se de um estudo exploratrio-descritivo, que teve por objetivo geral investigar

a percepo ambiental de frequentadores do PPB e que tambm buscou verificar o uso dos

espaos do parque, a conduta ambiental de quem o frequenta e, elencar danos ou problemas

que os frequentadores acreditam causar ao mesmo. Para isto, foram feitas entrevistas semi-

estruturadas e, em alguns casos, solicitao de justificativas para as respostas apresentadas.

Os respondentes foram 50 frequentadores que se encontravam no local, com idade acima de

18 anos, incluindo alguns indivduos que trabalhavam nos bares e lanchonetes do parque,

escolhidos aleatoriamente.

Espera-se contribuir para a gesto ambiental do parque agregando conhecimento por

meio do fornecimento de dados que investigaram a percepo dos frequentadores acerca de

como estes utilizam os espaos do PPB, os problemas de ordem ambiental que o parque

enfrenta bem como servios/equipamentos que gostariam que o parque disponibilizasse.

Acredita-se que este estudo pode ser utilizado na elaborao de projetos de melhoria

do PPB e tambm no planejamento do outros parques urbanos. O planejamento destaca-se

como fator fundamental do desenvolvimento e gesto ambiental desses espaos, os quais

esto condicionados s polticas pblicas estabelecidas para o municpio ou regio, devendo

estar em sintonia com as necessidades da sociedade civil local.

Tais discusses tambm possibilitaro o debate em fruns regionais, nacionais e

internacionais tendo em vista que os seres humanos esto constantemente recebendo

estmulos do ambiente e no h ambiente fsico destitudo das dimenses social, cultural,

espiritual, poltica etc.

Parques Urbanos

Os parques urbanos, do modo que conhecemos hoje, tiveram origem no sculo XIX,

quando se determinou que os parques europeus passassem a atender s necessidades das

massas das metrpoles. interessante observar que esses parques, naquela poca, j estavam

relacionados busca de alternativas para os problemas urbanos. Nucci (2001, p.180) afirma

que tais espaos devem ser livres de monotonia e isentos das dificuldades de espao e

angstia das aglomeraes urbanas.

Os parques urbanos constituem espaos livres pblicos de lazer, com predominncia

de elementos estticos e agradveis, destinados recreao, ao lazer e conservao da

natureza. A ideia da importncia dos parques para a sade pblica e mental muito

consolidada. O smbolo principal que se desenvolveu em torno dos parques foi o de grandes

espaos que poderiam aliviar os problemas da cidade e romper a situao citadina de estresse.

E de fato, os parques implantados na Europa e nos Estados Unidos tiveram esse papel. Eram,

tambm, espaos de descanso que compensariam as horas de trabalho, por horas de cio, e

nesta perspectiva que os parques poderiam tambm aperfeioar o trabalho semanal

(MACEDO, 2003).

Que os parques so espaos pblicos que trazem grandes benefcios para o ambiente e

para populao urbana fato aceito e difundido por toda sociedade e comunidade acadmica.

Contudo, contraditoriamente, o esforo para criar e promover a conservao desses espaos

tambm muito grande. Mesmo sendo criados para os fins anteriormente citados, tais

objetivos s podem ser atingidos plenamente se a populao se apropriar desses espaos para

aquelas finalidades. Sem o envolvimento ou mesmo o conhecimento por parte da populao,

estes espaos tendem a ser desprezados e deixam de fazer parte do cotidiano, deixam de ser

visitados.

Elemento essencial para o desenvolvimento do turismo, a paisagem aspecto muito

visado sendo um dos primeiros fatores de atrao turstica. Os recursos naturais, as

manifestaes culturais, a historicidade e a arquitetura so destaques na oferta turstica.

Porquanto os espaos urbanos so atraentes aos citadinos e aos turistas devido ao fato de se

constiturem por diversas estruturas, atividades, ambientes, entre outros, promovendo o bem

estar e a socializao. A explorao turstica de parques proporciona uma vivncia mais rica

dentro da cidade, despertando a valorizao e compreenso da importncia do ambiente

natural do lugar em que se vive.

necessrio compreender que os espaos urbanos destinados ao turismo, esporte e

lazer dependem das polticas pblicas, bem como de um planejamento municipal. O turismo

concebido como no somente o deslocamento simples entre paisagens, mas sim o

deslocamento do olhar, promovendo a chance de enxergar a mesma paisagem de diferentes

perspectivas.

A atividade turstica, neste caso, passa a ser acessvel a todo e qualquer cidado, seja

morador ou no, uma vez que no se trata de abrir mo do planejamento da atividade, mas

sim de direcion-lo a atender as necessidades humanas, sociais e ambientais de nosso tempo,

transformando o turismo em um instrumento de educao ambiental, tendo o parque urbano

como ponto de partida.

A conservao de reas construdas ou naturais est intimamente relacionada ao uso

que a populao faz desses espaos. Portanto, o planejamento e manejo de parques e outros

espaos livres, devem ser realizados englobando os desejos e expectativas de seus

frequentadores. Ao entrar em contato direto com a natureza, a partir do uso desses espaos, os

visitantes desenvolvem sensaes, percepes que permitem o surgimento de laos afetivos

com o lugar.

Percepo Ambiental

Os estudos sobre percepo se tornam mais complexos na medida em que estamos

lidando com diferentes subjetividades e as diversas dimenses dessa percepo nos faro

compreender melhor os indivduos e sua relao com o ambiente.

A partir da dcada de 60, os estudos sobre percepo so complementados com o

termo ambiental, ou seja, dois substantivos que representam o modo como um indivduo

vivencia o ambiente e sua na relao com o entorno, sejam eles fsicos, psicossociais,

socioculturais e histricos.

A percepo um dos mais antigos temas de especulao e pesquisa no estudo do

homem [...] Estudamos a percepo numa tentativa de explicar nossas observaes do mundo

que nos rodeia (HOCHBERG, 1973 apud MARIN, 2008, p. 11 ).

Todos os lugares com os quais temos contato e passamos a conhec-lo, seja por visit-

lo regularmente ou por conhecimento terico, compem informaes para o nosso acervo de

locais, sendo um tipo de banco de dados. No momento em que esses aspectos da realidade

fsica so por ns internalizados, eles passam a ser extratos cognitivos (imagens mentais), mas

no se reduzem a simples abstraes intelectuais.

As imagens so constitudas por meio das sensaes imediatas e lembranas das

experincias vividas. As pessoas no so meras observadoras do que se passa ao redor, mas a

construo de imagens resulta da interao entre o observador e o ambiente.

Merleau-Ponty (1996), afirma que a cada instante nosso campo perceptivo

estimulado e a nossa interao com ele se d a partir do ato de situ-lo no mundo. A

percepo humana constituda por meio de um compromisso tico, ativo com o mundo e

no somente como uma contemplao. Portanto, somos seres pensantes, o que passa por

nossos sentidos e conscincia julgado.

As interpretaes e significados atribudos pelas pessoas ao ambiente permitem

compreender seus comportamentos perante o entorno. Garcia Mira (1997) confirma essa ideia

quando afirma que aspectos fsicos fazem parte de um espao social que de alguma forma

retrata os aspectos socioculturais prprios das pessoas nele inseridas. Desse modo, a maneira

de ocupar e transformar sua materialidade esto ligados natureza social dos comportamentos

associados queles objetos do contexto fsico.

A importncia da percepo ambiental se d, principalmente, por ser considerada a

precursora do processo que desperta a conscientizao do indivduo em relao s realidades

ambientais observadas.

Por ser um conceito em construo, a percepo ambiental possui vrias dimenses

psicossociais, entre elas podemos citar a cognio, que o processo por meio do qual as

pessoas criam imagens mentais. Uma terceira dimenso da percepo ambiental so

preferncias sobre o ambiente, as quais permitem determinar o grau de atratividade com os

elementos do ambiente, seja de distanciamento ou de maior intimidade. (ITELSON, 1978

apud KUHNEN E HIGUCHI, 2011).

Conhecer como as pessoas percebem, vivenciam e valoram o ambiente em que esto

inseridas uma informao crucial para que os gestores de polticas pblicas e de reas afins

possam planejar e atender as demandas sociais. Se entendermos como se d a relao homem-

ambiente pode-se compreender tambm a influncia de um sobre o outro e obter perfis

ambientais da populao local. Por meio destes, torna-se possvel realizar a manuteno e

melhoria dos espaos dos parques de modo que haja um melhor aproveitamento dos mesmos,

bem como sugerir programas e projetos de educao ambiental mais efetivos e direcionados.

Ademais, as pesquisas de percepo ambiental podem ser consideradas pr-requisitos

imprescindveis para se promover maior conscientizao ambiental, mesmo sabendo que

compreender os campos da percepo no tarefa fcil, pois envolve psicologia, filosofia,

fisiologia, geografia, entre outros.

Metodologia

O estudo no Parque Ponte dos Bilhares teve um carter de pesquisa qualitativa. A

natureza da pesquisa qualitativa apresenta um nvel de realidade o qual no pode ser

quantificado. frequente que o pesquisador procure entender os fenmenos, segundo a

perspectiva dos participantes da situao estudada e, a partir da situe sua interpretao dos

fenmenos estudados (NEVES, 1996).

Mesmo se tratando de uma pesquisa de carter qualitativo, deve ser ressaltada a

utilizao do mtodo quantitativo como instrumento de anlise em algumas categorias, pois se

considerou que o presente estudo no somente almejou descrever e interpretar a percepo

ambiental de frequentadores do PPB, mas tambm, explic-la como fator que permite o

entendimento e a valorizao da relao do homem com o meio ambiente. No dizer de

Wildemuth (1993, p. 451 apud NEVES, 1996 p. 2), tais mtodos (quantitativo e qualitativo)

no se contrapem, na verdade complementam-se e podem contribuir, em um mesmo estudo,

para um melhor entendimento do fenmeno analisado.

A este estudo aplica-se a abordagem fenomenolgica devido a esta fazer-se

presente na percepo do que acontece e envolve a conscincia. O sujeito individualmente

contextualizado encontra-se atento ao que o cerca, assim, fenmeno e sujeito so correlatos. A

inteno da fenomenologia, segundo Gil (2011 p. 14), proporcionar uma descrio direta

da experincia tal como ela , sem nenhuma considerao acerca da sua gnese psicolgica e

das explicaes causais que especialistas podem dar.

Tratou-se de um estudo exploratrio-descritivo, tendo em vista que o objetivo era

proporcionar uma reflexo sobre a percepo ambiental dos frequentadores do referido

parque. O estudo se caracterizou pelo uso de instrumentos de coleta de dados padronizados,

sendo utilizada a tcnica de entrevista, uma vez que se pretendia obter informaes

especficas.

Como defende Selltiz et al (1967, p. 273 apud GIL, 2011, p. 109), a entrevista uma

das tcnicas de coleta de dados mais utilizada por ser bastante adequada para obter-se

informaes acerca do que as pessoas sabem, creem, esperam, sentem ou desejam, pretendem

fazer, fazem ou fizeram, bem como acerca das suas explicaes ou razes a respeito das

coisas precedentes. O roteiro de entrevista conteve tpicos que, em primeiro lugar,

procuraram traar o perfil do usurio (sexo, idade, escolaridade, procedncia residencial). A

seguir, estruturou-se um conjunto de 14 perguntas com o objetivo de realizar a anlise

qualitativa da relao frequentador-parque.

Outra tcnica aplicada foi a observao no participante, o que possibilitou a aquisio

de conhecimentos, porm, sem a interferncia do pesquisador no fenmeno estudado. Esta

tcnica permitiu entender os fenmenos e oportunizou a identificao de problemas para

serem propostas melhorias ao parque.

A rea de Estudo

O Parque Ponte dos Bilhares possui uma rea de 60 mil metros quadrados e, est

situado em meio a uma das reas mais economicamente valorizadas e de grande importncia

para a cidade de Manaus: entre as avenidas Constantino Nery e Djalma Batista. Foi

inaugurado em 24 de outubro de 2006 e dividido em duas etapas (Figura 01), cada uma com

acesso pelas supracitadas avenidas. Ambas as etapas comunicam-se por meio de uma ponte

metlica.

O parque oferece diversos equipamentos destinados ao entretenimento e prtica de

exerccios fsicos e esportes. dotado de pista de skate e de patinao, lanchonetes, rea de

artesanato, teatro arena, playgrounds, lago artificial, relgio solar, pista de caminhada,

ciclovias, bebedouros, chuveiros, banheiros, estao de tratamento de esgoto, miniestao de

energia e estacionamentos. O pblico praticante de atividades esportivas tem sua disposio

duas quadras poliesportivas, uma em concreto e outra de areia. Ao pblico infantil, alm de

playgrounds, destinada uma biblioteca equipada com computadores conectados internet e

um acervo de livros infantis que visam alm da incluso digital das crianas que utilizam esse

espao, incentivar o hbito de leitura alm de servir como espao educativo e cultural.

A concepo arquitetnica do parque foi inspirada na poca conhecida como Belle

poque, quando os bondes trafegavam pela cidade de Manaus e tinham a tradicional Ponte

dos Bilhares (Figura 02) como ltima parada.

Durante o perodo de visitao do local para realizao da pesquisa, notou-se que a

infraestrutura da primeira etapa do PPB encontra-se em estado de abandono. Situaes

observadas tais como lmpadas queimadas, gramado necessitando de poda, assoalho da rea

prxima ao lago com estrutura danificada levaram a esta concluso.

O PPB apresenta um nvel satisfatrio de arborizao. A valorizao da presena do

elemento arbreo nas cidades ressaltada por profissionais e tericos do urbanismo. Estes o

destacam como fonte de prazer aos olhos e de promoo de melhor ordenamento e contraste

da forma pura da arte com a forma livre da natureza (FERREIRA, 2005). Portanto, quando

agrupada em parques e jardins localizados no meio urbano, a arborizao - se resultante de

uma conservao adequada- proporciona qualidade de vida para quem vive nas cidades.

Com apenas seis anos de existncia o parque j se consolidou como um dos principais

pontos de encontro, espao cultural e de lazer de Manaus. Amostras de cinema, de dana,

peas teatrais, apresentaes circenses e folclricas, shows, oficinas educativas, realizao de

programas de educao ambiental so atividades desenvolvidas nele. O mesmo cria uma

atmosfera que se tornou referncia quando se trata de espao pblico de lazer e descanso para

os seus frequentadores.

Resultados e discusso

Conforme j citado anteriormente, as entrevistas tiveram como sujeitos cinquenta

pessoas de ambos os sexos, com idades entre 18 e 65 anos, frequentadores e trabalhadores do

parque que se encontravam no local no perodo em que a pesquisa de campo aconteceu

(janeiro de 2012).

Ao analisar quantitativamente a amostra dos entrevistados, todos residentes em

Manaus, foi concludo que grande parte dos visitantes do Parque Ponte dos Bilhares

formada por jovens entre 18 e 30 anos de idade, seguida por adultos e idosos. A maioria

destes composta por indivduos do sexo feminino (60%) e grande parte possui o ensino

superior incompleto (42%).

Quando questionados sobre os motivos que levaram os indivduos a visitar o parque,

as respostas mais recorrentes foram que o parque agradvel para passear com a famlia e

amigos, praticar atividades fsicas e trabalhar. Tuan (1983) declara que o espao transforma-se

em lugar medida que adquire definio e significado. Quando um espao assume carter

representativo para quem o utiliza ou frequenta, este acaba por receber a conotao de lugar,

pois se entende que foram estabelecidas ligaes estreitas de afeto e interao. Estas

Fig. 02 Ponte Campos Salles, de ferro sobre o igarap da Cachoeira Grande, hoje Bilhares. Fonte: Blog do Coronel Roberto, 2011.

Fig. 01 Parque Ponte dos Bilhares Etapa 1 e Etapa 2 Fonte: Blog do Sarafa, 2009.

alegaes podem ser confirmadas em algmas falas dos entrevistados como: um lugar que

passa tranquilidade, sensao de liberdade. Venho porque um lugar agradvel para

encontrar os amigos e praticar esportes ou aqui eu consigo reunir a famlia em um lugar

seguro e agradvel. O parque tambm foi descrito como o local de trabalho de parte destes

entrevistados.

Todos os entrevistados responderam que acreditam que seja de grande importncia a

existncia de parques para a cidade. Outro quesito que possibilitou identificar a valorizao da

natureza por parte dos indivduos e a noo do valor que ela representa na vida dos mesmos

foi: o que voc entende por meio ambiente?. Neste quesito a totalidade respondeu segundo

a definio: o lugar onde os seres vivos (animais, vegetais e o homem) habitam e

relacionam-se uns com os outros. Refletiu-se, portanto, a viso globalizante do termo meio

ambiente. Tal viso segundo Reigota (1991) entende a relao homem-natureza numa

concepo de reciprocidade entre natureza e sociedade. Nela, meio ambiente tido como o

lugar determinado ou percebido onde os elementos naturais e sociais esto em relaes

dinmicas e em interao.

As questes voc acha que existem ou que voc causa problemas no Parque? Quais

problemas voc pode apontar?, Voc se sente incomodado com algum aspecto relacionado o

meio ambiente dentro do Parque? Quem voc acha que responsvel por estes

problemas?, objetivaram conhecer a percepo dos sujeitos entrevistados quanto aos

problemas do parque e dos responsveis por estes problemas apontados por eles.

Alguns reconheceram que eventualmente jogam resduos no cho ou se esquecem de

usar a lixeira, porm, nenhum entrevistado considerou que causa algum dano grave ao parque,

e tambm grande parte alegou no se incomodar com nenhum aspecto relativo ao meio

ambiente do Parque. Porm, alguns problemas foram elencados como incmodos. So eles: o

mau cheiro exalado pelo riacho e os resduos jogado no cho. Ao mesmo tempo em que

nenhum entrevistado reconheceu causar danos ou problemas ao parque, posteriormente foi

alegado que os resduos slidos encontrados no local ou o mau cheiro exalado pelo referido

riacho (causado entre outras razes, pelo despejo de esgoto e efluentes diversos) so fatores

de incmodo para os mesmos. Logo, notrio o distanciamento das pessoas quanto s

consequncias que as suas atitudes podem acarretar ao meio ambiente.

Quanto a programas de educao ambiental, 86% dos frequentadores nunca

participaram de algum programa de educao ambiental no parque, mas relataram que

gostariam de participar se houvesse oportunidade. Ficou evidente a falta de programas e

polticas pblicas municipais de educao ambiental e sensibilizao s questes ambientais

voltados para a populao frequentadora do parque. Acredita-se que o lcus deste estudo um

espao bastante adequado para tais iniciativas.

Quando perguntados sobre quem acreditam ser os maiores responsveis pelos danos ao

parque, de acordo com as seguintes opes: o governo, os frequentadores, os

comerciantes ou, todos juntos, 46% dos entrevistados responderam ser eles prprios: os

frequentadores. Em segundo lugar, ficou a opo, todos juntos (44%), o que demonstra um

reconhecimento de que a coletividade imputa responsabilidade prpria, no se isenta. Em

terceiro lugar, 8% dos entrevistados responderam que o governo o maior responsvel pelos

danos ao parque, e, por fim a opo os comerciantes com 2%. Este quesito desperta

discusses acerca da complexidade que envolve os bens pblicos. O entendimento do que

pblico e do que privado complicado devido ao seu carter coletivo e difuso. Eis o

disposto no artigo 225, da Constituio da Repblica Federativa do Brasil no que tange ao

carter difuso do bem pblico: Todos tm direito ao meio ambiente ecologicamente

equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial sadia qualidade de vida, impondo-se ao

Poder Pblico e coletividade o dever de defend-lo e preserv-lo para as presentes e futuras

geraes" (BRASIL, 1988).

O meio ambiente entendido como um instrumento de realizao da cidadania e da

dignidade da pessoa humana. Portanto, assegurado por lei que todos possuem direito a um

ambiente de qualidade, o que por sua vez, dever de todos cuidarem do mesmo. A partir

disso, entende-se que a conservao dos espaos do PPB implica em responsabilidade

compartilhada, em que todos que usufruem dele estejam envolvidos e manifestem essa

conduta por meio de atitudes concretas, como simplesmente no jogar resduos no cho e/ou

no depredar seus equipamentos.

As sugestes feitas pelos entrevistados para a melhoria do PPB refletem a necessidade

de mudanas de atitude por parte do rgo gestor do parque. As mais citadas foram:

disponibilidade de um maior nmero de lixeiras assim como placas educativas.

O parque tambm precisa de manuteno e revitalizao, pois alguns espaos esto em

desuso devido s condies precrias. Outros aspectos foram citados como necessrios: a

melhoria na segurana (63,6%), um maior nmero de brinquedos para crianas menores de

trs anos (18%); melhoria da iluminao (9%) e maior espao para ciclismo (9%). Sugestes

feitas pelos entrevistados para a melhoria do PPB refletem a necessidade de mudanas de

atitude por parte do rgo gestor do parque. cada vez mais imperativo a adoo de medidas

sustentveis (seja reciclagem, educao ambiental, controle do uso da gua ou outras

medidas).

A ltima questo: voc observa contribuio do Parque para a melhoria da sua

qualidade de vida?, visou captar se os frequentadores observam se frequentar o Parque

proporciona melhores condies para a sua vida. Os usurios responderam que o parque

proporciona diverso, lazer e contato com a natureza, sade fsica e mental. Trata-se de um

lugar para estar com a famlia.

Verificou-se grande satisfao por parte dos visitantes por representar uma opo de

lazer familiar, de acesso irrestrito para a populao, e cuja sensao de paz e tranquilidade no

podem ser encontradas em muitos outros lugares dentro da cidade. Os principais problemas

apontados pelos entrevistados, entretanto, no minimizam sua satisfao em desfrutar da rea

como uma opo de lazer.

O parque como lugar para o lazer, diferenciado, representa uma pausa no tempo da

cidade e na rotina de trabalho. Segundo Tuan (1983), o lugar uma pausa no movimento e

essa pausa permite que uma localidade se torne um centro de reconhecido valor. A

oportunidade de estar em contato com a natureza, em atividade ativa, passiva ou

contemplativa faz a integrao homem-natureza harmnica.

Estudos como este, alm de entender a relao dos indivduos com os espaos pblicos

de lazer, possibilitam orientar os administradores nas decises com relao ao parque, de

maneira a torn-lo mais atrativo e envolvente aos frequentadores.

Entende-se que somente com o conhecimento e desenvolvimento de processos

afetivos, provocados pelo uso e apropriao desses espaos, possvel formar atitudes e

valores que permitam o envolvimento dos sujeitos com a soluo dos problemas ambientais

que so, antes de qualquer coisa, problemas humanos.

Consideraes Finais

Inicialmente, os parques eram espaos utilizados pelas classes mdia e alta da

sociedade, pois eram antigos jardins privados. Entretanto, ao se tornarem espaos pblicos,

houve uma socializao maior desses espaos, nos quais eram desenvolvidos jogos diversos

entre distintas classes sociais.

O desenvolvimento dos movimentos ambientalistas, que se acentua nos dias atuais,

relata a importncia da educao ambiental para a formao do cidado. Os parques urbanos

seriam espaos destinados construo de uma conscincia ecolgica, nos quais os cidados

poderiam compreender os processos naturais por meio do contato direto com os elementos da

natureza e utilizariam essas informaes na conservao dos recursos e do ambiente urbano.

Ao envolver sentimentos, ideias, expectativas, interpretaes e diversos outros fatores,

a percepo neste estudo expressa o entendimento e a relao que a sociedade manauara

apresenta acerca do Parque Ponte dos Bilhares.

A percepo dos entrevistados quanto vulnerabilidade dos recursos ambientais do

parque ficou evidente. Riacho poludo e acmulo de resduos slidos foram aspectos

desagradveis bastante citados. A despeito disso, a visitao e o apreo pelo mesmo no se

encontram comprometidos at ento.

A partir do que j foi exposto sobre a relao ser humano-ambiente, pode-se fazer um

paralelo no que se refere ao uso dos espaos do Parque Ponte dos Bilhares. Os frequentadores

que fazem um mau uso dos espaos, depredando das mais diversas formas, entre outras

razes, certamente esto expondo o baixo nvel de valorizao, de falta identificao, de

apego e/ou senso de no pertencimento ao espao. O comportamento dispensado no local

demonstra que tais indivduos no apreenderam quele espao como um bem coletivo cuja

finalidade proporcionar lazer, descanso, distanciamento do estresse cotidiano entre outros

fatores de bem estar.

Verificou-se, tambm, grande satisfao por parte dos visitantes por representar uma

opo de lazer familiar, de acesso irrestrito para a populao, e cuja sensao de paz e

tranquilidade no podem ser encontrados em muitos outros lugares dentro da cidade. Os

principais problemas apontados pelos entrevistados, entretanto, no minimizam sua satisfao

em desfrutar da rea como uma opo de lazer. As reas verdes aparecem como a natureza

presente em meio s reas construdas, e por este motivo, constituem-se em elementos de

apreo da populao.

Julga-se que o estudo da representao sobre o meio ambiente um caminho para

aquisio de conhecimento, interpretao e reflexo dos diferentes olhares, valores, interesses

e prticas, uma vez que, o conhecimento das representaes ajudaria na construo de uma

prtica educativa e gestora mais comprometida.

Almeja-se que o parque urbano no seja visto simplesmente como mais um recurso ou

atrativo turstico da cidade, mas sim como um espao no qual os visitantes devem ser

recepcionados com programas e aes especficas, potencializando o lazer como instrumentos

de educao social e ambiental, num ambiente que busca unir e equilibrar o natural, o

sociocultural e o transformado.

Se o parque realmente capaz de assumir tambm um papel compatvel com a escola

o da educao-, por meio da orientao e sensibilizao ambiental, o turismo pode vir a ser

o veculo de comunicao, no sentido de servir tanto aos habitantes como os que no residem

de forma a sensibilizar o maior nmero de pessoas possvel. Para tanto, fundamental que o

acesso aos parques seja pensado como espao de oportunidade de educao social e ambiental

todos os dias.

A atividade turstica assume, portanto, novas potencialidades alm das econmicas. O

turismo torna-se instrumento de irradiao de informaes e conhecimentos relativos s novas

possibilidades de interpretao do meio ambiente.

Por fim, sugere-se administrao municipal, dispensar ateno constante gesto

deste espao, tendo em vista que parques so recursos capazes de aperfeioar as condies

ambientais influenciando no padro de qualidade de vida de quem o frequenta.

Referncias

BLOG DO CORONEL ROBERTO Catando Letras e Escrevendo Histrias. As Pontes de

Manaus. Disponvel em: . Acesso em: 12 de julho de 2012.

BLOG DO SARAFA. Parque Ponte dos Bilhares. Patrimnio abandonado da cidade.

Disponvel em: . Acesso em: 09 de fevereiro de

2012.

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em 5 de outubro de 1988. Artigo n 225. Captulo VII DO MEIO AMBIENTE. Braslia,

1988.

FERREIRA, A.D. Efeitos positivos gerados pelos parques urbanos: o caso do Passeio Pblico

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