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    A PALAVRA QUE FAZ O PASSADO: NARRATIVA E TRADIO NA LITERATURA E NO CINEMA BRASILEIROS DOS LTIMOS ANOS

    Juliana SantiniProfessora Assistente da Universidade Estadual Paulista Jlio de Mesquita Fi-lho (UNESP); Professora do Programa de Ps-Graduao em Estudos Literrios da UNESP/Campus de AraraquaraE-mail: santini.juliana@uol.com.br

    ResumoEste trabalho analisa de que modo os contos O que veio de longe e Faca, de Ronaldo Correia de Brito, e o filme A festa dameninamorta, dirigido por Matheus Nachtergaele, incorporam a matriz temtica regional em narrativas contemporneas que retomam a tradio e atribuem novos significados a ela.

    Palavras-chavenarrativa; tradio; temtica regional.

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    Curioso como a vida depende dessas pequeninas coisas, do fio de um pa-vio, do sutil fio de uma aranha tecedeira fazendo e desfazendo, criando e recriando o mundo para a gente ver, como uma escrita para a gente ler, como uma teia para nos prender.

    Autran Dourado

    Nonada

    Depende de uma constatao inicial a reflexo que se realiza ao longo deste trabalho: nas ltimas dcadas do sculo XX e, sobretudo, nos primeiros dez anos do sculo XXI, assiste-se a uma retomada de narrativas que, na lite-ratura e no cinema, tematizam o serto ou regies culturais distantes em imaginrio e geograficamente dos grandes centros urbanos. Na prosa liter-ria, o domnio sertanejo reaparece na narrativa de Francisco J. C. Dantas, que publica Coivaradamemria, em 1991, e, com os romances Os desvalidos, de 1993, Cartilhadosilncio,de 1997, e CaboJosinoViloso, j de 2005, concretiza a fora de um modo de representao que, muito ligado ao estilo de Graciliano Ramos sobretudo nos trs primeiros casos recupera a imagem do serto como espao de silncios e almas agrestes, em que o passado o vnculo mais forte de personagens que enlouquecem entre a inadaptao e o crcere.

    No incio do novo sculo, os contos do cearense Ronaldo Correia de Brito apresentam um universo sertanejo em que o presente marca com fora quase demolidora o espao e a memria do passado. As narrativas curtas de Faca, publicado em 2003, e Livrodoshomens, de 2005, alm do romance Galileia, de 2008, e alguns dos contos de Retratos imorais, ltimo livro do autor, lanado em 2009, levam a cabo um processo de ressemantizao do elemento regional, impondo um olhar em que o dado contemporneo, reiterado sob diversos as-pectos pela modernizao tardia e inconclusa do espao, mescla-se ao arcaico de estruturas e modos de vida cuja memria sustenta-se em tentativas quase sempre frustradas de recuperao da identidade, seja no domnio individual da experincia, seja no domnio coletivo da tradio.

    A se considerar o serto menos como uma regio geogrfica situada entre o norte de Minas Gerais e a caatinga no interior dos estados nordestinos do que como um territrio cultural com caractersticas simblicas determinadas pelos modos de vida tpicos de sua organizao o que no Brasil justifica-se devido a sua constituio ecolgica e humana , nota-se que a representao esttica de culturas locais estende-se, na literatura brasileira contempornea, a regies que no se definem essencialmente pela cultura sertaneja, mas no deixam de se definir pelo que Tnia Pellegrini (2008) chama de territrios extremos. Nesse sentido, um conjunto de narrativas se definiria, contempora-neamente, pela incorporao de traos dessa chamada realidade extrema que, transposta para o domnio artstico, oscilaria entre identidade e alteridade na relao com outros espaos: So territriosextremos transformados em re-gies literrias, que representam contextos e contratos identitrios bastante

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    caractersticos, construindo-se como foras agenciadoras de uma arquitetura radical da realidade transposta em linguagem. (PELLEGRINI, 2008, p. 117)

    Emblemticos, nesse sentido, so os romances de Milton Hatoum. Com a publicao de Relato de um certo oriente, em 1989, o autor institui o que seria uma recorrncia em sua produo romanesca: a construo de narrativas mar-cadas pela dimenso histrica da formao de Manaus, mas, tambm, pelo que se poderia definir como sua realidade simblica. Em Dois irmos, publicado em 2002, Cinzas do norte, de 2005, e rfosdoEldorado, cujo lanamento de 2008, real e imaginrio oscilam na representao de um espao em que a iden-tidade coletiva depende da restaurao de runas que se mostram emblem-ticas do ponto de vista da atribuio de significados tanto interpretao do presente quanto recuperao da memria individual. Apenas como sntese desse processo, que se mencione a estrutura da narrativa de Doisirmos, em que Nael, narrador que reconstri sua prpria experincia por meio da hist-ria de uma famlia de imigrantes libaneses em Manaus, faz de sua prpria fala uma tentativa de delimitar seu papel como sujeito nesse ncleo familiar, o que acaba por se entrelaar aos meandros da realidade manauara, seja do ponto de vista das transformaes histrico-sociais determinadas pela evoluo da economia na regio, seja na perspectiva privada da derrocada da famlia, me-taforizada na narrativa pela imagem de uma casa em runas.

    Curioso notar mesmo que ainda em carter introdutrio que os trs casos aqui apontados unem-se por meio de dois elementos comuns: de um lado, uma forte determinao identitria que rasura narrativas marcadas pela memria, pela convivncia de passado e presente ou pelo esfacelamento de sujeitos presos entre dois tempos; de outro, no menos significativo efeito de real que se projeta de um modo de representao em cuja estrutura se entre-cruzam a dimenso do indivduo ligada identidade, narrao de si mesmo ou reconstruo de um habitatem que se reconhea e uma perspectiva mais ampla, articulada a nichos familiares, como nos trs primeiros romances de Milton Hatoum e em Galileia, de Ronaldo Correia de Brito, ou a estratos da sociedade em que a transformao e o progresso ao lado da manuteno de hbitos ligados tradio criam uma espcie de fissura a ser trabalhada pelo tecido narrativo.

    No cinema, as produes das duas ltimas dcadas evidenciam movimen-to semelhante. Em 1997, GuerradeCanudos, de Srgio Rezende, realiza a reto-mada da figura de Antnio Conselheiro em um enredo em que o messianismo d a exata medida da carncia material do serto que insurge contra a Rep-blica. No ano seguinte, em CentraldoBrasil,Walter Salles coloca dois perso-nagens em jornada pelo interior do Brasil, procura de um pai idealizado por uma criana novamente, uma falta ou espao em branco determina o olhar que enquadra a narrativa e faz do universo sertanejo menos um ambiente pi-toresco ou marginalizado economicamente e mais o domnio de relaes or-gnicas que se estabelecem entre a dimenso trgica da existncia e o trgico de antemo imposto pelo imaginrio do serto. O limite do humano une-se a

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    uma nova falta agora de sentido em Abrildespedaado, baseado no roman-ce homnimo de Ismail Kadar e lanado em 2001. Permanece, nesse filme de Walter Salles cuja ao narrativa se desenrola no serto, a lacuna imposta pela tradio familiar e pela violncia que sustenta um cdigo de honra que rege a disputa de terras e de poder entre as duas famlias, sobrevivente onde o apara-to governamental no capaz de instituir a ordem.

    Em texto de 2004, Walnice Nogueira Galvo problematiza a retomada da matriz regionalista no cinema brasileiro dos ltimos anos e, propondo uma interpretao diacrnica dessa tendncia, aponta para a possibilidade de tra-ar um arco cinematogrfico em trs segmentos, cada um deles devidamente ressemantizado (GALVO, 2004, p.3). Na ponta dessa periodizao propos-ta pela autora, coloca-se o cinema novo, com as produes de Glauber Rocha, Rui Guerra e Roberto Santos, em que misticismo e cangao impem-se como vlvula de escape e soluo para um quadro de marginalizao e violncia. Bye-byeBrasil e O homem que virou suco, de Cac Diegues e Joo Batista de Andrade, respectivamente, encartam o que seria o segundo segmento definido por Walnice, conjunto ficcional inaugurado em 1979 e marcado pela falncia das utopias, em que se verifica uma anlise crtica do prprio modo de vida do serto, como se um olhar demolidor se lanasse sobre a proposta revolucion-ria do perodo anterior. Na segunda extremidade dessa linha diacrnica, o ano de 1996 marcaria, com Baileperfumado, dirigido por Paulo Caldas e Lrio Fer-reira, uma nova perspectiva sobre o cangao, certo vulto dado ao misticismo e um novo paradigma de representao, em que o serto aparece como ponto de fuga ou espao indeterminado.

    A diviso proposta por Walnice Nogueira Galvo interessante na medida em que considera um eixo temporal da dcada de sessenta aos ltimos anos a que se agrega a variao de um mesmo tema. Intrigante, porm, o fato de que para os dois primeiros blocos temporais sejam propostas interpretaes bastante claras em relao ao tratamento dado recuperao da temtica re-gionalista pelo cinema no primeiro caso, o tom revolucionrio e contestador; no segundo, a crtica a essa tendncia , enquanto para o terceiro bloco, a que corresponde produo contempornea, reste uma indefinio ou, mais ob-jetivamente, a ideia de que o cinema atual busque outra coisa. A indefinio ou todo o espectro de possibilidades que cabem no sintagma utilizado para caracterizar essa ltima produo coloca em xeque uma srie de interpreta-es da crtica em relao a essas narrativas, que vo desde a existncia de um regionalismo no cinema contemporneo at a ideia de uma hipertrofia do dado local, que de modo supostamente anacrnico retornaria cena sempre que uma necessidade de autoafirmao mostra-se evidente.

    O artigo levanta uma hiptese analtica, a de que essa coisa representa algo que passe por fora do fundamentalismo do mercado, com suas regras inclementes, da idolatria do consumo, do evangelho digital que atomiza e isola as pessoas ao arrebat-las na iluso de se conectarem numa rede internacional ou at intergaltica de sociabilidade (GALVO, 2004, p.5). Seria, portanto,

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    de resistncia o papel desempenhado, no cinema, por produes que recupe-ram a temtica regional ou colocam em cena espaos no hegemnicos que, mesmo que se constituam sem marcas geogrficas definidas, apontam para a existncia de imagens, smbolos e fbulas alheios ou resistentes semanti-zao de um domnio urbano, massificado ou homogeneizado pelo mercado. Lida nessa chave, essa produo se firmaria como um contraponto afirmao de uma globalizao soberana1, questionvel, no limite, pela sobrevivncia de signos culturais tpicos de regies de contrastes, em que um espao-tempo marcado pela desigualdade define-se na convivncia entre o moderno e restos da tradio.

    Publicado j h sete anos, o texto de Walnice Nogueira Galvo rascunha um quadro que se consolidou com fora. Em 2006, Karim Anouz dirigiria O cudeSuely, narrativa marcada pelo trnsito (ou a tentativa de) entre o in-terior do Cear e a cidade de So Paulo; de 2007 Mutum, de Sandra Kogut, baseado na narrativa homnima de Joo Guimares Rosa e, entre tantas outras produes que poderiam ser aqui citadas, esto ainda Olhodeboi, de 2009, e Viajoporquepreciso,voltoporqueteamo, de 2010, todas diretamente relacio-nadas ao universo ficcional cuja existncia contempornea foi problematizada por Walnice.

    Nos ecos que fazem ressoar essa discusso j que o tema que lhe deu mote persiste interessa a este artigo a relao que se estabelece entre essa retomada apontada pela crtica no cinema e o modo como ela se realiza na literatura. No se trata, como se poderia pressupor, de considerar a prosa con-tempornea que retoma o serto ou reas culturais no hegemnicas como simples retomada do regionalismo ou, ainda, de afirmar que a produo cine-matogrfica atual constitui-se a partir de uma incorporao passiva da matriz literria regionalista que se desenvolveu ao longo do processo de formao e consolidao da literatura brasileira. A permanncia no impe, portanto, uma linha de anlise que parte de um paradigma regionalista de interpretao, o que se pretende, por outro lado, observar a maneira pela qual literatura e ci-nema tocam-se, contemporaneamente, em um ponto de convergncia marca-do por signos da tradio. A esse intento, trs narrativas servem como objeto de anlise: os contos Faca e O que veio de longe, publicados por Ronaldo Correia de Brito em 2003 e 2005, respectivamente, e Afestadameninamorta, de 2008, dirigido por Matheus Nachtergaele. Nas construes flmica e lite-rria, interessa o modo como se representa um espao e seu imaginrio, que nos trs casos, liga-se construo discursiva de uma tradio que d sentido existncia nesse mesmo espao, como se cada narrativa colocasse em cena a necessidade humana de criar narrativas.

    1 A expresso de Vivien Lando (2008), em resenha publicada no jornal Folha de So Paulo por ocasio do lanamento do romance Galileia. No texto, a autora afirma que o valor do romance decorre do fato de a narrativa localizar o serto em uma realidade no contrastiva, em que a globalizao se faz soberana.

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    O serto sem lugar

    Afestadameninamorta, primeiro longa dirigido por Matheus Nachter-gaele, tem sua ao narrativa situada em uma comunidade ribeirinha do alto Amazonas e se desenvolve em torno dos preparativos para a vigsima edio da festa que d ttulo ao filme. H vinte anos, portanto, do presente da narra-o, o desaparecimento da menina Maria Ceclia seria seguido por uma cena inusitada: um cachorro entregava, nas mos de um garoto cuja me h pou-co se suicidara, um vestido. Desde ento, Santinho, protagonista interpreta-do por Daniel de Oliveira, passa a ser tratado como santo pela comunidade e, anualmente, supostamente recebe revelaes enviadas pela menina, que so transmitidas ao povo de toda a regio composto, sobretudo, por indgenas durante a festa, no ponto final de todo o rito, depois da preparao, da beno e da queima dos presentes doados pelos fieis.

    Logo de inicio, trs dimenses cruzam-se na composio do enredo: pri-meiro, o fanatismo religioso que se projeta da figura de Santinho como um messias ou uma espcie de lder espiritual da regio, benzendo crianas, ga-rantindo bons partos e fazendo revelaes para o ano vindouro; em segundo lugar, a face mundana do rito: parte dos habitantes do local une religio a pra-zer e se encanta com a festa que se monta no dia da revelao, com msica, comida e bebida desregradas; por fim, o domnio privado da vida de Santinho, vista de perto em sua relao incestuosa com o pai, na excentricidade de quem precisa lidar com o poder que exerce sobre as pessoas, na imagem diferente de um rapaz branco e feminino entre uma populao indgena e com figuras masculinas fortes, ligadas ao trabalho braal; nos transtornos do garoto que assistiu ao suicdio da me. Juntos, os trs nveis de construo de significado operam um movimento de mltipla focalizao, em parte responsvel por um jogo de contrastes e de tenso que se desenha ao longo de toda a narrativa.

    Esses trs domnios encerram em si eixos de significao que podem ser tomados de modo autnomo, ou seja, na relao orgnica que se estabelece entre os elementos que compem cada esfera e o significado que se dobra so-bre esses mesmos elementos, ou na articulao entre as particularidades de cada um. No primeiro caso, importante notar como o tecido narrativo ir se compor da construo de sentidos que marcam, no limite, a definio da iden-tidade individual e coletiva no interior dessas esferas. Partindo dessa perspec-tiva de anlise, o domnio da religiosidade se coloca como o eixo condutor da determinao de significados na narrativa: a menina desaparecida na comuni-dade e o aparecimento de suas vestes rasgadas colocam em cena no apenas o inexplicado, mas tambm, e sobretudo, a necessidade de atribuio de um sentido ou explicao para o que no pode ser compreendido.

    Fica evidente, nesse primeiro eixo semntico, o fato de que a pequena comunidade, abalada pela suposta morte de Maria Ceclia, procura a reden-o da menina e da desgraa coletiva na construo de uma entidade que suprima a perda ou que represente um alento para as dores cotidianas. Santi-

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    nho preencher essa lacuna sendo o escolhido pelo cachorro para receber as roupas rasgadas da menina, gesto que garantir a construo de uma imagem emblemtica do messianismo e da dinmica que alimenta o misticismo reli-gioso no interior de uma realidade carente, em espao afastado e regido por suas prprias leis. O papel desempenhado pelo personagem nesse universo determina o preenchimento de uma lacuna na vida dos ribeirinhos, espcie de superao de um presente rasurado pela falta e crena em um futuro melhor. O Santo benze a gestao das mulheres, reza por crianas doentes, suposta-mente recebe mensagens da menina morta que antecipam a fartura, a felicida-de ou o sofrimento daquele ano.

    , portanto, no culto que serve de ttulo e de mote ao filme que se institui o primeiro ponto de vista da narrativa: o olhar coletivo representado pelo misticismo popular. Mesclam-se, aqui, traos do cristianismo, presente nas oraes e nas canes entoadas durante a preparao da festa, movimentos de danas indgenas encenados pelos ribeirinhos que prestam reverncia menina, e a crena no poder de um novo messias, espcie de Antnio Conselheiro amazonense. Sozinha, essa perspectiva determinaria um enredo cujo parentesco se situa nas muitas narrativas de Canudos ou na matriz mtico-religiosa de histrias do serto com origens desde a prosa rosiana e desdobramentos no cinema contemporneo. Ocorre, porm, que as outras duas perspectivas narrativas que se somam a essa primeira impem uma leitura em prisma, que desestabiliza o ponto de vista inicial em favor de sucessivos questionamentos e desnudamentos no decorrer da trama.

    Nesse sentido, o domnio da festa determina o segundo ponto de vista que estrutura a narrativa: com uma viso capitalista que destoa do culto sagrado, o pai de Santinho traz para a realizao daquele ano uma banda de msica, alm de barracas de venda de cerveja e comidas. Interessante notar que a novidade patrocinada pela rdio da cidade, que leva um de seus locutores para narrar o acontecimento, com propagandas financiadas por empresas e pela prpria marca de cerveja. A interferncia do comrcio na f vista com bons olhos pelos festeiros, que aproveitam a ocasio como uma das nicas oportunidades de lazer naquele espao marcado pela distncia e pelo trabalho cotidiano na relao direta com o rio. justamente o acontecimento festivo que atrai para o local ribeirinhos de diferentes regies, o que potencializa o carter heterog-neo do evento, que f crist e ao culto indgena, mescla ainda msica eletr-nica, garotas, em roupas coladas ao corpo, danando coreografias e rapazes, na praa, ensaiando passos de break.

    O contraponto ao entusiasmo pela novidade faz-se presente na fala das rezadeiras, tambm responsveis pela preparao da festa e pelos cuidados com Santinho. O estranhamento delimita a relao de atrito entre a tradio, mantida pela realizao anual da festa com seus rituais, e o progresso, visto pelos mais conservadores como deturpao da f da cultura local: preciso evoluir, tia, diz o pai de Santinho ao justificar a venda de cerveja, o show mu-sical e a presena da rdio. Quando colocada ao lado da perspectiva imposta

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    pelo domnio da religiosidade, surge na narrativa um de seus contrastes fun-damentais, qual seja a relao que se estabelece entre os domnios da tradio e da modernidade, colocando, de um lado, a festa em louvor menina e, de outro, a motivao capitalista ou de puro lazer que conduz a sua realizao. O resultado irnico que se projeta desse contraste depende do fato de a manu-teno da tradio ser promovida justamente pelos agentes responsveis por sua modernizao ou desvio, como preferem enxergar os mais conservado-res. O pai de Santinho funciona, nesse sentido, como elemento de sntese dos opostos em uma figura desregrada, mais ligada ao sexo, bebida e s mulheres do que ao ritual como manifestao de f.

    O personagem do pai tambm promove a transposio da segunda para a terceira perspectiva narrativa no filme, atuando tanto na determinao semntica do eixo estruturado pelo domnio da festa em sua dimenso religiosa e profana quanto na definio da esfera privada de focalizao, aquela centrada na figura de Santinho e na ligao ambgua que mantm com a imagem paterna e com o fantasma da me. Nesse ponto, a casa de Santinho se mostra como um ba que guarda os segredos do passado, entrelaados a um presente de excentricidade, poder e interditos. Em seus recnditos (BACHELARD, 1993), a casa esconde a ho-mossexualidade do rapaz e a relao incestuosa que mantm com seu pai, oculta as oscilaes de humor de um santo que vive s custas dos trabalhos das reza-deiras crentes em seus milagres e permanece preso figura enigmtica da me, com quem se encontra em uma cena obscura quase ao final da narrativa, sem que se possa ter certeza de sua existncia na realidade ou no delrio do personagem.

    Unidas por um olhar vertical, essas trs perspectivas articulam-se na construo do evento anunciado pelo ttulo: a Festa da Menina Morta narra-da no dia que antecede sua preparao, nas desavenas dos personagens que aceitam ou no a modernizao da festa, no sincretismo que une a f crist umbanda e religio indgena, na instabilidade emocional de Santinho e no dilaceramento individual de personagens que enfrentam a pobreza, a morte e o isolamento geogrfico de Barcelos, cidade em que a ao se desenrola. Nesse movimento de leitura, as ambiguidades apazguam-se no domnio mstico e na crena popular, de modo que se tem a impresso de estar diante de uma narrativa que apenas retoma a matriz messinica da cultura brasileira, nota-damente forte em realizaes que se constroem em torno da figura de Antnio.

    Ocorre, porm, que uma outra perspectiva de leitura admite uma trans-formao nos significados que se desenham nesse primeiro emparelhamento dos trs nveis descritos. Ainda verticalmente, mas agora partindo do domnio privado para passar pela festa e chegar religiosidade, o que se mostra a construo de uma festa em louvor a quem morreu e no voltou, ou seja, a algo que faz parte do cotidiano de qualquer comunidade. Dentro da casa de Santinho, o que se mostra a figura de um personagem atordoado, excntrico, que na infncia recebeu os restos rasgados do vestido de Maria Ceclia, me-nina desaparecida que, diga-se, nunca foi encontrada. da fala do pai que se desenovela um conjunto de histrias responsveis pela mitificao do garoto.

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    Branco em uma regio habitada por ndios e mestios, Santinho imagem que favorece a diferena pela feminilidade e fragilidade de seus traos, por manter o poder por meio de gritos e pela submisso de quem lhe dedica f e trabalho.

    Intercalados a esse espao, os nveis coletivo da festa e a religiosidade que move o domnio popular revelam-se como atribuio de significado ao que se manifestava como silncio e incompreenso. Na dor do cotidiano de carncias, a figura de Santinho pontua a possibilidade de um futuro melhor, de um bom destino, como diz a cano em louvor menina. O desaparecimento de Maria Ceclia coloca-se como uma espcie de signo vazio ou como significante es-pera de um significado que o preencha. Mote para a composio de uma nar-rativa que d sentido a vidas vazias, a morte da menina serve de instrumento beatificao de Santinho, que perde seu nome prprio em favor da crena coletiva. Misturando a vida palavra e alimentando a dinmica da narrativa popular (BENJAMIN,1983), a festa da menina morta revela-se, nessa chave de interpretao, como a histria da construo de uma narrativa ou, no limite, como a ideia de que a f existe como narrativa.

    A realizao da vigsima edio da Festa da Menina Morta evidencia que o presente dista vinte anos dos acontecimentos que deram origem prpria festa e mitificao de Santinho. Nesse intervalo, a transposio da histria da menina entre diferentes geraes e a criao de elementos que sustentam a crena fica evidente: a msica composta e entoada pelo pai de Santinho; o vestido da menina guardado como relquia; a construo de um rito repetido anualmente em seus detalhes; a transmisso da histria s crianas, que ga-rantiro sua sobrevivncia por outros tantos anos. A revelao desse processo de construo discursiva fica patente no olhar de Tadeu, irmo de Maria Cec-lia e figura questionadora no enredo: Tadeu sabe que a irm no voltou e, por isso, pe em xeque a existncia de qualquer milagre; percebe, ainda, o aparato que se monta em torno da figura da irm e enxerga a festa como um bando de cachaceiros. A ironia que se desprende da postura do personagem orienta-se duplamente: ao mesmo tempo em que revela a falcia do mito, Tadeu cede ao final e concorda em carregar Santinho para a Revelao. Por outro lado, sua palavra que dar outra orientao ao ttulo do filme. Mais do que dos prepara-tivos e da realizao da festa, a narrativa trata da construo de uma narrativa ou da atribuio de sentidos, pela fala popular, a uma imagem que alivie o so-frimento de um povo e garanta sua esperana.

    Dor a palavra2

    A narrativa O que veio de longe abre Livrodoshomens, terceiro livro de contos do autor cearense Ronaldo Correia de Brito, publicado em 2005 pela

    2 Parte desta reflexo encontra-se publicada em: SANTINI, J. Entre a memria e a inveno: a tradio na narrativa brasileira contempornea. Cerrados. Braslia, v.27, ano18, p.253-272, 2009.

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    editora Cosac Naify. Trata-se da histria do aparecimento de um corpo em um vilarejo no meio do serto, levado at o local pela enchente do rio Jaguaribe. Com trs tiros, desfigurado e sem identidade, o corpo enterrado pelos mo-radores da regio que, com o passar do tempo, constroem uma histria para o homem, batizam-no com o nome do santo evocado pelo dia em que fora encon-trado e com o sobrenome retirado da rvore que fazia sombra a seu tmulo. De desconhecida, a figura passa a mtica nas narrativas criadas e entoadas pelos sertanejos, que do contorno histria de um estranho que se transforma em santo no tecido da fala popular:

    Ele falou, disseram. So Sebastio dos Ferros mandou um sinal para ns. E muitos outros mandaria. Pelo vaqueiro que perdeu sua rs e encontrou-a. Pela mulher com o filho atravessado na barriga, parido a termo. Salvando um menino doente de crupe. Afugentando os gafanhotos que destruam o milharal. De muitas maneiras o morto falava com a gente que o sepultara, guardando seus pertences como relquia. (BRITO, 2005, p.11)

    A santidade do homem questionada e desfeita pelo relato de outro que tambm viera de longe, dessa vez para revelar a ndole malvola de um assas-sino, que matara a irm do recm chegado para se casar com outra mulher. Terminado o relato, a narrativa encerra-se com uma nova enchente e a suges-to de que se manteria calada a voz que tentara desenovelar o fio da tradio construda em torno do homem enterrado no Monte Alverne: Um relmpago cortou o cu. Choveu a noite inteira e o Jaguaribe botou enchente. Pareceu o dia em que encontraram o corpo do santo. guas barrentas e profundas. Na medida certa para arrastarem outro corpo. (BRITO, 2005, p.14).

    A insero do texto no conjunto que compe a matriz regional de nossa cultura nos termos em que discute Walnice Nogueira Galvo (2004) poderia ter como ponto de partida a observao do espao construdo na diegese e os significados que da se projetam. Monte Alverne, o povoado que recolhe o corpo carregado pela enchente do rio Jaguaribe, localiza-se no interior do es-tado do Cear, zona sertaneja marcada pelo trnsito de viajantes e condutores de boiadas que cruzam o serto, agentes do comrcio e guias do trotar dos animais. Deve-se notar, de antemo, que esse trnsito daqueles que passam pelo local contrasta com a fixidez e a imobilidade dos habitantes de Monte Alverne, pontuadas na narrativa pela imagem da velha oiticica em cujo tronco os viajantes imprimiam a marca do gado que transportavam e dos espaos que cruzavam:

    (...) rvore que dava sombra aos vaqueiros e aos rebanhos. Pouso obrigat-rio de todos os viajantes. Seu tronco guardava o desenho dos ferros de ferrar gado. Uns mais antigos, outros mais recentes, escorrendo a seiva, como o sangue de quem foi ferido. Parecia um boi de infinitos donos. Pau dos Ferros. Se desejavam saber quem cruzou o vau do rio, olhavam o caule marcado com as iniciais do viajante. (BRITO, 2005, p. 8)

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    A imobilidade daqueles que ocupavam o monte defronte as margens do rio Jaguaribe ope-se, ainda, ao fluxo do prprio rio, que corta espaos e car-rega histrias e diferentes tempos em suas guas. , portanto, sob o signo da fixidez que se desenham os significados do cotidiano desses personagens, en-volvidos em tarefas relacionadas economia prpria daquele espao, sem a interferncia ou a determinao de outros espaos.

    O papel da estaticidade como polo irradiador de sentido na narrativa re-afirma-se quando se considera a descrio, feita pelo narrador, dos habitantes do lugar, contrapondo suas figuras imagem confusa, porque desfeita pelas guas do rio, do corpo ali aportado: As pessoas no se igualavam ao desco-nhecido, tinham certeza. Pastores, vaqueiros, pequenos donos de terra, no se aventuravam em outros mundos. No se aventuravam nos livros e nunca escreveram o prprio nome (BRITO, 2005, p. 9). O olhar lanado para o corpo que viera de longe carrega, como se v, a marca da alteridade. Sem identidade, sem histria e, portanto, sem passado, o corpo ali recebido se mostrava como um referente a ser preenchido de significado, lacuna que encontra espao na necessidade de respostas para as dificuldades e principalmente para aquilo que se mostra inexplicvel diante dos olhos do sertanejo.

    A partir da imagem do outro, agora campo de significao, inicia-se a construo de pequenas narrativas que, de imaginao em imaginao, de boca em boca, serviriam de histria para o corpo desfigurado outrora trazido pela enchente. Agora com identidade Sebastio dos Ferros, como se disse o desconhecido recebia feies de homem nobre, rico, heri ou prncipe de ou-tras terras, vindo de lugar distante, to distante quanto poderiam supor aque-les que nunca foram a lugar algum:

    - Morto de que maneira?- Emboscado! Tinham certeza.- As balas entraram pelas costas. - Pela frente teimavam. - Pela frente, no! Ele se defenderia. Tinha msculos de valente, no morre-ria assim.- Afogado que no foi. No bebeu uma gota dgua.- Se bebesse ficava inchado.- Jogaram o corpo no rio, ou ficou na ribanceira e a enchente arrastou- possvel.- Mas que era rico, era. Vai ver, parente dos Feitosa.- Briga de famlia?- Acho que no. Tinha jeito de homem manso.- Jeito como, se nem as feies se viam?- As piranhas comeram o rosto.- No tem desse peixe no rio.- Algum arrancou os olhos, pra judiar o coitado.- possvel, tem gente perversa.- Pra roubar que no foi. Teriam levado o anel. Deve valer uma fortuna.- Aposto que veio do reino. Ou de mais longe, da Arbia. (BRITO, 2005, 9-10)

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    As feies que comeam a ser atribudas ao desconhecido reafirmam a imagem da alteridade que define a relao entre o corpo e o povo de Monte Alverne. A histria criada pelo povo esboa os contornos de uma realidade compensatria, que d ao outro a possibilidade de se tornar tudo o que povo no . O contedo do passado construdo pela fala popular garante ao desco-nhecido toda a grandiosidade, o herosmo, a fortuna e a prosperidade que os habitantes da regio poderiam imaginar, mas no concretizar em termos que no fossem da fala.

    O processo de mitificao do outro corresponde, portanto, inveno de uma imagem para si mesmo, como se a presena do agora So Sebastio dos Ferros (BRITO, 2005, p.11) servisse como forma de compensao para a reali-dade carente de heris e significados que cercava cada um dos habitantes da cidade, unidos em uma coletividade que passa a contemplar e a louvar sua prpria criao. assim que se leva a cabo a composio de um ser sobre--humano, capaz de garantir a colheita, de salvar uma mulher do veneno mortal de uma cobra que a picara, de promover o nascimento de um filho considerado morto no ventre da me. Homem sem face, nobre da Arbia, santo milagroso: a fala dos habitantes constri identidade, alteridade e messianismo, fundando, na figura do que veio de longe, os anseios de um espao que no ultrapassa as margens do rio Jaguaribe.

    A chegada de Pedro Miranda em Monte Alverne revelaria, porm, a his-tria do corpo que fora encontrado nas guas do rio. Com o nome de Domsio Justino, cunhado de Pedro como se disse , matara a esposa a facadas para casar-se com outra mulher. Sem batalhas grandiosas e sem defender a honra dos pobres de outros lugares, como havia inventado o povo, Justino fora as-sassinado pelo cunhado, que vingava a morte de sua irm com trs tiros. O momento em que Pedro Miranda conta ao povo a verdadeira histria do falso santo (BRITO, 2005, p.13) descrito pelo narrador de maneira a revelar as diferentes posturas e reaes diante da fala que puxava o fio de um tecido cos-turado com os ns da crena popular: de um lado, a emoo de Pedro, que re-cordava a irm morta, barbaramente assassinada; de outro, a fixao do povo no moo, aproximando-se dele como um caador espreita a vtima: Sentia a garganta fechar-se e os olhos se encherem de lgrimas. Mas nenhum dos ou-vintes atentou para isso. Estreitavam o crculo em volta do narrador, projetan-do os corpos silenciosos. (BRITO, 2005, p.14).

    A sugesto de que o rio carregaria mais um corpo naquela noite encerra a narrativa e silencia a ameaa de destruio da imagem que se desenhara em torno do outrora desconhecido corpo. Esse mesmo silncio, ofuscado apenas pelos sons das guas cheias do Jaguaribe, impe que se faa uma escolha entre a suposta verdade apresentada por Pedro Miranda e a verdade construda pelo povo. Levado pelas guas da enchente, o corpo de Pedro Miranda tambm dei-xaria para trs, no passado, sua identidade, sua histria e a histria de Domsio Justino, que continuaria a garantir a segurana e a sade do povo de Monte Alverne como So Sebastio dos Ferros.

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    A ideia de que a narrativa de O que veio de longe pe mostra os me-andros da fala popular em torno da construo de uma imagem eleita como representante da tradio se torna mais evidente quando se considera, ao lado do texto em questo, o conto Faca, publicado em 2003 em volume de mesmo ttulo. Com um tom bastante diferente daquele impresso pela fala proftica do narrador em O que veio de longe, Faca se constri a partir de fragmentos temporais que se embaralham e, como em um quebra-cabeas, dependem de um trabalho de reconstruo para adquirir significados.

    A narrativa se inicia com um quadro em que aparece um grupo de ciganos que, encontrando uma faca, discorrem a respeito do valor material do objeto e, tambm, de uma histria de violncia e maldio que envolve o espao em que se encontram, supostamente determinado por um assassinato em que a faca encontrada teria sido usada como arma. Revestida de ouro e prata, a faca representa, nesse primeiro momento, um elo que une o presente em que se situam os personagens desse eixo narrativo e o passado, rememorado pelas imagens agregadas ao totem esquecido no quintal da casa e encontrada pelos ciganos:

    Uns ciganos acharam a faca. A prata perdera o brilho e j no havia sinal de sangue na lmina.- O cabe de ouro disse uma velha, os olhos sonhando um trancelim dou-rado.Um outro cigano pensou num bom negcio, na feira da cidade prxima. Aquele objeto estranho, que o tempo cercara de mistrio, assombrava.- Escondam! - Por que esconder? No mora mais ningum na casa. - Tenho medo. amaldioada. (BRITO, 2003, p. 25-26)

    Aqui transcrito completamente, o sketch que abre a narrativa encerrado com um espao em branco e separado do quadro seguinte por meio de trs pontos em uma linha horizontal. A marcao grfica determina uma ruptura temporal, j que o prximo quadro apresenta, no mesmo espao, uma ao decorrida cem anos antes, envolvendo a famlia de Domsio Justino, que assas-sinara sua esposa, alegando adultrio. Malgrado a fragmentao temporal, que se sustentar ao longo de todo o conto por meio da alternncia entre quadros distintos, a presena do narrador realiza uma mediao que implica um efeito de simultaneidade que, no limite, impe ao leitor imagens que se sobrepem.

    Construindo dois eixos narrativos distintos, porm entrelaados, a fala do narrador permite que se leia, para alm da mitificao do objeto, o fato que o envolveu e que o revestiu de um valor simblico. Nesse caso, mais do que dois estratos temporais, a narrativa opera o entrecruzar de dois estratos simbli-cos, cada qual relacionado ao momento em que se inserem as distintas aes. A mediao do narrador implica, aqui, a conduo dos significados que, laten-tes no domnio da ao dos ciganos, so revelados ao leitor por meio da focali-zao onisciente, tambm comprometida com o deslindar de fatos e intenes.

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    No plano em que se encontram Domsio Justino, Donana, os filhos do casal e os cunhados do sertanejo, a narrativa se desenrola nos detalhes do cotidiano do serto, de vaqueiros que transportam o gado por longas distncias e passam dias fora do convvio familiar. Domsio vaqueiro que custa a retornar, prefere os mo-vimentos da cidade e as mulheres de fora do serto, enquanto a mulher o espera durante meses e amarga, com o sabor do umbu que metaforiza a dor e a ausncia, a frustrao de ver os sertanejos regressarem enquanto o marido tarda. Enquanto, no estrato inicial, os ciganos decidem o que fazer com a faca supostamente amal-dioada por ter sido instrumento de um crime premeditado, a narrao do que ocorrera cem anos antes pe em cena o casamento que Domsio acertara na cida-de, a inveno de um adultrio da esposa para justificar sua vingana sangrenta e o sofrimento de Donana no momento de sua morte:

    Me de Misericrdia gemeu Donana, piedosa, ajoelhada aos ps do oratrio, onde desfiava sua nica culpa: existir. Quando cochilava, do cansao do dia de muito trabalho, Francisca tomava a frente no tero. Os irmos respondiam em coro: - Eia pois, advogada nossa, esses vosso olhos misericordiosos, a ns volvei. Enquanto o pai vagava pelos terreiros, o pensamento na mulher de longe. Pensando na volta. E depois deste desterro, um caminho me mostre , na hora que Donana gritou, o corpo lavado em sangue, tingindo um riacho, e depois um rio e depois um mar. A vs bradamos , nas ltimas foras correndo, os filhos todos atrs, s Francisca teve coragem de procurar o pai, sabia que ele estava no meio do mato. Se esconda na casa do seu irmo.Os degredados filhos de Eva alcanaram a me quando ela caiu morta, as mos cheias de umbu. (BRITO, 2003, p. 32-33)

    A tentativa de vingana dos irmos de Donana que, sabendo do engodo cria-do por Domsio, juram o sertanejo de morte, no verbalizada pelo narrador, e o conto termina com a imagem de um corpo esquecido no serto, assim como a faca que serve de mote s especulaes dos ciganos que, por fim, mantm-na no lugar em que a encontraram. O ato de narrar suspenso no momento em que os dois eixos narrativos se fundem no mesmo quadro: o fato passado, revigorado na fala dos ciganos que temem a suposta maldio evocada pela faca, se faz presente na medida em que alimenta o imaginrio daqueles que cruzam o local da morte de Donana passados cem anos da tragdia. Ocorre, porm, que a sugesto da vingan-a concretizada deixa em aberto um novo espao para construo de significados, qual seja aquele que envolve a maneira como Domsio Justino foi morto.

    Se a faca representa, no conto de 2003, os fatos e a histria do passado em um espao nico a casa em que viveu a famlia ela no deixa de existir en-quanto smbolo que mantm, naquele lugar, imutvel, as aes transcorridas em um tempo distante e revividas no presente dos fatos narrados. O mesmo no ocorre com o corpo do sertanejo: em outro espao, agora Monte Alverne, Domsio Justino aquele que veio de longe e, sem identidade, funciona como signo vazio, cujos significados sero preenchidos pelas vozes que compem a narrativa inserida no volume de 2005. Note-se que o que serve de material

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    para o conto o O que veio de longe justamente aquilo que permanecia ca-rente de significao em Faca, de modo que o que se tem um movimento constante de atribuio de novos significados a um mesmo elemento ou obje-to. No caso do conto de 2005, justamente o trnsito do corpo e sua insero em outro espao que permitem o apagamento do passado que no coube em torno da faca, no primeiro conto. Interessante notar que a histria de Donana reaparece no romance Galileia, de 2008, tambm como elemento definidor da identidade, agora de uma famlia, no serto de Inhamuns, no Cear.

    Consideraes finais

    No momento mais tenso da festa, quando se d a revelao da fala da me-nina para os habitantes de Barcelos, Santinho que, sabemos, no recebeu nenhuma revelao exceto pela imagem da me que retorna fisicamente ou em uma alucinao toma o microfone e anuncia que a palavra dor porque a menina teria nascido da dor. A fala do personagem importante para a refle-xo que aqui se props: o corpo desconhecido recebe o nome de So Sebastio dos Ferros em Monte Alverne, enquanto a menina deixa de ser Maria Ceclia na comunidade do alto Amazonas em favor de um processo que transforma em palavra o que pode dar sentido ao coletivo. Isso significa que a narrativa criada pelo povo do serto no conto de Ronaldo Correia de Brito cumpre a mesma funo daquela anunciada pelo ttulo do filme de Matheus Nachtergaele, qual seja suprir carncias geradas na dor e garantir a existncia de uma tradio.

    Em texto conhecido, Antonio Candido (1995, p.242) parte da ideia de que a literatura, compreendida de modo amplo como fico, um bem incompress-vel, que no pode ser retirado do homem porque dela depende a garantia de uma necessidade humana de criar histrias e de imergir em realidades ficcionais ou imaginrias como forma de compensao ou superao do presente: No h povo e no h homem que possa viver sem ela, isto , sem a possibilidade de entrar em contacto com alguma espcie de fabulao. Estendida para o domnio da fala popular, essa constatao aponta para o fato de que a narrativa se manifesta como criao humana intimamente ligada a processos inconscientes de fabulao ou de atribuio de significados por meio de realidades outras, pautadas ou no em um real emprico, mas que necessariamente surge a partir de e no interior desse real. Lidas sob essa perspectiva, as narrativas flmica e literria aqui observadas constroem a histria da criao de uma histria, que surge na dor responsvel pela incluso do mstico e da esperana na prpria vida.

    Os territrios extremos representados por essas narrativas aparecem, portan-to, na determinao geogrfica do espao em que cada ao inserida, mas, tambm, na expanso dos significados que no se circunscrevem a esse espao e colocam a construo de uma narrativa como fator indispensvel de humanizao (CANDIDO, 1995, p.243). Agora como espaos indeterminados, Monte Alverne e Barcelos resse-mantizam, contemporaneamente, a matriz regional fundadora da cultura brasileira e mantenedora de seus significados na literatura, no cinema, no teatro e nas artes plsti-

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    cas: nos trs enredos aqui analisados, essa matriz se transforma na exibio de sua es-trutura, trazendo tona a proposta de que a tradio tambm se faz pela palavra e que a f, no domnio popular ou em qualquer outro, no deixa de ser uma narrativa, o que, nesses os casos, garante sua potncia, j que se mostra essencialmente humana.

    SANTINI, J. THE WORD THAT MAKES THE PAST: NARRATIVE AND TRADITION IN BRAZILIAN LITERATURE AND MOVIE DURING LAST YEARS.

    AbstractThisworkanalysesthewaybywhichtheshortstoriesOqueveiodelongeandFaca,byRonaldoCorreiadeBrito,andthemovieAfestadameninamorta,directedbyMatheusNacthergaele, incorporate regional thematicmatrix incontemporarynarrativesthattakeagaintraditionandgiveitanewmeaning.

    Keywordsnarrative;tradition;regionalthematic.

    Referncias

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    AFESTAdameninamorta. Direo: Matheus Nachtergaele. Brasil, 2008. 110min.

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