A origem das espécies charles darwin

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  • 1. A Origem Das Espcies Charles Darwin

2. Ttulo original: On the Origin of SpeciesTraduo de Joaquim D Mesquita Paulwww.LivrosGratis.net 3. Mdico e Professor Variao das espcies no estado domstico. Variao no estadonatural. A luta pela existncia. Concorrncia universal.-A luta pela vida muito encarniada entre os indivduos e as variedades da mesmaespcie. A seleco natural ou a persistncia do mais apto. Seleco sexual. Lei da variao. Hiptese da descendncia. Objeces teoria da seleco natural. Instinto. Concluso. LELLO & IRMO - EDITORES 144, Rua das Carmelitas -PORTO 4. Quanto ao mundo material, podemos pelo menos Ir at concluso de que os factos seno produzem em consequncia da interveno isolada do poder divino, manifestando-seem cada caso particular, mas antes pela aco das leis gerais. WHEWELL, Bridgewater Treatises.O nico sentido preciso da palavra natural a qualidade de ser estabelecido,fixo ou estvel; por isso tudo o que natural exige e supe qualquer factor inteligentepara o tornar tal, Isto , para o produzir continuamente ou em intervalos determinados,enquanto que tudo o que sobrenatural ou miraculoso produzido uma s vez, e de ums golpe.BUTLER, Analogy of Revealeci Religion.Para concluir, no deixeis crer ou sustentar, devido a uma ideia muito acentuada dafraqueza humana ou a uma moderao mal entendida, que o homem pode ir longe ou serinstrudo com a palavra de Deus, ou com a do livro das obras de Deus, isto , em religioou em filosofia; mas que todo o homem se esforce por progredir cada vez mais numa enoutra, e tirando disto vantagem sem jamais Parar.BACON, Advancement of Learning. 5. Notcia histrica com respeito aos progressos da opinio pblica origem dasespcies antes da publicao da primeira edio inglesa da presente obra Proponho-me noticiar a largos traos o progresso da opinio relativamente origemdas espcies. At h bem pouco tempo, a maior parte dos naturalistas supunha que asespcies eram produes imutveis criadas separadamente. Numerosos sbiosdefenderam habilmente esta hiptese. Outros, pelo contrrio, admitiam que as espciesprovinham de formas preexistentes por intermdio de gerao regular. Pondo de lado asaluses que, a tal respeito, se encontram nos autores antigos,1 Buffon foi o primeiro que,nos tempos modernos, tratou este assunto de um modo essencialmente cientfico.Todavia, como as suas opinies variavam muito de poca para poca, e no trata nem dascausas, nem dos meios de transformao da espcie, (1) Aristteles. nas suas PhysIcaeAuscultationes (lib. II, cap. VIII, 2), depois de ter notado que a chuva no cai para fazercrescer o trigo como no cai para o deteriorar quando o rendeiro o bate nas eiras, aplica omesmo argumento aos organismos e acrescenta (foi M. Clair Grece que me notou estapassagem): Qual a razo por que as diferentes partes (do corpo) no teriam na naturezaestas relaes puramente acidentais? Os dentes, por exemplo, crescem necessariamenteincisivos na parte anterior da boca, para dividir os alimentos; os maiores, planos, servempara mastigar; portanto no foram feitos para este fim, e esta forma o resultado de umacidente. O mesmo se diz para os outros rgos que parecem adaptados a determinadoacto. Por toda a parte, pois, todas as coisas reunidas (isto , o conjunto das partes de umtodo) so constitudas como se tivessem sido feitas com vista em algum desiderato; estasformas de uma maneira apropriada, por uma espontaneidade interna, so conservadas,enquanto que, no caso contrrio, tm desaparecido e desaparecem ainda. Encontra-seaqui um esboo dos princpios da seleco natural; mas as observaes sobre aconformao dos dentes indicam quo pouco Aristteles compreendia estes princpios intil entrar aqui em maiores minudncias a respeito dos seus trabalhos. Lamarek foi o primeiro que despertou pelas suas concluses, um estudo srio sobretal assunto. Este sbio, justamente clebre, publicou as suas opinies, pela vez primeira,em 1801; desenvolveu-as consideravelmente em 1809, na sua Philosophie Zoologiqe, esubsequentemente em 1815, na introduo sua Histoire Naturelle des Animaux sansVertbres. Sustenta nas suas obras a doutrina de que todas as espcies, compreendendoo prprio homem, derivam de outras espcies. Foi ele o primeiro que prestou cincia ogrande servio de declarar que toda a alterao no mundo orgnico, bem como no mundoinorgnico, o resultado de uma lei, e no uma interveno miraculosa. A impossibilidadede estabelecer uma distino entre as espcies e as variedades, a gradao to perfeitaem certos grupos, e a analogia das produes domsticas, parece terem conduzidoLamarek s suas concluses a respeito das transformaes graduais das espcies.Quanto s causas da modificao, procurou-as ele em parte na aco directa dascondies fsicas da existncia, no cruzamento das formas j existentes, e sobretudo nouso e no uso, isto , nos efeitos do hbito. a esta ltima causa que parece ligar todasas admirveis adaptaes da natureza, tais como o longo pescoo da girafa, que lhe 6. permite pascer as folhas das rvores. Admite igualmente uma lei de desenvolvimentoprogressivo; ora, como todas as formas da vida tendem tambm ao aperfeioamento, eleexplica a existncia actual dos organismos muito simples pela gerao espontnea. 7. 1 Geoffroy Saint-Hilaire, como pode ver-se na sua biografia, escrita por seu filho, jem 1795, tinha suposto que o que chamamos espcies no so mais que desvios variadosdo mesmo tipo. Foi somente em 1828 que se declarou convencido que as mesmas formasse no perpetuam desde a origem de todas as coisas; parece ter considerado ascondies de existncia ou meio ambiente como a causa primordial de cadatransformao,1 na excelente histria de Isidore Geoffroy Saint-Hilaire (Hist. Nat. Gnrale,1859, t. II, p. 405) que encontrei a data da primeira publicao de Lamarck; esta obracontm tambm um resumo das concluses de Bufon sobre o mesmo assunto. curiosover quanto o Dr. Erasmo Darwin, meu av, na sua Zoonomia (vol. I, p. 500-510),publicada em 1794, antecedeu Lamarek nas suas ideias e seus erros. Segundo IsidoreGeoffroy, Goethe partilhava completamente as mesmas ideias, como prova a introduode uma obra escrita em 1794 e 1795, mas publicada muito mais tarde. Insistiu sobre esteponto (Goethe als Naturforscher, Peio Dr. Karl meding, p. 34), que os naturalistas terode procurar, por exemplo, como os bois e carneiros adquiriram os cornos, e no para queservem, um caso bastante singular a apario quase simultnea de opiniessemelhantes, porque se v que Goethe na Alemanha, o Dr. Darwin na Inglaterra, eGeoffroy Saint-Hilaire em Frana, chegam, nos anos de 1794-1795 mesma conclusosobre a origem das espcies. 8. Um pouco tmido nas suas concluses, no acreditava que as espcies existentesestivessem em via de modificao; e, como seu filho diz, pois um problema reservadointeiramente ao futuro, supondo mesmo que o futuro pode tomar conta dele. O Dr. W. C.Wells, em 1813, dirigiu Sociedade Real uma memria sobre uma mulher branca, cujapele, em certos pontos, se assemelha de um negro, memria que s foi publicada em1818 com os seus famosos Two Essays upon Dew and Single Vision. Admite distintamentenesta memria o princpio da seleco natural, e foi a primeira vez que publicamente asustentou; mas aplica-a apenas s raas humanas e a certos caracteres particulares.Depois de ter notado que os negros e os mulatos escapam a certas doenas tropicais,verifica primeiramente que todos os animais tendem a variar num certo grau, esecundariamente que os agricultores aperfeioam os animais domsticos pela seleco.Em seguida acrescenta que o que, neste ltimo caso, efectuado pela arte, pareces-lo igualmente, mas mais lentamente, pela natureza, para a produo de variedadeshumanas adaptadas s regies que habitam; assim, em meio das variedades acidentaisque puderam surgir entre alguns habitantes disseminados nas partes centrais da frica,algumas eram sem dvida mais aptas que outras para suportar as doenas do pas. Estaraa devia, por conseguinte, multiplicar-se, enquanto que as outras desapareceriam, nos porque no podiam resistir s doenas, mas ainda porque lhes era impossvel lutarcontra os seus vigorosos vizinhos. Depois das minhas notas precedentes, no se podeduvidar que esta raa enrgica no fosse uma raa escura. Ora, persistindo sempre amesma tendncia para a formao de variedades, deviam surgir, no decorrer do tempo,raas cada vez mais negras; e a raa mais negra, sendo a mais prpria para adaptar-se aoclima, devia tornarse a raa predominante, seno a nica, no pas particular onde tomouorigem. O autor estende em seguida estas mesmas consideraes aos habitantes brancosdos climas mais frios. Devo agradecer a M. Rowley, dos Estados Unidos, ter chamado, porintermdio de M. Brace, a minha ateno para esta passagem da memria do Dr. Wells. O venervel e reverendo W. Herbert, mais tarde deo de Manchester, escrevia em1822, no 4., volume das Horticultural Transactions, e na sua obra as Amaryllidaces (1837,p. 19, 339), que as experincias de horticultura tm estabelecido, sem refutao possvel,que as espcies botnicas no so mais que uma classe superior de variedades maispermanentes. Aplica a mesma opinio aos animais e v que as espcies nicas de cadagnero foram criadas num estado primitivo muito plstico, e que estes tipos produziramulteriormente, principalmente pelo cruzamento e tambm por variao, todas as nossasespcies existentes. 9. Em 1826, o professor Grant, no ltimo pargrafo da sua memria sobre as espongilas(Edinburgh Philos. Journal, 1826, t. xiv, p. 283), declara nitidamente que acredita que asespcies derivam de outras espcies, e que se aperfeioam no correr das modificaesque vo sofrendo. Apoiou-se nesta mesma opinio na sua 55. conferncia, publicada em1834 no jornal The Lancet.Em 1831, M. Patrick Matthew publicou um tratado com o ttulo Naval Timber andArboriculture, no qual emite exactamente a mesma opinio que M. Wallace e euexpusemos no Linnean Journal, e que vou desenvolver na presente obra. Infelizmente M.Matthew enunciou as suas opinies laconicamente e em passagens disseminadas numapndice a uma obra tratando de assunto muito diverso; passariam at despercebidas seM. Matthew no chamasse a ateno para elas no Guardeners Chronicle (7 Abril 1860).As diferenas em os nossos modos de ver no tm grande importncia. Parece crer que omundo foi quase despovoado em perodos sucessivos e povoado de novo em seguida;admite, a ttulo de alternativa, que novas formas podem produzir-se sem auxlio de moldeou germe anterior. Julgo no compreender bem algumas passagens; parece-me, todavia,que d muita importncia aco directa das condies da existncia. Contudo,estabeleceu claramente todo o poder do princpio da seleco natural.Na sua Description Physique des Iles Canaries (1836, p. 147), o clebre gelogo enaturalista von Buch exprime nitidamente a opinio de que as variedades se modificampouco a pouco e se tornam espcies permanentes que no mais so capazes decruzar-se.Na Nouvelle Flore de lAmrique du Nord (1836, p. 6), Rafinesque exprimia-se assim:Todas as espcies podiam ser outrora variedades, e muitas variedades tornaram-segradualmente espcies, adquirindo caracteres permanentes e particulares; e um poucomais adiante (pg. 18) acrescenta: exceptuando os tipos primitivos ou ancestrais dognero.Em 1843 a 44, no Boston Journal of Nat. Hist. U. S. (t. rv, pg. 468), o professorHaldeman exps com talento os argumentos pr e contra a hiptese do desenvolvimento eda modificao da espcie; parecia pender para o lado da variabilidade.Os Vestiges of Creation apareceram em 1844. Na 10.a edio, muito melhorada(1853), o autor annimo diz (p. 155): A proposio na qual se pode parar aps numerosasconsideraes, que as diversas sries de seres animados, desde os mais simples e maisantigos at aos mais elevados e mais recentes, so, pela providncia de Deus, o resultadode duas causas: primeiramente, de uma impulso comunicada s formas da vida; impulsoesta que as arremessa num tempo dado, por via de gerao regular, atravs de todos osgraus de organizao, at s Dicotiledneas e Vertebrados superiores; estes graus so,alm disso, pouco numerosos e geralmente marcados por intervalos no seu carcterorgnico, o que torna muito difcil na prtica a apreciao das afinidades;secundariamente, de uma outra impulso respeitante s foras vitais, tendendo, na sriedas geraes, a apropriar, modificando-as, as conformaes orgnicas s circunstnciasexteriores, como a nutrio, a localidade e as influncias metericas; so essas asAdaptaes do telogo natural. O autor parece acreditar que a organizao progride por 10. saltos, mas que os efeitos produzidos pelas condies de existncia so graduais.Sustenta com bastante fora, baseando-se sobre razes gerais, que as espcies no soprodues imutveis, mas no vejo como as duas supostas impulses possam explicarcientificamente as numerosas e admirveis coadaptaes que se notam na natureza;como, por exemplo, podemos tomar nota da marcha que devia seguir o picano para seadaptar aos seus hbitos particulares. O estilo brilhante e enrgico deste livro, ainda queapresentando nas primeiras edies poucos conhecimentos exactos e uma grande falta deprudncia cientfica, asseguroulhe logo um grande xito; e, em minha opinio, prestouservios chamando a ateno para o assunto, combatendo os prejuzos e preparando osespritos para a adopo de ideias anlogas. 11. Em 1846, o veterano da zoologia, M. J. dOmalius dHalloy, publicou (Bull. de lAcad.roy. de Bruxelles, vol. XIII, p. 581) uma excelente memria, ainda que breve, na qual emitea opinio de que mais provvel que as espcies novas tenham sido produzidas pordescendncia com modificao do que criadas separadamente; o autor tinha j exprimidoesta opinio em 1831.Na sua obra Nature of Limbs, p. 86, o professor Owen escrevia em 1849: A ideiaarqutipo est encarnada no nosso planeta por manifestaes diversas, muito tempo antesda existncia das espcies animais de que so actualmente a expresso. Mas, at agora,ignoramos inteiramente a que leis naturais ou a que causas secundrias tm sidosubmetidas a sucesso regular e a progresso destes fenmenos orgnicos. No seudiscurso na Associao Britnica, em 1858, fala (p. 51) do axioma da contnua potnciacriadora, ou do destino preordenado das coisas vivas. Mais adiante, a propsito dadistribuio geogrfica, acrescenta: Estes fenmenos abalam a crena em queestvamos de que o aptrix da Nova Zelndia e o tetras urogallus L. da Inglaterra tenhamsido criaes distintas feitas numa ilha e s para ela. til, alm disso, lembrar sempreque o zologo atribui o nome de criao ao processo sobre o qual nada se conhece.Desenvolve esta ideia acrescentando que todas as vezes que um zologo cita exemplos,como o precedente, para provar uma criao distinta numa ilha e para ela, quer dizersomente que no sabe como o tetras urogallus L. se encontra exclusivamente nestelugar, e que esta maneira de exprimir a sua ignorncia implica ao mesmo tempo a crenanuma grande causa criadora primitiva, qual a ave, assim como as ilhas, devem a suaorigem. Se ns relacionarmos as frases pronunciadas no seu discurso umas com asoutras, parece que em 1858 o clebre naturalista no estava convencido que o aptrix e 12. o tetras urogallus L. tenham aparecido pela primeira vez nos seus pases respectivos,sem que se possa explicar como e porqu.Este discurso foi pronunciado aps a leitura da memria de M. Wallace e minha,sobre a origem das espcies da Sociedade Lineana. Quando da publicao da primeiraedio da presente obra, fui, como muitos outros, to completamente enganado porexpresses como a aco contnua do poder criador, que coloquei o professor Owen,com outros paleontlogos, entre os partidrios convictos da imutabilidade da espcie; masparecia-me que foi um grave erro da minha parte (Anatomy of Vertebrates, vol. iii, p. 796).Nas precedentes edies da minha obra conclu e mantenho ainda a minha concluso,segundo uma passagem que comea (ibid., vol. i, p. 35), por estas palavras: Sem dvidaa forma-tipo, etc., que o professor Owen admitia a seleco natural como podendo tercontribudo em alguma coisa para a formao de novas espcies; mas parece-me,segundo uma outra passagem (ibid., vol. iii, p. 798), que isto inexacto e nodemonstrado. Dei tambm alguns extractos de uma correspondncia entre o professorOwen e o redactor principal da London Review, que pareciam provar a este ltimo como amim mesmo, que o professor Owen pretendia ter emitido antes de mim a teoria daseleco natural. Tive uma grande surpresa e grande satisfao com esta notcia; mas,tanto quanto possvel compreender certas passagens recentemente publicadas (Anat. ofVertebrates, in, p. 798), estou cado ainda no erro total ou parcialmente. Mastranquilizo-me, vendo que outros, como eu, acham tambm difceis de compreender econciliar entre si os trabalhos de controvrsia do professor Owen. Quanto ao simplesenunciado do princpio da seleco natural, inteiramente indiferente que o professorOwen o tenha apresentado primeiro do que eu ou no, porque os dois, como prova esteesboo histrico, temos, desde h muito, como predecessores o Dr. Wells e M. Matthew.M. Isidore Geoffroy Saint-Hilaire, nas conferncias feitas em 1850 (resumidas naRevue et Mag. de Zoologie, Janeiro 1851), expe, em breves termos, as razes que lhefizeram crer que os caracteres especficos so fixados para cada espcie, enquanto seperpetuar no meio das mesmas circunstncias; e modificam-se se as condies ambientestendem a mudar. Em resumo, a observao dos animais selvagens mostra j avariabilidade limitada das espcies. As experincias sobre os animais selvagens tornadosdomsticos, e sobre os animais domsticos que voltaram ao estado selvagem,demonstram-na mais claramente ainda. Estas mesmas experincias provam, alm disso,que as diferenas produzidas podem ser de valor genrico. Na sua Histoire NaturelleGnrale (vol. 11, 1859, p. 430), desenvolve concluses anlogas. 13. Uma circular recente afirma que desde 1851 (Dublin Medical Press, p. 322), o Dr.Freke emitiu a opinio de que todos os seres organizados derivam de uma nica formaprimitiva. As bases e o tratamento do assunto diferem totalmente das minhas, e, como oDr. Freke publicou em 1861 o seu ensaio sobre a Origem das espcies por via de afinidadeorgnica, seria suprfluo da minha parte dar um resumo qualquer do seu sistema.M. Herbert Spencer, numa memria (publicada pela vez primeira no Leader, Marode 1852, e reproduzida nos seus Essays em 1858), estabeleceu, com um talento e umahabilidade notveis, a comparao entre a teoria da criao e o desenvolvimento dos seresorgnicos. Tira os argumentos da analogia das produes domsticas, das transformaesque sofrem os embries de muitas espcies, da dificuldade de distinguir espcies evariedades, e do princpio de gradao geral; conclui que as espcies tm sofridomodificaes que atribui mudana de condies.O autor (1855) estudou tambm a psicologia partindo do princpio da aquisiogradual de cada aptido e de cada faculdade mental.Em 1852, M. Naudin, botnico distinto, num trabalho notvel sobre a origem dasespcies (Revue Horticole, p. 102, reproduzido em parte nos Nouvelles Archives duMusum, vol. 1, pg. 171), declara que as espcies se formam do mesmo modo que asvariedades cultivadas, o que atribui seleco exercida pelo homem. Mas no explicacomo actua a seleco no estado selvagem. Admite, como o deo Herbert, que asespcies na poca da sua apario eram mais plsticas do que hoje. Apoia-se sobre o queele chamava o princpio de finalidade, potncia misteriosa, indeterminada, fatalidade parauns, para outros vontade providencial, de que a aco incessante sobre os seres vivosdetermina, em todas as pocas da existncia do mundo, a forma, o volume e a durao decada um deles, em razo do seu destino, na ordem das coisas de que faz parte. estapotncia que harmoniza cada membro no conjunto apropriando-o funo que devedesempenhar no organismo geral da natureza, funo que tem para ele a sua razo deser. 1 14. Um gelogo clebre, o conde Keyserling, em 1853 (Bull. de Ia Soc. Geolg.,2.1 srie, vol. x, pg. 357), sugeriu que, do mesmo modo que as novas doenas, causadastalvez por algum miasma, tm aparecido e se tm espalhado no mundo, da mesma formagrmenes de espcies existentes puderam ser, em certos perodos, quimicamenteafectados por molculas ambientes de natureza particular, e dar origem a novas formas.No mesmo ano de 1853, o Dr. Schaaffhausen publicou uma excelente brochura(Verhandt. des Naturhist. Vereirs der Preuss. Rhein Lands, etc.), na qual explica odesenvolvimento progressivo das formas orgnicas sobre a Terra. Julga que numerosasespcies parece resultar das citaes feitas em Untersuchungen ber dieEntwickelungs-Geselze, de Bronn, que Unger, botnico e paleontlogo distinto, tornoupblica, em 1852, a opinio de que as espcies sofreram um desenvolvimento emodificaes. DAlton exprimiu a mesma opinio em 1821, na obra sobre os fsseis, naqual colaborou com Pander. Oken, na sua obra mstica Natur-Philosophie, sustentouopinies anlogas. Parece resultar dos ensinamentos contidos na obra Sur VEspce, deGodron, que Bory Saint-Vicent, Burdach, Poiret et Pries admitiram todos a continuidade daproduo de novas espcies. -Devo juntar que em 34 autores citados nesta notciahistrica, que admitem a modificao das espcies, e rejeitam os actos da criaoisolados, h 27 que escreveram sobre ramos especiais de histria natural e geologiapersistem h muito tempo, sendo modificadas algumas somente, e explica as diferenasactuais pela destruio das formas intermdias. Assim as plantas e os animais vivos noesto separados das espcies atingidas por novas criaes, mas devem considerar-secomo seus descendentes por via de gerao regular.M. Lecoq, botnico francs muito conhecido, nos seus tudes sur la GographieBotanique, vol. i, p. 250, escreveu em 1854: V-se que os nossos estudos sobre a fixaoou variao da espcie nos conduzem directamente s ideias emitidas por dois homensjustamente clebres, Geoffroy Saint-Hilaire e Goethe. Vrias outras passagens esparsasna obra de M. Lecoq deixam algumas dvidas sobre os limites que assinala s suasopinies sobre as modificaes das espcies.Nos seus Essays on the Unity of Worlds, 1855, o reverendo Baden Powell tratoumagistralmente a filosofia da criao. No se pode demonstrar de uma maneira maisfrisante como a apario de uma espcie nova um fenmeno regular e no casual, ou,segundo a expresso de sir John Herschell, um processo natural por oposio aoprocesso miraculoso.O terceiro volume do Journal of the Linnean Society, publicado em 1 de Julho de1858, contm algumas memrias de M. Wallace e minha, nas quais, como eu constato naintroduo do presente volume, M. Wallace enuncia com muita clareza e preciso a teoriada seleco natural. 15. Von Baer, to respeitado entre os zologos, exprimiu em 1859 (ver Prof. Rud.Wagner, Zoologisch-Anthropologische Untersuchungen, p. 51, 1861), a sua convico,fundada sobretudo nas leis da distribuio geogrfica, que formas actualmente distintas nomais alto grau so descendentes de um progenitor nico.Em Junho de 1859, o professor Huxley, numa conferncia perante a instituio realsobre os tipos persistentes da vida animal, fez os seguintes reparos: difcilcompreender a significao dos factos desta natureza, se supusermos que cada espciede animais, ou de plantas, ou cada tipo de organizao, foi formado e colocado na Terra, alongos intervalos, por um acto distinto do poder criador; e necessrio tambm lembrarque uma suposio tal tambm pouco apoiada pela tradio ou revelao, que muitssimo oposta analogia geral da natureza. Se, por outra parte, ns considerarmos osTipos persistentes do ponto de vista da hiptese de as espcies, em cada poca, seremo resultado da modificao gradual das espcies preexistentes, hiptese que, posto queno provada, e tristemente comprometida por alguns dos seus aderentes, ainda a nicaa que a fisiologia presta um apoio favorvel, a existncia destes tipos persistentespareceria demonstrar que a extenso das modificaes que os seres vivos devem terdurante os tempos geolgicos fraca relativamente srie total de transformaes pelasquais tm passado.Em Dezembro de 1859, o Dr. Hooker publicou a sua Introduction to the AustralianFlora; na primeira parte desta magnfica obra, admite a verdade da descendncia e dasmodificaes das espcies, e apoia esta doutrina com grande nmero de observaesoriginais. A primeira edio inglesa da presente obra foi publicada a 24 de Novembro de 1859,e a segunda a 7 de Janeiro de 1860. 16. IntroduoAs relaes geolgicas que existem entre a fauna actual e a fauna extinta da Amricameridional, assim como certos factos relativos distribuio dos seres organizados quepovoam este continente, impressionaram-me profundamente quando da minha viagem abordo do navio Beagle, (1) na qualidade de naturalista. Estes factos, como se ver noscaptulos subsequentes deste volume, parecem lanar alguma luz sobre a origem dasespcies-mistrio dos mistrios -para empregar a expresso de um dos maiores filsofos.Na minha volta a Inglaterra, em 1837, julguei eu que acumulando pacientemente todos osfactos relativos a este assunto, e examinando-os sob todos os pontos de vista, poderiatalvez chegar a elucidar esta questo. Depois de cinco anos de um trabalho pertinaz, redigialgumas notas; em seguida, em 1844, resumi estas notas em forma de memria, ondeindicava os resultados que me pareciam oferecer algum grau de probabilidade; depoisdesta poca, tenho constantemente trabalhado para o mesmo fim. Escusar-me- o leitor,assim o espero, de entrar nestas mincias pessoais; e se o fao, para provar que notomei deciso alguma menos pensada.A minha obra est actualmente (1859) quase completa. Ser-me-o, contudo,necessrios alguns anos ainda para a terminar, e, como a minha sade est longe de serboa, os meus amigos tm-me aconselhado a publicar o resumo que faz o objecto destevolume. Uma outra razo me tem decidido por completo: M. Wallace, que estudaactualmente a histria natural no arquiplago malaio, chegou a concluses quase idnticass minhas sobre a origem das espcies. Em 1858, este sbio naturalista enviou-me umamemria a este respeito, pedindo-me para a comunicar a sir Charles Lyell, que a enviou Sociedade Lineana; a memria de M. Wallace apareceu no iii volume do jornal destasociedade. Sir Charles Lyell e o Dr. Hooker, que esto ao corrente dos meus trabalhos -oDr. Hooker leu o extracto do meu manuscrito feito em 1844aconselharam-me a publicar, aomesmo tempo que a memria de M. Wallace, alguns extractos das minhas notasmanuscritas.A memria que faz o objecto do presente volume necessariamente imperfeita.Ser-me- impossvel referir-me a todas as autoridades a quem atribuo certos factos, masespero que o leitor confiar na minha exactido. Alguns erros podero passar, sem dvida,no meu trabalho, posto que eu tenha tido o mximo cuidado em apoiar-me somente emtrabalhos de primeira ordem. Demais, eu deveria limitar-me a indicar as concluses geraisa que cheguei, citando apenas alguns exemplos, que, julgo eu, bastariam na maior partedos casos. Ningum, melhor do que eu, compreende a necessidade de publicar mais tardeminuciosamente todos os factos que servem de base s minhas concluses; ser este oobjecto de uma outra obra. Isto tanto mais necessrio quanto, sobre quase todos ospontos, podem invocar-se factos, que, primeira vista, parecem tender para conclusesabsolutamente contrrias quelas que defendo. Ora, no se pode chegar a um resultadosatisfatrio a no ser pelo exame dos dois lados da questo e pela discusso dos factos edos argumentos; isto coisa impossvel nesta obra. 17. Lamento muito que a falta de espao me impea de reconhecer o auxlio generosoque me prestaram muitos naturalistas, dos quais alguns me so pessoalmentedesconhecidos. No posso, contudo, deixar passar esta ocasio sem exprimir o meuprofundo reconhecimento ao Dr. Hooker, que, durante estes quinze ltimos anos, ps minha inteira disposio os seus tesouros de cincia e o seu excelente critrio.Compreende-se facilmente que o naturalista que se entrega ao estudo da origem dasespcies e que observa as afinidades mtuas dos seres organizados, as suas relaesembriolgicas, a sua distribuio geogrfica, a sua sucesso geolgica e outros factosanlogos, chegue concluso de que as espcies no foram criadas independentementeumas das outras, mas que, como as variedades, derivam de outras espcies. Todavia,admitindo mesmo que esta concluso seja bem estabelecida, seria pouco satisfatria atque se pudesse provar como as inumerveis espcies, habitando a Terra, forammodificadas de maneira a adquirir esta perfeio de forma e coadaptao que excita porto justo ttulo a nossa admirao. Os naturalistas assinalam, como nicas causaspossveis s variaes, as condies exteriores, tais como o clima, a alimentao, etc.Pode isto ser verdade, num sentido muito limitado, como ns veremos mais tarde; masseria absurdo atribuir a simples causas exteriores a conformao do picano, por exemplo,de que as patas, a cauda, o bico e a lngua esto admiravelmente adaptadas para iragarrar os insectos debaixo da casca das rvores. Seria igualmente absurdo explicar aconformao do visco e as suas relaes com muitos seres organizados distintos pelosnicos efeitos das condies exteriores, do hbito, ou da vontade da prpria planta,quando se pensa que este parasita tira a sua nutrio de certas rvores, que produzemgros que certas aves devem transportar, e que d flores unissexuadas, o que necessita ainterveno de certos insectos para conduzir o plen de uma flor a outra. 18. , pois, da mais alta importncia elucidar quais so os meios de modificao e decoadaptao. A princpio, pareceu-me provvel que o exame atento dos animaisdomsticos e das plantas cultivadas devia oferecer o campo mais propcio a estudos queexplicassem este obscuro problema. No me enganei; reconheci logo, com efeito, que osnossos conhecimentos, por mais imperfeitos que sejam sobre as variaes no estadodomstico, nos fornecem sempre a explicao mais simples e menos sujeita a erro.Seja-me pois permitido juntar que, na minha convico, estes estudos tm a mximaimportncia e que so ordinariamente muito desprezados pelos naturalistas.Estas consideraes levam-me a consagrar o primeiro captulo desta obra ao estudodas variaes no estado domstico. A veremos que muitas das modificaes hereditriasso pelo menos possveis; e, o que igualmente importante, ou mesmo mais importanteainda, veremos que influncia o homem exerce acumulando, por seleco, ligeirasvariaes sucessivas. Estudarei em seguida a variabilidade das espcies no estadoselvagem, mas verme-ei naturalmente forado a tratar este assunto a largos traos; no sepoderia, com efeito, trat-lo completamente a no ser citando longa srie de factos. Emtodo o caso, discutiremos ainda assim quais so as circunstncias mais favorveis variao. No captulo seguinte consideraremos a luta pela existncia entre os seresorganizados em todo o mundo, luta que deve inevitavelmente fluir da progressogeomtrica do seu aumento em nmero. a doutrina de Malthus aplicada a todo o reinoanimal e a todo o reino vegetal. Como nascem muitos mais indivduos de cada espcie,que no podem subsistir; como, por consequncia, a luta pela existncia se renova a cadainstante, segue-se que todo o ser que varia, ainda que pouco, de maneira a tornar-se-lheaproveitvel tal variao, tem maior probabilidade de sobreviver, este ser tambmobjecto de uma seleco natural. Em virtude do princpio to poderoso da hereditariedade,toda a variedade objecto da seleco tender a propagar a sua nova forma modificada.Tratarei com mais mincias, no quarto captulo, este ponto fundamental da seleconatural. Veremos ento que a seleco natural causa quase inevitavelmente uma extinoconsidervel das formas menos bem organizadas e conduz ao que se chama a divergnciados caracteres. No captulo seguinte, indicarei as leis complexas e pouco conhecidas davariao. Nos cinco captulos subsequentes, discutirei as dificuldades mais srias queparecem opor-se adopo desta teoria; isto , primeiramente, as dificuldades detransio, ou, por outros termos, como um ser simples, ou um simples organismo, podemodificar-se e aperfeioar-se, para tornar-se um ser altamente desenvolvido, ou umorganismo altamente constitudo; em segundo lugar, o instinto, ou o poder intelectual dosanimais; terceiro, a hibridade, ou a esterilidade das espcies e a fecundidade dasvariedades quando se cruzam; e, em quarto lugar, a imperfeio dos documentosgeolgicos. No captulo seguinte examinarei a sucesso geolgica dos seres atravs dostempos; no duodcimo e dcimo terceiro captulos, a sua distribuio geogrfica atravs doespao; no dcimo quarto, a sua classificao ou afinidades mtuas, quer no estado decompleto desenvolvimento, quer no estado embrionrio. Consagrarei o ltimo captulo auma breve recapitulao da obra inteira e a algumas notas finais. 19. Ningum se pode admirar que haja ainda tantos pontos obscuros relativamente origem das espcies e das variedades, se reflectirmos na nossa profunda ignorncia sobretudo o que se prende com as relaes recprocas dos inmeros seres que vivem em redorde ns. Quem pode dizer a razo por que tal espcie mais numerosa e mais espalhada,quando outra espcie vizinha muito rara e tem um habitat muito restrito? Estas relaestm, contudo, a mais alta importncia, porque delas que dependem a prosperidadeactual e, creio firmemente, os futuros progressos e a modificao de todos os habitantesda Terra. Conhecemos ainda bem pouco das relaes recprocas dos inmeros habitantesda Terra durante os longos perodos geolgicos passados.Ora, posto que numerosos pontos sejam ainda muito obscuros, se bem que devemficar, sem dvida, inexplicveis por bastante tempo ainda, vejo-me, contudo, aps osestudos mais profundos e uma apreciao fria e imparcial, forado a sustentar que aopinio defendida at h pouco pela maior parte dos naturalistas, opinio que eu prpriopartilhei, isto , que cada espcie foi objecto de uma criao independente, absolutamente errnea. Estou plenamente convencido que as espcies no so imutveis;estou convencido que as espcies que pertencem ao que chamamos o mesmo gneroderivam directamente de qualquer outra espcie ordinariamente distinta, do mesmo modoque as variedades reconhecidas de uma espcie, seja qual for, derivam directamentedesta espcie; estou convencido, enfim, que a seleco natural tem desempenhado oprincipal papel na modificao das espcies, posto que outros agentes tenham nelapartilhado igualmente. 1 -A relao da viagem de M. Darwin foi recentemente publicada em francs como titulo de: Viagem de um naturalista volta da Terra, 1 vol. in-8., Paris, Reinwald. 20. Captulo I Variao das espcies no estado domstico Causas da variabilidade. -Efeitos do hbito. Efeito do uso ou no uso dos rgos. Variao por correlao. Hereditariedade. Caracteres das variedades domsticas. Dificuldade em distinguir as variedades e as espcies. As nossas variedades domsticas derivam de uma ou muitas espcies. Pombos domsticos, suas diferenas e origem. A seleco aplicada desde h muito, seus efeitos. Seleco metdica e inconsciente. Origem desconhecida dos nossos animais domsticos. Circunstncias favorveis ao exerccio da seleco pelo homem. Causas da variabilidadeQuando se comparam os indivduos pertencentes mesma variedade ousub-variedade das nossas plantas j de h muito cultivadas e dos nossos animaisdomsticos mais antigos, logo se nota que ordinariamente diferem mais uns dos outrosque os indivduos pertencentes a uma espcie ou a uma variedade qualquer no estadoselvagem. Ora, se pensarmos na imensa diversidade das nossas plantas cultivadas e dosanimais domsticos, que tm variado em todos os tempos, logo que sejam expostos aclimas e tratamentos os mais diversos, chegamos a concluir que esta grande variabilidadeprovm de que as nossas produes domsticas foram produzidas em condies de vidamenos uniformes, ou mesmo um tanto diferentes daquelas a que a espcie-me foisubmetida no estado selvagem. H tambm algum tanto de exacto na opinio sustentadapor Andrew Kniglit, isto , que a variabilidade pode em parte ter origem no excesso denutrio. Parece evidente que os seres organizados devem, durante muitas geraes, serexpostos a novas condies de existncia, para que se produza neles qualquer variaoaprecivel; mas tambm evidente, que, desde que um organismo comeou a variar,continua ordinariamente a faz-lo durante numerosas geraes. No se poderia citarexemplo algum de um organismo varivel que tenha cessado de variar no estadodomstico. As nossas plantas h longo tempo cultivadas, tais como o trigo, aindaproduzem novas variedades; os animais reduzidos de h muito ao estado domstico soainda susceptveis de modificaes ou aperfeioamentos muito rpidos. 21. De modo que posso julgar, depois de ter por muito tempo estudado este assunto, queas condies de vida parecem actuar de duas maneiras distintas: directamente sobre oorganismo inteiro, ou sobre certas partes somente, e indirectamente afectando o sistemareprodutor. Quanto aco directa, devemos lembrar-nos que, em todos os casos, como ofez ultimamente notar o professor Weismann, e como eu incidentalmente demonstrei naminha obra sobre a Variation ltat Domestique, (1) devemos lembrarmos, disse eu, queessa aco est sujeita a dois factores: natureza do organismo e natureza das condies.O primeiro destes factores parece ser muito mais importante, porque, tanto quanto opodemos julgar, variaes quase semelhantes se produzem algumas vezes em condiesdiferentes, e, por outro lado, variaes diferentes se produzem em condies que parecemquase uniformes. Os efeitos sobre a descendncia so definidos ou indefinidos. Podemconsiderar-se como definidos quando todos, ou quase todos os descendentes deindivduos submetidos a certas condies de existncia durante muitas geraes, semodificam da mesma maneira. extremamente difcil especificar a extenso dasalteraes que tm sido definitivamente produzidas deste modo. Todavia, no se pode terdvida relativamente s numerosas modificaes muito ligeiras, tais como: modificaesno talhe provenientes da quantidade de nutrio; modificaes na cor provenientes danatureza da alimentao; modificaes na espessura da pele e suas produesprovenientes da natureza do clima, etc. Cada uma das variaes indefinidas queencontramos na plumagem das aves das nossas capoeiras deve ser o resultado de umacausa eficaz; portanto, se a mesma causa actuasse uniformemente, durante uma longasrie de geraes, sobre um grande nmero de indivduos, todos se modificavamprovavelmente da mesma maneira. Factos tais como as excrescncias extraordinrias ecomplicadas, consequncia invarivel do depsito de uma gota microscpica de venenofornecida pelo cinipe, provamnos que modificaes singulares podem, entre as plantas,resultar de uma alterao qumica na natureza da seiva. 22. A mudana das condies produz muito mais vezes uma variabilidade indefinida doque definida, e a primeira goza provavelmente de um papel muito mais importante que asegunda na formao das nossas raas domsticas. Esta variabilidade indefinida traduz-sepor inmeras pequenas particularidades que se no podem atribuir, em virtude dahereditariedade, nem ao pai, nem me, nem a outro parente afastado. Diferenasconsiderveis aparecem mesmo por vezes nos filhos da mesma ninhada, ou em plantasnascidas de gros provenientes da mesma cpsula. A longos intervalos, vem-se surgirdesvios de formao fortemente pronunciados para merecer a qualificao demonstruosidades; estes desvios afectam alguns indivduos, em meio de milhes de outrosnascidos no mesmo pas e alimentados quase da mesma maneira; todavia, no podeestabelecer-se uma linha absoluta de limite entre as monstruosidades e as simplesvariaes. Podem considerar-se como efeitos indefinidos das condies de existncia,sobre cada organismo individualmente, todas estas alteraes de conformao, quersejam pouco, quer muito pronunciadas, que se manifestam num grande nmero deindivduos vivendo em conjunto. Poderiam comparar-se estes efeitos indefinidos aosefeitos de um resfriamento, que afecta diferentes pessoas de modos indefinidos, segundoo seu estado de sade ou a sua constituio, traduzindo-se nuns por bronquite, noutrospor coriza, neste pelo reumatismo, naquele pela inflamao de diversos rgos.Passemos agora ao que eu chamei aco indirecta da alterao das condies deexistncia, isto , as alteraes provenientes de modificaes que afectem o sistemareprodutor. Duas causas principais nos autorizam a admitir a existncia destas variaes: aextrema sensibilidade do sistema reprodutor para toda a alterao nas condiesexteriores; a grande analogia, provada por Klreuter e outros naturalistas, entre avariabilidade resultante do cruzamento de espcies distintas e a que se pode observar nasplantas e nos animais criados em condies novas ou artificiais. Um grande nmero defactos testemunham a excessiva sensibilidade do sistema reprodutor para esta alterao,mesmo insignificante, nas condies ambientes. Nada mais fcil que domesticar umanimal; nada, porm, mais difcil que lev-lo a reproduzir-se no cativeiro, mesmo que aunio dos dois sexos se efectue facilmente. Quantos animais se no reproduzem, postoque deixados quase em liberdade no seu pas natal! Atribui-se ordinariamente este facto,ainda que sem razo, a uma corrupo dos instintos. Muitas plantas cultivadas rebentamcom todo o vigor, e, contudo, produzem raramente gros, ou at nada produzem. Tem-sedescoberto, em alguns casos, que uma alterao insignificante, um pouco de gua a maisou a menos por exemplo, numa poca particular do crescimento, arrasta ou no na plantaa produo de gros. No posso entrar aqui nas mincias dos factos que recolhi epubliquei noutra parte a respeito deste curioso assunto; todavia, para mostrar como sosingulares as leis que regem a reproduo dos animais cativos, posso verificar que osanimais carnvoros, mesmo os provenientes dos pases tropicais, se reproduzem combastante facilidade nos nossos pases, salvo, contudo, os animais pertencentes famliados plantgrados; assim como tambm posso notar que as aves carnvoras no pemquase sempre ovos fecundos. Muitas plantas exticas produzem apenas um plen semvalor como 23. o das hbridas mais estreis. Vemos, pois, de um lado, animais e plantas reduzidas aoestado domstico reproduzirem-se facilmente no estado de cativeiro, posto que sejammuitas vezes raquticas e doentes; e por outro lado, indivduos, tirados muito novos ssuas florestas e suportando perfeitamente o cativeiro, admiravelmente domesticados, nafora da idade, e sadios (eu poderia citar numerosos exemplos), de que o sistemareprodutor, sendo seriamente comprometido por causas desconhecidas, cessou defuncionar. Em presena destas duas ordens de factos, para estranhar que o sistemareprodutor actue to irregularmente quando funciona no cativeiro, e que os descendentessejam um pouco diferentes dos pais? Posso acrescentar que, da mesma forma que certosanimais se reproduzem facilmente nas condies menos naturais (por exemplo, os coelhose os fures encerrados em gaiolas), o que prova que o seu sistema reprodutor no foiafectado pelo cativeiro; assim, tambm, certos animais e certas plantas suportam adomesticidade ou a cultura sem variar muito.Alguns naturalistas sustentam que todas as variaes esto ligadas ao acto dareproduo sexual; certamente um erro. Citei, com efeito, noutra obra, uma extensa listade plantas que os jardineiros chamam plantas loucas, isto , plantas nas quais se v surgirde repente um rebento apresentando qualquer caracter novo, e por vezes diferente porcompleto dos outros rebentos da mesma planta. Estas variaes dos gomos, se podeempregar-se esta expresso, podem propagar-se por seu turno por enxerto ou mergulhia,etc., ou algumas vezes mesmo por sementeira. Tais variaes reproduzem-se raras vezesno estado selvagem, so, porm, bastante frequentes nas plantas cultivadas. Podemosconcluir, pois, que a natureza do organismo desempenha o papel principal na produo daforma particular de cada variao, e que a natureza das condies lhe est subordinada;com efeito, vemos muitas vezes na mesma rvore, submetida a condies uniformes, ums gomo, entre milhares de outros produzidos anualmente, apresentar de improvisocaracteres novos; vemos, demais, renovos pertencendo a rvores distintas, colocadas emcondies diferentes, produzirem quase a mesma variedade -rebentos de pessegueiros,por exemplo, produzirem pssegos vermelhos, e rebentos de roseira comum produziremrosas de musgo. A natureza das condies no tem, pois, talvez mais importncia nestecaso do que a natureza da fasca, comunicando o fogo a uma massa de combustvel, paradeterminar a natureza da chama. 24. 1 -De la Variation des Animaux et des Plantes ltat Domestique. Paris,Reinwald.Efeitos dos hbitos e do uso ou no uso das partes; Variao po correlao;HereditariedadeA mudana dos hbitos produz efeitos hereditrios; poderia citar-se, por exemplo, apoca da florao das plantas transportadas de um clima para outro. Nos animais, o usoou no uso das partes tem uma influncia mais considervel ainda. Assim,proporcionalmente ao resto do esqueleto, os ossos da asa pesam menos e os ossos dacoxa pesam mais no canrio domstico que no canrio selvagem. Ora, podeincontestavelmente atribuir-se esta alterao a que o canrio domstico voa menos emarcha mais que o canrio selvagem. Podemos ainda citar, como um dos efeitos do usodas partes, o desenvolvimento considervel, transmissvel por hereditariedade, das mamasdas vacas e das cabras nos pases em que h o hbito de ordenhar estes animais,comparativamente ao estado desses rgos nos outros pases. Todos os animaisdomsticos tm, em alguns pases, as orelhas pendentes; atribui-se esta particularidade aofacto de estes animais, tendo menos causas de alarme, acabarem por se no servir dosmsculos da orelha, e esta opinio parece bem fundada.A variabilidade est submetida a muitas leis; conhecem-se imperfeitamente algumas,que em breve discutirei. Desejo ocupar-me somente aqui da variao por correlao.Alteraes importantes que se produzem no embrio, ou na larva, trazem quase semprealteraes anlogas no animal adulto. Nas monstruosidades, os efeitos de correlao entreas partes completamente distintas so muito curiosos; Isidore Geoffroy de Saint-Hilaire citaexemplos numerosos na sua grande obra sobre este assunto. Os tratadores admitem que,quando os membros so compridos, a cabea o tambm quase sempre. Alguns casos decorrelao so extremamente singulares: assim, os gatos completamente brancos, e quetm os olhos azuis, so ordinariamente surdos; todavia, M. Talt provou recentemente que ofacto limitado aos machos. Certas cores e certas particularidades constitucionais voordinariamente em conjunto; eu poderia citar muitos exemplos notveis a este respeito nosanimais e nas plantas. Segundo um grande nmero de factos recolhidos por Heusinger,parece que certas plantas incomodam os carneiros e os porcos brancos, enquanto que osindivduos de cor carregada delas se nutrem impunemente. O professor Wymancomunicou-me recentemente uma excelente prova do que digo. Perguntou a algunslavradores da Virgnia a razo por que s tinham porcos de cor negra; e eles responderamque os porcos comiam a raiz do lachnanthes, que cora os ossos de rosa e que lhes faz cairos cascos; isto produz-se em todas as variedades, excepto na variedade negra. Um delesajuntou: Escolhemos, para os tratar, todos os indivduos negros de uma ninhada, porqueso os nicos que tm condies para viver. Os ces desprovidos de plos tm adentio imperfeita; diz-se que os animais de longo plo e spero so predispostos a ter oscornos longos e numerosos; os pombos de patas emplumadas tm membranas entre os 25. dedos anteriores; os pombos de bico curto tm os ps pequenos; os pombos de bico longotm os ps grandes. Resulta, pois, que o homem, continuando sempre a escolher, e, porconseguinte, a desenvolver uma particularidade qualquer, modifica, sem inteno, outraspartes do organismo, em virtude das leis misteriosas da correlao. 26. As leis diversas, absolutamente ignoradas ou imperfeitamente compreendidas, queregem a variao, tm efeitos extremamente complexos. interessante estudar osdiferentes tratados, relativos a algumas das nossas plantas cultivadas de h muito, taiscomo o jacinto, a batata, ou mesmo a dlia, etc.; realmente para admirar ver por queinmeros pontos de conformao e de constituio as variedades e sub-variedadesdiferem ligeiramente entre si. A sua organizao parece tornar-se plstica por completo eafastar-se ligeiramente da do tipo original.Toda a variao no hereditria sem interesse para ns, mas o nmero e adiversidade dos desvios de conformao transmissveis por hereditariedade, quer sejaminsignificantes, quer tenham uma importncia fisiolgica considervel, so quase infinitos.A melhor obra e mais completa que temos sobre o assunto a do Dr. Prosper Lucas.Nenhum tratador ps em dvida a grande energia das tendncias hereditrias; todos tmpor axioma fundamental que o semelhante produz o semelhante, e apenas alguns tericospem em dvida o valor deste princpio. Quando uma diviso de estrutura se reproduzmuitas vezes, quando a procuramos no pai e no filho, muito difcil dizer se este desvioprovm ou no de alguma coisa que actuou tanto num como noutro. Mas, por outra parte,quando entre indivduos, evidentemente expostos s mesmas condies, qualquer desviomuito raro, devido a algum concurso extraordinrio de circunstncias, aparece num sindivduo, em meio de milhes de outros que no so afectados, e vemos aparecer estedesvio no descendente, a simples teoria das probabilidades fora-nos quase a atribuir estaapario hereditariedade. Quem no tem ouvido falar dos casos de albinismo, de peleespinhosa, de pele felpuda, etc., hereditrios em muitos membros de uma mesma famlia?Ora, se os desvios raros e extraordinrios podem realmente transmitir-se porhereditariedade, com mais forte razo se pode sustentar que desvios menosextraordinrios e mais comuns podem igualmente transmitir-se. A melhor maneira deresumir a questo seria talvez considerar que, em regra geral, todo o caracter, qualquerque seja, se transmite por hereditariedade e que a no transmisso excepo. 27. As leis que regulam a hereditariedade so pela maior parte desconhecidas. Qual arazo porque, por exemplo, uma mesma particularidade, aparecendo em diversosindivduos da mesma espcie ou espcies diferentes, se transmite algumas vezes e outrasse no transmite por hereditariedade? Porque que certos caracteres do av ou da av,ou de antepassados mais distantes, reaparecem no indivduo? Porque que umaparticularidade se transmite muitas vezes de um sexo, quer aos dois sexos, quer a um s,mas mais comumente a um s, ainda que no exclusivamente ao sexo semelhante? Asparticularidades que aparecem nos machos das nossas espcies domsticastransmitem-se muitas vezes, quer exclusivamente, quer num grau muito mais considervelno macho s; ora, isto um facto que tem extraordinria importncia para ns. Uma regramuito mais importante e que sofre, creio eu, poucas excepes, que em qualquerperodo da vida que uma particularidade aparea de princpio, tende a reaparecer nosdescendentes numa idade correspondente, algumas vezes mesmo, um pouco mais cedo.Em muitos casos, no pode ser de outra maneira; com efeito, as particularidadeshereditrias que apresentam os cornos do grande touro s podem manifestar-se nos seusdescendentes na idade adulta pouco mais ou menos; as particularidades que apresentamos bichos-da-seda no aparecem tambm a no ser na idade correspondente em que obicho existe sob a forma de larva ou crislida. Mas as doenas hereditrias e alguns outrosfactos levam-me a crer que esta regra susceptvel de maior extenso; com efeito, aindaque no haja razo aparente para que uma particularidade reaparea numa idadedeterminada, tende contudo a representar-se no descendente da mesma idade que oantepassado. Esta regra parece-me ter um alto valor para explicar as leis da embriologia.As presentes notas s se aplicam, naturalmente, primeira apario da particularidade, eno causa primria que pode ter actuado sobre os vulos ou sobre o elemento macho;assim, no descendente de uma vaca desarmada e de um touro de longos cornos, odesenvolvimento dos mesmos, posto que se manifeste somente muito tarde, evidentemente devido influncia do elemento macho. 28. Visto que aludi ao regresso dos caracteres primitivos, posso agora tratar de umaobservao feita muitas vezes pelos naturalistas; isto , que as nossas variedadesdomsticas, voltando vida selvagem, retomam gradualmente, mas invariavelmente, oscaracteres do tipo original. Tem-se concludo deste facto que se no pode tirar do estudodas raas domsticas qualquer deduo aplicvel ao conhecimento das espciesselvagens. Em vo procuro descobrir em que factos decisivos se pode apoiar estaassero to frequentemente e to ardilosamente renovada; seria muito difcil, com efeito,provar-lhe a exactido, porque podemos afirmar, sem receio de nos enganarmos, que amaior parte das nossas variedades domsticas, as mais fortemente caracterizadas, nopoderiam viver no estado selvagem. Em muitos casos, no sabemos mesmo qual a suaorigem primitiva; -nos, pois, quase impossvel dizer se o regresso a esta origem mais oumenos perfeito. Alm disso, seria indispensvel, para impedir os efeitos do cruzamento,que uma nica variedade fosse posta em liberdade. Contudo, como certo que as nossasvariedades podem acidentalmente regressar ao tipo ancestral por alguns dos seuscaracteres, parece-me bastante provvel que, se consegussemos chegar a aclimatar, oumesmo a cultivar durante muitas geraes, as diferentes raas de couve, por exemplo,num solo muito pobre (neste caso, todavia, seria necessrio atribuir qualquer influncia aco definida da pobreza do solo), voltariam, mais ou menos completamente, ao tiposelvagem primitivo. Que a experincia desse resultado ou no, isso pouca importncia temdo ponto de vista da nossa argumentao. porque as condies de existncia seriamcompletamente modificadas pela prpria experincia. Se pudesse demonstrar-se que asnossas variedades domsticas apresentam uma grande tendncia ao regresso, isto , sepudesse estabelecer-se que tendem a perder os caracteres adquiridos, quando mesmofiquem submetidas s mesmas condies e sejam mantidas em nmero considervel, demaneira tal que os cruzamentos pudessem parar, confundindo-os, os pequenos desvios deconformao, reconheo eu, neste caso, que no poderamos concluir das variedadesdomsticas para as espcies. Mas esta maneira de ver no encontra prova alguma em seufavor. Afirmar que no poderamos perpetuar os nossos cavalos de tiro e os cavalos decorrida, o nosso boi de longos e de curtos cornos, as nossas aves de capoeira de raasdiversas, os nossos legumes, durante um nmero infinito de geraes, seria contrrio aoque nos ensina a experincia de todos os dias. 29. Caracteres das variedades domsticas; dificuldade de distinguir entre asvariedades e as espcies; origem das variedades domsticas atribuda a uma ou amuitas espciesQuando examinamos as variedades hereditrias ou as raas dos nossos animaisdomsticos e plantas cultivadas e as comparamos s espcies muito prximas, notamosordinariamente, como j dissemos, em cada raa domstica, caracteres menos uniformesque nas espcies verdadeiras. As raas domsticas apresentam frequentemente umcarcter um tanto monstruoso; entendo por isso que, posto que diferentes umas das outrase das espcies vizinhas do mesmo gnero por alguns leves caracteres, diferem muitasvezes em alto grau por um ponto especial, quer as comparemos umas s outras, quersobretudo as comparemos espcie selvagem de que mais se aproximam. Alm disto (esalvo a fecundidade perfeita das variedades cruzadas entre si, assunto que discutiremosmais tarde), as raas domsticas da mesma espcie diferem entre si da mesma maneiraque as espcies vizinhas do mesmo gnero no estado selvagem; mas as diferenas, namaior parte dos casos, so menos considerveis. necessrio admitir que este ponto estprovado, porque julgadores competentes salientam que as raas domsticas de muitosanimais e de muitas plantas derivam de espcies originais distintas, enquanto que outros,no menos competentes, as consideram apenas como simples variedades. Ora, seexistisse uma distino bem ntida entre as raas domsticas e as espcies, esta dvidano se apresentaria to frequentemente. Tem-se repetido muitas vezes que as raasdomsticas no diferem umas das outras por caracteres de valor genrico. Podedemonstrar-se que esta assero no exacta; todavia, os naturalistas tm opinies muitodiferentes quanto ao que constitui um caracter genrico, e, por conseguinte, todas asapreciaes actuais sobre este ponto so puramente empricas. Quando eu explicar aorigem do gnero natural, ver-se- que no devemos de modo algum esperar encontrarnas raas domsticas diferenas de ordem genrica.Estamos reduzidos a hipteses desde que tentamos avaliar o valor das 30. diferenas de conformao que separam as nossas raas domsticas mais vizinhas; nosabemos, com efeito, se elas derivam de uma ou muitas espcies mes. Seria, portanto,um ponto muito interessante a elucidar. Se, por exemplo, pudesse provar-se que o Galgo,o Sabujo, o Caador, o Espanhol e o Buldogue, animais cuja raa, como sabemos, sepropaga to puramente, derivam todos de uma mesma espcie, estvamos evidentementeautorizados a duvidar da imutabilidade de grande nmero de espcies selvagensestreitamente ligadas, a das raposas por exemplo, que habitam as diversas partes doglobo. No creio, como veremos em breve, que a soma das diferenas, que constatamosentre as nossas diversas raas de ces, se tenha produzido inteiramente no estado dedomesticidade; julgo, ao contrrio, que uma parte destas diferenas provm dadescendncia de espcies distintas. Apesar das raas muito caractersticas de algumasoutras espcies domsticas, h fortes presunes, ou mesmo provas absolutas de quedescendem todas de uma origem selvagem comum.Tem-se pretendido muitas vezes que, para os reduzir domesticidade, o homemescolheu animais e plantas que apresentam uma tendncia inerente excepcional variao, e que possuam a faculdade de suportar os mais diferentes climas. No contestoque estas aptides tenham aumentado muito o valor da maior parte dos nossos produtosdomsticos; mas como poderia um selvagem saber, quando aprisionou um animal, se esseanimal era susceptvel de variar nas geraes futuras e suportar as mudanas de clima?Acaso a fraca variabilidade do jumento e do pato, a pouca disposio da rena para o calorou do camelo para o frio, impediram a sua domesticao? Estou persuadido de que, se se tomassem no estado selvagem animais e plantas emnmero igual ao dos nossos produtos domsticos e pertencendo a um grande nmero declasses e pases, e se se fizessem reproduzir no estado domstico, durante um nmeroigual de geraes, variariam em mdia tanto como tm variado as espcies mes dasnossas raas domsticas actuais. impossvel decidir, com respeito maior parte das nossas plantas h mais tempocultivadas e dos animais reduzidos h longos sculos domesticidade, se derivam de umaou mais espcies selvagens. O argumento principal daqueles que crem na origemmltipla dos animais domsticos repousa sobre o facto de encontrarmos, desde os temposmais remotos, nos monumentos do Egipto e nas habitaes lacustres da Sua, umagrande diversidade de raas. Muitas delas tm uma semelhana frisante, ou so mesmoidnticas com as que existem hoje. Mas isto s faz recuar a origem da civilizao, e provaque os animais foram reduzidos domesticidade num perodo muito anterior ao quejulgamos presentemente. Os habitantes das cidades lacustres da Sua cultivavam muitasespcies de trigo e de aveia, as ervilhas e as papoilas para da extrarem leo e ocnhamo; possuam muitos animais domsticos e estavam em relaes comerciais com asoutras naes. Tudo isto prova, claramente, como Heer o fez notar, que tinham progredidoconsideravelmente; isto, porm, implica tambm um longo perodo antecedente decivilizao menos avanada, durante o qual os animais domsticos, tratados em diferentesregies, puderam, variando, dar origem a raas distintas. Depois da descoberta dos 31. instrumentos de slex nas camadas superficiais de muitas partes do mundo, todos osgelogos acreditaram que o homem brbaro existia num perodo extraordinariamenteafastado, e sabemos hoje que no h tribo, por mais brbara que seja, que no tenhadomesticado o co. 32. A origem da maior parte dos animais domsticos ficar duvidosa para sempre. Masdevo acrescentar que, depois de laboriosamente haver recolhido todos os factosconhecidos relativos aos ces domsticos de todo o mundo, fui levado a concluir quemuitas espcies selvagens de candeos deviam ter sido aprisionadas, e que o seu sanguecorre mais ou menos misturado nas veias das nossas raas domsticas naturais. Nopude chegar a nenhuma concluso precisa relativamente aos carneiros e s cabras. Apsos factos que M. Blyth me comunicou sobre os hbitos, voz, constituio e formao dotouro de bossa indiano, quase certo que ele descende de uma origem primitiva diferenteda que produziu o nosso touro europeu. Alguns crticos competentes crem que esteltimo deriva de duas ou trs origens selvagens, sem pretender afirmar que tais origenssejam ou no consideradas como espcies. Esta concluso, bem como a distinoespecfica que existe entre o touro de bossa e o boi ordinrio, foi quase definitivamenteestabelecida pelos admirveis estudos do professor Rtimeyer. Quanto aos cavalos, hesitoem crer, por motivos que no posso desenvolver aqui, e demais contrrios opinio demuitos sbios, que todas as raas derivam de uma s espcie. Tenho tratado quase todasas raas inglesas das nossas aves de capoeira, tenho-as cruzado, tenho-lhe estudado oesqueleto, e cheguei concluso que provm todas de uma espcie selvagem indica, oGallus bankiva; tambm a opinio de M. Blyth e de outros naturalistas que estudaramesta ave na ndia. Quanto aos patos e aos coelhos, de que algumas raas diferemconsideravelmente entre si, evidente que derivam todas do pato comum selvagem e docoelho selvagem.Alguns autores tm levado ao extremo a doutrina de as nossas raas domsticasderivarem de muitas origens selvagens. Julgam que toda a raa que se reproduzpuramente, por ligeiros que sejam os seus caracteres distintivos, teve o seu prottiposelvagem. Sendo assim, deveriam existir pelo menos uma vintena de espcies de tourosselvagens, outras tantas de carneiros, e muitas espcies de cabras da Europa, das quaismuitas na Gr-Bretanha somente. Um autor sustenta que deviam existir na Gr-Bretanhaonze espcies de carneiros selvagens que lhe eram prprios! Quando nos lembrar-nos queeste pas no possui hoje um mamfero que lhe seja particular, que a Frana tem apenasalguns, muito poucos, que sejam distintos dos da Alemanha, e que o mesmo se d naHungria e na Espanha, etc., mas que cada um destes pases possui muitas espciesparticulares de touros, de carneiros, etc., necessrio ento admitir que um grandenmero de raas domsticas tiveram origem na Europa, porque de onde poderiam elasvir? E o mesmo se d na ndia. certo que as variaes hereditrias desempenharam umpapel importante na formao das raas to numerosas de ces domsticos para os quaisadmito, contudo, muitas origens distintas. Quem poderia acreditar, com efeito, que muitosanimais assemelhando-se ao Galgo italiano, ao Rafeiro, ao Buldogue, ao Fraldiqueiro e aoEspanhol de Blenheim, tipos to diferentes dos tipos dos candeos selvagens, tivessemexistido no estado primitivo? Tem-se afirmado muitas vezes, sem prova segura, que todasas nossas raas de ces provm do cruzamento de um pequeno nmero de espciesprimitivas. Mas, apenas se obtm, pelo cruzamento, formas intermedirias entre aos pais;ora, se queremos explicar assim a existncia das nossas diferentes raas domsticas, 33. necessrio se torna admitir a existncia anterior das formas mais extremas, tais como oGalgo italiano, o Rafeiro, o Buldogue, etc., no estado selvagem. De resto, tem-seexagerado muito a possibilidade de formar raas distintas pelo cruzamento. Est provadoque pode modificar-se uma raa pelos cruzamentos acidentais, admitindo, todavia, que seescolhem cuidadosamente os indivduos que representam o tipo desejado: mas seria muitodifcil obter uma raa intermdia entre duas raas completamente distintas. Sir J. Sebrigthtentou numerosas experincias com este fim, mas no pde obter resultado algum. Osprodutos do primeiro cruzamento entre duas raas puras so bastante uniformes, algumasvezes mesmo perfeitamente idnticos, como tenho constatado nos pombos. Nada parece,pois, mais simples; quando, porm, se cruzam estes mestios entre si durante muitasgeraes, no mais se obtm dois produtos semelhantes e as dificuldades de operaotornam-se manifestas. 34. Raas do Pombo domstico, suas diferenas e sua origem 35. Persuadido que vale sempre mais estudar um grupo especial, decidi-me, apsmadura reflexo, pelos pombos domsticos. Tenho tratado todas as raas que pude obterpor compra ou por outra maneira; alm disso, tm-me sido enviadas peles provenientes dequase todas as partes do mundo; estou principalmente agradecido por estas remessas aohonorrio W. Elliot, que me fez aperceber de especmenes da ndia, e ao honorrio C.Murray, que me expediu exemplares da Prsia. Em todas as lnguas se tm publicadotratados sobre pombos; algumas destas obras so muito importantes, pois que ascendem mais remota antiguidade. Associei-me a muitos criadores importantes e fao parte dosdois Pigeons-clubs de Londres. A diversidade das raas de pombos verdadeiramenteadmirvel. Se se compara o Correio ingls com o Cambalhota de face curta, fica-seimpressionado pela enorme diferena do bico, condizendo com diferenascorrespondentes no crnio. O Correio, e mais particularmente o macho, apresenta umdesenvolvimento pronunciado da membrana carunculosa da cabea, acompanhado degrande alongamento das plpebras, de largos orifcios nasais e grande abertura do bico. Obico do Cambalhota de face curta parece-se com o de um pardal; o Cambalhota ordinriopossui o hbito singular de elevar-se a grande altura desordenadamente, e depois fazer noar uma cambalhota completa. O Runt (pombo-galinha romano) uma ave grande, de bicolongo e macio e grandes ps; algumas sub-raas tm longo pescoo, outras longas asase longa cauda. O Barbado est aliado ao pombo-correio; mas o bico, em lugar de serlongo, largo e muito curto.O Pombo de papo tem corpo, asas e patas alongadas; o enorme papo, que tumefazcom orgulho, d-lhe um aspecto bizarro e cmico. O pombo-gravata tem o bico curto ecnico, e uma ordem de penas riadas sobre o peito; tem o hbito de dilatar ligeiramente aparte superior do esfago. O Cabeleira tem as penas de tal maneira eriadas na partedorsal do pescoo, que formam uma espcie de capucho; proporcionalmente ao tamanho,tem as penas das asas e do pescoo muito alongadas.O Trombeta, ou Pombo tambor, e o Pombo que ri, fazem ouvir, assim como indica oseu nome, um arrulho muito diferente do das outras raas. O Pombo de leque tem trinta oumesmo quarenta penas na cauda, em vez de doze ou catorze, nmero normal em todos osmembros da famlia dos pombos; tem estas penas to ostentadas e to eriadas, que, nasaves de raa pura, a cabea e a cauda se tocam; mas a glndula olefera completamenteatrofiada. Poderamos ainda indicar algumas outras raas menos distintas. O desenvolvimento dos ossos da face difere enormemente, tanto pelo 36. comprimento como pela largura e curvatura, no esqueleto das diferentes raas. A forma,assim como as dimenses do maxilar inferior variam de uma maneira muito acentuada.O nmero das vrtebras caudais e das vrtebras sagradas varia tambm da mesmaforma que o nmero de costelas e das apfises, assim como a sua largura relativa. Aforma e a grandeza das aberturas do esterno, o grau de divergncia e as dimenses dosramos da forquilha, so igualmente muito variados. A largura proporcional da abertura dobico; o comprimento relativo das plpebras; as dimenses do orifcio das narinas e as dalngua, que no esto sempre em correlao absolutamente exacta com o comprimento dobico;o desenvolvimento do papo e da parte superior do esfago; o desenvolvimento ouatrofia da glndula olefera; o nmero de penas primrias da asa e da cauda;o comprimento relativo das asas e da cauda, quer entre si, quer com relao aocorpo; o comprimento relativo da perna e do p; o nmero de escamas dos dedos; odesenvolvimento da membrana interdigital so outras tantas partes essencialmentevariveis.A poca em que as aves novas adquirem a plumagem perfeita, bem como a naturezada plumagem de que os borrachos so revestidos na sua ecloso, variam tambm; eigualmente a forma e tamanho dos ovos. O voo e, em certas raas, a voz e os instintos,apresentam diversidades notveis. Enfim, em certas variedades, os machos e as fmeaschegam a diferir algum tanto uns dos outros.Poder-se-ia facilmente reunir uma vintena de pombos tais que, se se mostrassem aum ornitlogo, e se lhe dissessem que eram aves selvagens, ele os classificariacertamente como outras tantas espcies distintas. No creio mesmo que qualquerornitlogo consentisse em colocar num mesmo gnero o Correio ingls, o Cambalhota deface curta, o Runt, o Barbado, o Pombo de papo e o Pombo de leque; ele o faria tantomenos que se lhe poderiam mostrar, por cada uma destas raas, muitas sub-variedadesde descendncia pura, isto , de espcies, como lhes chamaria certamente.Por considervel que seja a diferena que se observa entre as diversas raas depombos, estou completamente da opinio comum dos naturalistas que os fazemdescendentes do Pombo torcaz (Columbia livia), compreendendo debaixo deste termomuitas raas geogrficas, ou subespcies, que s diferem umas das outras por pontosinsignificantes. Exporei sucintamente muitas das razes que me levam a adoptar estaopinio, porque so, at certo ponto, aplicveis a outros casos. Se as nossas diversasraas de pombos no so variedades, se, numa palavra, no derivam do Torcaz, devemderivar de sete ou oito tipos originais pelo menos, porque seria impossvel produzir asnossas raas domsticas actuais por cruzamentos recprocos de um nmero menor.Como, por exemplo, produzir um Pombo de papo cruzando duas raas, a no ser que umadas raas ascendentes possua o enorme papo caracterstico? Os supostos tipos originaisdevem todos ter sido habitantes dos rochedos como o Torcaz, isto , espcies que no seempoleiram nem fazem ninhos voluntariamente sobre as rvores. Mas, alm da Columbialivia e as suas subespcies geogrficas, somente se conhecem duas ou trs outrasespcies de pombos dos rochedos e no apresentam qualquer dos caracteres prprios s 37. raas domsticas. As espcies primitivas devem, pois, ou existir ainda nos pases em quetm sido originariamente reduzidas domesticidade, e neste caso escapavam atenodos ornitlogos, o que atendendo ao talhe, aos hbitos e ao notvel carcter, pareceimpossvel; ou foram extintas no estado selvagem. , porm, difcil exterminar aves quefazem ninho beira dos precipcios e dotadas de voo poderoso. 38. Demais o Torcaz comum, que tem os mesmos hbitos que as raas domsticas, nofoi exterminado nem nas pequenas ilhas que cercam a Gr-Bretanha, nem nas costas doMediterrneo. Seria pois fazer uma falsa suposio admitir a extino de um to grandenmero de espcies tendo os mesmos costumes que o Torcaz. Alm disso, as raasdomsticas, de que temos falado mais acima, foram transportadas para todas as partes domundo; algumas, por conseguinte, devem ter sido levadas ao seu pas de origem;nenhuma, contudo, voltou ao estado selvagem, ainda que o pombo comum, que no outro seno o Torcaz sob forma muito pouco modificada, se tenha tornado selvagem emmuitos lugares. Enfim, a experincia prova-nos bem o quanto difcil obrigar um animalselvagem a reproduzir-se regularmente em cativeiro; todavia, admitindo a origem mltiplados nossos pombos, necessrio se torna tambm admitir que sete ou oito espcies pelomenos foram aprisionadas pelo homem num estado semi-selvagem para as tornarperfeitamente fecundas no estado de cativas.H um outro argumento que me parece ter um grande valor e que pode aplicar-se amuitos outros casos: que as raas de que temos falado, posto que semelhando-se deuma maneira geral ao Torcaz selvagem pela constituio, hbitos, voz, cor e pela maiorparte da sua conformao, diferenciam-se dele, todavia, por muitos outros pontos. Debaldese procuraria, em toda a grande famlia das Columbdeas, um bico semelhante ao doCorreio ingls, ao do Cambalhota de face curta ou ao do Barbado; penas eriadasanlogas s do Cabeleira; papo comparado ao do Pombo de papo; penas caudaiscomparveis s do pombo-pavo. Seria necessrio, pois, admitir, no s que homenssemiselvagens aprisionaram completamente muitas espcies, como ainda, por acaso ouintencionalmente, escolheram as espcies mais extraordinrias e mais anormais; eranecessrio admitir ainda que todas estas espcies se extinguiram em seguida ou ficaramdesconhecidas. Um tal concurso de circunstncias improvvel no mais alto grau. 39. Merecem meno alguns factos relativos cor dos pombos.O Torcaz azul-ardsia com os flancos brancos; na subespcie indica, a Columbiaintermdia de Strickland, os flancos so azulados; a cauda apresenta uma orla carregadaterminal e as penas dos lados so exteriormente limitadas de branco na base; as asas tmduas barras negras. Em algumas raas semidomsticas, bem como em algumasabsolutamente selvagens, as asas, alm das duas orlas negras, so pontilhadas de negro.Estes diversos sinais no se encontram reunidos em qualquer outra espcie da famlia.Ora, todos os sinais que acabamos de indicar so por vezes e perfeitamentedesenvolvidos at ao bordo branco das penas exteriores da cauda, nas aves de raa purapertencendo a todas as nossas raas domsticas. Alm disso, quando se cruzam ospombos, pertencentes a duas ou mais raas distintas, no oferecendo nem a coloraoazul, nem qualquer dos sinais que acabamos de expor, os produtos destes cruzamentosmostram-se muito dispostos a adquirir rapidamente estes caracteres. Limitar-me-ei a citarum exemplo que entre tantos outros observei. Cruzei alguns pombos-paves brancos daraa mais pura com alguns Barbados negros -as variedades azuis do Barbado so toraras que no conheo um s exemplar em Inglaterra: as aves que obtive eram negras,cinzentas e manchadas. Cruzei igualmente um Barbado com um pombo Spot, que umaave branca com a cauda vermelha e uma mancha vermelha no alto da cabea, e que sereproduz fielmente; obtive mestios acinzentados e manchados. Cruzei ento um dosmestios barbado-pavo com um mestio barbado-spot, e obtive uma ave de um to beloazul como nenhum pombo de raa selvagem, tendo os flancos brancos, possuindo a duplaorla negra das asas e as penas externas da cauda orladas de negro e limitadas de branco!Se todas as raas de pombos domsticos derivam do Torcaz, estes factos explicam-sefacilmente pelo princpio bem conhecido da reverso aos caracteres dos antepassados;mas se se contesta esta origem, necessrio forosamente admitir uma das duashipteses seguintes, hipteses o mais improvveis possvel: ou todos os diversos tiposoriginais eram coloridos e marcados como o Torcaz, posto que nenhuma outra espcieexistente apresente estes mesmos caracteres, de modo que, em cada raa separada,exista uma tendncia reverso de cores e caractersticas; ou ento cada raa, mesmo amais pura, foi cruzada com o Torcaz num intervalo de uma dezena ou ainda mais de umavintena de geraes -digo uma vintena de geraes, porque no se conhece exemploalgum de produtos de um cruzamento que tenham voltado a um antepassado de sangueestranho afastado deles por um nmero de geraes mais considervel. 40. Numa raa que foi cruzada apenas uma vez, a tendncia reverso a um destescaracteres devidos a este cruzamento diminui naturalmente, contendo cada geraosucessiva uma quantidade sempre menor de sangue estranho. Mas, quando no temhavido cruzamento e existe numa raa a tendncia a regressar a um caracter perdidodurante muitas geraes, esta tendncia, depois do que fica dito, pode transmitir-se semenfraquecimento durante um nmero indefinido de geraes.Os autores que tm escrito sobre a hereditariedade tm, muitas vezes, confundidoestes dois casos assaz distintos da reverso.Enfim, assim como pude constatar pelas observaes que tenho feito expressamentesobre as mais distintas raas, os hbridos ou mestios provenientes de todas as raasdomsticas do pombo so perfeitamente fecundos. Ora difcil, seno impossvel, citar umcaso bem estabelecido tendente a provar que os descendentes hbridos provindos de duasespcies de animais nitidamente distintos so completamente fecundos. Alguns autoresjulgam que uma domesticidade por muito tempo prolongada diminui esta grande tendncia esterilidade. A histria do co e a de alguns outros animais domsticos torna esta opiniomuito provvel, se se aplicar s espcies estreitamente aliadas; mas parece-me emextremo temerrio generalizar esta hiptese at supor que espcies primitivamente todistintas, como so hoje os Correios, os Cambalhotas, os Papudos e os Paves tenhampodido produzir descendentes perfeitamente fecundos inter se.Estas diferentes razes, que sempre bom recapitular, isto , a improbabilidade deoutrora o homem ter reduzido ao estado domstico sete ou oito espcies de pombos, esobretudo faz-los reproduzir neste estado livremente; o facto de serem desconhecidas portoda a parte estas supostas espcies no estado selvagem, e de as espcies domsticas seno tornarem selvagens em parte alguma; o facto de estas espcies apresentarem certoscaracteres muito anormais, comparando-as com todas as outras espcies de columbdeas,posto que se assemelhem ao Torcaz sob quase todos os aspectos; o facto de a cor azul eos diferentes estigmas negros reaparecerem em todas as raas, quer se conservem puras,quer se cruzem; enfim, o facto de os mestios serem perfeitamente fecundos - estecomplexo de razes leva-nos a concluir que todas as nossas raas domsticas derivam doTorcaz ou Columbia livia e das suas subespcies geogrficas. 41. Juntarei, em apoio desta opinio: prim, que o Columbia tivia ou Torcaz se mostra, naEuropa e na ndia, susceptvel de uma domesticidade fcil, e que h uma grande analogiaentre os seus hbitos e a conformao de todas as raas domsticas; secund, que, aindaque o Correio ingls ou o Cambalhota de face curta difiram consideravelmente do Torcazpor certos caracteres, se pode, contudo, comparando as diversas sub-variedades destasduas raas, e principalmente as provenientes de pases afastados, estabelecer entre oTorcaz e elas uma srie quase completa ligando os dois extremos (podem estabelecer-seas mesmas sries em alguns outros casos, mas no com todas as raas); terci, que osprincipais caracteres de cada raa so, em cada uma delas, essencialmente variveis, taiscomo, por exemplo, as carnculas e o comprimento do bico no Correio ingls, o bico tocurto do Cambalhota, e o nmero de penas caudais no Pombo pavo (a explicaoevidente deste facto ressaltar quando tratarmos da seleco); quart, que os pombos tmsido objecto dos mais extremos cuidados da parte de um grande nmero de amadores, eque foram reduzidos ao estado domstico h milhares de anos nas diferentes partes domundo. O documento mais antigo que se encontra na histria relativamente aos pombosascende quinta dinastia egpcia, cerca de trs mil anos antes da nossa era; estedocumento foi-me indicado pelo professor Lepsius; por outra parte, M. Birch ensina-me queo pombo est mencionado num boletim de refeio da dinastia precedente. Plnio diz-nosque os Romanos pagavam os pombos por um preo considervel: Chegou-se, diz onaturalista latino, a tomar conta da sua genealogia e da sua raa. Na ndia, pelo ano 1600,Abker-Khan fazia to grande caso dos pombos, que o seu pombal tinha pelo menos vintemil exemplares. Os monarcas do Iro e do Turo enviavam-lhe aves muito raras; emseguida o cronista real acrescenta: Sua majestade, cruzando as raas, o que ainda notivera sido feito at ento, melhorou-as extraordinariamente. Nesta mesma poca, osHolandeses mostravam-se tambm amadores de pombos como o tinham sido os antigosRomanos. Quando tratarmos da seleco, compreender-se- a grande importncia destasconsideraes para explicar a soma enorme de variantes que os pombos apresentam.Veremos ento, tambm, como se faz com que muitas vezes as diferentes raas ofereamcaracteres monstruosos. necessrio, por fim, indicar uma circunstncia extremamentefavorvel para a produo de raas distintas, e que os pombos machos e fmeas se unamde ordinrio para a vida, e que se possam tratar muitas raas diferentes numa mesmagaiola. 42. Acabo de discutir muito largamente, e contudo de uma maneira insuficiente, a origemprovvel dos nossos pombos domsticos; se tal fiz, foi porque, quando comecei a tratardos pombos e a observar as diferentes espcies, eu estava tambm pouco disposto aadmitir (sabendo com que fidelidade as diversas raas se reproduzem), que derivassemtodas de uma nica espcie me, e se tivessem formado desde o momento em que foramreduzidas ao estado domstico, como o estaria qualquer naturalista em aceitar a mesmaconcluso com respeito a numerosas espcies de pardais ou de qualquer outro gruponatural de aves selvagens. Uma circunstncia me feriu sobretudo, que a maior parte dostratadores de animais domsticos, ou os cultivadores com os quais estou em contacto, oude que tenho lido as obras, esto todos firmemente convencidos que as diferentes raasde que cada um se tem ocupado em especial, derivam de outras tantas espciesprimitivamente distintas. Perguntai, assim como eu o fiz, a um clebre tratador de bois deHereford, se no poderia fazer derivar o seu gado de uma raa de longos cornos, ou queas duas raas derivassem de uma origem comum, e ele se rir de vs. Nunca encontreium tratador de pombos, de galinhas, de patos ou de coelhos, que no estivesseinteiramente convencido que cada raa principal derivasse de uma espcie distinta. VanMons, no seu tratado sobre pras e mas, recusa-se categoricamente a acreditar queespcies diferentes, um pippin Ribsion e uma ma Codlin, por exemplo, possamdescender de sementes de uma mesma rvore. Poder-se-iam citar uma infinidade deoutros exemplos. A explicao deste facto parece-me simples: fortemente impressionados,em razo dos seus longos estudos, pelas diferenas que existem entre as diversas raas,e ainda sabendo bem que cada uma delas varia ligeiramente, pois que somente ganhamprmios nos concursos escolhendo com cuidado estas leves diferenas, os tratadoresignoram contudo os princpios gerais, e recusam-se a tomar em linha de conta as levesdiferenas que se foram acumulando durante um grande nmero de geraes sucessivas.Os naturalistas, que sabem bem menos que os tratadores sobre as leis dahereditariedade, que no sabem mais a respeito dos elos intermdios que ligam entre silongas sries genealgicas, e que, contudo, admitem que a maior parte das nossas raasdomsticas derivam de um mesmo tipo, no poderiam tornarse um pouco mais prudentes,e no zombarem da opinio de que uma espcie, no estado natural, pode ser aposteridade directa de outras espcies? 43. Princpios de seleco antigamente aplicados e seus efeitosConsideremos agora, em algumas linhas, a formao gradual das nossas raasdomsticas, quer derivem de uma espcie nica, quer derivem de muitas espciesvizinhas. Podem atribuir-se alguns efeitos aco directa e definida das condiesexteriores de existncia, alguns outros aos hbitos, mas necessrio seria ser bem ardilosopara explicar, por tais causas, as diferenas que existem entre o Cavalo de tiro e o Cavalode corrida, entre o Perdigueiro e o Galgo, entre o Correio e o Cambalhota. Um doscaracteres mais notveis das nossas raas domsticas, que vemos entre elasadaptaes que no contribuem em nada para o bem-estar do animal ou da planta, massimplesmente para vantagem e capricho do homem. Determinadas variaes teis aohomem so provavelmente produzidas sucednea e gradualmente por outras; algunsnaturalistas, por exemplo, julgam que o Cardo penteador armado de ganchos, que nopode substituir qualquer mquina, muito simplesmente uma variedade do Dipsacusselvagem; ora, esta transformao pode manifestar-se numa s semente. Igualmente provvel que o tenha sido para o co Tournebroche, sabe-se, pelo menos, que o carneiroAncon surgiu de uma maneira sbita. Mas necessrio, se compararmos o cavalo de tiro eo cavalo de corrida, o dromedrio e o camelo, as diversas raas de carneiros adaptadasquer s plancies cultivadas, quer s pastagens das montanhas, e de que a l, segundo araa, apropriada tanto a um como a outro uso; se compararmos as diferentes raas deces, de que cada uma til ao homem sob pontos de vista diversos; se compararmos ogalo de combate, to inclinado luta, com outras raas to pacficas, com as poedeirasperptuas sem nunca chocarem, e com o galo Bantam, to pequeno e to elegante; seconsiderarmos, enfim, essa legio de plantas agrcolas e culinrias, as rvores queensombram os nossos vergis, as flores que adornam os nossos jardins, umas to teis aohomem em diferentes estaes e para tantos usos diversos, ou somente to agradveis vista, necessrio procurar, penso eu, alguma coisa a mais que um simples efeito devariabilidade. No podemos supor, com efeito, que todas estas raas tenham sidosucedaneamente produzidas com toda a perfeio e toda a utilidade que tm hoje;sabemos mesmo em muitos casos, que no tem sido assim. O poder de seleco, deacumulao, que possui o homem, a chave deste problema; a natureza fornece asvariaes sucessivas, o homem as acumula em certas direces que lhe so teis. Nestesentido, pode dizer-se queo homem criou em seu proveito raas teis. 44. O grande valor deste princpio de seleco no hipottico. certo que muitos dosnossos mais eminentes criadores tm, durante a simples idade de um homem, modificadoconsideravelmente os seus gados e seus rebanhos. Para bem compreender os resultadosque tm obtido, indispensvel ler algumas das numerosas obras que tm consagrado aeste assunto e ver os prprios animais. Os criadores consideram ordinariamente oorganismo de um animal como um elemento plstico, que podem modificar a seubel-prazer. Se no tivesse falta de espao, poderia citar, a este respeito, numerososexemplos compilados de autoridades altamente competentes. Youatt, que, mais quequalquer outro, conhecia os trabalhos dos agricultores, e que por si mesmo era umexcelente juiz em questes de animais, admite que o princpio da seleco permite aoagricultor, no somente modificar o carcter do seu rebanho, mas transform-lointeiramente. a vara mgica por meio da qual pode apresentar as formas e os modelosque lhe agradarem. Lorde Somerville diz, a propsito do que os criadores tm feito para ocarneiro: Parece que traaram o esboo de uma forma perfeita, e depois lhe deramexistncia. Em Saxe, compreende-se to bem a importncia do princpio da seleco,relativamente aos carneiros merinos, que se tem feito uma profisso; coloca-se o carneirosobre uma mesa e um conhecedor o estuda como faria a um quadro; repete-se esteexame trs vezes por ano, e cada vez se marcam e se classificam os carneiros de maneiraa escolher os mais perfeitos para a reproduo.O preo considervel atribudo aos animais de que a genealogia irrepreensvelprova os resultados que os criadores ingleses tm j atingido; os seus produtos soexpedidos para quase todas as partes do mundo. No seria necessrio crer que estasmelhoras fossem ordinariamente devidas ao cruzamento de diferentes raas; os melhorescriadores condenam esta prtica em absoluto, e empregam-na somente para as sub-raasestreitamente relacionadas. Quando um cruzamento deste gnero se faz, uma selecorigorosa se torna ainda muito mais indispensvel que nos casos ordinrios. Se a selecoconsistisse simplesmente em isolar algumas variedades distintas e faz-las reproduzir-se,este princpio seria to bvio, que a custo teramos de nos ocupar dele; mas a grandeimportncia da seleco consiste nos efeitos considerveis produzidos pela acumulaonuma mesma direco, durante geraes sucessivas, de diferenas absolutamenteinapreciveis a olhos inexperientes, diferenas que, quanto a mim, em vo tenho tentadoapreciar. Nem um homem entre mil tem agudeza de vista e a segurana de critrionecessrios para tornar-se um hbil criador. Um homem dotado destas qualidades, que seconsagra longos anos ao estudo deste assunto, desde que a ele dedica a existnciainteira, aplicando-lhe toda a sua energia e uma perseverana indomvel, ter bonsresultados sem dvida e poder realizar imensos progressos; mas a falta de uma sdestas qualidades determinar forosamente o mau resultado. Poucas pessoas imaginamquantas capacidades naturais so precisas, e quantos anos de prtica para se chegar aser um bom criador de pombos. 45. Os horticultores seguem os mesmos princpios; mas aqui as variaes so muitasvezes repentinas. Ningum supe que as nossas mais belas plantas so o resultado deuma nica variao da fonte original. Sabemos que tem sido de outra maneira em muitoscasos a respeito dos quais possumos conhecimentos exactos. Assim, pode citar-se comoexemplo o aumento sempre crescente da groselha comum. Se compararmos as floresactuais com os desenhos feitos h somente vinte ou trinta anos, notam-se osmelhoramentos na maior parte dos produtos do floricultor. Quando uma raa de plantasest fixada bastantemente, os horticultores no se do mais ao trabalho de escolher asmelhoresplantas, contentam-se em visitar as plantas limites para apartar aquelas que voltaramao tipo ordinrio. Pratica-se tambm esta espcie de seleco com os animais, porqueningum bastante negligente para permitir que os indivduos defeituosos de um rebanhose reproduzam.H ainda um outro meio de observar os efeitos acumulados da seleco nas plantas;basta, com efeito, comparar, num canteiro, a diversidade das flores nas diferentesvariedades de uma mesma espcie; numa horta, a diversidade de folhas, de vagens, detubrculos, ou em geral da parte procurada das plantas hortcolas, relativamente s floresdas mesmas variedades; e, enfim, num pomar, a diversidade de frutos de uma mesmaespcie, comparativamente s folhas e s flores dessas mesmas rvores. Notai quantodiferem as folhas da Couve, e quanta semelhana na flor; quanto, ao contrrio, sodiferentes as flores do Amor-perfeito, e como as folhas so uniformes; como os frutos dasdiversas espcies de Groselheira diferem pelo tamanho, pela cor, pela forma e grau devilosidade, e que pouca diferena nas flores. So apenas as variedades que diferem muitonum ponto, no diferindo de resto em todos os outros, porque posso afirmar, aps longas ecuidadosas observaes, que isto jamais se d ou quase nunca. A lei da correlao docrescimento, de que no se deve esquecer a importncia, arrasta quase sempre algumasdiferenas; mas, em regra geral, no se pode duvidar que a seleco contnua de ligeirasvariaes, quer nas folhas, quer nas flores, quer nos frutos, no produza raas diferentesumas das outras, mais particularmente num dos rgos.Poder-se-ia objectar que o princpio da seleco tem sido reduzido 46. prtica apenas h cerca de trs quartos de sculo. Sem dvida que este assunto,recentemente, tem merecido mais interesse e se tm publicado numerosas obras a seurespeito; tambm os resultados tm sido, como era de esperar, rpidos e importantes; masno permitido dizer-se que este princpio seja uma descoberta moderna. Eu poderia citarmuitas obras de uma remota antiguidade provando que, desde ento, se reconhecia aimportncia deste princpio. Temos a prova de que, mesmo durante os perodos brbarospelos quais tem passado a Inglaterra, se importavam muitas vezes animais de raa, e asleis proibiam a exportao; ordenava-se a destruio dos cavalos que no atingiam umacerta altura; o que se pode comparar ao trabalho que fazem os horticultores quandoeliminam, entre os produtos das suas sementes, todas as plantas que tendam a desviar-sedo tipo regular. Uma antiga enciclopdia chinesa formula nitidamente os princpios daseleco; certos autores clssicos romanos indicam algumas regras precisas; resulta decertas passagens do Gnese que, desde esse antigo perodo, se prestava j algumaateno cor dos animais domsticos. Ainda hoje os selvagens cruzam algumas vezes osseus ces com as espcies caninas selvagens para melhorar a raa; Plnio confirma que omesmo se fazia outrora. Os selvagens da frica Meridional aparelham-nas suas juntas debois pela cor; os Esquims usam da mesma forma para as matilhas de ces. Livingstoneconstata que os negros do interior da frica, que no tm relao alguma com osEuropeus, avaliam em alto preo as boas raas domsticas. Sem dvida, alguns destesfactos no testemunham seleco directa; mas provam que, desde a antiguidade, a culturados animais domsticos era objecto de cuidados muito particulares, e que os selvagensfazem hoje o mesmo. Seria estranho, alm disso, que a hereditariedade das boasqualidades e dos defeitos sendo to evidente, a escolha tivesse constantemente atrado aateno do homem. Seleco inconsistenteOs bons criadores modernos, que prosseguem num fim determinado, procuram, poruma seleco metdica, criar novas castas ou sub-raas superiores a todas aquelas queexistem no pas. Mas h uma outra maneira de seleco muito mais importante do pontode vista que nos ocupa, seleco que poderia chamar-se inconsciente; tem por mbil odesejo que cada um experimenta em possuir e fazer produzir os melhores indivduos decada espcie. Assim, quem quer possuir ces de caa procura naturalmente obter osmelhores ces que pode; em seguida, faz reproduzir os mesmos unicamente, sem ter odesejo de modificar a raa de uma maneira permanente e sem mesmo nisso pensar.Todavia, este hbito, continuado durante sculos, acaba por modificar e por melhorar umaraa qualquer que seja; alm disso seguindo este processo, mas de uma maneira maismetdica, que Bakewell, Collins, etc., chegaram a modificar consideravelmente, durante odecurso da sua vida, as formas e as qualidades dos seus gados. Alteraes destanatureza, isto , lentas e insensveis, somente podem ser apreciadas tanto como asantigas medidas exactas ou desenhos feitos com cuidado podem servir de ponto de 47. comparao. Em alguns casos, contudo, encontra-se nas regies menos civilizadas, ondea raa menos melhorada, indivduos da mesma raa pouco modificados, outros mesmoque no sofreram modificao alguma. H lugar para acreditar que o podengo KingCharles foi bastante modificado de maneira inconsciente, desde a poca em que reinava orei de que ele tira o nome. Algumas autoridades muito competentes esto convencidas queo co perdigueiro descende directamente do podengo, e que as modificaes seproduziram muito devagar. Sabe-se que o co de caa ingls foi consideravelmentemodificado durante o ltimo sculo; atribui-se, como causa principal a estas mudanas, ocruzamento com o galgo. Mas o que nos importa, que a alterao foi efectuadainconscientemente, gradualmente, e contudo com tanta eficcia que, posto que o nossovelho co de caa espanhol venha com certeza de Espanha, M. Borrow disse-me no tervisto neste ltimo pas um nico co indgena semelhante ao nosso co de caa actual. 48. O mesmo processo de seleco, juntamente com cuidados particulares, transformouo cavalo de corrida ingls e levou-o a ultrapassar em velocidade e talhe os cavalos rabesde que descende, se bem que estes ltimos, seguindo os regulamentos das corridas deGoodwod, tenham um peso menor. Lorde Spencer e outros demonstraram que o boi inglsaumentou em peso e em precocidade, comparativamente ao antigo boi. Se, com auxliodos dados que nos fornecem os velhos tratados, compararmos o estado antigo e o actualestado dos Pombos-correios e dos Cambalhotas na Gr-Bretanha, na ndia e na Prsia,podemos ainda determinar as bases por que tm passado sucessivamente as diferentesraas de pombos, e como vieram a diferir to prodigiosamente do Torcaz. Youatt cita um excelente exemplo dos efeitos obtidos por meio da seleco contnuaque pode considerar-se como inconsciente, pela razo de que no podem os criadoresprever nem desejar o resultado que tenha sido a consequncia, isto , a criao de doisramos distintos de uma mesma raa. M. 49. Buckley e M. Burgess possuem dois rebanhos de carneiros de Leicester, que descendemem linha recta, depois de mais de cinquenta anos, diz M. Youatt, de uma mesma origemque possua M. Bakewell. Quem entenda um pouco de criao no pode supor que oproprietrio de um ou de outro rebanho tivesse jamais misturado o puro sangue da raaBakewell, e, contudo, a diferena que existe actualmente entre estes dois rebanhos togrande, que parecem compostos de duas variedades completamente distintas.Se existem povos bastante selvagens para jamais pensarem em ocupar-se dahereditariedade dos caracteres entre os descendentes dos seus animais domsticos, podesuceder todavia que um animal, que lhes particularmente til, seja mais preciosamenteconservado durante uma fome, ou durante outros acidentes a que esto sujeitos osselvagens, e que, por isso, este animal de escolha deixe mais descendentes que os seuscongneres inferiores. Neste caso, resulta uma seleco inconsciente. Os selvagens daTerra do Fogo ligam to grande valor aos seus animais domsticos, que preferem, emtempo de fome, matar e devorar as velhas mulheres da tribo, pois as consideram muitomenos teis que os ces.Os mesmos processos de aperfeioamento conduzem a resultados anlogos nasplantas, em virtude da conservao acidental dos mais belos indivduos, quer sejam ouno bastante distintos para que se possam classificar, quando aparecem, como variedadesdistintas, quer sejam ou no o resultado de cruzamento entre duas ou mais espcies ouraas. O aumento do porte e da beleza das variedades actuais do Amor-perfeito, da Rosa,do Delargonium, da Dlia e de outras plantas, comparadas com a fonte primitiva ou mesmocom as antigas variedades, indica claramente estes aperfeioamentos. Ningum poderiachegar a obter um Amor-perfeito ou uma Dlia de primeira escolha semeando gros deuma planta selvagem. Ningum poderia esperar produzir uma pra sumarenta de primeiraordem semeando a pevide da pra selvagem; talvez pudesse obter-se este resultado se seempregasse uma pobre semente crescendo no estado selvagem, mas provindo de umarvore outrora cultivada. Posto que a pra fosse muito cultivada nos tempos clssicos, era,segundo o testemunho de Plnio, apenas um fruto de qualidade muito inferior. Pode verse,nas obras de horticultura, a surpresa que sentiram os autores vendo os resultadosadmirveis obtidos por jardineiros, que apenas tinham ingratos materiais ao seu alcance;todavia, o processo muito simples, e tem sido aplicado quase de maneira inconscientepara chegar ao resultado final. Este processo consiste em cultivar sempre as melhoresvariedades conhecidas, em semear os gros e, quando uma variedade um pouco melhorchegue a produzirse, cultiv-la de preferncia a qualquer outra. Os horticultores da pocagrecolatina, que cultivavam as melhores pras que ento se podiam procurar, nopoderiam imaginar quo deliciosos frutos ns comeramos agora; seja como for, devemos,sem dvida alguma, estes excelentes frutos a que tm sido naturalmente escolhidas econservadas as melhores variedades conhecidas. 50. Estas considerveis modificaes efectuadas lentamente e acumuladas de maneirainconsciente explicam, julgo eu, o facto bem conhecido de, num grande nmero de casos,nos ser impossvel distinguir e, por conseguinte, reconhecer as origens selvagens dasplantas e das flores que, desde uma poca afastada, tm sido cultivadas nos nossosjardins e pomares. Se foram necessrias centenas ou mesmo milhares de anos paramodificar a maior parte das nossas plantas e para as aperfeioar de maneira que setornassem to teis ao homem, fcil compreender como nem a Austrlia, nem o Cabo daBoa Esperana, nem qualquer outro pas habitado pelo homem selvagem nos tenhafornecido qualquer planta digna de ser cultivada. Estes pases to ricos em espciesdevem possuir, sem dvida alguma, os tipos de muitas plantas teis; mas estas plantasindgenas no tm sido melhoradas por uma seleco contnua, e no tm sido trazidas,por isso, ao estado de aperfeioamento comparvel ao que tm atingido as plantascultivadas nos pases mais remotamente civilizados.Quanto aos animais domsticos dos povos selvagens, conveniente no esquecerque tm quase sempre, pelo menos durante algumas estaes, de procurar por si mesmoos alimentos. Ora, em dois pases muito diferentes com relao s condies de vida,indivduos pertencendo a uma mesma espcie, tendo, porm, uma constituio ou umaconformao ligeiramente diferentes, podem muitas vezes aclimatar-se melhor num pasque noutro; resulta que, por processo de seleco natural que mais adiante exporemosminuciosamente, podem formar-se duas sub-raas. talvez a, como o tm feito notarmuitos autores, que conveniente procurar a explicao do facto de, entre os selvagens,os animais domsticos terem muitos mais caracteres de espcies do que os animaisdomsticos dos pases civilizados.Se se ponderar bem o papel importante que tem desempenhado o poder selectivo dohomem, explicar-se- facilmente como as nossas raas domsticas, quer pela suaconformao, quer pelos seus hbitos, so to completamente adaptados s nossasnecessidades e caprichos. Encontramos, alm disso, a explicao do carcter tofrequentemente anormal das nossas raas domsticas e do facto de as suas diferenasserem to grandes, posto que as diferenas sofridas pelo organismo sejam relativamenteto pequenas. O homem no pode escolher seno os desvios de conformao queafectam o exterior; quanto aos desvios internos, s poderia escolh-los com a maiordificuldade, e pode mesmo acrescentar-se que pouco se incomoda com isso. Alm disso,apenas pode exercer o seu poder selectivo sobre variaes que a natureza lhe forneceu deprincpio. Ningum, por exemplo, teria jamais ensaiado produzir um pombopavo, antes deter visto um pombo cuja cauda oferecia um desenvolvimento um tanto inusitado; ningumteria procurado produzir um pombo Papudo, antes de ter notado uma dilatao excepcionaldo papo em uma destas aves; ora, quanto mais um desvio acidental apresenta um carcteranormal ou bizarro, tanto mais atrai a ateno do homem. Mas acabamos de empregar aexpresso: ensaiar produzir um pombo-pavo; isto, no h dvida, na maior parte doscasos, uma expresso absolutamente inexacta. O primeiro homem que escolheu, para ofazer reproduzir, um pombo cuja cauda era um pouco mais desenvolvida que a dos seuscongneres, nunca imaginou no que se tornariam os descendentes deste pombo em 51. seguida a uma seleco longamente continuada, quer inconsciente, quer metdica. Talvezo pombo, origem de todos os pombos-paves, tivesse s catorze penas caudais um poucoabertas em forma de leque, como o actual pombo-pavo de Java, ou como algunsindivduos de outras raas distintas entre os quais se contam at dezassete penas caudais.Talvez o primeiro pombo Papudo no inchasse mais o papo do que o actual Turbit quandodilata a parte superior do esfago, hbito a que nenhum dos criadores presta ateno,porque no um dos caracteres desta raa. 52. No seria preciso crer, contudo, que para prender a ateno do criador, o desvio deestrutura deve ser muito pronunciado.O criador, ao contrrio, nota as mais pequenas diferenas, porque prprio de cadahomem prender-se com qualquer novidade por insignificante que seja. No poderiajulgar-se da importncia que se atribua outrora a algumas diferenas entre indivduos damesma espcie, pela importncia que hoje se lhe atribui quando as diversas raas estobem estabelecidas. Sabe-se que pequenas variaes se apresentam ainda acidentalmenteentre os pombos, mas tm-se considerado como defeitos ou desvios do tipo de perfeioadmitido para cada raa. O Pato comum no tem fornecido variedades bem acentuadas;todavia, tm-se ultimamente exposto como espcies distintas, nas exposiesornitolgicas, a raa de Tolosa e a raa comum, que s diferem pela cor, isto , pelo maisfugaz de todos os caracteres.Estas diferentes razes explicam porque nada sabemos, ou quase nada, sobre aorigem ou sobre a histria das nossas raas domsticas. Mas, com efeito, podesustentar-se que uma raa, ou um dialecto, tenha uma origem distinta? 53. Um homem conserva e faz reproduzir um indivduo que apresenta qualquer leve desvio deconformao; ou ento dispensa mais cuidados do que faria de ordinrio para aparelhar osseus mais belos exemplares; fazendo isto, aperfeioa-os, e estes animais aperfeioadosespalham-se lentamente na vizinhana. No tm ainda um nome particular; poucoapreciados, a sua histria desprezada. Mas, se continua a seguir este processo lento egradual, e que, por consequncia, estes animais se aperfeioam cada vez mais, espalham-se extensamente, e termina-se por os reconhecer como raa distinta tendo algum valor;recebem ento um nome, provavelmente um nome de provncia. Nos pases meiocivilizados, onde as comunicaes so difceis, uma nova raa s se espalha muitolentamente. Os principais caracteres da nova raa sendo reconhecidos e apreciados peloseu justo valor, o princpio da seleco inconsciente, como o tenho chamado, ter semprepor efeito aumentar os traos caractersticos da raa, quaisquer que possam ser almdisso -sem dvida numa poca mais particular que outra, segundo a nova raa ou no damoda mais particularmente tambm num pas que noutro, segundo os habitantes so maisou menos civilizados. Mas, em todo o caso, muito pouco provvel que se conserve ahistria de mudanas to lentas e to insensveis. Circunstncias favorveis seleco pelo homem Convm agora indicar, ainda que resumidamente, as circunstncias que facilitam oucontrariam o exerccio da seleco feita pelo homem. Uma grande faculdade devariabilidade evidentemente favorvel, porque fornece todos os materiais sobre querepousa a seleco; todavia, simples diferenas individuais so mais que suficientes parapermitir, juntando-lhe ainda muitos cuidados, a acumulao de uma grande soma demodificaes em quase todos os sentidos. Contudo, como variaes manifestamente teisou agradveis ao homem se produzem apenas acidentalmente, tem-se tanto mais desejoem produzi-las quanto maior o nmero de indivduos que se tratam. O nmero , pois,um dos grandes elementos de sucesso. partindo deste princpio que Marshall fez notaroutrora, falando dos carneiros de certas partes de Yorkshire: Estes animais, pertencendoa gente pobre e estando, por isso, divididos em pequenos rebanhos, h poucaprobabilidade de jamais melhorarem. Por outra parte, os horticultores, que cultivamquantidades considerveis da mesma planta, acertam ordinariamente melhor que osamadores em produzir novas variedades. Para que um grande nmero de indivduos deuma espcie qualquer exista num mesmo pas, til que a espcie encontre a condiesde existncia favorveis sua reproduo. Quando os indivduos so em pequenonmero, permite-se a todos reproduzir-se, sejam quais forem de mais as suas qualidades,o que impede a aco seleccionante de se manifestar. Mas o ponto mais importante detodos, , sem contradio, que o animal ou a planta seja bastante til ao homem, ou tenhabastante valor a seus olhos, para que prenda a mais escrupulosa ateno aos menoresdesvios que podem produzir-se nas qualidades ou na conformao desse animal ou dessaplanta. Nada possvel sem estas precaues. Tenho ouvido fazer a srio a observao 54. de que o morangueiro comeou a variar precisamente quando os jardineiros prestaramateno a esta planta. Ora, no h dvida que o morangueiro devia variar desde quandose cultiva, somente foram desprezadas estas pequenas variaes. Desde, porm, que osjardineiros comearam a escolher as plantas que davam o maior fruto, o mais perfumado emais precoce, a semear os seus gros, a estrumar as plantas para fazer reproduzir asmelhores, e assim seguidamente, chegaram a obter, ajudados com os cruzamentos comoutras espcies, essas numerosas e admirveis variedades de morangos que tmaparecido nestes trinta ou quarenta ltimos anos. 55. Importa, para a formao de novas raas de animais, impedir tanto quanto possvelos cruzamentos, pelo menos num pas que encerra j outras raas. A este respeito, oscerrados gozam de um grande papel. Os selvagens nmadas, ou os habitantes dasplancies, possuem raramente mais de uma raa da mesma espcie. O pombo acasala-separa a vida; o que uma grande comodidade parao criador, que pode assim aperfeioar e fazer reproduzir fielmente muitas raas, contantoque habitem o mesmo pombal; esta circunstncia deve, alm disso, ter favorecidosingularmente a formao de novas raas. H um ponto que bom frisar: os pombosmultiplicam-se muito e muito depressa, e podem sacrificar-se todos os borrachosdefeituosos, porque servem para a alimentao. Os gatos, ao contrrio, devido aos seushbitos nocturnos e vagabundos, no podem ser facilmente acasalados, e, posto quetenham um grande valor aos olhos das mulheres e das crianas, vemos raramente umaraa distinta perpetuar-se entre si; as que se encontram, so, com efeito, quase sempreimportadas de outro pas. Alguns animais domsticos variam menos que outros, semdvida; podese, contudo, julgo eu, atribuir este facto a que a seleco lhes no tem sidoaplicada, e raridade ou ausncia de raas distintas no gato, no burro, no pavo, no pato,etc.; nos gatos, porque muito difcil acasal-los; nos burros, porque estes animais seencontram ordinariamente apenas na gente pobre, que se ocupa pouco em vigiar a suareproduo, e a prova que, muito recentemente, se chegou a modificar e a melhorarsingularmente este animal por uma seleco cuidadosa em certas partes de Espanha edos Estados Unidos; nos paves, porque este animal difcil de criar e no se conservaem grande quantidade; nos patos, porque esta ave tem somente valor pela carne e pelaspenas, e sobretudo, talvez, porque ningum tem desejado jamais multiplicar as raas. justo acrescentar que o Pato domstico parece ter um organismo singularmente inflexvel,posto haja variado um pouco, como j acima demonstrei. 56. Alguns autores tm afirmado que o limite da variao nos nossos animais domsticos cedo atingido e que no poderia ser ultrapassado. Seria talvez temerrio afirmar que olimite foi atingido num caso qualquer, porque quase todos os nossos animais e quasetodas as nossas plantas foram muito melhoradas de qualquer maneira num perodorecente; ora, estes aperfeioamentos implicam variaes. Seria igualmente temerrioafirmar que os caracteres, levados hoje at ao seu extremo limite, no podero, depois deestar fixos durante sculos, variar de novo em novas condies de existncia. Claro estque, como o fez notar M. Wallace com muita razo, se terminar por atingir um limite. H,por exemplo, um limite na velocidade de um animal terrestre, porque este limite determinado pela resistncia a vencer, pelo peso do corpo e pelo poder de contraco dasfibras musculares. Mas o que nos interessa, que as variedades domsticas das mesmasespcies diferem umas das outras, em quase todos os caracteres de que o homem se temocupado e de que faz objecto de seleco, muito mais do que fazem as espcies distintasdos mesmos gneros. Isidore Geoffroy de Saint-Hilaire demonstrou-o relativamente aotalhe; e da mesma forma para a cor, e provavelmente para o comprimento do plo. Quanto velocidade, que depende de tantos caracteres fsicos, Eclipse era muito mais rpido, eum cavalo de carro incomparavelmente mais forte que qualquer outro indivduopertencendo ao mesmo gnero. Da mesma forma para as plantas, os gros das diferentesqualidades de favas ou de milho diferem provavelmente mais, com relao ao tamanho, doque os gros de espcies distintas de um gnero qualquer pertencendo s mesmas duasfamlias. Esta nota aplica-se aos frutos das diferentes variedades de ameixieiras, maisainda aos meles e a um grande nmero de outros casos anlogos.Resumamos em algumas palavras o que h de relativo origem das nossas raas deanimais domsticos e das nossas plantas cultivadas. As alteraes nas condies deexistncia tm a mais alta importncia como causa de variabilidade, e porque estascondies actuam directamente sobre o organismo, e porque actuando indirectamenteafectam o sistema reprodutor. 57. No provvel que a variabilidade seja, em todas as circunstncias, uma resultanteinerente e necessria destas alteraes. A fora maior ou menor da hereditariedade e a datendncia regresso determinam ou no a constncia das variaes. Muitas leisdesconhecidas, de que a correlao de crescimento provavelmente a mais importante,regulam a variabilidade. Pode atribuir-se uma certa influncia aco definida dascondies de vida, mas no sabemos em que propores esta influncia se exerce. Podeconsiderar-se como causa, mesmo at como causa considervel, o aumento do uso ouno uso das partes.O resultado final, se se consideram todas estas influncias, torna-se infinitamentecomplexo. Em alguns casos, o cruzamento de espcies primitivas distintas parece terdesempenhado um papel muito importante do ponto de vista da origem das nossas raas.Desde que muitas raas foram formadas em qualquer regio, o seu cruzamento acidental,com auxlio da seleco, tem sem dvida contribudo poderosamente para a formao denovas variedades. Tem-se, todavia, exagerado consideravelmente a importncia doscruzamentos, tanto relativamente aos animais, como s plantas que se multiplicam porsementes. A importncia do cruzamento imensa, ao contrrio para as plantas que semultiplicam temporariamente por estacas, por garfos etc., porque o cultivador pode, nestecaso, desprezar a extrema variabilidade das hbridas e das mestias e a esterilidade dashbridas; mas as plantas que se no multiplicam por sementes tm para ns poucaimportncia, a sua durao apenas temporria. A aco acumuladora da seleco,quando seja metdica e rapidamente aplicada, ou o seja inconscientemente, lentamente,mas da forma mais eficaz, parece ter sido a maior potncia que tem presidido a todasestas causas de alterao. 58. Captulo II Variao no estado selvagem Variabilidade. - Diferenas individuais. -Espcies duvidosas. -As espcies tendo umhabitat muito extenso, as espcies muito espalhadas e as espcies comuns so as quemais variam. -Em cada pas, as espcies pertencendo aos gneros que contm maisespcies variam mais frequentemente que aquelas que pertencem aos gneros quecontm poucas espcies. -Muitas espcies pertencendo aos gneros que contm umgrande nmero de espcies assemelham-se s variedades, pois que esto aliadas muitode perto, mas desigualmente, entre si e porque tm um habitat restrito. VariabilidadeAntes de aplicar aos seres organizados vivendo no estado selvagem os princpiosque expusemos no captulo precedente, importa examinar rapidamente se estes ltimosesto sujeitos a variaes. Para tratar este assunto com a ateno que merece, serianecessrio apresentar um longo e rido catlogo de factos; reservo-os, porm, para umaobra prxima. Nem to-pouco discutirei aqui as diferentes definies dadas do termoespcie. Nenhuma destas definies tem satisfeito completamente todos os naturalistas, e,contudo, cada um deles sabe vagamente o que quer dizer quando fala de uma espcie.Ordinariamente o termo espcie implica o elemento desconhecido de um acto criadordistinto. igualmente difcil definir o termo variedade; todavia, este termo implica quasesempre uma comunidade de descendncia, posto que possam raramente fornecer-seprovas. Temos, igualmente, o que se designa sobo nome de monstruosidades; porm estas confundem-se com as variedades. Quando seemprega o termo monstruosidade, quer-se exprimir, penso eu, um desvio considervel deconformao, ordinariamente nocivo ou pelo menos pouco til espcie. Alguns autoresempregam o termo variao, no sentido tcnico, isto , como fazendo supor umamodificao que deriva directamente das condies fsicas da vida; ora neste sentido asvariaes no so susceptveis de ser transmitidas por hereditariedade. Quem poderiasustentar, contudo, que a diminuio do talhe das conchas das guas salobras do Bltico,ou a das plantas nos pncaros dos Alpes, ou o espessamento da pele de um animal rcticono so hereditrios durante algumas geraes pelo menos? Neste caso estas formas,suponho eu, chamar-se-iam variedades. 59. Pode duvidar-se que os desvios de estrutura to rpidos e to considerveis como osque observamos algumas vezes nas nossas produes domsticas, principalmente nasplantas, se propagam de maneira permanente no estado selvagem. Quase todas as partesde cada ser organizado so to admiravelmente dispostas, relativamente s condiescomplexas da existncia deste ser, que parece improvvel que cada uma destas partestenha atingido logo de pronto a perfeio, como pareceria improvvel que uma mquinamuito complicada tenha sido inventada pelo homem logo no estado perfeito. Nos animaisreduzidos domesticidade, produzem-se algumas vezes monstruosidades que seassemelham s conformaes normais em animais muito diferentes. Tambm os porcosnascem algumas vezes com uma espcie de tromba; ora se uma espcie selvagem domesmo gnero possusse naturalmente uma tromba, poderia sustentar-se que esteapndice apareceu sob a forma de monstruosidade. Mas, at ao presente, apesar deestudos escrupulosos, no pude encontrar caso algum de monstruosidade semelhandoses estruturas normais nas formas quase vizinhas, e so essas somente que teriamimportncia no caso que nos ocupa. Admitindo que monstruosidades semelhantesaparecem por vezes no animal no estado selvagem e que so susceptveis de transmissopor hereditariedade -o que no sempre o caso-a sua conservao dependeria decircunstncias extraordinariamente favorveis, porque elas se produzem raramente eisoladamente. Alm disso, durante a primeira gerao e geraes seguintes, os indivduosafectados destas monstruosidades deveriam cruzar-se com os indivduos ordinrios, e, porconsequncia, o seu carcter anormal desapareceria quase inevitavelmente. Mas euvoltarei, num captulo subsequente, conservao e perpetuao das variaes isoladasou acidentais. Diferenas individuaisPode dar-se o nome de diferenas individuais s diferenas numerosas e ligeiras quese apresentam nos descendentes dos mesmos pais, ou aos quais se pode indicar estacausa, porque se observam nos indivduos da mesma espcie, habitando a mesmalocalidade restrita. Ningum pode, de forma alguma, supor que todos os indivduos damesma espcie sejam fundidos no mesmo molde. Estas diferenas individuais tm parans a mais alta importncia, porque como cada um pode observar, transmitem-se muitasvezes por hereditariedade; demais, fornecem tambm materiais sobre os quais podeactuar a seleco natural acumulando da mesma maneira que o homem acumula, numadireco dada, as diferenas individuais destes produtos domsticos. Estas diferenasindividuais afectam ordinariamente partes que os naturalistas consideram como poucoimportantes; eu poderia contudo provar, por numerosos exemplos, que partes muitoimportantes, quer do ponto de vista fisiolgico, quer do ponto de vista da classificao,variam algumas vezes nos indivduos pertencendo a uma mesma espcie. Estouconvencido que o naturalista mais experimentado se surpreenderia com o nmero decasos de variabilidade que aparecem em rgos importantes; pode facilmente tomar-se 60. nota deste facto recolhendo, como eu fiz durante muitos anos, todos os casos verificadospor autoridades competentes. bom lembrar que aos naturalistas repugnasistematicamente admitir que os caracteres principais possam variar; h, alm disso,poucos naturalistas que queiram dar-se ao incmodo de examinar atentamente os rgosinternos importantes e compar-los com os numerosos especmenes pertencendo mesma espcie. Ningum poderia supor que a ramificao dos principais nervos, junto dogrande gnglio central do insecto, seja varivel na mesma espcie. Ter-se-ia podidopensar pelo menos que alteraes desta natureza no podem efectuar-se seno muitolentamente; contudo, sir John Lubbock demonstrou que nos Coccus existe uma grandevariabilidade que pode quase comparar-se ramificao irregular de um tronco de rvore.Posso acrescentar que este mesmo naturalista demonstrou que os msculos das larvas decertos insectos esto longe de ser uniformes. Os autores andam muitas vezes num crculovicioso quando sustentam que os rgos importantes no variam jamais; estes mesmosautores, com efeito, e necessrio dizer que alguns o tm confessado francamente, sconsideram como importantes os rgos que no variam. Porm, diga-se de passagemque, se raciocinarmos assim, no se poder citar exemplo algum de variao de um rgoimportante; mas, se os considerarmos noutro ponto de vista, podero certamente citar-senumerosos exemplos destas variaes. 61. H um ponto extremamente embaraoso, relativamente s diferenas individuais.Refiro-me aos gneros chamados proteus ou polimorfos, nos quais as espcies variam demaneira desmedida. Dificilmente se encontram dois naturalistas que estejam de acordo emclassificar estas formas como espcies ou variedades. Podem citar-se, como exemplos, osgneros Rubus, Rosa e Hieracium nas plantas; alguns gneros de insectos e de conchasde braquipodes. Na maior parte dos gneros polimorfos, algumas espcies tmcaracteres fixos e definidos. Os gneros polimorfos num pas parecem, com algumasexcepes, s-lo tambm num outro, e, se os julgarmos pelos braquipodes, estes tm-nosido noutras pocas. Estes factos so muito embaraosos, porque parecem provar queesta espcie de variabilidade independente das condies de existncia. Estou dispostoa crer que em alguns destes gneros polimorfos pelo menos, esto aquelas variaes queno so teis nem nocivas espcie, e que, por conseguinte, a seleco natural se noempenha em tornar definitivas, como ns explicaremos mais tarde. Sabe-se que,independentemente das variaes, certos indivduos pertencentes a uma mesma espcieapresentam muitas vezes grande diferena de conformao; assim, por exemplo, os doissexos de diferentes animais, as duas ou trs castas de fmeas estreis e obreiras nosinsectos, muitos animais inferiores no estado de larva ou ainda no chegados idadeadulta. Tm-se tambm verificado casos de dimorfismo e trimorfismo em animais eplantas. Assim, M. Wallace, que ultimamente chamou a ateno para este assunto,demonstrou que, no arquiplago malaio, as fmeas de certas espcies de borboletasrevestem regularmente duas ou mesmo trs formas absolutamente distintas que no estoligadas por qualquer variedade intermdia. Fritz Mller descreveu casos anlogos, masmais extraordinrios ainda, entre os machos de certos crustceos do Brasil. Assim ummacho encontra-se regularmente sob duas formas distintas; uma destas formas possuipinas fortes e tendo um aspecto diferente, a outra tem antenas mais abundantesguarnecidas de clios odorantes. Posto que, na maior parte destes casos, as duas ou trsformas observadas em animais e plantas no estejam ligadas actualmente por fuzisintermdios, provvel que em certa poca estes intermedirios existissem. M. Wallace,por exemplo, descreveu uma certa borboleta, que apresenta, numa mesma ilha, um grandenmero de variedades ligadas por anis intermedirios, e de que as formas extremas seassemelham estreitamente s duas formas de uma espcie dimorfa vizinha, habitandouma outra parte do arquiplago malaio. O mesmo se d com as formigas; as diferentescastas de obreiras so ordinariamente muito distintas; mas, em alguns casos, comoveremos mais tarde, estas castas esto ligadas umas s outras por variedadesimperceptivelmente graduadas. Observei os mesmos fenmenos em certas plantasdimorfas. Sem dvida, que parece a princpio extremamente notvel que a mesmaborboleta fmea possa produzir ao mesmo tempo trs formas fmeas distintas e uma smacho; ou ento que uma planta hermafrodita possa produzir, na mesma cpsula, trsformas hermafroditas distintas, tendo trs espcies femininas ou mesmo seis. Todavia,estes casos so apenas exageros do facto ordinrio, a saber: que a fmea produzdescendentes dos dois sexos, que, por vezes, diferem entre si de uma maneiraextraordinria. 62. Espcies duvidosasAs formas mais importantes para ns so, em vrios pontos de vista, aquelas que,apresentando num grau muito pronunciado o carcter das espcies, so muitosemelhantes a outras formas ou esto assaz perfeitamente ligadas com elas porintermedirios que aos naturalistas repugna considerar como espcies distintas. H toda arazo em julgar que um grande nmero destas formas vizinhas e duvidosas tmconservado os caracteres prprios de uma maneira permanente durante longo tempo,durante tanto tempo mesmo que no podemos avaliar quais as boas e verdadeirasespcies. Na prtica, quando um naturalista pode ligar duas formas por intermedirios,considera uma como variedade da outra; designa a mais comum, mas por vezes tambm aprimeira descrita, como espcie, e a segunda como variedade. Apresentam-se algumasvezes, contudo, casos muito difceis, que no enumerarei aqui, em que se trata de decidirse uma forma deve ser classificada como uma variedade de uma outra forma, ainda queestejam ligadas por formas intermdias; posto que, de ordinrio, se suponha que estasformas intermdias tenham uma natureza hbrida, isto no basta sempre para desfazer adificuldade. Em muitos casos considera-se uma forma como variedade de outra, noporque se encontrassem as formas intermdias, mas porque a analogia que entre elasexiste faz supor ao observador que estes intermedirios existem hoje, ou que existiramantigamente. Ora, falar assim, abrir a porta dvida ou a conjecturas.Para determinar, por conseguinte, se deve classificar-se uma forma como umaespcie ou como uma variedade, parece que o nico processo a seguir ser a opinio dosnaturalistas que tenham um excelente critrio e uma grande experincia; mas, muitasvezes, torna-se necessrio decidir pela maioria de opinies, porque h variedades bemconhecidas e bem distintas que crticos muito competentes tm considerado como tais,enquanto que outros muito competentes tambm as consideram como espcies. certo pelo menos que as variedades que tm esta natureza duvidosa so muitocomuns. Se compararmos a flora da Gr-Bretanha com a da Frana ou com a dos EstadosUnidos, floras descritas por diferentes botnicos, v-se que nmero surpreendente deformas tm sido classificadas por um botnico como espcies, e por outro comovariedades. M. H. C. Watson, ao qual estou muito reconhecido pelo concurso que meprestou, indicou-me 182 plantas inglesas, que se consideram ordinariamente comovariedades, mas que certos botnicos tm colocado na ordem das espcies; fazendo estalista, omitiu muitas variedades insignificantes, as quais, no obstante, tm sidoclassificadas como espcies por alguns botnicos, e omitiu inteiramente muitos gnerospolimorfos. M. Babington conta, nos gneros que compreendem o maior nmero dasformas polimorfas, 251 espcies, enquanto que M. Bentham apenas 112, o que faz umadiferena de 139 formas duvidosas! Entre os animais que se computam para cada ninhadae que gozam, em alto grau, da faculdade de locomoo, encontram-se raramente, nomesmo pas, formas duvidosas classificadas como espcies por um zologo e comovariedades por outro; mas estas formas so comuns em regies separadas. Quantas avesexistem e quantos insectos da Amrica Setentrional e da Europa, diferindo muito pouco 63. entre si, que tm sido contados, por um eminente naturalista, como espciesincontestveis, por outro como variedades, ou ento, como por vezes se lhe chama, comoraas geogrficas! M. Wallace demonstra, em muitas memrias notveis, que se podemdividir em quatro grupos os diferentes animais, principalmente os lepidpteros, quehabitam as ilhas do grande arquiplago malaio: as formas variveis, as formas locais, asraas geogrficas ou subespcies e as verdadeiras espcies representativas. As primeiras,ou formas variveis, variam muito nos limites de uma mesma ilha. As formas locais soassaz constantes e so distintas em cada ilha separada; mas, se compararmos umas soutras as formas locais das diferentes ilhas, v-se que as diferenas que as separam soto insignificantes e oferecem tantas graduaes, que impossvel defini-las edescrev-las, posto que ao mesmo tempo sejam suficientemente distintas as formasextremas. As raas geogrficas ou subespcies constituem formas locais completamentefixas e isoladas; mas, como no diferem umas das outras por caracteres importantes efortemente acentuados, necessrio fazer referncia unicamente opinio individualpara determinar quais convm considerar como espcies, quais como variedades. Enfim,as espcies representativas ocupam, na economia natural de cada ilha, o mesmo lugarque as formas locais e as subespcies; mas distinguem-se entre si por um conjunto dediferenas maior que aquelas que existem entre as formas locais e as subespcies; osnaturalistas consideram-nas quase todas como verdadeiras espcies. Todavia, no possvel indicar um critrio certo que permita reconhecer as formas variveis, as formaslocais, as subespcies e as espcies representativas. 64. H muitos anos, quando comparava e via outros naturalistas compararem umas comoutras e com as do continente americano as aves provindo de ilhas to vizinhas doarquiplago de Galpagos, fiquei profundamente ferido pela distino vaga e arbitrria queexiste entre as espcies e variedades. M. Wollaston, na sua admirvel obra, consideracomo variedades muitos dos insectos que habitam as ilhas do pequeno grupo da Madeira;ora, muitos dos entomlogos classificariam a maior parte delas como espcies distintas.H, mesmo na Irlanda, alguns animais que certos zologos colocam na ordem dasespcies. Muitos sbios ornitlogos julgam que o nosso galo de bruyre vermelho, no mais que uma variedade bastante pronunciada de uma espcie norueguesa; mas a maiorparte considera-o como uma espcie incontestavelmente particular Gr-Bretanha. Umafastamento considervel entre os habitats de duas formas duvidosas conduz muitosnaturalistas a classificarem estas ltimas como espcies distintas. Mas no haver razode perguntar: qual , neste caso, a distncia suficiente? Se a distncia entre a Amrica e aEuropa assaz considervel, bastar, por outra parte, a distncia entre a Europa e osAores, Madeira e as Canrias, ou a que existe entre as diferentes ilhas destes pequenosarquiplagos?M. B. D. Walsh, entomlogo distinto dos Estados Unidos, descreveu o que ele chamaas variedades e as espcies fitfagas. A maior parte dos insectos que se nutrem devegetais vivem exclusivamente sobre uma espcie ou sobre um grupo de plantas; algunsnutrem-se indistintamente de muitas espcies de plantas, mas no para eles uma causade variaes. Em muitos casos, contudo,M. Walsh observou que os insectos vivendo sobre plantas apresentam, quer no estado delarva, quer no estado perfeito, quer nos dois casos, diferenas ligeiras, posto queconstantes, do ponto de vista da cor, do talhe, ou da natureza das secrees. Algumasvezes os machos somente, outras vezes os machos e as fmeas apresentam estasdiferenas em fraco grau. Quando as diferenas so um pouco mais acentuadas e os doissexos so afectados em todas as idades, todos os entomlogos consideram estas formascomo espcies verdadeiras. Mas nenhum observador pode decidir por outro, admitindomesmo que possa fazlo s para si, a quais destas formas fitfagas convm dar o nomede espcies ou variedades. M. Walsh pe no nmero das variedades as formas que seentrecruzam facilmente; chama espcies s que parecem ter perdido esta faculdade deentrecruzamento. Como as diferenas provm de que os insectos se tm nutrido, durantemuito tempo, de plantas distintas, no se podem chegar a encontrar actualmente osintermdios ligando as diferentes formas. O naturalista perde assim o seu melhor guia,quando trata de determinar se deve dispor as formas duvidosas como variedades ou comoespcies. 65. O mesmo se d para todos os organismos vizinhos que habitam ilhas ou continentesseparados. Quando, ao contrrio, um animal ou uma planta se propaga no mesmocontinente, ou habita muitas ilhas do mesmo arquiplago, apresentando diversas formasnos diferentes pontos que ocupa, pode sempre esperar-se encontrar as formas intermdiasque, ligando entre si as formas extremas, fazem descer estas categoria de simplesvariedades.Alguns naturalistas sustentam que os animais nunca apresentam variedades; domesmo modo atribuem um valor especfico mais pequena diferena, e, quandoencontram uma mesma forma idntica em dois pases afastados, ou em duas formaesgeolgicas, afirmam que duas espcies distintas esto ocultas sob o mesmo invlucro. Otermo espcie torna-se, neste caso, uma simples abstraco intil, implicando e afirmandoum acto separado do poder criador. certo que muitas formas, consideradas comovariedades por crticos muito competentes, tm caracteres que as fazem assemelhar tobem s espcies, que outros crticos, no menos competentes, as consideram como tais.Mas discutir se necessrio cham-las espcies ou variedades, antes de ter encontradouma definio destes termos e que esta definio seja geralmente aceite, trabalhar emvo.Muitas das variedades bem acentuadas ou espcies duvidosas merecem despertar anossa ateno; tm-se apresentado, com efeito, numerosos e poderosos argumentos dadistribuio geogrfica das variaes anlogas da hibridez, etc., para ensaiar determinar aordem em que convm disp-las; mas no posso, por falta de espao, discutir aqui estesargumentos. Estudos atentos permitem sem dvida aos naturalistas entender-se para aclassificao destas formas duvidosas. necessrio juntar, contudo, que as encontramosem grande nmero nos pases mais conhecidos. Demais, se um animal ou uma planta noestado selvagem muito til ao homem, ou por qualquer causa fere vivamente a suaateno, verifica-se imediatamente que existem numerosas variedades que muitos autoresconsideram como espcies. O carvalho comum, por exemplo, uma das rvores que maisse tem estudado, e, contudo, um naturalista alemo classifica como espcies mais de umadzia de formas que os outros botnicos consideram quase universalmente comovariedades. Em Inglaterra, pode invocar-se a opinio dos mais eminentes botnicos e dosprticos mais experimentados; uns afirmam que os carvalhos cerquinhos e os carvalhospedunculados so espcies muito diferentes, outros afirmam que so simples variedades. 66. Visto que trato deste assunto, desejo citar uma notvel memria ultimamentepublicada por M. A. de Candolle sobre os carvalhos de todo o mundo. Ningum teve suadisposio materiais mais completos relativos aos caracteres distintivos das espcies,ningum poderia estudar esses materiais com mais cuidado e sagacidade. Comea porindicar minuciosamente os numerosos pontos de conformao susceptveis de variaesnas diferentes espcies, e avalia numericamente a frequncia relativa destas variaes.Indica mais de uma dzia de caracteres que variam, mesmo num s ramo, vrias vezesem razo da idade ou do desenvolvimento do indivduo, sem que para algumas se possaindicar qualquer causa a estas variaes. Claro est que semelhantes caracteres no tmvalor algum especfico; mas, como fez notar Asa Gray no seu comentrio a esta memria,estes caracteres fazem geralmente parte das definies especficas. De Candolleacrescenta que dispe como espcies as formas possuindo caracteres que jamais variamna mesma rvore e que jamais so reatadas por formas intermedirias. Depois destadiscusso, resultado de tanto trabalho, termina com esta nota: Aqueles que pretendemque a maior parte das nossas espcies so nitidamente delimitadas, e que as espciesduvidosas se encontram em pequena minoria, enganam-se certamente. Parece verdadeirode h muito tempo que um gnero imperfeitamente conhecido, e que se descrevem assuas espcies segundo alguns especmenes provisrios, se assim me posso exprimir. medida que se conhece melhor um gnero, descobrem-se formas intermedirias e asdvidas aumentam quanto aos limites especficos. Junta, tambm, que so as espciesmelhor conhecidas que apresentam maior nmero de variedades e de sub-variedadesespontneas. Assim o Quercus robur tem vinte e oito variedades, de que todas, exceptoseis, se agrupam em torno de trs subespcies, que so, Quercus pedunculata, sessiliflorae pubescens. As formas que ligam estas trs subespcias so comparativamente raras;porm, Asa Gray nota com justia que se estas formas intermdias, raras hoje, viessem aextinguir-se por completo, as trs subespcies encontrar-se-iam entre si exactamente namesma relao em que esto as quatro ou cinco espcies provisoriamente admitidas, asquais se agrupam de muito perto em volta do Quercus robur. Enfim, de Candolle admiteque, sobre as trezentas espcies que enumera na sua memria como pertencendo famlia dos carvalhos, dois teros, pelo menos, so espcies provisrias, isto , que essasespcies no so estritamente conformes definio dada mais acima para constituremuma espcie verdadeira. necessrio juntar que de Candolle no acredita que asespcies sejam criaes imutveis; chega concluso que a teoria de derivao a maisnatural e a que melhor concorda com os factos conhecidos em paleontologia, embotnica, em zoologia geogrfica, em anatomia e em classificao. 67. Quando um naturalista principiante comea o estudo de um grupo de organismos quelhe so completamente desconhecidos, v-se muito embaraado em determinar quais soas diferenas que deve considerar como prpras de uma espcie ou simplesmente deuma variedade; no sabe, com efeito, quais so a natureza e extenso das variaes deque o grupo de que trata susceptvel, facto que prova pelo menos quanto as variaesso gerais. Mas, se restringe os seus estudos a uma s classe, habitando um s pas,saber logo qual a disposio que convm dar maior parte das formas duvidosas. Aprincpio, est disposto a reconhecer muitas espcies, porque est maravilhado, assimcomo o criador de pombos e aves domsticas, de que temos j falado, da extenso dasdiferenas que existem entre as formas que estuda continuamente; alm disso, sabeapenas que variaes anlogas, que se apresentam em outros grupos e em outros pases,seriam de natureza a corrigir as suas primeiras impresses. medida que as suasobservaes tomam um desenvolvimento mais considervel, as dificuldades aumentam,porque se encontra em presena de um grande nmero de formas muito prximas.Supondo que as suas observaes tomam um carcter geral, acabar por poderdecidir-se; mas no conseguir este desiderato, a no ser que admita variaesnumerosas, e no faltaro naturalistas que contestem as suas concluses. Enfim, asdificuldades surgiro em abundncia, e ser forado a apoiar-se quase inteiramente sobrea analogia, quando chegar a estudar as formas vizinhas provindo hoje de pasesseparados, porque no poder encontrar os anis intermedirios que reatam estas formasduvidosas.At ao presente no se tem podido traar uma linha de demarcao entre asespcies e as subespcies, isto , entre as formas que, na opinio de alguns naturalistas,podiam ser quase consideradas como espcies sem o merecerem inteiramente. No setem podido, alm disso, traar uma linha de demarcao entre as subespcies e asvariedades bem caractersticas, ou entre as variedades apenas sensveis e as diferenasindividuais. Estas diferenas fundem-se uma na outra por graus insensveis constituindouma verdadeira srie; ora, a noo de srie implica a ideia de uma transformao real.Ainda que as diferenas individuais ofeream pouco interesse aos naturalistasclassificadores, considero que tm a mais alta importncia, visto que constituem osprimeiros degraus para estas variedades to ligeiras que se julga indic-las apenas nasobras sobre a histria natural. Creio que as variedades um pouco mais pronunciadas, umpouco mais persistentes, conduzem a outras variedades mais pronunciadas e maispersistentes ainda; estas ltimas conduzem subespcie, e por fim espcie. Apassagem de um grau de diferena a outro pode, em muitos casos, resultar simplesmenteda natureza do organismo e das diferentes condies fsicas a que tem estado muitotempo exposto. Mas a passagem de um grau de diferena para um outro, quando se tratade caracteres de adaptao mais importantes, pode atribuir-se seguramente acoacumuladora da seleco natural, que eu explicarei mais tarde, e aos efeitos de aumentode uso e no uso das partes. Pode dizer-se ento que uma variedade grandementeacentuada o comeo de uma espcie. Esta assero tem fundamento ou no? o quese poder julgar depois de se terem avaliado com cuidado os argumentos e os diferentes 68. factos que fazem o objecto deste volume. 69. Seria necessrio supor, alm disso, que todas as variedades ou espcies em vias deformao atingem a classificao de espcies. Podem extinguir-se, ou podem perpetuar-secomo variedades durante longos perodos; M. Wollaston demonstrou que isto se passavaassim com respeito s variedades de certas conchas terrestres fsseis da Madeira, e M.Gaston de Saporta o mesmo demonstrou relativamente a certas plantas. Se umavariedade toma um desenvolvimento tal, que o nmero dos seus indivduos ultrapassa o daespcie origem, certo que se considera a variedade como espcie e a espcie comovariedade. Ou, ento, pode fazer-se ainda com que a variedade suplante e extermine aespcie origem; ou, ainda, podem coexistir ambas e serem ambas consideradas comoespcies independentes. Voltaremos a este assunto daqui a pouco.Compreender-se- depois destas notas, que, segundo a minha opinio, se tem, porcomodidade, aplicado arbitrariamente o termo espcie a certos indivduos que se parecemde perto, e que este termo no difere essencialmente do termo variedade dado s formasmenos distintas e mais variveis. necessrio acrescentar, por outro lado, que o termovariedade, comparativamente ao de simples diferenas individuais, tambm aplicadoarbitrariamente com o fim de ser mais cmodo. As espcies comuns e muito espalhadas so as que variam maisPensava eu, guiado por consideraes tericas, que poderiam obter-se algunsresultados interessantes relativamente natureza e relao das espcies que variammais, formando um quadro de todas as variedades de muitas floras bem estudadas.Acreditava, a princpio, que fosse um trabalho muito simples; mas M. H. C. Watson, aoqual devo importantes conselhos e um auxlio precioso sobre esta questo, me mostroulogo que eu encontraria muitas dificuldades; o Dr. Hooker exprimiu-me a mesma opinioem termos mais enrgicos ainda. Reservo, para um trabalho futuro, a discusso destasdificuldades e os quadros que indicam os nmeros proporcionais das espcies variveis. ODr. Hooker autoriza-me a acrescentar que depois de ter lido com ateno o meumanuscrito e examinado estas diferentes tabelas, compartilha da minha opinio, quanto aoprincpio que acabo de estabelecer. Seja como for, esta questo, tratada em brevespalavras como necessrio que aqui o seja, assaz embaraosa quanto a no poderevitar aluses luta pela existncia, divergncia de caracteres e algumas outrasquestes que discutiremos mais tarde. 70. Alphonse de Candolle e alguns outros naturalistas demonstraram que as plantastendo um habitat muito extenso tm ordinariamente variedades. Isto perfeitamentecompreensvel, porque estas plantas esto expostas a diversas condies fsicas, eencontram-se em concorrncia (o que, como vamos ver mais adiante, igualmenteimportante ou mesmo mais importante ainda) com diferentes sries de seres organizados.Todavia, os nossos quadros mostram por outro lado que, em todo o pas limitado, asespcies mais comuns, isto , aquelas que tm maior nmero de indivduos e os maisespalhados no seu prprio pas (considerao diferente da de habitat considervel e, atcerto ponto, da de uma espcie comum), oferecem, as mais das vezes, variedades assazacentuadas para que delas se faa meno nas obras sobre botnica. Pode, por isso,dizer-se que as espcies que tm um habitat considervel, que so as mais espalhadas noseu pas natal, e a que pertencem o maior nmero de indivduos, so as espciesflorescentes ou espcies dominantes, como poderia chamar-se-lhes, e so essas queproduzem as mais das vezes variedades to acentuadas que as considero como espciesnascentes. Poderiam, talvez, preverse estes resultados; em verdade, as variedades, a fimde tornar-se permanentes, tm necessariamente de lutar contra os outros habitantes domesmo pas; ora as espcies que dominam j so as mais prprias a produzirdescendentes, que, posto que modificados num certo grau, herdam ainda superioridadesque permitem a seus pais vencer os concorrentes. Diga-se de passagem que estas notassobre o predomnio somente se aplicam s formas que entram em concorrncia comoutras formas, e, mais especialmente, aos membros de um mesmo gnero ou de umamesma classe tendo hbitos quase semelhantes. 71. Quanto ao nmero de indivduos, a comparao, claro est, aplica-se somente aosmembros de um mesmo grupo. Pode dizer-se que uma planta domina se muitoespalhada, ou se o nmero dos indivduos que comporta mais considervel que o deoutras plantas do mesmo pas vivendo em condies quase anlogas. Uma tal planta no menos dominante porque algumas confervas aquticas ou alguns cogumelos parasitastm um maior nmero de indivduos e so mais geralmente espalhadas; mas, se umaespcie de confervas ou de cogumelos parasitas ultrapassa as espcies vizinhas do pontode vista que acabamos de indicar, ser uma espcie dominante na sua prpria classe. As espcies dos gneros mais ricos em cada pas variam mais frequentementeque as espcies menos ricosSe se dividem em duas massas iguais as plantas que habitam um pas, tais como sodescritas na sua flora, e se colocam de um lado as que pertencem aos gneros mais ricos,isto , aos gneros que compreendem mais espcies, e de outro os gneros mais pobres,ver-se- que os gneros mais ricos compreendem maior nmero de espcies muitocomuns, muito espalhadas, ou como ns lhes chamamos, espcies dominantes. Isto eraainda de prever; com efeito, o simples facto de muitas espcies do mesmo gnerohabitarem um pas demonstra que h, nas condies orgnicas ou inorgnicas deste pas,qualquer coisa que particularmente favorvel a este gnero; por consequncia, era deesperar que se encontrasse nos gneros mais ricos, isto , naqueles que compreendemmuitas espcies, um nmero relativamente mais considervel de espcies dominantes.Todavia, h tantas causas em jogo tendentes a contrabalanar este resultado, que mesurpreende como os meus quadros indicam mesmo uma pequena maioria em favor dosgrandes gneros. As plantas de gua doce e as de gua salgada esto ordinariamentemuito espalhadas e tm uma extenso geogrfica considervel, mas isto parece resultarda natureza das estaes que ocupam e ter pouca ou nenhuma relao com a importnciados gneros a que estas espcies pertencem. Demais, as plantas colocadas muito baixona escala da organizao so, ordinariamente, muito mais espalhadas que as plantasmelhor organizadas; ainda aqui, no h relao alguma imediata com a importncia dosgneros. Voltarei a falar, no captulo da distribuio geogrfica, com respeito causa dagrande disseminao das plantas de organizao inferior.Partindo deste princpio, que as espcies so apenas variedades bem talhadas edefinidas, eu fui levado a supor que as espcies dos gneros mais ricos em cada pasdevem oferecer mais variedades que as espcies dos gneros menos ricos; porque, cadavez que as espcies vizinhas se tm formado (falo de espcies do mesmo gnero), muitasvariedades ou espcies nascentes devem, em regra geral, estar actualmente em via deformao. Por toda a parte onde crescem grandes rvores, podemos esperar encontrar-seplantas novas. Por toda a parte onde muitas espcies de um gnero se tm formado emvirtude de variaes, que circunstncias exteriores favorecem a variabilidade. 72. Alm disso, se se considerar cada espcie como o resultado de tantos actosindependentes da criao, no h razo alguma para que os grupos compreendendomuitas espcies apresentem mais variedades que os grupos que menos apresentam.Para verificar a verdade desta induo, classifiquei as plantas de doze pases e osinsectos colepteros de duas regies em dois grupos quase iguais, pondo de um lado asespcies pertencentes aos gneros mais ricos, e de outro as que pertencem aos gnerosmenos ricos; ora, tem-se encontrado invariavelmente que as espcies pertencentes aosgneros mais ricos oferecem mais variedades do que as que pertencem a outros gneros.Por outro lado, as primeiras apresentam um maior nmero de variedades do que asltimas. Os resultados so os mesmos quando se segue um outro modo de classificao equando se excluem dos quadros os menores gneros, isto , os gneros que possuemapenas de uma a quatro espcies. Estes factos tm uma alta significao seconsiderarmos que as espcies so apenas variedades permanentes e bem talhadas;porque, em toda a parte onde se formam muitas espcies do mesmo gnero, ou, sepudssemos empregar esta expresso, em toda a parte onde as causas desta formaotenham sido muito activas, devemos acreditar que estas causas estejam ainda em aco,apesar de que temos toda a razo para crer que a formao das espcies deve ser muitolenta. Este , certamente, o caso em que se consideram as variedades como espciesnascentes, porque os meus quadros demonstram claramente que, em regra geral, em todoo lugar em que muitas espcies de um gnero se formam, as espcies deste gneroapresentam um nmero de variedades, isto , de espcies nascentes, muito abaixo damdia. No quer isto dizer que todos os gneros muito ricos variem actualmente eacrescentem assim o nmero das suas espcies, ou que os gneros menos ricos novariem e no aumentem, o que seria fatal minha teoria; a geologia prova-nos com efeitoque, no correr dos tempos, os gneros pobres tm aumentado muito e que os gnerosricos, depois de atingirem um mximo, declinaram e acabaram por desaparecer. Tudo oque queremos demonstrar, que em toda a parte em que muitas espcies de um gnerose formam, muitas em mdia se formam ainda, e certamente o que fcil de provar. 73. Muitas espcies compreendidas nos gneros mais ricos assemelham-se avariedades porque esto muito estreitamente, mas desigualmente, prximas umasdas outras, e porque tm um Habitat muito limitado.Outras relaes entre as espcies dos gneros ricos e as variedades que delasdependem, merecem a nossa ateno. Temos visto que no h critrio infalvel que nospermita distinguir entre as espcies e as variedades bem acentuadas. Quando sedescobrem fuzis interinedirios entre as formas duvidosas, os naturalistas so forados adecidir-se tendo em conta a diferena que existe entre as formas duvidosas, para julgar,por analogia, se esta diferena satisfaz para as considerar como espcies. Portanto, adiferena um critrio muito importante que nos permite classificar duas formas comoespcies ou como variedades. Ora, Fries notou nas plantas, e Westwood nos insectos,que, nos gneros ricos, as diferenas entre as espcies so muitas vezes insignificantes.Tenho procurado apreciar numericamente este acto pelo mtodo das mdias; os meusresultados so imperfeitos, mas no confirmam menos esta hiptese. Consultei tambmalguns bons observadores, e depois de maduras reflexes tm partilhado da minhaopinio. A este respeito, pois, as espcies dos gneros ricos assemelham-se svariedades mais que as espcies dos gneros pobres. Por outros termos, pode dizer-seque para os gneros ricos em que se produz actualmente um nmero de variedades, ouespcies nascentes, maior que a mdia, muitas das espcies j produzidas parecem-seainda com as variedades, porque diferem menos umas das outras, o que no comum.Demais, as espcies dos gneros ricos oferecem entre si as mesmas relaes que seconstatam entre as variedades da mesma espcie. Nenhum naturalista ousaria sustentarque todas as espcies de um gnero so igualmente distintas umas das outras; podemordinariamente dividir-se em subgneros, em seces ou em grupos inferiores. Como Frieso fez notar muito bem, alguns pequenos grupos de espcies renem-se ordinariamentecomo satlites volta de outras espcies. Ora, o que so as variedades, seno grupos deorganismos desigualmente aparentados uns com os outros e reunidos em torno de certasformas, isto , volta de espcies tipos? H, sem dvida, uma diferena importante entreas variedades e as espcies, quer dizer que a soma das diferenas que existem entre asvariedades comparadas entre si, ou com a espcie tipo, muito menor que a soma dasdiferenas que existem entre as espcies do mesmo gnero. Quando, porm, tornarmos adiscutir o princpio da divergncia dos caracteres, encontraremos a explicao deste facto,e veremos tambm como se faz com que as pequenas diferenas entre as variedadestendam a crescer e a atingir gradualmente o nvel das diferenas maiores que caracterizamas espcies. 74. Ainda um ponto digno de ateno. As variedades tm geralmente uma distribuiomuito restrita; quase uma banalidade esta assero, porque se uma variedade tivesseuma distribuio maior do que a espcie que se lhe atribui como origem, a suadenominao seria reciprocamente inversa. Mas h razo para acreditar que as espciesmuito prximas de outras espcies, e que sob tal relao se parecem com as variedades,oferecem tambm muitas vezes uma distribuio limitada. Assim, por exemplo, M. H. C.Watson quis bem indicar-me, no excelente Catlogo das Plantas de Londres (4.a edio),63 plantas que a se encontram mencionadas como espcies, mas que considera comoduvidosas por causa da sua estreita analogia com outras espcies. Estas sessenta e trsespcies estendem-se em mdia a 69 das provncias ou distritos botnicos em que M.Watson dividiu a Gr-Bretanha. Neste mesmo catlogo, encontram-se 53 variedadesreconhecidas estendendo-se a 77 destas provncias, enquanto que as espcies a que seligam estas variedades se estendem a 143 provncias. Resulta destes nmeros que asvariedades, reconhecidas como tais, tm pouco mais ou menos a mesma distribuiorestrita que estas formas muito prximas que M. Watson me indicou como espciesduvidosas, mas que so universalmente consideradas pelos botnicos ingleses como boase verdadeiras espcies. Resumo Em resumo, podem distinguir-se as variedades das espcies: 1, pela descoberta deanis intermedirios; 2, por uma certa soma pouco definida de diferenas que existementre umas e outras. Com efeito, se duas formas diferem muito pouco, classificam-seordinariamente como variedades, posto que se no possam reatar directamente entre si;mas no se saberia definir a soma das diferenas necessrias para dar s duas formas acategoria de espcies. Entre os gneros apresentados, num pas qualquer, um nmero deespcies superior mdia, as espcies apresentam tambm uma mdia de variedadesmais considervel. Entre os grandes gneros, as espcies esto frequentemente, aindaque num grau desigual, muito prximas umas das outras, e formam pequenos grupos emvolta de outras espcies. As espcies muito prximas tm ordinariamente uma distribuiorestrita. Atendendo a estas diversas razes, as espcies dos grandes gneros apresentamgrandes analogias com as variedades. Ora fcil dar-se conta destas analogias, se separte deste princpio que cada espcie existiu primeiro como variedade, sendo a variedadea origem da espcie; estas analogias, ao contrrio, ficam inexplicveis se se admitir quecada espcie foi criada separadamente. 75. Temos visto tambm o que so as espcies mais florescentes, isto , as espciesdominantes, dos maiores gneros de cada classe que produzem em mdia o maiornmero de variedades; ora, estas variedades, como veremos mais tarde, tendem aconverter-se em espcies novas e distintas. Assim, os gneros mais ricos tm umatendncia a tornar-se mais ricos ainda; e, em toda a natureza, as formas vivas, hojedominantes, manifestam esta tendncia cada vez mais, porque produzem muitosdescendentes modificados e dominantes. Mas, por uma marcha gradual que explicaremosmais tarde, os maiores gneros tendem tambm a fraccionar-se em gneros menores. assim que, em todo o universo, as formas viventes se encontram divididas em grupossubordinados a outros grupos. 76. Captulo III Luta pela existnciaA sua influncia sobre a seleco natural.-Esta palavra tomada em sentido figurado.-Progresso geomtrica do aumento dos indivduos -Aumento rpido dos animais e dasplantas aclimatados. -Natureza dos obstculos que impedem este aumento. -Concorrnciauniversal. -Efeitos do clima. -O grande nmero de indivduos torna-se uma proteco.-Relaes complexas entre todos os animais e entre todas as plantas. -A luta pelaexistncia muito encarniada entre os indivduos e entre as variedades da mesmaespcie, e muitas vezes tambm entre as espcies do mesmo gnero. -As relaes deorganismo para organismo so as mais importantes de todas as relaes.Antes de entrar na discusso do assunto deste captulo, bom indicar, ainda queresumidamente, qual a influncia da luta pela existncia sobre a seleco natural. Vimosno captulo precedente, que existe uma certa variabilidade individual entre os seresorganizados no estado selvagem; no creio, alm disso, que este ponto tenha sidocontestado. Pouco importa que se d o nome de espcies, de subespcies ou devariedades a um conjunto de formas duvidosas; pouco importa, por exemplo, a ordem quese designa para duzentas ou trezentas formas duvidosas das plantas britnicas, visto quese admite a existncia de variedades bem caracterizadas. Mas o nico facto da existnciade variabilidades individuais e de algumas variedades bem acentuadas, ainda quenecessrias como ponto de partida para a formao das espcies, ajuda-nos muito poucoa compreender como se formam estas espcies no estado natural, como soaperfeioadas todas estas admirveis adaptaes de uma parte do organismo nas suasrelaes com outra parte, ou com as condies de vida, ou ainda as relaes de um serorganizado com outro. As relaes do picano e do visco oferecem-nos um exemplofrisante destas admirveis coadaptaes. Talvez os exemplos, que vo seguir-se, sejamum pouco menos surpreendentes, mas a coadaptao no existe menos entre o maishumilde parasita e o animal ou a ave com plos ou com penas s quais se prende; naestrutura do escaravelho que mergulha na gua; no gro com plos que a mais leve brisatransporta; numa palavra, podemos notar admirveis adaptaes por toda a parte e emtodas as partes do mundo organizado. 77. Pode ainda perguntar-se como que as variedades, que eu chamo espciesnascentes, acabaram por se converter em espcies verdadeiras e distintas, as quais, namaior parte dos casos, diferem evidentemente muito mais umas das outras que asvariedades de uma mesma espcie; como se formam estes grupos de espcies, queconstituem o que se chamam gneros distintos, e que diferem mais uns dos outros que asespcies do mesmo gnero? Todos estes efeitos, como explicaremos de maneira maisminuciosa no captulo seguinte, dimanam de uma causa: a luta pela existncia. Devido aesta luta, as variaes, por mais fracas que sejam e seja qual for a causa de ondeprovenham, tendem a preservar os indivduos de uma espcie e transmitem-seordinariamente descendncia logo que sejam teis a esses indivduos nas suas relaesinfinitamente complexas com os outros seres organizados e com as condies fsicas davida. Os descendentes tero, por si mesmo, em virtude deste facto, maior probabilidadeem persistir; porque, dos indivduos de uma espcie nascidos periodicamente, um pequenonmero pode sobreviver. Dei a este princpio, em virtude do qual uma variao, porinsignificante que seja, se conserva e se perpetua, se for til, o nome de seleco natural,para indicar as relaes desta seleco com a que o homem pode operar. Mas aexpresso que M. Herbert Spencer emprega: a persistncia do mais apto, mais exactae algumas vezes mais cmoda. Vimos que, devido seleco, o homem pode certamenteobter grandes resultados e adaptar os seres organizados s suas necessidades,acumulando as ligeiras mas teis variaes que lhe so fornecidas pela natureza. Mas aseleco natural, como veremos mais adiante, um poder sempre pronto a actuar; poderto superior aos fracos esforos do homem como as obras da natureza so superiores sda arte. Discutamos agora, um pouco mais minuciosamente, a luta pela existncia. Tratareieste assunto com os desenvolvimentos que merece numa obra futura. De Candolle, ovelho, e Lyell demonstraram, com a sua habitual perspiccia, que todos os seresorganizados tm que sustentar uma terrvel concorrncia. Ningum tratou este assunto,relativamente s plantas, com mais elevao e talento que M. W. Herbert, deo deManchester; o seu profundo conhecimento de botnico punha-o em condies de o fazercom toda a autoridade. Nada mais fcil que admitir a verdade deste princpio: a lutauniversal pela existncia; nada mais difcil -e falo por experincia -do que ter este princpiosempre presente ao esprito; pois no sendo assim ou se v mal toda a economia danatureza, ou se erra com respeito ao sentido que convm atribuir a todos os factosrelativos distribuio, raridade, abundncia, extino e s variaes dos seresorganizados. Contemplamos a natureza exuberante de beleza e de prosperidade, enotamos muitas vezes uma superabundncia de alimentao; mas no vemos, ouesquecemos, que as aves, que cantam empoleiradas descuidadamente num ramo, senutrem principalmente de insectos ou de gros, e que, fazendo isto, destroemcontinuamente seres vivos; esquecemos que as aves carnvoras e os animais de presaesto espreita para destruir quantidades considerveis destes alegres cantores,devastando-lhes os ovos ou devorando-lhes os filhos; no nos lembramos sempre que, seh superabundncia de alimentao em certas pocas, o mesmo se no d em todas as 78. estaes do ano. 79. A expresso: luta pela existncia no sentido figuradoDevo fazer notar que emprego o termo luta pela existncia no sentido geral emetafrico, o que implica as relaes mtuas de dependncia dos seres organizados, e, oque mais importante, no somente a vida do indivduo, mas a sua aptido e bom xitoem deixar descendentes. Pode certamente afirmar-se que dois animais carnvoros emtempo de fome, lutam um com o outro em busca de alimentos necessrios suaexistncia. Mas chegar-se- a dizer que uma planta, beira de um deserto, luta pelaexistncia contra a falta de gua, posto que fosse mais exacto dizer que a sua existnciadepende da humidade. Poder-se-ia dizer com mais exactido que uma planta, que produzanualmente um milho de sementes, das quais uma, em mdia, chega a desenvolver-se ea amadurecer por seu turno, luta com as plantas da mesma espcie, ou espciesdiferentes, que cobrem j o solo. O visco depende da macieira e de algumas outrasrvores; ora, somente no sentido figurado que se poder dizer que luta contra estasrvores, porque se grande nmero de parasitas se estabelecem na mesma rvore, estaenfraquece e morre; mas pode dizer-se que muitos viscos, vivendo em conjunto sobre omesmo ramo e produzindo sementes, lutam uns com os outros. Como so as aves queespalham as sementes do visco, a sua existncia depende delas, e poder dizer-se, emsentido figurado, que o visco luta com as outras plantas que tenham frutos, porque importaa cada planta levar os pssaros a comer os frutos que produz, para disseminar assementes. Emprego, pois, para mais comodidade, o termo geral luta pela existncia,nestes diferentes sentidos que se confundem uns com os outros. 80. Progresso geomtrica do aumento dos indivduos A luta pela existncia resulta inevitavelmente da rapidez com que todos os seresorganizados tendem a multiplicar-se. Todo o indivduo que, durante o termo natural davida, produz muitos ovos ou muitas sementes, deve ser destrudo em qualquer perodo dasua existncia, ou durante uma estao qualquer, porque, de outro modo, dando-se oprincpio do aumento geomtrico, o nmero dos seus descendentes tornar-se-ia toconsidervel, que nenhum pas os poderia alimentar. Tambm, como nascem maisindivduos que os que podem viver, deve existir, em cada caso, luta pela existncia, quercom outro indivduo da mesma espcie, quer com indivduos de espcies diferentes, quercom as condies fsicas da vida. a doutrina de Malthus aplicada com a maisconsidervel intensidade a todo o reino animal e vegetal, porque no h nem produoartificial de alimentao, nem restrio ao casamento pela prudncia. Posto que algumasespcies se multiplicam hoje mais ou menos rapidamente, no pode ser o mesmo paratodas, porque a terra no as poderia comportar. No h excepo nenhuma regra que se todo o ser organizado se multiplicassenaturalmente com tanta rapidez, e no fosse destrudo, a terra em breve seria coberta peladescendncia de um s par. O prprio homem, que se produz to lentamente, veria o seunmero dobrado todos os vinte e cinco anos, e, nesta proporo, em menos de mil anos,no haveria espao suficiente no Globo onde pudesse conservar-se de p. Lineu calculouque, se uma planta anual produz somente duas sementes - e no h planta que to poucoproduza e no ano seguinte cada uma destas sementes desse novas plantas queproduzissem outras duas sementes, e assim seguidamente, chegar-se-ia em vinte anos aum milho de plantas. De todos os animais conhecidos, o elefante, assim se julga, o quese reproduz mais lentamente. Fiz alguns clculos para avaliar qual seria provavelmente ovalor mnimo do seu aumento em nmero. Pode, sem temor de errar, admitir-se quecomea a reproduzir-se na idade de trinta anos, e que continua at aos noventa; nesteintervalo, produz seis filhos, e vive por si mesmo at idade de cem anos. Ora, admitindo estes nmeros, em setecentos e quarenta ou setecentos e cinquentaanos, haveria dezanove milhes de elefantes vivos, todos descendentes do primeiro casal. Mas, temos melhor, sobre o assunto, do que os clculos tericos, temos provasdirectas, isto , os numerosos casos observados da rapidez assombrosa com que semultiplicam certos animais no estado selvagem, quando as circunstncias lhes sofavorveis durante duas ou trs estaes. Os nossos animais domsticos, tornadosselvagens em muitas partes do mundo, oferecemnos uma prova muito frisante ainda destefacto. Se no tivssemos dados autnticos sobre o aumento das bestas e dos cavalos -quetodavia se reproduzem to lentamente -na Amrica Meridional e mais recentemente naAustrlia, no se poderia decerto acreditar nos nmeros que se indicam. Da mesma formapara as plantas; poderiam citar-se numerosos exemplos de plantas importadas tornadascomuns numa ilha em menos de dez anos. Muitas plantas, tais como o cardo e o grandecardo, que so hoje as mais comuns nas grandes plancies do Prata, e que cobremespaos de muitas lguas quadradas, com excluso de qualquer outra planta, foram 81. importadas da Europa. 82. O Dr. Falconer diz-me que h hoje nas ndias plantas comuns, desde o cabo Comorinao Himalaia, que foram importadas da Amrica, necessariamente desde a descobertadesta ltima parte do mundo. Nestes casos, e em tantos outros que poderiam citar-se,ningum supe que a fecundidade dos animais e das plantas tenha de repente aumentadode uma maneira to sensvel. As condies de vida so de todo favorveis, e, porconseguinte, os pais vivem muito mais tempo, e todos ou quase todos os filhos sedesenvolvem; tal , evidentemente, a explicao destes factos. A progresso geomtricado seu aumento, progresso cujos resultados jamais deixam de surpreender, explicafacilmente este aumento to rpido, to extraordinrio, e a sua distribuio considervelnuma nova ptria.No estado selvagem, quase todas as plantas chegadas h maturao produzemanualmente sementes, e, nos animais, poucos h que se no copulem. Podemos poisafirmar, sem receio de engano, que todas as plantas e todos os anhnais tendem amultiplicar-se segundo uma progresso geomtrica; ora, esta tendncia deve ser reprimidapela destruio de indivduos em certos perodos da vida, porque, de outra maneira,invadiriam todos os pases e no poderiam subsistir. A nossa familiaridade com os grandesanimais domsticos tende, creio eu, a dar-nos ideias falsas; no vemos para eles casoalgum de destruio geral, mas no nos lembramos que se abatem, cada ano, milharesdeles para a nossa alimentao, e que no estado selvagem uma outra causa devecertamente produzir igual efeito.A nica diferena que h entre os organismos que produzem anualmente um grandenmero de ovos ou de sementes e os que produzem muito pouco, que seriamnecessrios mais anos para estes ltimos povoarem uma regio colocada em condiesfavorveis, por mais extensa que fosse. O condor pe dois ovos, e o avestruz vinte, econtudo, num mesmo pas, o condor pode ser a ave mais numerosa das duas. Osalbatrozes pem apenas um ovo, e contudo considera-se esta espcie de ave a maisnumerosa que h no mundo. Tal mosca deposita centenas de ovos; tal outra, como ahipobosca, no deposita mais que um; mas esta diferena no determina quantosindivduos das duas espcies podem encontrar-se na mesma regio. Uma grandefecundidade tem alguma importncia para as espcies cujas existncias dependem deuma quantidade de alimentao essencialmente varivel, porque ela lhes permite crescerrapidamente em nmero num momento dado. Mas a importncia real do grande nmero deovos ou de sementes compensar uma destruio considervel num certo perodo davida; ora, este perodo de destruio, na maioria dos casos, apresenta-se cedo. Se oanimal tem poder para proteger de qualquer maneira os ovos ou os filhos, uma reproduopouco considervel basta para manter no seu mximo o nmero dos indivduos daespcie; se, ao contrrio, os ovos e os filhos so expostos a uma fcil destruio, areproduo deve ser considervel para que a espcie se no extinga. Bastaria, paraconservar no mesmo nmero os indivduos de uma espcie de rvore, vivendo em mdiaum milhar de anos, que uma s semente fosse produzida uma vez todos os mil anos, mascom a expressa condio de tal semente no ser destruda, e ser colocada em lugar ondepudesse desenvolver-se. Assim, pois, e em todos os casos, a quantidade de sementes ou 83. de ovos produzidos tem unicamente uma influncia indirecta sobre o nmero mdio dosindivduos de uma espcie animal ou vegetal. 84. necessrio, por isso, quando se contempla a natureza, estar-se compenetrado dasobservaes que acabamos de fazer; necessrio no esquecer que cada ser organizadose esfora sempre por multiplicar-se; que cada um deles sustenta uma luta durante umcerto perodo da sua existncia; que os novos e os velhos esto inevitavelmente expostosa uma destruio incessante, quer durante cada gerao, quer em certos intervalos.Quando um desses obstculos acaba por afrouxar, ou a destruio pra por pouco queseja,o nmero dos indivduos de uma espcie sobe rapidamente a uma conta considervel. Da natureza dos obstculos multiplicao As causas que obstam tendncia natural multiplicao de cada espcie 85. so muito obscuras. Consideremos uma espcie muito vigorosa; quanto maior o nmero dos indivduos que a compem, tanto mais este nmero tende a aumentar. Nopoderamos mesmo, num dado caso, determinar exactamente quais so os obstculos queactuam. Isto nada deve surpreender, quando se reflicta que a nossa ignorncia sobre esteponto absoluta, relativamente mesmo espcie humana, posto que o homem sejamelhor conhecido que qualquer outro animal. Muitos autores tm discutido este assuntocom grande elevao; espero mesmo estud-lo largamente numa obra futura,principalmente com respeito a animais que tm voltado ao estado selvagem na AmricaMeridional. Limitar-me-ei aqui a algumas notas, para recordar certos pontos principais aoesprito do leitor. Os ovos ou os animais muito novos parecem ordinariamente sofrer mais,mas nem sempre assim; nas plantas, fazse uma grande destruio de sementes; mas,pelas minhas observaes, parece que so as semeadas que mais sofrem, porquegerminam num terreno j atravancado por outras plantas. Diferentes inimigos destroemtambm uma grande quantidade de renovos; observei, por exemplo, alguns renovos dasnossas ervas indgenas, semeadas num canteiro tendo 3 ps de comprimento por 2 delargo, bem cultivado e bem desembaraado de plantas estranhas, e onde, por conseguinte,no podiam sofrer a vizinhana dessas plantas: em trezentas e cinquenta e sete plantas,duzentas e noventa e cinco foram destrudas, principalmente pelas lesmas e pelosinsectos. Se se deixa rebentar a relva que tem sido ceifada por muito tempo, ou, o quequer dizer o mesmo, que os quadrpedes tm o hbito de pastar, as plantas maisvigorosas matam gradualmente as que so mais fracas, ainda que estas tenham atingido asua plena maturidade; assim, num pequeno tabuleiro de relva, tendo 3 ps por 7, em vinteespcies que a rebentaram, nove morreram, porque se deixaram crescer as outraslivremente. A quantidade de nutrio determina, diga-se de passagem, o limite extremo damultiplicao de cada espcie; mas, mais ordinariamente, o que determina o nmeromdio dos indivduos de uma espcie, no a dificuldade de obter alimentos, mas afacilidade com que esses indivduos se tornam presa de outros animais. Assim, parece forade dvida que a quantidade de perdizes, de tetras e de lebres que podem existir numgrande parque, depende principalmente do cuidado com que se destroem os seusinimigos. Se se no matasse uma s cabea em Inglaterra durante vinte anos, mas que aomesmo tempo se no destrusse um s dos seus inimigos, haveria ento provavelmentemenos caa do que h hoje, posto que se matem centenas de milhar por ano. verdadeque, em muitos casos particulares, como se d com o elefante por exemplo, as feras noatacam o animal; na ndia, o prprio tigre s raramente se aventura a atacar um elefantenovo defendido pela me. 86. O clima goza de um papel importante quanto determinao da mdia de umaespcie, e a volta peridica dos frios ou das secas extremas parece ser o mais eficaz detodos os obstculos. Tenho calculado, baseando-me em alguns ninhos construdos naPrimavera, que o Inverno de 1854 a 1885 destruiu os quatro quintos das aves da minhapropriedade; foi uma destruio terrvel, quando se compara com os 10% que para ohomem constituem uma mortalidade extraordinria em caso de epidemia. primeira vista,parece que a aco do clima absolutamente independente da luta pela existncia; mas necessrio lembrar que as variaes climatricas actuam directamente sobre a quantidadede nutrio, e produzem assim a mais viva luta entre os indivduos, quer da mesmaespcie, quer de espcies distintas, que se nutrissem do mesmo gnero de alimentos.Quando actua directamente, o frio extremo, por exemplo, so os indivduos menosvigorosos, ou os que tm sua disposio menor nutrio durante o Inverno, que sofremmais. Quando vamos do sul para o norte, ou passamos de uma regio hmida para umaregio seca, notamos sempre que certas espcies se tornam cada vez mais raras, eacabam por desaparecer; a alterao de clima ferindo os nossos sentidos, dispe-nos aatribuir esta desapario sua aco directa. Ora, isto no exacto; esquecemos quecada espcie, nos mesmos pontos onde mais abundante, sofre constantemente grandesperdas em certos momentos da sua existncia, perdas que lhe infligem inimigos ouconcorrentes ao mesmo habitat e para a mesma nutrio; ora, se estes inimigos ou estesconcorrentes so favorecidos, por pouco que seja, por uma leve variao do clima, o seunmero cresce consideravelmente, e, como cada distrito contm j tantos habitantesquantos pode nutrir, as outras espcies devem diminuir. Quando nos dirigimos para o sul evemos uma espcie diminuir em nmero, podemos estar certos que esta diminuio atingetanto uma outra espcie que favorecida como a primeira que sofreu um prejuzo. D-se omesmo, ainda que em menor grau, quando vamos para o norte, porque o nmero deespcies de todas as qualidades, e, por consequncia, dos concorrentes, diminui nospases setentrionais. Tambm encontramos muitas vezes, dirigindo-nos para o norte, oufazendo a ascenso de uma montanha, o que nos no sucede seguindo uma direcooposta, formas definhadas, devidas directamente aco nociva do clima. Quandoatingimos as regies rcticas, ou os pncaros cobertos de neves eternas, ou os desertosabsolutos, a luta pela existncia existe apenas com os elementos. O nmero prodigioso de plantas que, nos nossos jardins, suportam 87. perfeitamente o nosso clima, mas jamais se aclimatam, porque no podem sustentar aconcorrncia com as plantas prprias do nosso pas, ou resistir aos nossos animaisindgenas, prova claramente que o clima actua principalmente de uma maneira indirecta,favorecendo as outras espcies.Quando uma espcie, graas s circunstncias favorveis, se multiplicadesmedidamente numa pequena regio, as epidemias se declaram nela muitas vezes. Aomenos, parece que isto se d com a nossa caa; podemos observar nisto um obstculoindependente da luta pela existncia. Mas algumas destas pretendidas epidemias parecemprovir da presena de vermes parasitas que, por uma causa qualquer, talvez por causa deuma difuso mais fcil no meio de animais muito numerosos, tm tomado umdesenvolvimento mais considervel; assistimos, por isso, a uma espcie de luta entre oparasita e a sua presa.Por outro lado, em muitos casos, necessrio que uma mesma espcie comporte umgrande nmero de indivduos relativamente ao nmero dos seres inimigos, para poderperpetuar-se. Assim, cultivamos facilmente muito trigo, muita couve silvestre, etc., nosnossos campos, porque as sementes so em excesso considervel comparativamente aonmero de aves que vm com-las. Ora, as aves, se bem que tenham umasuperabundncia de nutrio durante este momento da estao, no podem aumentarproporcionalmente a esta abundncia de sementes, porque o Inverno pe um obstculo aoseu desenvolvimento; mas sabe-se quanto difcil recolher alguns ps de trigo ou outrasplantas anlogas num jardim; quanto a mim, tem-me sido impossvel. Esta condio danecessidade de um nmero considervel de indivduos para a conservao de umaespcie explica, creio eu, certos factos singulares que nos oferece a natureza, porexemplo, plantas muito raras que so por vezes abundantssimas em alguns pontos ondeexistem; e plantas verdadeiramente sociveis, isto , que se agrupam em grande nmerode extremos limites do seu habitat. Podemos crer, com efeito, em semelhantes casos, queuma planta s pode existir num nico ponto, em que as condies da vida so assazfavorveis para que muitas possam existir simultaneamente e salvar assim a espcie deuma completa destruio. Devo acrescentar que os bons efeitos dos cruzamentos, e osdeplorveis efeitos das unies consanguneas, gozam tambm de um papel importante namaior parte destes casos. Mas no posso desenvolver aqui este assunto.Relaes complexas que tm entre si os animais e as plantas na luta pela 88. existnciaMuitos casos bem constatados provam quanto so complexas e inesperadas asrelaes recprocas dos seres organizados que tm que lutar no mesmo pas.Contentar-me-ei em citar aqui um nico exemplo, que, ainda que muito simples, me teminteressado. Um dos meus parentes possui, no Staffordshire, uma propriedade onde tenhotido ocasio de fazer numerosos estudos; ao lado de uma grande charneca muito estril,que jamais foi cultivada, encontra-se um terreno de muitas centenas de jeiras, tendoexactamente a mesma natureza, mas que foi tapado h vinte e cinco anos e plantado apinheiros da Esccia. Estas plantas tm apresentado, na vegetao da parte fechada dacharneca, alteraes to notveis, que se julgava passar de uma regio a outra; nosomente o nmero proporcional das urzes ordinrias tem mudado completamente, masdoze espcies de plantas (sem contar ervas e espadanas) que no existiam na quinta,prosperam na parte plantada. O efeito produzido sobre os insectos tem sido ainda maior,porque se encontram a cada passo, nas plantaes, seis espcies de aves insectvorasque jamais se viram na charneca, a qual era apenas frequentada por duas ou trs espciesdistintas de aves insectvoras. Isto prova que imensa alterao produziu a introduo deuma s espcie de rvores, porque se no tinha feito cultura alguma nesta terra;contentaram-se em fech-la, de maneira que o gado no pudesse entrar. verdade que ocerrado tambm um elemento muito importante de que pude observar os efeitos junto deFarnham, no condado de Surrey. A se encontram extensas propriedades plantadas aqui eali, no vrtice das colinas, de alguns grupos de velhos pinheiros da Esccia; durante estesdez ltimos anos, tm fechado algumas destas quintas, e hoje aparecem em todas aspartes novos pinheiros em quantidade, nascidos naturalmente, e to aproximados uns dosoutros, que no podem viver todos. Quando soube que estas rvores novas no tinhamsido nemsemeadas nem plantadas, fiquei de tal maneira surpreendido, que me dirigi adiversos pontos de onde podia abranger com a vista centenas de hectares de propriedadesque no estavam fechadas; pois nada pude descobrir a mais que as velhas rvores.Examinando com mais cuidado o estado da charneca, descobri uma grande quantidade depequenas plantas que tinham sido rodas pelos animais. No espao de um s metroquadrado, a uma distncia de algumas centenas de metros de uma das velhas rvores,contei trinta e duas plantas novas; uma delas tinha vinte e seis anis; tinha pois tentado,durante muitos anos, levantar a curuta acima das urzes, e no o conseguira. No admira,pois, que o solo se cubra de novos pinheiros vigorosos desde que os cerrados foramestabelecidos. E, contudo, estas charnecas so to estreis e to extensas, que ningumpoderia imaginar que os animais pudessem a encontrar alimentos. 89. Vemos aqui que a existncia do pinheiro da Esccia depende absolutamente dapresena ou da ausncia dos animais; em algumas partes do mundo, a existncia do gadodepende de certos insectos. O Paraguai oferece talvez o mais frisante exemplo destefacto; neste pas nem os animais silvestres, nem os cavalos, nem os cles voltaram aoestado selvagem, bem pelo contrrio se tm produzido em grande escala nas regiessituadas ao norte e ao sul. Azara e Rengger demonstraram que deve atribuir-se este facto existncia no Paraguai de uma certa mosca que pe os ovos nas ventas desses animaislogo depois do nascimento. Por mais numerosas que sejam estas moscas, a suamultiplicao deve ser ordinariamente embaraada por qualquer obstculo, provavelmentepelo desenvolvimento de outros insectos parasitas. Por isso, se certas aves insectvorasdiminussem no Paraguai, os insectos parasitas aumentariam decerto em nmero, o quetraria a desapario das moscas, e ento os animais silvestres e os cavalos voltariam aoestado selvagem, o que teria como resultado seguro modificar consideravelmente avegetao, como eu mesmo pude observar em muitas partes da Amrica Meridional. Avegetao, pelo seu lado, teria uma grande influncia sobre os insectos, e o aumentodestes provocaria, como acabamos de ver do exemplo de Staffordshire, o desenvolvimentode aves insectvoras e assim sucessivamente, em crculos cada vez mais complexos.Todavia, em a natureza, as relaes no so sempre to simples como isto. A luta devesempre reproduzir-se com sucessos diferentes; contudo, no decorrer dos sculos, asforas equilibram-se to exactamente, que a face da natureza fica uniforme duranteimensos perodos, posto que seguramente a causa mais insignificante baste paraassegurar a vitria a tal ou tal ser organizado. No obstante, a nossa ignorncia toprofunda e a nossa vaidade to grande, que nos admiramos quando conhecemos aextino de um ser organizado; como no compreendemos a causa desta extino,sabemos apenas invocar cataclismos, que vieram entristecer o mundo, e inventar leissobre a durao das formas vivas!Ainda um outro exemplo para melhor fazer compreender que relaes complexasligam entre si as plantas e os animais muito afastados uns dos outros na escala danatureza. Terei mais tarde ocasio de demonstrar que os insectos, no meu jardim, nuncavisitam a Lubelia fulgens, planta extica, e por consequncia, em razo da suaconformao particular, esta planta nunca produziu sementes. necessrioabsolutamente, para as fecundar, que os insectos visitem quase todas as nossasorqudeas, porque so eles que transportam o plen de uma flor para outra. Depois denumerosas experincias, reconheci que o zngo quase indispensvel para afecundao do Amorperfeito (Viola tricolor), porque os outros insectos do gnero abelhano visitam esta flor. Reconheci igualmente que as visitas das abelhas so necessriaspara a fecundao de algumas espcies de trevo; vinte ps de trevo de Holanda (Trifoliumrepens), por exemplo, produziram duas mil e duzentas e noventa sementes, enquanto queoutros vinte ps, de que as abelhas no puderam aproximar-se, no produziram umanica. O zango s visita o trevo vermelho, porque as outras abelhas no podem atingir onctar. Afirma-se que as borboletas podem fecundar esta planta; mas duvido muito, porqueo peso do corpo no suficiente para deprimir as ptalas alares. Podemos pois considerar 90. como muito provvel que, se o gnero zngo chegasse a desaparecer, ou se tornassemuito raro na Inglaterra, o amor-perfeito e o trevo vermelho tornar-seiam tambm muitoraros ou desapareceriam completamente. O nmero de zngos, num distrito qualquer,depende, em grande parte, do nmero de arganazes que destroem os seus ninhos e osseus favos; ora, o coronel Newman, que durante muito tempo estudou os hbitos dozngo, julga que mais de dois teros destes insectos so destrudos por ano emInglaterra. Por outro lado, todos sabem que o nmero de arganazes dependeessencialmente do dos gatos, e o coronel Newman acrescenta: Notei que os ninhos dezngos so mais abundantes nas aldeias e pequenas cidades, o que atribuo ao maiornmero de gatos que destroem os arganazes. pois perfeitamente possvel que apresena de um animal felino numa localidade possa determinar nesta mesma localidade,a abundncia de certas plantas, em razo da interveno dos ratos e das abelhas! 91. Diferentes obstculos, cuja aco se faz sentir em diversas pocas da vida e durantecertas estaes do ano, afectam ento a existncia de cada espcie. Uns so muitoeficazes, outros o so menos, mas o efeito de todos determinar a quantidade mdia dosindivduos de uma espcie ou a prpria existncia de cada um deles. Poderiademonstrar-se que, em alguns casos, obstculos absolutamente diferentes actuam sobre amesma espcie em certos distritos. Quando se consideram as plantas e os arbustos queconstituem uma forragem, tem-se tentado atribuir o seu nmero proporcional ao que sechama o acaso. Mas um grande erro. Todos sabem que, quando se corta uma florestaamericana, surge uma vegetao completamente diferente; observei que antigas runasindianas, no Sul dos Estados Unidos, runas que deviam ser outrora despovoadas dervores, apresentam hoje a mesma diversidade, a mesma proporo de espcies que asflorestas virgens circunvizinhas. Ora, que combate se devia ter travado durante longossculos entre as diferentes espcies de rvores, das quais cada uma espalha anualmenteas sementes aos milhares! Que guerra incessante de insecto para insecto, que luta entreos insectos, as lesmas e outros animais anlogos, com as aves e os animais selvagens,esforando-se todos por multiplicar-se, comendo-se uns aos outros, ou nutrindo-se dasubstncia das rvores, das suas sementes, dos seus rebentos, ou de outras plantas quecobriram a princpio o solo e que impediam por isso o crescimento das rvores! Quando selana ao ar um punhado de penas, cairo todas sobre o solo em virtude de certas leisdefinidas; mas como simples o problema da queda, comparado ao das aces ereaces das plantas e dos animais inumerveis que, durante o decorrer dos sculos,determinaram as quantidades proporcionais das espcies de rvores que crescem hojenas runas indianas! 92. A dependncia de um ser organizado em frente de outro, tal como a de um parasitanas suas relaes com a sua presa, manifesta-se de ordinrio entre seres muito afastadosuns dos outros na escala da natureza. Tal o caso, algumas vezes, de certos animais queno podemos considerar como lutando um com outro pela existncia; e isto no sentidomais restrito da palavra, os gafanhotos, por exemplo, e os quadrpedes herbvoros. Mas aluta quase sempre muito mais encarniada entre os indivduos pertencendo mesmaespcie; com efeito, frequentam os mesmos territrios, procuram o mesmo alimento, eesto expostos aos mesmos perigos. A luta quase tambm encarniada quando se tratade variedades da mesma espcie, e curta a maior parte do tempo; se, por exemplo, sesemeiam juntamente muitas variedades de trigo, e no ano seguinte se semeiam os grosmisturados provenientes da primeira colheita, as variedades que melhor convm ao solo eao clima, e que naturalmente se vem ser as mais fecundas, prevalecem sobre as outras,produzem mais sementes, e, por conseguinte, ao fim de alguns anos, suplantam todas asoutras variedades. E to verdade isto, que, para conservar uma mistura de variedadesto prximas como so as da ervilha-de-cheiro, necessrio escolher cada anoseparadamente as sementes de cada variedade e ter cuidado de as misturar na proporodesejada, de outra forma as variedades mais fracas diminuem pouco a pouco e acabampor desaparecer. O mesmo se d para as variedades de carneiros; afirma-se que certasvariedades do monte esfomeiam de tal maneira as outras, que no se podem deixarreunidas nas mesmas pastagens. Igual resultado se produz quando queremos conservarno mesmo vaso diferentes variedades de sanguessugas medicinais. mesmo duvidosoque todas as variedades das nossas plantas cultivadas e dos nossos animais domsticostendo to exactamente a mesma fora, os mesmos hbitos e a mesma constituio que asprimeiras propores de uma massa misturada (no falo, claro est, dos cruzamentos)possam manter-se durante uma meia dzia de geraes, se, como nas raas no estadoselvagem, deixarmos a luta travar-se entre elas, e se no tivermos cuidado em conservaranualmente uma proporo exacta entre as sementes ou os filhos. 93. A lua pela existncia mais encarniada quando se trava entre indivduos evariedades pertencendo mesma espcieAs espcies pertencendo ao mesmo gnero tm quase sempre, posto que hajamuitas excepes a esta regra, hbitos e constituio muito parecidos; a luta entre estasespcies pois muito mais renhida, se se encontram colocadas em concorrncia umascom as outras, do que se a luta se travar entre espcies pertencendo a gneros distintos.A extenso recente que tem tomado, em certas partes dos Estados Unidos, uma espciede andorinha que causou a extino de uma outra espcie, oferece-nos um exemplo destefacto. O desenvolvimento do abelharuco trouxe, em certas partes da Esccia, a raridadecrescente do tordo comum. Quantas vezes temos ouvido dizer que uma espcie de ratoexpulsa outra diante de si nos mais diversos climas! Na Rssia, a pequena barata da sialeva diante de si a sua grande congnere. Na Austrlia, a abelha que importamosextermina rapidamente a pequena abelha indgena, desprovida de aguilho. Uma espciede mostarda suplanta uma outra, e assim sucessivamente. Podemos conceber, ainda quepouco, como se faz que a concorrncia seja mais viva entre as formas aliadas, queocupam quase o mesmo lugar na economia da natureza; mas muito provvel que, emalguns casos, pudssemos indicar as razes exactas da vitria obtida por uma espciesobre outra na grande batalha da vida.As notas que acabamos de dar conduzem a um corolrio da mais alta importncia,isto , que a conformao de cada ser organizado est em relao, nos pontos maisessenciais e algumas vezes contudo mais ocultos, com a de todos os seres organizadoscom os quais se encontra em concorrncia para a sua alimentao e habitao, e com ade todos aqueles que lhe servem de presa ou contra os quais tem de defender-se. Aconformao dos dentes e das garras do tigre, a das patas e dos ganchos do parasita quese prende aos plos do tigre, oferece uma confirmao evidente desta lei. Mas asadmirveis sementes emplumadas da chicria silvestre e as patas achatadas e franjadasdos colepteros aquticos no parecem estar em relao com o ar e com a gua. Contudo,a vantagem apresentada pelas sementes emplumadas encontra-se, sem dvida, emrelao directa com o solo j guarnecido de outras plantas de maneira que as sementespossam distribuir-se num grande espao e cair sobre um terreno que ainda no estocupado. No coleptero aqutico, a estrutura das pernas, to admiravelmente adaptadapara que possa mergulhar, permite-lhe combater com outros insectos aquticos paraprocurar a sua presa, ou para escapar aos ataques de outros animais. 94. A substncia nutritiva depositada nas sementes de muitas destas plantas parece, primeira vista, no apresentar espcie alguma de relao com outras plantas. Mas ocrescimento vigoroso das novas plantas provindo destas sementes, as ervilhas e osfeijes, por exemplo, quando se semeiam por entre outras gramneas, parece indicar que aprincipal vantagem desta substncia favorecer o crescimento da sementeira, na luta quetem de sustentar com as outras plantas que crescem em volta de si.Porque se no multiplica cada forma de planta em toda a extenso da sua regionatural at dobrar ou quadruplicar o nmero dos seus representantes? Sabemosperfeitamente que pode suportar um pouco mais de calor ou de frio, um pouco mais dehumidade ou de secura, porque sabemos que habita regies mais quentes ou mais frias,mais hmidas ou mais secas. Este exemplo demonstra-nos que, se desejarmos dar a umaplanta um meio de acrescentar o nmero dos seus representantes, necessrio p-la emcondies de vencer os seus concorrentes e de obstar aos ataques dos animais que senutrem dela. Nos limites geogrficos do seu habitat, uma alterao de constituio, emrelao com o clima, seria de uma certa vantagem; mas temos toda a razo para julgarque algumas plantas ou alguns animais somente se afastam para longe por seremexclusivamente destrudos pelo rigor do clima. somente nos confins extremos da vida,nas regies rcticas, ou nos limites de um deserto absoluto, que cessa a concorrncia.Quando a terra seja muito fria e muito seca, no haver menos concorrncia entrealgumas espcies ou entre indivduos da mesma espcie, para ocupar os lugares maisquentes ou mais hmidos.Disto resulta que as condies de existncia de uma planta ou de um animalcolocado em novo pas, em meio de novos competidores, devem modificar-se de umamaneira essencial, posto que o clima seja perfeitamente idntico ao do seu antigo habitat.Se se deseja que o nmero dos seus representantes cresa na nova ptria, necessriomodificar o animal ou a planta de maneira diferente do que se fazia na sua antiga regio,porque necessrio procurar-lhe certas vantagens sobre um conjunto de concorrentes oude inimigos muito diversos. 95. Nada mais fcil que ensaiar assim, em imaginao, o procurar a uma espcie certassuperioridades sobre uma outra; mas, na prtica, mais que provvel que nosoubssemos o que teramos a fazer. Isto s bastaria para nos convencer da nossaignorncia sobre as relaes mtuas que existem entre todos os seres organizados; umaverdade que nos to necessria como difcil de compreender. Tudo o que podemosfazer, lembrar-nos a todo o momento que todos os seres organizados se esforamcontinuamente por se multiplicar segundo uma progresso geomtrica; que cada um delesem certos perodos da vida, durante certas estaes do ano, no decurso de cada geraoou em certos intervalos, deve lutar pela existncia e estar exposto a uma grandedestruio. O pensamento desta luta universal provoca tristes reflexes, mas podemosconsolar-nos com a certeza de que a guerra no incessante na natureza, que o medo desconhecido, que a morte est geralmente pronta, e que so os seres vigorosos, sos efelizes, que sobrevivero e se multiplicaro. 96. Captulo IV A seleco natural ou a persistncia do mais aptoA seleco natural; comparao do seu poder com o poder selectivo do homem; suainfluncia sobre os caracteres de pouca importncia: sua influncia em todas as idades esobre os dois sexos. -Seleco sexual. -Circunstncias favorveis ou desfavorveis seleco natural, tais como cruzamentos, isolamento, nmero de indivduos. -Aco lenta.-Extino causada pela seleco natural. -Divergncia de caracteres nas suas relaescom a diversidade dos habitantes de uma regio limitada e com a aclimatao. - Aco daseleco natural sobre os descendentes de um tipo comum resultando da divergncia doscaracteres. - A seleco natural explica o agrupamento de todos os seres organizados; osprogressos do organismo; a persistncia das formas inferiores; a convergncia doscaracteres; a multiplicao indefinida das espcies. - Resumo. Que influncia tem sobre a variabilidade esta luta pela existncia que acabamos dedescrever to abreviadamente? O princpio da seleco, que vemos to poderoso entre asmos do homem, aplica-se ao estado selvagem? Provaremos que se aplica de umamaneira muito eficaz. Lembremos o nmero infinito de variaes ligeiras, de simplesdiferenas individuais, que se apresentam nas nossas produes domsticas e, num grauinferior, nas espcies no estado selvagem; lembremos tambm a fora das tendnciashereditrias. No estado domstico, pode dizer-se que todo o organismo inteiro se torna decerta forma plstico. Mas, como Hooker e Asa Gray o fizeram notar, a variabilidade queobservamos entre todas as nossas produes domsticas no obra directa do homem. Ohomem no pode produzir nem impedir as variaes; pode apenas conservar e acumularas que se lhe apresentam. Expe, sem inteno, os seres organizados a novas condiesde existncia e s variaes que da resultam; ora, mudanas anlogas podem e devemmesmo apresentar-se no estado selvagem. Lembre-se tambm como so complexas,como so estreitas as relaes mtuas de todos os seres organizados uns com os outros ecom as condies fsicas da vida, e, por consequncia, que vantagem pode cada um delestirar de diversidades de conformao infinitamente variadas, sendo dadas as condies devida diferentes. H razo para admiraes, quando vemos que variaes teis ao homemso certamente produzidas, que outras variaes, teis ao animal na grande e terrvelbatalha da vida, se produziram no decorrer de numerosas geraes? Se se admite estefacto, poderemos duvidar ( preciso lembrar que nascem mais indivduos do que aquelesque podem viver) que os indivduos possuindo uma vantagem qualquer, por mais ligeiraque seja, tenham probabilidade de viver e de reproduzir-se? Podemos estar certos, poroutro lado, que toda a variao, por menos nociva que seja ao indivduo, traz forosamentea desapario deste. Dei o nome de seleco natural ou de persistncia do mais apto conservao das diferenas e das variaes individuais favorveis e eliminao dasvariaes nocivas. As variaes insignificantes, isto , que no so nem teis nem nocivasao indivduo, no so certamente afectadas pela seleco natural e permanecem no 97. estado de elementos variveis, como as que podemos observar em certas espciespolimorfas, ou terminando por se fixar, graas natureza do organismo e s das condiesde existncia. 98. Muitos escritores tm compreendido mal, ou criticado mal, este termo de seleconatural. Uns tm mesmo imaginado que a seleco natural traz a variabilidade, visto queenvolve somente a conservao das variaes acidentalmente produzidas, quando sovantajosas ao indivduo nas condies de existncia em que se encontra colocado.Ningum protesta contra os agricultores, quando falam dos poderosos efeitos da selecoefectuada pelo homem; ora, neste caso, indispensvel que a natureza produza aprincipio diferenas individuais que o homem escolhe para um fim determinado. Outros tmpretendido que o termo seleco envolve uma escolha consciente da parte dos animaisque se modificam, e tem-se mesmo argumentado que no possuindo as plantas qualquervontade, a seleco natural no lhe aplicvel. No sentido literal da palavra, no h dvidaque o termo seleco natural um termo errneo; mas, quem tem criticado os qumicos,por que se servem do termo afinidade electiva falando dos diferentes elementos? Contudo,no pode dizer-se, estritamente falando, que o cido escolhesse a base com a qual secombina de preferncia. Diz-se que falo da seleco natural como de uma potncia activaou divina; mas quem critica um autor quando fala da atraco ou gravitao, como regendoo movimento dos planetas? Todos sabem o que significam, o que querem exprimir estasexpresses metafricas necessrias clareza da discusso. tambm muito difcil evitarpersonificar o nome natureza; mas, por natureza, entendo somente a aco combinada eos resultados complexos de um grande nmero de leis naturais; e, por leis, a srie defactos que temos reconhecido. No fim de algum tempo ser-nos-o familiares estes termose esqueceremos estas crticas inteis. 99. Compreenderemos melhor a aplicao da lei da seleco natural tomando paraexemplo um pas submetido a quaisquer ligeiras alteraes fsicas, uma alteraoclimatrica, por exemplo. O nmero proporcional dos seus habitantes muda quaseimediatamente tambm, e provvel que algumas espcies se extingam. Podemosconcluir do que temos visto relativamente s relaes complexas e ltimas que ligam entresi os habitantes de cada pas, que toda a alterao na proporo numrica dos indivduosde uma espcie afecta seriamente todas as outras espcies, sem falar na influnciaexercida pelas modificaes do clima. Se este pas est aberto, novas formas a penetramcertamente, e esta emigrao tende ainda a alterar as relaes mtuas de seus antigoshabitantes. Lembremo-nos, a este respeito, qual tem sido sempre a influncia daintroduo de uma s rvore ou de um mamfero num pas. Mas se se trata de uma ilha, oude um pas rodeado de barreiras intransitveis, na qual, por consequncia, novas formasmelhor adaptadas s modificaes do clima no podem penetrar facilmente, encontra-seento, na economia da natureza, qualquer lugar que seria melhor preenchido se algunsdos habitantes originais se modificassem de uma maneira ou de outra, pois que, se o pasestava aberto, estes lugares seriam ocupados pelos emigrantes. Neste caso, ligeirasmodificaes, favorveis em qualquer grau que seja aos indivduos de uma espcie,adaptando-as melhor a novas condies ambientes, tenderiam a perpetuar-se, e aseleco natural teria assim materiais disponveis para comear a sua obra deaperfeioamento.Temos boas razes para acreditar, como o demonstrmos no primeiro captulo, queas alteraes das condies de existncia tendem a aumentar a faculdade variabilidade.Nos casos que acabamos de citar, tendo mudado as condies de existncia, o terreno ento favorvel seleco natural, porque oferece mais probabilidades para a produode variaes vantajosas, sem as quais a seleco natural nada pode. necessrio jamaisesquecer, que no termo variao, compreendo as simples diferenas individuais. O homempode produzir grandes alteraes nos seus animais domsticos e nas suas plantascultivadas, acumulando as diferenas individuais numa dada direco; a seleco naturalpode obter os mesmos resultados, mas muito mais facilmente, porque a sua aco podeprolongar-se por um lapso de tempo mais considervel. Alm disso, no acredito quesejam necessrias grandes mudanas fsicas, tais como mudanas climatricas, ou queum pas esteja particularmente isolado e ao abrigo da imigrao, para que os lugares livresse tornem produtivos e que a seleco natural os faa ocupar melhorando alguns dosorganismos variveis. Com efeito, como todos os habitantes de cada pas lutam comarmas quase iguais, basta uma modificao muito ligeira na conformao ou nos hbitosde uma espcie para dar-lhe superioridade sobre as demais. Outras modificaes damesma natureza podero aumentar ainda esta superioridade, por to longo tempo quantoa espcie se encontrar nas mesmas condies de existncia e gozar dos mesmos meiospara se nutrir e defender. No se poderia citar pas algum cujos habitantes indgenasestejam actualmente to perfeitamente adaptados uns aos outros, to absolutamente emrelao com as condies fsicas que os rodeiam, que no haja lugar para qualqueraperfeioamento; porque, em todos os pases, as espcies nativas tm sido to 100. completamente vencidas pelas espcies aclimatadas, que tm deixado algumas destasestranhas tomar definitivamente posse do solo. Ora, tendo as espcies estranhas vencidoassim, em cada pas, algumas espcies indgenas, pode concluir-se que estas ltimaspoderiam modificar-se com vantagem, de forma a melhor resistir s invasoras. 101. Desde que o homem pode obter e certamente obteve grandes resultados por meiosmetdicos e inconscientes de seleco, onde pra a aco da seleco natural? O homempode apenas agir sobre os caracteres exteriores e visveis. A natureza, se me permitempersonificar com este nome a conservao natural ou a persistncia do mais apto, no seocupa de modo algum das aparncias, a no ser que a aparncia tenha qualquer utilidadepara os seres vivos. A natureza pode actuar sobre todos os rgos interiores, sobre amenor diferena de organizao, sobre todo o mecanismo vital. O homem tem apenas umfim: escolher para vantagem de si prprio; a natureza, ao contrrio, escolhe para vantagemdo prprio ser. D pleno exerccio aos caracteres que escolhe, o que implica o facto nicoda sua seleco. O homem rene num mesmo pas as espcies provindas de muitos climas diferentes;exercita raramente de uma forma especial e conveniente os caracteres que escolheu; d amesma ateno aos pombos de bico longo e aos pombos de bico curto; no exercita demaneira diferente o quadrpede de longas patas e o de patas curtas; expe s mesmasinfluncias climatricas os carneiros de l comprida e os de l curta. No permite aosmachos mais vigorosos lutar pela posse das fmeas. No destroi rigorosamente todos osindivduos inferiores; protege, ao contrrio, cada um deles, tanto quanto pode, durantetodas as estaes. Muitas vezes comea a seleco escolhendo algumas formassemi-monstruosas, ou, pelo menos, prendendo-se a qualquer modificao assaz aparentepara atrair a sua ateno ou para lhe ser imediatamente til. No estado de natureza, aocontrrio, a menor diferena de conformao ou de constituio pode bastar para fazerpender a balana na luta pela existncia e perpetuar-se assim. Os desejos e os esforosdo homem so to vrios! a sua vida to curta! Como devem ser tambm imperfeitos osresultados que ele obtm quando os compara queles que a natureza pode acumulardurante longos perodos geolgicos! Podemos ns admirar-nos ento que os caracteresdas produes da natureza sejam muito mais ntidos do que os das raas domsticas dohomem? Que de extraordinrio pode haver em que estas produes naturais sejaminfinitamente melhor adaptadas s condies complexas da existncia, e que tragamcontudo o selo de uma obra muito mais completa? 102. Pode dizer-se, metaforicamente, que a seleco natural procura, a cada instante eem todo o mundo, as variaes mais ligeiras; repele as que so nocivas, conserva eacumula as que so teis; trabalha em silncio, insensivelmente, por toda a parte esempre, desde que a ocasio se apresente para melhorar todos os seres organizadosrelativamente s suas condies de existncia orgnicas e inorgnicas. Estastransformaes lentas e progressivas escapam-nos at que, no decorrer das idades, amo do tempo as tenha marcado com o seu sinete e ento damos to pouca conta doslongos perodos geolgicos decorridos, que nos contentamos em dizer que as formasviventes so hoje diferentes do que foram outrora.Para que modificaes importantes se produzam numa espcie, necessrio queuma variedade, uma vez formada, apresente de novo, depois de longos sculos talvez,diferenas individuais entregando natureza til aquelas que se tm apresentado deprincpio; necessrio, por outra parte, que estas diferenas se conservem e se renovemainda. Diferenas individuais da mesma natureza se reproduzem constantemente; entoquase certo que as coisas se passam deste modo. Mas, em suma, s podemos afirmareste facto assegurando-nos se esta hiptese concorda com os fenmenos gerais danatureza e os explica. Por outro lado, a crena geral de que a soma de variaes,possveis uma quantidade estritamente limitada, tambm uma simples asserohipottica.Posto que a seleco natural s possa actuar com vantagem para cada ser vivo, no menos verdade que caracteres e conformaes, que estamos dispostos a considerarcomo tendo uma importncia muito secundria, podem ser o objecto da sua aco.Quando vemos os insectos que se nutrem de folhas revestir quase sempre uma cor verde,os que se nutrem da casca uma cor cinzenta, o ptarmigan dos Alpes tornar-se branco noInverno, e o galo monts apresentar as penas cor de urze, no devemos ns acreditar queas cores que revestem certas aves e certos insectos lhes so teis para livr-los doperigo? O galo monts multiplicar-se-ia desmesuradamente se no fosse destrudo emalgumas das fases da sua existncia; e sabe-se que as aves de rapina lhe fazem umacaa activa; os falces, dotados de uma vista subtil, apercebem a sua presa de to longe,que, em certas partes do continente, no se cultivam os pombos brancos porque estoexpostos a grandes perigos. A seleco natural podia ento desempenhar o seu papeldando a cada espcie de galo monts uma cor apropriada ao pas que habita,conservando e perpetuando esta cor desde que adquirida. No seria necessrioto-pouco pensar que a destruio acidental de um animal, que tem uma cor particular,possa apenas produzir pequenos efeitos sobre uma raa. Devemos lembrar-nos, comefeito, quanto essencial num rebanho de carneiros brancos destruir os cordeiros quetenham a mais pequena mancha preta. J vimos que a cor dos porcos que, na Virgnia, senutrem de certas razes para eles uma causa de vida ou morte. Nas plantas, consideramos botnicos a penugem do fruto e a cor do mesocarpo como caracteres muitoinsignificantes; contudo, um excelente horticultor, Dowing, refere-nos que nos EstadosUnidos os frutos com pele lisa sofrem muito mais os ataques de um insecto, o curclio, doque os que so cobertos de plos; que as ameixas vermelhas so muito mais sujeitas a 103. certas doenas que as ameixas amarelas; e que uma outra doena ataca mais facilmenteos pssegos de mesocarpo amarelo do que os pssegos de mesocarpo de outra cor. Seestas ligeiras diferenas, apesar do auxlio da arte, decidem da sorte das variedadescultivadas, estas mesmas diferenas devem evidentemente, no estado de natureza, sersuficientes para decidir quem prevalecer, se uma rvore produzindo frutos com a pele lisaou com a pele peluda, com o mesocarpo vermelho ou com o mesocarpo amarelo; porque,neste estado, as rvores tm de lutar com outras rvores e com uma srie de inimigos. 104. Quando estudamos os numerosos pequenos pontos de diferena que existem entreas espcies e que, na nossa ignorncia, nos parecem insignificantes, no devemosesquecer que o clima, a alimentao, etc., tm, sem dvida, produzido alguns efeitosdirectos. necessrio no esquecer to-pouco que, em virtude das leis da correlao,quando uma parte varia e a seleco natural acumula as variaes, se originam, porvezes, outras modificaes de natureza mais inesperada.Vemos que certas variaes que, no estado domstico, aparecem num 105. perodo determinado da vida, tendem a reaparecer nos descendentes em igual perodo.Poderiam citar-se, como exemplos, a forma, o talhe e o sabor dos gros de muitasvariedades dos nossos legumes e das nossas plantas agrcolas; as variaes dobicho-da-seda no estado de larva e de crislida; os ovos das aves domsticas e a cor dapenugem dos filhos; os cornos dos nossos carneiros e de outros animais na idade adulta.Ora, no estado de natureza, a seleco natural pode actuar sobre certos seresorganizados e modific-los em qualquer idade que seja pela acumulao de variaesproveitosas a esta idade e por transmisso hereditria na idade correspondente. Se vantajoso a uma planta que as suas sementes sejam mais facilmente disseminadas pelovento, to fcil seleco natural produzir este aperfeioamento como fcil aocultivador, pela seleco metdica, aumentar e melhorar a penugem contida nas cascasdos seus algodoeiros.A seleco natural pode modificar a larva de um insecto de forma a adapt-la acircunstncias completamente diferentes daquelas em que dever viver o insecto adulto.Estas modificaes podero mesmo afectar, em virtude da correlao, a conformao doadulto. Mas, inversamente, modificaes na conformao do adulto podem afectar aconformao da larva. Em todos os casos, a seleco natural no produz modificaesnocivas ao insecto, porque ento a espcie se extinguiria.A seleco natural pode modificar a conformao do filho relativamente aos pais e ados pais relativamente aos filhos. Entre os animais que vivem em sociedade, transforma aconformao de cada indivduo de modo tal que possa tornar-se til comunidade, com acondio, todavia, de a comunidade aproveitar com a alterao. Mas o que a seleconatural no saberia fazer, era modificar a estrutura de uma espcie sem lhe procurarqualquer vantagem prpria e unicamente em benefcio de uma outra espcie. Ora, postoque as obras sobre histria natural apresentem, por vezes, semelhantes factos, noencontrei um nico que possa resistir ao exame. A seleco natural pode modificarprofundamente uma conformao que somente fosse muito til uma vez durante a vida deum animal, se importante para ele. Tais so, por exemplo, as grandes mandbulas, quepossuem certos insectos e que empregam exclusivamente para abrir os casulos, ou aextremidade crnea do bico das avezinhas que as auxilia a quebrar o ovo, para sair.Afirma-se que, entre as melhores espcies de pombos cambalhotas de bico curto, morremno ovo mais borrachos do que os que podem sair; tambm os amadores vigiam omomento da ecloso para auxiliar os borrachos se disso tiverem necessidade. Ora, se anatureza queria produzir um pombo de bico muito curto para vantagem desta ave, amodificao seria muito lenta e a seleco mais rigorosa se faria no ovo, e sobreviveriamsomente aqueles que tivessem o bico bastante duro, porque todos os de bico fracomorreriam inevitavelmente; ou melhor ainda, a seleco natural agiria para produzir cascasmais delgadas, partindo-se mais facilmente, porque a espessura da casca est sujeita variabilidade como todas as outras estruturas. 106. talvez bom fazer lembrar aqui que deve haver, para todos os seres, grandesdestruies acidentais que tm pouca ou nenhuma influncia sobre a aco da seleconatural. Por exemplo, muitos ovos ou sementes so destrudos cada ano; ora, a seleconatural s pode modific-los tanto quanto eles variem de maneira a escaparem aosataques dos inimigos. Contudo, muitos destes ovos ou destas sementes poderiam, se nofossem destrudos, produzir indivduos melhor adaptados s condies ambientes do quealguns daqueles que tm sobrevivido. Alm disso, um grande nmero de animais ou deplantas adultas, quer sejam ou no os melhores adaptados s condies ambientes,devem anualmente perecer, em razo de causas acidentais, que no seriam de formaalguma mitigadas por alteraes de conformao ou constituio vantajosa espciesobre todas as outras relaes. Mas, por mais considervel que seja esta destruio dosadultos, pouco importa, suposto que o nmero dos indivduos que sobrevivem numa regioqualquer fique bastante considervel pouco importa, ainda, que a destruio dos ovos oudas sementes seja to grande que s a centsima ou mesmo a milsima parte sedesenvolva -no menos verdade que os indivduos mais aptos, entre os que sobrevivem,supondo que se produzem neles variaes numa direco proveitosa, tendem amultiplicar-se em maior nmero que os indivduos menos aptos. A seleco natural nopodia, sem dvida, exercer a sua aco em certas direces vantajosas, se o nmero dosindivduos se encontrasse consideravelmente diminudo pelas causas que acabamos deindicar, e este caso tem-se produzido muitas vezes; mas isto no uma objeco valiosacontra a sua eficacidade em outras pocas e em outras circunstncias. Estamos longe depoder supor, com efeito, que muitas espcies sejam submetidas a modificaes emelhoramentos na mesma poca e no mesmo pas. Seleco sexualNo estado domstico, certas particularidades aparecem algumas vezes em um dossexos e tornam-se hereditrias nesse sexo. O mesmo se efectua no estado de natureza. ento possvel que a seleco natural modifique os dois sexos relativamente aos hbitosdiferentes da existncia, como algumas vezes sucede, ou que um sexo se modifiquerelativamente ao outro sexo, o que acontece frequentemente. Isto leva-me a dizer algumaspalavras a respeito do que denominei seleco sexual. Esta forma de seleco nodepende da luta pela existncia com outros seres organizados, ou com as condiesambientes, mas da luta entre os indivduos de um sexo, ordinariamente os machos, paraassegurar a posse do outro sexo. Esta luta no termina pela morte do vencido, mas pelafalta ou pela pequena quantidade de descendentes. A seleco sexual , pois, menosrigorosa que a seleco natural. Ordinariamente, os machos mais vigorosos, isto , os queso mais aptos a ocupar o seu lugar em a natureza, deixam um maior nmero dedescendentes. Mas, em muitos casos, a vitria no depende tanto do vigor geral doindivduo como da posse de armas especiais que se encontram apenas no macho. Umveado desprovido de pontas, ou um galo desprovido de espores, teriam poucas 107. probabilidades de deixar numerosos descendentes. A seleco sexual, permitindo sempreaos vencedores reproduzir-se, pode dar sem dvida a estes uma coragem indomvel,espores mais longos, uma asa mais forte para quebrar a pata do concorrente, quase damesma maneira que o brutal criador de galos de combate pode melhorar a raa pelaescolha rigorosa dos seus mais belos adultos. Eu no saberia dizer at onde se estendeesta lei da guerra na escala da natureza. 108. Dizem que os aligatores machos se batem, rugem, giram em crculo, como fazem osndios nas suas danas guerreiras, para apoderar-se das fmeas; vemse os salmesmachos bater-se durante dias inteiros; os besouros machos trazem algumas vezes o sinaldas feridas que lhes fizeram as largas mandbulas de outros machos; M. Fabre, esteobservador inimitvel, viu muitas vezes certos insectos himenpteros machos baterem-sepela posse de uma fmea que parecia ficar espectadora indiferente ao combate, e que, emseguida, partia com o vencedor. A guerra talvez mais terrvel ainda entre os machos dosanimais polgamos, porque estes ltimos parecem providos de armas especiais. Osanimais carnvoros machos parecem j bem armados, e, contudo, a seleco natural podedar-lhes ainda novos meios de defesa, tais como a juba do leo e a queixada de ganchosdo salmo macho, porque o escudo pode ser to importante como a lana do ponto devista da vitria.Entre as aves, esta luta reveste, frequentemente, um carcter mais pacfico. Todosaqueles que tm estudado este assunto, verificam uma ardente rivalidade entre os machosde muitas espcies para atrair as fmeas com seus cantos. Os melros de rocha da Guiana,as aves-do-paraso, e muitas outras ainda, renem-se em bandos; os machosapresentam-se sucessivamente; mostram com o maior cuidado, com o maior efeitopossvel, a sua magnfica plumagem, tomam as mais extraordinrias atitudes diante dasfmeas, simples espectadoras, que terminam por escolher o companheiro mais agradvel.Quem tem estudado com interesse as aves em cativeiro, sabe que, estas mesmo, somuito susceptveis de preferncias e de antipatias individuais; assim, sir R. Heron observouque todas as fmeas do seu viveiro amavam em especial um certo pavo penachado.-me impossvel entrar aqui em todas as particularidades que seriam necessrias; mas, seo homem chega a dar, em pouco tempo, a elegncia do porte e a beleza da plumagem aosnossos galos Banto, segundo o tipo ideal que concebemos para esta espcie, no vejorazo para que as aves fmeas no possam obter um resultado semelhante escolhendo,durante milhares de geraes, os machos que lhes paream mais belos, ou aqueles cujavoz seja mais melodiosa. Podem explicar-se, em parte, pela aco da seleco sexualalgumas leis bem conhecidas relativas plumagem das aves machos e fmeascomparada plumagem dos filhos, por variaes que se apresentam em diferentes idadese transmitidas seja somente aos machos, seja aos dois sexos, ou na idadecorrespondente; mas o espao falta-nos para desenvolver este assunto. 109. Creio que, todas as vezes que os machos e as fmeas de qualquer animal tm osmesmos hbitos gerais de existncia, mas que diferem do ponto de vista da conformao,da cor ou da ornamentao, estas diferenas so devidas principalmente selecosexual; isto , que certos machos tm tido, durante uma srie ininterrupta de geraes,algumas ligeiras vantagens sobre outros machos, provindo quer de suas armas, quer deseus meios de defesa, quer da sua beleza ou dos seus atractivos, vantagens quetransmitiram exclusivamente sua posteridade masculina. Eu no queria, contudo, atribuira esta causa todas as diferenas sexuais; vemos, com efeito, entre os animais domsticos,produzirem-se entre os machos particularidades que parecem no ter sido aumentadaspela seleco do homem. O tufo de plos sobre o papo do peru selvagem no lhe seria devantagem alguma, e at duvidoso que possa servirlhe de ornamentao aos olhos dafmea; se mesmo este tufo de plos tivesse aparecido no estado domstico, teramo-loconsiderado como uma monstruosidade. 110. Exemplos da aco da seleco natural ou da persistncia do mais aptoA fim de bem fazer compreender de que modo actua, segundo me parece, a seleconatural, peo permisso para dar um ou dois exemplos imaginrios. Suponhamos um loboque se nutrisse de diferentes animais, apoderando-se de uns pela astcia, de outros pelafora, de outros, enfim, pela agilidade. Suponhamos ainda que a sua presa mais rpida, ogamo por exemplo, tinha aumentado em nmero aps algumas alteraes sobrevindas nopas, ou que os outros animais, de que se nutre ordinariamente, tinham diminudo durantea estao do ano em que o lobo est mais apertado pela fome. Nestas circunstncias, oslobos mais geis e mais velozes tm mais probabilidades de sobreviver do que os outros;persistem ento, contanto que conservem, todavia, bastante fora para vencer a sua presae tornarem-se senhores dela, nesta poca do ano ou em qualquer outra, quando soforados a apoderar-se de outros animais para se nutrir. No vejo mais razo para duvidardeste resultado do que da possibilidade, para o homem, de aumentar a ligeireza dos seusgalgos por uma seleco diligente e metdica, ou por esta espcie de selecoinconsciente que provm de cada pessoa se esforar por possuir os melhores ces semter o menor pensamento em modificar a raa. Posso juntar que, segundo M. Pierce, duasvariedades de lobos habitam as montanhas de Catskill, nos Estados Unidos: uma destasvariedades, que afecta um pouco a forma do galgo, nutre-se principalmente de gamos; aoutra, mais pesada, as pernas mais curtas, ataca mais frequentemente os rebanhos. necessrio observar que, no exemplo citado acima, falo dos lobos mais velozestomados individualmente, e no de uma variao manifestamente pronunciada que seperpetuasse. Nas edies precedentes desta obra, podia acreditar-se que eu apresentavaesta ltima alternativa como se fosse muitas vezes produzida. Eu compreendia a extremaimportncia das diferenas individuais, e isto me conduzia a discutir pormenorizadamenteos resultados da seleco inconsciente feita pelo homem, seleco que depende daconservao dos indivduos mais ou menos superiores e da destruio dos indivduosinferiores. Compreendia tambm que, no estado de natureza, a conservao de um desvioacidental de estrutura, tal como uma monstruosidade, deve ser um sucesso muito raro, eque, se este desvio se conserva de princpio, deve tender a desaparecer imediatamente,em seguida aos cruzamentos com indivduos comuns. Todavia, depois de ter lido umexcelente artigo da North British Review (1867), compreendi melhor ainda o quanto raroque variaes isoladas, quer sejam ligeiras quer fortemente acentuadas, possamperpetuar-se. O autor deste artigo toma para exemplo um casal de animais que produzamdurante a vida duzentos filhos, dos quais, em razo de diferentes causas de destruio,dois unicamente, em mdia, sobrevivem para propagar a espcie. Pode dizer-se,primeiramente, que um valor pequenssimo para a maior parte dos animais elevados naescala, mas que no h exagero para os organismos inferiores. O escritor demonstra emseguida que, se nasce um nico indivduo que varia de forma a ter mais duasprobabilidades de vida do que todos os outros, teria, ainda assim, muito poucaprobabilidade de persistir. Supondo que se reproduzisse e que metade dos filhosherdassem a variao favorvel, os filhos, se se deve acreditar no autor, teriam apenas 111. uma leve probabilidade a mais para sobreviver e se reproduzirem, e esta probabilidadediminuiria em cada gerao sucessiva. No se pode, creio eu, pr em dvida a exactidodestas observaes. Suponhamos, com efeito, que uma ave qualquer pode procurar osalimentos mais facilmente tendo o bico recurvo; suponhamos ainda que uma ave destaespcie nasce com 112. o bico demasiado curvo, e que, por consequncia, vive facilmente; no menos verdadeque haveria poucas probabilidades deste nico indivduo perpetuar a espcie comexcluso da forma ordinria. Mas, se preciso julgar pelo que se passa nos animais noestado de domesticidade, no se pode duvidar to-pouco que, se se escolheu, durantemuitas geraes, um grande nmero de indivduos tendo o bico mais ou menos recurvado,e se se destruiu um maior nmero ainda de indivduos tendo o bico o mais direito possvel,os primeiros no se multiplicam facilmente.Todavia, necessrio no esquecer que certas variaes perfeitamente acentuadas,que ningum pensaria em classificar como simples diferenas individuais, se apresentammuitas vezes, porquanto condies anlogas actuam sobre organismos anlogos; asnossas produes domsticas oferecem-nos, numerosos exemplos deste facto. Nestecaso, se o indivduo que variou no transmite exactamente aos filhos os seus caracteresnovamente adquiridos, menos lhes transmite por muito tempo, contanto que as condiesfiquem as mesmas, uma grande tendncia a variar da mesma forma. No se pode duvidarto-pouco que a tendncia para variar na mesma direco tenha sido outrora topoderosa, que todos os indivduos da mesma espcie se modificassem da mesmamaneira, sem o auxlio de qualquer espcie de seleco. Poderiam, em todos os casos,citar-se muitos exemplos de um tero, de um quinto ou mesmo de um dcimo dosindivduos que foram afectados desta forma. Assim, Graba julga que, nas ilhas de Faro,pouco mais ou menos um quinto de Guillemots se compe de uma variedade to bemdefinida, que se classificou outrora como uma espcie distinta, com o nome de Urialacrymans. Sendo isto assim, se a variao vantajosa ao animal, a forma modificadadeve suplantar bem depressa a forma original, em virtude da sobrevivncia do mais apto. 113. Terei de voltar aos efeitos dos cruzamentos do ponto de vista da eliminao dasvariaes de toda a espcie; algumas vezes posso fazer observar aqui que a maior partedos animais e das plantas tendem a conservar o mesmo habitat se no o afastam semrazo; poderia citar, como exemplo, as prprias aves de arribao, que, quase sempre,voltam a habitar a mesma localidade. Por consequncia, toda a variedade de formaonova seria ordinariamente local no princpio, o que parece, alis, ser regra geral para asvariedades no estado da natureza; de tal modo que os indivduos modificados de maneiraanloga devem formar em breve um pequeno grupo e tender a reproduzir-se facilmente.Se a nova variedade bem sucedida na luta pela existncia, propaga-se lentamente emtorno de um ponto central; luta constantemente com os indivduos que no tenham sofridoalterao alguma, aumentando sempre o crculo da sua aco, e acabando por venc-los.No seria intil citar um outro exemplo um pouco mais complicado da aco daseleco natural. Certas plantas segregam um lquido aucarado, aparentemente com ofim de eliminar da seiva algumas substncias nocivas. Esta secreo efectua-se, quasesempre, com o auxlio de glndulas colocadas na base das estipulas entre algumasleguminosas, e na pgina inferior das folhas do loureiro comum. Os insectos procuramavidamente este lquido, posto que se encontre sempre em pequena quantidade; mas asua visita no constitui vantagem alguma para a planta. Ora, suponhamos que um certonmero de plantas de uma espcie qualquer segregam este lquido ou este nctar nointerior das flores. Os insectos em busca do nctar cobrem-se de plen e transportam-node uma flor para outra. As flores de dois indivduos distintos da mesma espcie cruzam-sepor este facto; ora, o cruzamento, como seria fcil demonstr-lo, produz plantas vigorosas,que tm a maior probabilidade de viver e de perpetuar-se. As plantas que produziram asflores em glndulas maiores, e que, por consequncia, segregaram mais lquido, seriammaior nmero de vezes visitadas pelos insectos e cruzar-se-iam mais vezes tambm; porisso, acabariam, no decorrer do tempo, por suplantar todas as outras e formar umavariedade local. As flores cujos estames e pistilos estivessem situados, em relao aotamanho e hbitos dos insectos que os procuram, de maneira a favorecer, de qualquerforma, o transporte do plen, seriam igualmente superiores. Poderamos escolher paraexemplo insectos que visitam as flores em busca do plen no lugar da secreoaucarada; tendo o plen por nico objecto a fecundao, parece, primeira vista, que asua destruio seria uma verdadeira perda para a planta. Contudo, se os insectos que senutrissem de plen transportassem de flor em flor um pouco desta substncia, primeiroacidentalmente, depois habitualmente, e que os cruzamentos fossem o resultado destestransportes, a planta teria ainda a lucrar, posto que nove dcimos do plen fossemdestrudos. Resultaria ento que os indivduos que possussem as antenas mais grossas ea maior quantidade de plen, tinham mais probabilidades de perpetuar a espcie. 114. Quando uma planta, aps desenvolvimentos sucessivos, cada vez mais procuradapelos insectos, estes, operando inconscientemente, levam regularmente o plen de flor emflor; muitos exemplos admirveis me permitiriam provar que este facto se apresenta todosos dias. Citarei apenas um nico, porque me servir ao mesmo tempo para demonstrarcomo pode efectuar-se gradualmente a separao dos sexos entre as plantas. Certosazevinhos tm apenas flores masculinas, providas de um pistilo rudimentar e de quatroestames que produzem uma pequena quantidade de plen; outros tm apenas floresfemininas, com um pistilo muito desenvolvido e quatro estames com anteras nodesenvolvidas, nas quais se no descobriria um nico gro de plen. Tendo observadouma rvore feminina distncia de 60 metros de uma rvore masculina, coloquei nomicroscpio os estigmas de vinte flores colhidas de diversos ramos. Em todos, semexcepo, notei a presena de alguns gros de plen, e em alguns uma profuso. O plenno tinha podido ser transportado pelo vento, que, desde alguns dias, soprava numadireco contrria. O tempo estava frio, tempestuoso, e por consequncia pouco favorvels visitas das abelhas; contudo, todas as flores que examinei tinham sido fecundadas porabelhas que voavam de rvore em rvore, em busca de nctar. Voltemos nossademonstrao: desde que a planta se torna assaz atraente para os insectos para que oplen seja transportado regularmente de flor em flor, uma outra srie de factos comea aproduzir-se. Nenhum naturalista pe em dvida as vantagens do que se chama a divisofisiolgica do trabalho. Pode concluir-se da que seria proveitoso para as plantas produzirunicamente estames em uma flor ou em um arbusto completo, e unicamente pistilos emoutra flor ou em outro arbusto. Entre as plantas cultivadas e colocadas por isso em novascondies de existncia, umas vezes os rgos masculinos e outras vezes os rgosfemininos tornam-se mais ou menos impotentes. Ora, se ns supomos que isto se podeproduzir, em qualquer grau que seja, no estado de natureza, estando o plen jregularmente transportado de flor em flor e sendo til a completa separao dos sexos doponto de vista da diviso do trabalho, os indivduos em que esta tendncia cresaprogressivamente so cada vez mais favorecidos e escolhidos, at que enfim a completaseparao dos sexos se efectue. Seria preciso demasiado espao para demonstrar como,pelo dimorfismo, ou por outros meios, certamente hoje em aco, se efectua actualmente aseparao dos sexos entre as plantas de diversas espcies. Mas posso juntar, que,segundo Asa Gray, algumas espcies de azevinhos, na Amrica Setentrional, seencontram exactamente numa posio intermediria, ou, para empregar a sua expresso,so mais ou menos diicamente poligmicas. 115. Examinemos agora os insectos que se nutrem de nctar. Podemos supor que aplanta, de que vimos aumentar as secrees lentamente em seguida a uma selecocontnua, uma planta comum, e que certos insectos procuram em grande parte o seunctar para a alimentao. Poderia provar, por numerosos exemplos, quanto as abelhasso econmicas do tempo; lembrarei unicamente as incises que costumam fazer na basede certas flores para colher o nctar, quando com um pouco mais de dificuldadepoderiam entrar pelo vrtice da corola. Recordando estes factos, pode facilmenteacreditar-se que, em certas circunstncias, diferenas individuais na curvatura ou nocomprimento da tromba, etc., ainda que demasiado insignificantes para que possamosapreci-las, podem ser proveitosas s abelhas ou a qualquer outro insecto, de forma talque certos indivduos estariam em estado de procurar mais facilmente asua nutrio do que quaisquer outros; as sociedades a que pertencessemdesenvolver-se-iam por consequncia mais depressa, e produziriam mais enxamesherdando as mesmas particularidades. Os tubos das corolas do trevo vermelho comum e otrevo encarnado (Trifolium pratense e T. incarnatum), no pareciam, primeira vista, diferirno comprimento; contudo, a abelha domstica colhe facilmente o nctar do trevoencarnado, mas no do trevo comum vermelho, que apenas procurado pelos zngos;de maneira tal que campos completos de trevo vermelho em vo oferecem abelha umaabundante colheita de precioso nctar. certo que a abelha gosta em extremo destenctar; eu mesmo vi frequentemente, mas somente no Outono, muitas abelhas sugar asflores por aberturas que os zngos tinham praticado na base do tubo. A diferena docomprimento das corolas nas duas espcies de trevo deve ser insignificante; todavia, obastante para decidir as abelhas a procurarem uma flor mais depressa do que outra.Afirma-se, alm disso, que as abelhas procuram as flores do trevo vermelho da segundacolheita, que so um pouco mais pequenas. No sei se esta assero tem fundamento;tambm no sei se uma outra assero, recentemente publicada, tem mais fundamento,isto , que a abelha da Ligria, que se considera ordinariamente como uma simplesvariedade da abelha domstica comum, e que se cruza muitas vezes com ela, pode atingire sugar o nctar do trevo vermelho. Como quer que seja, seria muito vantajoso para aabelha domstica, num pas onde abunda esta espcie de trevo, ter uma tromba um Poucomais comprida ou diferentemente construda. Por outro lado, como a fecundidade destaespcie de trevo depende absolutamente da procura dos zngos, seria muito vantajosopara a planta, se os zngos se tornassem raros num pas, ter uma corola mais curta oumais profundamente dividida, para que a abelha pudesse sugar as flores. Podecompreender-se assim como se faz que uma flor e um insecto possam lentamente, quersimultaneamente, quer um aps outro, modificar-se e adaptarse mutuamente da maneiramais perfeita, pela conservao contnua de todos os indivduos que apresentam ligeirosdesvios de estrutura para um e para outro. 116. Sei bem que esta doutrina da seleco natural, baseada sobre exemplos anlogosqueles que acabo de citar, pode levantar as objeces que a princpio se tinham opostos magnficas hipteses de sir Charles Lyell, quando quis explicar as transformaesgeolgicas pela aco das causas actuais. Contudo, hoje raramente se procura julgarinsignificantes as causas que vemos ainda em aco actualmente, quando se empregampara explicar a escavao dos mais profundos vales ou a formao de longas linhas dedunas interiores. A seleco natural opera apenas pela conservao e acumulao depequenas modificaes hereditrias de que cada uma proveitosa ao indivduoconservado; ora, da mesma forma que a geologia moderna, quando se trata de explicar aescavao de um profundo vale, renuncia a invocar a hiptese de uma s grande vagadiluviana, da mesma forma a seleco natural tende a fazer desaparecer a crena nacriao contnua de novos seres organizados, ou nas grandes e inopinadas modificaesda sua estrutura. Cruzamento de indivduos Devo permitir-me aqui uma curta digresso. Quando se trata de animais e plantastendo os sexos separados, evidente que a participao de dois indivduos semprenecessria para cada fecundao ( excepo, contudo, dos casos to curiosos e topouco conhecidos de partenognese); mas a existncia desta lei est longe de serigualmente evidente nos hermafroditas. H, entretanto, alguma razo para acreditar que,entre todos os hermafroditas, dois indivduos cooperam, j acidentalmente, jhabitualmente, para a reproduo da espcie. Esta ideia foi sugerida, h j muito tempo,mas de uma forma bastante duvidosa, por Sprengel, por Knight e por Klreuter. Veremos,em breve, a importncia desta sugesto; mas serei obrigado a tratar aqui este assunto emmuito poucas palavras, se bem que tenha minha disposio os materiais necessriospara uma profunda discusso. Todos os vertebrados, todos os insectos e alguns outrosgrupos considerveis de animais copulam-se para cada fecundao. As investigaesmodernas tm diminudo muito o nmero dos supostos hermafroditas, e, entre osverdadeiros hermafroditas, h muitos que se copulam, isto , que dois indivduos se unemregularmente para a reproduo da espcie; ora, este o nico ponto que nos interessa.Todavia, h muitos hermafroditas que, certamente, se no copulam habitualmente, e agrande maioria das plantas encontra-se neste caso. Que razo pode haver, pois, parasupor que, mesmo neste caso, dois indivduos concorrem para o acto reprodutor? E comome impossvel entrar aqui nestas particularidades, devo contentar-me com algumasconsideraes gerais. 117. Em primeiro lugar, colhi um nmero considervel de factos. Fiz mesmo um grandenmero de experincias provando, de acordo com a opinio quase universal dostratadores, que, nos animais e nas plantas, um cruzamento entre variedades diferentes ouentre indivduos da mesma variedade, mas de uma outra casta, torna a posteridade quenasce mais vigorosa e mais fecunda; e que, por outra parte, as reprodues entreprximos parentes diminuem este vigor e esta fecundidade. Estes factos to numerososbastam para provar que uma lei geral da natureza tendendo a que nenhum serorganizado se fecunda a si mesmo durante um ilimitado nmero de geraes, e que umcruzamento com um outro indivduo indispensvel de tempos a tempos, posto que talvezcom longos intervalos.Esta hiptese permite-nos, creio eu, explicar grandes sries de factos, tais como oseguinte, inexplicvel de outra maneira. Todos os horticultores que se ocupam decruzamentos, sabem quanto a exposio humidade torna difcil a fecundao de umaflor; e, contudo, que multido de flores tm as anteras e os estigmas completamenteexpostos s intempries do ar! Admitindo que um cruzamento acidental indispensvel,ainda que as anteras e o pistilo da planta estejam to prximos que a fecundao de umpara outro seja quase inevitvel, esta livre exposio, por desvantajosa que seja, pode terpor fim permitir livremente a entrada do plen proveniente de outro indivduo. Por outraparte, muitas flores, como as da grande famlia das Papilionceas ou Leguminosas, tm osrgos sexuais completamente fechados; mas estas flores oferecem quaseinvariavelmente belas e curiosas adaptaes em relao com as visitas dos insectos. Asvisitas das abelhas so to precisas a muitas flores da famlia das Papilionceas, que afecundidade destas ltimas diminui muito se se impedem estas visitas. Ora, apenaspossvel que os insectos voem de flor em flor sem levar o plen de uma outra, paragrande vantagem da planta. Os insectos actuam, neste caso, como o pincel de que nosservimos e que basta, para assegurar a fecundao, passear sobre as anteras de uma flore sobre os estigmas de uma outra. Mas no seria preciso supor que as abelhas produzamassim uma multido de hbridas entre as espcies distintas; porque, se se coloca nomesmo estigma plen prprio planta e o de uma outra espcie, o primeiro anulacompletamente, assim como demonstrou Gaertner, a influncia do plen estranho. 118. Quando os estames de uma flor se lanam de improviso para o pistilo, ou se movemlentamente um aps outro, parece que unicamente para melhor assegurar a fecundaode uma flor por si mesma; sem dvida, esta adaptao til com este fim. Mas ainterveno dos insectos muitas vezes necessria para determinar os estames amoverem-se, como o demonstrou Klreuter para a brberis. Neste gnero, onde tudoparece disposto para assegurar a fecundao da flor por si prpria, sabe-se que, se seplantam uma perto da outra formas ou variedades muito prximas, quase impossvel criarplantas de raa pura, pois se cruzam naturalmente. Em numerosos outros casos, comopoderia demonstrlo pelas averiguaes de Sprengel e de outros naturalistas assim comopelas minhas prprias observaes, bem longe de que nada h que contribua parafavorecer a fecundao de uma planta por si mesma, observam-se adaptaes especiaisque impedem absolutamente o estigma de receber o plen dos seus prprios estames. NaLobelia fulgens, por exemplo, h um sistema, to admirvel como completo, por meio doqual as anteras de cada flor deixam escapar os numerosos grnulos de plen antes que oestigma da mesma flor esteja apto a receb-los. Ora, como no meu jardim pelo menos osinsectos nunca visitam esta flor, resulta da que jamais produz sementes, posto que tenhaobtido uma grande quantidade colocando eu mesmo o plen de uma flor no estigma deoutra. Uma outra espcie de Loblia, visitada pelas abelhas, produziu, no meu jardim,abundantes sementes. Em muitos outros casos, ainda que nenhum obstculo mecnicoespecial impea o estigma de receber o plen da mesma flor, todavia, como Sprengel emais recentemente Hildebrando e outros o demonstraram, e como eu mesmo possoconfirm-lo, as anteras rebentam antes que o estigma esteja apto a ser fecundado, ouento, ao contrrio, o estigma que chega maturao antes do plen, de tal maneira queestas pretendidas plantas dicogmicas tm na realidade sexos separados e devemcruzar-se habitualmente. H mesmo plantas reciprocamente dimorfas e trimorfas a que jtemos feito aluso. Como estes factos so extraordinrios! Como estranho que o plen eo estigma da mesma flor, ainda que colocados um ao p do outro com o fim de assegurara fecundao da flor por si mesma, sejam, em tantos casos, reciprocamente inteis um aooutro! Como fcil explicar estes factos, que se tornam ento to simples, na hiptese deque um cruzamento acidental com um indivduo distinto vantajoso ou indispensvel. 119. Se se deixam produzir sementes a muitas variedades de couves, rabanetes, cebolase algumas outras plantas colocadas umas perto das outras, tenho observado que a grandemaioria das novas plantas provenientes destas sementes so mestias. Assim, trateiduzentas e trinta e trs novas couves provenientes de diferentes variedades que nasceramjunto umas das outras, e, destas duzentas e trinta e trs plantas, apenas setenta e oitoeram de raa pura, e ainda algumas destas ltimas eram ligeiramente alteradas. Contudo,o pistilo de cada flor, na couve, no somente cercado de seis estames, mas ainda pelosde numerosas outras flores que se encontram na mesma planta; alm disso, o plen decada flor chega facilmente ao estigma, sem que seja necessrio a interveno dosinsectos; observei, com efeito, que as plantas protegidas com cuidado contra as visitas dosinsectos produzem um nmero completo de silquas. Como sucede, pois, que um togrande nmero de plantas novas sejam mestias? Isto deve provir de que o plen de umavariedade distinta dotado de um poder fecundante mais activo do que o plen da prpriaflor, e que isto faz parte da lei geral em virtude da qual o cruzamento de indivduos distintosda mesma espcie vantajoso planta. Quando, ao contrrio, espcies distintas secruzam, o efeito inverso, porque o prprio plen de uma planta excede quase sempre empoder fecundante um plen estranho; ns voltaremos, demais, a este assunto num captulosubsequente. Poder-se-ia fazer esta objeco que, em uma grande rvore, coberta de inumerveisflores, quase impossvel que o plen seja transportado de rvore em rvore, e queapenas poderia ser de flor em flor sobre a mesma rvore; ora, somente se podemconsiderar num sentido muito limitado as flores da mesma rvore como indivduosdistintos. Creio que esta objeco tem um certo valor, mas a natureza proveu a istosuficientemente dando s rvores uma grande tendncia a produzir flores de sexosseparados. Ora, quando os sexos so separados, ainda que a mesma rvore possaproduzir flores masculinas e flores femininas, preciso que o plen seja regularmentetransportado de uma flor a outra, e alm disso este transporte oferece uma probabilidadepara que o plen passe acidentalmente de uma rvore para outra. Tenho verificado que,nas nossas regies, as rvores pertencentes a todas as ordens tm os sexos muitas maisvezes separados do que todas as outras plantas. A meu pedido, o Dr. Hooker teve aamabilidade de formar a lista das rvores da Nova Zelndia, e o Dr. Asa Gray a dasrvores dos Estados Unidos: os resultados foram tais como eu os tinha previsto. Por outraparte, o Dr. Hooker informou-me que esta regra se no aplica Austrlia; mas, se a maiorparte das rvores australianas so dicogmicas, o mesmo efeito se produz como setivessem flores com sexos separados. Tenho feito algumas referncias s rvores apenaspara chamar a ateno sobre este ponto. 120. Examinemos resumidamente o que se passa entre os animais. Muitas espciesterrestres so hermafroditas, tais so, por exemplo, os moluscos terrestres e as minhocas;todos, entretanto, se copulam. At ao presente, no encontrei ainda um s animal terrestreque pudesse fecundar-se a si mesmo. Este facto singular, que contrasta to vivamentecom o que se passa com as plantas terrestres, explica-se facilmente pela hiptese danecessidade de um cruzamento acidental; porque, em razo da natureza do elementofecundante, no h, no animal terrestre, meios anlogos aco dos insectos e do ventosobre as plantas, que possam produzir um cruzamento acidental sem a cooperao dedois indivduos. Entre os animais aquticos, h, pelo contrrio, muitos hermafroditas quese fecundam a si mesmos, mas aqui as correntes oferecem um meio fcil de cruzamentosacidentais. Depois de numerosos estudos, feitos conjuntamente com uma das mais altas emais competentes autoridades, o professor Huxley, foi-me impossvel descobrir, nosanimais aquticos, e at mesmo nas plantas, um s hermafrodita no qual os rgosreprodutores fossem to perfeitamente internos, que todo o acesso fosse absolutamentefechado influncia acidental de um outro indivduo, de modo a tornar todo o cruzamentoimpossvel. Durante muito tempo me pareceu que os Cirrpedes fariam excepo a estaregra; mas, graas a um feliz acaso, pude provar que dois indivduos, ambos hermafroditase capazes de se fecundar a si mesmos, se cruzam contudo algumas vezes.A maior parte dos naturalistas deve estar impressionada, como por uma estranhaanomalia, pelo facto de, nos animais e nas plantas, entre as espcies de uma mesmafamlia e tambm de um mesmo gnero, serem uns hermafroditas e outros unissexuados,posto que sejam muito semelhantes em todos os outros pontos da sua organizao.Contudo, se se acha que todos os hermafroditas se cruzam de tempos a tempos, adiferena que existe entre eles e as espcies unissexuadas muito insignificante, pelomenos com relao s funes. 121. Estas diferentes consideraes e um grande nmero de factos especiais que puderecolher, mas que a falta de espao me impede de citar aqui, parecem provar que ocruzamento acidental entre indivduos distintos, nos animais e nas plantas, constitui umalei seno universal, pelo menos muito geral em a natureza. Circunstncias favorveis produo de novas formas pela seleco natural este um assunto extremamente complicado. Uma grande variabilidadee, sob estetermo, se compreendem sempre as diferenas individuais evidentemente favorvel aco da seleco natural. A multiplicidade de indivduos, oferecendo mais probabilidadesde variaes vantajosas num tempo dado, compensa uma variabilidade menor em cadaindivduo tomado pessoalmente, e este, creio eu, um elemento importante de sucesso.Posto que a natureza aplique longos perodos ao trabalho da seleco natural, no serianecessrio acreditar, contudo, que esta delonga seja indefinida. Com efeito, todos os seresorganizados lutam por se apoderar dos lugares vagos na economia da natureza; porconsequncia, se uma espcie, seja qual for, se no modifica nem se aperfeioa todepressa como os seus concorrentes, deve ser exterminada. Demais, a seleco naturalno pode agir sem que alguns descendentes herdem variaes vantajosas. A tendncia regresso ao tipo dos antepassados pode muitas vezes embaraar ou impedir a aco daseleco natural; mas, por outro lado, como esta tendncia no impede o homem de criar,pela seleco, numerosas raas domsticas, porque prevaleceria ela contra a obra daseleco natural?Quando se procede com uma seleco metdica, o tratador escolhe certos indivduospara atingir um fim determinado; se permite a todos os indivduos cruzarem-se livremente, certo que falhar. Quando, porm, muitos tratadores, sem a inteno de modificar umaraa, tm um tipo comum de perfeio, e que todos tentam procurar e fazer reproduzir osindivduos mais perfeitos, esta seleco inconsciente traz lenta, mas seguramente,grandes progressos, admitindo mesmo que se separem os indivduos mais particularmentebelos. D-se o mesmo no estado livre; porque, numa regio restrita, em que a economiageral apresenta algumas lacunas, todos os indivduos que variam numa certa direcodeterminada, ainda que em graus diferentes, tendem a persistir. Se, ao contrrio, a regio considervel, os diversos distritos apresentam certamente condies diferentes deexistncia; ora, se uma espcie submetida a modificaes nestes diversos distritos, asnovas variedades formadas cruzam-se nos confins de cada um deles. Veremos, todavia,no sexto captulo desta obra, que as variedades intermedirias, habitando distritosintermedirios, so ordinariamente eliminadas, num lapso de tempo mais ou menosconsidervel, por uma das variedades vizinhas. O cruzamento afecta principalmente osanimais que se copulam para cada fecundao, que vagueiam muito, e se no multiplicamnuma proporo rpida. Assim, nos animais desta natureza, aves por exemplo, asvariedades devem ordinariamente ser limitadas em regies separadas umas das outras; isto o que acontece quase sempre. Nos organismos hermafroditas que se no cruzam a 122. no ser acidentalmente, da mesma forma como nos animais que se copulam para cadafecundao, mas que pouco vagueiam, e se multiplicam rapidamente, uma nova variedadeaperfeioada pode formar-se depressa em um lugar qualquer, pode a sustentar-se eespalhar-se depois de tal maneira que os indivduos da nova variedade se cruzemprincipalmente uns com os outros. em virtude deste princpio que os horticultorespreferem conservar sempre sementes recolhidas sobre macios considerveis de plantas,porque evitam assim as probabilidades de cruzamento. 123. No seria preciso acreditar to-pouco que os cruzamentos fceis possam embaraara aco da seleco natural nos animais que se reproduzem lentamente e se copulampara cada fecundao. Eu poderia citar factos numerosos provando que, num mesmo pas,duas variedades de uma mesma espcie de animais podem ficar por muito tempo distintas,quer frequentem ordinariamente regies diferentes, quer a estao da cpula no seja amesma para cada um deles, quer enfim os indivduos de cada variedade prefiramcopular-se entre si.O cruzamento representa um papel importante em a natureza; graas a ele os tiposficam puros e uniformes na mesma espcie ou na mesma variedade. A sua aco maiseficaz nos animais que se copulam para cada fecundao; mas, acabamos de ver quetodos os animais e todas as plantas se cruzam de tempos a tempos. Logo que oscruzamentos no tenham lugar seno com longos intervalos, os indivduos que daprovm, comparados aos que resultam da fecundao da planta ao do animal por simesmo, so muito mais vigorosos e muito mais fecundos; e tm, por conseguinte, maisprobabilidades de sobreviver e propagar a sua espcie. Por muito raros que sejam certoscruzamentos, a sua influncia deve, depois de um longo perodo, exercer um poderosoefeito sobre os progressos da espcie. Quanto aos seres organizados colocados to baixona escala, que se no propagam sexualmente, se no copulam, e nos quais oscruzamentos so impossveis, a uniformidade dos caracteres s pode conservar-se entreeles, ficando colocados nas mesmas condies de existncia, em virtude do princpio dahereditariedade, e devido seleco natural, cuja aco traz a destruio dos indivduosque se afastam do tipo ordinrio. Se as condies de existncia chegam a mudar, se aforma sofre modificaes, a seleco natural, conservando variaes vantajosas anlogas,pode dar somente aos descendentes modificados a uniformidade dos caracteres. 124. O isolamento goza tambm de um papel importante na modificao das espciespela seleco natural. Numa regio fechada, isolada e pouco extensa, as condiesorgnicas e inorgnicas da existncia so quase sempre uniformes, de tal modo que aseleco natural tende a modificar da mesma maneira todos os indivduos variveis damesma espcie. Demais, o cruzamento com os habitantes dos distritos vizinhos acha-seimpedido. Moritz Wagner publicou ultimamente, sobre este assunto, uma memria muitointeressante; demonstrou que o isolamento, impedindo os cruzamentos entre asvariedades novamente formadas, tem provavelmente um efeito mais considervel que eumesmo no supunha. Mas, pelas razes que j indiquei, no posso, de forma alguma,adoptar a opinio deste naturalista, quando sustenta que a emigrao e o isolamento soos elementos necessrios formao de novas espcies. O isolamento goza tambm umpapel muito importante depois de uma alterao fsica das condies de existncia, tal, porexemplo, como modificaes de clima, agitao do solo, etc., porque impede a emigraode organismos melhor adaptados a estas novas condies de existncia; encontram-seassim, na economia natural da regio, novos lugares vagos, que sero preenchidos, emvirtude disso, por modificaes dos antigos habitantes. Enfim, o isolamento assegura auma nova variedade todo o tempo que lhe necessrio para se aperfeioar lentamente, e este algumas vezes um ponto importante. Contudo, se a regio isolada muito pequena,ou porque seja cercada de barreiras, ou porque as condies fsicas sejam todasparticulares, o nmero total dos seus habitantes ser tambm muito pouco considervel, oque retarda a aco da seleco natural, no ponto de vista da seleco de novas espcies,porque as probabilidades da apario de variedades vantajosas so diminutas.A prpria durao do tempo nada pode por si mesma, nem pr nem contra aseleco natural. Enuncio esta regra porque se tem sustentado sem razo que eu ligavaao elemento do tempo um papel preponderante na transformao das espcies, como setodas as formas da vida devessem necessariamente sofrer modificaes em virtude dealgumas leis inatas. A durao do tempo somente importante -e nisto no exageraramosesta importncia-porque apresenta mais probabilidade para a apario de variaesvantajosas e lhes permite, depois que fazem o objecto da seleco, acumular-se e fixar-se.A durao do tempo contribui tambm para aumentar a aco directa das condies fsicasda vida na sua relao com a constituio de cada organismo. 125. Se interrogamos a natureza para lhe pedir a prova das regras que acabamos deformular, e se considerarmos uma pequena regio isolada, seja qual for, uma ilhaocenica, por exemplo, posto que o nmero das espcies que a habitam seja bastantereduzido, como veremos no captulo sobre a distribuio geogrfica-todavia a maior partedestas espcies so endmicas, isto , foram produzidas neste lugar, e em mais partenenhuma do mundo. Pareceria ento, primeira vista, que uma ilha ocenica era muitofavorvel produo de novas espcies. Mas estamos muito expostos a enganarmo-nos,porque, para determinar se uma pequena regio isolada tem sido mais favorvel do queuma grande regio aberta como um continente, ou reciprocamente, produo de novasformas orgnicas, seria preciso poder estabelecer uma comparao entre tempos iguais, oque nos impossvel fazer. O isolamento contribui poderosamente, sem dvida, para a produo de novasespcies; contudo, estou disposto a acreditar que uma vasta regio aberta maisfavorvel ainda, quando se trata da produo de espcies capazes de se perpetuardurante longos perodos e adquirir uma grande extenso. Uma vasta regio aberta ofereceno somente mais probabilidades para que variaes vantajosas faam a sua apario emrazo do grande nmero de indivduos da mesma espcie que a habitam, mas tambm emrazo de que as condies de vida so muito mais complexas por causa da multiplicidadedas espcies j existentes. Ora, se alguma destas numerosas espcies se modifica e seaperfeioa, outras devem aperfeioar-se tambm na mesma proporo, senodesapareceriam fatalmente. Demais, cada nova forma, desde que est muito aperfeioada,pode espalhar-se numa regio aberta e contnua, e encontra-se assim em concorrnciacom muitas outras formas. As grandes regies, ainda que hoje contnuas, por certo que jforam, em virtude de antigas oscilaes de nvel, anteriormente fraccionadas, de tal formaque os bons efeitos do isolamento puderam produzir-se tambm numa certa medida. Emresumo, concluo que, posto que as pequenas regies isoladas sejam, sob quaisquerrelaes, muito favorveis produo de novas espcies, as grandes regies devem,contudo, favorecer as modificaes mais rpidas, e, alm disso, o que mais importante,as novas formas produzidas nas grandes regies, tendo j ganho a vitria sobrenumerosos concorrentes, so as que tomam a extenso mais rpida e que produzem ummaior nmero de variedades e espcies novas. So estas que desempenham o papel maisimportante na histria constantemente varivel do mundo organizado. 126. Este princpio ajuda-nos a compreender, talvez, alguns factos a que teremos de voltarno captulo sobre a distribuio geogrfica; por exemplo, o facto de as produes dopequeno continente australiano desaparecerem actualmente diante das do grandecontinente euro-asitico. Por isso que tambm as produes continentais se aclimatam portoda a parte e em to grande nmero nas ilhas. Numa pequena ilha, a luta pela existnciadeve ser menos ardente, e, por conseguinte, as modificaes e extines menosimportantes. Isto nos explica por que a flora da Madeira, assim como o faz notar OswaldHecr, se parece, at certo ponto, flora extinta da poca terciria da Europa. A totalidadeda superfcie de todas as bacias de gua doce ocupa somente uma pequena extensocomparativamente com a das terras e dos mares. Portanto, a concorrncia, nas produesde gua doce, deve ser menos viva que em qualquer outra parte; as novas formas devemproduzir-se mais lentamente, as antigas formas extinguir-se mais lentamente ainda. Ora, na gua doce que encontramos sete gneros de peixes ganides, restos de uma ordemoutrora preponderante; igualmente na gua doce que encontramos algumas das formasmais anormais que se conhecem no mundo, o Ornitorrinco e a Lepidossereia, por exemplo,que, como certos animais fsseis, constituem, at certo ponto, uma transio entre asordens hoje profundamente separadas na escala da natureza. Poderiam chamar-se estasformas anormais verdadeiros fsseis viventes; se se conservaram at poca actual, porque tm habitado uma regio isolada e tm estado expostas a uma concorrncia menosvariada e, por consequncia, menos viva.Se me fosse preciso resumir em algumas palavras as condies vantajosas ou no produo de novas espcies pela seleco natural, tanto, todavia, quanto um problema tocomplexo o permite, chegaria a concluir que, para as produes terrestres, um grandecontinente, que sofreu numerosas oscilaes de nvel, deve ser o mais favorvel produo de numerosos novos seres organizados, capazes de se perpetuarem durantemuito tempo e tomar uma grande extenso. Enquanto a regio existiu na forma decontinente, os habitantes deviam ser numerosos em espcies e em indivduos, e, por isso,submetidos a uma ardente concorrncia. Quando, aps os abaixamentos, o continente sesubdividiu em numerosas grandes ilhas separadas, cada uma destas ilhas deve aindaconter muitos indivduos da mesma espcie, de tal sorte que os cruzamentos deviam tercessado entre as variedades em breve tornadas prprias de cada ilha. Depois dasalteraes fsicas, de qualquer natureza, toda a emigrao deve ter cessado, de maneiraque os antigos habitantes modificados devem ter ocupado todos os novos lugares naeconomia natural de cada ilha; enfim, o lapso de tempo decorrido permitiu s variedades,que habitavam cada ilha, modificar-se completamente e aperfeioar-se. Quando, aps oselevamentos, as ilhas se transformaram de novo num continente, uma luta muito viva deveter recomeado; as variedades mais favorecidas ou mais aperfeioadas puderam entoestender-se; as formas menos aperfeioadas foram exterminadas, e o continenterestaurado mudou de aspecto com respeito ao nmero relativo dos habitantes. A, enfim,abre-se um novo campo seleco natural, que tende a aperfeioar ainda mais oshabitantes e a produzir novas espcies. 127. Admito completamente que a seleco natural actue de ordinrio com extremalentido. No pode mesmo actuar a no ser quando haja, na economia natural de umaregio, lugares vagos, que seriam melhor preenchidos se alguns dos habitantes sofressemcertas modificaes. Estas lacunas apenas se produzem quase sempre aps mudanasfsicas, que quase sempre se efectuam muito lentamente, e com a condio de algunsobstculos se oporem emigrao de formas melhor adaptadas. Contudo, medida quealguns dos antigos habitantes se modificam, as relaes mtuas de quase todos os outrosse alteram. Isto o bastante para criar lacunas que formas melhor adaptadas podempreencher; mas esta uma operao que se faz muito lentamente. Posto que muitosindivduos da mesma espcie diferem um pouco entre si, preciso em alguns casos,decorrer muito tempo antes que se produzam variaes vantajosas nas diferentes partesda organizao; demais, o livre cruzamento atrasa muitas vezes consideravelmente osresultados que poderiam obter-se. No faltar quem me objecte que estas diversas causasso mais que suficientes para neutralizar a influncia da seleco natural. No o creio.Admito, contudo, que a seleco natural actua apenas muito lentamente, com longosintervalos, e tambm somente sobre alguns habitantes de uma mesma regio. Creio, almdisso, que estes resultados lentos e intermitentes concordam ainda com o que nos ensinaa geologia sobre o desenvolvimento progressivo dos habitantes do mundo.Por mais lenta que seja a marcha da seleco natural, se o homem, com os seuslimitados meios, consegue realizar tantos progressos aplicando a seleco artificial, noposso perceber limite algum na soma de alteraes, assim como na beleza ecomplexidade das adaptaes de todos os seres organizados nas suas relaes mtuas ecom as condies fsicas de existncia que pode, no decurso das idades, realizara foraselectiva da natureza. 128. A seleco natural traz certas extinesDirei algumas palavras sobre este assunto, porque se relaciona de perto com aseleco natural, reservando-me para o tratar mais completamente no captulo relativo geologia. A seleco natural actua unicamente por meio da conservao das variaesteis a certos respeitos, variaes que persistem em razo desta mesma utilidade. Devido progresso geomtrica da multiplicao de todos os seres organizados, cada regiocontm j tantos habitantes quantos pode nutrir; resulta da que, medida que as formasfavorecidas aumentam em nmero, as formas menos favorecidas diminuem e tornam-seraras. A geologia ensina-nos que a raridade o precursor da extino. fcil decompreender que uma forma qualquer, tendo apenas alguns representantes, tem grandesprobabilidades para desaparecer completamente, quer em razo de alteraesconsiderveis em a natureza das estaes, quer por causa do aumento temporrio donmero dos inimigos. Podemos, alm disso, avanar mais ainda; com efeito, podemosafirmar que as formas mais antigas devem desaparecer medida que as novas formas seproduzem, a no ser que admitamos que o nmero de formas especficas aumenteindefinidamente. Ora, a geologia demonstra-nos claramente que o nmero de formasespecficas no aumenta indefinidamente, e ns tentaremos demonstrar em breve comosucede que o nmero de espcies se no tornou infinito sobre o Globo. Vimos que as espcies que compreendem o maior nmero de indivduos tm maisprobabilidades de produzir, num tempo dado, variaes favorveis. Os factos citados nosegundo captulo fornecem-nos a prova, porque demonstram que so as espcies comuns,espalhadas ou dominantes, como lhes chammos, que apresentam o maior nmero devariedades. Resulta da que as espcies raras se modificam ou se aperfeioam menosrapidamente num tempo dado; por consequncia, so vencidas, na luta pela existncia,pelos descendentes modificados ou aperfeioados das espcies comuns. Creio que estas diferentes consideraes nos conduzem a uma concluso inevitvel; medida que novas espcies se formam no decorrer dos tempos devido aco daseleco natural, outras espcies se tornam cada vez mais raras e terminam porextinguir-se. As que sofrem mais, so naturalmente as que se encontram imediatamenteem concorrncia com as espcies que se modificam e se aperfeioam. Ora, vimos, nocaptulo que trata da luta pela existncia, que so as formas mais prximas -as variedadesda mesma espcie e as espcies do mesmo gnero ou de gneros prximos -que emrazo da sua estrutura, constituio e hbitos anlogos, lutam de ordinrio maisvigorosamente entre si; por conseguinte, cada variedade ou cada espcie nova, enquantose forma, deve lutar ordinariamente com mais energia com os seus parentes maisprximos e acabar por destru-los. Podemos observar, alm disso, uma mesma marcha deextermnio nas produes domsticas, em razo da seleco operada pelo homem.Poderiam citar-se muitos exemplos curiosos para provar com que rapidez novas raas degado, carneiros e outros animais, ou novas variedades de flores tomam o lugar de raasmais antigas e menos aperfeioadas. A histria ensina-nos que, no Yorkshire, os antigos 129. gados negros foram substitudos por gados de longos chifres, e que estes ltimosdesapareceram ante os gados de curtos chifres (cito as prprias expresses de um escritoragrcola), como se tivessem sido levados pela peste. 130. Divergncia de caracteresO princpio que designo por este termo tem uma alta importncia, e permite, creio eu,explicar muitos factos considerveis. Em primeiro lugar, as variedades, mesmo quandosejam muitssimo pronunciadas, e ainda que tenham, sob quaisquer relaes, oscaracteres de espcies -o que est provado pelas dificuldades que se experimentam, emmuitos casos, para as classificar diferem, contudo, muito menos umas das outras do queas espcies verdadeiras e distintas. Todavia, julgo que as variedades so espcies em viade formao, ou so, como eu lhes tenho chamado, espcies nascentes. Como sucedeento que uma leve diferena entre as variedades se amplifique a ponto de tornar-se agrande diferena que observamos entre as espcies? A maior parte das inmerasespcies que existem na natureza, e que apresentam diferenas muito pronunciadas,prova-nos que o facto ordinrio; ora, as variedades, origem suposta de espcies futurasmuito definidas, apresentam ligeiras diferenas e a custo indicadas. O acaso, poderamosdizer, chegaria a fazer com que uma variedade diferisse, por quaisquer motivos, dos seusdescendentes; os descendentes desta variedade poderiam, por seu turno, diferir dosascendentes pelos mesmos motivos, mas de forma mais acentuada; isto, contudo, nobastaria para explicar as grandes diferenas que existem habitualmente entre as espciesdo mesmo gnero. 131. Como meu costume, procurei entre as nossas produes domsticas a explicaodeste facto. Ora, observamos nelas qualquer coisa anloga. Admitirse-, sem dvida, quea produo de raas tambm diferentes, como so os animais de curtos chifres e osanimais de Hereford, o cavalo de corrida e o cavalo de tiro, as diferentes raas de pombos,etc., no puderam jamais efectuarse pela simples acumulao, devida ao acaso, devariaes anlogas durante numerosas geraes sucessivas. Na prtica, um amadorobserva, por exemplo, um pombo que tem um bico mais curto do que o usual; um outroamador observa um pombo que tem o bico comprido; em virtude deste axioma que osamadores no admitem um tipo mdio, mas preferem os extremos, comeam ambos (e oque aconteceu com as sub-raas do pombo Cambalhota) a procurar e a fazer reproduziraves que tm um bico mais ou menos longo ou um bico mais ou menos curto. Podemossupor ainda que num antigo perodo da histria, os habitantes de uma nao ou de umdistrito tiveram necessidade de cavalos ligeiros, enquanto que os de outro distrito tiveramnecessidade de cavalos mais pesados e mais fortes. As primeiras diferenas deviam sercertamente muito pequenas, mas, no decorrer dos tempos, em consequncia da selecocontnua de cavalos rpidos num caso e de cavalos vigorosos noutro, as diferenasdeviam ter-se acentuado, e no se chegou formao de duas subraas. Enfim, apssculos, estas duas sub-raas converteram-se em duas raas distintas e fixas. medidaque as diferenas se acentuavam, os animais inferiores tendo caracteres intermedirios,isto , os que no eram nem muito rpidos nem muito fortes, nunca deviam ter sidoempregados na reproduo, tendendo assim a desaparecer. Vemos pois aqui, nasprodues do homem, a aco do que se pode chamar o princpio da divergncia; emvirtude deste princpio, as diferenas, pouco apreciveis no comeo, aumentamcontinuamente, e as raas tendem a desviar-se cada vez mais umas das outras e daorigem comum. Mas como, dir-se-, pode aplicar-se em a natureza um princpio anlogo? Creio quepode aplicar-se e se aplica da forma mais eficaz (mas devo confessar que me foinecessrio muito tempo para compreender como), em razo desta simples circunstnciade que quanto mais os descendentes de uma espcie qualquer se tornarem diferentes emrelao estrutura, constituio e hbitos, tanto mais estaro no caso de se apoderaremde lugares numerosos e muito diferentes na economia da natureza, e por consequnciaaumentar um nmero. Podemos claramente distinguir este facto entre os animais que tm hbitos simples.Tomemos, por exemplo, um quadrpede carnvoro e admitamos que o nmero destesanimais atingiu, h muito tempo, o mximo do que pode nutrir um pas qualquer. Se atendncia natural deste quadrpede a multiplicar-se continua a actuar, e as condiesactuais do pas que habita no sofreram modificao alguma, s pode chegar a crescer emnmero com a condio de os seus descendentes variveis se apoderarem de lugarespresentemente ocupados por outros animais: uns, por exemplo, tornando-se capazes dese alimentarem de novas espcies de presas mortas ou vivas; outros, habitando novasestaes, subindo s rvores, tornando-se aquticos; outros, enfim, talvez, tornando-semenos carnvoros. Quanto mais os descendentes deste animal carnvoro se modificam 132. relativamente aos hbitos e estrutura, tanto mais podem ocupar lugares em a natureza. Oque se aplica a um animal, aplica-se a todos os outros e em todos os tempos, com acondio, contudo, de serem susceptveis de variaes, porque de outra forma a seleconatural nada pode. O mesmo sucede com as plantas. Prova-se pela experincia que, se sesemeia num canteiro uma s espcie de gramneas, e num canteiro semelhante muitosgneros distintos de gramneas, criam-se neste segundo canteiro mais plantas erecolhe-se um peso mais considervel de ervas secas que no primeiro. Esta mesma leiaplica-se tambm quando se semeia, em espaos semelhantes, quer uma s variedade detrigo, quer muitas variedades misturadas. Por consequncia, se uma espcie qualquer degramneas varia e se se escolhessem continuamente variedades que diferissem entre si damesma maneira, ainda que num grau pouco considervel, como o fazem alis as espciesdistintas e os gneros das gramneas, um maior nmero de plantas individuais destaespcie, includos os descendentes modificados, conseguiriam viver no mesmo terreno.Ora, sabemos que cada espcie e cada variedade de gramneas espalha sobre o soloanualmente sementes inmeras, e que cada uma delas, poderia dizer-se, emprega todosos esforos para aumentar em nmero. Por isso, no decurso de muitos milhares degeraes, as variedades mais distintas de uma espcie qualquer de gramneas teriam amaior probabilidade de vencer, aumentar em nmero e suplantar assim as variedadesmenos distintas; ora, quando as variedades se tornam muito distintas umas das outras,consideram-se como espcies. 133. Muitas circunstncias naturais nos demonstram a veracidade do princpio, que umagrande diversidade de estrutura pode sustentar a maior soma de vida. Observamossempre uma grande diversidade entre os habitantes de uma pequena regio, sobretudo seesta regio est livremente aberta emigrao, onde, por conseguinte, a luta entreindivduos deve ser muito viva. Observei, por exemplo, que uma relva, tendo umasuperfcie de 3 ps por 4, colocada, h muitos anos, absolutamente nas mesmascondies, contm 20 espcies de plantas pertencentes a 18 gneros e a 8 ordens, o queprova quanto estas plantas diferiam umas das outras. O mesmo acontece com as plantas ecom os insectos que habitam pequenas ilhotas uniformes, ou ento pequenos lagos degua doce. Os rendeiros acharam que obtinham melhores colheitas estabelecendo umarotao de plantas pertencentes s ordens mais diferentes; ora, a natureza segue o quepoderia chamar-se uma rotao simultnea. A maior parte dos animais e das plantasque vivem perto de um pequeno terreno, qualquer que ele seja, poderiam viver nesteterreno, supondo, contudo, que a sua natureza no oferece particularidade algumaextraordinria; poder-se-ia mesmo dizer que empregam todos os esforos para a sesustentar, mas v-se que, quando a luta se torna muito viva, as vantagens que resultam dadiversidade de estrutura assim como as diferenas de hbito e de constituio que sodisso a consequncia, fazem que os habitantes que se aproximam de mais pertopertenam em regra geral ao que chamamos gneros e ordens diferentes. 134. A aclimatao das plantas nos pases estranhos, produzida por intermdio dohomem, fornece uma nova prova do mesmo princpio. Deveria atender-se a que todas asplantas que chegaram a aclimatar-se num pas qualquer foram ordinariamente muitoprximas das plantas indgenas; no se pensa ordinariamente, com efeito, que estasltimas foram criadas especialmente parao pas que habitam e adaptadas s suas condies? Poder-se-ia tambm atender, talvez,a que as plantas aclimatadas pertenciam a quaisquer grupos mais especialmenteadaptados a certos pontos da sua nova ptria. Ora, o caso muito diferente, e AlphonseCandolle fez observar com razo, na sua grande e admirvel obra, que as floras, emseguida sua aclimatao, aumentam muito mais em novos gneros que em novasespcies, proporcionalmente ao nmero de gneros e de espcies indgenas. Para dar ums exemplo, na ltima edio do Manual da Flora da parte Setentrional dos EstadosUnidos, pelo Dr. Asa Gray, o autor indica 260 plantas aclimatadas, que pertencem a 162gneros. Isto basta para provar que estas plantas aclimatadas tm uma natureza muitodiversa. Elas diferem, alm disso, extraordinariamente das plantas indgenas; porque,nestes 162 gneros aclimatados, no h menos de 100 que no sejam indgenas dosEstados Unidos; uma adio proporcional considervel foi ento feita aos gneros quehabitam hoje este pas. Se considerarmos a natureza das plantas ou dos animais que, num pas qualquer,tm lutado com vantagem com os habitantes indgenas e so assim aclimatados, podemosfazer uma ideia da forma como os habitantes indgenas deveriam modificar-se paraprevalecer sobre os seus compatriotas. Podemos, pelo menos, concluir que a diversidadede estrutura, chegada ao ponto de constituir novas diferenas genricas, lhes seria de umgrande proveito. 135. As vantagens da diversidade de estrutura entre os habitantes da mesma regio soanlogas, numa palavra, s que apresenta a diviso fisiolgica do trabalho nos rgos domesmo indivduo, assunto to admiravelmente elucidado por Milne Edwards. Nenhumfisilogo pe em dvida que um estmago construdo para digerir somente matriasvegetais, ou somente matrias animais, tire destas substncias a maior soma de nutrio.Da mesma forma, na economia geral de um pas qualquer, quanto mais as plantas e osanimais oferecerem diversidades ntidas apropriando-as a diferentes modos de existncia,tanto mais considervel o nmero de indivduos capazes de habitar este pas. Um grupode animais cujo organismo apresenta poucas diferenas pode dificilmente lutar com umgrupo cujas diferenas so mais acentuadas. Poderia duvidar-se, por exemplo, que osmarsupiais australianos, divididos em grupos que diferissem muito pouco uns dos outros, eque representam frouxamente, como M. Waterhouse e alguns outros o fizeram notar osnossos carnvoros, os nossos ruminantes e os nossos roedores, pudessem lutar com xitocontra estas ordens to bem desenvolvidas. Entre os mamferos australianos podemosento observar a diversificao das espcies num estado incompleto de desenvolvimento. Efeitos provveis da aco da seleco natural, em seguida a divergncia doscaracteres e a extino, sobre os descendentes de um antepassado comumDepois da discusso que precede, ainda que resumida seja, podemos concluir que osdescendentes modificados de uma espcie qualquer se desenvolvam tanto melhor quantoa sua estrutura mais diversificada e podem assim apoderar-se de lugares ocupados poroutros seres. Examinemos agora como estas vantagens resultantes da divergncia doscaracteres tendem a actuar, quando se combinam com a seleco natural e com aextino.O diagrama atrs pode auxiliar-nos a compreender este assunto bastantecomplicado. Suponhamos que as letras A a L representam as espcies de um gnero ricono pas que habita; suponhamos, alm disso, que estas espcies se assemelham, emgraus desiguais, como acontece ordinariamente em a natureza; isto que indicam, nodiagrama, as distncias desiguais que separam as letras. Disse um gnero rico, porque,como vimos no segundo captulo, mais espcies variam em mdia num gnero rico do quenum gnero pobre, e que as espcies variveis dos gneros ricos apresentam um maiornmero de variedades. Vimos tambm que as espcies mais comuns e as maisespalhadas variam mais do que as espcies raras cujo habitat restrito. Suponhamos queA representa uma espcie varivel comum muito espalhada, pertencendo a um gnero ricono seu prprio pas. As linhas pontuadas divergentes, de comprimento desigual, partindode A, podem representar os seus descendentes variveis. Supe-se que as variaes somuito pequenas e da mais diversa natureza; que no aparecem simultaneamente, masmuitas vezes aps longos intervalos de tempo, e que no persistem tambm duranteperodos iguais. S as variaes vantajosas persistem, ou, por outros termos, fazem oobjecto da seleco natural. ento que se manifesta a importncia do princpio das 136. vantagens que resultam da divergncia dos caracteres; porque este princpio determinaordinariamente as variaes mais divergentes e mais diversas (representadas por linhaspontuadas exteriores), que a seleco natural fixa e acumula. Quando uma linha pontuadaatinge uma das linhas horizontais e o ponto de contacto indicado por uma letraminscula, acompanhada de um nmero, supe-se que se acumulou uma quantidadesuficiente de variaes para formar uma variedade bem definida, isto , tal como sejulgaria dever indicar numa obra sobre a zoologia sistemtica. 137. Cada um dos intervalos entre as linhas horizontais do diagrama podem representarmil geraes ou mais. Suponhamos que aps mil geraes a espcie A produziu duasvariedades bem definidas, isto , 1 e m. Estas duas variedades encontram-se geralmentecolocadas em condies anlogas quelas que determinaram variaes nos seusantepassados, tanto quanto a variabilidade seja por si mesmo hereditria; porconsequncia, tendem tambm a variar, e ordinariamente do mesmo modo que os seusantepassados. Demais, estas duas variedades, sendo apenas formas levementemodificadas, tendem a herdar vantagens que tornaram o seu prottipo A mais numerosodo que a maior parte dos outros habitantes do mesmo pas; participam tambm dasvantagens mais gerais que tornaram o gnero a que pertencem os seus antepassados umgnero rico no seu prprio pas. Ora, todas estas circunstncias so favorveis produode novas variedades.Se estas duas variedades so variveis, as suas variaes mais divergentespersistiro ordinariamente durante as mil geraes seguintes. Aps este intervalo, podesupor-se que a variedade a1 produziu a variedade a2, a qual, graas ao princpio dadivergncia, difere mais de A do que a variedade a1. Pode-se supor tambm que avariedade m1 produziu, no fim do mesmo lapso de tempo, duas variedades: m2 e s2,diferindo uma da outra, e diferindo mais ainda da origem comum A. Poderamos continuara seguir estas variedades passo a passo durante um perodo qualquer. Algumasvariedades, aps cada srie de mil geraes, tero produzido uma s variedade, massempre mais modificada; outras produziro duas ou trs variedades; outras, enfim, nadaproduziro. Assim, as variedades, ou os descendentes modificados da origem comum A,aumentam ordinariamente em nmero, revestindo caracteres cada vez mais divergentes. 138. O diagrama representa esta srie at dcima milsima gerao, e, sob formasimples e resumida, at dcima milsima quarta.No pretendo dizer, claro est, que esta srie seja to regular como o no diagrama,posto que tenha sido representada de forma bastante irregular; no pretendo dizer tambmque estes progressos sejam incessantes; muito mais provvel, pelo contrrio, que cadaforma persista sem alterao durante longos perodos, pois que de novo submetida amodificaes. No pretendo dizer to-pouco que as variedades mais divergentes persistamsempre; uma forma mdia pode persistir durante muito tempo e pode, ou no, produzirmais do que um descendente modificado. A seleco natural, com efeito, actua sempre emrazo dos lugares vagos, ou daqueles que no esto perfeitamente ocupados por outrosseres, e isto envolve relaes infinitamente complexas. Mas, em regra geral, quanto maisos descendentes de uma espcie qualquer se modificam com relao conformao,tanto mais probabilidades tm de se apoderar dos lugares e tanto mais a suadescendncia modificada tende a aumentar. No nosso diagrama, a linha de descendncia interrompida em intervalos regulares por letras minsculas com nmeros, indicando asformas sucessivas que se tornaram suficientemente distintas para que se reconheamcomo variedades; diga-se de passagem que estes pontos so imaginrios e que poderiamter-se colocado no importa aonde, deixando intervalos assaz longos para permitir aacumulao de uma soma considervel de variaes divergentes.Como todos os descendentes modificados de uma espcie comum e muitoespalhada, pertencendo a um gnero rico, tendem a participar das vantagens que deramao antepassado a preponderncia na luta pela existncia, multiplicam-se ordinariamenteem nmero, ao mesmo tempo que os seus caracteres se tornam mais divergentes; estefacto representado no diagrama por diferentes ramos divergentes que partem de A. Osdescendentes modificados dos ramos mais recentes e mais aperfeioados tendem a tomaro lugar dos ramos mais antigos e menos aperfeioados, e por isso a elimin-los; os ramosinferiores do diagrama, que no chegam at s linhas horizontais superiores, indicam estefacto. Em qualquer caso, sem dvida, as modificaes produzem-se numa s linha dedescendncia, e o nmero de descendentes modificados no aumenta, posto que a somadas modificaes divergentes tenha aumentado. Este caso seria representado nodiagrama se todas as linhas partindo de A fossem levantadas, excepo das quepartissem de a1 at a10. O cavalo de corrida ingls, e o co de caa ingls evidentementedivergem lentamente da sua origem primitiva da forma que acabamos de indicar, sem quealgum deles produzisse ramos ou novas raas. 139. Suponhamos que, aps dez mil geraes, a espcie A tenha produzido trs formas:a10, f10 e m10, que, divergindo em caracteres durante geraes sucessivas, chegaram adiferir grandemente, mas talvez desigualmente umas das outras e da origem comum. Se supusermos que a soma das alteraes entre cada linha horizontal do diagrama excessivamente pequena, estas trs formas sero apenas variedades bem definidas; mastemos somente que supor um maior nmero de geraes, ou uma modificao um poucomais considervel em cada grau, para converter estas trs formas em espcies duvidosas,ou em espcies bem definidas. O diagrama indica pois os graus por meio dos quais aspequenas diferenas, separando as variedades, se acumulam a ponto de formar asgrandes diferenas que separam as espcies. Continuando a mesma marcha durante ummaior nmero de geraes, o que indica o diagrama sob uma forma condensada esimplificada, obtemos oito espcies, a14 a m14, descendentes todas de A. assim, creioeu, que as espcies se multiplicam e que os gneros se formam. provvel que, num gnero rico, mais de uma espcie deva variar. Supus, nodiagrama, que uma segunda espcie produziu, por uma marcha anloga, aps dez milgeraes, quer duas variedades bem definidas, w10 e z16, quer duas espcies, segundo asoma de alteraes que representem as linhas horizontais. Depois de catorze milgeraes, supe-se que seis novas espcies, n14 a z14 foram produzidas. Num gneroqualquer, as espcies que j diferem muito umas das outras tendem ordinariamente aproduzir o maior nmero de descendentes modificados, porque so eles que tm maisprobabilidades de se apoderar de novos lugares e muito diferentes na economia danatureza. Tambm escolhi no diagrama a espcie extrema A e uma outra espcie quaseextrema I, como as que tm variado muito, e que tm produzido novas variedades e novasespcies. As outras nove espcies do nosso gnero primitivo, indicadas pelas letrasmaisculas, podem continuar, durante perodos mais ou menos longos, a transmitir aosdescendentes os caracteres no modificados; isto indicado no diagrama por linhaspontuadas que se prolongam mais ou menos longe. 140. Mas, durante a marcha das modificaes, representadas no diagrama, um outro dosnossos princpios, o da extino, deve ter gozado um papel importante. Como, em cadapas bem provido de habitantes, a seleco natural actua necessariamente, dando a umaforma, que faz o objecto da sua aco, algumas vantagens sobre outras formas na lutapela existncia, produz-se uma tendncia constante entre os descendentes aperfeioadosde uma espcie qualquer para suplantar e exterminar os seus predecessores e a suaorigem primitiva. preciso lembrar, com efeito, que a luta mais viva se produzordinariamente entre as formas que esto mais prximas umas das outras, em relao aoshbitos, constituio e estrutura. Por consequncia, todas as formas intermedirias entre aforma mais antiga e a forma mais moderna, isto , entre as formas mais ou menosaperfeioadas da mesma espcie, assim como a espcie origem prpria, tendemordinariamente a extinguir-se. provavelmente da mesma maneira para muitas das linhascolaterais completas, vencidas por formas mais recentes e mais aperfeioadas. Se,contudo, o descendente modificado de uma espcie penetra em qualquer regio distinta,ou se adapta rapidamente a qualquer regio absolutamente nova, no se encontra emconcorrncia com o tipo primitivo e ambos podem continuar a existir.Se se supuser, pois, que o nosso diagrama representa uma soma considervel demodificaes, a espcie A e todas as primeiras variedades que produziu, tero sidoeliminadas e espalhadas por oito novas espcies, a14 a m14; e a espcie I por seis novasespcies, n14 a z14.Mas podemos ir mais longe ainda. Supusemos que as espcies primitivas do gnerode que nos ocupamos se assemelham entre si mas em graus desiguais; o que seapresenta muitas vezes em a natureza. A espcie A est ento mais prxima das espciesB, C, D do que das outras espcies, e a espcie I est mais prxima das espcies G, H, K,L do que das primeiras. Supusemos tambm que estas duas espcies, A e I so muitocomuns e muito espalhadas, de tal maneira que deviam, no princpio, possuir algumasvantagens sobre a maior parte das outras espcies pertencentes ao mesmo gnero. Asespcies representativas, em nmero de catorze para a dcima quarta gerao, tmprovavelmente herdado algumas destas vantagens; e so, alm disso, modificadas,aperfeioadas de diversas maneiras, em cada gerao sucessiva, de forma a melhoradaptar-se aos numerosos lugares vagos na economia natural do pas que habitam. poismuito provvel que tenham exterminado, para substitu-los, no somente osrepresentantes no modificados das origens mes A e I, mas tambm algumas espciesprimitivas mais prximas destas origens. Por consequncia, devem ficar na dcima quartagerao muito poucos descendentes das espcies primitivas. Podemos supor que umaespcie somente, a espcie F, sobre as duas espcies E e F, as menos prximas das duasespcies primitivas A e I, pode ter tido descendentes at esta ltima gerao. 141. Assim como o indica o nosso diagrama, as onze espcies primitivas so daqui emdiante representadas por quinze espcies. Em razo da tendncia divergente da seleconatural, o valor da diferena dos caracteres entre as espcies a14 e z14 deve ser muitomais considervel que a diferena que existia entre os indivduos mais distintos das onzeespcies primitivas. Demais, as novas espcies esto aliadas entre si de uma maneiramuito diferente. Nos oito descendentes de A, os indicados pelas letras a14, q14 e p14, somuito prximos porque so ramos recentes de a10; b14 e f14, tendo divergido num perodomuito mais antigo de a3, so, at certo ponto, distintos destas trs primeiras espcies; eenfim o14, e14 e m14 so muito prximas umas das outras; mas, como divergem de A nocomeo mesmo desta srie de modificaes, estas espcies devem ser bastantediferentes das outras cinco, para constituir sem dvida um sub-gnero ou um gnerodistinto.Os seis descendentes de I formam dois sub-gneros ou dois gneros distintos. Mascomo a espcie primitiva I diferia muito de A, porque se encontrava quase na outraextremidade do gnero primitivo, as seis espcies descendentes de I, devido apenas hereditariedade, devem diferir consideravelmente das oito espcies descendentes de A;demais, supusemos que os dois grupos tm continuado a divergir em direces diferentes.As espcies intermedirias, e isto uma considerao muito importante, que ligam asespcies originais A e I, foram todas extintas, excepo de F, nica que deixoudescendentes. Portanto, as seis novas espcies descendentes de I, e as oito espciesdescendentes de A, devero ser classificadas como gneros muito distintos, ou mesmocomo sub-famlias distintas. assim, creio eu, que dois ou muitos gneros derivam, aps modificaes, de duasou de muitas espcies de um mesmo gnero. Estas duas ou muitas espcies origensderivam tambm, por seu turno, de qualquer espcie de um gnero anterior. Isto estindicado, no nosso diagrama, por linhas pontuadas colocadas por baixo das letrasmaisculas, linhas convergindo em grupo para um s ponto. Este ponto representa umaespcie, o suposto predecessor dos nossos sub-gneros e dos nossos gneros. tilparar um instante a consideraro carcter da nova espcie F14, que, temo-lo suposto, no divergiu muito, mas conservoua forma de F, quer com algumas pequenas modificaes, quer sem qualquer alterao. Asafinidades desta espcie com as outras catorze novas espcies devem sernecessariamente muito curiosas. Derivada de uma forma situada pouco mais ou menos aigual distncia entre as espcies origens A e I, que supomos extintas e desconhecidas,deve apresentar, at certo ponto, um carcter intermedirio entre o dos dois gruposdescendentes da mesma espcie. Mas, como o carcter destes dois grupos continuamente desviado do tipo origem, a nova espcie F14 no constitui um intermedirioimediato entre eles; constitui, contudo, um intermedirio entre os tipos dos dois grupos.Ora, cada naturalista pode lembrar, sem dvida, casos anlogos. 142. Supusemos, at ao presente, que cada linha horizontal do diagrama representava milgeraes; mas cada uma poderia representar um milho de geraes, ou mesmo mais;cada uma poderia mesmo representar uma das camadas sucessivas da crusta terrestre,na qual se encontram os fsseis. Tornaremos a insistir neste ponto, no nosso captulosobre a geologia, e veremos ento, creio eu, que o diagrama lana alguma luz sobre asafinidades dos seres extintos. Estes seres, posto que pertenam ordinariamente smesmas ordens, s mesmas famlias ou aos mesmos gneros que os que existem hoje,apresentam muitas vezes contudo, numa certa medida, caracteres intermedirios entre osgrupos actuais; podemos compreender isto tanto melhor que as espcies existentes viviamem diferentes pocas afastadas, quando as linhas de descendncia tinham divergidomenos.No vejo razo alguma que obrigue a limitar apenas formao dos gneros a sriede modificaes que acabamos de indicar. Se supusermos que, no diagrama, a soma dasalteraes representada por cada grupo sucessivo de linhas pontuadas divergentes muito grande, as formas a14 a p14, b14 e f14, o14 a m14 formaro trs gneros muitodistintos. Teremos tambm dois gneros muito distintos descendendo de I e diferindomuito consideravelmente dos descendentes de A. Estes dois grupos de gneros formaroassim duas famlias ou duas ordens distintas, segundo a soma das modificaesdivergentes que se supe representada pelo diagrama. Ora, as duas novas famlias ou asduas novas ordens, descendem de duas espcies pertencendo a um mesmo gneroprimitivo, e pode supor-se que estas espcies descendem de formas ainda mais antigas emais desconhecidas.Temos visto que, em cada pas, so as espcies pertencentes aos gneros maisricos que apresentam as mais das vezes variedades ou espcies nascentes. Poder-se-iaparar aqui; com efeito, a seleco natural actuando somente sobre os indivduos ou sobreas formas que, devido a certas qualidades, sobrepujam as outras na luta pela existncia,exerce principalmente a sua aco sobre os que possuem j certas vantagens; ora, aextenso de um grupo qualquer prova que as espcies que o compem herdaram algumasqualidades possudas por um antepassado comum. Tambm a luta para a produo dedescendentes novos e modificados se estabelece principalmente entre os grupos maisricos que tentam multiplicar-se. Um grupo numeroso prevalece sobre um outro grupoconsidervel, redu-lo em nmero e diminui assim as suas probabilidades de variao eaperfeioamento. Num mesmo grupo considervel, os subgrupos mais recentes e maisaperfeioados, aumentando sem cessar, apoderando-se a cada instante de novos lugaresna economia da natureza, tendem constantemente tambm a suplantar e destruir ossubgrupos mais antigos e menos aperfeioados. Enfim, os grupos e os subgrupos pouconumerosos e vencidos acabam por desaparecer. 143. Se lanarmos os olhos para o futuro, podemos predizer que os grupos de seresorganizados que so hoje ricos e dominantes, que no esto ainda rompidos, isto , queno sofreram ainda a menor extino, devem continuar a aumentar em nmero durantelongos perodos. Mas que grupos acabaro por prevalecer? o que ningum pode prever,porque sabemos que muitos grupos, outrora desenvolvidissimos, so hoje extintos. Se nosocuparmos de um futuro ainda mais remoto, prediremos que, por causa do aumentocontnuo e regular dos maiores grupos, um conjunto de pequenos grupos devedesaparecer completamente sem deixar descendentes modificados, e que, porconseguinte, muito poucas espcies vivendo numa poca qualquer devem terdescendentes depois de um lapso de tempo considervel. Terei de voltar a este ponto nocaptulo sobre a classificao; mas posso ajuntar que, segundo a nossa teoria, poucasespcies muito antigas devem ter representantes na poca actual; ora, como todos osdescendentes da mesma espcie formam uma classe, fcil de compreender comosucede que haja to poucas classes em cada diviso principal dos reinos animal e vegetal.Posto que poucas das mais antigas espcies tenham deixado descendentes modificados,todavia, em antigos perodos geolgicos, a Terra pode ter sido quase to povoada como hoje de espcies pertencendo a muitos gneros, famlias, ordens e classes. Do progresso possvel da organizaoA seleco natural actua exclusivamente no meio da conservao e acumulao dasvariaes que so teis a cada indivduo nas condies orgnicas e inorgnicas em quepode encontrar-se colocado em todos os perodos da vida. Cada ser, e este o ponto finaldo progresso, tende a aperfeioar-se cada vez mais relativamente a estas condies. Esteaperfeioamento conduz inevitavelmente ao progresso gradual da organizao do maiornmero de seres vivos em todo o mundo. Mas referimo-nos aqui a um assunto muitocomplicado, porque os naturalistas ainda no definiram, de uma forma satisfatria paratodos, o que deve compreender-se por um progresso de organizao. Para osvertebrados, trata-se claramente de um progresso intelectual e de uma conformao quese aproxime da do homem. Poder-se-ia pensar que a soma das alteraes que seproduzem nas diferentes partes e nos diferentes rgos, por meio de desenvolvimentossucessivos desde o embrio at maternidade, basta como termo de comparao; mas hcasos, certos crustceos parasitas por exemplo, nos quais muitas partes da conformaose tornam menos perfeitas, de tal forma que o animal adulto no certamente superior larva. O critrium de von Baer parece o mais geralmente aplicvel e o melhor, isto , aextenso da diferenciao das partes do mesmo ser e a especializao destas partes paradiferentes funes, ao que juntarei: no estado adulto; ou, como o diria Milne Edwards, oaperfeioamento da diviso do trabalho fisiolgico. Mas compreendemos bem depressaque obscuridade existe neste assunto, se estudarmos, por exemplo, os peixes. Com efeito,certos naturalistas consideram como os mais elevados na escala os que, como o tubaro,se aproximam mais dos anfbios, enquanto que outros naturalistas consideram como mais 144. elevados os peixes sseos ou telesteos, porque so realmente mais pisciformes ediferem mais das outras classes dos vertebrados. A obscuridade do assunto fere-nos maisainda se estudarmos as plantas, para as quais, bem entendido, o critrium da intelignciano existe; em verdade, alguns botnicos dispem entre as plantas mais elevadas aquelasque apresentam em cada flor, no estado completo de desenvolvimento, todos os rgos,tais como: spalas, ptalas, estames e pistilos, enquanto que outros botnicos,provavelmente com mais razo, concedem o primeiro grau s plantas cujos diversosrgos so muito modificados e em nmero reduzido. 145. Se adoptamos, como critrium de uma alta organizao, a soma das diferenciaes ede especializaes dos diversos rgos em cada indivduo adulto, o que compreende oaperfeioamento intelectual do crebro, a seleco natural conduz claramente a esse fim.Todos os fisilogos, com efeito, admitem que a especializao dos rgos umavantagem para o indivduo, no sentido de que, neste estado, os rgos executam melhoras suas funes; por consequncia, a acumulao das variaes tendentes especializao, entra na alada da seleco natural. Por outro lado, se se pensar quetodos os seres organizados tendem a multiplicar-se rapidamente e a apoderar-se de todosos lugares desocupados, ou pouco ocupados na economia da natureza, fcilcompreender que muito possvel que a seleco natural prepare gradualmente umindivduo para uma situao na qual muitos rgos lhe sero suprfluos e inteis; nestecaso, haveria uma retrogradao real na escala da organizao. Discutiremos com maisproficincia, no captulo sobre a sucesso geolgica, a questo de saber se, em regrageral, a organizao tem feito progressos seguros desde os perodos geolgicos maisremotos at nossos dias. 146. Mas, poder-se- dizer, se todos os seres organizados tendem a elevar-se na escala,como sucede que uma multido de formas inferiores exista ainda no mundo? Comosucede que haja, em cada grande classe, formas muito mais desenvolvidas do quealgumas outras? Porque que as formas mais aperfeioadas no tm por toda a partesuplantado e exterminado as formas inferiores? Lamarck, que acreditava em umatendncia inata e fatal de todos os seres organizados para a perfeio, parece terpressentido tambm esta dificuldade, que o levou a supor que as formas simples e novasso constantemente produzidas pela gerao espontnea. A cincia no provou ainda obom fundamento desta doutrina, posto que possa, alm disso, revelarno-lo no futuro. Pelanossa teoria, a existncia persistente dos organismos inferiores no oferece dificuldadealguma; com efeito, a seleco natural, ou a persistncia do mais apto, no obriganecessariamente a um desenvolvimento progressivo, apodera-se unicamente dasvariaes que se apresentam e que so teis a cada indivduo nas relaes complexas dasua existncia. E, poderia dizer-se, que vantagem haveria, tanto quanto o podemos avaliar,para um animlculo infusrio, para um verme intestinal, ou mesmo para uma minhoca emadquirir uma organizao superior? Se esta vantagem no existe, a seleco naturalmelhora apenas muito pouco estas formas, e deixa-as, durante perodos infinitos, nas suascondies inferiores actuais. Ora, a geologia ensina-nos que algumas formas muitoinferiores, como os infusrios e os rizpodes, conservamo seu estado actual desde um perodo imenso. Mas seria muito temerrio supor que amaior parte das numerosas formas inferiores existentes hoje no fizeram progresso algumdesde a apario da vida sobre a Terra; com efeito, todos os naturalistas que dissecaramalguns destes seres, e esto de acordo em coloc-los na mais baixa escala, devem ter-seimpressionado pela sua organizao to admirvel e to bela.As mesmas observaes se podem aplicar tambm, se examinarmos os mesmosgraus de organizao, em cada um dos grandes grupos; por exemplo, a coexistncia dosmamferos e dos peixes com os vertebrados, a do homem e do ornitorrinco com osmamferos, a do tubaro e do branquistomo (Amphioxus) com os peixes. Este ltimopeixe, pela extrema simplicidade da sua conformao, aproxima-se muito dosinvertebrados. Mas os mamferos e os peixes no entram em luta uns com os outros; osprogressos de toda a classe dos mamferos ou de certos indivduos desta classe,admitindo mesmo que estes progressos os conduzem perfeio, no os levariam a tomaro lugar dos peixes. Os fisilogos crem que, para adquirir toda a actividade de que susceptvel, o crebro deve ser banhado de sangue quente, o que exige uma respiraoarea. Os mamferos de sangue quente encontram-se pois colocados numa posio muitodesvantajosa quando habitam na gua; com efeito, so obrigados a subir continuamente superfcie para respirar. Nos peixes, os membros da famlia do tubaro no tendem asuplantar o branquistoino, porque este ltimo, segundo Fritz Mller, tem por nicocompanheiro e nico concorrente, sobre as costas arenosas e estreis do BrasilMeridional, um aneldeo anormal. As trs ordens inferiores de mamferos, isto , osmarsupiais, os desdentados e os roedores, habitam, na Amrica Meridional, a mesmaregio de numerosas espcies de macacos, e, provavelmente, importam-se muito pouco 147. uns com os outros. Posto que a organizao possa, em suma, ter progredido, e progridaainda em todo o mundo, haver contudo sempre muitos graus de perfeio; de facto, oaperfeioamento de muitas classes inteiras, ou de certos indivduos de cada classe, noconduz necessariamente extino dos grupos com que se no encontra em concorrnciaactiva. Em alguns casos, como em breve veremos, os organismos inferiores parecem terpersistido at poca actual, porque habitam regies restritas e fechadas, onde estosubmetidos a uma concorrncia menos activa, e onde o seu pequeno nmero retarda aproduo de variaes favorveis. 148. Enfim, creio que muitos organismos inferiores existem ainda no mundo em razo decausas diversas. Casos h em que variaes, ou diferenas individuais de uma naturezavantajosa, jamais se apresentam, e, por consequncia, a seleco natural no pode nemactuar nem acumul-las. Em caso algum, provavelmente, decorreu tempo suficiente parapermitir todo o desenvolvimento possvel. Em alguns casos, houve, decerto, o que nsdevemos designar por retrogradao de organizao. Mas a causa principal reside nestefacto de, sendo dadas condies de existncia muito simples, uma alta organizaotornar-se intil, talvez mesmo desvantajosa, porque sendo de uma natureza mais delicada,degeneraria mais facilmente, e seria mais facilmente destruda. 149. Pergunta-se como, aquando da primeira apario da vida, quando todos os seresorganizados, podemos crer, apresentaram uma conformao mais simples, puderamproduzir-se os primeiros graus do progresso ou da diferenciao das partes. M. HerbertSpencer responderia provavelmente que, desde que um organismo unicelular simples setorna, pelo crescimento ou pela diviso, um composto de muitas clulas, ou se est fixo aalgumas superfcies de apoio, a lei que estabeleceu entra em aco e exprime assim estalei: As unidades homlogas de toda a fora diferenciam-se medida que as suasrelaes com as foras incidentes so diversas. Mas, como no conhecemos facto algumque nos possa servir de ponto de comparao, toda a especulao sobre este assuntoseria quase intil. , contudo, um erro supor que no tenha havido luta pela existncia, e,por conseguinte, seleco natural, at que muitas formas fossem produzidas; podemproduzir-se variaes vantajosas numa nica espcie, habitando uma estao isolada, etoda a massa dos indivduos pode tambm, por consequncia, modificar-se, eproduzirem-se duas formas distintas. Mas, como j lembrei no fim da introduo, ningumdeve esquecerse de que ficam ainda tantos pontos inexplicados sobre a origem dasespcies, se meditarmos na profunda ignorncia em que estamos sobre as relaesmtuas dos habitantes do mundo na nossa poca, e muito mais ainda durante perodosafastados. Convergncia dos caracteresM. H. C. Watson julga que atribuo demasiada importncia divergncia doscaracteres (de que me parece, alm disso, admitir a importncia) e que o que podechamar-se a sua convergncia deve igualmente desempenhar qualquer papel. Se duasespcies, pertencendo a dois gneros distintos, ainda que prximos, tm produzido umgrande nmero de formas novas e divergentes, compreensvel que estas formas possamaproximar-se bastante umas das outras para que devam colocar-se todas as classes nomesmo gnero; por isso, os descendentes de dois gneros distintos convergiriam em ums. Mas, na maior parte dos casos, seria muito temerrio atribuir convergncia umaanalogia ntima e geral de conformao entre os descendentes modificados de formasmuito distintas. As foras moleculares determinam somente a forma de um cristal; e no para surpreender que substncias diferentes possam muitas vezes revestir a mesmaforma. Mas devemos lembrar-nos, que, entre os seres organizados, a forma de cada umdeles depende de uma infinidade de relaes complexas; as variaes que se manifestam,devidas a causas muito inexplicveis para que se possam analisar -a natureza dasvariaes que tm persistido ou feito o objecto da seleco natural, as quais dependemdas condies fsicas ambientes, e, em alto grau ainda, dos organismos circunvizinhoscom os quais cada indivduo entra em concorrncia -e, enfim, a hereditariedade (elementoflutuante em si) de inumerveis antepassados cujas formas foram determinadas por meiode relaes igualmente complexas. Seria inacreditvel que os descendentes de doisorganismos que, na origem, diferiam de uma maneira pronunciada, tivessem jamais 150. convergido depois suficientemente para que a sua organizao total se aproxime daidentidade. Se assim fosse, encontraramos a mesma forma, independentemente de toda aconexo gensica, nas formaes geolgicas muito separadas; ora, o estudo dos factosobservados ope-se a uma semelhante consequncia. 151. M. Watson objecta tambm que a aco contnua da seleco natural, acompanhadada divergncia dos caracteres, tenderia produo de um nmero infinito de formasespecficas. Parece provvel, no que diz respeito pelo menos s condies fsicas, que umnmero suficiente de espcies se adaptaria em breve a todas as diferenas de calor, dehumidade, etc., por mais considerveis que sejam estas diferenas; mas admitocompletamente que as relaes recprocas de seres organizados so mais importantes.Ora, medida que o nmero das espcies cresce num pas qualquer, as condiesorgnicas da vida devem tornar-se cada vez mais complexas. Portanto, no parece haver, primeira vista, limite algum quantidade de diferenas de estrutura vantajosas e, porconsequncia tambm, ao nmero de espcies que poderiam ser produzidas. Nosabemos mesmo se as regies mais ricas possuem o mximo de formas especficas: nocabo da Boa Esperana, na Austrlia, onde vive j um nmero to admirvel de espcies,muitas plantas europeias se aclimataram. Mas a geologia demonstra-nos que, depois deuma poca muito antiga do perodo tercirio, o nmero das espcies de conchas e, desdeo meado deste mesmo perodo, o nmero de espcies de mamferos no aumentou muito,admitindo mesmo que tenham aumentado um pouco. Qual ento o obstculo que seope a um aumento indefinido do nmero das espcies? A quantidade de indivduos (noquero dizer o nmero de formas especficas) podendo viver numa regio deve ter umlimite, porque esta quantidade depende em grande parte das condies exteriores; logo, semuitas espcies habitam uma mesma regio, cada uma destas espcies, quase todascertamente, devem ser representadas por um pequeno nmero de indivduos apenas;demais, estas espcies so sujeitas a desaparecer em razo de alteraes acidentaisprovenientes da natureza das estaes, ou do nmero dos seus inimigos. Em tais casos, oextermnio rpido, quando pelo contrrio a produo de novas espcies sempre muitolenta. Suponhamos, como caso extremo, que havia em Inglaterra tantas espcies quantosindivduos: o primeiro Inverno rigoroso, ou um Vero muito seco, causaria o extermnio demilhares de espcies. As espcies raras (e cada espcie tornar-se-ia rara se o nmero deespcies de um pas crescesse indefinidamente), oferecem, explicmos j em virtude deque princpio, poucas variaes vantajosas num tempo dado; por consequncia, aproduo de novas formas especficas seria consideravelmente demorada. Quando umaespcie se torna rara, os cruzamentos consanguneos contribuem para adiantar a suaextino; alguns autores pensaram que conviria, em grande parte, atribuir a este facto adesapario do uro na Litunia, do veado na Crsega e do urso na Noruega, etc. Enfim, eestou disposto a acreditar que isto o elemento mais importante, uma espcie dominante,tendo j vencido muitos concorrentes no seu prprio habitat, tende a estender-se e asuplantar muitos outros. Alphonse de Candolle demonstrou que as espcies que seespalham muito tendem ordinariamente a espalhar-se cada vez mais; por isso, estasespcies tendem a suplantar e a exterminar muitas espcies em muitas regies e atrasarassim o aumento desordenado das formas especficas sobre o Globo. 152. O Dr. Hooker demonstrou recentemente que na extremidade sudeste da Austrlia,que parecia ter sido invadida por numerosos indivduos vindos de diferentes partes doGlobo, as diferentes espcies australianas indgenas diminuram consideravelmente emnmero. No pretendo determinar que valor convm atribuir a estas diversasconsideraes; mas estas diferentes causas reunidas devem limitar em cada pas atendncia para um aumento indefinido do nmero de formas especficas. Resumo do captuloSe, no meio das condies inconstantes da existncia, os seres organizadosapresentam diferenas individuais, em quase todas as partes da sua estrutura, e esteponto no contestvel; se se produz, entre as espcies, em razo da progressogeomtrica do aumento dos indivduos, uma encarniada luta pela existncia numa certaidade, numa certa estao, ou durante um perodo qualquer da vida, e este ponto no certamente contestvel; tendo, ento, em conta a infinita complexidade das relaesmtuas de todos os seres organizados e das suas relaes com as condies da suaexistncia, o que causa uma diversidade infinita e considervel de estruturas, deconstituies e de hbitos, seria deveras extraordinrio que se no produzissem jamaisvariaes teis prosperidade de cada indivduo, da mesma forma como se produzemtantas variaes teis ao homem. Mas, se as variaes teis a um ser organizado qualquerse apresentam algumas vezes, seguramente os indivduos que disso so o objecto tm amelhor probabilidade de vencer na luta pela existncia; pois, em virtude do princpio topoderoso da hereditariedade, estes indivduos tendem a deixar os descendentes tendo omesmo carcter que eles. Dei o nome de seleco natural a este princpio de conservaoou de persistncia do mais apto. Este princpio conduz ao aperfeioamento de cadacriatura relativamente s condies orgnicas e inorgnicas da sua existncia; e, porconseguinte, na maior parte dos casos, ao que podemos considerar como um progressode organizao. Todavia, as formas simples e inferiores persistem muito tempo quandoso bem adaptadas s condies pouco complexas da sua existncia. 153. Em virtude do princpio da hereditariedade dos caracteres nas idadescorrespondentes, a seleco natural pode actuar sobre o ovo, sobre a semente ou sobre onovo indivduo, e modific-los to facilmente como pode modificar o adulto. Entre umgrande nmero de animais, a seleco sexual vem em auxlio da seleco ordinria,assegurando aos machos mais vigorosos e melhor adaptados o maior nmero dedescendentes. A seleco sexual desenvolve tambm nos machos caracteres que lhesso teis nas suas rivalidades ou nas suas lutas com outros machos, caracteres quepodem transmitir-se somente a um sexo ou aos dois, seguindo a forma de hereditariedadepredominante na espcie.A seleco natural tem gozado realmente este papel? Tem realmente adaptado asformas diversas da vida s suas condies e s suas estaes diferentes? examinandoos factos expostos nos captulos seguintes que ns os poderemos julgar. Mas j vimoscomo a seleco natural determina a extino; ora, a histria e a geologia demonstram-nosclaramente qual o papel que a extino tem gozado na histria zoolgica do mundo. Aseleco natural conduz tambm divergncia dos caracteres; porque, quanto mais osseres organizados diferem uns dos outros sob a relao da estrutura, dos hbitos e daconstituio, tanto mais a mesma regio pode alimentar um grande nmero; temos tido aprova disso estudando os habitantes de uma pequena regio e as produes aclimatadas.Por consequncia, durante a modificao dos descendentes de uma espcie qualquer,durante a luta incessante de todas as espcies para crescer em nmero, quanto maisdiferentes se tornam estes descendentes, tanto mais probabilidades tm de ser bemsucedidos na luta pela existncia. Tambm, as pequenas diferenas que distinguem asvariedades de uma mesma espcie tendem regularmente a aumentar at que se tornemiguais s grandes diferenas que existem entre as espcies de um mesmo gnero, oumesmo entre os gneros distintos. 154. Vimos que so as espcies comuns muito espalhadas e tendo um habitatconsidervel, e que, demais, pertencem aos gneros mais ricos de cada classe, quevariam mais, e que estas espcies tendem a transmitir aos descendentes modificados estasuperioridade que lhes assegura hoje o domnio no prprio pas. A seleco natural, comoacabamos de fazer observar, conduz divergncia dos caracteres e extino completadas formas intermedirias e menos aperfeioadas. Partindo destes princpios, podeexplicar-se a natureza das afinidades e as distines ordinariamente bem definidas entreos inumerveis seres organizados de cada classe superfcie do Globo. Um factoverdadeiramente admirvel e que ns demasiado desconhecemos, porque estamos talvezmuito familiarizados com ele, que todos se encontram reunidos por grupos subordinadosa outros grupos da mesma forma que observamos em todos, isto , que as variedades damesma espcie mais prximas umas das outras, e as espcies do mesmo gnero, menosestreitamente e mais desigualmente aliadas, formam seces e sub-gneros; que asespcies de gneros distintos ainda muito menos prximos e, enfim, que os gneros maisou menos semelhantes formam sub-famlias, famlias, ordens, classes e subclasses. Osdiversos grupos subordinados de uma classe qualquer no podem ser dispostos em umanica linha, mas parecem agrupar-se em volta de certos pontos, e estes em volta de outrose assim seguidamente em crculos quase infinitos. Se as espcies fossem criadasindependentemente umas das outras, no poderia explicar-se este modo de classificao;explica-se facilmente, pelo contrrio, pela hereditariedade, e pela aco complexa daseleco natural, produzindo a extino e a divergncia dos caracteres, assim como odemonstra o nosso diagrama.Tm-se representado algumas vezes sob a figura de uma grande rvore asafinidades de todos os seres da mesma classe, e creio que esta imagem assaz justa sobmuitas relaes. Os ramos e os gomos representam as espcies existentes; os ramosproduzidos durante os anos precedentes representam a longa sucesso das espciesextintas. A cada perodo de crescimento, todas as ramificaes tendem a estender osramos por toda a parte, a exceder e destruir as ramificaes e os ramos circunvizinhos, damesma forma que as espcies e os grupos de espcies tm, em todos os tempos, vencidooutras espcies na grande luta pela existncia. As bifurcaes do tronco, divididas emgrossos ramos, e estes em ramos menos grossos e mais numerosos, tinham outrora,quando a rvore era nova, apenas pequenas ramificaes com rebentos; ora, esta relaoentre os velhos rebentos e os novos no meio dos ramos ramificados representa bem aclassificao de todas as espcies extintas e vivas em grupos subordinados a outrosgrupos. Sobre as numerosas ramificaes que prosperavam quando a rvore era apenasum arbusto, duas ou trs unicamente, transformadas hoje em grossos ramos, tmsobrevivido, e sustentam as ramificaes subsequentes; da mesma maneira, sobre asnumerosas espcies que viviam durante os perodos geolgicos afastados desde longotempo, muito poucas deixaram descendentes vivos e modificados. Desde o primeirocrescimento da rvore, mais de um ramo deve ter perecido e cado; ora, estes ramoscados, de grossura diferente, podem representar as ordens, as famlias e os gneros 155. inteiros, que no tm representantes vivos e que apenas conhecemos no estado fssil. Damesma forma que vemos de onde aonde sobre a rvore um ramo delicado, abandonado,que surgiu de qualquer bifurcao inferior, e, em consequncia de felizes circunstncias,est ainda vivo, e atinge o cume da rvore, da mesma forma encontramos acidentalmentealgum animal, como o ornitorrinco ou a lepidossercia, que, pelas suas afinidades, liga, sobquaisquer relaes, duas grandes artrias da organizao, e que deve provavelmente auma situao isolada ter escapado a uma concorrncia fatal. Da mesma forma que osgomos produzem novos gomos, e que estes, se so vigorosos, formam ramos queeliminaram de todos os lados os ramos mais fracos, da mesma forma creio eu que agerao actua igualmente para a grande rvore da vida, cujos ramos mortos e quebradosso sepultados nas camadas da crusta terrestre, enquanto que as suas magnficasramificaes, sempre vivas e renovadas incessantemente, cobrem a superfcie. 156. Captulo V Leis da Variao Efeito da mudana das condies. -Uso e no uso das partes combinadas com aseleco natural; rgos do voo e da vista. -Aclimatao. -Variaes correlativas.-Compensao e economia de crescimento. -Falsas correlaes. Os organismos inferioresmltiplos e rudimentares so variveis. -As partes desenvolvidas de maneira extraordinriaso muito variveis; os caracteres especficos so mais variveis que os caracteresgenricos; os caracteres sexuais secundrios so muito variveis. -As espcies do mesmognero variam de uma maneira anloga. - Regresso a caracteres de h muito perdidos. -Resumo. Efeito da mudana das condies Tenho, at ao presente, falado de variaes - to comuns e to diversas nos seresorganizados reduzidos ao estado domstico, e, num grau menor, naqueles que seencontram no estado selvagem -como se elas fossem devidas ao acaso. , semcontradita, uma expresso muito incorrecta; talvez, contudo, tenha vantagem porque servepara demonstrar a nossa ignorncia absoluta sobre as causas de cada variao particular.Alguns sbios julgam que uma das funes do sistema reprodutor consiste tanto emproduzir diferenas individuais, ou pequenos desvios de estrutura, como em produzirdescendentes semelhantes aos pais. Mas o facto de as variaes e de asmonstruosidades se apresentarem em maior nmero no estado domstico que no estadonatural, o facto de as espcies tendo um habitat muito extenso serem mais variveis queas que tm um habitat restrito, autorizam-nos a concluir que a variabilidade deve ter, deordinrio, qualquer relao com as condies de existncia s quais cada espcie foisubmetida durante algumas geraes sucessivas. Tentei demonstrar, no primeiro captulo,que as mudanas de condies actuam de duas maneiras: directamente, sobre aorganizao inteira, ou sobre certas partes unicamente do organismo; indirectamente, pormeio do sistema reprodutor. Em todo o caso, h dois factores: a natureza do organismo,que a mais importante, e a natureza das condies ambientes. A aco directa damudana das condies conduz a resultados definidos ou indefinidos. Neste ltimo caso, oorganismo parece tornar-se plstico, e encontramo-nos em presena de uma grandevariabilidade incerta. No primeiro caso, a natureza do organismo tal que cede facilmente,quando se submete a certas condies e todos, ou quase todos os indivduos, semodificam da mesma maneira. 157. muito difcil determinar at que ponto a alterao das condies, tal, por exemplo,como a alterao do clima, da alimentao, etc., actua de uma maneira definida. H razopara acreditar que, no decorrer do tempo, os efeitos destas alteraes so toconsiderveis que se podem estabelecer pela prova directa. Todavia, podemos concluir,sem receio de errar, que se no podem atribuir unicamente a uma tal causa actuante asadaptaes de estrutura, to numerosas e to complexas, que observamos na naturezaentre os diferentes seres organizados. Nos casos seguintes, as condies ambientesparecem ter produzido um ligeiro efeito definido: E. Forbes afirma que os mariscos, naextremidade meridional do seu habitat, revestem, quando vivem nas guas poucoprofundas, cores muito mais brilhantes que os mariscos da mesma espcie, que vivemmais ao norte e a uma grande profundidade; mas esta lei no seaplica certamente sempre. M. Gould observou que as aves da mesma espcie somais brilhantemente coloridas, quando vivem num pas em que o cu sempre puro, doque quando habitam junto das costas ou nas ilhas; Wollaston assegura que a residnciajunto das costas afecta a cor dos insectos. Moquin Tandon d uma lista de plantas de queas folhas se tornam carnudas, quando crescem junto do mar, posto que isto se noproduza em qualquer outro lugar. Estes organismos, levemente variveis, soInteressantes, no sentido de apresentarem caracteres anlogos aos que possuem asespcies expostas a condies semelhantes.Quando uma variao constitui uma superioridade por pequena que seja para um serqualquer, no se poderia dizer que parte convm atribuir aco acumuladora da seleconatural, e que parte convm atribuir aco definida das condies de existncia. Assim,todos os peleiros sabem muito bem que os animais da mesma espcie tm uma pele tantomais espessa e tanto mais bela, quanto mais setentrional o pas que habitam; mas quempode dizer se esta diferena provm de que os indivduos mais quentemente vestidos tmsido favorecidos e tm persistido durante numerosas geraes, ou se uma consequnciado rigor do clima? Parece, com efeito, que o clima exerce uma certa aco directa sobre apele dos nossos quadrpedes domsticos. 158. Poderiam citar-se, para a mesma espcie, exemplos de variaes anlogas, aindaque esta espcie esteja exposta s condies ambientes to diferentes quanto possvel;por outra parte, poderiam citar-se variaes diferentes produzidas em condies ambientesque parecem idnticas. Enfim, todos os naturalistas poderiam citar inumerveis casos deespcies que persistem absolutamente as mesmas, isto , que no variam de maneiraalguma, posto que vivam em climas muito diversos. Estas consideraes fazem-me inclinara atribuir menos valor aco directa das condies ambientes do que a uma tendncia variabilidade, devida a causas que ns ignoramos em absoluto.Pode dizer-se que, num certo sentido, no somente as condies de existnciadeterminam, directa ou indirectamente, as variaes, mas que influenciam tambm naseleco natural; as condies determinam, com efeito, a persistncia desta ou daquelavariedade. Quando, porm, o homem se encarrega da seleco, fcil compreender queos dois elementos da alterao so distintos; a variabilidade produz-se de qualquermaneira, mas a vontade do homem que acumula as variaes em certos sentidos; ora,esta interveno responde persistncia do mais apto no estado natural. Efeitos produzidos pela seleco natural sobre o aumento do uso ou no usodas partesOs factos citados no primeiro captulo no permitem, creio eu, dvida alguma sobreeste ponto: que o uso, nos animais domsticos, refora e desenvolve certas partes,enquanto que o no uso as diminui; e, alm disso, que estas modificaes sohereditrias. No estado de natureza, no temos termo algum de comparao que nospermita julgar os efeitos de um uso ou de um no uso constante, porque no conhecemosas formas-tipo; mas, muitos animais possuem rgos de que somente se pode explicar apresena pelos efeitos do no uso. No h, como o professor Owen o fez notar, anomaliamaior na natureza do que uma ave que no possa voar; contudo, h muitas neste estado.O ganso de asas curtas da Amrica Meridional deve contentar-se em bater com as asas asuperfcie da gua, e esto elas, para ele, quase nas mesmas condies das do patodomstico de Ailesbria; demais, se necessrio acreditar M. Cunningham, estes patospodem voar quando so muito novos, enquanto que so incapazes de o fazer no estadoadulto. As grandes aves que se nutrem sobreo solo, apenas voam para fugir ao perigo; pois provvel que a falta das mesmas asas,em muitas das aves que habitam actualmente ou que, ultimamente ainda, habitavam asilhas ocenicas, onde se no encontrava nenhum animal de presa, provm do no uso dasasas. O avestruz, verdade, habita os continentes e est exposto a muitos perigos aosquais no pode subtrair-se pelo voo, mas pode, bem como um grande nmero dequadrpedes, defender-se dos seus inimigos a coices. Estamos autorizados a acreditarque um antepassado do gnero avestruz tinha hbitos semelhantes aos da betarda, e que, medida que o tamanho e o peso do corpo desta ave aumentavam durante longasgeraes sucessivas, o avestruz se serviu sempre mais das pernas e menos das asas, at 159. que por fim se lhe tornou impossvel voar. 160. Kirby fez notar, e eu tenho observado o mesmo facto, que os tarsos ou parte posteriordas patas de muitos escaravelhos machos que se nutrem de excrementos, so muitasvezes quebrados; examinou dezassete especmenes na sua prpria coleco e nenhumdeles tinha o mais pequeno vestgio dos tarsos. No Onites apelles os tarsos desaparecemtantas vezes, que se tem descrito este insecto como no os possuindo. Nalguns outrosgneros, os tarsos existem, mas no estado rudimentar. No Ateuchus, ou escaravelhosagrado dos Egpcios, faltam por completo. No se poder ainda afirmar positivamente queas mutilaes acidentais sejam hereditrias; todavia, os casos notveis observados por M.Brown-Squard, relativos transmisso, por hereditariedade, dos efeitos de certasoperaes na cobaia, devem impedir-nos de negar em absoluto esta tendncia. Porconseguinte, talvez mais prudente considerar a ausncia total dos tarsos anteriores noAteuchus, e o seu estado rudimentar em alguns outros gneros, no como casos demutilaes hereditrias, mas como efeitos de um no uso por muito tempo continuado;com efeito, como muitos dos escaravelhos que se nutrem de excrementos perderam osseus tarsos, esta desapario deve ter-se dado numa idade pouco avanada da suaexistncia, e, por isso, os tarsos no devem ter muita importncia para estes insectos, ouno devem servir-se muito deles.Em muitos casos, poderia facilmente atribuir-se falta de uso certas modificaes deestrutura que so principalmente devidas seleco natural.M. Wollaston descobriu o facto notvel de, em quinhentas e cinquenta espcies deescaravelhos (conhece-se um maior nmero hoje) que habitam a ilha da Madeira,duzentos serem to pobremente providos de asas, que no podem voar; descobriu, almdisso, que, sobre vinte e nove gneros indgenas, todas as espcies pertencendo a vinte etrs destes gneros se encontram neste estado! Numerosos factos, a saber: que osescaravelhos, em muitas partes do mundo, so levados frequentemente para o mar pelovento e a perecem; que os escaravelhos da Madeira, assim como o observou M.Wollaston, ficam ocultos at que o vento pare e o sol brilhe; que a proporo deescaravelhos sem asas muito mais considervel nos desertos expostos s variaesatmosfricas, do que na prpria Madeira; que -e o facto mais extraordinrio sobre o qualM. Wollaston insistiu com muita razo -certos grupos considerveis de escaravelhos, quetm absoluta necessidade de asas, outra parte muito numerosa, quase que faltam aquiinteiramente; estas diferentes consideraes, digo eu, levam-me a crer que a falta de asasem tantos escaravelhos da Madeira principalmente devida aco da seleco natural,combinada provavelmente com o no uso destes rgos. Durante muitas geraessucessivas, todos os escaravelhos que menos se entregavam ao voo quer porque as suasasas se encontravam menos desenvolvidas, quer em razo dos seus hbitos indolentes,devem ter tido a maior probabilidade em persistir, porque no estavam expostos a sertransportados para o mar; por outra parte, os indivduos que se elevavam facilmente no ar,estavam mais expostos a ser levados para o largo e, por isso, a ser destrudos. 161. Os insectos da Madeira que se no nutrem sobre o solo, mas que, como certoscolepteros e certos lepidpteros, se nutrem de flores, e que devem, por consequncia,servir-se das asas para encontrar os alimentos, tm, como observou M. Wollaston, as asasmuito desenvolvidas, em vez de reduzidas. Este facto perfeitamente compatvel com aaco da seleco natural. Com efeito, chegada de um novo insecto a uma ilha, atendncia ao desenvolvimento ou reduo das asas, depende do facto de um grandenmero de indivduos escapar morte, lutando contra o vento ou deixando de voar. , emsuma, o que se passa com os marinheiros que naufragam e do costa; importante paraos bons nadadores o poder nadar to longe quanto possvel, mas melhor para os mausnadadores no saber nadar coisa alguma, e segurar-se ao navio naufragado.As toupeiras e alguns outros roedores cavadores tm os olhos rudimentares, algumasvezes mesmo completamente cobertos de uma pelcula e de plos. Este estado dos olhos provavelmente devido a uma diminuio gradual, proveniente do no uso, aumentandosem dvida pela seleco natural. Na Amrica Meridional, um roedor chamado Tucu-Tucoou Ctenomys tem costumes ainda mais subterrneos que a toupeira; asseveravam-me queestes animais so frequentemente cegos. Observei um vivo e realmente este era cego;dissequei-o depois da morte, e descobri ento que a cegueira provinha de uma inflamaoda membrana pestanejante. A inflamao dos olhos necessariamente nociva ao animal;ora, como os olhos no so necessrios aos animais que tm hbitos subterrneos, umadiminuio deste rgo, seguida da aderncia das plpebras e da proteco pelos plos,poderia neste caso tornar-se vantajosa; se assim, a seleco natural vem completar aobra comeada pelo no uso do rgo. 162. Sabe-se que muitos animais pertencendo s classes mais diversas, que vivem nasgrutas subterrneas da Carniola e do Kentucky, so cegos. Em muitos caranguejos, opednculo que sustenta o olho conservado, posto que o rgo da viso tenhadesaparecido, isto , que o suporte do telescpio existe, faltando contudo o prpriotelescpio e os seus vidros.Como difcil de supor que o olho, posto que intil, possa ser nocivo a estes animaisvivendo na obscuridade, pode atribuir-se a ausncia do rgo ao no uso. Em um destesanimais cegos, o rato de caverna (Neotoma), de que dois especmenes foram capturadospelo professor Silliman a cerca de meia milha da abertura da gruta, e, por conseguinte, naspartes mais profundas, os olhos eram grandes e brilhantes. O professor Silliman me ensinaque estes animais acabavam por adquirir uma vaga aptido para perceber os objectos,depois de submetidos durante um ms luz gradual. difcil imaginar condies ambientes mais sensveis que as das vastas cavernas,cavadas nas profundas camadas calcrias, em pases tendo quase o mesmo clima. Assim,na hiptese de que os animais cegos foram criados separadamente para as cavernas daEuropa e da Amrica, deve-se esperar encontrar uma grande analogia na sua organizaoe suas afinidades. Ora, a comparao destas duas faunas prova-nos que no assim.Schidte faz notar s relativamente aos insectos: Podemos pois considerar apenas oconjunto do fenmeno como um facto puramente local, e a analogia que existe entreaquelas faunas que habitam a caverna do Mammouth (Kentucky) e as que habitam ascavernas da Carniola, como a expresso da analogia que se observa geralmente entre afauna da Europa e a da Amrica do Norte. Na hiptese que considero, devemos suporque os animais americanos, dotados na maior parte dos casos da faculdade ordinria davista, tm deixado o mundo exterior, para se mergulhar lentamente e por geraessucessivas nas profundezas das cavernas do Kentucky, ou, como o fazem outros animais,nas cavernas da Europa. Possumos algumas provas da gradao deste hbito; SchiZidteacrescenta, com efeito: Podemos, pois, considerar as faunas subterrneas como pequenasramificaes que, destacadas das faunas geogrficas limitadas da vizinhana, penetravama terra e que, medida que mergulhavam cada vez mais na obscuridade, se acomodavams suas novas condies de existncia. Animais pouco diferentes das formas ordinriastrouxeram a transio; em seguida, vm os conformados para viver na meia-luz; por fim, osdestinados obscuridade completa e de que a estrutura muito particular. Devo juntarque estes reparos de Schiddte se aplicam, no a uma s espcie, mas a muitas espciesdistintas. Quando, aps inmeras geraes, o animal atinge as maiores profundidades, ono uso do rgo tem-se atrofiado mais ou menos completamente, e a seleco naturald-lhe, algumas vezes, uma espcie de compensao pela cegueira, determinando umaumento nas antenas. Apesar destas modificaes, devemos ainda encontrar certasafinidades entre os habitantes das cavernas da Amrica e os outros habitantes destecontinente, assim como entre os habitantes das cavernas da Europa e os do continenteeuropeu. Ora, o professor Dana diz-me que o mesmo sucede com alguns dos animais quehabitam as grutas subterrneas da Amrica; alguns insectos que habitam as cavernas daEuropa so muito prximos dos que habitam a regio adjacente. Na hiptese ordinria de 163. uma criao independente, seria difcil explicar de forma racional as afinidades queexistem entre os animais cegos das grutas e os restantes habitantes do continente.Devemos, alm disso, procurar obter, entre os habitantes das grutas subterrneas doantigo e novo mundo, a analogia bem conhecida que referimos a respeito da maior partedas outras produes. Como se encontra em abundncia, sobre os rochedos escondidos,longe das grutas, uma espcie cega de Bathyscia, a perda da vista na espcie destegnero que habita as grutas subterrneas, no tem provavelmente relao alguma com aobscuridade do seu habitat; parece muito natural, em verdade, que um insecto j privadode vista se adapte facilmente a viver nas grutas escuras. Um outro gnero cego(Anophthalmus) oferece, como o fez notar M. Murray, a particularidade notvel de seencontrar apenas nas cavernas; demais, os que habitam as diferentes cavernas da Europae da Amrica pertencem a espcies distintas; mas possvel que os ancestrais destasdiferentes espcies, enquanto foram dotados de vista, tivessem podido habitar os doiscontinentes, e depois se extinguissem, sem excepo daqueles que habitam os pontosretirados que ocupam actualmente. Longe de ficar surpreendido porque alguns doshabitantes das cavernas, como o Amblyopsis, peixe cego indicado por Agassiz, e o Proteu,igualmente cego, apresentam grandes anomalias nas suas relaes com os rpteiseuropeus, eu fico admirado de no encontrarmos nas cavernas um maior nmero derepresentantes de animais extintos, em razo da pouca concorrncia qual os habitantesdestas sombrias habitaes esto expostos. 164. Aclimatao 165. Os hbitos so hereditrios nas plantas; assim, por exemplo, a poca da florao, ashoras consagradas ao sono, a quantidade de chuva necessria para assegurar agerminao das sementes, etc., e isto conduz-me a dizer algumas palavras sobre aaclimatao. Como nada mais fcil do que encontrar espcies do mesmo gnero empases quentes e em pases frios, necessrio que a aclimatao tenha, numa longa sriede geraes, desempenhado um papel considervel, se verdade que todas as espciesdo mesmo gnero derivam de uma mesma fonte. Cada espcie, evidente, est adaptadaao clima do pas que habita; as espcies que habitam uma regio rctica, ou mesmo umaregio temperada, no podem suportar o clima dos trpicos, e vice-versa. Alm disso,muitas plantas gordas no podem suportar os climas hmidos. Mas tem-se muitas vezesexagerado o grau de adaptao das espcies aos climas em que vivem. o que podemosconcluir do facto de, desde h tanto tempo, nos ser impossvel predizer se uma plantaimportada poder suportar o nosso clima e deste outro facto, que um grande nmero deplantas e animais, provindo dos mais diversos pases, vivem entre ns com excelentesade. Temos razo para acreditar que as espcies no estado natural so restritas a umhabitat pouco extenso, bem mais pela luta que tm de sustentar com outros seresorganizados, do que pela adaptao a um clima particular. Que esta adaptao, na maiorparte dos casos, seja ou no muito rigorosa, nem por isso deixa de provar-se que algumasplantas podem, em certa medida, habituar-se naturalmente a temperaturas diferentes, isto, aclimatar-se.O Dr. Hooker recolheu sementes de pinheiros e de rododendros em indivduos damesma espcie, crescendo a alturas diferentes no Himalaia; ora, estas sementes,semeadas e cultivadas em Inglaterra, possuem aptides constitucionais diferentesrelativamente resistncia ao frio. M. Thwaites dizme que observou factos semelhantesem Ceilo; M. H. C. Watson fez observaes anlogas em espcies europeias de plantastrazidas dos Aores para Inglaterra; eu poderia citar muitos outros exemplos. Com respeitoa animais, podem citar-se muitos factos autnticos provando que, desde os temposhistricos, certas espcies emigraram em grande nmero de latitudes quentes para asmais frias, e reciprocamente. Todavia, no podemos afirmar, de uma maneira positiva, queestes animais sejam estritamente adaptados ao clima do seu pas natal, posto que, namaior parte dos casos, admitamos que o sejam; no sabemos to-pouco se estosubsequentemente to bem aclimatados na sua nova ptria, se a se adaptaram melhor doque estavam no princpio.Poderiam, sem dvida, aclimatar-se facilmente em pases completamente diferentes,muitos animais vivendo hoje no estado selvagem; o que parece prov-lo, que os nossosanimais domsticos foram originariamente escolhidos pelos selvagens, porque lhes eramteis e porque se reproduziam facilmente no estado domstico, e no porque sepercebesse mais tarde que se poderiam transportar aos pases mais diversos. Estafaculdade extraordinria dos nossos animais domsticos em suportar os climas maisdiversos, e, o que uma prova ainda mais convincente, ficar perfeitamente fecundos emtoda a parte para onde os transportem, sem dvida um argumento em favor daproposio que acabamos de emitir. No seria necessrio, contudo, levar este argumento 166. to longe; com efeito, os nossos animais domsticos derivam provavelmente de muitasorigens selvagens; o sangue, por exemplo, de um lobo das regies tropicais e de um lobodas regies rcticas pode encontrar-se misturado nas raas dos nossos ces domsticos.No podem considerar-se a ratazana e o rato como animais domsticos; no foram, pelomenos, transportados pelo homem a muitas partes do mundo, e tm hoje, contudo, umhabitat muito mais considervel que os outros roedores; suportam, com efeito, o clima friodas ilhas Faro, no hemisfrio boreal, o das ilhas Falkland, no hemisfrio austral, e o climaesbraseante de muitas ilhas da zona trrida. 167. lcito, pois, considerar-se a adaptao a um clima especial como uma qualidadeque pode facilmente enxertar-se sobre esta larga flexibilidade de constituio que pareceinerente maior parte dos animais. Nesta hiptese, a capacidade que o prprio homemoferece, e bem assim os seus animais domsticos, de poderem suportar os climas maisdiversos; e o facto de o elefante e o rinoceronte terem outrora vivido num clima glacial,enquanto que as espcies existentes actualmente habitam todas as regies da zonatrrida, no deveriam ser consideradas como anomalias, mas como exemplos de umaflexibilidade ordinria de constituio que se manifesta em certas circunstnciasparticulares.Qual a parte que necessrio atribuir aos simples hbitos? qual a que deveatribuir-se seleco natural das variedades tendo constituies inatas diferentes? qual aque, enfim, se deve atribuir a estas duas causas combinadas na aclimatao de umaespcie a um clima especial? esta uma questo muito obscura.O hbito ou o costume tem sem dvida alguma influncia, se devemos acreditar naanalogia; as obras sobre agricultura e mesmo as antigas enciclopdias chinesas do acada passo o conselho de transportar os animais de uma regio para outra. Demais, comono provvel que o homem tenha chegado a escolher tantas raas e sub-raas, de que aconstituio convm to perfeitamente aos pases que habitam, eu creio que deveatribuir-se ao hbito os resultados obtidos. Por outro lado, a seleco natural deve tenderinevitavelmente para conservar os indivduos dotados de uma constituio bem adaptadaaos pases que habitam. Prova-se, nos tratados sobre muitas espcies de plantascultivadas, que certas variedades suportam melhor um clima que outro. Encontra-se aprova nas obras sobre pomologia publicadas nos Estados Unidos; a se recomenda, comefeito, empregar certas variedades nos Estados do Norte, e outras nos Estados do Sul.Ora, como a maior parte destas variedades tem uma origem recente, no se pode atribuirao hbito as suas diferenas constitucionais. Cita-se mesmo, para provar que, em certoscasos, a aclimatao impossvel, a alcachofra de Jerusalm, que jamais se propaga emInglaterra por sementes e de que, por conseguinte, se no tem podido obter novasvariedades; faz-se notar que esta planta ficou to delicada como era. Tem-se muitas vezescitado tambm, e com muita mais razo, o feijo como exemplo; mas no se pode dizer,neste caso, que a experincia tenha realmente sido feita; seria preciso para isso que,durante vinte geraes, algum tivesse o trabalho de semear feijes muito cedo para queuma grande parte fosse destruda pelo frio; em seguida se recolhesse a semente dossobreviventes, tendo o cuidado de impedir os cruzamentos acidentais; e por fim serecomeasse cada ano este ensaio cercando-se das mesmas precaues. No serianecessrio supor, alm disso, que no aparecessem jamais diferenas na constituio dosfeijes, porque muitas variedades so mais rsticas que outras; este um facto de que eumesmo pude observar exemplos frisantes. 168. Em resumo, podemos concluir que o hbito ou ainda o uso e no uso das partes tm,em alguns casos, desempenhado um papel considervel nas modificaes da constituioe do organismo; podemos concluir tambm que estas causas so frequentementecombinadas com a seleco natural de variaes inatas, e que os resultados so,igualmente, dominados por esta ltima causa. Variaes correlativasEntendo por esta expresso que as diferentes partes da organizao so, no decorrerdo seu crescimento e do seu desenvolvimento, to intimamente ligadas entre si, que outraspartes se modificam quando ligeiras variaes se produzem numa parte qualquer e seacumulam a em virtude da aco da seleco natural. este um assunto assazimportante, que se conhece muito imperfeitamente e na discusso do qual se podemconfundir ordens de factos muito diferentes. Veremos em breve, com efeito, que ahereditariedade simples toma algumas vezes uma falsa aparncia de correlao. Poderiamcitar-se, como um dos exemplos mais frisantes da verdadeira correlao, as variantes deestrutura que, produzindo-se num ovo ou na larva, tendem a afectar a estrutura do animaladulto. As diferentes partes homlogas do corpo, que, no comeo do perodo embrionrio,tm uma estrutura idntica, e que so, por conseguinte, expostas a condiessemelhantes, so eminentemente sujeitas a variar da mesma maneira. assim, porexemplo, que o lado direito e o lado esquerdo do corpo variam do mesmo modo; que osmembros anteriores, que mesmo a maxila e os membros variam simultaneamente; sabe-seque alguns anatmicos admitem a homologia da maxila inferior com os membros. Estastendncias, no ponho dvida, podem ser mais ou menos completamente dominadas pelaseleco natural. Assim, existiu outrora uma raa de veados que tinham esgalhos apenasde um lado; ora, se esta particularidade tivesse sido vantajosa a esta raa, provvel quea seleco natural a houvesse tornado permanente. 169. As partes homlogas, como o fazem notar certos autores, tendem a soldarse, talcomo se v muitas vezes nas monstruosidades vegetais; nada mais comum, com efeito,nas plantas normalmente conformadas, que a unio das partes homlogas, a soldadura,por exemplo, das ptalas da corola num s tubo. As partes duras parecem afectar a formadas partes moles adjacentes; alguns autores pensam que a diversidade das formas queafecta a bacia nas aves, determina a diversidade notvel que se observa na forma dosrins. Outros julgam ainda que, na espcie humana, a forma da bacia da me exerce pelapresso certa influncia sobre a forma da cabea da criana. Nas serpentes, segundoSchlegel, a forma do corpo e o modo de deglutio determinam a posio e a forma demuitas das mais importantes vsceras.A natureza destas relaes fica quase sempre obscura. M. Isidoro Geoffroy deSaint-Hilaire insiste muito sobre este ponto: que certas deformaes coexistemfrequentemente, enquanto que outras se observam apenas raramente sem que possamosindicar a razo. Que h de mais singular do que a relao que existe, nos gatos, entre acor branca, os olhos azuis e a surdez; ou, nos mesmos amimais, entre o sexo feminino ecolorao tricolor; nos pombos, entre a plumagem das patas as pelculas que ligam osdedos extremos; entre a abundncia da penugem, nos borrachos, que saem do ovo, e acolorao da plumagem futura; ou, enfim, a relao que existe no co turco nu, entre osplos e os dentes, posto que, neste caso, a homologia desempenhe certo papel semdvida? Creio mesmo que este ltimo caso de correlao no possa ser acidental; seconsiderarmos, em verdade, as duas ordens de mamferos de que o invlucro drmicoapresenta a maior anomalia, os cetceos (baleias) e os desdentados (tatus epapa-formigas, etc.), vemos que apresentam tambm a dentio normal; mas, como o feznotar M. Mivart, h tantas excepes a esta regra que pouco valor tem afinal. 170. No conheo exemplo mais prprio para demonstrar a importncia das leis dacorrelao e da variao, independentemente da utilidade e, por conseguinte, de toda aseleco natural, como a diferena que existe entre as flores internas e externas dealgumas compostas e de algumas umbelferas. Todos tm notado a diferena que existeentre as floritas perifricas e as centrais da margarita, por exemplo; ora a atrofia parcial oucompleta dos rgos reprodutores acompanha muitas vezes esta diferena. Alm disso, assementes de algumas destas plantas diferem tambm com relao forma e lavor.Tm-se algumas vezes atribudo estas diferenas presso dos invlucros sobre asflorzinhas, ou s compresses recprocas, e a forma das sementes contidas nas florzinhasperifricas de algumas compostas parece confirmar esta opinio; mas, nas umbelferas,como mo ensina o Dr. Hooker, no so certamente as espcies que tm os captulos maisdensos do que as flores perifricas e centrais que oferecem diferenas maisfrequentemente. Poderia pensar-se que o desenvolvimento das ptalas perifricas,levando a nutrio aos rgos reprodutores, determina a sua atrofia; mas no pode sercausa nica em todos os casos; porque, em certas compostas, as sementes das florzinhasinternas e externas diferem sem que haja alguma diferena nas corolas. Julga-se queestas diferenas estejam em relao com o fluxo de nutrio diferente para as duascategorias de florzinhas; ns sabemos, pelo menos, que, nas flores irregulares, as queesto mais prximas do eixo se mostram mais sujeitas peloria, isto , a tornar-sesimtricas de modo anormal. Juntarei, como exemplo deste facto e como caso decorrelao notvel que, em muitos dos pelargnios, as duas ptalas superiores da florcentral do tufo perdem muitas vezes as suas manchas de cor mais carregada; estadisposio acompanhada da atrofia completa do nectrio aderente, e a flor centraltorna-se assim pelrica ou regular. Quando s uma das duas ptalas superiores colorida,o nectrio no atrofiado por completo, somente diminudo. Quanto ao desenvolvimento da corola, muito provvel, como diz Sprengel, que asflorzinhas perifricas sirvam para atrair os insectos, cujo concurso muito til ou mesmonecessrio fecundao da planta; se assim, a seleco natural pode entrar em jogo.Mas parece impossvel, no concernente s sementes, que as suas diferenas de forma,que no esto sempre em correlao com certas diferenas da corola, possam ser-lhesvantajosas; contudo, nas Umbelferas, estas diferenas parecem to importantes -assementes sendo algumas vezes ortosprmicas nas flores exteriores e colosprmicas nasflores centrais -que de Candolle, o velho, baseou nestes caracteres as principais divisesda ordem. Assim, modificaes de estrutura, tendo uma alta importncia aos olhos dosclassificadores, podem ser devidas inteiramente s leis da variao e da correlao, semter, tanto quanto pelo menos o podemos julgar, qualquer utilidade para a espcie. 171. Podemos algumas vezes atribuir sem razo variao correlativa deformaescomuns a grupos inteiros de espcies, que so, de facto, apenas o resultado dahereditariedade. Um ancestral afastado, com efeito, pde adquirir, em virtude da seleconatural, algumas modificaes de conformao, em seguida, aps milhares de geraes,algumas outras modificaes independentes. Estas duas modificaes, transmitidas depoisa um grupo inteiro de descendentes tendo hbitos diversos, poderiam ento sernaturalmente consideradas como estando em correlao necessria. Algumas outrascorrelaes parecem evidentemente devidas a um s modo de aco da seleco natural.Afonso de Candolle notou, em verdade, que no se observam sementes aladas nos frutosque no abrem. Explico este facto pela impossibilidade da seleco natural dargradualmente asas s sementes, se as cpsulas no so as primeiras a abrir; de facto, neste caso somente que as sementes, conformadas de maneira a serem mais facilmentetransportadas pelo vento, prevaleceriam sobre as menos aptas a uma grande disperso. Compensao e economia de crescimentoGeoffroy Saint-Hilaire, o velho, e Goethe formularam, quase na mesma poca, a leida compensao do crescimento; para me servir das expresses de Goethe: a fim depoder dispender de um lado, a natureza obrigada a economizar por outro. Esta regraaplica-se, creio eu, de certo modo, aos nossos animais domsticos; se a nutrio se fazem excesso numa parte ou num rgo, raro que se faa ao mesmo tempo, em excessopelo menos, noutro rgo; assim, difcil de fazer produzir muito leite a uma vaca eemagrec-la ao mesmo tempo. As mesmas variedades de couve no produzem emabundncia uma folhagem nutritiva e sementes oleaginosas. Quando as sementes dosnossos frutos tendem a atrofiar-se, o fruto por si ganha em tamanho e qualidade. Nas avesde capoeira, a presena de um tufo de penas na cabea corresponde a uma diminuio dacrista, e o desenvolvimento da barba a uma diminuio de carnculos. difcil sustentarque esta lei se aplica universalmente s espcies no estado de natureza; ela admitida,contudo, por muito bons observadores, principalmente por botnicos. Todavia, no dareiaqui nenhum exemplo, porque no vejo como se poderia distinguir, de um lado, entre osefeitos de uma parte que se desenvolveria largamente sob a influncia da seleco naturale de outra parte adjacente que diminuiria, em virtude da mesma causa, ou seguidamenteao no uso; e, por outro lado, entre os efeitos produzidos pela falta de nutrio de umaparte, graas ao excesso de crescimento de uma outra parte adjacente. 172. Estou tambm disposto a acreditar que alguns dos casos de compensao que tmsido citados, assim como alguns outros factos, podem confundir-se num princpio maisgeral, a saber: que a seleco natural se esfora constantemente por economizar todas aspartes do organismo. Se uma conformao til se torna menos til em novas condies deexistncia, a diminuio desta conformao seguir-se- certamente, porque vantajosoparao indivduo no desperdiar nutrio em proveito de uma conformao til. assimsomente que posso explicar um facto que me tem surpreendido nos cirrpedes, e de que sepoderiam citar muitos exemplos anlogos: quando um cirrpede parasita vive no interior deum outro cirrpede, e por este facto abrigado e protegido, perde mais ou menoscompletamente a couraa. o caso da Ibla macho, e, de uma maneira ainda mais frisante,o do Proteolepas. Em todos os outros cirrpedes, a couraa formada por umdesenvolvimento prodigioso dos trs segmentos anteriores da cabea, providos demsculos e de grossos nervos; ao passo que, no Proteolepas parasita e abrigado, toda aparte anterior da cabea reduzida a um simples rudimento, colocado na base dasantenas prenseis; ora, a economia de uma conformao complexa e desenvolvida,tornada suprflua, constitui uma grande vantagem para cada indivduo da espcie; porque,na luta pela existncia, qual todo o animal est exposto, cada Proteolepas tem melhorfora para a vida, visto que desperdia poucos alimentos. assim, penso eu, que a seleco natural tende, de h muito, a diminuir todas aspartes do organismo, desde que se tornem suprfluas em razo de uma alterao dehbitos; mas no tende, de modo algum, a desenvolver proporcionalmente as outraspartes. Inversamente, a seleco natural pode com facilidade desenvolverconsideravelmente um rgo, sem arrastar, como compensao indispensvel, a reduode quaisquer partes adjacentes. 173. As confirmaes mltiplas, rudimentares e de organizao inferior doavriveisParece regra nas variedades e nas espcies, como o fez notar Isidoro GeoffroySaint-Hilaire, que, sempre que uma parte ou um rgo se encontra muitas vezes repetidona conformao de um indivduo (por exemplo as vrtebras nas serpentes e os estamesnas flores polindricas), o nmero varivel, enquanto que constante quando o nmerodessas mesmas partes mais restrito. O mesmo autor, assim como alguns botnicos, tm,alm disso, reconhecido que as partes mltiplas so extremamente sujeitas a variar. Aopasso que, para me servir da expresso do professor Owen, esta repetio vegetativa um sinal de organizao inferior, a nota que precede concorda com a opinio geral dosnaturalistas, a saber: que os seres colocados em graus inferiores da escala da organizaoso mais variveis que aqueles que ocupamo vrtice.Penso que, por inferioridade na escala, se deve entender aqui que as diferentespartes do organismo tm apenas um fraco grau de especializao para as funesparticulares, ora, como durante muito tempo a mesma parte tem funes diversas adesempenhar, explica-se talvez por que deve ficar varivel, isto , por que a seleconatural no conservou ou rejeitou todos os leves desvios de conformao com tanto rigorcomo quando uma parte no serve mais do que para um uso especial. Poderiamcomparar-se estes rgos a uma faca destinada a todos os usos, e que pode, por isso, teruma forma qualquer, ao passo que um utenslio destinado a um uso determinado devetomar uma forma particular. A seleco natural, necessrio no esquecer, somente podeactuar servindo-se do indivduo, e para seu proveito.Admite-se geralmente que as partes rudimentares esto sujeitas a uma grandevariedade. Teremos de voltar a este assunto; contentar-me-ei em dizer aqui que a suavariabilidade parece resultar da sua inutilidade e de que a seleco natural no pode, pois,impedir que se produzam desvios de conformao.Uma parte extraordinariamente desenvolvida numa espcie qualquer,comparativamente ao estado da mesma parte nas espcies vizinhas, tende a variarmuito 174. M. Waterhouse fez sobre este ponto, h muitos anos, uma nota que me teminteressado muito. O professor Owen parece ter chegado tambm a concluses quaseanlogas. Eu no procuraria convencer algum da verdade da proposio acima formuladasem a apoiar na exposio de uma longa srie de factos que recolhi a este respeito, masque no podem ter lugar nesta obra.Devo limitar-me a constatar que, na minha convico, essa uma regra muito geral.Sei que h muitas causas de erro, mas espero estar prevenido suficientemente contra elas.Bem entendido est que esta regra se no aplica de forma alguma s partes, por maisextraordinariamente desenvolvidas que sejam, que no apresentem um desenvolvimentodesmesurado numa espcie ou algumas espcies, comparativamente mesma parte emmuitas espcies muito prximas. Assim, ainda que, na classe dos mamferos, a asa domorcego tenha uma conformao muito anormal, a regra no deveria aplicar-se aqui,porque o grupo inteiro dos morcegos possui asas; aplicar-se-ia apenas se uma espciequalquer possusse asas tendo um desenvolvimento notvel, em relao s asas dasoutras espcies do mesmo gnero. Mas esta regra aplica-se, de um modo quase absoluto,aos caracteres sexuais secundrios, quando se manifestam de uma maneira desmedida. Otermo caracter sexual secundrio, empregado por Hunter, aplica-se aos caracteres que,particulares a um sexo, se no referem directamente ao acto da reproduo. A regraaplica-se aos machos e s fmeas, menos frequentemente a estas, porque raro que elaspossuam caracteres sexuais secundrios notveis. Os caracteres deste gnero, quersejam ou no desenvolvidos de uma maneira extraordinria, so muito variveis, e emrazo deste facto que a regra pr-citada se aplica to completamente a eles; creio que nopode haver dvidas a este respeito. Mas os cirrpedes hermafroditas fornecem-nos a provade que a nossa regra se no aplica somente aos caracteres sexuais secundrios;estudando esta ordem, refiro-me particularmente nota de M. Waterhouse, e estouconvencido que a regra se aplica quase sempre. Em obra futura, darei a lista dos casosmais curiosos que recolhi; limitar-me-ei, por agora, a citar um s exemplo que justifica aregra na sua aplicao mais lata. As valvas operculares dos cirrpedes ssseis (baleias)so, em toda a extenso do termo, conformaes muito importantes e que diferem muitopouco, mesmo em gneros distintos. Contudo, nas diferentes espcies de um destesgneros, o gnero Pyrgoma, estas valvas apresentam uma diferenciao notvel, tendo asvalvas homlogas algumas vezes uma forma inteiramente dissemelhante. A extenso dasvariaes entre indivduos da mesma espcie tal, que se pode afirmar, sem exagero, queas variedades da mesma espcie diferem mais umas das outras pelos caracteres tiradosdestes rgos importantes do que de outras espcies pertencendo a gneros distintos.Tenho particularmente examinado as aves neste ponto de vista, porque, entre elas, osindivduos da mesma espcie, habitando o mesmo pas, variam extremamente pouco; ora,a regra parece certamente aplicvel a esta classe. No tenho podido determinar que ela seaplique s plantas, mas devo juntar que isto me faria ter srias dvidas sobre a suarealidade, se a enorme variabilidade dos vegetais no tornasse extremamente difcil acomparao do seu grau relativo de variabilidade. 175. Quando uma parte, ou um rgo se desenvolve numa espcie de modo considervelou em grau extraordinrio, somos levados a crer que esta parte ou este rgo no tem altaimportncia para a espcie; todavia, a parte est neste caso muito sujeita a variar. Porque assim? No posso encontrar qualquer explicao na hiptese a no ser que cadaespcie se tornou o objecto de um acto criador especial e que todos estes rgos, noprincpio, eram o que so hoje. Mas, se nos colocarmos na hiptese de que os grupos deespcies derivam de outras espcies em seguida a modificaes operadas pela seleconatural, pode-se, creio eu, resolver em parte esta questo. Sejam-me permitidaspreviamente algumas notas preliminares. Se, nos nossos animais domsticos, se desprezao animal inteiro, ou um ponto qualquer da sua conformao e se no se lhe aplica qualquerseleco, a parte desprezada (a crista, por exemplo, na galinha Dorking), ou a raa inteira,deixa de ter um carcter uniforme; poder dizer-se ento que a raa degenera. Ora, o caso quase idntico para os rgos rudimentares, para aqueles que foram apenas poucoespecializados em vista de um fim particular e talvez para os grupos polimorfos; nestescasos, com efeito, a seleco natural no exerceu ou no pde exercer a sua aco, e oorganismo ficou assim num estado flutuante. Mas, o que mais nos importa aqui, que aspartes que, nos nossos animais, tm sofrido actualmente alteraes mais rpidas em razode uma seleco contnua, so tambm as que mais sujeitas esto a variar.Considerem-se os indivduos de uma mesma raa de pombos, e ver-se- que prodigiosasdiferenas existem nos bicos dos cambalhotas, nos bicos e carnculas dos correios, noporte e cauda dos paves, etc., pontos estes que os cultivadores ingleses tm hoje emateno particular. H mesmo sub-raas, como a dos cambalhotas, de face curta, nasquais dificlimo obter aves quase perfeitas, porque muitas se afastam de um modoconsidervel do tipo admitido. Pode realmente dizer-se que h uma luta constante, de umlado entre a tendncia regresso a um estado menos perfeito, assim como umatendncia inata 176. a novas variaes, e, por outro lado, com a influncia de uma seleco contnua paraque a raa fique pura. No decorrer do tempo, a seleco triunfa, e ns no levamos emlinha de conta o pensamento que poderamos falhar assaz miseravelmente para obter umaave to vulgar como o cambalhota comum, de um bom casal de cambalhotas de facecurta puros. Mas, por mais tempo que a seleco actue energicamente, necessrioesperar por numerosas variaes nas partes que esto sujeitas sua aco. Examinemos agora o que se passa no estado de natureza. Quando uma parte sedesenvolve de um modo extraordinrio, numa espcie qualquer, comparativamente ao que a mesma parte nas outras espcies do mesmo gnero, podemos concluir que esta partesofreu enormes modificaes desde a poca em que as diferentes espcies se desligaramdo antepassado comum deste gnero. raro que esta poca seja excessivamenteafastada, porque muito raro que as espcies persistam durante mais que um perodogeolgico. Grandes modificaes implicam uma variabilidade extraordinria e continuadapor muito tempo, de que os efeitos se tenham acumulado constantemente pela seleconatural com vantagem para a espcie. Mas como a variabilidade da parte ou do rgodesenvolvido de modo extraordinrio foi muito grande e muito contnua durante um lapsode tempo que no excessivamente longo, podemos esperar, em regra geral, encontrarainda hoje mais variabilidade nesta parte que nas outras partes do organismo, que ficaramquase constantes desde uma poca bem mais remota. Ora, estou convencido que esta averdade. No vejo razo alguma para duvidar de que a luta entre a seleco natural com atendncia regresso e variabilidade no cesse no decurso do tempo, e que os rgosdesenvolvidos o mais anormalmente possvel, se no tornem constantes. Tambm,segundo a nossa teoria, quando um rgo, por mais anormal que seja, se transmite quaseno mesmo estado a muitos descendentes modificados, a asa do morcego, por exemplo,este rgo devia existir, quase no mesmo estado, numa poca recuada, e terminou porno ser mais varivel do que qualquer outra conformao. somente nos casos em que amodificao comparativamente recente e extremamente considervel, que devemosesperar encontrar ainda, num alto grau de desenvolvimento, a variabilidade generativa,como poderia chamar-se-lhe. Neste caso, com efeito, raro que a variabilidade se tenhafixado pela seleco contnua dos indivduos variando gradualmente e no sentidodesejado, e por excluso contnua dos indivduos que tendem a regressar a um estadomais antigo e menos modificado. 177. Os caracteres especficos so mais variveis que os caracteres genricosPode aplicar-se ao assunto que nos vai ocupar o princpio que acabamos de discutir. notrio que os caracteres especficos so mais variveis que os caracteres genricos.Cito um nico exemplo para fazer compreender o meu pensamento: se um grande gnerode plantas encerra muitas espcies, umas tendo flores azuis, outras flores vermelhas, a cor apenas um caracter especfico, e ningum se surpreender de uma espcie azul setornar vermelha e reciprocamente; se, ao contrrio, todas as espcies tm flores azuis, acolorao torna-se um caracter genrico, e a variabilidade desta colorao constitui umfacto muito mais extraordinrio.Escolhi este exemplo porque a explicao que daria a maior parte dos naturalistasno poderia aplicar-se aqui; sustentariam, com efeito, que os caracteres especficos somais variveis que os caracteres genricos, porque os primeiros implicam partes tendouma importncia fisiolgica menor do que aqueles que se consideram ordinariamentequando se trata de classificar um gnero. Creio que esta explicao verdadeira em parte,mas somente de um modo indirecto; terei, demais, de voltar a referir-me a este pontotratando da classificao. Seria quase suprfluo citar exemplos para provar que oscaracteres especficos ordinrios so mais variveis que os caracteres genricos; quando,porm, se trata de caracteres importantes, tenho notado quase sempre, nas obras sobrehistria natural, que, quando um autor se admira que qualquer rgo importante,ordinariamente muito constante, num grupo considervel de espcies, difere muito nasespcies muito vizinhas, muitas vezes varivel nos indivduos da mesma espcie. Estefacto prova que um carcter que tem ordinariamente um valor genrico torna-se frequentesvezes varivel quando perde o seu valor e desce ordem de carcter especfico, postoque a sua importncia fisiolgica possa ficar a mesma. Alguma coisa de anlogo se aplicas monstruosidades; Isidoro Geoffroy Saint-Hilaire, pelo menos, no pe em dvida que,quanto mais um rgo difere normalmente em diversas espcies do mesmo grupo, tantomais est sujeito a anomalias entre os indivduos.Na hiptese ordinria de uma criao independente para cada espcie, como poderiafazer-se que a parte do organismo que difere da mesma parte noutras espcies do mesmognero, criadas independentemente tambm, seja mais varivel que as partes que seassemelham muito nas diferentes espcies deste gnero? Quanto a mim, no creio queseja possvel explicar este facto. Ao contrrio, na hiptese de as espcies no seremseno variedades muito pronunciadas e persistentes, pode atender-se a maior parte dasvezes a que as partes da sua organizao que tm variado desde uma pocacomparativamente recente e que, em seguida, se tornaram diferentes, continuam ainda avariar. 178. Ponhamos a questo noutros termos: chamam-se caracteres genricos os pontospelos quais todas as espcies de um gnero se assemelham e diferem dos gnerosvizinhos; podem atribuir-se estes caracteres a um antepassado comum que os transmitiupor hereditariedade aos descendentes, porque deve ter sucedido muito raramente que aseleco natural tenha modificado, exactamente da mesma maneira, muitas espciesdistintas adaptadas a hbitos mais ou menos diferentes; ora, como estes pretendidoscaracteres genricos foram transmitidos por hereditariedade antes da poca em que asdiferentes espcies se tinham separado do antepassado comum e que posteriormenteestes caracteres no tenham variado, ou que, se diferem, o faam apenas em grauextremamente diminuto, no provvel que variem actualmente. Por outro lado,chamam-se caracteres especficos os pontos pelos quais as espcies diferem das outrasespcies do mesmo gnero; ora, como estes caracteres especficos tm variado e sediferenciaram desde a poca em que as espcies se afastaram do ancestral comum, provvel que sejam ainda variveis num certo grau; pelo menos, so mais variveis que aspartes do organismo que ficaram constantes desde um longo perodo. Os caracteres sexuais secundrios so variveisPenso que todos os naturalistas admitiro, sem que necessrio seja entrar emminuciosidades, que os caracteres sexuais secundrios so muito variveis. Admitiu-setambm que as espcies de um mesmo grupo diferem mais umas das outras com respeitoa caracteres sexuais secundrios do que noutras partes da sua organizao:comparem-se, por exemplo, as diferenas que existem entre os galinceos machos, nosquais os caracteres sexuais secundrios so muito desenvolvidos, com as diferenas queexistem entre as fmeas. A causa primeira da variabilidade destes caracteres no evidente; mas, compreendemos perfeitamente porque no so to persistentes e touniformes como os outros caracteres; acumularam-se, com efeito, pela seleco sexual,cuja aco menos rigorosa que a da seleco natural; a primeira, de facto, no produz amorte, contenta-se em dar menos descendentes aos machos menos favorecidos. Qualquerque possa ser a causa da variabilidade dos caracteres sexuais secundrios, a selecosexual tem um campo de aco assaz extenso, sendo estes caracteres muito variveis; elapde assim determinar, nas espcies do mesmo grupo, diferenas mais notadas sobreeste ponto do que sobre todos os outros. 179. um facto bastante notvel, que as diferenas secundrias entre os dois sexos damesma espcie se produzem precisamente sobre os mesmos pontos do organismo, pelosquais as espcies de um mesmo gnero diferem umas das outras. Quero citar, em apoiodesta assero, os dois primeiros exemplos que se encontram na minha nota; ora, comoas diferenas, nestes casos, so de natureza muito extraordinria, difcil crer que asrelaes que apresentam sejam acidentais. Um mesmo nmero de articulaes dos tarsos um carcter comum a grupos muito considerveis de colepteros; ora, como o fez notarWestwood,o nmero destas articulaes varia muito nos engdeos, e este nmero diferetambm nos dois sexos da mesma espcie. Da mesma forma, nos himenpteroscavadores, o modo de nervao das asas um carcter de alta importncia, porque comum a grupos considerveis; mas a nervao, em certos gneros, varia nas diversasespcies e tambm nos dois sexos de uma mesma espcie. SirLubbock fez recentemente notar que muitos dos pequenos crustceos oferecemexcelentes exemplos desta lei. Assim, no Pontellus, so as antenas anteriores e o quintopar de patas que constituem os principais caracteres sexuais; so tambm estes rgosque fornecem as principais diferenas especficas. Esta relao tem para mim umasignificao muito clara; eu considero que todas as espcies de um mesmo gneroderivam tambm certamente de um antepassado comum, e que os dois sexos de umamesma espcie derivam do mesmo ancestral. Por conseguinte, se uma parte qualquer doorganismo do antepassado comum, ou dos seus primeiros descendentes, tornadavarivel, muito provvel que a seleco natural e a seleco sexual estejam dominadaspelas variaes desta parte para adaptar as diferentes espcies a ocupar diversos lugaresna economia da natureza, para apropriar um ao outro os dois sexos da mesma espcie, eenfim preparar os machos para lutar com os outros machos para a posse das fmeas.Chego, pois, concluso da conexidade ntima de todos os princpios seguintes, asaber: a variabilidade maior dos caracteres especficos, ou seja, dos que distinguem asespcies umas das outras, comparativamente dos caracteres gerais, isto , os caracterespossudos em comum por todas as espcies de um gnero; -a excessiva variabilidade queapresenta muitas vezes um ponto qualquer quando desenvolvida numa espcie de umamaneira extraordinria, comparativamente ao que nas espcies congneres; e o poucode variabilidade de um ponto, por mais desenvolvido que possa ser, comum a um grupointeiro de espcies; -a grande variabilidade de caracteres sexuais secundrios e asdiferenas considerveis que apresentam nas espcies muito vizinhas; -os caracteressexuais secundrios manifestam-se geralmente nos mesmos pontos do organismo ondeexistem as diferenas especficas ordinrias. Todos estes princpios derivamprincipalmente de que as espcies de um mesmo grupo descendem de um ancestralcomum que lhes transmitiu por hereditariedade muitos dos caracteres comuns; -de que aspartes que tm recentemente variado de maneira considervel tm mais tendncia acontinuar a faz-lo que as partes fixas que no tm variado desde h muito; -de que aseleco natural tem, segundo o lapso de tempo decorrido, dominado mais ou menoscompletamente a tendncia regresso e a novas variaes; -de que a seleco sexual menos rigorosa que a seleco natural; -enfim, de que a seleco natural e a selecosexual tm cumulado as variaes nas mesmas partes e as tm adaptado assim a 180. diversos fins, quer sexuais, quer ordinrios. 181. As espcies distintas apresentam variaes anlogas, de tal maneira que umavariedade de uma espcie reveste muitas vezes um caracter prprio a uma espcievizinha, ou regressa a alguns dos caracteres de um antepassado distanteCompreender-se-o facilmente estas proposies examinando as nossas raasdomsticas. As raas mais distintas de pombos, em pases muito afastados uns dosoutros, apresentam sub-variedades caracterizadas por penas reviradas sobre a cabea epor patas emplumadas, caracteres que no possua o torcaz primitivo; isto um exemplode variaes anlogas em duas ou mais raas distintas. A presena frequente, nogrande-papudo, de catorze e mesmo dezasseis penas caudais pode ser considerada comouma variao representando a conformao de uma outra raa, o pombo-pavo. Ningumdeixar de admirar, penso eu, que estas variaes anlogas provm de que umpredecessor comum transmitiu por hereditariedade s diferentes raas de pombos umamesma constituio e uma tendncia variao, quando so expostas a influnciasdesconhecidas semelhantes.O reino vegetal fornece-nos um caso de variaes anlogas nos caules tumefeitos,ou, como se designam habitualmente, nas razes dos nabos da Sucia e do rutabaga, duasplantas que alguns botnicos consideram como variedades derivando de uma origemcomum e produzidas pela cultura; se no fosse assim, haveria ento um caso de variaoanloga entre duas pretendidas espcies distintas, s quais poderia juntar-se uma terceira,o nabo ordinrio. Na hiptese da criao independente das espcies, teramos que atribuiresta semelhana de desenvolvimento de caules nas trs plantas, no verdadeira causa,isto , comunho de descendncia e tendncia a variar numa mesma direco que aconsequncia, mas a trs actos distintos da criao, actuando sobre formas extremamentevizinhas. Naudim observou muitos casos semelhantes de variedades anlogas na grandefamlia das cucurbitceas, e diversos sbios nos cereais. M. Walsh discutiu ultimamentecom muito talento diversos casos semelhantes que se apresentam nos insectos no estadode natureza, e agrupou-os sob a sua lei de igual variabilidade. 182. Todavia, encontramos um outro caso nos pombos, isto , a apario acidental, emtodas as raas, de uma colorao azul-ardsia, de duas faixas negras sobre as asas, dosflancos brancos, com uma barra na extremidade da cauda, de que as penas exterioresso, junto da base, exteriormente bordadas de branco. Como estes diferentes sinaisconstituem um carcter de origem comum,o torcaz, ningum contestaria, creio eu, que isto seja um caso de regresso e no umavariao nova e anloga que aparece em muitas raas. Podemos, assim o penso, admitiresta concluso com toda a segurana; porque, como temos visto, estes sinais coloridosesto muito sujeitos a aparecer nos filhos resultando do cruzamento de duas raasdistintas tendo uma colorao diferente; ora, neste caso, no h nada nas condiesexteriores de existncia, salvo a influncia do cruzamento sobre as leis da hereditariedade,que possa causar a reapario da cor azul-ardsia acompanhada de outros diversossinais. Sem dvida, muito surpreendente que reapaream caracteres depois de teremdesaparecido durante um grande nmero de geraes, centenas talvez. Mas, numa raacruzada uma s vez com uma outra raa, a descendncia apresenta acidentalmente,durante muitas geraes -alguns autores dizem durante uma dezena ou mesmo duranteuma vintena -uma tendncia a regressar aos caracteres da raa estrangeira. Depois dedoze geraes, a proporo do sangue, para empregar uma expresso vulgar, de um dospredecessores apenas de 1 para 2 048; e portanto, como vemos, julga-se geralmenteque basta esta proporo infinitamente Pequena de sangue estranho para determinar umatendncia ao regresso. Numa raa que no tenha sido cruzada, mas na qual os doispredecessores -origem tm perdido alguns caracteres que Possua o seu predecessorcomum, a tendncia ao regresso a este caracter perdido poderia, depois de tudo o quepodemos saber, transmitir-se de modo mais ou menos frisante durante um nmeroilimitado de geraes. Quando um carcter perdido reaparece numa raa aps um grandenmero de geraes, a hiptese mais provvel , no que o indivduo afectado se coloqueprestes a assemelhar-se a um predecessor de que est separado por muitas centenas degeraes, mas que o carcter em questo se encontrasse em estado latente nosindivduos de cada gerao sucessiva e que enfim este caracterstico se tenhadesenvolvido sob a influncia de condies favorveis, de que ns ignoramos a causa.Nos pombos brbaros, por exemplo, que produzem muito raramente aves azuis, provvelque haja nos indivduos de cada gerao uma tendncia latente reproduo daplumagem azul. A transmisso desta tendncia, durante um grande nmero de geraes,no mais difcil de compreender que a transmisso anloga de rgos rudimentarescompletamente inteis. A simples tendncia produo de um rudimento mesmoalgumas vezes hereditria. 183. Como supusemos que todas as espcies de um mesmo gnero derivam de umaorigem comum, poderamos esperar que elas variassem acidentalmente de maneiraanloga; de tal modo que as variedades de duas ou muitas espcies se assemelhariam, ouque uma variedade se assemelharia por certos caracteres a uma outra espcie distinta-sendo esta, pela nossa teoria, apenas uma variedade permanente bem acentuada. Oscaracteres exclusivamente devidos a uma variao anloga teriam provavelmente poucaimportncia, porque a conservao de todos os caracteres importantes determinada pelaseleco natural, que os apropria aos hbitos diferentes da espcie. Poderia esperar-se,alm disso, que as espcies de um mesmo gnero apresentassem acidentalmentecaracteres perdidos desde h muito. Todavia, como no conhecemos o predecessorcomum de um grupo natural qualquer, no podemos distinguir os caracteres devidos regresso dos que provm de variaes anlogas. Se, por exemplo, ignorssemos que opombo-torcaz, origem dos nossos pombos domsticos, no tinha nem penas nas patas,nem penas voltadas na cabea, ser-nos-ia impossvel dizer se deveriam ser atribudosestes caracteres a um facto de regresso ou unicamente a variaes anlogas, masteramos podido concluir que a cor azul um caso de regresso, por causa do nmero desinais que esto em relao com esta cambiante, sinais que, segundo toda aprobabilidade, no apareceriam todos reunidos no caso de simples variao; estaramos,alm disso, tanto mais certos de chegar a esta concluso, quanto a colorao azul e osdiferentes sinais reaparecem muitas vezes quando se cruzam raas tendo cores diversas.Por conseguinte, posto que, nas raas que vivem no estado de natureza pudssemosapenas raramente determinar quais os casos de regresso a um carcter anterior, e quaisos que constituem uma variao nova, mas anloga, deveramos, todavia, pela nossateoria, encontrar algumas vezes nos descendentes de uma espcie em via de modificao,caracteres que existem j noutros elementos do mesmo grupo. Ora, isto certamente oque acontece. 184. A dificuldade experimentada em distinguir as espcies variveis provm, em grandeparte, de que as variedades imitam, por assim dizer, outras espcies do mesmo gnero.Poderia tambm fazer-se um catlogo considervel de formas intermdias entre duasoutras formas que no possvel ainda considerar-se a no ser como espcies duvidosas;ora, isto prova que as espcies, variando, tm revestido alguns caracteres pertencendo aoutras espcies, a no ser que se admita uma criao independente para cada uma destasformas to prximas. Todavia, encontramos a melhor prova de variaes anlogas naspartes ou rgos que tm um carcter constante, mas que, contudo, variamacidentalmente de modo a assemelhar-se, em certa medida, mesma parte ou mesmorgo numa espcie vizinha. Constitu uma longa srie destes casos, mas infelizmenteencontro-me na impossibilidade de poder d-la aqui. Devo, pois, contentar-me com afirmarque estes casos se apresentam na realidade e que so muito notveis.No obstante, citarei um exemplo curioso e complicado, no que afecte um carcterimportante, mas porque se apresenta em muitas espcies do mesmo gnero, de que umasesto reduzidas ao estado domstico e outras vivem no estado selvagem. quasecertamente um caso de regresso. O jumento tem, nem sempre, nas pernas, riscastransversais muito distintas, semelhantes s que se encontram nas pernas da zebra;tem-se afirmado que estas riscas so muito mais manifestas no jumentinho, e os estudosque fiz sob tal ponto confirmam-me este facto. A risca da espdua algumas vezes duplae varia muito com respeito a cor e a desenho. Tem-se descrito um jumento branco, masno albino, que no possua risca alguma nem sobre a espdua nem sobre o dorso; -estasduas riscas so algumas vezes muito fracamente notadas ou faltam por completo nosjumentos de cor escura. Tem-se visto, afirmam, o koulan de Palas com uma dupla riscasobre a espdua. M. Blyth observou uma hemona tendo sobre a espdua uma riscadistinta, posto que este animal no a tenha de ordinrio. O coronel Poole informou-me,alm disso, que os novos desta espcie tm ordinariamente as pernas raiadas e uma faixafracamente notada sobre a espdua. O quaga, de que o corpo como o da zebra, tocompletamente listrado, no tem, contudo, riscas nas pernas; porm, o Dr. Gray desenhouum destes animais cujas canelas tinham zebraduras muito frisantes.Com respeito ao cavalo, recolhi em Inglaterra exemplos da risca dorsal, nos cavalospertencendo s raas mais caractersticas e tendo faixas de todas as cores. As riscastransversais nas pernas no so raras nos cavalos isabel e nos de plo de rato; tenho-asobservado tambm no alazo; percebe-se algumas vezes uma ligeira risca sobre aespdua dos cavalos isabel e tenho notado um fraco vestgio no cavalo baio. Meu filhoestudou com cuidado e desenhou um cavalo de tiro belga, de cor isabel, tendo as pernasraiadas e uma dupla risca sobre cada espdua; eu mesmo tive ocasio de ver um pneiisabel de Devonshire, e descreveram-me, com cuidado, um pequeno pnei tendo a mesmafaixa, originrio do Pas de Gales, ambos tinham trs riscas paralelas na espdua. 185. Na regio noroeste da ndia, a raa dos cavalos Kattywar to geralmente listrada,que, segundo o coronel Poole, que a estudou para o governo indiano, no se consideracomo raa pura um cavalo desprovido de riscas. A risca dorsal existe sempre; as pernasso ordinariamente raiadas, e a risca da espdua, muito comum, algumas vezes dupla emesmo tripla. As riscas so, frequentemente, muito caracterizadas no potro, desaparecemalgumas vezes completamente nos velhos cavalos.O coronel Poole teve ocasio de ver cavalos Kattywar cinzentos e baios raiados nomomento do parto. Indicaes que me tm sido fornecidas por M.W. W. Edwards, autorizam-me a crer que, no cavalo de corrida ingls, a risca dorsal muito mais comum no potro que no animal adulto. Eu mesmo tenho tratado recentementeum potro proveniente de uma gua baia (e esta produto de um cavalo turcomano e de umagua flamenga) e de um cavalo de corrida ingls, tendo uma faixa baia; este potro, naidade de uma semana, apresentava entre as ancas e na fronte numerosas zebradurascarregadas, muito estreitas, e ligeiras riscas nas pernas; todas estas riscasdesapareceram, em breve, completamente. Sem entrar aqui em mais amplas mincias,posso notar que tenho entre mos muitos documentos estabelecendo de maneira positivaa existncia de riscas nas pernas e nas espduas de cavalos pertencendo s maisdiversas raas e provenientes de todos os pases, desde a Inglaterra China, e desde aNoruega, ao norte, at ao arquiplago malaio, ao sul. Em todas as partes do mundo, asriscas apresentam-se as mais das vezes nos cavalos isabis e pelo-de-rato; compreendo,no termo isabel, uma grande variedade de cambiantes estendendo-se entre oescuro-negro, de uma parte, e da outra a cor de caf com leite.Eu sei que o coronel Hamilton Smith, que escreveu sobre este assunto, julga que asdiferentes raas de cavalos descendem de muitas espcies primitivas, de que uma tendo acor isabel era raiada, e atribui a antigos cruzamentos com esta origem todos os casos queacabamos de descrever. Mas, pode rejeitar-se esta maneira de ver, porque muitoimprovvel que o grande cavalo de tiro belga, que os pneis do Pas de Gales, o duplopnei da Noruega, a raa delicada de Kattywar, etc., habitando partes do Globo toafastadas, tenham todas sido cruzadas com uma suposta fonte primitiva. 186. Examinemos agora os efeitos dos cruzamentos entre as diferentes espcies dognero cavalo. Rollin afirma que o macho ordinrio, produto da burra e cavalo, particularmente sujeito a ter as pernas listradas; segundo M. Gosse, nove dcimos dosmachos encontram-se neste caso, em certas partes dos Estados Unidos. Vi, uma vez, ummacho cujas pernas eram listradas a tal ponto que poderia tomar-se como hbrido dezebra; M, W. C. Martin, no seu excelente Tratado do Cavalo, apresentou um machosemelhante. Vi quatro desenhos coloridos representando hbridos entre o jumento e azebra; ora, as pernas so muito mais listradas que o resto do corpo; um deles, alm disso,tem uma dupla risca sobre a espdua. No famoso hbrido obtido por lorde Morton, docruzamento de uma gua alaz com um quaga, ohbrido, e mesmo os potros puros que amesma gua deu subsequentemente com um cavalo rabe negro, tinham sobre as pernasriscas ainda mais pronunciadas do que existem no quaga puro. Enfim, e este um doscasos mais notveis, o Dr. Gray apresentou um hbrido (diz-me ele que em seguida teveocasio de ver um segundo exemplo) provindo do cruzamento de um burro e de umahemona; posto que o jumento tenha apenas acidentalmente riscas sobre as pernas e queelas faltem, assim como a risca sobre a espdua, na heinona, este hbrido tinha, alm dasriscas nas quatro pernas, trs curtas riscas na espdua, semelhantes s do pnei isabel deDevonshire e do pnei isabel do Pas de Gales que temos descrito; tinha, alm disso,algumas marcas zebradas nos lados da face. Eu estava to convencido, relativamente aeste ltimo facto, que nenhuma destas riscas pode provir do que se chama ordinariamenteo acaso, que s o facto da apario destas zebraduras da face, no hbrido do jumento e dahemona, me excitou a Perguntar ao coronel Poole se no existiam iguais caracteres naraa de Kattywar, to eminentemente sujeita a apresentar riscas, e a resposta, como jvimos, foi afirmativa.Ora, que concluso devemos tirar destes factos? Vemos algumas espcies distintasdo gnero cavalo que, por simples variaes, apresentam riscas nas pernas, como azebra, ou nas espduas, como o jumento. Esta tendncia aumenta no cavalo desde queaparece a cor isabel, cambiante que se aproxima da colorao geral das outras espciesdo gnero. Nenhuma mudana de forma, nenhum outro caracter novo acompanha aapario das riscas. Esta mesma tendncia a tornar-se listrada manifesta-se muitofortemente nos hbridos provindos da unio das espcies mais distintas. Ora, voltemos aoexemplo das diferentes raas de pombos: derivam todas de um pombo (compreendendonela duas ou trs subespcies ou raas geogrficas) tendo uma cor azulada e tendo,demais, certas riscas e certas marcas; quando uma raa qualquer de pombos reveste, poruma simples variao, a cambiante azulada, estas riscas e estas outras marcasreaparecem invariavelmente, mas sem que se produza qualquer outra mudana de formaou de caracter. Quando se cruzam as raas mais antigas e mais constantes, afectandodiferentes cores, nota-se uma grande tendncia reapario, no hbrido de cor azulada, deriscas e marcas. Tenho dito que a hiptese mais provvel para explicar a reapario decaracteres muito antigos que h nos novos de cada gerao sucessiva uma tendncia arevestir um caracter desde h muito perdido, e que tm algumas vezes esta tendncia emrazo de causas desconhecidas. Ora, acabamos de ver que, em muitas espcies do 187. gnero cavalo as riscas so mais pronunciadas ou reaparecem mais ordinariamente nonovo que no adulto. Como se chamam espcies a estas raas de pombos, de que muitasso constantes desde sculos, e se obtm um caso exactamente paralelo ao das espciesdo gnero cavalo? Quanto a mim, indo com o pensamento a alguns milhes de geraesatrs, antevejo um animal raiado como a zebra, mas talvez de uma construo todiferente com respeito a outras relaes, predecessor comum do nosso cavalo domstico(quer este ltimo derive ou no de muitas origens selvagens), do jumento, da hemona, doquaga e da zebra. 188. Ainda que se admita que cada espcie do gnero cavalo faz o objecto de umacriao independente, -se disposto a admitir, presumo eu, que cada espcie foi criadacom uma tendncia variao, tanto no estado selvagem como no estado domstico, demodo a poder revestir acidentalmente as riscas caractersticas das outras espcies dognero; deve admitir-se tambm que cada espcie foi criada com uma outra tendnciamuito pronunciada, a saber, que, cruzada com espcies vivendo nos mais afastadospontos do Globo, produziu hbridos semelhantes pelas riscas, no aos pais, mas a outrasespcies do gnero. Admitir tal hiptese querer substituir uma causa real por outraimaginria, ou pelo menos desconhecida; querer, numa palavra, fazer da obra divinauma irriso e uma decepo. Quanto a mim, eu desejaria admitir tambm, com oscosmogonistas ignorantes de h alguns sculos, que as conchas fsseis no viveram, masforam feitas em pedra para imitar as que vivem nas praias do mar. 189. ResumoA nossa ignorncia com respeito s leis da variao muito profunda. No podemos,uma vez por cento, pretender indicar as causas de uma variao qualquer. Contudo, todasas vezes que podemos reunir os termos de uma comparao, notamos que as mesmasleis parecem ter actuado para produzir tanto as pequenas diferenas que existem entre asvariedades de uma mesma espcie, como as grandes diferenas que existem entre asespcies do mesmo gnero. A mudana das condies no produz geralmente seno umavariedade flutuante, mas algumas vezes tambm efeitos diversos e definidos; ora, estesefeitos podem, com o tempo, tornar-se muito pronunciados, posto que nada possamosafirmar, por falta de provas suficientes. O hbito, produzindo particularidadesconstitucionais, o uso fortificando os rgos, e a falta de uso enfraquecendo-os oudiminuindo-os, parecem, em muitos casos, ter exercido uma aco considervel. As parteshomlogas tendem a variar de forma igual o a soldar-se. As modificaes das partes durase externas afectam algumas vezes as partes moles e internas. Uma parte muitodesenvolvida tende talvez a atrair a si a nutrio das partes adjacentes, e toda a parte daformao economizada, que opode ser sem inconveniente. As modificaes de formao, durante a primeira idade,podem afectar partes que se ho-de desenvolver mais tarde; produzem-se, sem dvidaalguma, muitos casos de variaes correlativas de que no podemos compreender anatureza. As partes mltiplas so variveis, no ponto de vista do nmero e da formao, oque provm talvez de tais partes no serem rigorosamente especializadas paradesempenhar funes particulares; as suas modificaes escapam aco rigorosa daseleco natural. provavelmente tambm a esta mesma circunstncia que deveatribuir-se a variabilidade maior dos seres colocados na ordem inferior da escala orgnicado que nas formas mais elevadas, de que a organizao inteira mais especializada. Aseleco natural no tem aco sobre os rgos rudimentares, sendo estes rgos inteis,e, por isso, variveis. Os caracteres especficos, isto , os que comearam a diferir desdeque as diversas espcies do mesmo gnero se destacaram do predecessor comum, somais variveis que os caracteres genricos, isto , os que, transmitidos por hereditariedadedesde h muito, no tm variado durante o mesmo lapso de tempo. Indicmos j, a esterespeito, partes ou rgos especiais que so ainda variveis porque tm variadorecentemente e so assim diferenciados; mas vimos igualmente, no segundo captulo, queo mesmo princpio se aplica a um indivduo por completo; com efeito, nas localidades emque se encontram muitas espcies de um gnero qualquer -isto , onde houveprecedentemente muitas variaes e diferenciaes, e onde uma criao activa de novasformas especficas se realizou encontra-se hoje em mdia, nestes mesmos lugares enestas mesmas espcies, o maior nmero de variedades. Os caracteres sexuaissecundrios so extremamente variveis; estes caracteres, alm disso, diferem muito nasespcies do mesmo grupo, A variabilidade dos mesmos pontos de organizao temgeralmente tido como resultado determinar diferenas sexuais secundrias nos dois sexosda mesma espcie e diferenas especficas nas diversas espcies do mesmo gnero. 190. Toda a parte ou todo o rgo que, comparado ao que existe numa espcie vizinha,apresenta um desenvolvimento anormal nas dimenses ou na forma, deve ter sofrido umasoma considervel de modificaes desde a formao do gnero, o que nos explica acausa de ser muito mais varivel que as outras partes da organizao. A variao , comefeito, um processo lento e prolongado, e a seleco natural, nos casos semelhantes, noteve ainda tempo de vencer a tendncia variabilidade ulterior ou ao regresso a um estadomenos modificado. Quando, porm, uma espcie, possuindo um rgoextraordinariamente desenvolvido se torna origem de um grande nmero de descendentesmodificados, o que, na nossa hiptese, supe um perodo muito longo, a seleco naturaltem podido dar ao rgo, por extraordinariamente desenvolvido que possa ser, um carcterfixo. As espcies que receberam por hereditariedade dos pais comuns uma constituioquase anloga e que foram submetidas a influncias semelhantes tendem naturalmente aapresentar variaes anlogas ou a regressar acidentalmente a alguns caracteres dosprimeiros predecessores. Ora, ainda que a regresso e as variaes anlogas no possamproduzir novas modificaes importantes, estas modificaes no contribuem menos paraa diversidade, magnificncia e harmonia da natureza. 191. Seja qual for a causa determinante das leves diferenas que se produzem entre odescendente e o ascendente, causa que deve existir em cada caso, temos razo para crerque a acumulao constante das diferenas vantajosas determinou todas as modificaesmais importantes da organizao relativamente aos hbitos de cada espcie. 192. Captulo VI Dificuldades levantadas contra a hiptese e descendncia com modificaes Dificuldades que apresenta a teoria da descendncia com modificaes.-Falta ou raridade das variedades de transio. -Transies nos hbitos da vida.-Hbitos diferentes numa mesma espcie. -Espcies tendo hbitos inteiramente diferentesdos das espcies prximas. -rgos de perfeio extrema. -Modo de transio.-Casosdifceis. -Natura non facit saltum.rgos pouco importantes. -Os rgos no soabsolutamente perfeitos em todos os casos. -A lei da unidade do tipo e das condies deexistncia est compreendida na teoria da seleco natural. Muitas objeces se devem, sem dvida, ter apresentado ao esprito do leitor antesque haja chegado a esta parte da minha obra. Umas so to graves que ainda hoje noposso reflectir nelas sem me sentir um tanto abalado; mas, tanto quanto posso julgar, amaior parte so apenas aparentes, e quanto s dificuldades reais, no so, creio eu, fatais hiptese que sustento. Podem-se agrupar estas dificuldades e estas objeces assim como segue: 1 Se as espcies derivam de outras espcies por graus insensveis porque noencontramos inumerveis formas de transio? Porque no est tudo na natureza noestado de confuso? Porque so as espcies to bem definidas? 2 possvel que um animal tendo, por exemplo, a conformao e os hbitos domorcego, possa formar-se em seguida a modificaes sofridas por outro animal tendohbitos e conformao inteiramente diferentes? Podemos ns acreditar que a seleconatural consiga produzir, de uma parte, rgos insignificantes tais como a cauda da girafa,que serve de apanha-moscas e, por outra parte, um rgo to importante como o olho? 3 Os instintos podem adquirir-se e modificar-se pela aco da seleco natural?Como explicar o instinto que possui a abelha para construir as clulas e que lhe fazexceder assim as descobertas dos maiores matemticos?4 Como explicar que as espcies cruzadas umas com outras ficam estreis 193. ou produzem descendentes estreis, enquanto que as variedades cruzadas umas comoutras ficam fecundas? Discutiremos aqui os dois primeiros pontos; consagraremos o captulo seguinte aalgumas objeces diversas; o instinto e a hibridez faro o objecto de captulos especiais. Da falta ou da raridade da variedades Da transioA seleco natural actua apenas pela conservao das modificaes vantajosas;cada nova forma, sobrevindo numa localidade suficientemente povoada, tende, porconsequncia, a tomar o lugar da forma primitiva menos aperfeioada, ou outras formasmenos favorecidas com as quais entra em concorrncia, e termina por extermin-las.Assim, a extino e a seleco natural vo constantemente de acordo. Por conseguinte, seadmitimos que cada espcie descende de alguma fora desconhecida, esta, assim comotodas as variedades de transio, foram exterminadas pelo facto nico da formao e doaperfeioamento de uma nova forma.Mas porque no encontramos ns frequentemente na crusta terrestre os restosdestas inumerveis formas de transio que, segundo esta hiptese, devem ter existido? Adiscusso desta questo encontrar melhor lugar no captulo relativo imperfeio dosdocumentos geolgicos; limitar-me-ei a dizer aqui que os documentos fornecidos pelageologia so infinitamente menos completos do que se cr ordinariamente. A crustaterrestre constitui, sem dvida, um vasto museu; mas as coleces naturais provindo destemuseu so muito imperfeitas e tm sido reunidas alm disso com longos intervalos.Como quer que seja, objectar-se- sem dvida que devemos encontrar certamentehoje muitas formas de transio quando muitas espcies prximas habitam uma mesmaregio.Tomemos um exemplo muito simples: atravessando um continente de norte a sul,encontra-se ordinariamente, com intervalos sucessivos, espcies muito prximas, ouespcies representativas, que ocupam evidentemente pouco mais ou menos o mesmolugar na economia natural do pas. Estas espcies representativas encontram-se muitasvezes em contacto e confundem-se mesmo umas com outras; pois, medida que uma setorna cada vez mais rara, a outra aumenta pouco a pouco e acaba por substituir a primeira.Mas, se ns compararmos estas espcies onde elas se confundem, no so em geral toabsolutamente distintas umas das outras, por todas as particularidades de conformao,como o podem ser os indivduos tomados mesmo no centro da regio que constitui o seuhabitat ordinrio. Estas espcies prximas, na minha hiptese, descendem de uma origemcomum; durante o decorrer das suas modificaes, cada uma delas deve ter-se adaptados condies de existncia da regio que habita, deve ter suplantado e exterminado aforma original semelhante, assim como todas as variedades que formam as transies 194. entre o seu estado actual e os seus diferentes estados anteriores. No se deve esperarencontrar actualmente, em cada localidade, numerosas variedades de transio, posto quedevam ter existido e que possam estar a enterrados no estado fssil. Mas porque se noencontram actualmente, nas regies intermedirias, apresentando condies de existnciaintermedirias, variedades ligando intimamente umas s outras as formas extremas? Eisuma dificuldade que me embaraou durante muito tempo; mas pode explicar-se, creio eu,at certo ponto. 195. Em primeiro lugar, necessrio evitar concluir que uma regio foi contnua durantelongos perodos, porque assim o hoje. A geologia parece demonstrar-nos que, mesmodurante as ltimas partes do perodo tercirio, a maioria dos continentes eram divididos emilhas nas quais as espcies distintas podiam formar-se separadamente, sem que asvariedades intermedirias pudessem existir nas zonas intermdias. Em seguida amodificao na forma das terras e as alteraes climatricas, as superfcies marinhasactualmente contnuas devem ter existido muitas vezes, at uma poca recente, numestado muito menos uniforme e muito menos contnuo que ao presente. Mas no insistosobre este meio de evitar a dificuldade; julgo, com efeito, que muitas espciesperfeitamente definidas so formadas nas regies estritamente contnuas; mas creio, poroutra parte, que o estado outrora dividido de superfcies que no fazem hoje mais do queuma, representou um papel importante na formao de novas espcies, sobretudo nosanimais errantes que se cruzam facilmente.Se observamos a distribuio actual das espcies sobre um vasto territrio, vemosque so, em geral, muito numerosas numa grande regio, que depois se tornam derepente cada vez mais raras sobre os limites desta regio e que terminam pordesaparecer. O territrio neutro, entre duas espcies representativas, pois geralmentemuito estreito, comparativamente ao que prprio a cada uma delas. Observamos omesmo facto fazendo a ascenso de uma montanha; Alphonse de Candolle fez notar comque rapidez desaparece por vezes uma espcie alpina comum. As sondagens efectuadas draga nas profundezas do mar fornecem resultados anlogos a E. Forbes. Estes factosdevem causar alguma surpresa queles que consideram o clima e as condies fsicas daexistncia como os elementos essenciais da distribuio dos seres organizados; porque oclima, a altitude ou a profundidade variam de maneira gradual e insensvel. Mas sepensarmos que cada espcie, mesmo no seu centro especial, aumentaria imensamenteem nmero sem a concorrncia que lhe opem as outras espcies; se ns pensarmos quequase todas servem de presa s outras ou lutam entre si; se ns pensarmos, enfim, quecada ser organizado tem, directa ou indirectamente, as relaes mais ntimas e maisimportantes com os outros seres organizados, fcil compreender que a extensogeogrfica de uma espcie, habitando um pas qualquer, est longe de dependerexclusivamente das mudanas insensveis das condies fsicas, mas que esta extensodepende essencialmente da presena de outras espcies com as quais se encontra emconcorrncia e que, por conseguinte, ou lhes serve de presa, ou a ela servem de presa.Ora, como estas espcies so por si mesmas definidas e se no confundem por gradaesinsensveis, a extenso de uma espcie qualquer dependendo, em todos estes casos, daextenso das outras, tende a ser por si mesma nitidamente circunscrita. Alm disso, sobreos limites do seu habitat, a onde existe em menor nmero, uma espcie estextremamente sujeita a desaparecer em seguida s flutuaes no nmero dos seusinimigos ou dos seres que lhe servem de presa, ou ainda com as mudanas na naturezado clima; a distribuio geogrfica da espcie tende ento a definir-se ainda maismanifestamente. 196. As espcies vizinhas, ou espcies representativas, quando habitam uma regiocontnua, so ordinariamente distribudas de tal maneira que cada uma delas ocupa umterritrio considervel e havendo entre elas um territrio neutro, comparativamente estreito,no qual se tornam de repente cada vez mais raras; as variedades no diferindoessencialmente das espcies, a mesma regra se lhes aplica provavelmente. Ora, no casode uma espcie varivel habitando uma regio muito extensa, teremos de adaptar duasvariedades a duas grandes regies e uma terceira variedade a uma zona intermediria limitada que as separe. A variedadeintermediria, habitando uma regio restrita, , por consequncia, muito menos numerosa;ora, tanto quanto o posso julgar, o que se passa entre as variedades no estado danatureza. Pude observar exemplos admirveis desta regra nas variedades intermediriasque existem entre as variedades bem talhadas do gnero Balanus. Resulta tambm dosdocumentos que me transmitiram M. Watson, o Dr. Asa Gray e M. Wollaston, que asvariedades ligando duas outras formas quaisquer so, em geral, numericamente menosnumerosas que as formas que elas ligam. Ora, se podemos confiar nestes factos e nestasindues, e concluir que as variedades que ligam outras existem ordinariamente em menornmero que as formas extremas, devemos compreender igualmente por que as variedadesintermdias no podem persistir durante longos perodos, e por que, em regra geral, soexterminadas e desaparecem mais depressa que as formas que ligavam primitivamenteentre si. 197. J vimos, com efeito, que todas as formas numericamente fracas correm mais riscode ser exterminadas do que as que compreendem numerosos indivduos; ora, neste casoparticular, a forma intermediria est essencialmente exposta s invases das formasmuito prximas que a circundam de todos os lados. H, alm disso, uma consideraomuito mais importante: que, enquanto se executam as modificaes que, pensamos ns,devem aperfeioar duas variedades e convert-las em duas espcies distintas, as duasvariedades que so, numericamente falando, as mais fortes e que ocupam um habitat maisextenso, tm grandes vantagens sobre a variedade intermediria que existe em pequenonmero numa estreita zona intermediria. Com efeito, as formas que compreendemnumerosos indivduos tm mais probabilidade do que as formas menos numerosas deapresentar, num tempo dado, mais variaes aco da seleco natural. Porconsequncia, as formas mais comuns tendem, na luta pela existncia, a vencer e asuplantar as formas menos comuns, porque estas ltimas modificam-se e aperfeioam-semais lentamente. em virtude deste princpio, julgo eu, que as espcies comuns em cadapas, como vimos no segundo captulo, apresentam, em mdia, um maior nmero devariedades bem definidas do que as espcies mais raras. Para bem fazer compreender aminha opinio, suponhamos trs variedades de carneiros, uma adaptada a uma vastaregio montanhosa, a segunda habitando um terreno comparativamente restrito eacidentado, a terceira ocupando as plancies extensas que se encontram na base dasmontanhas. Suponhamos, alm disso, que os habitantes destas trs regies empregam milcuidados e inteligncia para melhorar as raas pela seleco; as probabilidades de bomxito so, neste caso, todas em favor dos grandes proprietrios da montanha ou daplancie e devem chegar a melhorar os seus animais muito mais prontamente que ospequenos proprietrios da regio intermdia mais restrita. Por conseguinte, as melhoresraas, da montanha e da plancie no tardaro a suplantar a raa intermediria menosperfeita, e as duas raas, que eram na origem numericamente mais fortes, encontrar-se-oem contacto imediato, tendo a variedade desaparecido diante delas. 198. Para resumir, creio que as espcies chegam a ser assaz bem definidas e a noapresentar, em momento algum, um caso inextricvel de formas intermedirias.1 Porque as novas variedades se formam muito lentamente. A variao, com efeito,segue uma marcha muito lenta e a seleco natural nada pode, at que se apresentemdiferenas ou variaes individuais favorveis, e at que se encontre, na economia naturalda regio, um lugar que melhor possam preencher alguns dos seus habitantesmodificados. Ora, estes novos lugares produzem-se apenas em virtude de mudanasclimatricas muito lentas, ou depois da emigrao acidental de novos habitantes, ou talvez,e numa escala maior, porque, modificando-se lentamente alguns dos antigos habitantes,as antigas e as novas formas assim produzidas actuam e reagem umas sobre as outras.Resulta disto que, em todas as regies e em todas as pocas, devemos encontrar apenaspoucas espcies apresentando ligeiras modificaes, permanentes at um certo ponto;ora, este certamente o caso.2 Porque as superfcies hoje contnuas, devem ter uma poca comparativamenterecente, existindo como partes isoladas sobre as quais muitas formas, maisparticularmente entre as classes errantes e aquelas que se copulam para cada ninhada,puderam tornar-se assaz distintas para ser consideradas como espcies representativas.Neste caso, as variedades intermedirias que ligam as espcies representativas origemcomum deviam algumas vezes existir em cada uma destas estaes isoladas; mas estascadeias foram exterminadas pela seleco natural, de tal maneira que se no encontrammais no estado vivo.3 Logo que duas variedades ou mais se formaram em diferentes partes de umasuperfcie estritamente contnua, provvel que as variedades intermedirias seformassem ao mesmo tempo nas zonas intermedirias; mas a durao destas espciesdeve ser de ordinrio muito curta. Estas variedades intermedirias, com efeito, pelasrazes que j demos (razes tiradas principalmente do que ns sabemos sobre adistribuio actual de espcies muito prximas, ou espcies representativas assim como adas variedades reconhecidas), existem nas zonas intermedirias em menor nmero do queas variedades que elas ligam entre si. Esta nica causa bastaria para expor as variedadesintermedirias a um extermnio acidental; mas , alm disso, quase certo que devemdesaparecer ante as formas que ligam medida que a aco da seleco natural se fazsentir mais; as formas extremas, com efeito, compreendendo um maior nmero deindivduos, apresentam em mdia mais variaes e so, por consequncia, mais sensveis aco da seleco natural, e mais dispostas a um melhoramento ulterior. 199. Enfim, considerando agora no um tempo dado, mas o tempo tomado no seu todo,deviam certamente existir, se a minha teoria fundada, inumerveis variedadesintermedirias ligando intimamente umas s outras as espcies de um mesmo grupo; masa marcha nica da seleco natural, como temos feito tantas vezes lembrar, tendeconstantemente a eliminar as formas parentes e os fuzis intermedirios. Poderiaencontrar-se a prova da sua existncia passada apenas nos restos fsseis que, comotentaremos demonstr-lo no captulo subsequente, apenas se conservam de uma maneiraextremamente imperfeita e intermitente. Da origem e das transies dos seres organizados tendo uma conformao ehbitos particularesOs adversrios das ideias que proponho tm algumas vezes perguntado comosucede, por exemplo, que um animal carnvoro terrestre possa transformar-se num animaltendo hbitos aquticos; visto que como poderia ter subsistido este animal durante oestado de transio? Seria fcil demonstrar que existem hoje animais carnvoros queapresentam todos os graus intermedirios entre usos verdadeiramente terrestres e usosverdadeiramente aquticos; ora, estando cada um deles submetido luta pela existncia,precisa necessariamente de estar bem adaptado ao lugar que ocupa na natureza. Assim, aMustela vison da Amrica do Norte tem os ps palmados e parece-se com a lontra pelapele, pelas patas curtas e pela forma da cauda. Durante o Estio, este animal nutre-se depeixes e mergulha para a se sustentar; mas, durante o longo Inverno das regiessetentrionais, abandona as guas congeladas e, como as outras doninhas, nutre-se deratos e animais terrestres. Seria muito mais difcil de responder se houvesse escolhido umoutro caso e se tivessem perguntado, por exemplo, como explicar que um quadrpedeinsectvoro se possa transformar num morcego voante. Creio, contudo, que semelhantesobjeces no tm grande valor.Nesta ocasio, como em muitas outras, conheo toda a importncia que haveria emexpor todos os exemplos admirveis que colhi sobre os hbitos e conformaes detransio entre estas espcies vizinhas, assim como sobre a diversificao de hbitos,constantes ou acidentais, que se observam numa mesma espcie. No precisaria de nadamenos que de uma longa lista de factos semelhantes para minorar a dificuldade queapresenta a soluo de casos anlogos aos do morcego. 200. Tomemos a famlia dos esquilos; observamos nela uma gradao insensvel, desdeos animais cuja cauda apenas ligeiramente achatada, e outros, assim como o fazobservar sir J. Richardson, cuja parte posterior do corpo apenas ligeiramente dilatada,com a pele dos flancos um pouco desenvolvida, at aos que se chamam os Esquilosvolantes. Estes ltimos tm os membros e mesmo a raiz da cauda unidos por uma largamembrana que lhes serve de pra-quedas e lhes permite transpor, cortando o ar, grandesdistncias de uma rvore a outra. No podemos duvidar que cada uma destasconformaes no seja til a cada espcie de esquilo no seu habitat, ora permitindo-lheescapar s aves ou aos animais carniceiros e procurar mais rapidamente a nutrio, orasobretudo diminuindo o perigo das quedas. Mas no resulta daqui que a conformao decada esquilo seja absolutamente a melhor que se pode conceber em todas as condiesnaturais. Suponhamos, por exemplo, que o clima e a vegetao vm a mudar, que tenhahavido emigrao de outros roedores ou de outros animais ferozes, ou que antigasespcies destas ltimas se modificaram, a analogia conduz-nos a crer que os esquilos, oualguns pelo menos, diminuiriam em nmero ou desapareceriam, a no ser que se nomodificassem e se no aperfeioassem para evitar esta nova dificuldade da sua existncia.No vejo pois dificuldade alguma, sobretudo nas condies de existncia em via dealterao, conservao contnua de indivduos tendo a membrana dos flancos sempremais desenvolvida, sendo til toda a modificao, multiplicando-se cada uma at que,graas aco acumuladora da seleco natural, um perfeito esquilo volante sejaproduzido.Consideremos de momento o Galeopiteco ou lmur volante, que classificavamoutrora entre os morcegos, mas que se coloca hoje entre os insectvoros. Este animal temuma membrana lateral muito larga, que parte do ngulo do maxilar e se estende at cauda, envolvendo os membros e os dedos alongados; esta membrana provida de ummsculo extensor. Posto que qualquer indivduo adaptado a deslizar no ar no ligueactualmente o galeopiteco aos outros insectvoros, pode, contudo, supor-se que estes fuzisexistiram outrora e que cada um deles se desenvolveu da mesma forma que os esquilosvolantes menos perfeitos, apresentando cada grau de conformao uma certa utilidadepara o seu possuidor. No vejo to-pouco dificuldade insupervel para acreditar, almdisso, que os dedos e o antebrao do galeopiteco, ligados pela membrana, possam serconsideravelmente alongados pela seleco natural, modificaes que, no ponto de vistados rgos do voo, converteriam este animal num morcego. Vemos talvez, entre certosmorcegos, cuja membrana da asa se estende do vrtice da espdua cauda, cobrindo aspatas posteriores, os vestgios de um aparelho primitivamente adaptado a deslizar no ar,mais do que ao voo propriamente dito. 201. Se uma dezena de gneros tivesse desaparecido, quem ousaria suspeitar queexistiram aves cujas asas lhes serviam apenas de ps para bater a gua, como o ganso deasas curtas (Micropterus dEyton); de barbatanas na gua e de patas anteriores na terracomo no pinguim; de velas no avestruz, e de algum uso funcional no aptrix? Contudo, aconformao de cada uma destas aves lhes excelente nas condies de existncia emque se encontra colocada, porque cada uma deve lutar para viver, mas no necessariamente a melhor que se possa conceber em todas as condies possveis. Noprecisaria concluir das observaes que precedem que algum dos graus de conformaode asas que aqui so indicadas, e que todas talvez resultem da falta do uso, deve indicar amarcha natural segundo a qual as aves terminaram por adquirir a perfeio do voo; masestas observaes servem pelo menos para demonstrar a diversidade possvel nos meiosde transio.Se se tiver em considerao que certos membros das classes aquticas, como oscrustceos e os moluscos, so adaptados vida terrestre; que existem aves e mamferosvolantes, insectos volantes de todos os tipos imaginveis; que houve antigamente rpteisvolantes, no repugna conceber que os peixes volantes, que podem actualmente lanar-seno ar e percorrer distncias considerveis elevando-se e sustentando-se por meio dassuas barbatanas trementes, tivessem podido modificar-se de maneira a tornar-se animaisperfeitamente alados. Se assim fosse, quem imaginaria que, num estado de transioanterior, estes animais habitavam o Oceano e se serviam de seus rgos de voonascentes, tanto como o podemos saber, com o nico fim de escapar voracidade dosoutros peixes?Quando vemos uma conformao absolutamente perfeita e apropriada a um hbitoparticular, tal como a adaptao das asas da ave para o voo, preciso que nos lembremosque os animais apresentando as primeiras conformaes graduais e transitrias deviamraramente sobreviver at nossa poca, porque teriam de desaparecer diante dos seussucessores que a seleco natural tornou gradualmente mais perfeitos. Podemos concluir,alm disso, que os estados transitrios entre as conformaes apropriadas a hbitos deexistncia muito diferentes deviam raramente, num antigo perodo, desenvolver-se emgrande nmero e em muitas formas subordinadas. Assim, para tornar ao nosso exemploimaginrio do peixe volante, no parece provvel que os peixes capazes de se elevar atao verdadeiro voo revestissem muitas formas diferentes, aptas a apanhar, de diversasmaneiras, presas de diversa natureza sobre a terra e sobre a gua, antes que os rgosdo voo tivessem atingido um grau de perfeio assaz elevado para lhes assegurar, na lutapela existncia, uma vantagem decisiva sobre outros animais. A probabilidade dedescobrir, no estado fssil, as espcies representantes das diferentes transies deconformao, pois menor, porque existiram em menor nmero que as espcies tendouma conformao completamente desenvolvida. 202. Citarei de momento dois ou trs exemplos de diversificaes e de mudanas dehbitos entre indivduos de uma mesma espcie. Num e noutro caso, a seleco naturalpoderia facilmente adaptar a conformao do animal aos seus hbitos modificados ouexclusivamente a um deles somente. Contudo, difcil determinar (isto, porm,importa-nos pouco), se os hbitos se transformam ordinariamente primeiro, modificando-sea conformao em seguida, ou se ligeiras modificaes de conformao trazem umamudana de hbitos; provvel que estas duas modificaes se apresentem algumasvezes simultaneamente. Como exemplo de alteraes de hbitos, basta assinalarnumerosos insectos britnicos que se nutrem hoje de plantas exticas, ou exclusivamentede substncias artificiais. Poder-se-iam citar inumerveis casos de modificaes dehbitos; algumas vezes observei, na Amrica Meridional, um papa-moscas (Saurophagussulphuratus) pousar em um ponto, depois arremessar-se para um outro, como o faria umgavio; depois, noutros momentos, ficar imvel beira da gua para a se precipitar procura de peixe, como o faria um gavio-pescador. Pode ver-se no nosso pas o grandemelharuco (Parus maior) trepar aos ramos como um pica-pau; algumas vezes, como apega-parda, mata as avezinhas dando-lhes golpes na cabea, como tive ocasio deobservar, e mais frequentemente ainda ouvi martelar as sementes do teixo sobre um ramoe quebr-las como o faria a citela. Hearne viu, na Amrica do Norte, o urso negro nadardurante horas, a grande goela aberta, e apanhar assim os insectos na gua, da mesmaforma como o faria uma baleia. Como vemos algumas vezes indivduos ter hbitosdiferentes dos prprios da sua espcie e s outras espcies do mesmo gnero, pareceriaque estes indivduos deviam tornar acidentalmente ao ponto de partida de novas espcies,tendo hbitos anormais, e cuja conformao se afastaria mais ou menos da origem tipo. Anatureza oferece casos semelhantes. Pode citar-se um caso de adaptao mais admirveldo que aquele da conformao do picano, para subir aos troncos das rvores e paraapanhar os insectos nas fendas da cortia? H, contudo, na Amrica Setentrional picanosque se nutrem quase exclusivamente de frutos, e outros que, devido s asas alongadas,podem caar os insectos no voo. Nas plancies do Prata, onde no rebenta uma nicarvore, encontra-se uma espcie de picano (Colaptes campestris) tendo dois dedosadiante e dois atrs, a lngua longa e afilada, as penas caudais pontiagudas, bastantergidas para sustentar a ave na posio vertical, mas no inteiramente rgidas como nosverdadeiros picanos, e um forte bico direito, que todavia no to direito nem to fortecomo o dos verdadeiros picanos, mas que contudo bastante slido para furar a madeira.O Colaptes , pois, quase um picano em todas as partes essenciais da sua conformao.Mesmo os caracteres insignificantes, tais como a colorao, o som rouco da voz, o vooondulado, mostram claramente a sua prxima semelhana com o picano comum; posso,porm, afirmar, depois das minhas prprias observaes, que confirmam alis as deAzara, observador to desvelado e to exacto, que, em certos distritos considerveis, oColaptes no sobe s rvores e faz o ninho nos buracos que cava na terra. Contudo, comoo verificou Hudson, este mesmo picano, em outros distritos, frequenta as rvores e cavaburacos no tronco para a fazer o ninho. Como outro exemplo de hbitos variados destegnero, posso juntar que de Saussurre descreveu um Colaptes do Mxico que cava 203. buracos na madeira dura para a depositar uma proviso de glandes. 204. O alcatraz uma das aves marinhas mais areas que se conhecem; todavia, nasbaas tranquilas da Terra do Fogo, poder-se-ia certamente tomar o Puflinuria Brrardi porum colimbo ou um pinguim, para observar os seus hbitos gerais, a sua facilidadeextraordinria para mergulhar, a sua maneira de nadar e de voar, quando se pode decidir afaz-lo; contudo, esta ave essencialmente um alcatraz, mas algumas partes da suaorganizao foram profundamente modificadas para as adaptar aos novos hbitos,enquanto que a conformao do picano do Prata apenas muito pouco modificada. Asobservaes mais minuciosas, feitas sobre o cadver de uma calhandra-marinha (melro dagua), jamais deixariam suspeitar os seus hbitos aquticos; contudo, esta ave, quepertence famlia dos melros, encontra apenas a sua subsistncia mergulhando, eserve-se das asas debaixo da gua e prende com as patas as pedras do fundo. Todos osmembros da grande ordem dos himenpteros so terrestres, excepo do gneroproctotrupes, de que sir John Lubbock descobriu os hbitos aquticos. Este insecto entramuitas vezes na gua ajudando-se no com as patas, mas com as asas e pode a ficarquatro horas sem tornar superfcie; no parece, todavia, apresentar modificao algumade conformao em relao com os seus hbitos anormais. 205. Aqueles que crem que cada ser foi criado tal como hoje devem sentir por vezesuma certa admirao quando encontram um animal que tem hbitos e conformao queno concordam, Os ps palmados do ganso e do pato so claramente conformados para anatao. H, contudo, nas regies elevadas gansos com ps palmados, que jamais seaproximam da gua; s Audubon viu a fragata cujos quatro dedos so palmados,colocar-se sobre a superfcie do Oceano. Por outra parte, os colimbos e as gaivotas, aveseminentemente aquticas, tm como palmouras apenas uma ligeira membrana prendendoos dedos. No parece evidente que os longos dedos desprovidos de membranas daspernaltas so feitos para andar nos pntanos e sobre os vegetais flutuantes? Agaivota-marreco e o codornizo pertencem a esta ordem; contudo, a primeira destas aves quase to aqutica como a gaivota, e a segunda tambm quase terrestre como acodorniz ou a perdiz. Nestes casos, e poderiam citar-se muitos outros, os hbitos sofremalterao sem que a conformao seja modificada de maneira correspondente. Poder-se-iadizer que o p palmado do ganso das altas regies se tornou quase rudimentar quanto ssuas funes, mas no quanto conformao. Na fragata, uma forte chanfradura damembrana interdigital indica um princpio de alterao na conformao.Quem acredita nos actos numerosos e separados da criao, pode dizer que, noscasos desta natureza, aprouve ao Criador substituir um indivduo pertencendo a um tipopor um outro pertencendo a um outro tipo, o que me parece ser o enunciado do mesmofacto numa forma aperfeioada. Quem, pelo contrrio, cr na luta pela existncia ou noprincpio da seleco natural, reconhece que cada ser organizado tenta constantementemultiplicar-se em nmero; sabe-se, alm disso, que se um ser varia por pouco que sejanos hbitos e na conformao, e obtm assim uma vantagem sobre qualquer outrohabitante da mesma localidade, se apodera do lugar deste ltimo, por mais diferente queseja do que ele ocupava primeiramente. Tambm se no experimenta surpresa algumavendo gansos e fragatas com os ps palmados, posto que estas aves habitem a terra e secoloquem raramente sobre a gua; codornizes de dedos alongados vivendo nos pradosem lugar de viver nas lagoas; picanos habitando lugares desprovidos de rvores; e, enfim,melros ou himenpteros mergulhadores e alcatrazes tendo os costumes dos pinguins. 206. rgos muito perfeitos e muito complexosParece absurdo ou impossvel, eu o reconheo, supor que a seleco naturalpudesse formar a viso com todas as inimitveis disposies que permitem ajustar o foco adiversas distncias, admitir uma quantidade varivel de luz e corrigir as aberraesesfricas e cromticas. Quando se afirmou pela primeira vez que o Sol imvel e que aTerra gira em torno dele, o senso comum da humanidade declarou falsa a doutrina; massabe-se que o velho ditado: Vox populi, vox Dei, no se admite em matria cientifica. Arazo diznos que se, como certamente o caso, se pode demonstrar que existemnumerosas gradaes entre um olho simples e imperfeito e um olho complexo e perfeito,sendo cada uma destas gradaes vantajosa ao ser que a possui; que se, alm disso, oolho varia algumas vezes e que estas variaes so transmissveis por hereditariedade, oque igualmente o caso; que se, enfim, estas variaes so teis a um animal nascondies variveis da sua existncia, a dificuldade de admitir que um olho complexo eperfeito possa ser produzido pela seleco natural, posto que insupervel para a nossaimaginao, em nada contradiz a nossa teoria. No temos mais de nos ocupar em sabercomo um nervo pde tornar-se sensvel aco da luz, como no temos de nos ocupar aprocurar a origem da vida dele; todavia, como existem certos organismos inferioressensveis luz, se bem que se no possa descobrir entre eles vestgio algum de nervao,no parece impossvel que certos elementos do sarcode, de que so formados em grandeparte, possam agregar-se e desenvolver-se em nervos dotados desta sensibilidadeespecial. exclusivamente na linha directa dos ascendentes que devemos procurar asgradaes que tm trazido os aperfeioamentos de um rgo numa espcie qualquer. Masisto quase impossvel, e somos forados a dirigir-nos a outras espcies e a outrosgneros do mesmo grupo, isto , aos descendentes colaterais da mesma origem, a fim dever quais so as gradaes possveis nestes casos em que, por casualidade, algumasdestas gradaes fossem transmitidas com poucas modificaes. Alm disso, o estado deum mesmo rgo em classes diferentes pode incidentalmente lanar alguma luz sobre osgraus que o levaram perfeio.O rgo mais simples a que se possa dar o nome de olho, consiste em um nervoptico, cercado de clulas pigmentares, e coberto de uma membrana transparente, massem lente nem qualquer outro corpo refringente. Podemos, demais, segundo M. Jourdain,descer mais baixo ainda e encontrarmos ento grupos de clulas pigmentares parecendorepresentar o rgo da vista, mas estas clulas so desprovidas de nervos e repousamsimplesmente sobre tecidos sarcdicos. rgos to singelos, incapazes de qualquer visodistinta, podem servir apenas para distinguir a luz da obscuridade. Em algumas artrias,determinadas pequenas depresses na camada de pigmento que cerca o nervo so,segundo o autor que acabmos de citar, cheias de matrias gelatinosas transparentes,compostas de uma superfcie convexa semelhando a crnea dos animais superiores. M.Jourdain supe que esta superfcie, sem poder determinar a formao de uma imagem,serve para concentrar os raios luminosos e tornar a percepo mais fcil. Esta simples 207. concentrao da luz constitui o primeiro passo, e at mais importante, para a constituiode um olho verdadeiro, susceptvel de formar imagens; basta ento, com efeito, ajustar aextremidade nua do nervo ptico que, em alguns animais inferiores, profundamenteescondido no corpo e que, em alguns outros, se encontra mais perto da superfcie, a umadistncia determinada do aparelho de concentrao, para que a imagem se forme sobreesta extremidade. 208. Na grande classe dos articulados, encontramos, como ponto de partida, um nervoptico simplesmente coberto de um pigmento; este ltimo forma algumas vezes umaespcie de pupila, mas no h a nem lente nem vestgio de aparelho ptico. Sabe-seactualmente que as numerosas facetas que, pela sua reunio, constituem a crnea dosgrandes olhos compostos dos insectos, so verdadeiras lentes, e que os cones interioresencerram filamentos nervosos muito singularmente modificados. Estes rgos, contudo,so to diversificados nos articulados, que Mller havia estabelecido trs classes principaisde olhos compostos, compreendendo sete subdivises e uma quarta classe de olhossimples agregados.Se reflectirmos em todos estes factos, muito pouco destrinados aqui, relativos imensa variedade de conformao que se nota nos olhos dos animais inferiores; selembrarmos quanto as formas actualmente vivas so pouco numerosas comparativamentes que so extintas, j no difcil admitir que a seleco natural pudesse transformar umaparelho simples, consistindo num nervo ptico recoberto de um pigmento e composto deuma membrana transparente, em um instrumento ptico to perfeito como o possudo porqualquer indivduo que seja da classe dos articulados.Quem admitir este ponto no pode hesitar em ir mais longe, e se encontra, depois deter lido este volume, que a teoria da descendncia, com as modificaes que traz aseleco natural, explica um grande nmero de factos de outra maneira inexplicveis, deveadmitir que a seleco natural pde produzir uma conformao to perfeita como o olho deuma guia, ainda que, neste caso, no conheamos os diversos estados de transio.Tem-se objectado que, para que o olho possa modificar-se por completo, ficando uminstrumento perfeito, preciso que seja a sede de muitas alteraes simultneas, facto quese considera como irrealizvel pela seleco natural. Mas, como tentei demonstrlo naminha obra sobre as variaes dos animais domsticos, no necessrio supor que asmodificaes so simultneas, contanto que sejam muito ligeiras e muito graduais.Diferentes formas de modificaes podem tambm tender para um mesmo fim geral;assim, como o fez notar M. Wallace, se uma lente tem um foco muito curto ou muitolongo, esta diferena pode corrigir-se, quer por uma modificao da curva, quer por umamodificao da densidade; se a curva irregular e os raios no convergem para ummesmo ponto, todo o melhoramento na regularidade da curva constitui um progresso.Assim, nem a contraco da ris, nem os movimentos musculares do olho so essenciais viso; so unicamente progressos que podem juntar-se e aperfeioar-se em todas aspocas da construo do aparelho. Na mais alta diviso do reino animal, a dosvertebrados, podemos partir de um olho muito simples, que consiste, no branquistomo,apenas num pequeno saco transparente provido de um nervo e cheio de pigmento, masdesprovido de qualquer outro aparelho. Nos peixes e nos rpteis, como o faz notar Owen,a srie das gradaes das estruturas diptricas considervel. Um facto significativo, que mesmo no homem, segundo Virchow, que tem uma to grande autoridade, amagnfica lente cristalina se forma no embrio por uma acumulao de clulas epiteliaisalojadas numa ruga da pele que afecta a forma de um saco; o corpo vtreo formado porum tecido embrionrio subcutneo. Contudo, para se chegar a uma justa concepo 209. relativamente formao do olho com todos os seus maravilhosos caracteres, que noso todavia ainda absolutamente perfeitos, preciso que a razo vena a imaginao; ora,eu prprio muito tenho sentido quanto isto difcil, para ficar admirado de outros quehesitam em levar to longe o princpio da seleco natural. 210. A comparao entre o olho e o telescpio apresenta-se naturalmente ao esprito.Sabemos que este ltimo instrumento foi aperfeioado pelos esforos contnuos eprolongados das mais altas inteligncias humanas, e conclumos da naturalmente que oolho se formou por um processo anlogo. Ser esta concluso presunosa? Temos odireito de supor que o Criador pe em jogo foras inteligentes anlogas s do homem? Sequisermos comparar o olho a um instrumento ptico, devemos imaginar uma camadaespessa de um tecido transparente, embebido de lquido, em contacto com um nervosensvel luz; devemos supor tambm que as diferentes partes desta camada mudamconstantemente e lentamente de densidade, de forma a separar-se em zonas, tendo umaespessura e uma densidade diferentes, desigualmente distantes entre si e mudandogradualmente de forma superfcie. Devemos supor, alm disso, que uma forarepresentada pela seleco natural, ou a persistncia do mais apto, est constantementeespiando todas as ligeiras modificaes que afectem camadas transparentes, paraconservar todas as que, em diversas circunstncias, em todos os sentidos e em todos osgraus, tendem a permitir a perfeio de uma imagem mais distinta. Devemos supor quecada novo estado do instrumento se multiplica por milhes, para se conservar at que seproduza um melhor que substitua e anule os precedentes. Nos corpos vivos, a variaocausa as ligeiras modificaes, a reproduo multiplica-as quase ao infinito, e a seleconatural apodera-se de cada melhoramento com uma segurana infalvel. 211. Admitamos, enfim, que esta marcha se continua durante milhes de anos e se aplicadurante cada um a milhes de indivduos; poderemos ns admitir ento que se possa terformado assim um instrumento ptico vivo, to superior a um aparelho de vidro como asobras do Criador so superiores s do homem? Modos de transiesSe se chegasse a demonstrar que existe um rgo complexo que se no possaformar por uma srie de numerosas modificaes graduais e ligeiras, a minha teoria nopoderia certamente defender-se. Mas no posso encontrar caso algum semelhante. Semdvida, existem muitos rgos dos quais no conhecemos as transies sucessivas,sobretudo se examinarmos as espcies muito isoladas que, segundo a minha teoria, foramexpostas a uma grande extino. Ou ento, ainda, se tomarmos um rgo comum a todosos membros de uma classe, porque, neste ltimo caso, este rgo deve ter surgido numapoca remota desde a qual os numerosos membros desta classe se desenvolveram; ora,para descobrir as primeiras transies que sofreu este rgo, ser-nos-ia preciso examinaras formas muito antigas j de h muito extintas.No devemos concluir a impossibilidade da produo de um rgo por uma sriegradual de transies de uma natureza qualquer a no ser com extrema circunspeco.Poder-se-iam citar, nos animais inferiores, numerosos exemplos de um mesmo rgoexercendo ao mesmo tempo funes absolutamente distintas. Assim, na larva da libelinhae no caboz (Cobites) o canal digestivo respira, digere e excreta. A hidra pode ser voltadade dentro para fora, e ento a sua superfcie exterior digere e o estmago respira. Emcasos semelhantes, a seleco natural poderia, se da resultasse qualquer vantagem,especializar para uma nica funo todo ou parte de um rgo que at a tivessedesempenhado duas funes, e modificar tambm consideravelmente a sua natureza porgraus insensveis. Conhecem-se muitas plantas que produzem regularmente, ao mesmotempo, flores diferentemente constitudas; ora, se estas plantas no produzissem mais queflores de uma nica forma, uma mudana considervel se efectuaria no carcter daespcie com uma grande rapidez comparativa. Contudo, provvel que as duas espciesde flores produzidas pela mesma planta sejam, no princpio, diferenciadas uma da outrapor transies insensveis que se podem ainda observar em alguns casos. 212. Dois rgos distintos, ou o mesmo rgo sob duas formas diferentes, podemdesempenhar simultaneamente a mesma funo no mesmo indivduo, o que constitui ummodo muito importante de transio. Tomemos um exemplo: h peixes que respiram porguelras o ar dissolvido na gua, e que podem, ao mesmo tempo, absorver o ar livre pelabexiga natatria, estando este ltimo rgo cindido em divises fortemente vasculares emunido de um canal pneumtico para a introduo do ar. Tomemos um outro exemplo noreino vegetal; as plantas sobem de trs maneiras diferentes, contornando-se em espirais,segurando-se a um suporte por gavinhas, ou ainda pela emisso de radculas areas.Estes trs modos observam-se ordinariamente em grupos distintos, mas h algumasespcies em que se encontram dois destes modos, ou mesmo os trs combinados nomesmo indivduo. Em casos semelhantes um dos dois rgos poderia facilmentemodificar-se e aperfeioar-se de forma a desempenhar a funo por si s; ento, o outrorgo, depois de ter auxiliado o primeiro no decurso do seu aperfeioamento, poderia, porseu turno, modificarse para desempenhar uma funo distinta, ou atrofiar-secompletamente.O exemplo da bexiga natatria nos peixes excelente, visto que nos demonstraclaramente o facto importante de um rgo primitivamente construdo num ponto distinto,isto , para fazer flutuar o animal, poder converter-se em um rgo tendo uma funomuito diferente, isto , a respirao. A bexiga natatria funciona tambm, em certos peixes,como um acessrio do rgo do ouvido. Todos os fisilogos admitem que pelaconformao e pela posio, a bexiga natatria homloga ou idealmente semelhante aospulmes dos vertebrados superiores; est-se pois perfeitamente seguro em admitir que abexiga natatria foi realmente convertida em pulmo, isto , em um rgo exclusivamentedestinado respirao. 213. Pode concluir-se do que precede que todos os vertebrados providos de pulmesdescendem por gerao ordinria de algum antigo prottipo desconhecido, que possuaum aparelho flutuador ou, por outra, uma bexiga natatria. Podemos assim, e umaconcluso que tiro da interessante descrio que Owen fez destas partes, compreender ofacto estranho de que tudo o que bebemos e que comemos deve passar adiante do orifcioda traqueia, com risco de cair nos pulmes, apesar do notvel aparelho que permite aocluso da glote. Nos vertebrados superiores, as guelras desaparecem completamente;contudo, no embrio as fendas laterais do pescoo e a espcie de botoeira feita pelasartrias indicam ainda a posio primitiva. Mas pode conceber-se que a seleco naturaltenha podido adaptar as guelras, actualmente desaparecidas por completo, em algumasfunes muito diferentes; Landois, por exemplo, demonstrou que as asas dos insectostiveram por origem a traqueia; pois muito provvel que, nesta grande classe, os rgosque serviam outrora respirao se encontrem transformados em rgos servindo para ovoo. to importante ter bem presente no esprito a probabilidade da transformao deuma funo em outra, quando se consideram as transies dos rgos, que citarei umoutro exemplo. Nota-se nos cirrpedes pedunculados duas pregas membranosas, quechamei freios ovgeros e que, com o auxlio de uma secreo viscosa, servem para reteros ovos no saco at que sejam nascidos. Os cirrpedes no tm guelras, toda a superfciedo corpo, do saco e dos freios serve para a respirao. Os cirrpedes ssseis oubalandeos, por outra parte, no possuem freios ovgeros, os ovos ficam livres inteiramentena concha bem fechada; mas, numa posio correspondendo que ocupam os freios, tmmembranas muito extensas, com muitas pregas, comunicando livremente com as lacunascirculatrias do saco e do corpo, e que todos os naturalistas tm considerado comoguelras. Ora, creio que no pode contestar-se que os freios ovgeros numa famlia soestritamente homlogos com as guelras de uma outra famlia, porque se notam todas asgradaes entre os dois aparelhos. No deve pois duvidar-se que as duas pequenas rugasmembranosas que primitivamente serviam de freios ovgeros, auxiliando a respirao,foram gradualmente transformadas em guelras pela seleco natural, por um simplesaumento de tamanho e pela atrofia das glndulas glutinferas. Se todos os cirrpedespedunculados que tm experimentado uma extino muito mais considervel que oscirrpedes ssseis tivessem desaparecido completamente, quem poderia jamais imaginarque as guelras desta ltima famlia eram primitivamente rgos destinados a impedir queos ovos no fossem arrastados para fora do saco? 214. O professor Cope e alguns outros naturalistas dos Estados Unidos insistiram,recentemente, sobre um outro modo possvel de transio, consistindo numa aceleraoou atraso trazido poca da reproduo. Sabe-se actualmente que alguns animais estoaptos a reproduzir-se numa idade muito precoce, antes mesmo de terem adquirido os seuscaracteres completos; ora, se esta faculdade chegasse a tomar numa espcie umdesenvolvimento considervel, provvel que o estado adulto destes animais se perderiacedo ou tarde; neste caso, o carcter da espcie tenderia a modificar-se e a deteriorar-seconsideravelmente, sobretudo se a larva diferisse muito da forma adulta. Sabese ainda queh um nmero bastante grande de animais que, depois de terem atingido a idade adulta,continuam a mudar de carcter durante quase toda a vida. Nos mamferos, por exemplo, aidade modifica algumas vezes muito a forma do crnio, facto de que o Dr. Murie observouexemplos admirveis nas focas. Todos sabem que a complicao das ramificaes doscornos do veado aumenta muito com a idade, e que as penas de algumas aves sedesenvolvem muito quando envelhecem.O professor Cope afirma que os dentes de certos lagartos sofrem grandesmodificaes de forma quando avanam em idade; Fritz Mller observou que oscrustceos, depois de atingirem a idade adulta, podem revestir caracteres novos,afectando no somente partes insignificantes, mas mesmo partes muito importantes. Emtodos estes casos -e so numerosos -se a idade da reproduo fosse retardada, o carcterda espcie modificar-se-ia pelo menos no estado adulto; mesmo provvel que as fasesanteriores e precoces do desenvolvimento fossem, em alguns casos, precipitadas efinalmente perdidas. No posso emitir a opinio de que algumas espcies tenham sidovrias vezes, ou no tenham sido mesmo modificadas por este modo de transiocomparativamente sucedneo; mas, se o caso apresentado, provvel que asdiferenas entre os novos e os adultos e entre os adultos e os velhos fossemprimitivamente adquiridas por graus insensveis. Dificuldades especiais da teoria da seleco natural Apesar de que s com extrema reserva devamos admitir a 215. impossibilidade da formao de um rgo por uma srie de transies insensveis,apresentam-se, contudo, alguns casos seriamente difceis.Um dos mais srios o dos insectos neutros, cuja conformao muitas vezesdiferente por completo da dos machos ou das fmeas fecundas; tratarei este assunto noprximo captulo. Os rgos elctricos dos peixes oferecem ainda grandes dificuldades,porque impossvel conceber por que fases sucessivas estes maravilhosos aparelhospuderam desenvolver-se. Alm de que, no h lugar para surpresas, pois no sabemosmesmo para que servem. No gimnonoto e no torpedo constituem esses rgos, semdvida, um poderoso agente de defesa e talvez um meio de agarrar a presa; alm disso,na raia, que possui na cauda um rgo anlogo, manifesta-se pouca electricidade, mesmoquando o animal est muito irritado, assim como o observou Matteucci; manifesta-semesmo to pouco, que a custo se pode supor neste rgo as funes que acabamos deindicar. Demais, como o demonstrou o Dr. R. Mac Donnell, a raia, alm do rgopr-citado, possui um outro junto da cabea; no se sabe se este ltimo rgo elctrico,mas parece ser absolutamente anlogo bateria elctrica do torpedo. Admite-segeralmente que existe uma estreita analogia entre estes rgos e o msculo ordinrio,tanto na estrutura ntima e na distribuio dos nervos, como na aco que exercem sobreeles diversos reagentes. preciso, sobretudo, observar que uma descarga elctricaacompanha as contraces musculares, e, como afirma o Dr. Radcliffe, no estado derepouso o aparelho elctrico do torpedo parece ser a sede de uma descarga muitosemelhante que se efectua nos msculos e nos nervos no estado de inaco, e o choqueproduzido pela descarga sbita do aparelho do torpedo no seria de forma alguma umafora de natureza particular, mas simplesmente uma outra forma da descarga queacompanha a aco dos msculos e do nervo motor. No podemos actualmente ir maislonge com a explicao; mas, como nada sabemos relativamente aos hbitos econformao dos antepassados dos peixes elctricos existentes, seria extremamentetemerrio afirmar a impossibilidade de estes rgos poderem desenvolver-segradualmente em virtude de transies vantajosas.Uma dificuldade muito mais sria ainda parece embaraar-nos quando se tratadestes rgos; encontram-se, com efeito, numa dzia de espcies de peixes, dos quaisalguns so muito alongados pelas suas afinidades.Quando um mesmo rgo se encontra em muitos indivduos da mesma classe,sobretudo nos indivduos tendo hbitos de vida muito diferentes, podemos ordinariamenteatribuir este rgo a um antepassado comum que o transmitisse por hereditariedade aosdescendentes; podemos, alm disso, atribuir a sua falta, em alguns indivduos da mesmaclasse, a uma desapario provinda do no uso ou da aco da seleco natural. De talmaneira que, se os rgos provinham por hereditariedade de algum remoto antepassado,poderamos atender a que todos os peixes elctricos seriam muito particularmente aliadosuns aos outros; mas tal no certamente o caso. Demais, a geologia no nos permitepensar que a maior parte dos peixes possuam outrora rgos elctricos que osdescendentes modificados hoje perderam. Todavia, se estudarmos este assunto de maisperto, compreendemos que os rgos elctricos ocupam diferentes partes do corpo de 216. alguns peixes que os possuem; que a conformao destes rgos difere com relao aoarranjo das placas, e, segundo Pacini, com relao aos meios empregados para excitar aelectricidade, e, enfim, que estes rgos esto providos de nervos vindos de diferentespartes do corpo, e talvez esta a diferena mais importante de todas. No se podem, pois,considerar estes rgos elctricos como homlogos, quando muito podem considerar-secomo anlogos com relao funo. No h, pois, razo alguma para supor queprovenham por hereditariedade de um antepassado comum; se se admitisse, com efeito,esta comunho de origem, estes rgos deveriam assemelhar-se exactamente a todos osrespeitos. Assim se desvanece a dificuldade inerente ao facto de um rgo, aparentementeo mesmo, se encontrar em algumas espcies afastadas umas das outras; fica-nos,contudo, para explicar esta outra dificuldade, menor certamente, mas considervel ainda:por que srie de transies passaram estes rgos em cada grupo separado de peixes? 217. Os rgos luminosos que se encontram em alguns insectos pertencendo a famliasmuito diferentes e que esto situados em diversas partes do corpo, oferecem, no nossoestado de ignorncia actual, uma dificuldade absolutamente igual dos rgos elctricos.Poder-se-iam citar outros casos anlogos; nas plantas, por exemplo, a disposio curiosapor meio da qual uma massa de plen sustentada por um pednculo com uma glndulaadesiva, evidentemente a mesma nas orqudeas e nas asclpias -gneros afastadostanto quanto possvel das plantas com flores; -mas, aqui ainda, as partes no sohomlogas. Em todos os casos em que os seres, muito afastados entre si na escala daorganizao, so providos de rgos particulares e anlogos, nota-se que, posto que oaspecto geral e a funo destes rgos possam ser os mesmos, podem, contudo,discernir-se sempre entre eles algumas diferenas fundamentais. Por exemplo, os olhosdos cefalpodes e dos vertebrados parecem absolutamente semelhantes; ora, nos gruposto afastados uns dos outros, nenhuma parte desta semelhana pode ser atribuda transmisso por hereditariedade de um carcter possudo por um antepassado comum. M.Mivart apresentou este caso como oferecendo uma dificuldade especial, mas -meimpossvel descobrir o valor do seu argumento. Um rgo destinado viso devecompor-se de tecidos transparentes e conter uma lente qualquer para permitir a formaode uma imagem no fundo de uma cmara escura. Alm desta semelhana superficial, noh analogia alguma real entre os olhos dos chocos e os dos vertebrados; contudo, podemconvencer-se, consultando a admirvel memria de Hensen a respeito dos olhos doscefalpodes. -me impossvel entrar aqui em particularidades; posso, contudo, indicaralguns pontos de diferena. O cristalino, nas sibas melhor organizadas, compe-se deduas partes colocadas uma atrs da outra e forma como que duas lentes que, juntamente,tm uma conformao e uma disposio muito diversas das dos vertebrados. A retina completamente dessemelhante; apresenta, com efeito, uma inverso real dos elementosconstitutivos e as membranas formando os invlucros do olho contm um grande gnglionervoso. As relaes dos msculos so to diferentes quanto possvel e o mesmo paraoutros pontos. Daqui resulta uma grande dificuldade em apreciar at que ponto convmempregar os mesmos termos na descrio dos olhos dos cefalpodes e dos vertebrados.Pode, diga-se de passagem, negar-se que, em cada um destes casos, o olho pudessedesenvolver-se pela seleco natural com ligeiras variaes sucessivas; mas, se se admitepara um, este sistema evidentemente possvel para outro, e pode-se, aceite este modode formao, deduzir por antecipao as diferenas fundamentais existindo na estruturados rgos visuais dos dois grupos. Da mesma forma que dois homens fazem algumasvezes a mesma inveno, independentemente um do outro, da mesma forma tambmparece que nos casos pr-citados, a seleco natural, actuando pelo bem de cada ser eaproveitando todas as variaes favorveis, produz rgos anlogos, pelo menos no quediz respeito funo, em seres organizados distintos que nada devem de analogia deconformao que neles se nota herana de um antepassado comum. 218. Fritz Mller seguiu com muito cuidado uma argumentao quase anloga para tirar asconcluses indicadas neste volume. Vrias famlias de crustceos compreendem algumasespcies providas de um aparelho respiratrio que lhes permite viver fora da gua. Emduas destas famlias muito prximas, que foram mais particularmente estudadas porMller, as espcies parecem-se, por todos os caracteres importantes, a saber: os rgosdos sentidos, o sistema circulatrio, a posio dos tufos do pelo que forram os seusestmagos complexos, enfim, toda a estrutura das guelras que lhes permite respirar nagua, at aos ganchos microscpicos que servem para as limpar. Poder-se-ia pois esperarque, em algumas espcies das duas famlias que vivem em terra, os aparelhos igualmenteimportantes da respirao area fossem semelhantes; mas porque motivo se encontradiferente este aparelho, destinado nestas espcies a um mesmo fim especial, enquanto osoutros rgos importantes so muito semelhantes ou mesmo idnticos? 219. Fritz Mller sustenta que esta semelhana em tantos pontos de conformao deve,segundo a teoria que defendo, explicar-se por uma transmisso hereditria que vai at umantepassado comum. Mas como a grande maioria das espcies que pertencem s duasfamlias pr-citadas, da mesma maneira que todos os outros crustceos, tm hbitosaquticos, extremamente improvvel que o antepassado comum fosse provido de umaparelho adaptado respirao area. Mller foi assim levado a examinar com cuidadoeste aparelho respiratrio nas espcies que dele so providas; viu que este aparelhodifere, em cada uma delas, em muitas relaes importantes, como, por exemplo, a posiodos orifcios, o modo de abrir e fechar, e algumas particularidades acessrias. Ora, no seexplicam estas diferenas, nem mesmo poderia esperar-se encontr-las, na hiptese decertas espcies pertencendo a famlias distintas serem pouco a pouco adaptadas a vivercada vez mais fora da gua e a respirar o ar livre. Estas espcies, com efeito, pertencendoa famlias diversas, deveriam diferir at certo ponto; ora, a sua variabilidade no devia serexactamente a mesma, em virtude do princpio de que a natureza de cada variaodepende de dois factores, isto , da natureza do organismo e das condies ambientes. Aseleco natural, por consequncia, deveria actuar sobre elementos ou variaes denatureza diferente, a fim de chegar a um mesmo resultado funcional, e as conformaesassim adquiridas devem necessariamente diferir. Na hiptese de criaes independentes,este caso fica ininteligvel completamente. A srie de raciocnios que precedem, parece tertido uma grande influncia para determinar Fritz a adoptar as ideias que tenhodesenvolvido na presente obra.Um outro zologo distinto, o falecido professor Claparde, chegou ao mesmoresultado raciocinando da mesma forma. Demonstra que certos caros parasitas,pertencendo a subfamlias e a famlias distintas, so providos de rgos que lhes servempara se segurar aos plos. Estes rgos devem desenvolver-se de uma maneiraindependente e no podem ser transmitidos por um antepassado comum; nos diversosgrupos, estes rgos so formados por uma modificao das patas anteriores, das patasposteriores, das mandbulas ou lbios, e dos apndices da face inferior da parte posteriordo corpo. 220. Nos diferentes exemplos que acabmos de discutir, vimos que, nos seres mais oumenos afastados uns dos outros, um mesmo fim atingido e uma mesma funodesempenhada por rgos assaz semelhantes em aparncia, mas que o no so narealidade. Demais, regra geral na natureza, que o mesmo fim seja atingido pelos meiosmais diversos, mesmo nos seres que tm entre si estreitas afinidades. Que diferena deconstruo no h, com efeito, entre a asa emplumada de uma ave e a asa membranosado morcego; e, mais ainda, entre as quatro asas da borboleta, as duas asas da mosca, asduas asas e os dois litros de um coleptero? As conchas bivalves so construdas paraabrir e fechar; mas que variedade de modelos se notam na conformao da charneira,desde a longa srie de dentes que se encaixam regularmente uns nos outros na ncula,at ao simples ligamento da amijoa? A disseminao das sementes dos vegetais favorecida pela pequenez, pela converso das cpsulas num ligeiro invlucro em forma debalo, pela situao ao centro de uma polpa carnuda composta das mais diversas partes,tornada nutritiva, revestida de vistosas cores de maneira a chamar a ateno das aves queas devoram, pela presena de ganchos, de arpus de vrias formas, de barbasdenteladas, por meio dos quais aderem aos plos dos animais; pela existncia de asas ede tufos to variados pela forma como elegantes pela estrutura, que fazem o brinquedo damenor corrente de ar.A realizao do mesmo fim pelos meios mais diversos to importante, que citareiainda um exemplo. Alguns autores sustentam que, se os seres organizados foram talhadosde tantas maneiras diferentes, por simples amor da variedade, como os brinquedos numbazar; mas uma tal ideia da natureza inadmissvel. Nas plantas que tm os sexosseparados assim como naquelas que, se bem que hermafroditas, no podem fazer cairespontaneamente o plen sobre os estigmas, necessrio um concurso acessrio paraque a fecundao seja possvel. Numas, o plen em grnulos muito leves e no aderentes levado pelo vento, e lanado assim sobre o estigma por mero acaso; o modo maissimples que se pode conceber. H um outro bem diferente, ainda que seja igualmentesimples: consiste em que uma flor simtrica segrega algumas gotas de nctar procuradopelos insectos, que, introduzindo-se na corola para o recolher, transportam o plen dasanteras aos estigmas.Partindo deste estado to simples, encontramos um nmero infinito de combinaestendo todas um mesmo fim, realizado de uma maneira anloga, mas arrastandomodificaes em todas as partes da flor. Logo que o nctar est armazenado emreceptculos afectando as formas mais diversas, os estames e os pistilos so tambmmodificados de diferentes maneiras, algumas vezes so dispostos em laos, outras vezestambm so susceptveis de movimentos determinados por irritabilidade e elasticidade.Partindo da, poderemos passar em revista quantidades inumerveis de conformaespara chegar, enfim, a um caso extraordinrio de adaptao que o Dr. Crger recentementedescreveu nos coriandros. Uma parte do lbio inferior (labelluin) desta orqudea escavado de maneira a formar uma grande tina onde caem continuamente gotas de guaquase pura segregada por duas pontas colocadas por cima; logo que a tina estsemicheia, a gua escoa-se por um canal lateral. A base do labellum que se encontra por 221. cima da tina por si mesma escavada e forma uma espcie do aposento provido de duasentradas laterais; neste aposento encontram-se excrescncias carnudas muito curiosas. Ohomem mais engenhoso no poder imaginar para que servem todos estes aparelhos seno for testemunha do que se passa. O Dr. Cruger notou que muitos zangos visitam asflores desta orqudea no para sugar o nectar, mas para roer as salincias carnudas queencerra a cmara colocada por cima da tina; fazendo isto, os zngos lanam-sefrequentemente uns aos outros na gua, banham as asas e, no podendo fugir, soobrigados a passar pelo canal lateral que serve de despejo do tanque. O Dr. Cruger viuuma procisso contnua de zngos saindo assim do seu banho involuntrio. A passagem estreita e coberta pela coluna de tal maneira que o insecto, abrindo a um caminho, roaa princpio o dorso contra o estigma viscoso e em seguida contra as glndulas igualmenteviscosas das massas de plen. Estas aderem ao dorso do primeiro zngo que atravessoua passagem e este as leva. 222. O Dr. Crger enviou-me em lcool uma flor contendo um zngo morto antes que sedesembaraasse completamente da passagem e no dorso do qual se v uma massa deplen. Quando o zngo assim carregado de plen foge para outra flor ou torna umasegunda vez mesma e que, impelido por seus camaradas, cai na gua e torna a sair pelapassagem, a massa de plen que leva sobre o lado acha-se necessariamente em contactocom o estigma viscoso, aderelhe e a flor assim fecundada. Compreendemos ento autilidade de todas as partes da flor, das pontas segregando a gua, da tina semicheia queimpede os zngos de fugir e os fora a introduzir-se no canal para sair e por isso mesmoa roar-se contra o plen e contra o estigma igualmente viscosos. A flor de uma outra orqudea muito prxima, o Cataseturiz, tem uma construoigualmente engenhosa, que corresponde ao mesmo fim, posto que seja muito diferente. Oszngos visitam esta flor como a do coriandro para lhe roer o labellum; tocam pois,inevitavelmente uma longa pea afilada, sensvel, que chamei antena. Esta, desde que lhetocam, faz vibrar uma certa membrana que se rompe imediatamente; esta ruptura fazmover uma mola que projecta o plen com a rapidez de uma flecha na direco do insectoao dorso do qual adere pela extremidade viscosa. O plen da flor masculina (porque, nestaorqudea, os sexos so separados) assim transportado flor feminina, onde se encontraem contacto com o estigma, bastante viscoso para quebrar certos fios elsticos; o estigmaretm o plen e assim fecundado. 223. Pode perguntar-se como, nestes casos precedentes e numa srie de outros, sechegam a explicar todos estes graus de complicao e estes meios to diversos para obtero mesmo resultado. Pode responder-se, sem dvida alguma, que, como j o fizemos notar,quando duas formas que diferem entre si em certo grau comeam a variar, a suavariabilidade no idntica e, por consequncia, os resultados obtidos pela seleconatural, ainda que tendam para o mesmo fim geral, no devem tambm ser idnticos. preciso lembrar igualmente que todos os organismos muito desenvolvidos sofreramnumerosas modificaes; ora, como cada conformao modificada tende a transmitir-sepor hereditariedade, raro que uma modificao desaparea completamente sem tersofrido novas alteraes. Daqui resulta que a conformao das diferentes partes de umaespcie, para qualquer uso que estas partes sirvam alm disso, representa a soma denumerosas alteraes hereditrias que a espcie tem sucessivamente experimentado,para adaptar-se a novos hbitos e a novas condies de existncia.Enfim, ainda que, em muitos casos, seja muito difcil fazer mesmo a menor conjecturasobre as transies sucessivas que trouxeram os rgos ao estado natural, estou contudoadmirado, pensando quanto mnima a proporo entre as formas vivas e conhecidas e asque so extintas e desconhecidas, de que seja to raro encontrar um rgo de que se nopossam indicar alguns estados de transio. certamente verdadeiro que se vemraramente aparecer num indivduo novos rgos que parecem ter sido criados com um fimespecial; mesmo o que demonstra o velho axioma de histria natural de que se temexagerado um pouco a significao: Natura non facit saltum. A maior parte dos naturalistasexperimentados admitem a verdade deste adgio; ou, para empregar as expresses deMlne Edwards, a natureza prdiga em variedades, mas avara em inovaes. Para quehaver, na hiptese das criaes, tantas variedades e to poucas novidades reais? Porque que todas as partes, todos os rgos de tantos seres independentes, criadas, como sesupe, separadamente para ocupar um lugar distinto na natureza, estiveram toordinariamente ligadas umas s outras por uma srie de gradaes? Porque no teriapassado a natureza sucedaneamente de uma conformao para outra? A teoria daseleco natural faz-nos compreender claramente porque no sucede assim; a seleconatural, com efeito, actua apenas aproveitando leves variaes sucessivas, no pode poisjamais dar saltos bruscos e considerveis, s pode avanar por graus insignificantes,lentos e seguros. 224. Aco da seleco natural sobre os rgos pouco importantes em aparnciaA seleco natural actuando somente pela vida e pela morte, pela persistncia domais apto e pela eliminao dos indivduos menos aperfeioados, experimentei algumasvezes grandes dificuldades para me explicar a origem ou a formao de partes poucoimportantes; as dificuldades so to grandes, neste caso, como quando se trata dosrgos mais perfeitos e mais complexos, porm so de uma natureza diferente.Em primeiro lugar, a nossa ignorncia to grande relativamente ao conjunto daeconomia orgnica de um ser qualquer, para que possamos dizer quais so asmodificaes importantes e quais as modificaes sem valor. Num captulo precedente,indiquei alguns caracteres insignificantes, tais como a lanugem dos frutos ou a cor dopericarpo, a cor da pele e dos plos dos quadrpedes, sobre os quais, em razo da suarelao com as diferenas constitucionais, ou em razo de determinarem os ataques decertos insectos, a seleco natural pde certamente exercer qualquer aco. A cauda dagirafa assemelha-se a um caa-moscas artificial; parece ento inacreditvel que este rgopudesse ser adaptado ao uso actual por uma srie de ligeiras modificaes que seriammelhor apropriadas a um fim to insignificante comoo de caar moscas. Devemos reflectir, contudo, antes de qualquer afirmao positivamesmo neste caso, porque sabemos que a existncia e a distribuio do gado silvestre ede outros animais na Amrica Meridional @dependem absolutamente da sua aptido pararesistir aos ataques dos insectos; de maneira que os indivduos que tm meios de sedefender destes pequenos inimigos podem ocupar novas pastagens e assegurar-se assimde grandes proveitos. No porque, com raras excepes, os grandes mamferos possamser realmente destrudos pelas moscas, mas so de tal maneira cansados e enfraquecidospelos ataques incessantes, que esto mais expostos s doenas e menos em estado deprocurar a nutrio em tempo de carestia, ou escapar aos animais ferozes. 225. Os rgos hoje insignificantes tm tido provavelmente, em alguns casos, uma altaimportncia para um remoto antepassado. Depois de se aperfeioarem lentamente emqualquer perodo anterior, estes rgos transmitem-se s espcies existentes quase nomesmo estado, apesar de lhes servirem hoje de muito pouco; no quer isto dizer que aseleco natural arrastasse todo o desvio improfcuo conformao delas. Poder-se-iatalvez explicar a presena habitual da cauda e os numerosos usos para que serve estergo em tantos animais terrestres cujos pulmes ou bexigas natatrias modificadasrevelam a origem aqutica, pelo papel importante que desempenha a cauda, como rgode locomoo em todos os animais aquticos. Uma cauda bem desenvolvida estandoformada num animal aqutico, pode ser em seguida modificada para diversos usos, comoapanha-moscas, como rgo prensil, como meio de se voltar, no co por exemplo, aindaque, nesta ltima relao, a importncia da cauda deve ser muito diminuta, visto que alebre, que quase no tem cauda, se volta ainda mais rapidamente que o co.Em segundo lugar, podemos facilmente enganar-nos atribuindo importncia a certoscaracteres e julgando que so devidos aco da seleco natural. No devemos perderde vista os efeitos que podem produzir a aco definida das mudanas nas condies deexistncia -as pretendidas variaes espontneas que parecem depender, num fraco grau,da natureza das condies ambientes -a tendncia ao regresso aos caracteres desde hmuito perdidos -as leis complexas do crescimento, tais como a correlao, acompensao, a presso que uma parte pode exercer sobre outra, etc. -e, enfim, aseleco sexual, que determina muitas vezes a formao de caracteres teis a um dossexos e em seguida a sua transmisso mais ou menos completa ao outro sexo para o qualno tm utilidade alguma. Todavia, as conformaes assim produzidas indirectamente,ainda que sem vantagens para a espcie, podem, depois, tornar-se teis suadescendncia modificada que se encontra em novas condies vitais ou que adquiriuoutros hbitos.Se no houvesse picanos verdes e no soubssemos que h muitas espcies depicanos de cor negra e malhada, teramos provavelmente pensado que a cor verde dopicano uma admirvel adaptao, destinada a dissimular aos seus inimigos esta ave toeminentemente florestal. Teramos, por consequncia, ligado muita importncia a estecarcter e teramo-lo atribudo seleco natural; ora, esta cor devida provavelmente seleco sexual. Uma palmeira trepadora do arquiplago malaio eleva-se ao longo dasrvores mais altas por meio de ganchos admiravelmente construdos e dispostos naextremidade dos ramos. Este aparelho presta, sem dvida, os maiores servios a estaplanta; mas, como podemos reconhecer ganchos quase semelhantes em muitas rvoresque no so trepadoras e estes ganchos, se necessrio julgar pela distribuio dasespcies espinhosas da frica e da Amrica Meridional, devem servir de defesa s rvorescontra os animais, da mesma forma os ganchos da palmeira podem ter sido desenvolvidosna origem com o fim defensivo, para se aperfeioarem depois e ser utilizados pela plantaquando sofreu novas modificaes e se tornou trepadora. Considera-se ordinariamente apele nua que cobre a cabea do abutre como uma adaptao directa que lhe permiteescavar incessantemente nas carnes em putrefaco; o facto possvel, mas esta 226. desnudao poderia ser devida tambm aco directa da matria ptrida. necessrio,contudo, no avanar por este terreno a no ser com uma extrema prudncia, porquesabe-se que o peru macho tem a cabea desnudada, e a sua nutrio muito diferente.Sustenta-se que as suturas do crnio, nos pequenos mamferos, so admirveisadaptaes que auxiliam o acto da parturio; no duvidoso que elas facilitam este acto,e mesmo so indispensveis. Mas, como as suturas existem tambm no crnio dasavezinhas e dos pequenos rpteis, que tm apenas de sair de um ovo quebrado, podemosconcluir que esta conformao uma consequncia das leis do crescimento e que foidepois utilizada na parturio dos animais superiores. 227. A nossa ignorncia profunda relativamente s causas das ligeiras variaes ou dasdiferenas individuais; nada seria melhor para nos fazer compreender as diferenas queexistem entre as raas dos animais domsticos nos diferentes pases, e, maisparticularmente, nos pases pouco civilizados onde tem havido apenas pouca selecometdica. Os animais domsticos dos selvagens, nos diferentes pases, tm muitas vezesde prover prpria subsistncia, e esto, at certo ponto, expostos aco da seleconatural; ora, os indivduos que tm constituies ligeiramente diferentes, poderiamprosperar mais em climas diversos. No gado silvestre, a susceptibilidade aos ataques dasmoscas est em relao com a cor: o mesmo sucede com a aco venenosa de certasplantas, de tal maneira que a prpria colorao se acha assim submetida aco daseleco natural. Alguns observadores esto convencidos que a humidade do clima afectao crescimento dos plos e que existe certa relao entre os plos e os chifres. As raasdas montanhas diferem sempre das raas das plancies; uma regio montanhosa deveexercer provavelmente determinada influncia sobre os membros posteriores porque tmum trabalho mais rude a desempenhar, e talvez mesmo tambm sobre a forma da bacia;por consequncia, em virtude da lei das variaes homlogas, os membros anteriores e acabea devem provavelmente ser afectados tambm. 228. A forma da bacia poderia tambm afectar, pela presso, a forma de algumas partes doanimalzinho no seio da me. A influncia das altas regies na respirao tende, comotemos boa razo para acreditar, a aumentar a capacidade do peito e a determinar, porcorrelao, outras alteraes. A falta de exerccio junta a uma abundante nutrio temprovavelmente, sobre todo o organismo, efeitos ainda mais importantes; isto, semdvida, como H. von Nathusius acaba de demonstrar recentemente, no seu excelentetratado, a causa principal das grandes modificaes que sofreram as raas porcinas. Massomos demasiado ignorantes para poder discutir a importncia relativa das causasconhecidas e desconhecidas da variao; tenho feito, pois, as notas que precedemunicamente para demonstrar que, se nos impossvel avaliar as diferenas caractersticasdas raas domsticas, ainda que se admita geralmente que estas raas derivamdirectamente da mesma origem ou de um muito pequeno nmero de origens, nodeveramos insistir muito sobre a nossa ignorncia quanto s causas precisas das ligeirasdiferenas que existem entre as verdadeiras espcies. At que ponto verdadeira a doutrina utilitria; como se adquire belezaAs observaes precedentes levam-me a dizer algumas palavras sobre o protestoque fizeram alguns naturalistas contra a doutrina utilitria, aps a qual cada particularidadede conformao se produziu para vantagem do seu possuidor. Sustentam que muitasconformaes foram criadas por simples amor da beleza, para encantar os olhos dohomem ou os do Criador (este ltimo ponto, contudo, est fora da discusso cientfica), oupor mero amor da variedade, ponto que j discutimos. Se estas doutrinas fossemfundadas, seriam absolutamente fatais minha teoria. Admito completamente que muitasconformaes j no tm hoje utilidade absoluta para o seu possuidor, e, talvez nuncafossem teis aos seus antepassados; mas isto no prova que estas conformaes tenhamtido unicamente por causa a beleza e a variedade. Sem dvida alguma, a aco definidada mudana das condies e as diversas causas de modificaes que indicmos tmproduzido em conjunto um efeito provavelmente muito grande, independentemente dasvantagens assim adquiridas. Mas, e esta uma considerao ainda mais importante, amaior parte do organismo de cada criatura vivente -lhe transmitido por herana; porconseguinte, ainda que decerto cada indivduo seja perfeitamente apropriado ao lugar queocupa na natureza, muitas conformaes no tm hoje relao bem directa e bem ntimacom as suas novas condies de existncia. Assim, difcil acreditar que os ps palmadosdo ganso que habita as regies elevadas, ou os da fragata, tenham uma utilidade muitoespecial para estas aves; no podemos acreditar que os ossos similares que se encontramno brao do macaco, na perna anterior do cavalo, na asa do morcego e na palheta da focatenham utilidade especial para estes animais. Podemos pois, com toda a segurana,atribuir estas conformaes hereditariedade. Mas, sem dvida alguma, os ps palmadosforam tambm teis ao antepassado do ganso terrestre e da fragata, que so hoje namaior parte aves aquticas. Podemos acreditar tambm que o antepassado da foca no 229. tinha uma palheta, mas um p com cinco dedos, prprio para prender ou para marchar;podemos talvez acreditar, alm disso, que os diversos ossos que entram na constituiodos membros do macaco, do cavalo e do morcego foram primitivamente desenvolvidos emvirtude do princpio da utilidade, e que provieram provavelmente da reduo de ossos maisnumerosos que se encontravam na barbatana de algum antepassado remoto, parecendoum peixe, antepassado de toda a classe. a custo possvel determinar que parte necessrio atribuir s diferentes causas de alteraes, tais como a aco definida dascondies ambientes, as pretendidas variaes espontneas e as leis complexas docrescimento; mas, depois de ter feito estas importantes reservas, podemos concluir quetoda a mincia de conformao em cada ser vivo ainda hoje, ou foi outrora, directa ouindirectamente til ao seu possuidor. Quanto opinio de que os seres organizadosreceberam a beleza para agradar ao homem-opinio subversiva de toda a minha teoria-farei, contudo, primeiramente notar que o sentido do belo depende evidentemente danatureza do esprito, independentemente de toda a qualidade real no objecto admirado, eque a Mela do belo no inata ou inaltervel. A prova desta assero, que os homensde diferentes raas admiram, nas mulheres, um tipo de beleza absolutamente diferente. Seos belos objectos fossem apenas criados para agradar ao homem, seria necessriodemonstrar que havia menos beleza sobre a Terra antes que o homem tivesse aparecidoem cena. As admirveis volutas e os cones da poca cocnia, os amonitas toelegantemente esculpidos, do perodo secundrio, foram criados para que o homempudesse, aps milhares de sculos mais tarde, admir-los nos seus museus? H poucosobjectos to admirveis como os delicados invlucros siliciosos das diatomceas; foram,pois, criados para que o homem possa examin-los e admir-los servindo-se dos maisfortes aumentos do microscpio? Neste ltimo caso, como em muitos outros, a belezadepende por completo da simetria de crescimento. Colocam-se as flores no nmero dasmais belas produes da natureza; mas tornaram-se brilhantes, e, por consequncia,belas, para fazer contraste com as folhas verdes, de forma que os insectos possamdistingui-las facilmente. Cheguei a esta concluso, porque encontrei, como regrainvarivel, que as flores fecundadas pelo vento, no tm jamais uma corola revestida debrilhantes cores. Diversas plantas produzem ordinariamente duas espcies de flores: umasabertas e com cores brilhantes de forma a atrair os insectos, outras fechadas, incolores,privadas de nctar, e que os insectos nunca visitam. Podamos concluir que, se os insectosse no tivessem desenvolvido superfcie da terra, as nossas plantas no estariamcobertas de flores admirveis e apenas teriam produzido as tristes flores que vemos nospinheiros, nos carvalhos, nas nogueiras, nos freixos, nas gramneas, nos espinafres, nasurtigas, que so todas fecundadas pela aco do vento. O mesmo raciocnio podeaplicar-se aos frutos; todos admitem que um morango ou uma cereja bem madura toagradvel vista como ao paladar; que os frutos vivamente coloridos do psilo e as bagasescarlates do azevinho so admirveis objectos. Mas esta beleza no tem outro fim queno seja atrair as aves e os insectos, para que devorando os frutos disseminem assementes; observei, com efeito, e no h excepo a esta regra, que as sementes sosempre assim disseminadas quando so envolvidas de um fruto qualquer (isto , quando 230. esto encerradas numa massa carnuda) com a condio de que este fruto tenha umacolorao brilhante ou que seja muito aparente porque branco ou negro. 231. Demais, admito de bom grado que um grande nmero de animais machos, tais comotodas as nossas aves mais magnficas, alguns rpteis, alguns mamferos, e uma srie deborboletas admiravelmente coloridas, adquiriram a beleza pela sua prpria beleza; masobteve-se este resultado pela seleco sexual, isto , porque as fmeas escolheramcontinuamente os mais belos machos; este embelezamento no teve, pois, por objecto oser agradvel ao homem. Poder-se-iam fazer as mesmas referncias relativamente aocanto das aves. Lcito nos concluir, de tudo o que precede, que uma grande parte doreino animal possui pouco mais ou menos o mesmo gosto para as belas cores e para amsica. Quando a fmea to brilhantemente colorida como o macho, o que raro nasaves e nas borboletas, isto parece resultar de que as cores adquiridas pela selecosexual foram transmitidas aos dois sexos em lugar de ser somente aos machos. Como que o sentimento da beleza, na forma mais simples, isto , a sensao de prazer particularque inspiram certas cores, certas formas e certos sons, foi primitivamente desenvolvido nohomem e nos animais inferiores? um ponto muito obscuro. Encontramo-nos, alm disso,nas mesmas dificuldades se quisermos explicar como certos sabores e certos perfumesnos impressionam admiravelmente, enquanto que outros nos causam uma averso geral.Em todos estes casos, o hbito parece ter desempenhado um certo papel; mas estassensaes devem ter algumas causas fundamentais na constituio do sistema nervoso decada espcie. 232. A seleco natural no pode, de maneira alguma, produzir modificaes numaespcie com o fim exclusivo de assegurar uma vantagem a uma outra espcie, ainda que,na natureza, uma espcie procura incessantemente tirar vantagem ou aproveitar-se daconformao das outras. Mas a seleco natural pode muitas vezes produzir -e ns temosnumerosas provas de que ela o faz conformaes directamente prejudiciais a outrosanimais, tais como os ganchos da vbora e o ovopositor do icnumon, que lhe permitedepositar os ovos no corpo de outros insectos vivos. Se se conseguisse provar que umaparte qualquer da conformao de uma dada espcie foi formada com o fim exclusivo deprocurar certas vantagens a outra espcie, seria a runa da minha teoria; estas partes, comefeito, no poderiam ser produzidas pela seleco natural. Ora, posto que nas obras sobrea histria natural se citem numerosos exemplos para este efeito, no pude encontrar umnico que me parecesse ter algum valor. Admite-se que a cobra cascavel est armada deganchos venenosos para a sua prpria defesa e para destruir a sua presa: mas algunsescritores supem ao mesmo tempo que esta serpente est provida de um aparelhosonoro que, advertindo a sua presa, lhe causa um prejuzo. Acreditaria isto de to bomgrado como que o gato recurva a extremidade da cauda, quando se prepara para saltar,com o nico fim de advertir o rato que deseja apanhar. A explicao mais provvel que aserpente cascavel agita o aparelho sonoro, como a cobra enche o papo, a vbora setumefaz, no momento em que emite o silvo to duro e to violento, com o fim de assustaras aves e os animais selvagens que atacam mesmo as espcies mais venenosas. Asserpentes, numa palavra, operam em virtude da mesma causa que faz a galinha erriar aspenas e estender as asas quando um co se aproxima dos pintainhos. Mas falta-me oespao para entrar em mais minudncias sobre os numerosos meios que empregam osanimais para tentar intimidar os seus inimigos.A seleco natural no pode determinar num indivduo uma conformao que lhe sejamais nociva do que til, porque somente pode actuar por e para seu bem. Como Paley ofez notar, rgo algum se forma com o fim de causar uma dor ou um prejuzo ao seupossuidor. Se se estabelece justamente a balana do bem e do mal causados por cadaparte, aperceber-se- que por fim cada uma delas vantajosa. Se, no decorrer dostempos, nas condies de novas existncias, uma parte qualquer se torna nociva,modifica-se; se assim no for, o ser extingue-se, como tantos milhes de outros seres seextinguiram antes dele. 233. A seleco natural tende somente a tornar cada ser organizado to perfeito, ou umpouco mais perfeito, que os outros habitantes do mesmo pas com os quais se encontraem concorrncia. isto, sem refutao, o cmulo da perfeio que se pode produzir noestado de natureza. As produes indgenas da Nova Zelndia, por exemplo, so perfeitasse as compararmos entre si, mas cedem hoje o terreno e desaparecem rapidamente anteas legies invasoras de plantas e de animais importados da Europa. A seleco naturalno produz a perfeio absoluta; tanto quanto o podemos julgar, alm de que no noestado da natureza que ns encontramos estes altos graus. Segundo Mller, a correlaopara a aberrao da luz no perfeita, mesmo no mais perfeito de todos os rgos, o olhohumano. Helmholtz, de que ningum pode contestar o critrio, depois de ter descrito nostermos mais entusiastas o maravilhoso poder do olho humano, junta estas singularespalavras: O que temos descoberto de inexacto e de imperfeito na mquina ptica e naproduo da imagem sobre a retina no nada comparativamente com as fantasias queencontramos no domnio da sensao. Pareceria que a natureza tivera prazer emacumular as contradies para tirar todo o fundamento teoria de uma harmonia pr-existente entre os mundos interiores e exteriores. Se a nossa razo nos leva a admirarcom entusiasmo uma srie de disposies inimitveis da natureza, esta mesma razo nosdiz, apesar de que nos podemos enganar facilmente nestes dois casos, que algumasoutras disposies so menos perfeitas. Podemos ns, por exemplo, considerar comoperfeito o aguilho da abelha, que ela no pode, sob pena de perder as vsceras, retirar daferida que faz a certos inimigos, porque este aguilho dentado, disposio que causanecessariamente a morte do insecto?Se considerarmos o aguilho da abelha como tendo existido em qualquer remotoantepassado em estado de instrumento perfurante e dentado, como se encontra em tantosmembros da mesma ordem de insectos; que, depois, este instrumento seja modificadosem se aperfeioar para preencher o seu fim actual, e que o veneno, que ele segrega,primitivamente adaptado a algum outro uso, tal como a produo de galhas, tenha tambmaumentado de poder, podemos talvez compreender como sucede que o emprego doaguilho cause tantas vezes a morte do insecto. Com efeito, se a aptido a picar til comunidade, ela rene todos os elementos necessrios para expor-se seleco natural,apesar de causar a morte a alguns dos seus membros. Admiramos o surpreendente poderdo olfacto que permite aos machos de um grande nmero de insectos encontrar a suafmea, mas podemos ns admirar nas abelhas a produo de tantos milhares de machosque, excepo de um nico, so completamente inteis comunidade e que terminampor ser trucidados pelos irmos industriosos e estreis? Por mais repugnncia quetenhamos para o fazer, deveramos admirar a selvagem averso instintiva que possui aabelhamestra para destruir, desde o nascimento, as novas mestras, suas filhas, ou elaprpria a morrer no combate; no duvidoso, com efeito, que actua para bem dacomunidade e que, ante o inexorvel princpio da seleco natural, pouco importa o amorou o dio maternal, posto que este ltimo sentimento seja felizmente de excessivararidade. Admiramos as combinaes to diversas, to engenhosas, que asseguram afecundao das orqudeas e de muitas outras plantas pela interveno dos insectos; mas 234. podemos ns considerar como igualmente perfeita a produo, nos nossos pinheiros, deespessas nuvens de plen, de maneira a que algumas sementes possam somente cair poracaso sobre os vulos? 235. Resumo: a teoria da seleco natural compreende a lei da unidade de tipo e dascondies de existncia Consagramos este captulo discusso de algumas das dificuldades que apresenta anossa teoria e das objeces que se podem levantar contra ela. Muitas so srias, mascreio que discutindo-as projectamos alguma luz sobre certos factos que a teoria dascriaes independentes deixa na obscuridade mais profunda. Temos visto que, durante umperodo dado, as espcies no so infinitamente variveis, e que no so ligadas umas soutras por uma srie de gradaes intermedirias; em parte, porque a marcha da seleconatural sempre lenta e, durante um tempo dado, actua apenas sobre algumas formas;em parte, porque a seleco natural envolve necessariamente a eliminao constante e aextino das formas intermediadas anteriores. As espcies mais prximas, habitando hojeuma superfcie contnua, deviam muitas vezes formar-se, ainda que esta superfcie nofosse contnua e que as condies exteriores de existncia no se confundisseminsensivelmente em todas as suas partes. Quando duas variedades aparecessem em doisdistritos de uma superfcie contnua, forma-se algumas vezes uma variedade intermediriaadaptada a uma zona intermediria; mas, em virtude de causas que temos indicado, avariedade intermediria ordinariamente menos numerosa que as duas formas que liga;por consequncia, estas duas ltimas, no decorrer de novas modificaes favorecidas pelonmero considervel de indivduos que contm, tm grandes vantagens sobre a variedadeintermediria menos numerosa e tendem ordinariamente a elimin-la e a extermin-la. 236. Vimos, neste captulo, que necessrio usar da maior prudncia antes de concluir aimpossibilidade de uma mudana gradual dos mais diferentes hbitos de existncia; antesde concluir, por exemplo, que a seleco natural no pde transformar em morcego umanimal que, primitivamente, s estava apto a pairar deslizando no ar.Vimos que uma espcie pode mudar os hbitos se est colocada em novascondies de existncia ou pode ter hbitos diversos, por vezes muito diferentes dos seusmais prximos congneres. Se tivermos o cuidado de lembrar que cada ser organizado seesfora por viver em toda a parte onde pode, podemos compreender, em virtude doprincpio que acabamos de exprimir, como sucede que haja patos terrestres de pspalmados, picanos no vivendo sobre as rvores, melros que mergulham na gua e osalcatrazes que tm os hbitos dos pinguins.O pensamento de que a seleco natural pde formar um rgo to perfeito como oolho, parece de natureza a fazer recuar o mais audaz; no h, contudo, impossibilidadealguma lgica para que a seleco natural, sendo dadas condies de vida diferentes,tenha conduzido a um grau de perfeio considervel um rgo, seja qual for, que passoupor uma longa srie de complicaes muito vantajosas ao seu possuidor. Nos casos emque no conhecemos os estados intermedirios ou de transio, necessrio no concluirprontamente que nunca existiram, porque as metamorfoses de muitos rgos provam quealteraes admirveis de funo so pelo menos impossveis. Por exemplo, provvel queuma bexiga natatria se transformasse em pulmes. Um mesmo rgo, quesimultaneamente exerceu funes muito diversas, e depois se especializou no todo ou emparte para uma nica funo, ou dois rgos distintos tendo ao mesmo tempodesempenhado a mesma funo, indo um melhorando enquanto que o outro lhe vinha emauxlio, so circunstncias que deviam muitas vezes facilitar a transio.Vimos que os rgos que servem para o mesmo fim e parecem idnticos, puderamformar-se separadamente, e de modo independente, em duas formas muito afastadas umada outra na escala orgnica. Contudo, se se examinam estes rgos com cuidado, podemquase sempre descobrir-se neles diferenas essenciais de conformao, o que aconsequncia do princpio da seleco natural. Demais, a regra geral em a natureza chegar aos mesmos fins por uma diversidade infinita de conformaes e isto derivanaturalmente tambm do mesmo grande princpio. 237. Em muitos casos, somos demasiado ignorantes para poder afirmar que uma parte ouum rgo tem assaz pouca importncia para a prosperidade de uma espcie, para que aseleco natural no possa, por lentas acumulaes, trazer modificaes na sua estrutura.Em muitos outros casos as modificaes so provavelmente o resultado directo das leis davariao ou do crescimento, independente de todas as vantagens adquiridas. MasPodemos afirmar que estas prprias conformaes foram mais tarde postas prova emodificadas de novo para bem da espcie, colocada em novas condies de existncia.Podemos crer tambm que uma parte tendo tido outrora uma alta importncia muitasvezes conservada; a cauda, por exemplo, de um animal aqutico existe ainda nosdescendentes terrestres, se bem que esta parte tenha actualmente uma importncia topequena, que, no seu estado actual, no poderia ser produzida pela seleco natural.A seleco natural nada pode produzir numa espcie, com um fim exclusivamentevantajoso ou nocivo a uma outra espcie, se bem que possa trazer a produo de partes,de rgos ou excrees muito teis e mesmo indispensveis, ou muito nocivas a outrasespcies; mas, em todos os casos, estas produes so ao mesmo tempo vantajosas parao indivduo que as possui.Num pas bem povoado, a seleco natural actuando principalmente pelaconcorrncia dos habitantes, s pode determinar o grau de perfeio relativamente aostipos do pas. Tambm os habitantes de uma regio mais pequena desaparecemgeralmente diante dos de uma regio maior. Nesta ltima, com efeito, h mais indivduostendo formas diversas, a concorrncia mais activa e, por conseguinte, o tipo de perfeio mais elevado. A seleco natural no produz necessariamente a perfeio absoluta,estado que, tanto quanto o podemos julgar, no podemos conseguir encontrar em partealguma.A teoria da seleco natural permite-nos compreender claramente o valor completodo antigo axioma: Natura non facit saltum. Este axioma, se for aplicado somente aoshabitantes actuais do Globo, no rigorosamente exacto, mas torna-se estritamenteverdadeiro quando se considera o conjunto de todos os seres organizados conhecidos oudesconhecidos de todos os tempos.Admite-se geralmente que a formao de todos os seres organizados repousa sobreduas grandes leis; a unidade de tipo e as condies de existncia. Entende-se por unidadede tipo esta concordncia fundamental que caracteriza a conformao de todos os seresorganizados de uma mesma classe e que por completo independente dos seus hbitos edo modo de viver. Na minha teoria, a unidade de tipo explica-se pela unidade dedescendncia. As condies de existncia, ponto sobre que o ilustre Cuvier tantas vezestem insistido, fazem parte do princpio da seleco natural. Esta, com efeito, actua, sejaadaptando actualmente as partes variveis de cada ser s suas condies vitais orgnicasou inorgnicas, seja tendo-as adaptado a estas condies durante longos perodosdecorridos. Estas adaptaes tm sido, em certos casos, provocadas pelo aumento do usoou do no uso das partes, ou afectadas pela aco directa dos meios, e, sem excepes,tm sido subordinadas s diversas leis do crescimento e da variao. Por consequncia, alei das condies de existncia de facto a lei superior, pois que compreende, pela 238. hereditariedade das variaes e das adaptaes anteriores, a da unidade de tipo. 239. Captulo VIILongevidade. -As modificaes no so necessariamente simultneas. Asmodificaes no prestam na aparncia servio algum directo.Desenvolvimento progressivo. -Constncia maior dos caracteres tendo a menorimportncia funcional. -Pretendida Incompetncia da seleco natural para explicar asprimeiras fases de conformaes teis. -Causas que se opem A aquisio de estruturasteis no meio da seleco natural. -Graus de conformao com alterao de funes-rgos muito diferentes nos membros de uma mesma classe, provindo pordesenvolvimento de uma nica e mesma origem. - Razes para no acreditar nasmodificaes considerveis e sbitas.Consagrarei este captulo ao exame das diversas objeces que se opem ao meumodo de pensar, o que poder esclarecer algumas discusses anteriores; mas seria intilexamin-las todas, porque, no nmero, muitas provm de autores que se no deram aocuidado de compreender o assunto. Assim, um distinto naturalista alemo afirma que aparte mais fraca da minha teoria reside no facto de eu considerar todos os seresorganizados como imperfeitos. Ora, o que eu disse realmente, que eles no so toperfeitos como poderiam ser, relativamente s condies de existncia; o que prova isto, que numerosas formas indgenas tm, em algumas partes do mundo, cedido o lugar aintrusos estranhos. Mas, os seres organizados, admitindo mesmo que numa poca dadatenham sido perfeitamente adaptados s suas condies de existncia, s podem, quandoestas mudam, conservar as mesmas relaes de adaptao com a condio de setransformar; ningum pode tambm contestar que as condies fsicas de todos os pases,assim como o nmero e as formas dos habitantes, tm sofrido modificaes considerveis.Um crtico sustentou recentemente, fazendo pompa de uma grande exactidomatemtica, que a longevidade uma grande vantagem para todas as espcies, demaneira que aquele que cr na seleco natural deve dispor a sua rvore genealgicade maneira que todos os descendentes tenham uma longevidade maior que os seusantepassados! O nosso crtico no conceberia como uma planta bianual, ou uma formaanimal inferior, pudessem penetrar num clima frio e perecer a cada Inverno; e, contudo,em razo de vantagens adquiridas pela seleco natural, sobreviver de ano para ano pelassuas sementes ou pelos seus ovos? M. E. Ray Lankester discutiu recentemente esteassunto, e concluiu, pelo menos quanto a complexidade excessiva da questo lhe permitejulgar, que a longevidade est ordinariamente em relao com o grau que ocupa cadaespcie na escala da organizao, e tambm com a soma de despesa que ocasionamtanto a reproduo como a actividade geral. Ora, estas condies devem provavelmenteter sido largamente determinadas pela seleco natural. 240. Conclui-se daqui que nem as plantas nem os animais conhecidos no Egipto tmexperimentado alteraes h trs ou quatro mil anos, e o mesmo sucede provavelmentecom todos os das diversas partes do Globo. Mas, assim como o fez notar M. G. H. Lewes,este modo de argumentao prova bem, por que as antigas raas domsticas figuradassobre os monumentos egpcios, ou que nos chegaram embalsamadas, se parecem muitos actuais raas vivas, e so mesmo idnticas a elas; contudo, todos os naturalistasadmitem que estas raas foram produzidas pelas modificaes dos tipos primitivos. Osnumerosos animais que no se modificaram aps o comeo do perodo glacirio,apresentariam um argumento incomparavelmente mais forte, porque tm sido expostos agrandes mudanas de clima e tm emigrado para grandes distncias; ao passo que, tantoquanto o podemos saber, as condies de existncia so hoje exactamente as mesmas noEgipto que eram h alguns milhares de anos. O facto de poucas ou nenhumasmodificaes se produzirem depois do perodo glacirio teria algum valor contra os quecrem numa lei inata e necessria de desenvolvimento; mas impotente contra a doutrinada seleco natural, ou da persistncia do mais apto, porque esta implica a conservaode todas as variaes e de todas as diferenas individuais e vantajosas que surjam, o quesomente pode acontecer em circunstncias favorveis.Bronn, o clebre paleontlogo, terminando a traduo alem da presente obra,pergunta como, sendo dado o princpio da seleco natural, pode uma variedade viver ladoa lado com a espcie me? Se as duas formas tomam hbitos diferentes ou se soadaptadas a novas condies de existncia, podem viver juntamente; porque seexcluirmos, de uma parte, as espcies polimorfas nas quais a variabilidade pode ser deuma natureza muito especial, e, por outra parte, as variaes simplesmente temporriastais como o talhe, o albinismo, etc., as variedades permanentes habitam em geral, o queeu pude verificar, estaes distintas, tais como as regies elevadas ou baixas, secas ouhmidas. Alm disso, no caso de animais essencialmente errantes e cruzando-selivremente, as variedades parecem ser geralmente confinadas em regies distintas. 241. Bronn insiste tambm no facto de as espcies distintas jamais diferirem porcaracteres isolados, mas sob muitas relaes; pergunta como sucede que numerosospontos do organismo tenham sido sempre modificados simultaneamente pela variao epela seleco natural. Mas nada obriga a supor que todas as partes de um indivduo sejammodificadas simultaneamente. As modificaes mais frisantes, adaptadas de uma maneiraperfeita a um dado uso, podem ser, como o havemos notado precedentemente, o resultadodas variaes sucessivas, ligeiras, aparecendo numa parte, depois noutra; mas, como setransmitem todas em conjunto, parecem-nos ser simultaneamente desenvolvidas. De resto,a melhor refutao a fazer a esta objeco fornecida pelas raas domsticas que tmsido modificadas principalmente com um fim especial, por meio da seleco naturaloperada pelo homem. Vede o cavalo de tiro e o cavalo de corrida, ou o galgo e o co defila. Toda a sua estrutura e mesmo os seus caracteres intelectuais foram modificados; mas,se pudssemos delinear cada grau sucessivo da sua transformao -o que podemos fazerpara aqueles que no vo muito alm no passado-verificaramos melhoramentos emodificaes ligeiras, afectando tanto uma parte como outra, mas nunca alteraesconsiderveis e simultneas. Mesmo quando o homem aplicou a seleco apenas a umnico caracter -de que as plantas cultivadas oferecem os melhores exemplos -encontra-seinvariavelmente que se um ponto especial, quer seja a flor, o fruto ou a folhagem, sofregrandes alteraes, quase todas as outras partes tm sido a sede de modificaes. Podematribuir-se estas modificaes em parte ao princpio da correlao do crescimento, e emparte ao que se chama a variao espontnea. Uma objeco mais sria feita por M. Bronn, e recentemente por M. Broca, quemuitos caracteres parecem no prestar servio algum aos seus possuidores, e no podem,por consequncia, ter dado lugar seleco natural. Bronn cita o alongamento das orelhase da cauda nas diferentes espcies de lebres e de ratos, os complicados sulcos do esmaltedentrio existindo em muitos animais, e uma multido de casos anlogos. No ponto devista dos vegetais, este assunto foi discutido por Nageli numa admirvel memria. Admiteuma aco importante da seleco natural, mas insiste sobre o facto de as famlias deplantas diferirem sobretudo pelos caracteres morfolgicos, que parecem no terimportncia alguma para a prosperidade da espcie. Admite, por conseguinte, umatendncia inata a um desenvolvimento progressivo e mais completo. Indica a disposiodas clulas nos tecidos, e das folhas sobre o eixo, como casos onde a seleco naturalno pde exercer aco alguma. Podem tambm acrescentar-se as divises numricasdas partes da flor, a posio dos vulos, a forma da semente, quando no favorece a suadisseminao, etc. 242. Esta objeco sria. Todavia, necessrio em primeiro lugar, mostrar-se muitaprudncia quando se trata de determinar quais so actualmente, ou quais podem ter sidono passado as conformaes vantajosas a cada espcie. Em segundo lugar, necessriopensar que quando uma parte se modifica, outras se modificam tambm, em razo decausas que a custo se entrevem, tais comoo aumento ou a diminuio do excesso de nutrio de uma parte, a presso recproca, ainfluncia do desenvolvimento de um rgo precoce sobre outro que se no forma a noser mais tarde, etc. H ainda outras causas que no compreendemos, que provocamcasos misteriosos e numerosos de correlao. Para abreviar, podem agrupar-sejuntamente estas influncias debaixo desta expresso: leis do crescimento. Em terceirolugar, temos de tomar em conta a aco directa e definida de alteraes nas condies deexistncia, e tambm do que se chamam variaes espontneas, nas quais a natureza dosmeios parece ter apenas uma influncia insignificante. As variaes dos rebentos, taiscomo a apario de uma rosa de musgo numa roseira comum, ou de um pssego liso mimpessegueiro ordinrio, oferecem bons exemplos de variaes espontneas; mas, nestescasos, se reflectirmos no poder da gota infinitesimal de veneno que produz odesenvolvimento de galhas complexas, no poderamos estar bem certos de que asvariaes indicadas no so efeito de qualquer alterao local na natureza da seiva,resultando de alguma modificao dos meios. Toda a diferena individual ligeira assimcomo as variaes mais pronunciadas, que surgissem acidentalmente, devem ter umacausa; ora, quase certo que se esta causa desconhecida actuasse de uma formapersistente, todos os indivduos da espcie seriam semelhantemente modificados.Nas edies anteriores desta obra, no tenho, isto parece agora provvel, atribudobastante valor frequncia e importncia das modificaes devidas variabilidadeespontnea. Mas impossvel atribuir a esta causa as inumerveis conformaesperfeitamente adaptadas aos hbitos vitais de cada espcie. Jamais posso acreditar nistocomo no posso explicar por este meio a forma perfeita do cavalo de corrida ou do galgo,adaptao que maravilhava do mesmo modo os antigos naturalistas, quando o princpio daseleco pelo homem no era ainda bem compreendido.Pode ser til citar alguns exemplos em auxlio de algumas notas que precedem. Noque diz respeito inutilidade suposta de diversas partes e de diferentes rgos, apenasnecessrio lembrar que existem, mesmo nos animais mais elevados e melhor conhecidos,conformaes bastante desenvolvidas para que ningum ponha em dvida a suaimportncia; todavia, o seu uso foi reconhecido por completo apenas recentemente. Bronncita o comprimento das orelhas e da cauda, em muitas espcies de ratos, como exemplos,insignificantes verdade, de diferena de conformaes sem uso especial; ora, notarei queo Dr. Schbl verifica, nas orelhas externas do rato comum, um desenvolvimentoextraordinrio dos nervos, de tal maneira que as orelhas servem provavelmente de rgostcteis; o comprimento das orelhas no pois sem importncia. Veremos em breve que,em algumas espcies, a cauda constitui um rgo prensil muito til; o seu comprimentodeve pois contribuir para exercer uma influncia sobre o seu uso. 243. A propsito das plantas, limito-me, seguindo a memria de Nageli, s notasseguintes; admite-se, penso eu, que as flores das orqudeas apresentam uma srie deconformaes curiosas, que se teriam considerado, h alguns anos, como simplesdiferenas morfolgicas sem funo especial. Ora, sabe-se hoje que tm uma importnciaenorme para a fecundao da espcie por meio dos insectos, e que foram adquiridasprovavelmente pela aco da seleco natural. Quem, at h muito pouco tempoimaginaria que, nas plantas dimorfas e trimorfas, os comprimentos diferentes dos estamese dos pistilos, assim como a sua disposio, podiam ter alguma utilidade? Sabemos hojeque a tm e considervel.Em certos grupos completos de plantas, os vulos so erectos, em outros soinclinados; ora, num mesmo ovrio de certas plantas, um vulo ocupa a primeira posio, eum segundo a segunda. Estas posies parecem a Princpio puramente morfolgicas, ousem significao fisiolgica; mas o Dr. Hooker dizme que, no mesmo ovrio, h somentefecundao dos vulos superiores, em alguns casos, e dos vulos inferiores em outros;supe que o facto depende provavelmente da direco que os tubos polnicos tomampenetrando no ovrio. A posio dos vulos, se assim for, mesmo quando um erecto e ooutro inclinado no mesmo ovrio, resultaria da seleco de todo o ligeiro desvio na suaposio, favorvel fecundao e produo das sementes.H plantas pertencendo a ordens distintas, que produzem habitualmente flores deduas espcies -umas abertas, conformao comum, outras fechadas e imperfeitas. Estasduas espcies de flores diferem de uma maneira extraordinria; podem, contudo, passargradualmente de uma outra na mesma planta. As flores abertas ordinrias, podendoentrecruzar-se, esto seguras de certos benefcios resultantes desta circunstncia. Asflores fechadas e incompletas tm algumas vezes uma alta importncia, que se traduz pelaproduo de uma grande quantidade de sementes e uma dissipao de plenexcessivamente pequena. Como acabamos de dizer, a conformao de duas espcies deflores difere muito. Nas flores imperfeitas, as ptalas consistem quase sempre apenas emsimples rudimentos, e os gros de plen so reduzidos em dimetro. Na Ononis columnaccinco dos estames alternantes so rudimentares, estado que se observa tambm em trsestames de algumas espcies de Viola, enquanto que as outras duas, apesar da suapequenez, conservam as funes prprias. Entre trinta flores fechadas de uma violetaindiana (cujo nome me desconhecido, no tendo as plantas produzido jamais em minhacasa flores completas), em seis, encontram-se as spalas, em vez de o nmero normal decinco, reduzidas apenas a trs. Em uma seco dos Malpighiaceae, as flores fechadas,segundo A. de Jussieu, so ainda mais modificadas, porque os cinco estames colocadosem face das spalas so todos atrofiados, sendo um sexto estame, situado diante de umaptala, o nico desenvolvido. Este estame no existe nas flores ordinrias das espciesnas quais o estilete est atrofiado e os ovrios reduzidos a dois ou trs. Hoje, posto que aseleco natural possa ter impedido o desabrochamento de algumas flores, e reduzido aquantidade de plen tornado assim suprfluo quando est encerrado no invlucro floral, provvel que tenha contribudo apenas muito pouco para as modificaes especiaispr-citadas, mas que estas modificaes resultem das leis do crescimento, 244. compreendendo a inactividade funcional de certas partes durante os progressos dadiminuio do plen e da ocluso das flores. 245. to importante apreciar bem os efeitos das leis do crescimento, que creionecessrio citar alguns exemplos de um outro gnero: assim, as diferenas que provocam,na mesma parte ou no mesmo rgo, diferenas de situao relativa na mesma planta. Nocastanheiro de Espanha e em certos pinheiros, segundo Schacht, os ngulos dedivergncia das folhas diferem conforme os ramos que os sustentam so horizontais ouverticais. Na arruda comum e em, algumas outras plantas, uma flor, ordinariamente a florcentral ou a flor terminal, abre-se primeiro, e apresenta cinco spalas e ptalas, e cincodivises no ovrio; enquanto que todas as outras flores so tetrmeras. Na Adoxa inglesa,a flor mais elevada tem ordinariamente dois lbulos no clice, e os outros grupos sotetrmeros; enquanto que as flores que a cercam tm trs lbulos no clice, e os outrosrgos so pentmeros. Em muitas compostas e umbelferas (e outras plantas), as corolasdas flores colocadas nas circunferncias so muito mais desenvolvidas que as das florescolocadas no centro; o que parece algumas vezes ligado atrofia dos rgos reprodutores.Um facto mais curioso, j indicado, que se podem notar diferenas na forma, na cor enos outros caracteres das sementes da periferia e das do centro. Nos Carthamus e outrascompostas, as sementes centrais trazem somente um tufo; nos Hyoseris, a mesma florproduz trs sementes de formas diversas. Em certas umbelferas, segundo Tausch, assementes exteriores so ortosprmicas, e a semente central coelosprmica; carcter quede Candolle considerava, em outras espcies, como tendo uma importncia sistemticamuito grande. 246. O professor Braun menciona um gnero de fumariceas no qual as flores tm, naparte inferior da espiga, pequenas avels ovais, aos lados, contendo uma semente; e naporo superior, silquas lanecoladas, bivalves, contendo duas sementes. A seleconatural, tanto quanto o podemos julgar, no pde desempenhar papel algum, ou temdesempenhado apenas um papel insignificante, nestes diversos casos, excepo dodesenvolvimento completo dos flores da periferia, que so teis para tornar a plantavistosa e para atrair os insectos. Todas estas modificaes resultam da situao relativa eda aco recproca dos rgos; ora, no se pode pr em dvida que, se todas as flores etodas as folhas da mesma planta tivessem sido submetidas s mesmas condiesexternas e internas, como so as flores e as folhas em certas posies, seriam todasmodificadas da mesma forma.Observamos, em muitos outros casos, modificaes de estrutura, consideradas pelosbotnicos como tendo a mais alta importncia, que afectam somente algumas flores daplanta, ou que se manifestam em plantas distintas, cruzando juntamente nas mesmascondies. Estas variaes, no tendo aparncia alguma de utilidade para a planta, nopodem ter sofrido a influncia da seleco natural. A causa -nos inteiramentedesconhecida; no podemos mesmo atribu-las, como as da ltima classe, a uma acopouco afastada, tal como a posio relativa. Eis alguns exemplos. to frequente observarna mesma planta flores tetrmeras, pentmeras, etc., que no tenho necessidade de medemorar neste ponto; mas como as variaes numricas so comparativamente rarasquando os prprios rgos so em pequeno nmero, posso acrescentar que, segundo deCandolle, as flores do Papaver bracteatum possuem duas spalas e quatro ptalas (tipocomum na papoila), ou trs spalas e seis ptalas. A forma como estas ltimas sodobradas no boto um caracter morfolgico muito constante na maior parte dos grupos;mas o professor Asa Gray nota que, em algumas espcies de Mimulus, a preflorao quase to frequentemente a das rinantdeas como a das antirrindeas, ltima das quaispertence o gnero atrs mencionado. Augusto Saint-Hilaire indica os casos seguintes: ognero Zanthoxylon pertence a uma diviso das rutceas de um s ovrio; encontra-se,contudo, em algumas espcies, muitas flores na mesma planta e mesmo em uma nicapancula, tendo quer um, quer dois ovrios. No Helianthemum, a cpsula foi descrita comounilocular ou triiocular; na Helianthemum mutabile, uma lmina mais ou menos larga seestende entre o pericarpo e placenta. Nas flores da Saponria officinalis, o Dr. Mastersobservou casos de placentaes livres tanto marginais como centrais. Saint-Hilaireencontrou no limite extremo meridional da regio que ocupa a Gomphia oleaeformis, duasformas de que no ps a princpio em dvida a especialidade distinta; mas encontrando-asulteriormente no mesmo arbusto, teve de ajuntar: Eis aqui, pois, num mesmo indivduo,septos e um estilete que se prendem ora a um eixo vertical ora a uma ginobase. 247. Vemos, pelo que precede, que se pode atribuir, independentemente da seleconatural, s leis do crescimento e aco recproca das partes, um grande nmero demodificaes morfolgicas nas plantas. Mas pode dizer-se que, nos casos em que estasvariaes so to fortemente pronunciadas, temos ante ns plantas tendentes a um estadode desenvolvimento mais elevado, segundo a doutrina de Ngeb, que cr numa tendnciainata para a perfeio ou para um aperfeioamento progressivo? Pelo contrrio, o simplesfacto de as partes em questo diferirem e variarem muito numa planta qualquer, no develevar-nos a concluir que estas modificaes tm muito pouca importncia para ela, aindaque possam t-la muito considervel para ns no que respeita s nossas classificaes?No se poderia dizer que a aquisio de uma parte intil faz subir um organismo na escalanatural; porque, no caso das flores fechadas e imperfeitas que descrevemos mais acima,se se invoca um princpio novo, este ser de natureza retrgrada mais que progressiva;ora, o mesmo deve suceder em muitos animais parasitas e degenerados. Ignoramos acausa determinante das modificaes pr-citadas; mas se esta causa desconhecida deviaactuar uniformemente durante um lapso de tempo muito longo, podamos pensar que osresultados seriam quase uniformes; neste caso, todos os indivduos da espcie seriammodificados da mesma forma.No tendo os caracteres pr-citados importncia alguma para a prosperidade daespcie, a seleco natural no devia nem acumular nem aumentar as ligeiras variaesacidentais. Uma conformao que se desenvolveu por uma seleco durante longo tempo,torna-se ordinariamente varivel, quando cessa a utilidade que tinha para a espcie, comovemos pelos rgos rudimentares, cessando a seleco natural nesse momento de actuarsobre estes rgos. Mas, quando as modificaes sem importncia para a prosperidade daespcie tm sido produzidas pela natureza do organismo e das condies, podemtransmitir-se, e parecem algumas vezes ter sido transmitidas quase no mesmo estado auma numerosa descendncia, alm disso diversamente modificada. No pode ter sidomuito importante para a maior parte dos mamferos, das aves ou dos rpteis, ser cobertosde plos, de penas ou escamas, e contudo os plos so transmitidos quase totalidadedos mamferos, as penas a todas as aves e as escamas a todos os verdadeiros rpteis.Uma conformao, qualquer que possa ser, comum a numerosas formas vizinhas, foiconsiderada por ns como tendo uma grande importncia sistemtica, e , porconsequncia, muitas vezes avaliada como tendo uma importncia vital essencial para aespcie. Estou pois disposto a acreditar que as diferenas morfolgicas que consideramoscomo importantes -tais como a disposio das folhas, as divises da flor ou do ovrio, aposio dos vulos, etc. -tm muitas vezes aparecido na origem como variaesflutuantes, tornando-se constantes mais cedo ou mais tarde, em razo da natureza doorganismo e das condies ambientes, assim como pelo cruzamento de indivduosdistintos, mas no em virtude da seleco natural. A aco da seleco no pode, comefeito, ter regulado nem acumulado as ligeiras variaes dos caracteres morfolgicos queno afectam de modo algum a prosperidade da espcie. Chegamos assim a este singularresultado, que tendo os caracteres a maior importncia para o sistematista, tm apenasimportncia muito leve, no ponto de vista vital, para a espcie; mas esta proposio est 248. longe de ser to paradoxal como pode parecer primeira vista, assim como veremos maisadiante tratando do princpio gentico da classificao. 249. Posto que no tenhamos prova alguma certa da existncia de uma propenso inatados seres organizados para um desenvolvimento progressivo, este progresso resultanecessariamente da aco contnua da seleco natural, como procurei demonstr-lo noquarto captulo. A melhor definio que jamais se tenha dado da elevao a um grau maissuperior dos tipos da organizao, repousa sobre o grau de especializao oudiferenciao que os rgos tm atingido; ora, esta diviso do trabalho parece ser o fimpara que tende a seleco natural, porque as partes ou rgo esto neste caso dispostos adesempenhar por si mesmos as diversas funes de uma maneira sempre mais eficaz. M. Saint-George Mivart, zologo distinto, reuniu recentemente todas as objecessuscitadas por mim e por outros contra a teoria da seleco natural, tal como lhe tem sidoapresentada por M. Wallace e por mim, apresentando-as com muita arte e poder. Assimagrupadas, tm um aspecto formidvel; ora, como no entrava no plano de M. Mivartverificar os factos e as diversas consideraes contrrias s suas concluses, necessrioque o leitor faa grandes esforos de raciocnio e de memria, se quer pesar com cuidadotodos os argumentos pr e contra. Na discusso de casos especiais, M. Mivart desprezaos efeitos do aumento ou da diminuio do uso das partes, de que sustentei sempre a altaimportncia, e que tratei mais largamente, creio eu, que qualquer outro autor, na obra DaVariao no Estado Domstico. Afirma muitas vezes que nada atribuo variao, fora daseleco natural, enquanto que, na obra citada, colhi um nmero de casos bemdemonstrados e bem estabelecidos de variaes, nmero bem mais considervel do queaquele que se poderia encontrar em qualquer obra que eu conhea. A minha opinio podeno merecer confiana, mas, depois de ter lido a obra de M. Mivart com a maior ateno,depois de ter comparado o contedo de cada uma das suas partes com 250. o que tenho afirmado sobre os mesmos pontos, fiquei mais convencido do que nunca quecheguei a concluses geralmente verdadeiras, todavia com esta reserva, que, numassunto to complicado, estas concluses podem ainda apresentar muitos erros parciais.Todas as objeces de M. Mivart foram ou sero examinadas no presente volume. Onovo ponto que parece ter impressionado muitos leitores que a seleco natural insuficiente para explicar as fases primeiras ou nascentes das conformaes teis. Esteassunto est em conexo ntima com o da gradao dos caracteres, muitas vezesacompanhada de uma alterao de funes -a converso de uma bexiga natatria empulmes, por exemplo -factos que discutimos no captulo precedente em dois pontos devista diferentes. Quero, todavia, examinar to minuciosamente quanto possvel muitoscasos avanados por M. Mivart, escolhendo os mais frisantes; a falta de lugar impede-me,contudo, de os considerar a todos.A alta estatura da girafa, o comprimento do pescoo, dos membros anteriores, dacabea e da lngua, tornam-na um animal admiravelmente adaptado para se alimentar dosramos elevados das rvores. Pode assim encontrar alimentos colocados fora do alcancedos outros ungulados habitandoo mesmo pas; o que deve, em tempo de falta, alcanar-lhe grandes vantagens.O exemplo do gado niata da Amrica Meridional prova-nos, com efeito, que umapequena diferena basta para determinar, nos momentos de carncia, uma diferena muitoimportante no ponto de vista da conservao da vida de um animal. Este gado come ervacomo os outros, mas a projeco da sua mandbula inferior impede-o, durante as secasfrequentes, de comer os ramos das rvores, as canas, etc., s quais as raas ordinrias debois e de cavalos so, durante este perodo, obrigados a recorrer. Os niatas morrem entose os seus proprietrios os no alimentarem. Antes de voltar s objeces de M. Mivart,creio dever explicar, uma vez ainda, como a seleco natural actua em todos os casosordinrios. O homem modificou alguns animais, sem se prender necessariamente com ospontos especiais da conformao; produziu o cavalo de corrida ou o galgo lebreirocontentando-se em conservar e fazer reproduzir os animais mais rpidos, ou o galo decombate, consagrando reproduo os nicos machos vitoriosos nas lutas. Alm disso,para a girafa que nasceu no estado selvagem, os indivduos mais elevados e capazes decomer uma polegada ou duas mais acima do que os outros, tm muitas vezes podido serconservados em tempo de fome; porque tm de percorrer todo o pas procura dealimentos. Verifica-se em muitos tratados de histria natural dando os extractos demedidas exactas, que os indivduos de uma mesma espcie diferem muitas vezesligeiramente pelos comprimentos relativos das suas diversas partes. Estas diferenasproporcionalmente muito pequenas, devidas s leis de crescimento e da variao, no tma menor importncia ou a menor utilidade na maior parte das espcies. Mas se se tm emconta os hbitos provveis da girafa nascente, esta ltima observao no pode aplicar-se,porque os indivduos, tendo uma ou muitas partes mais alongadas que de ordinrio, devemem geral ser os nicos a sobreviver. O cruzamento produziu descendentes que herdaram,quer as mesmas particularidades corporais, quer uma tendncia a variar na mesmadireco; enquanto que os indivduos menos favorecidos sob as mesmas relaes devem 251. estar mais expostos a perecer. 252. Vemos, pois, que no necessrio separar casais isolados, como faz o homem,quando quer melhorar sistematicamente uma raa; a seleco natural preserva e isolaassim todos os indivduos superiores, permite-lhes cruzarem-se livremente e destri todosos da ordem inferior. Por esta marcha longamente continuada, que correspondeexactamente ao que chamei a seleco inconsciente que pratica o homem, combinadasem dvida em grande proporo com os efeitos hereditrios do aumento do uso daspartes, parece-me quase certo que um quadrpede ungulado ordinrio poderiaconverter-se em girafa. M. Mivart ope duas objeces a esta concluso. Uma que o aumento do volumedo corpo reclama evidentemente um aumento de nutrio; considera ento como muitoproblemtico que os inconvenientes resultando da insuficincia de nutrio nos tempos decarestia, no prevaleam muito sobre as vantagens. Mas como a girafa existeactualmente em grande nmero na frica Meridional, onde abundam tambm algumasespcies de antlopes maiores queo boi, porque duvidaremos, no que diz respeito ao talhe, que no tenham existido outroragradaes intermedirias, expostas como hoje a rigorosas carncias? certo que apossibilidade de atingir um aumento de nutrio que os outros quadrpedes ungulados dopas deixam intacto, deve constituir alguma vantagem para a girafa em via de formao e medida que se desenvolver. No devemos jamais esquecer que o desenvolvimento dotalhe constitui uma proteco contra quase todos os animais de presa, excepo do leo;mesmo em frente deste ltimo, o pescoo alongado da girafa -e quanto mais longomelhor-desempenha o papel de vigia, segundo a observao de M. Chauncey Wright. SirS. Baker atribui a esta causa o facto de no haver animal mais difcil de caar do que agirafa. Serve-se tambm do longo pescoo como de uma arma ofensiva ou defensiva,utilizando as contraces rpidas para projectar com violncia a sua cabea armada decotos de chifres. Ora, a conservao de uma espcie no s pode ser raramentedeterminada por uma vantagem isolada, mas pelo conjunto de diversas vantagens,grandes e pequenas. 253. M. Mivart pergunta ento, e esta a sua segunda objeco, como que, sendo aseleco natural eficaz, e constituindo a aptido para comer a uma grande altura uma togrande vantagem, como que, digo eu, fora a girafa, e em menor grau o camelo, oguanaco e o macrauqunia, qualquer outro mamfero de cascos no tenha adquirido umpescoo alongado e um talhe elevado? ou ainda como que qualquer membro do grupono tenha adquirido uma longa tromba? A explicao fcil no que respeita fricaMeridional que foi todavia povoada de numerosos rebanhos de girafas e o melhor sercitar um exemplo maneira de resposta. Em todas as campinas da Inglaterra contendorvores, vemos que todos os ramos inferiores so mondados a uma altura horizontalcorrespondendo exactamente ao nvel que podem atingir os cavalos ou o gado que comede cabea levantada; ora, que vantagem teriam os carneiros que a se tratam, se opescoo se alongasse um pouco? Em toda a regio, uma espcie come certamente maisalto do que as outras, e quase igualmente certo que essa espcie somente pode adquirirtambm com este fim um pescoo alongado, em virtude da seleco natural, e pelosefeitos do aumento do uso. Na frica Meridional, a concorrncia no ponto de vista doconsumo dos altos ramos das accias e de diversas outras rvores pode existir apenasentre as girafas, e no entre estes e outros animais ungulados.No saberia dizer-se positivamente por que, em outras partes do Globo, diversosanimais pertencendo mesma ordem no adquirem nem pescoo nem tromba; masesperar uma resposta satisfatria para uma questo deste gnero seria to impertinentecomo perguntar o motivo por que um acontecimento da histria da humanidade falta numpas, enquanto que se produziu em outro. Ignoramos as condies determinantes donmero e da distribuio de uma espcie, e no podemos mesmo conjecturar quais sejamas alteraes de conformao prprias para favorecer o seu desenvolvimento num novopas. Contudo, podemos entrever de uma maneira geral que causas diversas podem terimpedido o desenvolvimento de um pescoo alongado ou de uma tromba. Para poderatingir a folhagem situada muito alto (sem ter necessidade de subir, o que a conformaodos ungulados torna impossvel), necessrio que o volume do corpo tome umdesenvolvimento considervel; ora, h pases que apenas apresentam muito poucos dosgrandes mamferos, a Amrica do Sul, por exemplo, no obstante a exuberante riqueza dopas, enquanto que so abundantes num grau sem igual na frica Meridional. Nosabemos de forma alguma porque assim nem por que os ltimos perodos tercirios tmsido, muito melhores do que a poca actual, apropriados existncia dos grandesmamferos. Sejam quais forem estas causas, podemos reconhecer que certas regies ecertos perodos tm sido mais favorveis do que outros ao desenvolvimento de ummamfero to volumoso como a girafa. 254. Para que um animal possa adquirir uma conformao especial bem desenvolvida, quase indispensvel que algumas outras partes do organismo se modifiquem e seadaptem a esta conformao. Posto que todas as partes do corpo variem ligeiramente, noresulta sempre que as partes necessrias o faam na direco exacta e no grau exigido.Sabemos que as partes variam muito diferentemente em carcter e em grau nos diferentesanimais domsticos, e que algumas espcies so mais variveis do que outras. Noresulta mesmo da apario de variaes apropriadas, que a seleco natural possa actuarsobre elas e determinar uma conformao em aparncia vantajosa para a espcie. Porexemplo, se o nmero dos indivduos assistentes num pas depende principalmente dadestruio operada pelos animais de presa -pelos parasitas externos ou internos, etc.-casos que parecem apresentar-se muitas vezes, a seleco natural s pode modificarmuito lentamente uma conformao em especial destinada a conseguir os alimentos;porque, neste caso, a sua interveno quase insensvel. Enfim, a seleco natural temuma marcha muito lenta, e exige, para produzir efeitos um pouco pronunciados, uma longadurao das mesmas condies favorveis. unicamente invocando razes to gerais eto vagas que podemos explicar porque, em muitas partes do Globo, os mamferosungulados no adquirem pescoos alongados ou outros meios para comer os ramos dasrvores colocados a uma certa altura. Muitos autores tm levantado objeces anlogas s que precedem. Em 255. cada caso, fora das causas gerais que acabamos de indicar, h diversas outras que tmprovavelmente impedido e embaraado a aco da seleco natural, com respeito sconformaes que se consideram como vantajosas para certas espcies.Um destes escritores pergunta porque que o avestruz no adquiriu a faculdade devoar. Mas um instante de reflexo demonstra que enorme quantidade de nutrio serianecessria para dar a esta ave do deserto a fora para mover o seu enorme corpo atravsdo ar. As ilhas ocenicas so habitadas por morcegos e focas, mas no por mamferosterrestres; alguns morcegos, representando espcies particulares, devem ter repousadopor muito tempo no seu habitat actual. Sir C. Lyell pergunta pois (posto que respondendopor certas razes) porque que as focas e os morcegos no tm dado origem, em taisilhas, a formas adaptadas vida terrestre? Mas as focas tornar-se-iam necessariamente aprincpio em animais carnvoros terrestres, de um comprimento considervel, e osmorcegos em insectvoros terrestres. No haveria presa para os primeiros; os morcegosencontrariam apenas como nutrio insectos terrestres; ora, estes ltimos so jperseguidos pelos rpteis e pelas aves que tm, em primeiro lugar, colonizado as ilhasocenicas e que a abundam. As modificaes de estrutura, de que cada grau vantajosopara a espcie varivel, so apenas favorecidos em certas condies particulares. Umanimal estritamente terrestre, caando algumas vezes na baixa-mar, depois nos ribeiros enos lagos, pode chegar a converter-se num animal assaz aqutico para lutar com oOceano. Mas no nas ilhas ocenicas que as focas encontrariam condies favorveis aum regresso gradual das formas terrestres. Os morcegos, como j demonstrmos,adquiriram provavelmente as asas deslizando primitivamente no ar para se transportaremde uma rvore para outra, como os supostos esquilos voantes, quer para escapar aosinimigos, quer para evitar as quedas; mas a aptido ao verdadeiro voo, uma vezdesenvolvida, jamais se reduziria, pelo menos no que diz respeito aos fins citados, demaneira a tornar menos eficaz a aptido de pairar no ar. As asas dos morcegos poderiam, verdade, como as de muitas aves, diminuir de tamanho ou mesmo desaparecercompletamente por causa da falta de uso; mas seria necessrio, neste caso, que estesanimais tivessem adquirido de comeo a faculdade de correr com rapidez sobre o solo pormeio somente dos membros Posteriores, de forma a poderem lutar com as aves e com osoutros animais terrestres; ora, esta uma modificao para a qual o morcego parece muitomal apropriado. Enunciamos estas conjecturas unicamente para demonstrar que umatransio de estrutura de que cada grau constitui uma vantagem uma coisa muitocomplexa e que no h, por consequncia, nada de extraordinrio em que, num casoparticular, qualquer transio no seja produzida. 256. Enfim, mais do que um autor tem perguntado porque, em certos animais mais do queem outros, o poder mental adquiriu um mais elevado grau de desenvolvimento, quando odesenvolvimento era vantajoso para todos. Por que que os macacos no adquirem asaptides intelectuais do homem? Poder-seiam indicar diversas causas; mas intilexp-las, porque so simples conjecturas; alm de que, no podemos apreciar a suaprobabilidade relativa. No se poderia esperar resposta determinante segunda questo,porque ningum capaz de resolver este problema bem mais simples: porque, sendodadas duas raas de selvagens, uma atingiu um grau muito mais elevado que a outra naescala da civilizao; facto este que parece envolver um aumento de foras cerebrais.Voltando s outras objeces de M. Mivart. Os insectos, para escapar aos ataquesdos seus inimigos, semelham algumas vezes objectos diversos tais como folhas verdes ousecas, musgos secos, fragmentos de lquenes, flores, espinhos, excrementos de aves, emesmo outros insectos vivos; terei de voltar a este ponto. A semelhana algumas vezesadmirvel; no se limita cor, mas atende-se forma e mesmo postura. As larvas quese sustentam imveis sobre os ramos, onde se nutrem, tm o aspecto de ramos mortos, efornecem assim um excelente exemplo de uma semelhana deste gnero. Os casos desemelhana com certos objectos, tais como os excrementos de aves, so raros eexcepcionais. Sobre este ponto, diz M. Mivart: Como, segundo a teoria de M. Darwin, huma tendncia constante a uma variao indefinida, e como as variaes nascentes queda resultam devem produzir-se em todas as direces, devem tender a neutralizar-sereciprocamente e a formar modificaes to instveis, que difcil, seno impossvel, vercomo estas oscilaes indefinidas de princpios infinitesimais podem chegar a produzirsemelhanas apreciveis com folhas, bambus, ou outros objectos, semelhanas de que aseleco natural deve apoderar-se para as perpetuar. provvel que, em todos os casos citados, os insectos, no seu estado primitivo,tivessem qualquer semelhana grosseira e acidental com certos objectos comuns emtodas as estaes que habitavam. Demais, no h nada de improvvel, se se considera onmero infinito de objectos circunvizinhos e a diversidade de forma e de cor das miradesde insectos. A necessidade de uma imitao grosseira para ponto de partida permite-noscompreender por que os animais maiores e mais elevados (h uma excepo, a nica queconheo, um peixe) no semelham, como meio defensivo, objectos especiais, massomente a superfcie da regio que habitam, e esta sobretudo pela cor. Admitamos que uminsecto se tenha tornado parecido primitivamente, at certo ponto, a um ramsculo mortoou a uma folha seca, e que tenha variado ligeiramente em diversas direces; toda avariao que aumentasse a semelhana, e favorecesse, por consequncia, a conservaodo insecto, devia conservar-se, enquanto que as outras variaes desprezadas terininampor perder-se inteiramente; ou melhor, deviam ser eliminadas se diminussem asemelhana com o objecto imitado. A objeco de M. Mivart teria, com efeito, algum valorse procurssemos explicar estas imitaes, por uma simples variabilidade vacilante, sem oconcurso da seleco natural, o que no o caso. 257. No compreendo to-pouco o alcance da objeco que M. Mivart apresentarelativamente aos ltimos graus de perfeio da imitao ou da mmica, como noexemplo citado por M. Wallace, relativo a um insecto Ceroxylus laceratus que seassemelha a uma varinha coberta de musgo, a ponto que um Diak indgena sustentavaque as excrescncias foliceas eram na realidade do musgo. Os insectos so a presa dasaves e de outros inimigos dotados de uma vista provavelmente mais penetrante do que anossa; toda a imitao podendo contribuir para dissimular o insecto tende pois a assegurartanto mais a sua conservao quanto esta semelhana mais perfeita. Se se considera anatureza das diferenas que existem entre as espcies do grupo que compreende oCeroxylus, no h improbabilidade alguma para que este insecto haja variado pelasirregularidades da sua superfcie, que tm tomado uma colorao mais ou menos verde;porque, em cada grupo, os caracteres que diferem nas diversas espcies esto maissujeitos a variar, enquanto que os da ordem genrica ou comuns a todas as espcies somais constantes.A baleia da Gronelndia , entre todos os animais, um dos mais admirveis, e asbarbas que lhe revestem a maxila, um dos mais singulares caracteres. As barbasconsistem, de cada lado da maxila superior, em uma fila de pouco mais ou menostrezentas placas ou lminas aproximadas, colocadas transversalmente ao eixo mais longoda boca. H, no interior da fila principal, algumas outras subsidirias. As extremidades e osbordos internos de todas as placas cindem-se em espinhos rgidos, que cobrem o palatinogigantesco, e servem para tamizar ou filtrar a gua e recolher assim os pequenos seresque servem de nutrio a estes grandes animais. A lmina mediana, a mais comprida dabaleia gronelandesa, tem dez, doze ou quinze ps de comprimento; mas h nas diferentesespcies de cetceos gradaes de comprimento; a lmina mediana tem em uma,segundo de Scoresby, quatro ps, trs em duas outras, dezoito polegadas numa quarta epouco mais ou menos nove polegadas de comprimento no Balaenoptera rostrata. Asqualidades das barbas diferem tambm nas diferentes espcies. 258. M. Mivart faz a propsito a observao seguinte: Desde que a barba atinge umdesenvolvimento que a torna til, a seleco natural bastaria somente, sem dvida, paraassegurar a sua conservao e o seu aumento em convenientes limites. Mas comoexplicar o princpio de um desenvolvimento to til? Pode, como resposta, perguntar-se:porque que os antepassados primitivos das baleias com barba no tinham a bocaconstruda no gnero do bico lamelar do ganso? Os gansos, como as baleias, nutrem-sefiltrando a gua eo lodo, o que faz dar algumas vezes famlia o nome de Criblatores. Espero que ningumse servir destas observaes para me fazer dizer que os antepassados das baleias eramrealmente providos de bocas lamelares semelhantes ao bico do ganso. Quero somentefazer compreender que a suposio nada tem de impossvel, e que as vastas barbas dabaleia gronelandesa poderiam provir do desenvolvimento de lamelas semelhantes, devidoa uma srie de graus insensveis todos teis aos seus descendentes. O bico do lavanco (Spatula clypeata) oferece uma conformao muito mais bela emais complexa do que a boca da baleia. Em um especimen que examinei, a maxilasuperior tem de cada lado uma fila ou um pente de lamelas delgadas, elsticas, emnmero de cento e oitenta e oito, talhadas obliquamente em bisel, de forma a terminar emponta, e colocadas transversalmente sobre o eixo alongado da boca. Elevam-se sobre opalatino e so presas aos lados da maxila por uma membrana flexvel. As mais compridasso as do meio; tm pouco mais ou menos um tero de polegada de comprimento eexcedem o rebordo cerca de 0,14 da polegada. Observa-se na sua base uma curta fiadaauxiliar de lamelas transversais oblquas. Sob estas diversas relaes, assemelham-se sbarbas da boca da baleia; mas diferem muito para a extremidade do bico, porque sedirigem para a garganta em lugar de descer verticalmente. Toda a cabea do lavanco incomparavelmente menos volumosa do que a do Balaenoptera rostrata de tamanhomdio, espcie em que as barbas tm apenas nove polegadas de comprimento, porquerepresenta pouco mais ou menos uns dezoito avos da cabea deste ltimo; de modo que,se dssemos cabea do lavanco o comprimento da do Balaenoptera, as lamelas teriamseis polegadas de comprimento -isto , os dois teros do comprimento das barbas destaespcie de baleias. A maxila inferior do ganso lavanco est provida de lamelas queigualam em comprimento as da maxila superior, so, porm, mais finas, e diferem assimde uma maneira muito notvel da maxila inferior da baleia, que desprovida de barbas.Alm disso, as extremidades destas lamelas inferiores so divididas em pontas finamenteeriadas, e parecem-se assim curiosamente s barbas. No gnero Prion, membro dadistinta famlia dos alcatrazes, s a mandbula superior provida de lamelas bemdesenvolvidas e passando alm dos bordos, de maneira que o bico da ave parece-se,neste ponto de vista, com a boca da baleia. 259. Da estrutura altamente desenvolvida do lavanco, pode-se, sem que o intervalo sejamuito considervel (como aprendi pelas particularidades e pelos espcimens que recebi deM. Salvin) com respeito aptido para a filtrao, passar do bico do Merganetta armata, esob algumas relaes do Aix sponsa, para o bico do pato comum. Nesta ltima espcie, aslamelas so mais grosseiras do que no lavanco, e so firmemente ligadas aos lados damaxila; no h mais do que cerca de cinquenta de cada lado, e no fazem salincia porbaixo dos bordos. Terminam em quadrado, so revestidas de um tecido resistente etranslcido, e parecem destinadas triturao dos alimentos. Os bordos da mandbulainferior so cruzados por numerosas arestas finas, mas pouco salientes. Posto que, comotamis (peneira), este bico seja muito inferior ao do lavanco, serve, como todos sabem,constantemente para este uso. M. Salvin ensinou-me que h outras espcies nas quais aslamelas so consideravelmente menos desenvolvidas do que no pato comum; mas no seise estas espcies se servem do bico para filtrar a gua.Passemos a um outro grupo da mesma famlia. O bico do pato egpcio (Chenalopex)parece-se muito com o do ganso comum; mas as lamelas so menos numerosas, menosdistintas e fazem menos salincia no interior; todavia, como me ensina M. E. Bartlett, estepato serve-se do bico como o ganso, e deita a gua para fora pelos cantos. A suanutrio principal todavia a erva que come como o ganso comum, em que as lamelasquase confluentes da maxila superior so muito mais grosseiras do que no pato comum;h vinte e sete de cada lado e terminam por cima em protuberncias dentiformes. Opalatino tambm coberto de botes duros e redondos. Os bordos da maxila inferior soguarnecidos de dentes proeminentes, mais grosseiros e mais agudos do que no pato. Oganso comum no filtra a gua; serve-se exclusivamente do bico para arrancar e cortar aservas, a cujo uso est to bem adaptado que a ave pode segar a erva de muito mais pertodo que qualquer outro animal. H outras espcies de gansos, como me refere M. Bartlett,em que as lamelas so menos desenvolvidas do que no ganso comum.Vemos assim que um membro da famlia dos patos com um bico construdo como odo ganso comum, adaptado unicamente para pastar, ou apresentando apenas lamelaspouco desenvolvidas, poderia, por ligeiras alteraes, transformar-se numa espcie tendoum bico semelhante ao do ganso do Egipto - este por seu turno numa outra tendo um bicosemelhante ao do pato comum -e enfim numa forma anloga ao lavanco, provida de umbico quase exclusivamente adaptado filtrao da gua, e no podendo ser empregadopara agarrar e dilacerar os alimentos slidos a no ser com a extremidade em forma degancho. Posso juntar que o bico do pato poderia, com pequenas alteraes, transformar-setambm em um outro provido de dentes recurvados, salientes, como os do mergulho (damesma famlia), servindo para o fim muito diferente de apanhar e assegurar a presa dopeixe vivo. 260. Tornemos s baleias. O HyperGdon bidens desprovido de verdadeiros dentespodendo servir eficazmente, mas o seu palatino, segundo Lacpde, endurecido pelapresena de pequenas pontas de chifre desiguais e duras. Nada h, pois, de improvvelpara que qualquer forma cetcea primitiva tenha tido o palatino provido de pontas crneassemelhantes, mais regularmente situadas, e que, como as protuberncias do bico do pato,lhes servissem para apanhar ou dilacerar a presa. Sendo assim, pode-se apenas negarque a variao e a seleco natural tenham conseguido converter estas pontas em lamelasto desenvolvidas como o so no ganso egpcio, servindo tanto para prender os objectoscomo para filtrar a gua, depois em lamelas como as do pato domstico, e progredindosempre at que a sua conformao haja atingido a do lavanco, onde servem toexclusivamente de aparelho para filtrar. Gradaes, que podem observar-se nos cetceosainda vivos, conduzem-nos deste estado em que as lamelas tm adquirido os dois terosdo comprimento das barbas da Balaena rostrata, s enormes barbas da baleiagronelandesa. No h, pois, a menor razo para duvidar que cada passo dado nestadireco foi to favorvel a certos cetceos antigos, alterando-se as funes lentamentedurante o progresso do desenvolvimento, como so as gradaes existentes nos bicos dosdiversos membros actuais da famlia dos gansos. Devemos lembrar-nos que cada espciede gansos est exposta a uma sria luta pela existncia, e que a formao de todas aspartes da sua organizao deve ser perfeitamente adaptada s suas condies vitais.Os pleuronectos, ou peixes chatos, so notveis pela falta de simetria do corpo.Repousam sobre um lado - sobre o esquerdo na maior parte das espcies; em algumasoutras, sobre o lado direito; encontram-se mesmo algumas vezes exemplos de indivduosadultos voltados. A superfcie inferior, ou superfcie de repouso, semelha-se primeiravista superfcie inferior de um peixe ordinrio; branca; a muitos respeitos menosdesenvolvida do que a superfcie superior e as barbatanas laterais so muitas vezes maispequenas. Os olhos so, todavia, nestes peixes, a particularidade mais notvel; porqueocupam ambos o lado superior da cabea. Na primeira idade esto em face um do outro; ocorpo ento simtrico e os dois lados igualmente corados. Em breve, o olho prprio aolado inferior transporta-se lentamente volta da cabea para ir estabelecer-se no ladosuperior, mas no passa atravs do crnio, como outrora se julgava. evidente que seeste olho inferior no sofresse este transporte, seria intil para o peixe quando ocupa aposio habitual, isto , quando est deitado sobre o lado; estaria, demais a mais, expostoa ser ferido por um fundo arenoso. A abundncia extrema de muitas espcies delinguados, de solhos, etc., prova que a estrutura chata e no simtrica dos pleuronectos admiravelmente adaptada s suas condies vitais. As principais vantagens que tiram distoparecem ser uma proteco contra os inimigos, e uma grande facilidade para se nutriremno fundo. Todavia, como o faz notar Schikjdte, os diferentes membros da famlia actualapresentam uma longa srie de formas passando gradualmente do Hippoglossus pinguis,que no muda sensivelmente de forma desde que deixa o ovo, at aos linguados, que sevoltam inteiramente de um lado. 261. M. Mivart tomou este exemplo e faz notar que uma transformao espontnea erpida na posio dos olhos a custo compreensvel, ponto em que estou completamentede acordo com ele. Acrescenta ento: Se o transporte do olho para o lado oposto dacabea fosse gradual, que vantagem podia apresentar para o indivduo uma modificaoto insignificante? Parece mesmo que esta transformao de origem devia em breveser-lhe nociva. Mas poderia ter encontrado uma resposta a esta objeco nas excelentesobservaes publicadas em 1867 por M. Malm. Os pleuronectos muito novos e aindasimtricos, tendo os olhos situados nos lados opostos da cabea, no podem conservarpor muito tempo a posio vertical, atendendo altura excessiva do corpo, pequenezdas barbatanas laterais e falta de bexiga natatria. Fatigamse, pois, depressa e caem nofundo, sobre o lado. Nesta situao de repouso, segundo a observao de Malm, torcem,por assim dizer, o olho inferior para cima, para verem nesta direco, e isto com um vigorque arrasta uma forte presso do olho contra a parte superior da rbita. Torna-se, pois,muito evidente que a parte da fronte compreendida entre os olhos se contraitemporariamente. Malm teve ocasio de ver um peixe novo levantar e baixar o olho inferiornuma distncia angular de cerca de 70 graus. necessrio lembrar que, nos primeiros tempos, o crnio cartilagneo e flexvel e,por conseguinte, cede facilmente aco muscular. Sabe-se tambm que, nos animaissuperiores, mesmo aps a primeira idade, o crnio cede e deforma-se quando a pele ou osmsculos so contrados de modo permanente em seguida a uma doena ou a umacidente. Nos coelhos de grandes orelhas, se uma delas cai e se inclina para diante, o seupeso arrasta no mesmo sentido todos os ossos do crnio pertencentes ao mesmo lado dacabea, facto de que dei um exemplo. (De La Variation des Animaux, etc., 1, 127, traduofrancesa). Malm verificou que as novas percas, os salmes novos, e muitos outros peixessimtricos, logo que nascem, tm o hbito de repousar algumas vezes sobre o lado nofundo da gua; esforam-se por dirigir o olho inferior para o alto, e o crnio acaba por sedeformar um pouco. Todavia, estes peixes voltando em breve a conservar a posiovertical, no lhes resulta efeito algum permanente. Quanto mais velhos se tornam ospleuronectos, pelo contrrio, mais repousam sobre o lado, por causa do achatamentocrescente do corpo, de onde a produo de um efeito permanente sobre a forma dacabea e posio dos olhos. Julgando por analogia, a tendncia para a toro aumentasem dvida alguma pela hereditariedade. Schidte cr, em contrrio de alguns naturalistas,que os pleuronectos no so simtricos mesmo no embrio, o que permitiria compreenderpor que certas espcies, na primeira idade, repousam sobre o lado esquerdo, outras sobreo direito. Malm acrescenta, em confirmao da opinio precedente, que o Trachyterusarcticus adulto, que no pertence famlia dos pleuronectos, repousa sobre o ladoesquerdo no fundo da gua e nada diagonalmente; ora, neste peixe, pretende-se que osdois lados da cabea so um pouco dessemelhantes. A nossa grande autoridade sobre ospeixes, O Dr. Gunther, conclui a sua anlise do trabalho de Malm pela nota: O autor duma explicao muito simples da condio anormal dos pleuronectos. 262. Vemos assim que as primeiras fases do transporte do olho de um lado para o outroda cabea, que M. Mivart considera como nocivas, podem ser atribudas ao hbito, semdvida vantajoso para o indivduo e para a espcie, de olhar para cima com os dois olhos,ficando todo deitado no fundo sobre o lado. Podemos tambm atribuir aos efeitoshereditrios do uso, o facto de em alguns gneros de peixes chatos, a boca ser inclinadapara a superfcie inferior, com os maxilares mais fortes e mais eficazes do lado da cabeadesprovida de olho do que do outro lado, com o fim, como o supe o Dr. Traquair, deapanhar mais facilmente os alimentos do solo. Por outro lado, a falta de uso pode explicaro estado menos desenvolvido de toda a metade inferior do corpo, compreendendo asbarbatanas laterais; Yarrell pensa mesmo que a reduo destas barbatanas vantajosapara o peixe, porque tm para operar menos espao do que as barbatanas superiores.Pode igualmente atribuir-se falta de uso a diferena no nmero de dentes que existemnas duas mandbulas da patrua, na proporo de quatro a sete nas metades superiores, ede vinte e cinco a trinta nas metades inferiores. 263. O estado incolor do ventre da maior parte dos peixes e de outros animais podefazer-nos supor razoavelmente que, nos peixes planos, a mesma falta de colorao dasuperfcie inferior, quer seja direita quer esquerda, devida ausncia de luz. Mas nose atribuiriam aco da luz as manchas singulares que se encontram sobre o ladosuperior do linguado, manchas que se parecem com o fundo areento do mar, ou afaculdade que tm algumas espcies, como o demonstrou recentemente Pouchet, demodificar a cor para se colocarem em relao com a superfcie ambiente, ou a presena detubrculos sseos sobre a superfcie superior do rodovalho. A seleco natural temdesempenhado provavelmente aqui o papel de adaptar s condies vitais a forma geraldo corpo e muitas outras particularidades destes peixes. Como j o fiz notar com tantainsistncia, necessrio lembrar que a seleco desenvolve os efeitos hereditrios de umaumento de uso das partes, e talvez do no uso. Todas as variaes espontneas em boadireco so, com efeito, conservadas por ela e tendem a persistir, como os indivduos querecebem por herana no mais alto grau efeitos de aumento vantajoso ao uso de uma parte.Parece, contudo, impossvel decidir, em cada caso particular, o que necessrio atribuirpor um lado aos efeitos do uso e por outro lado seleco natural.Posso citar um outro exemplo de uma conformao que parece dever a sua origemexclusivamente ao uso e ao hbito. A extremidade da cauda, em alguns macacosamericanos, transforma-se num rgo prensil de uma perfeio admirvel e serve dequinta mo. Um autor que est de acordo em todos os pontos com M. Mivart nota, arespeito desta conformao, que impossvel acreditar que, seja qual for o nmero desculos decorridos, a primeira tendncia a prender pudesse preservar os indivduos que apossuem, ou a favorecer a probabilidade de ter e escolher descendentes. No h nadaque obrigue a uma tal crena. O hbito, e este quase sempre compreende uma grande oupequena vantagem, bastaria provavelmente para explicar o efeito obtido. Brehm viu osfilhos de um macaco africano (Cercopithecus) segurar-se ao ventre da me pelas mos, e,ao mesmo tempo, enroscar as pequenas caudas em volta da dela. O professor Henslowguardou em cativeiro alguns ratos das searas (Musmessorius), cuja cauda, que pela suaconformao no pode ser colocada entre as caudas prenseis, serve-lhes, contudo,muitas vezes para trepar aos ramos de um arbusto colocado na sua gaiola, enrolando-se volta dos ramos. O Dr. Gnther transmitiu-me uma observao semelhante numa rata queviu tambm suspender-se pela cauda. Se o rato das searas fosse mais estritamenteconformado para habitar as rvores, teria talvez tido a cauda munida de uma estruturaprensil como existe em alguns membros da mesma ordem. difcil dizer, em presenadestes hbitos nas primeiras idades, a razo por que o cercopiteco no adquiriu umacauda prensil. possvel, todavia, que a cauda muito comprida deste macaco lhe prestemais servios como rgo de equilbrio nos saltos prodigiosos que d, do que como rgode preso. 264. As glndulas mamrias so comuns classe inteira dos mamferos, e indispensveis sua existncia; devem, pois, ter-se desenvolvido desde uma poca excessivamenteafastada; mas no sabemos nada de positivo sobre o seu modo de desenvolvimento. M.Mivart pergunta: Pode conceber-se que o filho de um animal qualquer tenha podidojamais ser salvo da morte sugando fortuitamente uma gota de um lquido apenas nutritivosegregado por uma glndula cutnea acidentalmente hipertrofiada na me? E mesmo seassim fosse, que probabilidade haveria em favor da perpetuidade de uma tal variao?Mas a questo no est lealmente posta. A maior parte dos transformistas admitem que osmamferos derivam de uma forma marsupial; se assim , as glndulas mamrias devemter-se desenvolvido a princpio no saco marsupial. O peixe Hippocampus choca os ovos enutre os filhos durante algum tempo num saco deste gnero; um naturalista americano, M.Lockwood, concluiu do que tem visto do desenvolvimento dos filhos, que so nutridos poruma secreo das glndulas cutneas do saco. Ora, no pelo menos possvel que osfilhos possam ter sido nutridos semelhantemente entre os antepassados primitivos dosmamferos antes mesmo que merecessem este ltimo nome? Neste caso, produzindo osindivduos um lquido nutritivo, aproximando-se da natureza do leite, devem ter, nasequncia do tempo, produzido um maior nmero de descendentes bem nutridos, do queos que produzissem um lquido mais pobre; as glndulas cutneas que so as homlogasdas glndulas mamrias, devem ter-se assim aperfeioado e tornado mais activas. O factode, num certo ponto do saco, as glndulas se desenvolverem mais do que noutros,concorda com o princpio to extenso da especializao; estas glndulas tero constitudoento um seio, a princpio desprovido de mamilo como o observamos no ornitorrinco nomais baixo grau da escala dos mamferos. No pretendo, de forma alguma, julgar da parteque se pode ter prendido especializao mais completa das glndulas, quer seja acompensao do crescimento, quer os efeitos do uso, quer a seleco natural. O desenvolvimento das glndulas mamrias no poderia ter prestado qualquerservio, e no teria podido, por conseguinte, ser efectuado pela seleco natural, se osfilhos ao mesmo tempo no pudessem tirar a sua nutrio das secrees de tais glndulas.Nada mais difcil de compreender do que como que os novos mamferos aprenderaminstintivamente a sugar uma mama, e ainda explicar como os pintainhos, para sarem doovo, aprenderam a quebrar a casca ferindo-a com o bico adaptado especialmente a estefim, ou como, algumas horas depois da ecloso, sabem esgaravatar e apanhar do cho osgros destinados sua nutrio. A explicao mais provvel, nestes casos, que o hbito,adquirido pela prtica numa idade mais avanada, se transmitiu, por hereditariedade, idade mais precoce. Diz-se que o canguru novo no sabe sugar e apenas se segura aomamilo da me, que tem o poder de injectar leite na boca do filho impotente e meioformado. M. Mivart nota a este respeito: Sem uma disposio especial, o filho seriainfalivelmente sufocado pela introduo do leite na traqueia. Mas 265. h uma disposio especial. A laringe bastante alongada para subir at ao orifcioposterior da passagem nasal, e poder dar assim livre trnsito ao ar destinado aos pulmes;o leite passa inofensivamente de cada lado da laringe prolongada, e chega sem dificuldadeao esfago que est atrs. M. Mivart pergunta ento como que a seleco natural pdetirar ao canguru adulto (e aos outros mamferos, na hiptese de derivarem de uma formamarsupial) esta conformao pelo menos completamente inocente e inofensiva. Poderesponder-se que a voz, de que a importncia certamente muito grande em muitosanimais, no poderia adquirir todo o seu poder se a laringe penetrasse na passagem nasal;o professor Flower fez-me observar, alm disso, que uma conformao deste gnerocausaria grandes obstculos ao uso de uma nutrio slida para o animal. Examinemos agora resumidamente as divises inferiores do reino animal. Osequinodermos (astrias, ourios-do-mar, etc.) so providos de rgos notveis chamadospedicelos, que consistem, quando so bem desenvolvidos, num pina tridctila, isto ,numa pina composta de trs braos denticulados bem adaptados entre si e colocadosnuma haste flexvel movida por msculos. Esta tenaz pode segurar os objectos comfirmeza; Alexandre Agassiz observou um ourio transportando rapidamente parcelas deexcrementos de pina em pina ao longo de certas linhas do corpo para no sujar aconcha. Mas no h dvida que, servindo para tirar as imundcies, desempenham outrasfunes, de que uma parece ter a defesa por objecto. Como em muitas ocasiesprecedentes, M. Mivart pergunta com respeito a estes rgos: Qual podia ser a utilidadedos primeiros rudimentos destas conformaes e como podiam os gomos nascentespreservar a vida de um s equinodrida? Acrescenta: Mesmo um desenvolvimentoimprevisto da faculdade de prender no poderia ser til sem a haste mvel, nem estaltima eficaz sem a adaptao das maxilas prprias para agarrar; ora, coordenadas estascondies de estrutura, de ordem to complexa, no podem simultaneamente provir devariaes ligeiras e indeterminadas; seria mais querer sustentar um paradoxo do queneg-lo. certo, contudo, por paradoxal que isto parea a M. Mivart, que existem emmuitas astrias pinas tridctilas sem haste, fixadas solidamente na base, susceptveis deexercer a aco de prender, e que so, pelo menos em parte, rgos defensivos. Sei,devido ao obsquio que M. Agassiz teve em transmitirme um conjunto de minuciosidadessobre este assunto, que h outras astrias nas quais um dos trs braos da pina estreduzido a constituir um suporte para os outros dois, e ainda outros gneros em que oterceiro brao falta por completo. M. Perrier descreve o Echinoneus como tendo duasespcies de pedicelos, uma semelhando a do equinodrida e a outra a do espatango;estes casos so interessantes, porque fornecem exemplos de certas transies sbitasresultando do abortamento de um dos dois estados de um rgo. 266. M. Agassiz concluiu dos seus prprios estudos e dos de Mller, com respeito marcha que estes rgos curiosos deviam ter seguido na sua evoluo, que necessrio,sem dvida alguma, considerar como espinhos modificados os pedicelos das astrias e osourios-do-mar. O mesmo se pode deduzir, tanto do modo do desenvolvimento noindivduo, como da longa e perfeita srie dos graus que se observam nos diferentesgneros e nas diferentes espcies, desde simples granulaes at aos pedicelos tridctilosperfeitos, passando por espinhos ordinrios. A gradao estende-se at ao modo segundoo qual os espinhos e os pedicelos so articulados na concha por varetas calcrias que ossuportam. Encontram-se, em alguns gneros de astrias, as combinaes mais prpriaspara demonstrar que os pedicelos so simples modificaes de espinhos ramificados.Assim, encontramos espinhos fixos na base dos quais so articulados trs ramosequidistantes, mveis e denticulados, e sustentando na parte superior trs outrasramificaes igualmente mveis. Ora, quando estas ltimas sobrepem o vrtice doespinho, formam de facto um pedicelo tridctilo grosseiro que pode observar-se no mesmoespinho ao mesmo tempo que os trs ramos inferiores. No se pode, neste caso,desconhecer a identidade que existe entre os braos dos pedicelos e os ramos mveis deum espinho. Admite-se geralmente que os espinhos ordinrios servem de arma defensiva;no h, pois, razo alguma para duvidar que o mesmo se no d quanto aos ramosmveis e denticulados, de que a aco mais eficaz quando se renem para funcionarcomo aparelho prensil. Cada gradao compreendida entre o espinho ordinrio fixo e opedicelo fixo seria, pois, vantajosa ao animal. 267. Estes rgos, em lugar de serem fixos ou colocados num suporte imvel, so, emcertos gneros de astrias, colocados no vrtice de um tronco flexvel e muscular, aindaque curto; posto que sirvam de arma defensiva, tm provavelmente, neste caso, algumafuno adicional. Podem reconhecer-se nos ourios-do-mar todos os estados porquepassou o espinho fixo para terminar por articular-se com a concha e adquirir assim amobilidade. Eu quereria poder dispor de mais espao a fim de dar um resumo maiscompleto das interessantes observaes de Agassiz sobre o desenvolvimento dospedicelos. Podem, acrescenta ele, encontrar-se todos os graus possveis entre ospedicelos das astrias e os ganchos dos ofiros, outro grupo de equinoderinos, assimcomo entre os pedicelos dos ourios e as Ancoras das holotiias, que pertencem tambm mesma grande classe.Certos animais a que se d o nome de zofitos, e entre eles os poliznidas emparticular, so providos de rgos curiosos, chamados avioulrios, cuja conformao diferemuito nas diversas espcies. Estes rgos, no seu estado mais perfeito, parecem-sesingularmente com uma cabea ou um bico de abutre em miniatura; esto colocados sobreum suporte e dotados de uma certa mobilidade, o que igualmente o caso para amandbula inferior. Observei numa espcie que todos os aviculrios do mesmo ramo fazemalgumas vezes simultaneamente o mesmo movimento de vaivm, a mandbula inferiorlargamente aberta, e descrevendo um ngulo quase de 90 em 5 segundos. Estemovimento provoca um abalo em todo o poliznida. Quando se tocam as mandbulas comuma agulha, agarram-na com um vigor tal, que se pode agitar todo o ramo.M. Mivart cita este caso, porque lhe parece muito difcil que a seleco natural tivesseproduzido, nas divises to distintas do reino animal, o desenvolvimento de rgos taiscomo os aviculrios dos poliznidas e os pedicelrios dos equinodermos, rgos queconsidera como essencialmente anlogos. Ora, no que diz respeito conformao, novejo semelhana alguma entre os pedicelrios tridctilos e os aviculrios. Estes ltimosparecemse muito mais s pinas dos crustceos, semelhana que M. Mivart teria, comtanta justia, podido citar como uma dificuldade especial, ou melhor ainda, teria podidoconsiderar da mesma forma a semelhana com a cabea e o bico de uma ave. M. Busk, oDr. Smitt e o Dr. Nitsche -naturalistas que tm estudado este grupo muito atentamente-consideram os aviculrios como os homlogos dos zoides e das suas clulas compondoo zofito; o lbio ou testa mvel da clula correspondendo mandbula inferior igualmentemvel do aviculrio. Todavia, M. Busk no conhecia gradao alguma actualmenteexistente entre um zoide e um aviculrio. , pois, impossvel conjecturar por quegradaes teis uma das formas pde transformar-se em outra, mas no resulta demaneira alguma que estes graus no tenham existido. 268. Como existe uma certa semelhana entre as pinas dos crustceos e os aviculriosdos poliznidas, que servem igualmente de pinas, pode ser til demonstrar que existeactualmente uma longa srie de gradaes teis nos primeiros. Na primeira e mais simplesfase, o segmento terminal do membro move-se de maneira a aplicar-se quer contra ovrtice quadrado e largo do penltimo segmento, quer contra um lado por completo; estemembro pode assim servir para apanhar um objecto, servindo no obstante sempre dergo locomotor. Vemos em seguida que um canto do penltimo segmento termina poruma ligeira proeminncia provida algumas vezes de dentes irregulares, contra os quais oltimo segmento vem a aplicar-se. Vindo a aumentar o tamanho desta projeco e a suaforma, assim como a do segmento terminal, modificando-se e melhorando-se ligeiramente,as pinas tornam-se cada vez mais perfeitas at formar um instrumento to eficaz como aspatas-mandbulas das lagostas. Podem observar-se perfeitamente todas estas gradaes. Os poliznidas possuem, alm do aviculrio, rgos curiosos chamados vibrcula.Consistem geralmente em largas sedas capazes de movimento e facilmente excitveis.Numa espcie que examinei, as celhas vibrteis eram ligeiramente arqueadas edenteladas ao longo do bordo externo; todas as do mesmo poliznida moviam-se muitasvezes simultaneamente, de tal maneira que operando como longos remos, faziam passarrapidamente um ramo sobre o porta-objecto do meu microscpio. Se se coloca um ramosobre o bordo exterior dos poliznidas, as celhas vibrteis misturam-se e fazem violentosesforos para se libertar. Cremos que servem de meio de defesa ao animal, e, segundo asobservaes de M. Busk, expulsam lenta e docemente a superfcie do polipeiro, paraafastar o que pudesse prejudicar aos delicados habitantes das clulas logo que sassem osseus tentculos. Os aviculrios servem tambm provavelmente de meio defensivo; almdisso, apanham e matam os pequenos animais que se julga serem depois levados pelascorrentes ao alcance dos tentculos dos zoides. Algumas espcies so providas deaviculrios e de celhas vibrteis, o que no tm os primeiros; outras, mas em pequenonmero, possuem simples celhas vibrteis apenas. difcil imaginar dois objectos mais diferentes em aparncia do que uma celhavibrtil ou feixe de sedas e um aviculrio, parecendo-se com uma cabea de ave; so,contudo, quase certamente homlogas e Provm de uma origem comum, um zoide com asua clula. podemos Pois compreender como sucede que, em certos casos, estes rgospassem gradualmente de um para outro, como me afirmou M. Busk. Assim, nos aviculriosde muitas espcies de Lepralia, a mandbula mvel to alongada e to semelhante a umtufo de plos, que se no pode determinar a natureza avicullia do rgo a no ser pelapresena do bico fixo colocado por cima dele. Pode fazer-se com que as celhas vibrteissejam directamente desenvolvidas do lbio das clulas sem ter passado pela faseaviculria; mas mais provvel que tenham seguido este ltimo caminho; porque parecedifcil que, durante os estados precoces da transformao, as outras partes da clula como zoide includo tenham desaparecido subitamente. Em muitos casos as celhas vibrteistm na base um suporte canelado que parece representar o bico fixo, posto que falteinteiramente em algumas espcies. Esta teoria do desenvolvimento da celha vibrtil interessante, se fundamentada; porque, supondo que todas as espcies munidas de 269. aviculrios tenham desaparecido, a imaginao mais viva no iria jamais at ideia de queas celhas vibrteis tenham primitivamente existido como parte de um rgo semelhandouma cabea de ave ou um capuz irregular. interessante ver dois rgos to diferentesdesenvolver-se partindo de uma origem comum; ora, como a mobilidade do lbio da clulaserve de meio defensivo aos zoides, no h dificuldade alguma em acreditar que todas asgradaes no meio das quais o lbio foi transformado em mandbula inferior de umaviculrio e depois em uma seda alongada, tivessem igualmente disposies protectorasem circunstncias e direces diferentes. 270. M. Mivart, na sua discusso, trata apenas de dois casos tirados do reino vegetal erelativos, um estrutura das flores das orqudeas, e outro aos movimentos das plantastrepadoras. Relativamente s primeiras, diz: Considera-se como pouco satisfatria aexplicao que se d da sua origem - insuficiente para fazer compreender os princpiosinfinitesimais de conformaes desprovidas de utilidade a no ser quando tm atingido umdesenvolvimento considervel. Tendo tratado a rigor este assunto numa outra obra, dareiaqui apenas algumas minudncias sobre uma das mais frisantes particularidades dasflores das orqudeas, isto , sobre os seus agrupamentos de plen. Um agrupamentopolnico muito desenvolvido consiste numa quantidade de gros de plen fixos a umahaste elstica ou caudculo, e reunidos por uma pequena quantidade de uma substnciaexcessivamente viscosa. Estas junes de plen so transportadas pelos insectos aoestigma de uma outra flor. H espcies de orqudeas em que as massas de plen no tmcaudculo, sendo os gros somente ligados em conjunto por filamentos muito finos; mas intil falar nisto aqui, no sendo esta disposio particular s orqudeas; posso, no entanto,mencionar que no Cypripedium, que se encontra na base da srie desta famlia, podemosentrever o ponto de partida do desenvolvimento dos filamentos. Em outras orqudeas,estes filamentos renem-se em um ponto da extremidade das junes do plen, o queconstitui o primeiro vestgio de um caudculo. As sementes do plen abortadas que sedescobrem algumas vezes enterradas nas partes centrais e firmes do caudculofornecem-nos uma excelente prova que a origem desta conformao, mesmo quando muito desenvolvida e muito alongada. 271. Quanto segunda particularidade principal, a pequena massa de matria viscosalevada para a extremidade do caudculo, pode assinalar-se uma longa srie de gradaes,que foram todas manifestamente teis planta. Em quase todas as flores de outrasordens, o estigma segrega uma substncia viscosa. Em certas orqudeas uma matriasimilar segregada, mas muito mais considervel em quantidade, por um s dos taisestigmas, que fica estril talvez por causa da secreo copiosa de que a sede. Cadainsecto visitando uma flor deste gnero leva por atrito uma parte da substncia viscosa econduz ao mesmo tempo alguns gros de plen. Com respeito a esta simples condio,que difere apenas muito pouco das que se observam numa srie de flores comuns, hgraus de gradao infinitos -desde as espcies onde a massa polnica ocupa aextremidade de um caudculo curto e livre, at quelas em que o caudculo se prendefortemente matria viscosa, modificando-se muito por si mesmo o estigma estril.Temos, neste ltimo caso, um aparelho polinfero em condies mais desenvolvidas e maisperfeitas. Quem examinar com cuidado as flores das orqudeas, no pode negar aexistncia da srie das gradaes pr-citadas desde uma massa de gros de plenreunidos entre si por filamentos, com um estigma diferindo apenas um pouco do de umaflor ordinria, at um aparelho polinfero muito complicado e admiravelmente adaptado aotransporte pelos insectos; no se pode negar tambm que todas as gradaes so, nasdiversas espcies, muito bem adaptadas conformao geral de cada flor, com o fim deprovocar a fecundao Pelos insectos. Neste caso e em quase todos os outros, ainvestigao pode ser levada mais longe, e at Perguntar-se como que o estigma deuma flor ordinria pode tornar-se viscoso; mas, como no conhecemos a histria completade um s grupo de organismos, intil estabelecer semelhantes questes, a que nopodemos esperar responder. Vamos s plantas trepadoras. Podem classificar-se numa longa srie, desde as quese enrolam simplesmente em volta de um suporte, at s que tenho chamado de folhastrepadoras e providas de gavinhas. Nestas ltimas duas classes, as hastes tmgeralmente, mas nem sempre, perdido a faculdade de se enrolar, posto que conservem ada rotao, que possuem igualmente as gavinhas. As gradaes insensveis ligam asplantas de folhas trepadoras com as providas de gavinhas, e certas plantas podem sercolocadas indiferentemente numa ou noutra classe. Mas, se se passa de simples plantasque se enrolam s providas de gavinhas, uma qualidade importante aparece, asensibilidade ao toque, que provoca, ao contacto de um objecto, nas hastes das folhas oudas flores, nas suas modificaes em gavinhas, os movimentos com o fim de rodelo eapanh-lo. Depois de ter lido a minha memria sobre estas plantas, admitirse-, creio eu,que as numerosas gradaes de funo e de estrutura, existindo nas plantas que apenasse enrolam e as de gavinhas so, em cada caso, muito vantajosas para a espcie. Porexemplo, deve haver toda a vantagem para uma planta trepadora tornar-se numa planta defolhas trepadoras, e provvel que cada uma delas, sustentando folhas de longas hastes,se desenvolvesse numa planta de folhas trepadoras se os pecolos das folhasapresentassem, ainda que pouco, a sensibilidade requerida para responder aco do 272. tacto. 273. Constituindo o enrolamento o modo mais simples de subir por um suporte e formandoa base da nossa srie, pode naturalmente perguntar-se como puderam adquirir as plantasesta aptido nascente, que mais tarde a seleco natural aperfeioou e aumentou. Aaptido de enrolar-se depende a princpio da flexibilidade excessiva dos novos caules(carcter comum a muitas plantas que no so trepadoras); depende, em seguida, de queestes caules se torcem constantemente para se dirigirem em todas as direces,sucessivamente numa e depois noutra, na mesma ordem. Este movimento tem comoresultado a inclinao dos caules para todos os lados e determina neles uma rotaoseguida. Desde que a poro inferior do caule encontra um obstculo que o impede, aparte superior continua a torcer-se e a voltar-se, e enrola-se necessariamente tambmsubindo em volta do suporte. O movimento rotatrio cessa depois do crescimento precocede cada rebento. Esta aptido para a rotao e a faculdade de subir que a consequnciadisso, encontrando-se isoladamente nas espcies e nos gneros distintos, que pertencema famlias de plantas muito afastadas umas das outras, deve ter sido adquirida de umamaneira independente, e no por hereditariedade de um antepassado comum. Istoconduz-me a pensar que uma ligeira tendncia neste gnero de movimento no deve serrara nas plantas no trepadoras, e que esta tendncia deve fornecer seleco natural abase sobre que pode actuar para a aperfeioar. Somente conhecia, quando fiz estareflexo, um nico caso muito imperfeito, o dos novos pecolos florais do Maurandia, quese enrolam ligeira e irregularmente, como os caules das plantas trepadoras, mas sem fazeruso algum desta aptido. Fritz Mller descobriu pouco depois que os novos caules de umAlisma e de um Linum -plantas no trepadoras e muito afastadas uma da outra no sistemanatural -so afectados de um movimento de rotao bem ntido, mas irregular; acrescentaque tem razes para acreditar que esta mesma aptido existe em outras plantas. Estesligeiros movimentos parece no prestarem servio algum a estas plantas, e em todos oscasos no lhes permitem de forma alguma subir, ponto de que ns nos ocupmos.Todavia, compreendemos que se os caules destas plantas fossem flexveis, e que, nascondies em que se acham colocados, lhes fosse til subir a uma certa altura, omovimento de rotao lento e irregular que lhes habitual poderia, devido seleconatural, aumentar-se e utilizar-se at que se transformassem em espcies trepadoras bemdesenvolvidas. 274. Pode aplicar-se sensibilidade das hastes das folhas, flores e gavinhas as mesmasobservaes que aos casos de movimento rotatrio das plantas trepadoras.Encontrando-se este gnero de sensibilidade num nmero considervel de espcies quepertencem a grupos muito diferentes, deve encontrar-se num estado nascente em muitasplantas que se no tornaram trepadoras. Ora, isto exacto; na Maurandia de que j falei,observei que os novos pednculos florais se inclinam ligeiramente para o lado onde se lhestoca. Morren verificou em muitas espcies de Oxalis movimentos nas folhas e nos caules,sobretudo depois de serem expostos aos raios ardentes do Sol, quando se lhes tocalevemente e repetidas vezes, ou se sacode a planta. Renovei, com idntico resultado, asmesmas experincias em outras espcies de Oxalis; em algumas o movimento perceptvel, mas mais ntido nas folhas novas; nas outras espcies o movimento extremamente ligeiro. H um facto mais importante, se devemos acreditar Hofmeister, altaautoridade nestas matrias: os novos rebentos e as folhas de todas as plantas entram emmovimento depois de terem sido sacudidas. Sabemos que, nas plantas trepadoras, ospecolos, os pednculos e as gavinhas so sensveis somente durante o primeiro perodode crescimento. possvel ento admitir que os pequenos movimentos de que acabamos de falar,provocados pelo toque ou abalo dos rgos novos e crescentes das plantas, possam teruma importncia funcional para si. Mas, obedecendo a diversos estmulos, as plantaspossuem poderes motores que tm para elas uma importncia manifesta; por exemplo, atendncia para procurar a luz e mais raramente evit-la, a propenso para brotar nadireco contrria atraco terrestre em vez de a seguir. Os movimentos que resultam daexcitao dos nervos e dos msculos de um animal por uma corrente galvnica ou pelaabsoro da estricnina podem ser considerados como um resultado acidental, porque nemos nervos nem os msculos se tornaram especialmente sensveis a estes estimulantes.Parece igualmente que as plantas, tendo uma aptido para os movimentos causados porcertos estmulos, podem ser excitadas acidentalmente por uma pancada ou um abalo. No pois muito difcil admitir que, nas plantas de folhas trepadoras ou nas munidas degavinhas, esta tendncia fosse favorecida e aumentada pela seleco natural. contudoprovvel, pelas razes que consignei na minha memria, que tal deveria ter sucedidoapenas para as plantas que haviam j adquirido a aptido para a rotao, e que possuamassim a faculdade de se enrolar. 275. Procurei j explicar como as plantas adquiriram esta faculdade, a saber: por umaumento de uma tendncia a movimentos de rotao ligeiros e irregulares no tendo aprincpio uso algum; estes movimentos, como os provocados por uma pancada ou abalo,so o resultado acidental da aptido ao movimento, adquirido em vista de outros motivosvantajosos. No procurarei decidir se durante o desenvolvimento gradual das plantastrepadoras, a seleco natural recebeu algum auxlio dos efeitos hereditrios do uso; massabemos que certos movimentos peridicos, tais como o que se designa com o nome desono das plantas, so regulados pelo hbito. Eis os principais casos, escolhidos com cuidado por um hbil naturalista, para provarque a teoria da seleco natural impotente para explicar os estados nascentes dasconformaes teis; espero ter demonstrado, pela discusso, que, sobre este ponto, nopode haver dvidas e que a objeco no tem fundamento. Encontrei assim uma excelenteocasio de me alargar um pouco sobre as gradaes de estrutura muitas vezesassociadas a uma alterao de funes -assunto importante, que no foi assaz largamentetratado nas edies precedentes desta obra. Vou actualmente recapitular em algumaspalavras as observaes que acabo de fazer. No que respeita girafa, a conservao contnua dos indivduos de algum ruminanteextinto, ante o comprimento do pescoo, das pernas, etc., a faculdade de pastar acima daaltura mdia, e a destruio contnua dos que no podiam atingir a mesma altura, bastariapara produzir este quadrpede notvel; mas o uso prolongado de todas as partes, assimcomo a hereditariedade, deviam tambm contribuir de uma maneira importante para a suacoordenao. No h improbabilidade alguma em acreditar que, nos numerosos insectos,que imitam diversos objectos, uma semelhana acidental com um objecto qualquer foi, emcada caso, o ponto de partida da aco da seleco natural, cujos efeitos deviamaperfeioar-se mais tarde pela conservao acidental das variaes ligeiras que tendiam aaumentar a semelhana. Isto pode durar assim por tanto tempo que o insecto continue avariar e a semelhana mais perfeita lhe permite escapar aos seus inimigos dotados de umavista subtil. No palatino de algumas espcies de baleias, nota-se uma tendncia formao de pequenas pontas irregulares crneas, e, em consequncia da aptido daseleco natural para conservar as variaes favorveis, estas pontas so convertidas emns lamelares ou recortes, como os do bico do ganso -depois em lminas curtas, como asdo pato domstico -depois em lamelas to perfeitas como as do lavanco, e enfim emgigantescas barbas, como na boca da espcie da Gronelndia. As barbas servem, nafamlia dos patos, em primeiro lugar de dentes, depois em parte mastigao e em parte filtrao, e, enfim, quase exclusivamente a este ltimo uso. 276. O hbito ou o uso somente tem, tanto quanto podemos julgar, contribudo pouco ounada para o desenvolvimento de conformaes semelhantes s lamelas ou s barbas deque nos ocupamos. Pelo contrrio, o traspasse do olho inferior do peixe plano para o ladosuperior da cabea, e a formao de uma cauda prensil, em certos macacos, podem seratribudos, quase inteiramente, ao uso contnuo e hereditariedade. Quanto s mamasdos animais superiores, pode conjecturar-se que, primitivamente, as glndulas cutneasque cobriam a superfcie total de um saco marsupial, segregavam um lquido nutritivo, eque estas glndulas, melhoradas no ponto de vista da sua funo pela seleco natural econcentradas em um espao limitado, acabam por formar a mama. No mais difcil decompreender como os espinhos ramificados de algum antigo equinoderme, servindo dearmas defensivas, foram transformados pela seleco natural em pedicelos tridctilos, doque explicar o desenvolvimento das pinas dos crustceos por modificaes teis, aindaque ligeiras, operadas nos ltimos segmentos de um membro servindo a princpiounicamente para a locomoo. Os aviculrios e as celhas vibrteis dos poliznidas sorgos que tm uma mesma origem, ainda que muito diferentes pelo aspecto; fcil decompreender os servios que prestaram as fases sucessivas que produziram as celhasvibrteis. Nos ajuntamentos polnicos das orqudeas, podem encontrar-se as fases datransformao em caudculo dos filamentos que primitivamente serviam para prender emconjunto os gros do plen; pode igualmente seguirse a srie de transformaes pelasquais a substncia viscosa parecida com a que segregam os estigmas das floresordinxias, e servindo pouco mais ou menos, ainda que no inteiramente, ao mesmo uso,est ligada s extremidades livres dos caudculos; todas estas gradaes tm sidoevidentemente vantajosas s plantas em questo. Quanto s plantas trepadoras, intilrepetir o que acabo de dizer neste instante. 277. Se a seleco natural dispe de tanto poder, porque , tem-se muitas vezesperguntado, que no deu a certas espcies tal ou tal conformao que lhes houvesse sidovantajosa? Mas seria desrazovel pedir uma resposta precisa a questes deste gnero, sereflectirmos na nossa ignorncia sobre o passado de cada espcie e sobre as condiesque, hoje, determinam a sua abundncia e sua distribuio. Salvo alguns casos em quepodem invocar-se estas causas especiais, somente podemos dar de ordinrio razesgerais. Assim, como so necessariamente precisas numerosas modificaes coordenadaspara adaptar uma espcie a novos hbitos de existncia, pode ter acontecido muitas vezesque as partes necessrias no tenham variado na boa direco ou at ao grau desejado. Oaumento numrico devia, para muitas espcies, ser limitado por agentes de destruio queeram estranhos a toda a relao com certas conformaes; ora, ns imaginamos que aseleco natural devia produzir estas conformaes porque nos parecem vantajosas paraa espcie. Mas, neste caso, a seleco natural no podia provocar as conformaes deque se trata, porque no desempenham papel algum na luta pela existncia. Em muitoscasos, a presena simultnea de condies complexas, de longa durao, de naturezaparticular, actuando juntamente, necessria ao desenvolvimento de certasconformaes, e pode ser que as condies requeridas sejam poucas vezes apresentadassimultaneamente. A opinio de que uma estrutura dada, que ns julgamos, muitas vezessem razo, ser vantajosa para uma espcie, deve ser em todas as circunstncias oproduto da seleco natural, contrria ao que podemos compreender de seu modo deaco. M. Mivart no nega que a seleco natural no tenha podido efectuar alguma coisa;mas considera-a como absolutamente insuficiente para explicar os fenmenos que explicopela sua aco. Temos j discutido os seus principais argumentos, examinaremos osoutros mais adiante. Parecem-me pouco demonstrativos e de pouco peso, comparadosaos que se podem invocar em favor do poder da seleco natural apoiada por outrosagentes que muitas vezes indiquei. Devo aqui juntar que alguns factos e algunsargumentos de que fiz uso no que precede, foram citados, com o mesmo fim, numexcelente artigo recentemente publicado pelo Medico-Chirurgical Review.Actualmente, quase todos os naturalistas admitem a evoluo sob qualquer forma. M.Mivart cr que as espcies mudam em virtude de uma fora ou de uma tendnciainterna, sobre a natureza da qual nada se sabe. 278. Todos os transformistas admitem que as espcies tm uma aptido para se modificarem,mas parece-me que no h motivo algum para invocar outra fora interna que no seja atendncia variabilidade ordinria, que permitiu ao homem produzir, com o auxlio daseleco, um grande nmero de raas domsticas bem adaptadas ao seu destino, e quepode ter produzido igualmente, devido seleco natural, por uma srie de geraes, asraas ou as espcies naturais. Como temos j explicado, o resultado final constituigeralmente um progresso na organizao; contudo, apresenta-se um pequeno nmero decasos em que um retrocesso.M. Mivart est, alm disso, disposto a acreditar, e alguns naturalistas partilham dasua opinio, que as novas espcies se manifestam subitamente e por modificaesaparecendo todas ao mesmo tempo. Supe, por exemplo, que as diferenas entre ohiprion tridctilo e o cavalo se produziram bruscamente. Pensa que difcil acreditar quea asa de uma ave possa desenvolver-se de outra forma que no seja por modificaorelativamente brusca, de natureza acentuada e importante; opinio que aplica, sem dvida, formao das asas dos morcegos e dos pterodctilos. Esta concluso, que implicaenormes lacunas o uma descontinuidade da srie, parece-me improvvel no mais altograu.Os partidrios de uma evoluo lenta e gradual admitem, bem entendido, que asalteraes especficas podem ter sido to sbitas e to considerveis como uma simplesvariao isolada que observamos no estado da natureza, ou mesmo no estado domstico.Portanto, as espcies domsticas ou cultivadas sendo bem mais variveis que as espciesselvagens, pouco provvel que estas ltimas tenham sido afectadas tambm muitasvezes por modificaes to pronunciadas e to sbitas como as que surgemacidentalmente no estado domstico. Pode atribuir-se regresso muitas destas ltimasvariaes; os caracteres que reaparecem assim tinham sido provavelmente, em muitoscasos, adquiridos gradualmente no princpio. Pode dar-se ao maior nmero o nome demonstruosidades, como, por exemplo, o homem com seis dedos, o homem porco-espinho,os carneiros Ancon, o gado Niata, etc.; mas estes caracteres diferem consideravelmentedo que so nas espcies naturais e lanam pouca luz sobre o nosso assunto. Excluindosemelhantes casos de bruscas variaes, o pequeno nmero dos que ficam poderiam,encontrados no estado natural, representar quando muito espcies duvidosas, muitoaproximadas do tipo dos seus antepassados.Eis as razes que me fazem duvidar de que as espcies naturais tenhamexperimentado alteraes to bruscas como as que se observam acidentalmente nasraas domsticas, e que me impedem completamente de acreditar no processo bizarro aque M. Mivart as atribui. A experincia ensina-nos que as variaes sbitas e fortementepronunciadas se observam isoladamente e com intervalos de tempo assaz afastados dosnossos produtos domsticos. Como temos j explicado, variaes deste gneromanifestando-se no estado da natureza estariam sujeitas a desaparecer por causasacidentais de destruio, e sobretudo pelos cruzamentos subsequentes. Sabemostambm, por experincia, que no estado domstico o mesmo sucede, quando o homemno cuida em conservar e isolar com os maiores cuidados os indivduos em que 279. apareceram estas variaes sbitas. Seria necessrio ento acreditar manifestamente,segundo a teoria de M. Mivart, e contrariamente a toda a analogia, que, para dar-se aapario rpida de uma nova espcie, tivessem aparecido simultaneamente num mesmodistrito muitos indivduos admiravelmente modificados. Como no caso em que o homem,se entrega inconscientemente seleco, a teoria da evoluo gradual suprime estadificuldade; a evoluo compreende, com efeito, a conservao de um grande nmero deindivduos, variando mais ou menos numa direco favorvel, e a destruio de um grandenmero dos que variam de uma forma contrria. 280. No oferece dvida alguma que muitas espcies se desenvolveram de uma formaexcessivamente gradual. As espcies e mesmo os gneros de numerosas grandes famliasnaturais so to aproximados que muitas vezes difcil distingui-los uns dos outros. Emcada continente, indo do norte ao sul, das terras baixas s regies elevadas, etc.,encontramos uma srie de espcies anlogas ou muito prximas; notamos o mesmo factoem certos continentes separados, mas que, temos toda a razo em acredit-lo, foramoutrora reunidos. Infelizmente, as notas que precedem e as que vo seguir-se obrigam-mea fazer aluso a assuntos que teremos de discutir mais para diante. Quando seconsideram as numerosas ilhas rodeando um continente, ver-se- quanto os seushabitantes no podem ser elevados a no ser classificao de espcies duvidosas. Omesmo acontece se estudarmos o passado e se compararmos as espcies que acabamde desaparecer com as que vivem actualmente nos mesmos pases, ou se fizermos amesma comparao entre as espcies fsseis escondidas nos andares sucessivos de umamesma camada geolgica. evidente, demais, que uma srie de espcies extintas seligam da maneira mais estreita a outras espcies que existem actualmente, ou queexistiam recentemente ainda; ora, no se pode sustentar que estas espcies sejamdesenvolvidas de uma maneira brusca e rpida. No preciso to-pouco esquecer que,quando em lugar de examinar as partes especiais das espcies distintas, estudamos asdas espcies vizinhas, encontramos gradaes numerosas, de uma delicadeza admirvel,ligando estruturas totalmente diferentes. 281. Um grande nmero de factos no so compreensveis a no ser com a condio dese admitir o princpio de que as espcies so produzidas muito gradualmente; o facto, porexemplo, de as espcies compreendidas nos grandes gneros serem mais aproximadas, eapresentarem um nmero de variedades muito mais considervel que as espcies dosgneros menores. As primeiras so tambm reunidas em pequenos grupos, como o so asvariedades em torno das espcies com as quais oferecem outras analogias, assim como ovimos no segundo captulo. O mesmo princpio nos faz compreender porque os caracteresespecficos so mais variveis do que os caracteres genricos, e porque os rgosdesenvolvidos num grau extraordinrio variam mais do que as outras partes numa mesmaespcie. Poder-se-iam citar muitos factos anlogos, tendendo todos na mesma direco.Posto que um grande nmero de espcies sejam quase certamente formadas porgradaes to insignificantes como as que separam as menores variedades, poder-se-ia,contudo, sustentar que outras se desenvolveram abruptamente; mas ento serianecessrio apresentar Provas evidentes em apoio desta assero. As analogias vagas ecertas relaes falsas, como M. Chauncey Wright demonstrou, que tm sido avanadasem apoio desta teoria, tais como a cristalizao brusca de substncias inorgnicas, ou apassagem de uma forma polidrica a uma outra por alteraes de facetas, no merecemconsiderao alguma. H, contudo, uma classe de factos que, primeira vista, tenderiam aestabelecer a possibilidade de um desenvolvimento sbito: a apario rpida de seresnovos e distintos nas nossas formaes geolgicas. Mas o valor destas provas dependeinteiramente da perfeio dos documentos geolgicos relativos aos perodos muitoremotos da histria do Globo. Ora, se estes anais so to fragmentados como muitosgelogos o afirmam, nada para admirar que novas formas nos apaream como se elasacabassem de desenvolver-se subitamente.Nenhum argumento se produz em favor das bruscas modificaes pela falta de fuzisque possam preencher as lacunas das nossas formaes geolgicas, a no ser queadmitamos as transformaes prodigiosas que supeM. Mivart, tais como o desenvolvimento sbito das asas das aves e dos morcegos ou abrusca converso do hiprio em cavalo. Mas a embriologia leva-nos a protestarabertamente contra estas modificaes sbitas. sabido que as asas das aves e dosmorcegos, as pernas dos cavalos ou de outros quadrpedes no podem distinguir-se numperodo embrionrio precoce, e que se diferenam em seguida por uma marcha gradualinsensvel. Como veremos mais tarde, as semelhanas embriolgicas de todo o gneroexplicam-se pelo facto de os antepassados das nossas espcies existentes variarem apsa sua primeira juventude e transmitirem os seus caracteres novamente adquiridos aosseus descendentes numa idade correspondente. O embrio, no sendo afectado por estasvariaes, representa-nos o estado passado da espcie. o que explica porque, duranteas primeiras fases do seu desenvolvimento, as espcies existentes se parecem tofrequentemente a formas antigas e extintas pertencendo mesma classe. Quando seaceita esta opinio sobre a significao das semelhanas embriolgicas, ou qualquer outramaneira de ver, no crvel que um animal tendo sofrido transformaes to importantes eto inesperadas como as de que acabamos de falar, no oferea o menor vestgio de uma 282. modificao sbita durante o estado embrionrio; ora, cada particularidade da suaconformao desenvolve-se por fases insensveis. 283. Quem acreditar que uma forma antiga foi subitamente transformada por uma fora ouuma tendncia interna numa outra forma provida de asas por exemplo, quase forado aadmitir, contrariamente a toda a analogia, que muitos indivduos devem ter variadosimultaneamente. Ora, no se pode negar que modificaes to sbitas e toconsiderveis no diferem completamente das que a maior parte das espcies parecem tersofrido. Ser-se-a, alm disso, forado a crer na produo sbita de numerosasconformaes admiravelmente adaptadas s outras partes do corpo do indivduo e scondies ambientes, sem poder apresentar a sombra de uma explicao relativamente aestas coadaptaes to complicadas e to maravilhosas. Ser-se-ia, enfim, obrigado aadmitir que estas grandes e bruscas transformaes no deixaram no embrio vestgioalgum da sua aco. Ora, admitir tudo isto, , julgo eu, deixar o domnio da cincia, paraentrar no dos milagres. 284. Captulo VIII InstintoOs Instintos podem comparar-se aos hbitos, mas tm uma origem diferente.-Gradao dos instintos. -Formigas e pulges. -Variabilidade dos Instintos. -Instintosdomsticos; sua origem. -Instintos naturais do cuco, do avestruz e das abelhas parasitas. -Instinto esclavagista das formigas. - A abelha; seu instinto construtor. -As alteraes deinstinto e de conformao no so necessariamente simultneas. -Dificuldades da teoriada seleco natural aplicada aos instintos. - Insectos neutros ou estreis. - Resumo.So to notveis muitos dos instintos que o seu desenvolvimento parecer semdvida ao leitor uma dificuldade suficiente para destruir toda a minha teoria. Comeo pornotar que no tenho mais a inteno de procurar a origem das faculdades mentais do queas da vida. Temos, com efeito, apenas que nos ocupar das diversidades do instinto e dasoutras faculdades mentais nos animais da mesma classe.No tentarei definir o instinto. Seria fcil demonstrar que se compreendemordinariamente com este termo muitos actos intelectuais distintos; mas todos sabem o quese quer dizer quando se diz que o instinto que leva o cuco a emigrar e a pr os ovos nosninhos das outras aves. Considera-se ordinariamente como instinto um actodesempenhado por um animal, sobretudo quando novo e sem experincia, ou um actodesempenhado por muitos indivduos, da mesma maneira, sem que saibam prever o fim,ainda que somente pudssemos desempenhar o mesmo acto com o auxlio da reflexo eda prtica. Mas eu poderia demonstrar que alguns destes caracteres do instinto no souniversais, e que, segundo a expresso de Pierre Huber, pode verificarse frequentemente,mesmo nos seres pouco elevados na escala da natureza, interveno de uma certa dosede senso ou razo.Frederico Cuvier, e muitos dos velhos metafsicos, compararam o instinto ao hbito,comparao que, a meu ver, d uma noo exacta do estado mental que preside execuo de um acto instintivo, mas que nada indica quanto sua origem. Quantos actoshabituais executamos de uma forma inconsciente, mesmo muitas vezes contrariamente nossa vontade? A vontade ou a razo pode contudo modificar estes actos. Os hbitosassociam-se facilmente com outros, assim como com certas horas e certos estados docorpo; uma vez adquiridos, ficam muitas vezes constantes durante a vida. Poderiam aindaindicar-se outras semelhanas entre os hbitos e o instinto. Da mesma forma que se recitasem pensar uma cano conhecida, igualmente uma aco instintiva segue uma outracomo por uma espcie de ritmo; se se interrompe qualquer pessoa que canta ou recita decor, necessrio ordinariamente voltar atrs para retomar o fio habitual do pensamento.Pierre Huber observou o mesmo facto num bicho-da-seda que construa um casulo muitocomplicado; quando um bicho-da-seda levou o seu casulo at ao sexto andar, e se colocanum casulo construdo unicamente at ao terceiro andar, acaba simplesmente o quarto,quinto e sexto andares da construo. Mas se o bicho-da-seda se tira de um casulo 285. acabado at ao terceiro andar, por exemplo, e se coloca num outro terminado at ao sexto,de maneira que a maior parte do seu trabalho esteja j feito, em lugar de tirar partido disso,encontra-se embaraado e, para o terminar, parece obrigado a partir do terceiro andaronde tinha parado, e esfora-se assim por completar uma obra j feita. 286. Se supusermos que um acto habitual se torna hereditrio -o que muitas vezesacontece-a semelhana do que era primitivamente um hbito com o que actualmente uminstinto tal que se no poderia distingui-los um do outro. Se Mozart, em vez de tocarcravo na idade de trs anos com muito pouca prtica, tivesse tocado uma ria sem a terpraticado, teria podido dizer-se que tocava realmente por instinto. Mas seria um grave erroacreditar que a maior parte dos instintos foram adquiridos por hbito numa gerao, etransmitidos em seguida por hereditariedade nas geraes seguintes. Pode claramentedemonstrar-se que Os instintos mais frisantes que Conhecemos, os das abelhas e os demuitas formigas, Por exemplo, no podem ter sido adquiridos pelo hbito.Todos admitiro que os instintos so, no que se refere ao bem-estar de cada espcienas suas condies actuais de existncia, to importantes como a conformao fsica. Ora, pelo menos possvel que, em meios diferentes, ligeiras modificaes do instinto possamser vantajosas a uma espcie. Disto resulta que, se se pode demonstrar que os instintosvariam to pouco quanto se queira, no h dificuldade alguma em admitir que a seleconatural possa conservar e acumular constantemente as variaes do instinto, tanto quantoelas so proveitosas aos indivduos. Tal , parece-me, a origem dos instintos maismaravilhosos e mais complicados. Tem-se julgado serem os instintos como modificaesfsicas do corpo, que, determinadas e aumentadas pelo hbito e pelo uso, podem diminuire desaparecer pela falta do uso. Quanto aos efeitos do hbito, atribuo-lhes, na maior partedos casos, uma importncia menor que aos da seleco natural do que poderamoschamar as variaes espontneas do instinto -isto , das variaes produzidas por asmesmas causas desconhecidas que determinam ligeiros desvios na conformao fsica. 287. A seleco natural no pode produzir qualquer instinto complexo de outro modo queno seja pela acumulao lenta e gradual de numerosas variaes ligeiras e, contudo,vantajosas. Deveremos, pois, como para a conformao fsica, encontrar na natureza, nograus transitrios por si mesmos que tm tendido ao instinto complexo actual -graus ques poderiam encontrar-se nos predecessores directos de cada espcie -mas algunsvestgios destes estados transitrios nas linhas colaterais de descendncia; pelo menosdeveramos poder demonstrar a possibilidade de transies desta espcie; ora, comefeitoo que podemos fazer. somente, convm no esquecer, na Europa e na Amrica do Norteque os instintos dos animais foram um tanto observados; no temos, demais, qualquerensinamento sobre os instintos das espcies extintas; fiquei pois muito admirado em verque podemos to frequentemente ainda descobrir transies entre os mais simplesinstintos e os mais complicados. Os instintos podem encontrar-se modificados pelo factode uma mesma espcie ter instintos diversos em diversos perodos da existncia durantediferentes estaes, ou segundo as condies em que se encontra colocada, etc.; em talcaso, a seleco natural pode conservar um ou outro destes instintos. Encontram-se, comefeito, na natureza, exemplos de diversidade de instintos na mesma espcie.Alm disso, da mesma forma que para a conformao fsica, e segundo a minhateoria, o instinto prprio a cada espcie til a essa espcie, e no tem sido dado jamais,tanto como poderamos julgar, a uma espcie para a superioridade exclusiva de outrasespcies. Entre os exemplos que conheo de um animal que executa um acto com o fimnico aparente de este acto aproveitar a outro animal, um dos mais singulares o dospulges, que cedem voluntariamente s formigas o lquido aucarado que segregam. FoiHuber que primeiro observou esta particularidade, e os factos seguintes provam que esteabandono muito voluntrio. Depois de ter tirado todas as formigas que cercavam umadezena de pulges colocados numa planta de Rumex, impedi durante algumas horas aaproximao de novas formigas. Ao fim deste tempo, convencido de que os pulgestinham necessidade de excretar, examinei-os lupa, em seguida procurei com um cabeloacarici-los e irrit-los como fazem as formigas com as antenas, sem que qualquer delesexcretasse fosse o que fosse. Deixei depois chegar uma formiga, que, na precipitao dosseus movimentos, parecia consciente em ter feito um precioso trabalho; comeou logo apalpar sucessivamente com as antenas o abdmen dos diferentes pulges; cada umdestes, a este contacto, levantava imediatamente o abdmen e excretava uma gotalmpida de lquido aucarado que a formiga absorvia com avidez. Os pulges mais novosfaziam o mesmo; o acto era, pois, instintivo, e no o resultado da experincia. Os pulges,segundo as observaes de Huber, no manifestam certamente qualquer antipatia pelasformigas, e, se estas faltassem, acabariam por emitir a secreo sem o seu concurso. Mas,o lquido sendo muito viscoso, provvel que seja vantajoso para os pulges o seremdesembaraados dele, e por isso o no segreguem para simples vantagem das formigas.Posto que no tenhamos prova alguma que indique que o animal executa qualquer actopara o bem particular de um outro animal, cada um, contudo, esfora-se por aproveitar osinstintos de outrem do mesmo modo que cada um tenta aproveitar-se da mais fraca 288. conformao fsica das outras espcies. Igualmente ainda, no se podem considerarcertos instintos como absolutamente Perfeitos; mas no nos ocuparemos aqui, por seremdispensveis, de maiores mincias sobre este Ponto e outros anlogos. 289. Um certo grau de variao nos instintos no estado de natureza, e a sua transmissoPor hereditariedade, so indispensveis aco da seleco natural; deveria apresentar,pois, o maior nmero de exemplos, mas o espao falta-me. Devo contentar-me em afirmarque os instintos variam com certeza; assim, o instinto emigrador varia quanto direco equanto intensidade e pode mesmo perder-se totalmente. Os ninhos das aves variam como lugar em que so construdos e com a natureza e temperatura do pas habitado, mas asmais das vezes variam devido a causas que nos so completamente desconhecidas.Audubon indicou alguns casos muito notveis de diferenas entre os ninhos da mesmaespcie habitando o Norte e o Sul dos Estados Unidos. Se o instinto varivel, porque noemprega a abelha qualquer outro material de construo quando lhe falta a cera? E quesubstncia poderia ela empregar? Estou convencido que as abelhas poderiam moldar eutilizar a cera endurecida com vermelho ou amolecida com gorduras. Andrew Knightobservou que as suas abelhas, em vez de recolherem penosamente prpoles, utilizavamuma massa de cera e terebintina de que tinha coberto as rvores descortiadas. Provou-serecentemente que as abelhas, em lugar de procuraremo plen nas flores, se servem voluntariamente de uma substncia muito diferente, acevadinha. O temor de um inimigo particular certamente uma faculdade instintiva, comose pode observar nas avezinhas ainda no ninho, posto que a experincia e a vista domesmo receio nos outros animais tendam a aumentar este instinto. Tenho demonstrado,alm disso, que os diversos animais habitando as ilhas desertas somente adquirem poucoa pouco o temor pelo homem; podemos observar este facto na prpria Inglaterra, ondetodas as grandes aves so muito mais selvagens que as pequenas, porque as primeirasforam sempre muito mais perseguidas. esta, certamente, a verdadeira explicao de talfacto; pois que, nas ilhas desabitadas, as grandes aves no so mais timoratas que aspequenas; e a pega, que to desconfiada em Inglaterra, no o na Noruega, nem o mais do que a gralha mantelada no Egipto. 290. Poderiam citar-se numerosos factos comprovando que as faculdades mentais dosanimais da mesma espcie variam muito no estado de natureza. Tm-se igualmenteexemplos de hbitos estranhos que se apresentam ocasionalmente nos animaisselvagens, e que, se fossem vantajosos para a espcie, poderiam, devido seleconatural, dar origem a novos instintos. Sinto que estas afirmaes gerais, no apoiadaspelas descries dos prprios factos, faam pouca impresso no esprito do leitor; devocontentar-me, no entanto, em repetir que de tudo quanto digo possuo provas absolutas.As mudanas de hbitos ou de instinto transmitem-se por hereditariedade nosanimais domsticosO exame rpido de alguns casos observados nos animais domsticos permitir-nos-estabelecer a possibilidade ou mesmo a probabilidade de transmisso por hereditariedadedas variaes do instinto no estado de natureza. Poderemos apreciar, ao mesmo tempo, opapel que o hbito e a seleco das variaes chamadas espontneas tm gozado nasmodificaes que sofreram as aptides mentais dos nossos animais domsticos. Sabe-seo quanto variam a este respeito. Certos gatos, por exemplo, atacam naturalmente asratazanas, outros lanam-se sobre os ratos, e estes caracteres so hereditrios. Um gato,segundo M. Saint-John, espreitava sempre a capoeira, outro a repartio das lebres e doscoelhos; um terceiro caava nos terrenos pantanosos e apanhava quase todas as noitesalguma narceja. Poderia citar-se um grande nmero de casos curiosos e autnticosindicando diversas modalidades de carcter e de gosto, assim como hbitos exticos, emrelao com certas disposies de tempo ou de lugar, e tornados hereditrios. Masexaminemos as diferentes raas de ces. Sabe-se que os cachorros perdigueiros fazem aespera auxiliando os outros ces, logo pela primeira vez que se levam caa; eu mesmotenho observado um exemplo bem frisante. A faculdade de trazer a caa mo tambmhereditria em certo grau, assim como a tendncia no co de pastor para correr em tornodo rebanho e no ao encontro dos carneiros. No vejo em que estes actos, que oscachorros sem experincia executam todos da mesma forma, evidentemente com muitoprazer e sem compreender o fim porque o cachorro de presa sabe tanto quando prendeque ajuda o dono como a borboleta branca sabe a razo por que pe os ovos numa folhade couve -no vejo, digo eu, em que estes actos difiram essencialmente dos verdadeirosinstintos. Se virmos um pequeno lobo, no adestrado, parar e ficar imvel como umaesttua, desde que descobre a sua presa, depois avanar lentamente com passo muitoparticular; se virmos uma outra espcie de lobo andar correndo em torno de um rebanhode gamos, de modo a conduzi-los para um ponto determinado, consideraremos, semdvida alguma, estes actos como instintivos. Os instintos domsticos, como podechamar-se-lhes, so certamente menos estveis que os instintos naturais; tm, com efeito,sofrido a influncia de uma seleco bem menos rigorosa, tm sido transmitidos duranteum perodo bem mais curto, e em condies ambientes bem menos fixas. 291. Os cruzamentos entre diversas raas de ces provam at que ponto os instintos, oshbitos e o carcter adquiridos na domesticidade so hereditrios e que singular misturada resulta. Assim, sabe-se que o cruzamento com um buldogue tem infludo, durantemuitas geraes, na coragem e tenacidade do galgo; o cruzamento com um galgocomunica a uma famlia inteira de ces de pastor a tendncia a caar a lebre. Os instintosdomsticos submetidos assim prova do cruzamento assemelham-se aos instintosnaturais, que se confundem tambm de uma maneira curiosa, e persistem durante muitotempo na linha de descendncia; Le Roy, por exemplo, fala de um co que tinha um lobopor bisav; notava-se nele um trao apenas do seu parentesco selvagem; no vinha emlinha recta para junto do dono quando este o chamava.Tem-se dito muitas vezes que os instintos domsticos so apenas disposiestornadas hereditrias em seguida a hbitos impostos e muito tempo sustentados; isto,porm, no exacto. Ningum pensou jamais, e provavelmente ningum jamais alcanouensinar a um pombo a dar uma cambalhota, acto que tenho visto executar a borrachos quenunca viram um pombo cambalhota. Podemos acreditar que um indivduo tenha sidodotado de uma tendncia a tomar este estranho hbito e que, pela seleco contnua dosmelhores cambalhotas em cada gerao sucessiva, esta tendncia se desenvolvesse parachegar ao ponto em que se encontra hoje. Os cambalhotas das cercanias de Glasgow,pelo que me diz M. Brent, chegaram a no poder elevar-se 18 polegadas acima do solosem fazer a cambalhota. Pode pr-se em dvida que se tenha jamais pensado em dirigiros ces a fazer a espera, se um desses animais no houvesse mostrado naturalmenteuma tendncia a faz-lo; sabe-se que esta tendncia se apresenta naturalmente, e eu tivemesmo ocasio de a observar num coelheiro de raa pura. O acto de fazer a espera provavelmente um simples exagero de curta durao que faz o animal que se arrasta parase lanar sobre a presa. Manifestada a tendncia espera pela primeira vez, a selecometdica, junta aos efeitos hereditrios de uma adestrao severa em cada geraosucessiva, devia completar rapidamente este trabalho; a seleco inconsciente concorre,alm disso, sempre para este resultado, porque, sem se preocupar de outra maneira doaperfeioamento da raa, cada um trata naturalmente de procurar os ces que melhorcaam e que, por conseguinte, melhor fazem uma espera. O hbito pode, por outra parte,ter bastado em alguns casos; Poucos animais so mais difceis de aprisionar do que oslparos selvagens; pelo contrrio, nenhum se aprisiona mais facilmente que o lparodomstico; ora, como eu no posso supor que a facilidade em aprisionar os lparosdomsticos tenha feito o objecto de uma seleco especial, Pois necessrio atribuir amaior parte desta transformao hereditria de um estado selvagem excessivo ao extremooposto, ao hbito e ao cativeiro prolongado. 292. os instintos naturais perdem-se no estado domstico. Certas raas de galinhas, porexemplo, perderam o hbito de chocar os ovos e recusam-se mesmo a faz-lo. Estamosto familiarizados com os nossos animais domsticos que no vemos at que ponto assuas faculdades mentais se modificam, e isto de uma forma permanente. No se podeduvidar que a afeio para o homem no seja tornada instintiva no co. Os lobos, oschacais, as raposas, e as diversas espcies felinas, mesmo aprisionadas, so sempreinclinadas a atacar as galinhas, os carneiros e os porcos; esta tendncia incurvel nosces que foram importados muito novos de pases como a Austrlia e a Terra da Fogo,onde os selvagens no possuem qualquer destas espcies de animais domsticos. Almdisso, rarssimo que estejamos obrigados a ensinar os nossos ces, mesmo muitonovos, a no atacar os carneiros, os porcos e as aves domsticas. No duvidoso que istopossa algumas vezes acontecer, mas corrigem-se, e se eles continuam, destroem-se; detal maneira que o hbito assim como uma certa seleco concorreram para civilizar osnossos ces por hereditariedade. Demais,o hbito fez perder inteiramente aos pintainhos este terror do co e do gato, que era semdvida alguma primitivamente instintivo neles; o capito Hutton dizme, com efeito, que osfranguinhos de origem igual, o Gallus bankiva, quando mesmo chocados na ndia por umagalinha domstica, so, contudo, de uma selvajaria extrema. 293. O mesmo acontece com os faisezinhos criados na Inglaterra por uma galinhadomstica. No porque os frangos tenham perdido todo o temor, mas unicamente omedo dos ces e dos gatos; porque, se a galinha d o sinal de perigo, eles deixam-na logo(os novos perus principalmente), e vo procurar um refgio nos alpendres vizinhos;circunstncia cujo fim evidente permitir me voar, como se v em muitas avesterrestres selvagens. Este instinto, conservado pelos frangos, alm disso intil no estadodomstico; a galinha, por falta de uso, tem perdido toda a aptido do voo.Podemos concluir que os animais reduzidos domesticidade perderam certosinstintos naturais e adquiriram outros, tanto pelo hbito como pela seleco e acumulaoque fez o homem durante geraes sucessivas, de diversas disposies especiais ementais que apareceram, contudo, sob a influncia de causas que, na nossa ignorncia,chamamos acidentais. Em alguns casos, simplesmente bastam hbitos forados paraprovocar modificaes mentais tornadas hereditrias; noutros, estes hbitos no entrarampara nada no resultado, devido aos efeitos da seleco, tanto metdica como inconsciente;mas provvel que, na maior parte dos casos, as duas causas tenham actuadosimultaneamente. Instintos especiais estudando alguns casos particulares que chegaremos a compreender como, noestado de natureza, a seleco pde modificar os instintos. No apresentarei aqui maisque trs: o instinto que possui o cuco de pr os ovos no ninho das outras aves, o instintoque certas formigas possuem em procurar escravas, e a faculdade que a abelha tem deconstruir as suas celas. Todos os naturalistas concordam com razo em considerar estesdois ltimos instintos como os mais maravilhosos que se conhecem. Instinto do cuco. -Alguns naturalistas supem que a causa imediata do instinto docuco que a fmea no pe os ovos seno com intervalos de dois ou trs dias; de modoque, se tivesse de construir o ninho e chocar por si os ovos, destes os primeiros ficariamalgum tempo abandonados, ou ento haveria no ninho ovos e aves de diferentes idades.Neste caso, a durao da postura e da incubao seria muito longa, e a ave, emigrandocedo, teria o macho provavelmente de prover s necessidades dos primeiros filhosnascidos. Mas o cuco americano encontra-se nestas condies, porque esta ave faz oninho, e a se observam ao mesmo tempo avezinhas e ovos que no esto nascidos.Tem-se ora afirmado ora negado o facto de o cuco americano pr ocasionalmente os ovosnos ninhos de outras aves; mas eu sei pelo Dr. Merrell, de Iowa, que encontrou uma vezno Illinois, no ninho de um gaio (Garrulus cristatus), um pequeno cuco e um pequeno gaio;ambos tinham j bastantes penas para que se pudesse reconhec-los facilmente e semreceio de enganos. Poderia citar tambm numerosos casos de aves de espcies muitodiversas que pem algumas vezes os ovos nos ninhos de outras aves. Ora, suponhamosque o predecessor do cuco da Europa tinha tido os hbitos da espcie americana, e quetinha por vezes posto um ovo num ninho estranho. Se este hbito pudesse, quer 294. permitindo-lhe emigrar mais cedo, quer por qualquer outra causa, ser vantajoso aveadulta, ou que o instinto enganado de uma outra espcie houvesse assegurado aopequeno cuco melhores cuidados, e maior vigor do que se tivesse sido cuidado por suaprpria me, obrigada a ocupar-se ao mesmo tempo dos seus ovos e dos filhos tendotodos uma idade diferente, teria resultado vantagem tanto para a ave adulta como para anova ave. A analogia conduz-nos a acreditar que os filhos assim tratados podem herdar ohbito acidental e anormal da me, fazer a postura dos ovos noutros ninhos, e assimcuidar melhor da sua prole. Julgo que este hbito, por muito tempo continuado, terminoupor tornar bizarro o instinto do cuco. Adolfo Mller verificou recentemente, que o cuco pepor vezes os ovos no solo nu, choca-os, e nutre os filhos; este facto estranho e raroparece, evidentemente, ser um caso de regresso ao instinto primitivo de nidificao, de hmuito perdido. 295. Tem-se objectado que eu no observava no cuco outros instintos correlativos eoutras adaptaes de estrutura de modo a consider-lo como estando em coordenaonecessria. No tendo, at ao presente, nenhum facto para nos guiar, toda a especulaoa respeito de um instinto conhecido somente numa nica espcie seria intil. Os instintosdo cuco europeu e do cuco americano no parasita eram, at muito recentemente, osnicos conhecidos; mas actualmente temos, graas s observaes de M. Ramsay,algumas mincias sobre trs espcies australianas, que fazem a postura igualmente nosninhos de outras aves. Trs pontos principais h a considerar no instinto do cuco: -emprimeiro lugar, que, com raras excepes, o cuco no pe mais que um ovo num ninho, demaneira que o filho, grande e voraz, que deve nascer, receba uma nutrio abundante;-em segundo lugar, que os ovos so notavelmente pequenos, quase como os dacalhandra, ave bem mais pequena que o cuco. O cuco americano no parasita pe osovos do tamanho normal; podemos, pois, concluir que estas pequenas dimenses do ovoso um verdadeiro caso de adaptao; -em terceiro lugar, pouco depois do nascimento, 296. o novo cuco tem o instinto, a fora e uma conformao do dorso que lhe permitem expulsardo ninho seus irmos, que morrem de fome e de frio. Tem-se at sustentado que este factoera uma sbia e benfazeja disposio, que, assegurando assim uma nutrio abundanteao novo cuco, provocava a morte dos seus irmos antes que tivessem adquirido muitasensibilidade. Passemos s espcies australianas. Estas aves no pem geralmente mais que umovo no mesmo ninho; no raro, contudo, encontrarem-se dois ou mesmo trs num ninho.Os ovos do cuco bronzeado variam muito de tamanho: tm oito a dez linhas decomprimento. Ora, se houvesse vantagem em esta espcie pr ovos ainda mais pequenos,quer para enganar as outras aves, quer mais provavelmente para que sejam chocadosmais rapidamente (porque se assegura que h uma certa relao entre a grandeza do ovoe a durao da incubao), faclimo admitir-se que teria podido formar-se uma raa ouespcie de que os ovos fossem ainda mais pequenos, porque estes ovos teriam maisprobabilidades em se sair bem. M. Ramsay notou que dois cucos australianos, quandopem num ninho aberto, escolhem de preferncia os que contenham j ovos da mesmacor dos seus. H tambm, na espcie europeia, uma tendncia para um instintosemelhante, mas dela se afasta muita vez, porque se encontram ovos escuros e cinzentosem meio de ovos de um azulesverdeado brilhante da toutinegra. Se o nosso cuco fizesseinvariavelmente prova do instinto em questo, t-lo-ia certamente juntado a todos os quedevia, como se pretende, necessariamente adquirir em conjunto. A cor dos ovos do cucobronzeado australiano, segundo M. Ramsay, varia extraordinariamente; de modo que tantoa este respeito, como pelo tamanho, a seleco natural teria certamente podido escolher efixar toda a variao vantajosa. O novo cuco europeu expulsa ordinariamente do ninho, trs dias depois donascimento, os filhos dos seus pais adoptivos. Como ainda muito fraco nesta idade, M. Gold estava outrora disposto a acreditarque os pais se encarregam por si mesmo de expulsar os prprios filhos. Mas devia mudarde opinio sobre tal assunto, porque observou um novo cuco, ainda cego, e tendo a custofora para levantar a cabea, a caminho de expulsar do ninho os seus irmos adoptivos. Oobservador colocou uma destas pequenas aves no ninho e o cuco lanou-o fora. Como seter produzido este estranho e odioso instinto? Se muito importante o novo cuco, e provavelmente o caso, receber, depois do nascimento, a maior nutrio possvel, no vejogrande dificuldade em admitir que, durante numerosas geraes sucessivas, tenhagradualmente adquirido o desejo cego, a fora e a conformao mais prpria para expulsaros companheiros; com efeito, os novos cucos dotados deste hbito e desta conformaoesto mais seguros de vencer. Pode ser que o primeiro passo para a aquisio desteinstinto tenha sido apenas uma disposio turbulenta do novo cuco numa idade um poucomais avanada; em seguida, este hbito desenvolveu-se e transmitiu-se porhereditariedade a uma idade mais tenra. Isto no me parece mais difcil de admitir que oinstinto que tm as avezinhas ainda no ovo de quebrar a casca que as envolve, ou aproduo, nas pequenas serpentes, como o fez notar Owen, de um dente temporrio,colocado na maxila superior, que lhes permite abrir passagem atravs do invlucro 297. coriceo do ovo. Se cada parte do corpo susceptvel de variaes individuais em toda aidade, e estas variaes tendem a tornar-se hereditrias na idade correspondente, factosque no sofrem contestao, os instintos e a conformao podem modificar-se lentamente,tanto nos ovos como nos adultos. So estas duas proposies a base da teoria daseleco natural e que devem subsistir ou cair com ela. 298. Algumas espcies do gnero Molothrus, gnero muito distinto de aves americanas,vizinhas dos nossos estorninhos, tm hbitos parasitas semelhantes aos do cuco; estasespcies apresentam gradaes interessantes na perfeio dos seus instintos. M. Hudson,excelente observador, verificou que os Molothrus badius dos dois sexos no s vivemalgumas vezes em bandos na promiscuidade mais absoluta, mas ainda se copulam comfrequncia. Tanto constrem ninho prprio, como se aproveitam do de outra ave, lanandofora a ninhada que tem, e pondo a os seus ovos, ou constrem bizarramente no vrticeum ninho para seu uso. Chocam de ordinrio os ovos e tratam os filhos; mas M. Hudsondiz que de ocasio so provavelmente parasitas, porque observou filhos desta espcieacompanhando aves adultas de outra espcie, e gritando para que estas lhes dessemalimentos. Os hbitos parasitas de uma outra espcie de Molothrus, o Molothrusbonariensis, so muito mais desenvolvidos, sem serem, contudo, perfeitos. Este, tantoquanto se pode saber, faz a postura invariavelmente nos ninhos estranhos. Facto curioso,muitos se renem algumas vezes para comear a construo de um ninho irregular e malacondicionado, colocado em situaes singularmente mal escolhidas, sobre as folhas deum grande cardo por exemplo. Todavia, tanto quanto M. Hudson pde assegur-lo, noacabam jamais o ninho. Pem quase sempre tantos ovos quinze a vinte -no mesmo ninhoestranho, que s um pequeno nmero deles se pode chocar. Tm mais o hbitoextraordinrio de quebrar s bicadas os ovos que encontram nos ninhos estranhos, sempoupar mesmo os da prpria espcie. 299. As fmeas pem tambm muitos ovos no solo, que so encontrados perdidos. Umaterceira espcie, o Molothrus pecoris da Amrica do Norte, adquiriu to perfeitos instintoscomo os do cuco, em no pr mais que um ovo em ninho estranho, o que assegura ocuidado certo pela nova ave. H. Hudson, que um grande adversrio da evoluo foi,contudo, to ferido pela imperfeio dos instintos do Molothrus bonariensis, que pergunta,citando as minhas palavras: necessrio considerar estes hbitos, no como instintoscriados de todas as peas, de que est dotado o animal, mas como fracas consequnciasde uma lei geral, a saber: a transio?Diferentes aves, como j o fizemos notar, pem acidentalmente os ovos nos ninhosde outras aves. Este proceder no muito raro nos galinceos e explica o instinto singularque se observa no avestruz. Muitos avestruzes fmeas renem-se para fazer a postura aprincpio num ninho, depois noutro, ovos que so em seguida chocados pelosmachos.-Este instinto provm talvez de que as fmeas pem um grande nmero de ovos,mas, como o cuco, com dois ou trs dias de intervalo. No avestruz americano, todavia,como no Molothrus bonariensis, o instinto no chegou ainda a um alto grau de perfeio,porque o avestruz dispersa os ovos aqui e ali em grande nmero na plancie, a ponto talque, durante um dia de caa, cheguei a juntar vinte ovos perdidos e desperdiados.H abelhas parasitas que pem regularmente os ovos nos ninhos de outras abelhas.Este caso ainda mais curioso do que o do cuco; porque, nestas abelhas, a conformaoassim como o instinto modificaram-se para se colocarem em relao com os hbitosparasitas; no possuem, com efeito, o aparelho colector de plen que lhes seriaindispensvel se tivessem de obter e preparar os alimentos dos filhos. Algumas espciesde esfgidas (insectos que semelham as vespas) vivem como parasitas de outrasespcies. M. Fabre publicou recentemente observaes que nos autorizam a crer que,posto que o Tachytes nigra perfure ordinariamente a prpria toca e a encha de insectosparalisados destinados a nutrir as larvas, torna-se parasita todas as vezes que encontreuma toca j feita e aprovisionada por uma outra vespa e se apodera dela. Neste caso,como no do Molothrus e do cuco, no vejo dificuldade alguma em que a seleco naturalpossa tornar permanente um hbito acidental, se vantajoso para a espcie e se da noresulta a extino do insecto de que tomou traioeiramente o ninho e as provises.Instinto esclavagista das formigas. -Este notvel instinto foi a princpio descoberto naFormica (Polyergues) rufescens por Pierre Huber, talvez observador mais hbil ainda que oseu ilustre pai. Estas formigas dependem to absolutamente das suas escravas, que, semo seu auxlio, a espcie se extinguiria certamente no espao de um ano. Os machos e asfmeas fecundas no trabalham; as obreiras ou fmeas estreis, muito enrgicas e muitocorajosas quando se trata de capturar escravas, no fazem mais obra alguma. Soincapazes de construir o ninho ou de nutrir as larvas. Quando o velho ninho se encontrainsuficiente e as formigas o devem deixar, so as escravas que decidem emigrar;transportam elas mesmas as suas senhoras entre as prprias mandbulas. Estas ltimasso completamente impotentes; Huber encerrou umas trinta sem escravas, masabsolutamente providas de alimentos da sua predileco, alm disto larvas e ninfas para 300. as estimular ao trabalho; ficaram inactivas, e, no podendo nutrir-se por si, a maior partemorreu de fome. Huber introduziu depois em meio delas uma s escrava (Formica fusca),que logo comeou o seu trabalho, salvou as sobreviventes dando-lhes alimentos, construiualgumas clulas, cuidou das larvas, e ps tudo em ordem. Pode conceber-se alguma coisamais extraordinria que estes factos bem verificados? Se no conhecssemos outraespcie de formigas dotada de instinto esclavagista, seria intil especular sobre a origem eo aperfeioamento de um instinto to maravilhoso. 301. Pierre Huber foi ainda o primeiro a observar que uma outra espcie, a Formicasangunea, se utiliza tambm de escravas. Esta espcie, que se encontra nas partesmeridionais da Inglaterra, fez o objecto dos estudos de M. F. Smith, do British Museum, aoqual devo numerosos ensinamentos sobre este e outros assuntos. Cheio de confiana nasafirmaes de Huber e M. Smith, no encetei todavia o estudo desta questo semdisposies cpticas bem escusadas, pois que se tratava de verificar a realidade de uminstinto to extraordinrio. Entrarei, Pois, em algumas mincias sobre as observaes quepude fazer a tal respeito. Abri catorze formigueiros de Formica sangunea nos quaisencontrei sempre algumas escravas pertencentes espcie formica fusca. Os machos eas fmeas fecundas desta ultima espcie encontram-se apenas nos prprios formigueiros,mas nunca nos da Formica sangunea. As escravas so negras e mais pequenas do queas soberanas, que so vermelhas; o contraste pois frisante. Quando se desarranjaligeiramente o ninho, as escravas saem ordinariamente e mostram, assim como asprprias soberanas, uma viva agitao em defender o formigueiro; se a perturbao muito grande e se as larvas e as ninfas esto expostas, as escravas trabalhamenergicamente e ajudam as soberanas, levando-as e colocando-as em lugar seguro; pois, evidente que as formigas escravas se conhecem perfeitamente entre si. Durante trsanos sucessivos, em Junho e Julho, observei, horas inteiras, muitos formigueiros noscondados de Surrey e de Sussex, e no vi jamais uma s formiga escrava entrar ou sair.Como, nesta poca, as escravas so muito pouco numerosas, pensei que podia ser ocontrrio quando fossem mais abundantes; mas M. Smith, que observou essesformigueiros em diferentes horas durante os meses de Maio, Junho e Agosto, noscondados de Surrey e Hampshire, afirma-me que, mesmo em Agosto, quando o nmero deescravas muito considervel, no viu igualmente que uma sequer sasse ou entrasse.Considera-as, pois, como escravas rigorosamente domsticas. Alm disso vem-se assoberanas trazer constantemente ao formigueiro materiais de construo e provises detoda a espcie. Em 1860, no ms de Julho, descobri, contudo, uma comunidade possuindoum nmero inusitado de escravas, e notei algumas que deixavam o ninho em companhiadas suas senhoras para se dirigirem com elas para um grande pinheiro escocs, distncia aproximadamente de 25 metros, de que fizeram todas a ascenso,provavelmente em busca de pulges ou de cucos. Segundo Huber, que teve numerosasocasies de as observar na Sua, as escravas trabalham habitualmente com assoberanas na construo do formigueiro, mas so elas que, de manh, abrem as portas eque as fecham noite; afirma que o seu principal papel procurar os pulges. Estadiferena nos hbitos ordinrios das soberanas e das escravas nos dois pases, provm,provavelmente, de que na Sua as escravas so capturadas em maior nmero que naInglaterra. 302. Tive um dia a boa fortuna de assistir a uma emigrao da Formica sangunea de umninho para outro; era um espectculo interessantssimo ver as formigas soberanas trazercom o maior cuidado as suas escravas entre as mandbulas, em lugar de se fazeremtransportar por elas como no caso da Formica rufescens. Um outro dia, a presena nomesmo ponto de uma vintena de formigas esclavagistas que no andavam evidentementeem busca de alimentos, atraiu a minha ateno. Aproximaram-se de uma colniaindependente da espcie que fornece as escravas, Formica fusca, e foram vigorosamenterepelidas por estas ltimas, que se agarravam algumas vezes em grupos de trs s patasdas assaltantes. As Formica sangunea matavam sem piedade as suas pequenasadversrias e levavam os cadveres para o ninho, que se encontrava a uns trinta metrosde distncia; mas no puderam apoderar-se das ninfas para as tornarem escravas.Desterrei ento, num outro formigueiro, algumas ninfas da Formica fusca, e coloquei-as nocho junto do lugar do combate; foram logo agarradas e levadas pelas assaltantes, quejulgaram provavelmente ter alcanado a vitria na ltima peleja. 303. Coloquei ao mesmo tempo, no mesmo ponto, algumas ninfas de uma outra espcie,a Formica flava, com algumas parcelas do prprio ninho, s quais estavam ligadasalgumas dessas pequenas formigas amarelas que so por vezes, posto que raramente,segundo M. Smith, reduzidas escravido. Ainda que muito pequena, esta espcie corajosa, e vi que atacava as outras formigas com grande denodo. Tendo uma vez, comgrande surpresa minha, encontrado uma colnia independente de Formica flava, ao abrigode uma pedra colocada sob um formigueiro de Formica sangunea, espcie esclavagista,desarranjei acidentalmente os dois ninhos; as duas espcies encontraram-se em presenae vi as pequenas formigas precipitarem-se com uma coragem espantosa sobre as suasgrandes vizinhas. Ora, eu estava com interesse de saber se as Formica sanguneadistinguiam as ninfas da Formica fusca, que a espcie de que elas fazem habitualmenteas suas escravas, das da pequena e feroz Formica flava, que elas s raramenteescravizam; pude verificar que as reconhecem imediatamente. Vimos, com efeito, que seprecipitavam sobre as ninfas da Formica fusca para as apanhar de momento, enquantoque pareciam terrificadas encontrando ninfas e mesmo terra proveniente de ninho daFormica flava, e apressavam-se em pr-se a salvo. Contudo, ao fim de um quarto de hora,quando as pequenas formigas amarelas tinham desaparecido, as outras recuperaramcoragem e voltaram a procurar as ninfas.Uma tarde que eu examinava uma outra colnia de Formica sangunea, vi um grandenmero de indivduos desta espcie que reconquistavam o ninho, trazendo cadveres deFormica fusca (prova de que no era uma emigrao) e uma quantidade de ninfas.Observei uma longa fila de formigas carregadas de despojos, vindo, distncia de 40metros, detrs de uma moita de onde vi sair uma ltima Formica sangunea, trazendo umaninfa. No pude encontrar, debaixo do espesso mato, o ninho devastado; devia, contudo,estar muito prximo, porque vi duas ou trs Formica fusca extremamente agitadas, umasobretudo que, pendurada imvel de um ramo de urze, tendo entre as mandbulas umaninfa da sua espcie, parecia a imagem do desespero gemendo pelo domiclio desfeito.Tais so os factos, que, de resto, no exigiam qualquer confirmao da minha parte,sobre este notvel instinto que as formigas tm de reduzir as suas congneres escravido. O contraste entre os hbitos instintivos da Formica sangunea e os da Formicarufescens do continente digno de nota. Esta ltima no constri ninho, no decidemesmo as suas emigraes, no procura os alimentos nem para si, nem para os filhos, eno pode mesmo nutrir-se; est absolutamente debaixo da dependncia das suasnumerosas escravas. A Formica sangunea, pelo contrrio, tem muito menos escravas, e,no comeo do Estio, tem muito poucas; so as soberanas que decidem do momento e dolugar onde o novo ninho deve ser construdo, e, quando emigram, so elas quetransportam as escravas. Tanto na Sua como na Inglaterra, as escravas parecemexclusivamente destinadas a sustentar as larvas; s as soberanas empreendemexpedies para procurar as escravas. Na Sua, escravas e soberanas trabalhamconjuntamente, tanto para procurar os materiais do ninho como para o edificar; umas eoutras, mas sobretudo as escravas, vo em procura de pulges para os mugir, se podeempregar-se esta expresso, e todas recolhem assim os alimentos necessrios 304. comunidade. Em Inglaterra, as soberanas s deixam o ninho para procurar os materiais deconstruo e os alimentos indispensveis para si, para as suas escravas e para as larvas;os servios que lhes prestam as escravas so, pois, menos importantes neste pas do quena Sua. 305. No pretendo fazer conjecturas sobre a origem deste instinto da Formica sangunea.Mas, assim como tenho observado, as formigas no esclavagistas sustentam algumasvezes no seu ninho ninfas de outras espcies disseminadas na vizinhana, e possvelque as ninfas, armazenadas no princpio para servir de alimentos, tenham podidodesenvolver-se; possvel tambm que estas formigas estranhas tratadas sem inteno,obedecendo aos instintos prprios, tenham desempenhado funes de que so capazes.Se a sua presena considerada til espcie que as capturou -se se torna maisvantajoso para ela procurar obreiras do que procri-las -a seleco natural pdedesenvolver o hbito de recolher as ninfas primitivamente destinadas a servir de nutrio, et-las tomado permanentemente com o fim muito diferente de fazer delas suas escravas.Um tal instinto uma vez adquirido, ainda mesmo num grau muito menos pronunciado doque na Formica sangunea da Inglaterra - qual, como temos visto, as escravas prestammuito menos servios do que prestam mesma espcie na Sua -a seleco natural pdeacrescentar e modificar este instinto, com a condio, contudo, de que cada modificaotenha sido vantajosa espcie, e produzir, enfim, uma formiga tambm completamentecolocada na dependncia das suas escravas como a Formica rufescens.Instinto da construo das clulas nas abelhas. -No tenho inteno de entrar aquiem mincias muito circunstanciadas, contentar-me-ei em resumir as concluses a quecheguei sobre o assunto. Quem pode examinar esta delicada construo do raio de cera,to perfeitamente adaptada ao seu fim, sem experimentar um sentimento de admiraoentusiasta? Os matemticos ensinam-nos que as abelhas tm resolvido praticamente umproblema dos mais abstractos, o de dar s clulas, servindo-se do mnimo do preciosoelemento de construo, a cera, precisamente a forma capaz de conter o maior volume demel. Um hbil artfice, provido de ferramentas prprias, teria mais dificuldade em construirclulas em cera idnticas s que executa um enxame de abelhas trabalhando num cortioobscuro. Que se lhes concedam todos os instintos, parece incompreensvel que as abelhaspossam traar os ngulos e os planos necessrios e tomar conta da exactido do seutrabalho. A dificuldade no , contudo, to grande como parece primeira vista, e pode-se,creio eu, demonstrar que esta magnfica obra o simples resultado de um pequenonmero de instintos muito simples. 306. a M. Waterhouse que devo ter estudado este assunto; ele demonstrou que a formada clula est intimamente ligada presena das clulas contguas; podem, assim o julgo,considerar-se as ideias que vou expor como uma simples modificao da sua teoria.Examinemos o grande princpio das transies graduais, e vejamos se a natureza nos nomostra o processo que emprega. Na extremidade de uma srie pouco extensa,encontramos os zngos que se servem dos seus velhos casulos para depositar o mel,ajuntando-lhes por vezes tubos curtos de cera, substncia com a qual moldam igualmentepor vezes clulas separadas, muito irregularmente arredondadas. Na outra extremidade dasrie, encontramos as clulas da abelha, construdas em duas ordens; cada uma destasclulas, como sabemos, tem a forma de um prisma hexagonal com as bases de seus seislados talhadas em bisel de maneira a ajustar-se sobre uma pirmide invertida formada portrs rombos. Estes rombos apresentam certos ngulos determinados e trs faces, queformam a base piramidal de cada clula situada sobre um dos lados do raio de mel, fazemigualmente parte das bases de trs clulas contguas pertencendo ao lado oposto do raio.Entre as clulas to perfeitas da abelha, e a clula eminentemente simples do zngo,acham-se, como grau intermedirio, as clulas da Melpona domstica do Mxico, queforam cuidadosamente desenhadas e descritas por Pierre Huber. A melpona forma assimum grau intermedirio entre a abelha e o zngo, mas mais aproximada deste ltimo.Constitui um raio de cera quase regular, composto de clulas cilndricas, nas quais se faz aincubao dos filhos, e junta a estas algumas grandes clulas de cera, destinadas areceber o mel. Estas ltimas so quase esfricas, de grandeza um pouco igual eagregadas em uma massa irregular. Mas o ponto essencial a considerar que as clulasso sempre colocadas entre si a uma distncia tal que se interceptariam mutuamente, seas esferas que constituem fossem completas, o que no se realiza, construindo o insectodivises de cera perfeitamente direitas e planas sobre as linhas em que as esferasacabadas tenderiam a interceptar-se. Cada clula , pois, exteriormente composta de umaporo esfrica e, interiormente, de duas, trs ou mais superfcies planas, segundo aclula por si mesma contgua a duas, trs ou mais clulas. Quando uma clula repousasobre trs outras, o que, vista a igualdade das suas dimenses, sucede muitas vezes emesmo necessariamente, as trs superfcies planas so reunidas em uma pirmide que,como o fez notar Huber, parece ser uma grosseira imitao das bases piramidais de trsfaces da clula da abelha. Como naquela, as trs superfcies planas da clula fazem, pois,necessariamente parte da construo de trs clulas adjacentes. evidente que, por estemodo de construo, a melpona economiza cera, e, o que mais importante, trabalho;porque as paredes planas que separam duas clulas adjacentes no so duplas, mas tma mesma espessura que as pores esfricas externas, fazendo tudo parte de duasclulas ao mesmo tempo. 307. Reflectindo nestes factos, notei que se a melpona tivesse estabelecido as esferas auma distncia igual umas das outras, que se as tivesse construdo de igual grandeza e emseguida as dispusesse simetricamente em duas camadas, teria resultado uma construoprovavelmente to perfeita como o raio da abelha. Escrevi, pois, para Cambrgia, aoprofessor Miller, para lhe submeter o documento seguinte, feito segundo os seusensinamentos, e que encontrou rigorosamente exacto:Se se descrevesse um certo nmero de esferas iguais, tendo o centro colocado emdois planos paralelos, e que o centro de cada uma dessas esferas esteja a uma distncia =raio x raiz de 2=raio x 1,41421 (ou a uma distncia um pouco menor) e a igual distnciados centros das esferas adjacentes colocadas no plano oposto e paralelo; se, em seguida,se fazem passar planos de interseco entre as diversas esferas dos dois planos, resultaruma dupla camada de prismas hexagonais reunidos por bases piramidais a trs rombos, eos rombos e os lados dos prismas hexagonais tero identicamente os mesmos ngulosque as observaes mais minuciosas tm dado para as clulas das abelhas.O professor Wyman, que empreendeu numerosas e minuciosas observaes sobreeste assunto, informa-me que se tem exagerado muito a exactido do trabalho da abelha;a ponto que, junta ele, seja qual for a forma tipo da clula, muito raro que jamais se tenharealizado.Podemos, pois, concluir com toda a segurana que, se os instintos que a melponapossui j, que no so muito extraordinrios, fossem susceptveis de ligeiras modificaes,este insecto poderia construir clulas to perfeitas como as da abelha. Basta supor que amelpona pode fazer clulas completamente esfricas e de grandeza igual; ora, isto noseria muito para espantar, porque elas chegam quase a faz-lo; ns sabemos, alm disso,que um grande nmero de insectos chegam a fazer na madeira buracos perfeitamentecilndricos, o que fazem provavelmente girando em torno de um ponto fixo. Serianecessrio, verdade, supor ainda que dispunha as suas clulas em planos paralelos,como o faz j para as clulas cilndricas, e, alm disso, e isto mais difcil, que podeavaliar exactamente a distncia qual deve colocar-se das companheiras quando muitastrabalham em conjunto na construo das duas esferas; mas, sobre este ponto ainda, amelpona j sabe avaliar essa distncia com uma certa exactido, pois que descrevesempre as esferas de modo a cortarem at um certo ponto as esferas vizinhas, e querene em seguida os pontos de interseco por divises perfeitamente planas. Graas asemelhantes modificaes de instintos, que por si nos devem admirar tanto como os queguiam a ave na construo do ninho, a seleco natural, parece-me, produz na abelhainimitveis faculdades arquitecturais. 308. Esta teoria, alm disso, pode ser submetida ao veredicto da experincia. Seguindo oexemplo de M. Tegetmeier, separei dois raios colocando entre eles uma longa e espessafaixa rectangular de cera, na qual as abelhas comearam logo a fazer pequenasescavaes circulares, que aprofundaram e alargaram cada vez mais at tomarem a formade pequenas bacias tendo o dimetro ordinrio das clulas e apresentando vista umaperfeita calote esfrica. Observei com vivo interesse que, por toda a parte onde muitasabelhas tinham comeado a fazer estas escavaes junto umas das outras, elas se haviamcolocado distncia precisa para que as bacias, uma vez adquirido o dimetro til, isto ,o de uma clula ordinria, e em profundidade um sexto do dimetro da esfera de queformavam um segmento, os seus bordos se encontrassem. Desde que o trabalho chegavaa este ponto, as abelhas cessavam de cavar, e comeavam a levantar, sobre as linhas deinsero separando as escavaes, tabiques de cera perfeitamente planos, de modo quecada prisma hexagonal se erguia sobre o bordo ondulado de uma bacia achatada, emlugar de ser construdo sobre as arestas rectas das faces de uma pirmide triedra comonas clulas ordinrias.Introduzi depois no cortio, em vez de uma faixa de cera rectangular e espessa, umalmina estreita e delgada da mesma substncia corada com vermelho. As abelhascomearam, como na outra experincia, a escavar imediatamente pequenas baciasaproximadas umas das outras; mas, como a lmina de cera era muito delgada, se ascavidades tivessem a mesma profundidade que na primeira experincia, confundir-se-iamnuma s e a placa de cera seria perfurada de parte a parte. As abelhas, para evitar esteacidente, paravam a tempo o seu trabalho de escavao; de modo que, mal as cavidadesestavam um pouco delineadas, o fundo consistia numa superfcie plana formada por umafina camada de cera colorida e estas bases planas eram, tanto quanto a vista o podiajulgar, exactamente colocadas num plano fictcio de interseco imaginria passando entreas cavidades situadas do lado oposto da placa de cera. Em alguns pontos, fragmentosmais ou menos considerveis de rombos eram deixados entre as cavidades opostas; maso trabalho, atendendo ao estado artificial das condies, no fora bem executado. Deviamas abelhas ter trabalhado com igual velocidade a fim de escavar circularmente ascavidades dos dois lados da lmina de cera colorida, e chegarem a conservar separaesplanas entre as escavaes parando o seu trabalho nos planos de interseco. 309. Sendo a cera delgada muito flexvel, no vejo dificuldade alguma em que as abelhas,trabalhando dos dois lados da lmina, se apercebam facilmente do momento em quetenham levado a parede ao grau de espessura desejada, e terminem o trabalho ao mesmotempo. Nos favos ordinrios, pareceu-me que as abelhas no chegam a trabalhar semprecom a mesma velocidade dos dois lados; porque observei, na base de uma clulanovamente comeada, rombos rematados em meio que eram ligeiramente cncavos deum lado e convexos do outro, o que provinha, suponho eu, de que as abelhas tinhamtrabalhado mais velozmente no primeiro caso que no segundo. Numa circunstncia entreoutras, tornei a colocar os favos no cortio, para deixar as abelhas trabalhar durante algumtempo, em seguida, tendo examinado de novo a clula, encontrei que a separaoirregular fora concluda e tornada perfeitamente plana; era absolutamente impossvel, porser demasiado delgada, que as abelhas pudessem aplan-la roendo do lado convexo, esuponho que, em casos semelhantes, as abelhas colocadas uma de cada lado empurreme faam ceder a cera amolecida pelo calor at que ela se encontre no seu verdadeirolugar, e fazendo isto, a aplanem por completo. Fiz alguns ensaios que me provam que seobtm facilmente este resultado.A experincia precedente feita com a cera corada prova que, se as abelhasconstrussem por si mesmas uma delgada muralha de cera, poderiam dar s clulas aforma conveniente, colocando-se distncia precisa umas das outras, cavando com amesma velocidade, e procurando fazer cavidades esfricas iguais, sem jamais permitir acomunicao das esferas umas com as outras. Ora, assim como se pode provar,examinando o bordo de um favo em via de construo, as abelhas estabelecem realmenteem torno do favo um muro grosseiro que vo roendo dos dois lados opostos trabalhandosempre circularmente medida que escavam cada clula. Jamais fazem ao mesmo tempoa base piramidal de trs faces da clula, mas somente os rombos que ocupam o bordoextremo do favo crescente, e s completam os bordos superiores dos rombos quando asparedes hexagonais so comeadas. Algumas destas asseres diferem das observaesfeitas pelo clebre Huber, mas estou seguro da sua exactido e, se o espao mopermitisse, poderia demonstrar que nada tm de contraditrio com a minha teoria. 310. A assero de Huber, que a primeira clula cavada num pequeno bloco de cera defaces paralelas, no muito exacta; todas as vezes que tenho podido observar, o ponto departida sempre um pequeno carapuo de cera; mas no entrarei aqui nestas mincias.Vemos que papel importante goza a escavao na construo das clulas, mas seria umerro supor que as abelhas no podem levantar uma muralha de cera numa posiodesejada, isto , num plano de interseco entre duas esferas contguas. Eu possuomuitos especmenes que provam claramente que este trabalho lhes familiar. Mesmo namuralha ou rebordo grosseiro de cera que cerca o favo em via de construo, notam-sealgumas vezes curvaturas, correspondendo pela sua Posio s faces romboidais queconstituem as bases das clulas futuras. Mas, em todos os casos, a grosseira muralha decera deve, para ser acabada, ser consideravelmente roda dos dois lados. O modo deconstruo empregado pelas abelhas curioso; fazem sempre a muralha de cera dez avinte vezes mais espessa do que seria a parede excessivamente delgada da cluladefinitiva. As abelhas trabalham como o fariam os pedreiros que, depois de teremacumulado num ponto uma certa massa de cimento, a talhassem em seguida igualmentedos dois lados, para deixar apenas a meio uma fina camada sobre a qual empilhariam quero cimento tirado dos dois lados, quer o cimento novo. Teramos assim um muro delgadoelevando-se pouco a pouco, mas sempre encimado por um grande pinculo que, cobrindopor toda a parte as clulas em qualquer grau de avano a que tenham chegado, permite sabelhas segurar-se a e a rastejar sem danificar as paredes to delicadas das clulashexagonais. Estas paredes variam muito de espessura, como foi verificado a meu pedidopelo professor Miller. Esta espessura, segundo a mdia de doze observaes feitas juntodo bordo de um favo, de 1/353 da polegada inglesa (0,07 m); enquanto que as facesromboidais da base das clulas so mais espessas na razo aproximada de 3 para 2; aespessura, segundo a mdia de vinte e uma observaes, igual a 1/229 da polegadainglesa (0,11 mm). Portanto do modo singular de construo que acabamos de descrever,a solidez do favo vai aumentando constantemente, realizando-se a maior economiapossvel de cera. 311. A circunstncia de um grupo de abelhas trabalharem em conjunto parece, a princpio,aumentar a dificuldade de compreender o modo de construo das clulas; cada abelha,depois de ter trabalhado um momento numa clula, passa a outra, de modo que, como ofez notar Huber, uma vintena de indivduos participam, desde o comeo, na construo daprimeira clula. Pude tornar o facto evidente cobrindo os bordos das paredes hexagonaisde uma clula, ou o bordo extremo da circunferncia de um favo em via de construo, deuma delgada camada de cera colorida com vermelho. Reconheci invariavelmente que corfora to delicadamente espalhada pelas abelhas como se o fosse por meio de um pincel;com efeito, parcelas de cera corada tiradas do ponto onde haviam sido colocadas, foramconduzidas em volta dos bordos crescentes das clulas vizinhas. A construo de um favoparece, pois, ser o resultado do trabalho de muitas abelhas conservando-se todasinstintivamente mesma distncia relativa umas das outras, descrevendo todas esferasiguais, e estabelecendo os pontos de interseco entre essas esferas, quer levantando-asdirectamente, quer regulando-as quando as cavam. Em vrios casos difceis, tais como oencontro num certo ngulo de duas pores de favo, nada mais curioso do que observarquantas vezes as abelhas demolem e reconstroem uma mesma clula de diferentesmaneiras, voltando por fim, no sempre, a uma forma que a princpio tinham rejeitado.-Quando as abelhas podem trabalhar num lugar que lhes permite tomar a posio maiscmoda -por exemplo uma placa de madeira colocada a meio de um favo crescendo parabaixo, de modo que o favo seja estabelecido sobre uma face da placa -as abelhas podemento dispor as bases da muralha de um novo hexgono no seu verdadeiro lugar, fazendosalincia para alm das clulas j construdas e acabadas. Basta que as abelhas possamdispor-se distncia precisa entre si e entre as paredes das ltimas clulas feitas.Levantam ento uma parede de cera intermediria na interseco de duas esferascontguas imaginrias; mas, pelo que tenho podido observar, no acabam os ngulos deuma clula roendo-os, antes que esta e as clulas vizinhas estejam j muito avanadas.Esta aptido que as abelhas tm de levantar, em certos casos, uma grosseira muralhaentre duas clulas comeadas, importante porque se liga a um facto que parece aprincpio destruir a teoria precedente, a saber, que as clulas do bordo externo dos favosda vespa so algumas vezes rigorosamente hexagonais, mas a falta de espao impede-mede desenvolver aqui este assunto. No me parece que haja grande dificuldade em que uminsecto isolado, como a fmea da vespa, possa moldar clulas hexagonais trabalhandoalternativamente no interior e exterior de duas ou trs clulas comeadas ao mesmotempo, conservando sempre conveniente distncia relativa partes das clulas jcomeadas, e descrevendo esferas ou cilindros imaginrios entre as quais levante paredesintermdias. 312. A seleco natural actuando somente pela acumulao de leves modificaes deconformao ou instinto, todas vantajosas ao indivduo com relao s condies deexistncia, pode perguntar-se com alguma razo como numerosas modificaessucessivas e graduais do instinto construtor, tendendo todas para o plano de construoperfeita que conhecemos hoje, podem ser proveitosas abelha? A resposta parece-mefcil: as clulas construdas como as da vespa e da abelha ganham em solidez,economizando o lugar, o trabalho, e os materiais necessrios sua construo. No que concernente formao da cera, sabe-se que as abelhas tm muitas vezes dificuldade emobter nctar suficiente; M. Tegetmeier ensina-me que experimentalmente provado que,para produzir uma libra de cera, um enxame deve consumir 12 a 15 libras de acar; necessrio pois, para produzirem a quantidade de cera necessria construo dos favos,que as abelhas colham e consumam uma enorme massa de nctar lquido das flores.Demais, um grande nmero de abelhas ficam inertes muitos dias, enquanto que asecreo se faz. Para nutrir durante o Inverno uma numerosa comunidade, indispensveluma grande proviso de mel, e a prosperidade de um cortio depende essencialmente daquantidade de abelhas que pode sustentar. Uma economia de cera , pois, um elementode proveito importante para toda a comunidade de abelhas, pois que se traduz por umaeconomia de mel e do tempo que necessrio para o recolher. O sucesso da espciedepende ainda, diga-se de passagem, independentemente do que relativo quantidadede mel em proviso, dos inimigos, dos parasitas e de causas diversas. Suponhamos,contudo, que a quantidade de mel determina, como provavelmente muitas vezes sucede, aexistncia em grande nmero num pas de uma espcie de zngo; suponhamos aindaque, passando a colnia o Inverno, uma proviso de mel seja indispensvel suaconservao, no h dvida que seria muito vantajoso para o zngo que uma ligeiramodificao do instinto o levasse a aproximar as suas pequenas clulas de maneira a quese interceptassem, porque ento uma s parede comum podendo servir as duas clulasadjacentes, realizaria uma economia de trabalho e de cera. A vantagem aumentariasempre se os zngos, aproximando e regularizando alm disso as suas clulas, asagregassem numa s massa, como a melpona; porque, ento, uma parte maisconsidervel da parede limitando cada clula, servindo s clulas vizinhas, haveria aindauma economia mais considervel de trabalho e de cera. Pelas mesmas razes, seria til melpona que estreitasse mais as suas clulas, e lhes desse mais regularidade do que aque tm actualmente; porque ento, as superfcies esfricas desaparecendo e sendosubstitudas por superfcies planas, o favo da melpona seria to perfeito como o daabelha. A seleco natural no poderia conduzir-se alm deste grau de perfeioarquitectural, pois que, tanto quanto o podemos julgar, o favo da abelha jabsolutamente perfeito com relao economia de cera e de trabalho. 313. Assim, creio eu, o mais maravilhoso de todos os instintos conhecidos, o da abelha,pode explicar-se pela aco da seleco natural. A seleco natural aproveitou asmodificaes ligeiras, sucessivas e numerosas que tm sofrido instintos de uma ordemmais simples; conduziu em seguida gradualmente a abelha a descrever mais perfeitamentee mais regularmente esferas colocadas em duas ordens a iguais distncias, e a cavar e alevantar paredes planas sobre as linhas de interseco. E diga-se de passagem que asabelhas no sabem mais que descrever as suas esferas a uma distncia determinadaumas das outras, que no sabem o que sejam os diversos lados de um prisma hexagonalou os rombos da base. A causa determinante da aco da seleco natural foi aconstruo de clulas slidas, tendo a forma e a capacidade desejadas para conter aslarvas, realizada com o mnimo de despesa de cera e de trabalho. O enxame particular queconstruiu as clulas mais perfeitas com o menor trabalho e a menor despesa de meltransformado em cera tem realizado o melhor, e transmitido os seus instintos econmicosnovamente adquiridos aos enxames sucessivos que, por seu turno tambm, tm maisvantagens em seu favor na luta pela existncia. Objeces contra a aplicao da teoria da seleco natural aos instintos:insectos neutros e estreisTem-se feito, contra as hipteses precedentes sobre a origem dos instintos, aobjeco que as variaes de conformao e de instinto devem ter sido simultneas erigorosamente adaptadas umas s outras, porque toda a modificao numa, sem umamudana correspondente imediata no outro, teria sido fatal.O valor desta objeco repousa inteiramente sobre a suposio de que as alteraes,quer de conformao, quer do instinto, se produzem subitamente. Temos para exemplo ocaso do grande melharuco (Parus iiiajor), ao qual fizemos aluso num captulo precedente;esta ave, empoleirada num ramo, tem muitas vezes entre as patas as sementes do teixo,que fere com o bico at pr a amndoa a nu. Ora, no se pode conceber que a seleconatural tenha conservado todas as leves variaes individuais acrescidas na forma do bico,variaes tendentes melhor adaptao em abrir as sementes, para produzir enfim umbico to bem conformado a este fim como o da trepadeira, e que ao mesmo tempo porhbito, por necessidade, ou por uma alterao espontnea de gosto, a ave se nutra cadavez mais de sementes? 314. Supe-se, neste caso, que a seleco natural modificou lentamente a forma do bico,posteriormente a algumas lentas mudanas nos hbitos e gostos, a fim de pr aconformao em harmonia com estas ltimas. Mas se, por exemplo, as patas domelharuco chegam a variar e a engrossar em correlao com o bico ou em virtude dequalquer outra causa desconhecida, no improvvel que esta circunstncia seja denatureza a tornar a ave cada vez mais trepadora, e que este instinto, desenvolvendo-sesempre progressivamente, termine por adquirir as aptides e os instintos notveis da sita.Supe-se, em tal caso, uma modificao gradual de conformao que conduz a umaalterao nos instintos. Para tomar um outro exemplo: h poucos instintos mais curiososdo que o da salangana do arquiplago da Sonda construir o ninho com saliva endurecida.Algumas aves constrem o ninho com lama que se julga ser diluda com a saliva, e umgaivo da Amrica do Norte constri o ninho, como eu pude verificar, com pequenasvaretas aglutinadas com a saliva, e mesmo com placas de saliva endurecida. , pois, muitoimprovvel que a seleco natural de certos indivduos que segreguem uma muito grandequantidade de saliva tenha podido levar produo de uma espcie de que o instinto aobrigue a desprezar outros materiais e a construir o ninho exclusivamente com a salivaendurecida? O mesmo se d em muitos outros casos. Devemos, todavia, reconhecer que,as mais das vezes, nos impossvel saber se foi o instinto se a conformao que primeirovariou.Poderiam, sem dvida alguma, opor-se teoria da seleco natural um grandenmero de instintos cuja explicao muito difcil; h-os, com efeito, de que no podemoscompreender a origem; para outros, no conhecemos nenhum dos graus de transio porque tm passado; outros so to insignificantes, que foi a custo que a seleco naturalpde exercer alguma aco sobre eles; outros, enfim, so quase idnticos em animaismuito distanciados na escala dos seres para que se possa supor que esta semelhanaseja herana de um predecessor comum, e necessrio, por conseguinte, consider-loscomo adquiridos independentemente em virtude da aco da seleco natural. No possoestudar aqui todos estes casos diversos, levar-me-ia a uma dificuldade especial que, primeira vista, me pareceu bastante insupervel para combater a minha teoria. Quero falardos neutros ou fmeas estreis das comunidades de insectos. Estes neutros, com efeito,tm muitas vezes instintos e uma conformao por completo diferentes dos machos e dasfmeas fecundas, e, contudo, vista a sua esterilidade, no podem dar a sua raa. Esteassunto merecia um estudo profundo; todavia, examinei aqui apenas um caso especial: odas formigas obreiras ou formigas estreis. Como explicar a esterilidade destas obreiras, j uma dificuldade; no obstante, esta dificuldade no maior que a que sofrem outrasmodificaes um pouco considerveis de conformao; lcito, com efeito, demonstrarque, no estado natural, certos insectos e outros animais articulados podem por vezestornar-se estreis. Ora, se estes insectos viviam em sociedade, e era vantajoso para acomunidade que anualmente um certo nmero destes membros nascessem aptos para otrabalho, mas incapazes de procriar, fcil de compreender que este resultado pode serproduzido pela seleco natural. Ponhamos, porm, de lado este primeiro ponto. A grandedificuldade existe sobretudo nas diferenas considerveis que se mostram entre a 315. conformao das formigas obreiras e a dos indivduos sexuados; o trax das obreiras temuma conformao diferente; so desprovidas de asas e algumas vezes no tm olhos; oseu instinto diferente por completo. Se se tratasse somente do instinto, a abelhaoferecer-nos-ia o exemplo mais frisante da diferena entre as obreiras e as fmeasperfeitas. Se a formiga obreira ou os outros insectos neutros fossem animais ordinrios, euadmitiria, sem hesitao, que todos os seus caracteres se acumularam lentamente devido seleco natural; isto , que indivduos nascidos com algumas modificaes vantajosas,as transmitiram aos descendentes, que variando ainda, tm sido escolhidos por sua vez. eassim em seguida. Mas a formiga obreira um insecto que difere muito dos pais e que,contudo, completamente estril; de modo que a formiga obreira no tem jamais podidotransmitir as modificaes de conformao ou de instinto que to gradualmente adquiriu.Como , pois, possvel conciliar este facto com a teoria da seleco natural? 316. Lembro primeiramente que numerosos exemplos atribudos aos animais tanto noestado domstico como no estado natural, nos provam que h toda a espcie dediferenas de conformaes hereditrias em correlao com certas idades e com um eoutro sexo. H diferenas que esto em correlao no somente com um s sexo, masainda com o curto perodo durante o qual o sistema reprodutor est em actividade; aplumagem nupcial de muitas aves, e o gancho da maxila do salmo macho. H mesmoligeiras diferenas nos chifres de diversas raas de bois, que acompanham um estadoimperfeito artificial ao sexo masculino; certos bois, com efeito, tm os chifres maisalongados que os dos bois pertencentes a outras raas, relativamente ao comprimentodestes mesmos apndices, tanto nos touros como nas vacas pertencendo s mesmasraas. No vejo, pois, grande dificuldade em supor que um caracter termina por seencontrar em correlao com o estado de esterilidade que caracteriza certos membros dascomunidades de insectos; a verdadeira dificuldade est em explicar como pde a seleconatural acumular semelhantes modificaes correlativas de estrutura. 317. Insupervel, primeira vista, esta dificuldade diminui e desaparece mesmo,lembrando que a seleco se aplica famlia to bem como ao indivduo, e pode destemodo atingir-se o fim desejado. Assim, os tratadores de gado bovino desejam que, entreos seus animais, o gordo e o magro estejam bem misturados: o animal que apresenteestes caracteres bem desenvolvidos morto; mas o tratador continua a procurar indivduosda mesma fonte, e vence. Podemos acreditar tanto na seleco, que se poderia formar,passado muito tempo, uma raa de gado bovino dando sempre bois de chifresextraordinariamente longos, observando cuidadosamente que indivduos, touros ou vacas,produzam, pela cpula, bois de pontas muito grandes, se bem que nenhum boi possajamais propagar a sua espcie. Eis aqui, alm disso, um excelente exemplo: segundo M.Verlot, algumas variedades do goivo anual duplo, tendo sido muito tempo submetidas auma seleco conveniente, do sempre, por semente, uma grande proporo de plantastendo flores duplas e inteiramente estreis, mas tambm algumas flores simples efecundas. Somente estas ltimas flores asseguram a propagao da variedade, e podemcompararse s formigas fecundas machos e fmeas, enquanto que as flores duplas eestreis podem comparar-se s formigas neutras da mesma comunidade. Da mesmaforma que entre as variedades do goivo, a seleco, entre os insectos vivendo emsociedade, exerce a sua aco, no sobre o indivduo, mas na famlia, para atingir umresultado vantajoso. Podemos, pois, concluir que ligeiras modificaes de estrutura ou deinstinto, em correlao com a esterilidade de certos membros da colnia, so vantajosaspara si mesmas; por conseguinte, os machos e as fmeas fecundas prosperaram etransmitiram sua progenitura fecunda a mesma tendncia em produzir membros estreisapresentando as mesmas modificaes. devido repetio deste mesmo processo quepouco a pouco se foi acumulando a prodigiosa diferena que existe entre as fmeasestreis e as fmeas fecundas da mesma espcie, diferena que notamos em tantosinsectos vivendo em sociedade. 318. Resta-nos tratar do ponto mais difcil, isto , o facto de os neutros, nas diversasespcies de formigas, diferirem no somente dos machos e das fmeas fecundas, masainda uns dos outros, ainda que por vezes num grau to diminuto, e a ponto de formaremduas ou trs castas. Estas castas no se confundem umas com as outras, mas soperfeitamente definidas, porque so to distintas entre si que tanto podem ser duasespcies do mesmo gnero, como dois gneros da mesma famlia. Assim, nos Eciton, hneutras obreiras e soldados, de que as maxilas e os instintos diferem extraordinariamente;nos Cryptoceros, as obreiras de uma casta tm na cabea um curioso escudo, cujo uso ainda desconhecido; nos Myrmecocytus do Mxico, as obreiras de uma casta jamaisabandonam o ninho; so nutridas pelas obreiras de uma outra casta, e tm um abdmenenormemente desenvolvido, que segrega uma espcie de mel, suprindo o que fornecem oszngos que as nossas formigas europeias conservam em cativeiro, e que se poderiamconsiderar como constituindo para elas um verdadeiro gado domstico.Acusar-me-o de ter uma confiana presuntiva no princpio da seleco natural,porque no admito que factos to extraordinrios e to bem verificados devam destruir porcompleto a minha teoria. No caso mais simples, isto , aquele em que h apenas umasimples casta de insectos neutros que, segundo me parece, a seleco natural tornoudiferentes das fmeas e dos machos fecundos, podemos concluir, pela analogia com asvariaes ordinrias, que as leves modificaes, sucessivas e vantajosas, no tm surgidoem todos os neutros de um mesmo ninho, mas em alguns somente; e que, devido persistncia das colnias providas de fmeas produzindo o maior nmero de neutros assimvantajosamente modificados, os neutros acabaram todos por apresentarem o mesmocarcter. Deveramos, se este modo de ver tivesse fundamento, encontrar muitas vezes,no mesmo ninho, insectos neutros apresentando gradaes de estrutura; ora, isto o quesucede, mesmo bastante frequentemente, se se considerar que, at hoje, se no tmestudado com cuidado os insectos licutros fora da Europa. M. F. Smith demonstrou que,entre muitas formigas da Inglaterra, os neutros diferem uns dos outros de uma maneiranotvel pelo talhe, e algumas vezes pela cor; demonstrou, alm disso, que se podemencontrar, no mesmo ninho, todos os indivduos intermdios que ligam as formas maisextremas, o que pude verificar por mim prprio. Encontram-se algumas vezes num ninhoas grandes obreiras em maior nmero do que as pequenas ou reciprocamente; soabundantes tanto as grandes como as pequenas, enquanto que as de tamanho mdio soraras. A Forinica flava tem obreiras grandes e pequenas, e algumas de talhe mdio; nestaespcie, segundo as observaes de M. F. Smith, as grandes obreiras tm olhos simplesou ocelos, bem visveis posto que pequenos, enquanto que estes mesmos rgos sorudimentares nas pequenas obreiras. Uma dissecao atenta de muitas obreirasprovou-me que os olhos so, nas pequenas, muito mais rudimentares do que deveriasupor-se pelo tamanho, e creio eu, sem que queira afirm-lo de uma maneira categrica,que as obreiras de talhe mdio tm tambm os olhos apresentando caracteresintermdios. Temos, pois, neste caso, dois grupos de obreiras estreis no mesmo ninho,diferentes no s pelo talhe, mas ainda pelos rgos da viso, e ligadas por algunsindivduos apresentando caracteres intermdios. Juntarei, se me for permitida esta 319. digresso, que, se as obreiras mais pequenas fossem as mais teis comunidade, aseleco teria actuado sobre os machos e as fmeas produzindo o maior nmero destaspequenas obreiras, at que se tornassem todas assim, teria resultado ento uma espciede formigas de que as neutras seriam quase semelhantes s da Myrmica. As obreiras damyrmica, com efeito, nem mesmo possuem os rudimentos dos olhos, posto que os machose as fmeas deste gnero tenham olhos simples e bem desenvolvidos. 320. Posso citar um outro caso. Estava to seguro de encontrar gradaes referentes amuitos pontos importantes da conformao das diversas castas de neutros de uma mesmaespcie, que aceitei com toda a boa vontade a oferta queM. F. Smith me fez de enviar-me um grande nmero de indivduos apanhados num ninhode Anomma, formiga da frica Ocidental. O leitor julgar talvez melhor das diferenasexistentes nestas obreiras pelos termos de comparao exactamente proporcionais, doque pelas medidas reais: esta diferena a mesma que a que existiria num grupo depedreiros de que uns tivessem apenas 5 ps e 4 polegadas, enquanto que outros tivessem6 ps; mas seria necessrio supor, alm disso, que estes ltimos tinham a cabea quatro eno trs vezes maior que a dos homens pequenos, e as maxilas quase cinco vezesmaiores tambm. Demais, as maxilas das formigas obreiras de diversos tamanhos diferempela forma e nmero de dentes. Mas o ponto importante para ns, que, posto que sepossam agrupar estas obreiras em castas tendo tamanhos diferentes, contudo estesgrupos confundem-se uns com os outros, tanto com respeito ao talhe como conformaodas maxilas. Desenhos feitos em cmara clara por sir J. Lubbock, segundo as maxilas quetenho dissecado em obreiras de diferente tamanho, demonstram incontestavelmente estefacto. Na sua interessante obra, Le Naturaliste sur les Amazones, M. Bates descreveucasos anlogos.Em presena destes factos, creio que a seleco natural, actuando sobre as formigasfecundas ou parentes, pde levar formao de uma espcie produzindo regularmenteneutras, todas grandes, com as maxilas tendo uma certa forma, ou todas pequenas, comas maxilas tendo uma outra conformao, ou enfim, o que o cmulo da dificuldade, aomesmo tempo obreiras de uma grandeza e estrutura dadas e simultaneamente outrasobreiras diferentes em tais aspectos; devia formar-se a princpio uma srie graduada,como nos casos da Anomma, pois que as formas extremas se tm desenvolvido emnmero sempre muito considervel, devido persistncia dos pais que as procriaram, atque por fim tenha cessado a produo das formas intermdias. 321. M. Wallace props uma explicao anloga para o caso igualmente complexo decertas borboletas do arquiplago malaio de que as fmeas apresentam regularmente duase mesmo trs formas distintas. M. Fritz Mller recorreu mesma argumentaorelativamente a certos crustceos do Brasil, nos quais se podem reconhecer duas formasmuito diferentes nos machos. Mas no necessrio entrar aqui em discusso profundasobre este assunto.Creio ter, no que precede, explicado como se produziu este facto admirvel, que,numa mesma colnia, existam duas castas nitidamente distintas de obreiras estreis, todiferentes umas das outras como os pais. Podemos facilmente compreender que a suaformao devia ter sido to vantajosa s formigas vivendo em sociedade como o princpioda diviso do trabalho pode ser til ao homem civilizado. As formigas, todavia, pem emaco instintos, rgos ou utenslios hereditrios, enquanto que o homem se serve, paratrabalhar, de conhecimentos adquiridos e de instrumentos fabricados. Mas devo confessarque, apesar de toda a minha f na seleco natural, nunca pude esperar que pudesseproduzir resultados to importantes, se no estivesse convencido pelo exemplo dosinsectos neutros. Entrei pois, sobre este assunto, em mincias um pouco maiscircunstanciadas, se bem que ainda insuficientes, a princpio, para fazer compreender opoder da seleco natural, e, depois, porque se tratava de uma das dificuldades maissrias que a minha teoria tem encontrado.O caso tambm dos mais importantes, visto que prova que, tanto nos animais comonas plantas, uma soma qualquer de modificaes pode ser realizada pela acumulao devariaes espontneas, ligeiras e numerosas, pois que so vantajosas, mesmo fora detoda a interveno do uso e do hbito. Com efeito, os hbitos particulares prprios sfmeas estreis ou neutras, seja qual for a durao que tenham tido, no poderiam, demaneira alguma, afectar os machos ou as fmeas, nicos que deixam descendentes.Estou maravilhado de ningum ter ainda pensado em arguir o caso dos insectos contra ateoria bem conhecida dos hbitos hereditrios enunciada por Lamarck. 322. ResumoProcurei, neste captulo, demonstrar abreviadamente que os hbitos mentais dosnossos animais domsticos so variveis, e que as suas variaes so hereditrias. Tenhotambm, e mais brevemente ainda, procurado demonstrar que os instintos podemligeiramente variar no estado de natureza. Como se no pode contestar que os instintos decada animal tm para ele uma alta importncia, no h dificuldade alguma a que, sob ainfluncia de alteraes nas condies de existncia, a seleco natural possa acumularem qualquer grau leves modificaes de instinto, desde que apresentem alguma utilidade.O uso e a falta de uso tm provavelmente desempenhado o seu papel em certos casos.No pretendo que os factos indicados neste captulo venham apoiar muito a minhateoria, mas julgo tambm que nenhuma das dificuldades que se levantam de molde aaniquil-la. Por outro lado, o facto dos instintos no serem sempre perfeitos e seremalgumas vezes sujeitos a erro; -de nenhum instinto ser produzido para vantagem de outrosanimais, se bem que certos animais tirem um partido vantajoso do instinto dos outros! -deo axioma: Natura non facit saltum (a natureza no d saltos), tanto aplicvel aos instintoscomo conformao fsica, se explicar to facilmente pela teoria desenvolvida acima, e deoutra forma ficar ininteligvel -so outros tantos argumentos que tendem a corroborar ateoria da seleco natural.Alguns outros factos relativos aos instintos vm ainda em seu apoio; o casofrequente, por exemplo, das espcies vizinhas mas distintas, habitando pontos afastadosdo Globo, e vivendo em condies de existncia muito diferentes, que, todavia, tmconservado quase os mesmos instintos. Assim torna-se-nos fcil compreender como, emvirtude do princpio de hereditariedade, o tordo da parte tropical da Amrica do Sul forra oninho de lama, como o faz o tordo de Inglaterra; como que os calaus tanto da fricacomo da ndia tm o mesmo instinto bizarro de aprisionar as fmeas no buraco de umarvore, deixando apenas uma pequena abertura pela qual os machos do o alimento me e aos filhos; como ainda que a carria macho (Trogloditas) das Amricas do Norteconstri um poleiro no qual se empoleira como o macho da nossa carria-hbito que seno encontra em qualquer outra ave conhecida. Enfim, admitindo mesmo que a deduono seja rigorosamente lgica, infinitamente mais satisfatrio considerar certos instintos,tais como o que possui o novo cuco, de expulsar do ninho os seus irmos -o das formigasem procurar escravas -o das larvas do icnumon em devorar o interior do corpo daslagartas vivas -no como o resultado de actos criadores especiais, mas como pequenasconsequncias de uma lei geral, tendo por fim o progresso de todos os seres organizados,isto , a sua multiplicao, a sua variao, a persistncia do mais forte e a eliminao domais fraco. 323. Captulo IX HibridezDistino entre a esterilidade dos primeiros cruzamentos e a dos hbridos. -Aesterilidade varivel em grau no universal, afectada pela consanguinidade prxima,suprimida pela domesticidade. -Leis que regem a esterilidade dos hbridos. -A esterilidadeno um carcter especial, mas depende de outras diferenas, e no sobrecarregadapela seleco natural. -Causas da esterilidade dos hbridos e dos primeiros cruzamentos.-Paralelismo entre os efeitos de mudanas nas condies de existncia e nas docruzamento. -Dimorfismo e trimorfismo. -A fecundidade das variedades cruzadas e de seusdescendentes mestios no universal. -Hbridos e mestios comparadosindependentemente da sua fecundidade. - Resumo.Os naturalistas admitem geralmente que os cruzamentos entre as espcies distintasso feridos especialmente de esterilidade para impedir que elas se confundam. Estaopinio parece, primeira vista, muito provvel, porque as espcies de um mesmo pasquase se no poderiam conservar distintas, se fossem susceptveis de se entrecruzarlivremente. Este assunto tem para ns uma grande importncia, sobretudo neste sentidode a esterilidade das espcies, aps um primeiro cruzamento, e a da sua descendnciahbrida, no poderem provir, como o demonstrarei, da conservao de graus sucessivos evantajosos para a esterilidade. A esterilidade resulta das diferenas no sistema reprodutordas espcies prximas.Ordinariamente, ao tratar-se deste assunto, confundem-se duas ordens de factos queapresentam diferenas fundamentais, e que so, por um lado, a esterilidade da espcie emseguida a um primeiro cruzamento, e, por outro lado, a dos hbridos que provm destescruzamentos.O sistema reprodutor das espcies puras est, bem entendido, em perfeito estado, etodavia, logo que se cruzam, no produzem seno poucos ou nenhuns descendentes. Poroutro lado, os rgos reprodutores dos hbridos so funcionalmente impotentes, como oprova claramente o estado do elemento macho, tanto nas plantas como nos animais,embora os prprios rgos, tanto quanto o permite o microscpio verificar, pareamperfeitamente conformados. No primeiro caso, os dois elementos sexuais que concorrempara formar o embrio so completos; no segundo caso, so ou completamenterudimentares ou mais ou menos atrofiados. Esta distino importante, quando seconsidera a causa da esterilidade que comum para os dois casos; tem-se-lhe ligadopouca importncia provavelmente porque, num e noutro caso, se encara a esterilidadecomo o resultado de uma lei absoluta cujas causas escapam nossa inteligncia. 324. A fecundidade de cruzamentos entre variedades, isto , entre formas que se sabe ouse supe descendentes de pais comuns, assim como a fecundidade entre os mestios ,pela minha teoria, to inteiramente importante como a esterilidade das espcies; porqueparece resultar destas duas ordens de fenmenos uma distino bem clara e distinta entreas variedades e as espcies. Graus de esterilidadeExaminemos primeiro a esterilidade de cruzamentos entre as espcies e a da suadescendncia hbrida. Dois observadores conscienciosos, Klreuter e Grtner, quase quedevotaram a sua vida ao estudo deste assunto, e impossvel ler as memrias queconsagraram a esta questo sem adquirir a convico profunda que os cruzamentos entreas espcies so, at certo ponto, feridos de esterilidade. Klreuter considera esta lei comouniversal, mas este autor corta o n da questo, porque, por dez vezes, no hesitou emconsiderar como verdadeiras duas formas perfeitamente fecundas entre si e que a maiorparte dos autores olha como espcies distintas. Grtner admite tambm a universalidadeda lei, mas contesta a fecundidade completa nos dois casos citados por Klreuter. Mas,neste caso como em muitos outros, esquecem-se de contar cuidadosamente as sementes,para demonstrar que h grande diminuio de fecundidade. Compara sempre o nmeromximo de sementes produzidas pelo primeiro cruzamento entre as duas espcies, assimcomo o mximo produzido pela sua posteridade hbrida com o nmero mdio que do, noestado de natureza, s espcies prximas puras. Introduz assim, parece-me, uma causagrave de erro; porque uma planta, para ser artificialmente fecundada, deve ser submetida castrao, e, o que muitas vezes importantssimo, deve ser encerrada para impedir queos insectos lhe levem o plen de outras plantas. Quase todas as plantas de que Grtner seserviu para as suas experincias estavam em vasos e colocadas num dos quartos da suacasa. Ora, certo que semelhante tratamento muitas vezes nocivo fecundidade dasplantas, porque Grtner fala de uma vintena de plantas que fecundou artificialmente com oprprio plen delas depois de as ter castrado ( necessrio excluir os casos como os dasleguminosas, para os quais a manipulao necessria dificlima), e metade destasplantas sofreram uma diminuio de fecundidade. Por outro lado, como Grtner cruzoumuitas vezes certas formas, tais como o morrio azul (Anagallis arvensis e Anagalliscaerulea), que os melhores botnicos consideram como variedades e que ele encontrouabsolutamente estreis, pode duvidar-se que haja realmente tantas espcies estreis,quando se cruzam, como ele parece ter suposto. 325. certo, por um lado, que a esterilidade das diversas espcies cruzadas difere por talforma em grau e oferece tantas gradaes insensveis; que, por um lado, a fecundidadedas espcies puras to facilmente afectada por diferentes circunstncias, que , naprtica, muito difcil dizer onde acaba a fecundidade perfeita e onde comea a esterilidade.No se saberia, creio eu, encontrar uma melhor prova deste facto de que as conclusesdiametralmente opostas, quanto s mesmas espcies, a que chegaram os doisobservadores mais experimentados que tm existido, Klreuter e Grtner. tambm muitoinstrutivo comparar sem entrar em particularidades que no encontrariam aqui o lugarnecessrio as provas apresentadas pelos nossos melhores botnicos sobre a questo desaber se certas formas duvidosas so das espcies ou das variedades, com as provas defecundidade apresentadas por diversos horticultores que tm cultivado hbridos, ou por ummesmo horticultor, depois das experincias feitas em diferentes pocas. Pode-sedemonstrar assim que nem a esterilidade nem a fecundidade fornecem distino algumasegura entre as espcies e as variedades. As provas tiradas desta fonte ofereceminsensveis gradaes, e do lugar s mesmas dvidas que as que se tiram de outrasdiferenas de constituio e de conformao.Quanto esterilidade dos hbridos nas geraes sucessivas, se bem que se tenhapodido tratar alguns evitando com grande cuidado todo o cruzamento com uma ou outradas duas espcies puras durante seis ou sete e mesmo, num caso, durante dez geraes,Grtner nota expressamente que a fecundidade delas jamais aumenta, mas que aocontrrio diminui ordinariamente de repente. Pode notar-se, a propsito desta diminuio,que, quando um desvio de estrutura ou de constituio comum aos dois pais, transmitido muitas vezes com maior intensidade ao descendente; ora, nas plantas hbridas,os dois elementos sexuais so j afectados em certo grau. Mas creio que, na maior partedestes casos, a fecundidade diminui em virtude de uma causa independente, isto , oscruzamentos entre indivduos muito prximos. Tenho feito tantas experincias, tenhoreunido um conjunto de factos to considervel, provando que, por um lado, o cruzamentoocasional com um indivduo ou com uma variedade distinta aumenta o vigor e afecundidade dos descendentes, e, por outro lado, que os cruzamentos consanguneosproduzem o efeito inverso, que no poderia duvidar da exactido desta concluso. Osexperimentadores ordinariamente pouco tratam dos hbridos, e como as duas espciesmes, assim como outros hbridos aliados, crescem a maior parte do tempo no mesmojardim, preciso impedir com cuidado o acesso de insectos no tempo da florao. Resultaque, em cada gerao, a flor de um hbrido geralmente fecundada pelo prprio plen,circunstncia que deve prejudicar a sua fecundidade j diminuda pelo facto da sua origemhbrida. Uma afirmao, muitas vezes repetida por Grtner, fortifica a minha convico aeste respeito; ele afirma que se fecundarmos artificialmente os hbridos, mesmo os menosfecundos, com plen hbrido da mesma variedade, a fecundidade aumenta muitovisivelmente e vai sempre aumentando, apesar dos efeitos desfavorveis que podemexercer as manipulaes necessrias. Procedendo a fecundaes artificiais, toma-semuitas vezes plen por acaso (eu sei-o por experincia), plen das anteras de uma outraflor que no o da prpria flor que se quer fecundar, de forma que resulta um cruzamento 326. entre duas flores, muito embora elas pertenam muitas vezes mesma planta. Por outrolado, quando se trata de experincias complicadas, um observador to cuidadoso comoGrtner, devia submeter os hbridos castrao, de forma que em cada gerao umcruzamento se realizasse com toda a segurana com o plen de uma outra florpertencente quer mesma planta, quer a outra, mas sempre da mesma natureza hbrida. 327. O extraordinrio crescimento de fecundidade nas geraes sucessivas de hbridosfecundados artificialmente, contrastando com o que se passa naqueles que soespontaneamente fecundados, poderia assim explicar-se, julgo eu, pelo facto de que soevitados os cruzamentos consanguneos.Passemos agora aos resultados obtidos por um terceiro experimentador no menoshbil, o reverendo W. Herbert. Afirma que alguns hbridos so perfeitamente fecundos, tofecundos como as espcies primrias puras, e sustenta as suas concluses com tantavivacidade como Klreuter e Grtner, que consideram, pelo contrrio, que a lei geral danatureza que todo o cruzamento entre espcies distintas ferido de um certo grau deesterilidade. Herbert experimentou sobre as mesmas espcies que Grtner. Podeatribuir-se, creio eu, a diferena nos resultados obtidos grande habilidade de Herbert emhorticultura e ao facto de que tinha estufas quentes sua disposio. Citarei um exemplonico entre as suas numerosas e importantes observaes: Todos os vulos de umamesma vagem de Crinum sapense fecundados pelo Crinum revolutum produziram cadaum uma planta, facto que jamais tenho visto no caso de fecundao natural. H pois umafecundidade perfeita, ou mesmo mais perfeita que de ordinrio, no primeiro cruzamentooperado entre duas espcies distintas. 328. Este caso do Crinum leva-me a assinalar o facto singular de que se podem facilmentefecundar plantas individuais de certas espcies de Lobelia, de Verbascum e de Passifloracom o plen proveniente de uma espcie distinta, mas no com plen proveniente damesma planta, posto que este ltimo seja perfeitamente so e apto a fecundar outrasplantas e outras espcies. Todos os indivduos dos gneros Hippeastrum e Carydalis,assim como o demonstrou o professor Hildebrando, todos os indivduos das diversasorqudeas, como o demonstraram Scott e Fritz Mller, apresentam esta mesmaparticularidade. Resulta que certos indivduos anormais de algumas espcies, e todos osindivduos de outras espcies, se cruzam muito mais facilmente quando no podem serfecundados pelo plen proveniente do mesmo indivduo. Assim, um bolbo de Hippeastrumaulicuni produziu quatro flores; Herbert fecundou trs com o prprio plen, e a quarta foiposteriormente fecundada com o plen proveniente de um hbrido misto provindo de trsespcies distintas; eis o resultado desta experincia: Os ovrios das trs primeiras florescessaram logo de se desenvolver e morreram no fim de alguns dias, enquanto que avagem fecundada pelo plen do hbrido cresceu vigorosamente, chegou rapidamente maturao, e produziu gros excelentes que germinaram facilmente. Experinciassemelhantemente feitas durante muitos anos por Herbert deramlhe sempre os mesmosresultados. Estes factos servem para mostrar de que causas misteriosas e insignificantesdepende algumas vezes a maior ou menor fecundidade de uma espcie.As experincias prticas dos horticultores, posto que faltando-lhes preciso cientfica,merecem, contudo, alguma ateno. notrio que quase todas as espcies dePelargonium, de Fuchsia, de Calceolaria, de Petunia, de Rhododendron, etc., tm sidocruzadas de mil maneiras; contudo muitos destes hbridos produzem regularmentesementes. Herbert afirma, por exemplo, que um hbrido de Calecolaria integrifolia e deCalceolaria plantaginea, duas espcies to dessemelhantes quanto possvel pelos seushbitos gerais, se reproduziu to regularmente como se fosse uma espcie natural dasmontanhas do Chile. Fiz vrios estudos para determinar o grau de fecundidade de algunsrododendros hbridos, provenientes de cruzamentos mais complicados, e adquiri aconvico de que muitos deles so completamente fecundos. C. Noble, por exemplo,ensina-me que obtm por enxertia um grande nmero de indivduos de um hbrido entre oRhododendron Ponticum e o Rhododendron Carawbiense, e que este hbrido d sementesem to grande abundncia quanto se pode imaginar. Se a fecundidade dos hbridosconvenientemente tratados fosse sempre diminuindo de gerao em gerao, comoGrtner o pensa, o facto seria conhecido dos horticultores. Estes cultivam quantidadesconsiderveis dos mesmos hbridos, e somente assim que as plantas se encontramcolocadas em condies convenientes; a interveno dos insectos permite, com efeito,cruzamentos fceis entre os diferentes indivduos e impede a influncia nociva de umaconsanguinidade muito prxima. Podemos facilmente convencer-nos da eficcia doconcurso dos insectos examinando as flores dos rododendros hbridos mais estreis; noproduzem plen e, contudo, os estigmas so cobertos de plen proveniente de outrasflores. 329. Tm-se feito menos experincias precisas nos animais do que nas plantas. Se podedar-se crdito s nossas classificaes sistemticas, isto , se os gneros zoolgicos soto distintos uns dos outros como o so os gneros botnicos, podemos concluir dosfactos verificados que, nos animais, indivduos mais afastados entre si na escala naturalpodem cruzar-se mais facilmente que entre os vegetais; mas os hbridos que provmdestes cruzamentos so, creio eu, mais estreis. preciso, contudo, tomar emconsiderao o facto de que poucos animais se reproduzem voluntariamente em cativeiro,e que, por consequncia, somente tm havido poucas experincias feitas em boascondies: o canrio, por exemplo, foi cruzado com nove espcies distintas de pardais;mas, como nenhuma destas espcies se reproduz em cativeiro, no temos ocasio deesperar que o primeiro cruzamento entre eles e o canrio ou entre os seus hbridos sejaperfeitamente fecundo. Quanto fecundidade das geraes sucessivas dos animaishbridos os mais fecundos, no conheo caso em que tenham sido tratadas ao mesmotempo duas famlias de hbridos provenientes de pais diferentes, de maneira a evitar osefeitos nocivos dos cruzamentos consanguneos. Tem-se, pelo contrrio, habitualmentecruzado em conjunto irmos e irms em cada gerao sucessiva, apesar dos conselhosconstantes de todos os tratadores. No , pois, para admirar que, nestas condies, aesterilidade inerente aos hbridos esteja sempre em aumento.Muito embora no conhea nenhum caso bem autntico de animais hbridosperfeitamente fecundos, tenho razes para acreditar que os hbridos do Cervulus vaginalise do Cervulus Reevesii, assim como os do Phasianus colchicus e do Phasianus torquatus,so perfeitamente fecundos. M. Quatrefages verifica que se pode observar em Paris afecundidade inter se, durante oito geraes, dos hbridos provenientes de duas borboletas(Bombyx cynthia e Bombyx arrindia). Tem-se recentemente afirmado que duas espciesto distintas como a lebre e o coelho, quando se consegue junt-las, do produtos que somuitssimo fecundos quando se cruzam com uma das espcies pais. Os hbridos entre oganso comum e o ganso chins (Anagalis cygnoides), duas espcies assaz diferentes paraque sejam dispostas ordinariamente em gneros distintos, so muitas vezes reproduzidasneste pas com uma ou outra das origens puras, e num s caso inter se. Este resultado foiobtido por M. Eyton, que tratou dois hbridos provenientes dos mesmos pais, mas deposturas diferentes; estas duas aves no lhe deram menos de oito hbridos de uma sninhada, hbridos que se viu serem os filhos dos gansos puros. Estes gansos, de raascruzadas, devem ser muitssimo fecundos na ndia, porque dois juzes irrefutveis em talmatria, M. Blyth e o capito Hutton, informaram-me que se criam em diversas partesdesse pas rebanhos inteiros de gansos hbridos; ora, preciso que a fecundidade sejaperfeita, visto que os criam para auferir lucros, e ali se no encontram quaisquer das purasespcies mes. 330. As nossas diversas raas de animais domsticos cruzados so Perfeitamentefecundas, e, contudo, em muitos casos descendem de duas ou mais espcies selvagens.Devemos concluir deste facto, ou que as espcies mes primitivas tm produzidoprimeiramente As condies desfavorveis afectam mais facilmente a fecundidade, tantodos primeiros cruzamentos como dos hbridos, do que a das espcies puras. Mas o graude fecundidade dos primeiros cruzamentos igualmente varivel em virtude de umadisposio inata, porque esta fecundidade nem sempre igual em todos os indivduos dasmesmas espcies, cruzadas nas mesmas condies; parece depender em parte daconstituio dos indivduos que foram escolhidos para a experincia. O mesmo se d comos hbridos, porque a fecundidade varia algumas vezes muito entre os diversos indivduosprovenientes das sementes contidas na mesma cpsula, e expostas s mesmascondies. Entende-se, pelo termo de afinidade sistemtica, as semelhanas que as espciestm umas com as outras com relao estrutura e constituio. Ora esta afinidade regulamuitssimo a fecundidade dos primeiros cruzamentos e a dos hbridos que dela provm. o que prova claramente o facto de jamais se poder obter hbridos entre espciesclassificadas em famlias distintas, enquanto que, por outro lado, as espcies muitoprximas podem, em geral, cruzar-se facilmente. Todavia, a relao entre a afinidadesistemtica e a facilidade de cruzamento no de nenhuma maneira rigorosa. Poder-se-ocitar numerosos exemplos de espcies muito prximas que recusam cruzar-se ou que ofazem apenas com extrema dificuldade, e casos de espcies muito distintas que, aocontrrio, se unem com uma grande facilidade. Pode, numa mesma famlia, encontrar-seum gnero, como o Dianthus por exemplo, no qual um grande nmero de espcies seentrecruzam facilmente, e um outro gnero, tal como o Silene, no qual, apesar dosesforos mais perseverantes, no houve possibilidade de se obter o menor hbrido emespcies extremamente prximas. Encontramos estas mesmas diferenas nos limites deum mesmo gnero; tm-se, por exemplo, cruzado numerosas espcies do gneroNicotiniana muito mais que as espcies de qualquer outro gnero; contudo, Grtnerverificou que a Nicotiniana acuminata, que, como espcie, nada tem deextraordinariamente particular, no pode fecundar oito outras espcies de Nicotiniana, nemser fecundada por elas. Podia citar muitos casos anlogos. 331. Ningum pde ainda indicar qual a natureza ou grau de diferenas apreciveis quebastem para impedir o cruzamento das duas espcies. Pode demonstrar-se que plantasmuito diferentes pelo seu aspecto geral e pelos seus hbitos, e apresentandodessemelhanas muito notveis em todas as partes da flor, mesmo no plen, no fruto enos cotildones, podem ser cruzadas conjuntamente. Podemos muitas vezes cruzarfacilmente em conjunto plantas anuais e vivazes, rvores de folhas caducas e de folhaspersistentes, plantas adaptadas a climas muito diferentes e habitando estaescompletamente diversas.Por expresso de cruzamento recproco entre duas espcies, entendo casos tais,como, por exemplo, o cruzamento de um cavalo com uma burra, depois o de um burro comuma gua, pode dizer-se que as duas espcies foram reciprocamente cruzadas. H muitasvezes diferenas imensas quanto facilidade com que podem realizar-se os cruzamentosrecprocos. Os casos deste gnero so de uma grande importncia, porque provam que aaptido que tm duas espcies de se cruzar muitas vezes independente das suasafinidades sistemticas, isto , de inteira diferena na sua organizao, excepto o sistemareprodutor. Klreuter, h muito tempo j, observou a diversidade de resultados queapresentam os cruzamentos recprocos entre as mesmas duas espcies. Para citar umexemplo, a Mirabilis jalapa facilmente fecundada pelo polen da Mirabilis longiflora e oshbridos que provm deste cruzamento so muito fecundos; mas Klreuter experimentoumais de duzentas vezes, no espao de oito anos, fecundar reciprocamente a Mirabilislongiflora com o plen da Mirabilis jalapa sem que o pudesse alcanar. Conhecem-seoutros casos no menos surpreendentes. Thuret observou o mesmo em certos fucosmarinhos. Demais, Grtner reconheceu que a diferena na facilidade com que oscruzamentos recprocos se podem efectuar , em grau menos pronunciado, muito geral.Observou-o mesmo entre formas muito vizinhas, tais como a Matthiola annua e a Matthiolaglabra, que muitos botnicos consideram como variedades. ainda um facto notvel queos hbridos provenientes de cruzamentos recprocos, quer constitudos pelas duas mesmasespcies -pois que cada uma delas foi sucessivamente empregada como pai e depoiscomo me -quer divergindo raramente pelos seus caracteres exteriores, diferemgeralmente um pouco e algumas vezes muito quanto relao de fecundidade. 332. Poderiam tirar-se das observaes de Grtner muitas outras regras singulares;assim, por exemplo, algumas espcies tm uma facilidade notvel em se cruzar comoutras; certas espcies do mesmo gnero so notveis pela energia com que imprimem asua semelhana descendncia hbrida; mas estas duas aptides no vonecessariamente em conjunto. Certos hbridos em vez de apresentar caracteresintermedirios com os seus pais, como acontece de ordinrio, assemelham-se muito maisa um deles; muito embora estes hbridos se paream exteriormente de uma maneira quaseabsoluta a uma das puras espcies mes, so em geral, salvo raras excepes,extremamente estreis. Do mesmo modo, entre os hbridos que tm uma conformaohabitualmente intermediria entre os seus pais, encontram-se por vezes alguns indivduosexcepcionais que se assemelham quase que por completo a um dos ascendentes puros;estes hbridos so quase sempre absolutamente estreis, mesmo quando outrosindivduos provenientes de sementes tiradas da mesma cpsula so muito fecundos. Estesfactos provam o quanto a fecundidade de um hbrido pouco depende da sua semelhanaexterior com uma ou outra das formas puras de origem. Depois das regras precedentes, que regem a fecundidade dos primeiros cruzamentose dos hbridos, vemos que, quando se cruzam formas que se podem tomar como espciesbem distintas, a fecundidade delas apresenta todos os graus desde zero at fecundidadeperfeita, a qual pode mesmo, em certas condies, ser levada ao extremo; que estafecundidade, embora seja facilmente afectada pelo estado favorvel ou desfavorvel dascondies exteriores, favorvel em virtude de predisposies inatas; que estafecundidade no sempre igual em grau, no primeiro cruzamento e nos hbridos queprovm deste cruzamento; que a fecundidade dos hbridos no est, alm disso, emrelao com o grau de semelhana exterior que podem ter com uma ou outra das suasformas origens; e, finalmente, que a facilidade com que um primeiro cruzamento entreduas espcies pode ser efectuado nem sempre depende das suas afinidades sistemticas,ou do grau de semelhana que possa haver entre elas. A realidade desta asserodemonstra-se pela diferena dos resultados que do os cruzamentos recprocos entre asduas mesmas espcies, porque, embora uma das duas seja empregada como pai ou comome, h ordinariamente alguma diferena, e por vezes uma diferena considervel, nafacilidade que se encontra em realizar esse cruzamento. Por outro lado, os hbridosprovenientes de cruzamentos diferem muitas vezes em fecundidade. 333. Estas leis singulares e complexas indicam que os cruzamentos entre espcies foramferidos de esterilidade unicamente porque as formas orgnicas se no podem confundir nanatureza? No o creio. Porque, com efeito, seria a esterilidade to varivel, quanto aograu, segundo as espcies que se cruzam, para que devamos supor que igualmenteimportante para todas evitar a mistura e a confuso? Porque ser varivel o grau deesterilidade em virtude de predisposies inatas entre indivduos diversos da mesmaespcie? Porque se cruzam espcies que com a maior facilidade produzem hbridos muitoestreis, ao passo que outras, cujos cruzamentos so muito difceis de realizar, produzemhbridos muito fecundos? Porque existe esta diferena to frequente e to considervel nosresultados dos cruzamentos recprocos operados entre duas mesmas espcies? Porque,poder-se- ainda perguntar, possvel a produo dos hbridos? Dar espcie apropriedade especial de produzir hbridos, para deter em seguida a sua propagao ulteriorpor diversos graus de esterilidade, que no esto rigorosamente em relao com afacilidade que tm os pais em se cruzarem, parece uma estranha conveno. Por outro lado, os factos e as regras que precedem parece-me indicarem claramenteque a esterilidade, tanto dos primeiros cruzamentos como dos hbridos, simplesmenteuma consequncia dependente de diferenas desconhecidas que afectam o sistemareprodutor. Estas diferenas so de uma natureza to particular e to bem determinada,que, nos cruzamentos recprocos entre duas espcies, o elemento macho de uma estmuitas vezes apto para exercer facilmente a sua aco ordinria sobre o elemento fmeada outra, sem que a inversa possa ter lugar. Um exemplo far compreender melhoro que eu entendo quando digo que a esterilidade uma consequncia de outrasdiferenas, e no uma propriedade de que as espcies foram especialmente dotadas. Aaptido que possuem certas plantas para poder ser enxertadas em outras no temimportncia alguma para a sua prosperidade no estado de natureza; ningum, presumo eu,supor que ela lhe tenha sido dada como uma propriedade especial, mas admitiro que uma consequncia de certas diferenas nas leis do crescimento das duas plantas.Podemos por vezes compreender que tal rvore no possa enxertar-se em outra, em razode diferena na rapidez de crescimento, na dureza da madeira, na poca do fluxo da seiva,ou na natureza desta, etc.; mas h uma srie de casos em que no podemos assinalaruma causa qualquer. Uma grande diversidade no talhe de duas plantas, o facto de uma serlenhosa e a outra herbcea, de uma ter folhas caducas e a outra persistentes, a prpriaadaptao a diferentes climas nem sempre impede de as enxertar uma na outra. D-se omesmo na enxertia, que se d na hibridao; a aptido limitada pelas afinidadessistemticas, porque nunca se puderam enxertar uma na outra rvores pertencentes afamlias absolutamente distintas, enquanto que, por outro lado, se pode ordinariamente,posto que no invariavelmente, enxertar umas nas outras espcies vizinhas e variedadesda mesma espcie. Mas do mesmo modo que na hibridao, a aptido para a enxertia noest absolutamente em relao com a afinidade sistemtica, porque se podem enxertarumas nas outras rvores pertencentes a gneros diferentes duma mesma famlia,enquanto que a operao no pode, em certos casos, dar bons resultados entre espciesdo mesmo gnero. Assim, a pereira enxerta-se muito mais facilmente no marmeleiro 334. silvestre, que considerado como um gnero distinto, do que na macieira, que pertence aomesmo gnero. Diversas variedades de pereiras enxertam-se mais ou menos facilmenteno marmeleiro silvestre; o mesmo acontece com diferentes variedades de damasqueiro ede pessegueiro em certas variedades de ameixoeiras. 335. Assim como Grtner descobriu diferenas inatas em diferentes indivduos de duasmesmas espcies debaixo da relao do cruzamento, assim tambm Sageret cr que osdiferentes indivduos de duas mesmas espcies se no prestam facilmente enxertia.Assim como, nos cruzamentos recprocos, a facilidade em obter a unio est longe de serigual entre os dois sexos; assim tambm a unio pelo enxerto muitas vezes muitssimodesigual; assim, por exemplo, no se pode enxertar a uva crispa na groselheira de cachos,ao passo que esta ltima se desenvolve, embora com dificuldade, enxertada na uva crispa.Vimos j que a esterilidade nos hbridos, cujos rgos reprodutores esto em estadode imperfeio, constitui um caso muito diferente da dificuldade que se encontra em unirduas espcies puras que tm estes mesmos rgos em perfeito estado; contudo, estesdois casos distintos apresentam um certo paralelismo. Observa-se alguma coisa deanlogo quanto enxertia; assim Thouin verificou que trs espcies de Robinia, que, sobrea prpria haste, davam gros em abundncia, e que se deixavam enxertar sem dificuldadeem uma outra espcie, se tornavam completamente estreis depois da enxertia. Por outrolado, certas espcies de Sorbus, enxertadas em uma outra espcie, produzem duas vezesmais frutos que sobre a prpria haste. Este facto lembra esses casos singulares dasHippeastrum, das Passiflora, etc., que produzem mais sementes quando fecundadas como plen de uma espcie distinta do que debaixo da aco do seu prprio plen. 336. Vemos por isso que, embora haja uma diferena evidente e fundamental entre asimples aderncia de duas origens enxertadas uma na outra e a unio dos elementosmacho e fmea no acto da reproduo, existe um certo paralelismo entre os resultados daenxertia e os do cruzamento entre espcies distintas. Ora, do mesmo modo que devemosconsiderar as leis complexas e curiosas que regulam a facilidade com que as rvorespodem ser enxertadas entre si, como uma consequncia de diferenas desconhecidas dasua organizao vegetativa, assim tambm creio que as leis, ainda as mais complexas,que determinam a facilidade com que os primeiros cruzamentos se podem operar, soigualmente uma consequncia de diferenas desconhecidas dos seus rgosreprodutores. Nos dois casos, estas diferenas esto at certo ponto em relao com asafinidades sistemticas, termo que compreende todas as semelhanas e dissemelhanasque existem entre todos os seres organizados. Os prprios factos no implicam de modoalgum que a dificuldade maior ou menor que se encontra em enxertar uma na outra ou emcruzar juntamente espcies diferentes, seja uma propriedade ou um dom especial; se bemque, nos casos de cruzamentos, esta dificuldade seja to importante para a durao eestabilidade das formas especficas como insignificante para a sua prosperidade no casoda enxertia. Origem e causas da esterilidade dos primeiros cruzamentos e os hbridosPensei, noutros tempos, e outros pensaram como eu, que a esterilidade dosprimeiros cruzamentos e a dos hbridos podia provir da seleco natural, lenta e contnua,de indivduos um pouco menos fecundos que os outros; este facto de fecundidade, comotodas as outras variaes, se produziria entre certos indivduos de uma variedadecruzados com outros pertencentes a variedades diferentes. Com efeito, evidentementevantajoso para duas variedades ou espcies nascentes que no possam misturar-se comoutras, do mesmo modo que indispensvel que o homem mantenha separadas entre siduas variedades que ele procura produzir ao mesmo tempo. Em primeiro lugar, podenotar-se que espcies que habitam regies distintas ficam estreis quando se cruzam. Ora,no pode evidentemente haver qualquer vantagem em que espcies separadas se tornemassim mutuamente estreis, e, por conseguinte, a seleco natural no desempenhoupapel algum importante para chegar a este resultado; pode, facto, sustentar-se talvezque, se uma espcie se torna estril com uma espcie que habita a mesma regio, aesterilidade com outras uma consequncia necessria. Em segundo lugar, pelo menosto contraditrio teoria da seleco como das criaes especiais supor que, noscruzamentos recprocos, o elemento macho de uma forma se torna impotente em umasegunda, e que o elemento macho desta segunda forma tenha ao mesmo tempoconservado a aptido de fecundar a primeira. Este estado particular do sistema reprodutorno podia, com efeito, ser por forma alguma vantajoso a qualquer das duas espcies. 337. No ponto de vista do papel que a seleco pde desempenhar para produzir aesterilidade mtua entre as espcies, a maior dificuldade que se tem de vencer aexistncia de numerosos graus entre uma fecundidade a custo diminuda e a esterilidade.Pode-se admitir que seria vantajoso para uma espcie nascente tornar-se um poucomenos fecunda se se cruza com a sua forma-me, ou com uma outra variedade, porqueassim produziria menos descendentes bastardos e degenerados, podendo misturar o seusangue com a nova espcie em via de formao; mas se se reflecte nos graus sucessivosnecessrios para que a seleco natural tenha desenvolvido esse comeo de esterilidadee a conduza ao ponto a que chegou na maior parte das espcies; para que torne, almdisso, esta esterilidade universal entre as formas que tm sido diferenciadas de maneira aserem classificadas em gneros e em famlias distintas, a questo complica-seconsideravelmente. Depois de madura reflexo, parece-me que a seleco natural nopde produzir este resultado. Tomemos duas espcies quaisquer que, cruzadas uma comoutra, somente produzam descendentes pouco numerosos e estreis; que causa poderia,neste caso, favorecer a persistncia dos indivduos que, dotados de uma esterilidademtua um pouco mais pronunciada, se aproximaria assim de um grau para a esterilidadeabsoluta? Contudo, se se faz intervir a seleco natural, uma tendncia deste gnero deveincessantemente apresentar-se entre muitas espcies, porque a maior parte soreciprocamente estreis por completo. Temos, no caso dos insectos neutros, razes paracrer que a seleco natural acumulou modificaes de conformao e fecundidade, poruma sequncia de vantagens indirectas que podem resultar para a comunidade de quefazem parte sobre as outras comunidades da mesma espcie. Mas, num animal que novive em sociedade, uma esterilidade mesmo ligeira acompanhando o cruzamento com umavariedade no traria nenhuma vantagem, nem directa para ele, nem indirecta para osoutros indivduos da mesma variedade, de natureza a favorecer a sua conservao. Seria,alm disso, suprfluo discutir esta questo minuciosamente. Encontramos, com efeito, nasplantas, provas convincentes de que a esterilidade das espcies cruzadas depende dealgum princpio independente da seleco natural. Grtner e Klreuter provaram que, nosgneros que compreendem muitas espcies, pode estabelecer-se uma srie contnua deespcies que, cruzadas, produzem sempre menos sementes, at s que no produzemuma nica, mas que, apesar disso, so sensveis aco do plen de outras certasespcies, porque o embrio aumenta. Neste caso evidentemente impossvel que osindivduos mais estreis, isto , os que j deixaram de produzir sementes, faam o objectode uma seleco. A seleco natural no pode, pois, produzir esta esterilidade absolutaque se traduz por um efeito produzido somente sobre o embrio. As leis que regem osdiferentes graus de esterilidade so to uniformes no reino animal e no reino vegetal, que,qualquer que seja a causa da esterilidade, podemos concluir que esta causa a mesma ouquase a mesma em todos os casos. 338. Examinemos agora um pouco mais de perto a natureza provvel das diferenas quedeterminam a esterilidade nos primeiros cruzamentos e nos hbridos. Nos casos dosprimeiros cruzamentos, a maior ou menor dificuldade que se encontra em operar umaunio entre os indivduos e obter deles produtos, parece depender de muitas causasdistintas. Deve haver, por vezes, impossibilidade em o elemento macho atingir o vulo,como, por exemplo, numa planta que tivesse o pistilo muito alongado para que os tubospolnicos pudessem atingir o ovrio. Observou-se tambm que, quando se coloca o plende uma espcie no estigma de uma espcie diferente, os tubos polnicos, emboraprojectados, no penetram atravs da superfcie do estigma. O elemento macho podeainda atingir o elemento fmea sem provocar o desenvolvimento do embrio, caso queparece apresentar-se em algumas das experincias feitas por Thuret sobre os fucos. Nose poderiam explicar estes factos como no se poderia dizer porque certas rvores nopodem ser enxertadas em outras. Enfim, um embrio pode formar-se e morrer no comeodo seu desenvolvimento. Esta ltima alternativa no foi objecto da ateno que merece,porque, segundo as observaes que me foram comunicadas por M. Hewitt, que tem umagrande experincia de cruzamentos de faises e de galinhas, parece que a morte precocedo embrio uma das causas mais frequentes da esterilidade dos primeiros cruzamentos.M. Salter examinou recentemente quinhentos ovos produzidos por diversos cruzamentosentre trs espcies de Gallus e seus hbridos, em que a maior parte havia sido fecundada.Na grande maioria dos ovos fecundados, os embries tinham-se desenvolvidoparcialmente, pois tinham morrido, ou melhor tinham chegado maturao, mas ospintainhos no puderam quebrar a casca do ovo. Quanto aos pintainhos sados, cincosextos morrem desde os primeiros dias Ou nas primeiras semanas, sem causa aparentealm da incapacidade de viver; de tal forma que, em quinhentos ovos, somente dozepuderam sobreviver. Parece provvel que a morte precoce do embrio se produz tambmnas plantas, porque se sabe que os hbridos provenientes de espcies muito distintas soalgumas vezes fracos e defeituosos e morrem cedo, facto de que recentemente MaxWichura indicou alguns casos frisantes nos salgueiros hbridos. Ser bom lembrar aqui quenos casos de partenognese, os embries dos ovos do bicho-da-seda morrem depois deterem, como os embries que resultam do cruzamento entre duas espcies distintas,percorrido as primeiras fases da sua evoluo. Muito embora ignorasse estes factos, euno estava disposto a acreditar na frequncia da morte precoce dos embries hbridos;porque estes, uma vez nascidos, tm geralmente muito vigor e longevidade; o mulo, porexemplo. Mas as circunstncias em que se encontram os hbridos, antes e depois donascimento, so muito diferentes, so geralmente colocados em condies favorveis deexistncia, quando nascem e vivem no pas natal dos seus dois ascendentes. Mas ohbrido apenas participa de metade da natureza e constituio da sua me: tambm, querele se nutra no seio desta, quer fique no ovo ou na semente, encontra-se em condies,que, at certo ponto, podem no lhe ser inteiramente favorveis, e originar a morte nosprimeiros tempos do seu desenvolvimento, tanto mais que os seres muito novos soeminentemente sensveis s menores condies desfavorveis. Mas, todavia, maisprovvel que seja preciso procurar a causa destas mortes frequentes em alguma 339. imperfeio no acto primitivo da fecundao, que afecta 340. o desenvolvimento normal e perfeito do embrio, antes do que nas condies a que sepode encontrar exposto mais tarde.Em vista da esterilidade dos hbridos entre os quais os elementos sexuais so apenasimperfeitamente desenvolvidos, o caso um pouco diferente. Mais de uma vez fiz aluso aum conjunto de factos, que recolhi, provando que, logo que se colocam os animais e asplantas fora das suas condies naturais, o sistema reprodutor muito frequente egravemente afectado. o que constituio grande obstculo domesticao dos animais. H numerosas analogias entre aesterilidade assim provocada e a dos hbridos. Nos dois casos a esterilidade no dependeda sade geral, que , ao contrrio, excelente e que se traduz muitas vezes por umexcesso de talhe e uma exuberncia notvel. Nos dois casos, a esterilidade varia quantoao grau; nos dois casos, o elemento macho que mais prontamente afectado, emboraalgumas vezes o elemento fmea o seja mais profundamente que o macho. Nos doiscasos, a tendncia est, at certo ponto, em relao com as afinidades sistemticas,porque grupos inteiros de animais e de plantas se tornam impotentes para reproduzirquando so colocados nas mesmas condies artificiais, do mesmo modo que gruposcompletos de espcies, tendem a produzir hbridos estreis. Por outro lado, podeacontecer que uma s espcie de um grupo resista a grandes mudanas de condiessem que a sua fecundidade seja diminuda, do mesmo modo que certas espcies de umgrupo produzam hbridos de uma fecundidade extraordinria. Nunca se poder predizerantes da experincia se tal animal se reproduzir em cativeiro, ou se tal planta extica dargros uma vez submetida cultura; do mesmo modo que se no poder saber, antes daexperincia, se duas espcies de um gnero produziro hbridos mais ou menos estreis.Enfim, os seres organizados submetidos, durante muitas geraes, a condies novas deexistncia, esto extraordinariamente sujeitos a variar; facto que parece depender emparte do seu sistema reprodutor ter sido afectado, embora em menor grau, do que emresultado da esterilidade. O mesmo acontece com os hbridos, cujos descendentes,durante o curso das geraes sucessivas, esto, como o notaram todos os observadores,muito sujeitos a variar. 341. Vemos pois que o sistema reprodutor, independentemente do estado geral da sade, afectado de uma maneira muito anloga quando os seres organizados so colocados emcondies novas e artificiais, e quando os hbridos so produzidos por um cruzamentoartificial entre duas espcies. No primeiro caso as condies de existncia soperturbadas, se bem que a mudana seja muitas vezes muito ligeira para que a possamosapreciar; no segundo, o dos hbridos, as condies exteriores ficam as mesmas, mas aorganizao perturbada pela mistura numa s de duas conformaes e estruturasdiferentes, compreendendo nisto, claro est, o sistema reprodutor. , com efeito, apenaspossvel que dois organismos possam confundir-se num s sem que da resulte algumaperturbao no desenvolvimento, na aco peridica, ou nas relaes mtuas nos diversosrgos uns em relao aos outros ou em relao s condies de vida. Quando oshbridos podem reproduzir-se inter se, transmitem de gerao em gerao aosdescendentes a mesma organizao mista, e no nos devemos desde logo admirar que asua esterilidade, embora varivel a qualquer grau, no diminua; est mesmo sujeita aaumentar, facto que, como j explicmos, geralmente o resultado de uma reproduoconsangunea muito aproximada. A opinio de que a esterilidade dos hbridos causadapela fuso numa s de duas constituies diferentes, foi recentemente sustentada comtodo o vigor por Max Wichura. preciso, contudo, reconhecer que nem esta teoria, nemnenhuma outra explica alguns factos relativos esterilidade dos hbridos, tais como, porexemplo, a desigualdade de fecundidade dos hbridos provenientes de cruzamentosrecprocos, ou a maior esterilidade dos hbridos que, ocasional e excepcionalmente, seassemelham muito a um ou a outro de seus pais. No quero dizer que as objecesprecedentes vo at ao fundo da questo; no podemos, com efeito, explicar porque umorganismo colocado em condies artificiais se torna estril. Tudo quanto tenteidemonstrar, que, nos dois casos, anlogos por certas relaes, a esterilidade umresultado comum, de uma perturbao de condies de existncia num e noutro, de umaperturbao no arranjo e natureza pela fuso de dois organismos num s. 342. Um paralelismo anlogo parecia existir numa ordem de factos vizinhos, embora muitodiferentes. antiga crena muito espalhada, e que se baseia num nmero considervel deprovas, que as ligeiras mudanas nas condies de existncia so vantajosas para todosos seres vivos. Vemos a aplicao no hbito que tm os agricultores e jardineiros demudar com frequncia as sementes, ou tubrculos, etc., de um terreno ou de um climapara outro e reciprocamente. A menor mudana nas condies de existncia exercesempre um excelente efeito nos animais em convalescena. Assim tambm, tanto nosanimais como nas plantas, evidente que um cruzamento entre dois indivduos da mesmaespcie, diferindo um pouco um do outro, d um grande vigor e uma grande fecundidade prole que dela provm; a cpula entre pais muito prximos, continuada durante muitasgeraes, sobretudo quando mantida nas mesmas condies de existncia, arrasta quasesempre o enfraquecimento e esterilidade dos descendentes.Parece pois que, por um lado, ligeiras mudanas nas condies de existncia sovantajosas a todos os seres orgnicos, e que, por outro lado, ligeiros cruzamentos, isto ,cruzamentos entre machos e fmeas de uma mesma espcie, que foram colocados emcondies de existncia um pouco diferentes, ou que variaram ligeiramente, ajudam o vigore a fecundidade dos produtos. Mas, como vimos, os seres organizados no estado denatureza, habituados durante muito tempo a certas condies uniformes, tendem atornar-se mais ou menos estreis quando so submetidos a uma mudana considerveldestas condies, como, por exemplo, se so reduzidos a cativeiro; sabemos, alm disso,que cruzamentos entre machos e fmeas muito afastados, isto , especificamentediferentes, produzem geralmente hbridos mais ou menos estreis. Estou convencido queeste duplo paralelismo no nem acidental nem ilusrio. Quem explicar a razo por que,quando so submetidos a um cativeiro parcial no seu pas natal, o elefante e um grupo deoutros animais so incapazes de se reproduzir, tambm poder explicar a causa primeirada esterilidade to ordinria dos hbridos. Poder explicar ao mesmo tempo, como quealgumas das nossas raas domsticas, muitas vezes submetidas a condies novas ediferentes, ficam inteiramente fecundas, embora descendendo de espcies distintas que,cruzadas a princpio, ficariam provavelmente estreis por completo. Estas duas sries defactos paralelos parecem ligadas uma outra por algum lao desconhecido,essencialmente em relao com o prprio princpio da vida. Este princpio, segundo M.Herbert Spencer, que a vida consiste numa aco e numa reaco incessante de forasdiversas, ou que delas depende; estas foras, como acontece de contnuo em a natureza,tendem sempre a equilibrar-se, mas, desde que, por uma causa qualquer, esta tendnciaao equilbrio ligeiramente perturbada, as foras vitais ganham em energia. 343. Dimorfismo e trimorfismo recprocoVamos discutir resumidamente este assunto, que esclarece, um tanto o fenmeno dahibridez. Muitas plantas pertencentes a ordens distintas apresentam duas formassensivelmente iguais em nmero, no diferindo por qualquer relao, a no ser pelosrgos reprodutores. Uma das formas tem um longo pistilo e os estames curtos; a outraum pistilo curto com estames longos; os gros de plen so de diferente grandeza emambos. Nas plantas trimorfas, h trs formas, que diferem igualmente pelo comprimentodos pistilos e dos estames, pela grandeza e cor dos gros de plen e por outras relaes.Em cada uma das trs formas encontram-se dois sistemas de estames, h pois ao todoseis sistemas de estames e trs espcies de pistilos. Estes rgos tm, entre si,comprimentos proporcionais, tais que metade dos estames, em duas destas formas, seencontram ao nvel do estigma da terceira. Demonstrei, e as minhas concluses foramconfirmadas por outros observadores, que, para que estas plantas sejam perfeitamentefecundas, preciso fecundar o estigma de uma forma com plen tomado de estames altura correspondente na outra forma, De tal maneira que, nas espcies dimorfas, h duasunies que chamaremos unies legtimas, que so muito fecundas, e duas unies queclassificaremos de ilegtimas, que so mais ou menos estreis. Nas espcies trimorfas seisunies so legtimas ou completamente fecundas, e doze so ilegtimas e mais ou menosestreis. 344. A esterilidade que pode observar-se nas diversas plantas dimorfas e trimorfas,quando so ilegitimamente fecundadas -isto , pelo plen proveniente de estames cujaaltura no corresponde com a do pistilo - varivel quanto ao grau, e pode ir at esterilidade absoluta, exactamente como nos cruzamentos entre espcies distintas. Domesmo modo tambm, nestes mesmos casos, o grau de esterilidade das plantassubmetidas a uma unio ilegtima depende essencialmente de um estado mais ou menosfavorvel das condies exteriores. Sabe-se, que se, depois de ter colocado no estigma deuma flor plen de uma espcie distinta, se colocar a em seguida, mesmo depois de umlongo intervalo, plen da prpria espcie, este ltimo tem uma aco to preponderante,que anula os efeitos do plen estranho. O mesmo acontece com o plen das diversas formas da mesma espcie, porque,quando os dois plens, legtimo e ilegtimo, so depositados no mesmo estigma, o primeirotem vantagem sobre o segundo. Verifiquei este facto fecundando diversas flores, primeirocom plen ilegtimo, em seguida, vinte e quatro horas depois, com plen legtimo tomadode uma variedade de cor particular, e todas as plantas produzidas apresentaram a mesmacolorao; o que prova que, ainda que aplicado vinte e quatro horas depois do outro, oplen legtimo destri por completo a aco do plen ilegtimo anteriormente empregado,ou impede mesmo esta aco. Alm disso, quando se operam cruzamentos recprocosentre duas espcies, obtm-se algumas vezes resultados muito diferentes; o mesmoacontece com as plantas trimorfas. Por exemplo, a forma de estilete mdio do Lythrumsalicaria, fecundado ilegitimamente, com a maior facilidade, por plen tomado dos estamescompridos de forma de estiletes curtos, produziu muitas sementes; mas esta ltima forma,fecundada por plen tomado dos longos estames da forma de estilete mdio, no produziuuma nica semente. Debaixo destas diversas relaes e sob outras ainda, as formas da mesma espcie,ilegitimamente unidas, comportam-se exactamente da mesma maneira como duasespcies distintas cruzadas. Isto me levou a observar, durante quatro anos, um grandenmero de plantas provenientes de diversas unies Ilegtimas. O resultado principal destasobservaes que estas plantas ilegtimas, como se podem chamar, no soperfeitamente fecundas. Podem fazer-se produzir s espcies dimorfas plantas ilegtimasde estilete longo e estilete curto e s plantas trimorfas as trs formas ilegtimas; podem emseguida unir-se estas ltimas entre si legitimamente. Feito isto, no h razo algumaaparente para que no produzam tantas sementes como os seus pais legitimamentefecundados. Mas no tudo. So todas mais ou menos estreis; algumas so-no toabsolutamente e to incuravelmente para no ter produzido, durante o decurso de quatroestaes, nem uma cpsula, nem uma semente. Pode rigorosamente comparar-se aesterilidade destas plantas ilegtimas, unidas em seguida de uma maneira legtima, s doshbridos cruzados inter se. Quando, por outro lado, se recruza um hbrido com uma ououtra das espcies origens puras, a esterilidade diminui; o mesmo acontece quando sefecunda uma planta ilegtima com uma legtima. Do mesmo modo, ainda que a esterilidadedos hbridos no corresponda dificuldade de operar um primeiro cruzamento entre duasespcies parentes, do mesmo modo a esterilidade de certas plantas ilegtimas pode ser 345. muito pronunciada, enquanto que a da unio de que elas derivam nada tem de excessivo.O grau de esterilidade dos hbridos nascidos da semente de uma mesma cpsula varivel de uma maneira inata; o mesmo facto muito notado nas plantas ilegtimas.Enfim, um grande nmero de hbridos produz flores em abundncia e com persistncia,enquanto que outros, mais estreis, produzem apenas poucas, e ficam fracas edefeituosas; nos descendentes ilegtimos das plantas dimorfas e trimorfas notam-se factosinteiramente anlogos. 346. H, pois, em suma, uma grande identidade entre os caracteres e a maneira de serdas plantas ilegtimas e dos hbridos. No seria exagero admitir que os primeiros sohbridos produzidos nos limites da mesma espcie por unio imprpria de certas formas,enquanto que os hbridos ordinrios so o resultado de uma unio imprpria entrepretendidas espcies distintas. J vimos tambm que h, em todas as relaes, a maioranalogia entre as primeiras unies ilegtimas e os primeiros cruzamentos entre espciesdistintas. o que um exemplo far compreender melhor. Suponhamos que um botnicoencontra duas variedades bem acentuadas (podem encontrar-se) da forma de longoestilete do Lythrum salicaria trimorfo, e que experimenta determinar a sua distinoespecfica cruzando-as. Encontraria que do somente uma quinta parte da quantidadenormal de sementes, e que, debaixo de todas as relaes, elas se conduzem como duasespcies distintas. Mas, para melhor se assegurar, semearia estas sementes supostashbridas, e no obteria mais que pobres plantas enfezadas, inteiramente estreis, econduzindo-se, sob todas as relaes, como hbridos ordinrios. Teria ento o direito deafirmar, segundo as ideias recebidas, que forneceu realmente a prova de que estas duasvariedades so espcies to acentuadas quanto possvel; contudo, estaria absolutamenteenganado. Os factos que acabamos de indicar nas plantas dimorfas e trimorfas soimportantes porque provam, primeiramente, que o facto fisiolgico da fecundidadediminuda, tanto nos primeiros cruzamentos como nos hbridos, no uma prova certa dedistino especfica; em segundo lugar, porque podemos concluir que deve existir qualquerlao desconhecido que liga a esterilidade das unies ilegtimas sua descendnciailegtima, e que podemos tirar a mesma concluso para os primeiros cruzamentos e paraos hbridos; em terceiro lugar, e isto parece-me particularmente importante, porque vemosque podem existir duas ou trs formas da mesma espcie, no diferindo sob relaoalguma de estrutura ou de constituio relativamente s condies exteriores, e que,contudo, podem ficar estreis quando se unam de certas maneiras. Devemo-nos lembrar,com efeito, que a unio dos elementos sexuais de indivduos tendo a mesma forma, porexemplo a unio de dois indivduos de longo estilete, fica estril, enquanto que a unio deelementos sexuais prprios a duas formas distintas, perfeitamente fecunda. Isto parece, primeira vista, exactamente o contrrio do que se passa nas unies ordinrias entre osindivduos da mesma espcie e nos cruzamentos entre espcies distintas. Todavia, duvidoso que seja realmente assim; mas no me deterei mais sobre este obscuro assunto. 347. Em resumo, o estudo das plantas dimorfas e trimorfas parece autorizarnos a concluirque a esterilidade das espcies distintas cruzadas, assim como a dos seus produtoshbridos, depende exclusivamente da natureza dos seus elementos sexuais, e no dequalquer diferena da estrutura e constituio geral. Somos igualmente levados mesmaconcluso pelo estudo dos cruzamentos recprocos, nos quais o macho de uma espcieno pode unir-se ou se une apenas muito dificilmente com a fmea de uma segundaespcie, enquanto que a unio inversa pode operar-se com a maior facilidade. Grtner,esse excelente observador, chegou igualmente a esta mesma concluso, que aesterilidade das espcies cruzadas devida a diferenas restritas ao sistema reprodutor. A fecundidade das variedades cruzadas e de seus descendentes mestios no universal 348. Poder-se- alegar, como argumento esmagador, que deve existir alguma distinoessencial entre as espcies e as variedades, pois que estas ltimas, por diferentes quepossam ser pela aparncia exterior, se cruzam com facilidade e produzem descendentesabsolutamente fecundos. Admito, por completo, que esta a regra geral; h todaviaalgumas excepes que vou registar. Mas a questo cheia de dificuldades, porque, noque diz respeito s variedades naturais, se se descobre entre duas formas, at entoconsideradas como variedades, a menor esterilidade em seguida ao seu cruzamento, sologo classificadas como espcies pela maior parte dos naturalistas. Assim, quase todos osbotnicos consideram o morrio azul e o morrio vermelho como duas variedades; masGrtner quando os cruzou, tendo-os encontrado completamente estreis, considerou-osconsequentemente como duas espcies distintas. Se girarmos assim num crculo vicioso, certo que devemos admitir a fecundidade de todas as variedades produzidas no estado denatureza.Se passarmos s variedades que se produzem, ou se supe produzidas no estadodomstico, encontramos ainda matria para dvidas. Porque, quando se verifica, porexemplo, que certos ces domsticos indgenas da Amrica do Sul se no cruzamfacilmente com os ces europeus, a explicao que se apresenta a cada um, eprovavelmente a verdadeira, que estes ces descendem de espcies primitivamentedistintas. Todavia, a fecundidade perfeita de tantas variedades domsticas, toprofundamente diferentes umas das outras aparentemente, tais, por exemplo, como asvariedades do pombo ou as da couve, um facto realmente notvel, sobretudo sepensarmos na quantidade de espcies que, parecendo-se muito de perto, so inteiramenteestreis quando se entrecruzam. Algumas consideraes bastam para explicar afecundidade das variedades domsticas. Pode observar-se em primeiro lugar que aextenso das diferenas externas entre duas espcies no um indcio seguro do seugrau de esterilidade mtua, de tal maneira que as diferenas anlogas no seriam, almdisso, um indcio seguro no caso das variedades. certo que, para as espcies, nasdiferenas de constituio sexual que preciso procurar exclusivamente a causa. Ora, ascondies variantes a que so submetidos os animais domsticos e as plantas cultivadaspossuem to pouca tendncia a actuar sobre o sistema reprodutor para o modificar nosentido de esterilidade mtua, que temos ocasio para admirar como verdadeira a doutrinainteiramente contrria a Pallas, isto , que estas condies tm geralmente por efeitoeliminar a tendncia esterilidade; de forma que os descendentes domsticos de espciesque, cruzadas no estado de natureza, se mostrassem estreis num certo grau, acabariampor se tornar inteiramente fecundas umas com as outras. Quanto s plantas, a cultura,bem longe de determinar, nas espcies distintas, uma tendncia esterilidade, tem, aocontrrio, como o provam diversos casos bem verificados, que j citei, exercido umainfluncia inteiramente contrria, a ponto de que certas plantas, que se no podem maisfecundar a si prprias, conservam a aptido de fecundar outras espcies ou de serfecundadas por elas. Se se admite a doutrina de Pallas sobre a eliminao da esterilidadepor uma domesticao muito prolongada, e quase que no possvel refut-la, torna-seextremamente impossvel que as mesmas circunstncias, por muito tempo continuadas, 349. possam determinar esta mesma tendncia, se bem que, em certos casos, e nas espciesdotadas de uma constituio particular, a esterilidade possa ter sido o resultado dasmesmas causas. Isto, creio eu, explica-nos a razo por que se no produziram, nosanimais domsticos, variedades mutuamente estreis, e por que, nas plantas cultivadas,se observam apenas certos casos, que ns trataremos um pouco mais adiante. 350. A verdadeira dificuldade a resolver na questo que nos ocupa no , segundo aminha opinio, explicar como foi que as variedades domsticas cruzadas se no tornaramreciprocamente estreis, mas, antes, como sucedeu que esta esterilidade seja geral nasvariedades naturais, desde que foram suficientemente modificadas desse modopermanente para tomar o lugar das espcies. A nossa profunda ignorncia acerca daaco normal ou anormal do sistema reprodutor, impede-nos de conhecer a causa precisadeste fenmeno. Todavia, podemos supor que, pela continuidade da luta pela existnciaque tm de sustentar contra numerosos concorrentes, as espcies selvagens devem tersido submetidas, durante longos perodos, a condies mais uniformes do que tiveram asvariedades domsticas; circunstncia que pode modificar consideravelmente o resultadodefinitivo. Sabemos, com efeito, que os animais e as plantas selvagens, tirados das suascondies naturais e reduzidas a cativeiro, tornam-se ordinariamente estreis; ora, osrgos reprodutores, que sempre viveram em condies naturais, devem tambm serprovavelmente muito sensveis influncia de um cruzamento artificial. Podia prever-se,por outro lado, que os produtos domsticos que, assim como o prova o Prprio facto dasua domesticao, no devem ter sido, no princpio, muito sensveis a mudanas decondies de existncia, e que resistem actualmente ainda sem prejuzo da suafecundidade, a modificaes repetidas nas mesmas circunstncias, devessem produzirvariedades menos susceptveis de ter o sistema reprodutor afectado por um acto decruzamento com outras variedades de provenincia anloga.Falei aqui como se as variedades de uma espcie fossem invariavelmente 351. fecundas quando as cruzam. No se pode, contudo, verificar a existncia de uma ligeiraesterilidade em certos casos a que vou referir-me em breves palavras. As provas so toconcludentes como as que nos fazem admitir a esterilidade numa multido de espcies;so-nos, alm disso, fornecidas pelos nossos adversrios, para os quais, em todos osoutros casos, a fecundidade e a esterilidade so os mais seguros indcios de diferenas devalor especfico. Grtner estudou uma a uma, no seu jardim, durante muitos anos, umavariedade an de um milho de gros amarelos e uma variedade de grande talhe e de grosvermelhos; ora, muito embora estas plantas tenham sexos separados, jamais se cruzaramnaturalmente. Fecundou ento treze flores de uma destas variedades com plen da outra,e obteve somente uma nica espiga com cinco gros apenas. Os sexos sendo distintos,nenhuma manipulao de natureza prejudicial planta pode intervir. Ningum, creio,pretendeu que estas variedades de milho fossem espcies distintas; essencial ajuntarque as plantas hbridas provenientes dos cinco gros obtidos foram por si mesmas tocompletamente fecundas, que o prprio Grtner no ousou considerar as duas variedadescomo espcies distintas.Girou de Buzareingues cruzou trs variedades de aboboreiras, que como o milho,tm sexos separados; afirma que a fecundao recproca tanto mais difcil quanto assuas diferenas so mais pronunciadas. No sei que valor se pode atribuir a estasexperincias; mas Sageret, que fez basear a sua classificao principalmente nafecundidade ou na esterilidade dos cruzamentos, considera as formas nas quais fez estaexperincia, como variedades, concluso a que Naudin chegou igualmente.O facto que se segue mais notvel ainda; parece inteiramente inacreditvel, masresulta de um nmero imenso de ensaios contnuos durante muitos anos sobre noveespcies de verbasco, por Grtner, o excelente observador, cujo testemunho tem tantomais valor quanto certo que parte de um adversrio. Grtner verificou que quando secruzam variedades brancas e amarelas, se obtm menos sementes do que quando sefecundam estas variedades com o plen das variedades da mesma cor. Afirma, almdisso, que quando se cruzam as variedades amarelas e brancas de uma espcie com asvariedades amarelas e brancas de uma espcie distinta, os cruzamentos operados entreflores de cor semelhante produzem mais sementes do que os operados entre flores decores diferentes. M. Scott tambm empreendeu experincias nas espcies e variedades deverbasco, e, embora no pudesse confirmar os resultados de Grtner sobre oscruzamentos entre espcies distintas, encontrou que as variedades dessemelhantementecoloridas de uma mesma espcie cruzadas em conjunto do menos sementes naproporo de 86 por 100, que as variedades da mesma cor fecundadas uma pela outra.Estas variedades diferem contudo apenas pela cor da flor, e algumas vezes uma variedadese obtm da semente de uma outra. 352. Klreuter, de quem todos os observadores subsequentes tm confirmado aexactido, estabeleceu o facto notvel de que uma das variedades do tabaco ordinrio mais fecunda que outras, em casos de cruzamentos com uma outra espcie muito distinta.Fez experincias com cinco formas, consideradas ordinariamente como variedades, quesubmeteu prova do cruzamento recproco; os hbridos provenientes destes cruzamentosforam perfeitamente fecundos. Alm disso, em cinco variedades, uma s empregada, quercomo elemento macho, quer como elemento fmea e cruzada com a Nicotiana glutinosa,produziu sempre hbridos menos estreis que os que provm do cruzamento das outrasquatro variedades com a mesma Nicotiana glutinosa. O sistema reprodutor destavariedade particular deve ter sido modificado de alguma maneira e em qualquer grau. Estes factos provam que as variedades cruzadas no so sempre perfeitamentefecundas. A grande dificuldade em provar a esterilidade das variedades no estado denatureza -porque toda a variedade suposta, reconhecida como estril em qualquer grau,ser logo considerada como constituindo uma espcie distinta; -o facto de o homem seocupar somente dos caracteres exteriores nas variedades domsticas, as quais no foramalm disso expostas durante muito tempo em condies uniformes so outras tantasconsideraes que nos autorizam a concluir que a fecundidade no constitui uma distinofundamental entre as espcies e as variedades. A esterilidade geral que acompanha ocruzamento das espcies pode ser considerada no como uma aquisio ou como umapropriedade especial, mas como uma consequncia de mudanas, de naturezadesconhecida, que afectam os elementos sexuais. Comparao entre os hbridos e os mestios, independentemente dafecundidade Podem, posta de parte a questo da fecundidade, comparar-se entre si, sobre outrasdiversas relaes, os descendentes de cruzamentos entre espcies com as decruzamentos entre variedades. Grtner, por muita vontade que tivesse de traar uma linhade demarcao bem ntida entre as espcies e as variedades, no pde encontrar maisque diferenas pouco numerosas, e que, em minha opinio, so bem insignificantes, entreos descendentes chamados hbridos das espcies e os descendentes chamados mestiosdas variedades. Por outro lado, estas duas classes de indivduos parecem-se muito deperto sobre diversas relaes importantes. 353. Examinemos rapidamente este ponto. A distino mais importante que, na primeiragerao, os mestios so mais variveis que os hbridos; todavia, Grtner admite que oshbridos de espcies submetidas desde longo tempo cultura so muitas vezes variveisna primeira gerao, facto que eu mesmo pude observar em exemplos frisantssimos.Grtner admite, por outro lado, que os hbridos entre espcies muito vizinhas so maisvariveis que os que provm de cruzamentos entre espcies muito distintas; o que provaque as diferenas no grau de variabilidade tendem a diminuir gradualmente. Quando sepropagam, durante muitas geraes, os mestios ou os hbridos mais fecundos, nota-se nasua posteridade uma variabilidade excessiva; poderiam, contudo, citar-se alguns exemplosde hbridos e mestios que conservaram, durante muito tempo, um carcter uniforme.Todavia, no decurso das geraes sucessivas, os mestios parecem ser mais variveisque os hbridos.Esta variabilidade maior nos mestios que nos hbridos nada tem que admire. Os paisdos mestios so, com efeito, variedades, e, para a maior parte, variedades domsticas(apenas se tentaram muito poucas experincias sobre variedades naturais), o que implicauma variabilidade recente, que deve continuar-se e juntar-se que provoca j o prpriofacto do cruzamento. A ligeira variabilidade que oferecem os hbridos na primeira gerao,comparada com as seguintes, constitui um facto curioso e digno de ateno. Nada, comefeito, confirma melhor a opinio que emiti sobre uma das causas de variabilidadeordinria, isto , que, dada a excessiva sensibilidade do sistema reprodutor para toda amudana produzida nas condies da existncia, cessa, nestas circunstncias, dedesempenhar as funes de uma maneira normal e de produzir uma descendncia idnticaem todos OS pontos forma origem. Ora, os hbridos, durante a primeira gerao, provmde espcies ( excepo das que tm sido desde muito tempo cultivadas) cujo sistemareprodutor no foi de maneira alguma afectado, e que no so variveis; o sistemareprodutor dos hbridos , ao contrrio, superiormente afectado, e os seus descendentesso por consequncia muito variveis.Voltando comparao dos mestios com os hbridos, Grtner afirma que osmestios esto, mais que os hbridos, sujeitos a regressar a uma ou a outra das formasorigens; mas, se o facto verdadeiro, no h a mais que uma diferena de grau. Grtnerafirma expressamente, alm disso, que os hbridos provenientes de plantas desde hmuito cultivadas esto mais sujeitos ao regresso que os hbridos provenientes de espciesnaturais, o que explica provavelmente a diferena singular dos resultados obtidos pordiversos observadores. Assim, Max Wichura duvida que os hbridos jamais regressem ssuas formas origens, fazendo as suas experincias em salgueiros selvagens; enquantoque Naudin, que experimentou em plantas cultivadas, insiste fortemente sobre a tendnciaquase universal que tm os hbridos ao retrocesso. Grtner afirma, ademais, que quandose cruzam com uma terceira espcie, duas espcies alis muito vizinhas, os hbridosdiferem consideravelmente uns dos outros, enquanto que, se se cruzam duas variedadesmuito distintas de uma espcie com outra espcie, os hbridos diferem pouco. Todavia,esta concluso , tanto quanto posso saber, baseada numa nica observao, e pareceser directamente contrria aos resultados de muitas experincias feitas por Klreuter. 354. Tais so as nicas diferenas, alis pouco importantes, que Grtner pde assinalarentre as plantas hbridas e as plantas mestias. Por outro lado, segundo Grtner, asmesmas leis aplicam-se ao grau e natureza da semelhana que tm com os paisrespectivos, tanto os mestios como os hbridos, e mais particularmente os hbridos queprovm de espcies muito prximas. Nos cruzamentos de duas espcies, uma delas porvezes dotada de um poder predominante para imprimir a sua semelhana ao produtohbrido, eo mesmo acontece, assim o julgo, com as variedades das plantas. Entre os animais, no menos certo que uma variedade tem muitas vezes a mesma preponderncia sobre outravariedade. As plantas hbridas que provm de cruzamentos recprocos parecem-segeralmente muito, e o mesmo se d com as plantas mestias que resultam de umcruzamento deste gnero. Os hbridos como os mestios, podem voltar ao tipo de um oude outro dos pais, por uma srie de cruzamentos repetidos com eles durante diversasgeraes sucessivas.Estas diversas observaes aplicam-se provavelmente tambm aos animais; mas aquesto complica-se muito neste caso, quer em razo da existncia de caracteres sexuaissecundrios, quer, sobretudo, porque um dos sexos tem uma predisposio muito maisforte que o outro para transmitir a sua semelhana, quer o cruzamento se opere entreespcies quer se realize entre variedades. Creio, por exemplo, que certos autoressustentam, com razo, que o burro exerce uma aco preponderante sobre o cavalo, demaneira que o mulo e o jumento tenham mais do primeiro que do segundo. Esta preponderncia maispronunciada no burro que na burra, de forma que o mulo, produto de um 355. burro e de uma gua, tem mais de burro do que o jumento, que o produto de uma burra ede um cavalo inteiro.Alguns autores tm insistido muito sobre o pretendido facto de que s os mestiosno tm caracteres intermedirios aos dos pais, mas parecem-se muito com um deles;pode demonstrar-se que o mesmo acontece algumas vezes com os hbridos, mas menosfrequentemente do que com os mestios, eu confesso. Depois dos ensinamentos querecolhi sobre os animais cruzados que se assemelham muito de perto a um dos pais, visempre que as semelhanas incidem sobretudo sobre caracteres de natureza um poucomonstruosa e que apareceram subitamente -tais como o albinismo, a falta de cauda ou dechifres, a presena de dedos suplementares nas mos ou nos ps -e de forma algumasobre os que tm sido lentamente adquiridos por via de seleco. A tendncia regressoespontnea ao carcter perfeito de um ou de outro antepassado deve tambmapresentar-se mais frequentemente nos mestios que derivam de variedades produzidasmuitas vezes subitamente e tendo um carcter semimonstruoso, do que nos hbridos, queprovm de espcies produzidas naturalmente e lentamente. Em suma, estou de acordocom o Dr. Prosper Lucas, que, depois de ter examinado um vasto conjunto de factosrelativos aos animais, concluiu que as leis da semelhana de um filho com os pais so asmesmas, que os pais diferem pouco ou muito um do outro, isto , que a unio se deu entredois indivduos pertencendo mesma variedade, a variedades diferentes ou a espciesdistintas.Posta de lado a questo da fecundidade ou da esterilidade, parece haver, nos outrospontos de vista, uma identidade geral entre os descendentes de duas espcies cruzadas eas de duas variedades. Esta identidade seria muito surpreendente na hiptese de umacriao especial das espcies, e da formao das variedades por leis secundrias; ela,porm, est em harmonia completa com a opinio de que no existe qualquer distinoessencial a estabelecer entre as espcies e as variedades. ResumoOs primeiros cruzamentos entre formas bastante distintas para constituir espcies eos hbridos que da provm, so muito geralmente, ainda que nem sempre, estreis. Aesterilidade manifesta-se em todos os graus; por vezes assaz fraca para que osexperimentadores mais cuidadosos sejam conduzidos s concluses mais opostas quandoquerem classificar as formas orgnicas pelos indcios que ela lhes fornece. A esterilidadevaria nos indivduos de uma mesma espcie em virtude de predisposies inatas, e extremamente sensvel influncia das condies favorveis ou desfavorveis. O grau deesterilidade no corresponde rigorosamente s afinidades sistemticas, mas pareceobedecer aco de muitas leis curiosas e complexas. Os cruzamentos recprocos entreas duas mesmas espcies so geralmente afectados de uma esterilidade diferente e porvezes muito desigual. No sempre do mesmo grau, no primeiro cruzamento, e noshbridos que dele provm. 356. Da mesma forma que, no enxerto das rvores, a aptido de que goza uma espcie ouuma variedade em se enxertar numa outra depende de diferenas geralmentedesconhecidas existindo no sistema vegetativo; igualmente nos cruzamentos, a maior oumenor facilidade com que uma espcie pode cruzar-se com outra depende tambm dediferenas desconhecidas no sistema reprodutor. No h mais razo para admitir que asespcies foram especialmente feridas por uma esterilidade varivel em grau, a fim deimpediro cruzamento e confuso na natureza, como para crer que as rvores foram dotadas deuma propriedade especial, mais ou menos pronunciada, de resistncia enxertia, paraimpedir que se no enxertem naturalmente umas nas outras nas nossas florestas.No foi a seleco natural que produziu a esterilidade dos primeiros cruzamentos e a dosseus produtos hbridos. A esterilidade, nos casos dos primeiros cruzamentos, parecedepender de muitas circunstncias; em alguns casos, depende sobretudo da morteprecoce do embrio. No caso dos hbridos, parece depender da perturbao trazida gerao, pelo facto de ser composta de duas formas distintas; a sua esterilidade oferecebastante analogia com a que afecta muitas vezes as espcies puras, quando so expostasa condies de existncia novas e pouco naturais. Quem explicar estes ltimos factos,pode tambm explicar a esterilidade dos hbridos; esta suposio apoia-se no paralelismode um outro gnero, isto , em que, a princpio, leves alteraes nas condies deexistncia parecem juntar-se ao vigor e fecundidade de todos os seres organizados, e,secundariamente, em que o cruzamento das formas que foram expostas a condies deexistncia ligeiramente diferentes ou que tenham variado, favorece o vigor e a fecundidadeda descendncia. Os factos notados a respeito das unies ilegtimas das plantas dimorfase trimorfas, assim como a respeito da dos seus descendentes ilegtimos, permitem-nostalvez considerar como provvel que, em todos os casos, qualquer lao desconhecidoexiste entre o grau de fecundidade dos primeiros cruzamentos e os dos seus produtos. Aconsiderao dos factos relativos ao dimorfismo, junta aos resultados dos 357. cruzamentos recprocos, conduz evidentemente concluso de que a causa primria daesterilidade dos cruzamentos entre espcies deve residir nas diferenas dos elementossexuais. Mas no sabemos porque, no caso das espcies distintas, os elementos sexuaisforam to geralmente mais ou menos modificados numa direco tendente a provocar aesterilidade mtua que os caracteriza, porm este facto parece provir de as espcies teremsido submetidas durante longos perodos a condies de existncia quase uniformes.No para admirar que, na maior parte dos casos, a dificuldade que se encontra nocruzamento de duas espcies quaisquer, corresponda esterilidade dos produtos hbridosque da resultam, ainda que estas duas ordens de factos fossem devidas a causasdistintas; estes dois factos dependem, com efeito, do valor das diferenas existentes entreas espcies cruzadas. No , pois, para admirar que a facilidade de operar um primeirocruzamento, a fecundidade dos hbridos que dali provm, e a aptido das plantasenxertadas umas nas outrasposto que esta ltima propriedade dependa evidentemente decircunstncias completamente diferentes -estejam todas, at certo ponto, em relao comas afinidades sistemticas das formas submetidas experincia; porque a afinidadesistemtica compreende semelhanas de toda a natureza.Os primeiros cruzamentos entre formas conhecidas como variedades, ou muitoanlogas para serem consideradas como tais, e os seus descendentes mestios, somuito geralmente, ainda que no invariavelmente fecundos, assim como se tem pretendidomuitas vezes. Esta fecundidade perfeita e quase universal no deve admirar-nos, sepensarmos no crculo vicioso no qual caminhamos no que respeita s variedades noestado de natureza, e se nos lembrarmos que a grande maioria das variedades foiproduzida no estado domstico pela seleco de simples diferenas exteriores, e quejamais foram expostas muito tempo a condies de existncia uniformes. necessriolembrar que, a domesticao prolongada tendendo a eliminar a esterilidade, poucoverosmil que deva tambm provoc-la. Posta de parte a questo de fecundidade, h, comrespeito a todas as outras relaes, uma semelhana geral muito pronunciada entre oshbridos e os mestios, quanto sua variabilidade, sua propriedade de absorver-semutuamente por cruzamentos repetidos, e sua aptido em herdar caracteres de duasformas origens. Em suma pois, posto que sejamos to ignorantes sobre a causa precisa daesterilidade dos primeiros cruzamentos e dos seus descendentes hbridos como o somossobre as causas da esterilidade que provoca nos animais e nas plantas uma alteraocompleta de condies de existncia, contudo os factos que acabamos de discutir nestecaptulo no me parece que se oponham teoria de que as espcies existiram 358. primitivamente em forma de variedades. 359. Captulo X Insuficincia dos documentos geolgicosAusncia actual de variedades intermdias. -Da natureza das variedades intermdiasextintas; do seu nmero. -Lapso de tempo decorrido, calculado segundo a extenso dadesnudao e dos depsitos. Lapso de tempo avaliado em anos. -Pobreza das nossascoleces paleontolgicas. -Intermitncia das formaes geolgicas. Desnudao dassuperfcies granticas. -Ausncia das variedades intermdias em qualquer formao.-Apario imprevista de grupos de espcies. -Sua apario sbita nas camadas fossilferasmais antigas.- Antiguidade da terra habitvel.Enumerei no sexto captulo as principais objeces que se podiam razoavelmentelevantar contra as opinies emitidas neste volume. J discuti a maior parte. H uma queconstitui uma dificuldade evidente, a distino bem ntida das formas especficas, e aausncia de inumerveis elos de transio que as liguem entre si. Indiquei por que razesno so comuns actualmente estas formas de transio, nas condies que parecem,contudo, as mais favorveis ao seu desenvolvimento, tais como uma superfcie extensa econtnua, apresentando condies fsicas graduais e diferentes. Esforcei-me pordemonstrar que a existncia de cada espcie depende muito mais da presena de outrasformas organizadas j definidas com o clima, e como, portanto, as condies de existnciaverdadeiramente eficazes no so susceptveis de gradaes insensveis como so as docalor ou da humidade. Procurei tambm demonstrar que as variedades intermdias, sendomenos numerosas do que as formas que ligam, so geralmente vencidas e exterminadasdurante o curso das modificaes e dos aperfeioamentos ulteriores. Contudo, a causaprincipal da ausncia geral de inumerveis formas de transio na natureza dependesobretudo da prpria marcha da seleco natural, em virtude da qual as variedades novastomam constantemente o lugar das formas primeiras de que derivam e que exterminam.Mas, quanto mais este extermnio produzido em grande escala, tanto mais o nmero dasvariedades intermdias, que outrora existiram, considervel. Portanto, porque noregurgita de formas intermdias cada formao geolgica, em cada camada das que acompem? A geologia no revela seguramente uma srie orgnica bem graduada, e nisto, talvez, que consiste a objeco mais sria que pode fazer-se minha teoria. Creio que aexplicao se encontra na extrema insuficincia dos documentos geolgicos. 360. necessrio, a princpio, fazer-se uma ideia exacta da natureza das formasintermdias que, pela minha teoria, devem ter existido anteriormente. Quando seexaminam duas espcies quaisquer, difcil no nos deixarmos arrastar a figurar formasexactamente intermdias entre ambos. esta uma suposio errnea; -nos semprenecessrio procurar formas intermdias entre cada espcie e um ascendente comum, masdesconhecido, que ter geralmente diferido em alguns pontos dos seus descendentesmodificados. Assim, para dar um exemplo dessa lei, o pombo-pavo e o pombo de papodescendem ambos do torcaz; se possussemos todas as variedades intermdias que tmsucessivamente existido, teramos duas sries contnuas e graduadas entre cada umadestas duas variedades e o torcaz; mas nem uma s encontraramos que fosseexactamente intermediria entre o pombo-pavo e o de papo; alguma, por exemplo, quereunisse conjuntamente uma cauda mais ou menos em forma de leque e um papo mais oumenos dilatado, traos caractersticos destas duas raas. Alm disso, estas duasvariedades esto to profundamente modificadas, desde o seu ponto de partida, que, semas provas histricas que possumos sobre a sua origem, seria impossvel determinar pelosimples confronto da sua conformao com a do torcaz (C. livia), se derivam da mesmaespcie, ou de qualquer outra espcie vizinha, tal como o C. aenas.O mesmo sucede com as espcies no estado livre; se considerarmos formas muitodistintas, como o cavalo e o tapir, no temos razo alguma para supor que houvessejamais entre estes dois seres formas exactamente intermedirias, mas h toda a razopara crer que deviam ter existido entre cada um deles e um ascendente comumdesconhecido. Este ascendente comum devia ter tido, no conjunto da sua organizao,uma grande analogia geral com o cavalo e o tapir; mas pode tambm, por diferentespontos da sua conformao, ter diferido consideravelmente destes dois tipos, talvezmesmo mais do que diferem actualmente um do outro. Por isso, em todos os casos destegnero, ser-nos-ia impossvel reconhecer a forma origem de duas ou muitas espcies,mesmo pela comparao mais atenta da organizao do ascendente com a dosdescendentes modificados, se no tivssemos conjuntamente nossa disposio a sriequase completa dos anis intermedirios da cadeia. contudo possvel, pela minha teoria, que, de duas formas vivas, uma derive daoutra; que o cavalo, por exemplo, seja originado do tapir; ora, neste caso, deviam existirelos directamente intermedirios entre os dois. Mas um caso tal, implicaria a persistnciasem modificao, durante um perodo muito longo, de uma forma de que os descendentestivessem sofrido alteraes considerveis; um facto, porm, desta natureza no pode serseno muito raro, em razo do princpio da concorrncia entre todos os organismos ouentre o descendente e os pais; porque, em todos os casos, as formas novas aperfeioadastendem a suplantar as formas anteriores tornadas fixas. 361. Todas as espcies vivas, pela teoria da seleco natural, se ligam origemme decada gnero, por diferenas que no so mais considerveis do que as que verificamosactualmente entre as variedades naturais e domsticas da mesma espcie; cada umadestas origens-mes, agora geralmente extintas, ligam-se por seu turno da mesmamaneira a outras espcies mais antigas; e, assim seguidamente, subindo e convergindosempre para o ascendente comum de cada grande classe. O nmero das formasintermedirias constituindo elos de transio entre todas as espcies vivas e as espciesperdidas devia, pois, ter sido infinitamente grande; porm, se a minha teoria verdadeira,tm certamente vivido sobre a terra. Lapso de tempo decorrido, deduzido da apreciao da rapidez dos depsitosdas desnudaesComo no encontramos restos fsseis destes inumerveis elos intermedirios, podeobjectar-se que, devendo cada uma destas alteraes ter-se produzido muito lentamente,o tempo deve ter faltado para desempenhar to grandes modificaes orgnicas.Ser-me-ia difcil lembrar ao leitor, que no est familiarizado com a geologia, os factos pormeio dos quais se chega a fazer uma vaga e fraca ideia da imensidade da durao dasidades decorridas. Quem ler a grande obra de sir Charles Lyell sobre os princpios daGeologia, qual os historiadores futuros atribuiro por justo ttulo uma revoluo nascincias naturais, sem reconhecer a prodigiosa durao dos perodos decorridos, podefechar aqui este volume. No porque baste estudar os Princpios da Geologia, ler ostratados especiais dos diversos autores sobre esta ou aquela formao, e tomar conta dosensaios que tentam para dar uma ideia insuficiente das duraes de cada formao oumesmo de cada camada; estudando as foras que entraram em jogo que melhorpodemos fazer uma ideia dos tempos decorridos, tomando conta da extenso dasuperfcie terrestre que foi desnudada e da espessura dos sedimentos depositados, quechegamos a fazer uma vaga ideia da durao dos perodos passados. Assim como Lyellto justamente o fez notar, a extenso e a espessura das nossas camadas de sedimentosso o resultado e do a medida da desnudao que a crosta terrestre sofreu ento. necessrio, pois, examinar por si mesmo estas enormes pilhas de camadas sobrepostas,estudar os pequenos regatos arrastando lodo, contemplar as vagas roendo as velhaspenedias, para ter-se qualquer noo da durao dos perodos decorridos, de que osmonumentos nos chegam de toda a parte. 362. necessrio vaguear ao longo das costas formadas de rochas moderadamenteduras, e notar os progressos da sua desagregao. Na maior parte dos casos, o fluxoatinge os rochedos duas vezes apenas por dia e por pouco tempo; as vagas roem-nossomente quando so carregadas de areias e calhaus, porque a gua pura no desbasta arocha. A penedia, assim minada pela base, desaba em grandes massas que, correndosobre a praia, so desbastadas e gastas tomo por tomo, at que fiquem reduzidasbastante para serem roladas pelas ondas, que em seguida as esmagam mais prontamentee as transformam em calhaus, em areias ou em vasa. Mas quantas no encontramos ns,junto das penedias, que recuam passo a passo, de blocos arredondados, cobertos de umaespessa camada de vegetaes marinhas, cuja presena uma prova da sua estabilidadee do pequeno gasto a que so submetidas! Enfim, se seguirmos durante o espao dealgumas milhas uma penedia na qual o mar exera a sua aco destrutiva, encontramo-laferida apenas aqui e ali, em espaos pouco extensos, volta de promontrios salientes. Anatureza da superfcie e a vegetao de que est coberta provam que muitos anos sopassados desde que a gua vinha banhar-lhe a base. As observaes recentes de Ramsay, de Jukes, de Geikie, de Croll e de outros,ensinam-nos que a desagregao produzida pelos agentes atmosfricos goza nas costasde um papel muito mais importante do que a aco das vagas. Toda a superfcie da Terraest submetida aco nica do ar e do cido carbnico dissolvido na gua das chuvas, eao gelo nos pases frios; a matria desagregada arrastada pelas fortes chuvas, mesmonos declives suaves, e mais do que se julga geralmente, pelo vento nos pases ridos; ento levada pelos ribeiros e pelos rios que, quando o curso rpido, cavamprofundamente o seu leito e trituram os fragmentos. Os regatos lodosos que, por um dia dechuva, correm ao longo de todas as encostas, mesmo nos terrenos fracamente ondulados,mostram-nos os efeitos da desagregao atmosfrica. M. Ramsay e Whitakerdemonstraram, e esta observao muito notvel, que as grandes linhas de declive dodistrito wealdiano e as que se estendem atravs da Inglaterra, que outrora seconsideravam como antigas costas martimas, no puderam ser assim produzidas, porquenenhuma delas constituda de uma formao nica, enquanto que as nossas penediasactuais so por toda a parte compostas da interseco de formaes variadas. Sendo istoassim, -nos fcil admitir que as escarpas devem em grande parte a sua origem a que arocha que as compe tem resistido melhor aco destrutiva dos agentes atmosfricos doque as superfcies vizinhas, cujo nvel baixou gradualmente, enquanto que as linhasrochosas ficaram em relevo. Nada pode melhor fazer-nos conceber o que seja a imensadurao do tempo, segundo as ideias que dele fazemos, como a vista dos resultados toconsiderveis produzidos pelos agentes atmosfricos que nos parecem ter to poucopoder e actuar to lentamente. 363. Depois de se estar assim convencido da lentido com que os agentes atmosfricos ea aco das vagas sobre as costas rompem a superfcie terrestre, necessrio se torna emseguida, para apreciar a durao dos tempos passados, considerar, de uma parte, ovolume imenso das rochas que se levantaram em extenses considerveis, e, por outrolado, examinar a espessura das formaes sedimentares. Lembro-me de ter sidovivamente impressionado vendo as ilhas vulcnicas, cujas costas fendidas pelas vagasapresentam hoje penedias perpendiculares com 1000 a 2 000 ps de altura, porque odeclive doce das correntes de lava, devido ao seu estado outrora lquido, indicava at queponto as camadas rochosas deviam ter avanado pelo mar. As grandes fendas, isto , asimensas aberturas ao longo das quais as camadas so muitas vezes levantadas de umlado ou baixadas do outro, a uma altura ou a uma profundidade de muitos milhares de ps,do-nos igual lio; Porque, desde a poca em que estas aberturas se Produziram, querbruscamente, como a maior parte dos gelogos o crem hoje, quer lentamente em seguidaa numerosos pequenos movimentos, a superfcie do pas est desde ento to bemnivelada, que nenhum vestgio dessas prodigiosas deslocaes exteriormente visvel. Afenda de Craven, por exemplo, estende-se numa linha de 30 milhas de comprimento, aolongo da qual o deslocamento vertical das camadas varia de 600 a 3000 ps. O professorRamsay notou um enfraquecimento de 2300 Ps na ilha de Anglesey, e diz-me que estconvencido que, em Merionethshire existe uma outra de 12 000 ps; contudo, em todosestes casos, nada superfcie mostra estes prodigiosos movimentos, tendo sidocompletamente esmagados os amontoados de rochedos de cada lado da fenda.Por outro lado, em todas as partes do Globo, os montes das camadas sedimentarestm uma espessura prodigiosa. Vi, nas Cordilheiras, uma massa de conglomerado de queavaliei a espessura em cerca de 10 000 ps; e, se bem que os conglomerados deveriamter-se aglomerado provavelmente mais depressa do que as camadas de sedimentos maisfinos, so contudo compostos somente de calhaus rolados e arredondados que, tendocada um a impresso do tempo, provam com que lentido puderam acumular-se massasto considerveis. O professor Ramsay deu-me as espessuras mximas das formaessucessivas nas diferentes partes da Gr-Bretanha, segundo as medidas tomadas noslugares na maior parte dos casos. Eis o resultado: 364. Ps ingl. Camadas paleozicas (no compreendendo rochas Igneas) . 37 154 Camadas secundrias . . . 13190 Camadas tercirias .. . .2340 formando um total de 72 584 ps, isto , cerca de 13 milhas inglesas e trs quartos.Certas formaes, que so representadas em Inglaterra por camadas delgadas,atingem no continente uma espessura de muitos milhares de ps. Alm disso, a acreditarna maior parte dos gelogos, devem ter decorrido, entre as formaes sucessivas,perodos extremamente longos durante os quais se no haja formado depsito algum. Amassa inteira de camadas sobrepostas das rochas sedimentares da Inglaterra no d,portanto, mais que uma ideia incompleta do tempo gasto na sua acumulao. O estudodos factos desta natureza parece produzir no esprito uma impresso anloga queresulta das nossas vs tentativas para conceber a ideia da eternidade.Esta impresso no portanto absolutamente justa. M. Croll fez notar, numamemria interessante, que no nos enganamos por uma concepo mais elevada docomprimento dos perodos geolgicos, mas avaliando-os em anos. Quando os gelogosvem fenmenos considerveis e complicados, e que consideram em seguida os nmerosque representam milhes de anos, as duas impresses produzidas no esprito so muitodiversas, e os nmeros so imediatamente considerados insuficientes. M. Croll demonstra,relativamente desnudao produzida pelos agentes atmosfricos, calculando a relaoda quantidade conhecida de materiais sedimentares que transportam anualmente certosribeiros, relativamente extenso das superfcies drenadas, que seriam necessrios seismilhes de anos para desagregar e para elevar ao nvel mdio da rea total, que seconsidera, uma espessura de 1000 ps de rochas. Um tal resultado pode parecersurpreendente, e s-lo-ia ainda se, aps algumas consideraes que podem fazer suporque exagerado, fosse reduzido a metade ou a um quarto. Muito pouca gente avaliaexactamente o que significa na realidade um milho. M. Croll procura faz-lo compreenderpelo seguinte exemplo: estenda-se, no muro de uma grande sala, uma faixa estreita depapel, do comprimento de 33 ps e 4 polegadas (25,70 metros); faa-se depois naextremidade desta faixa uma diviso de uma dcima de polegada (2,5 milmetros); estadiviso representa um sculo, e a faixa inteira representa um milho de anos. Ora, para oassunto que nos ocupa, o que ser um sculo figurado por uma medida to insignificanterelativamente s vastas dimenses da sala? Numerosos tratadores distintos tm, durante avida, modificado muitssimo alguns animais superiores e criaram verdadeiras sub-raasnovas; ora, estas espcies superiores produzem-se muito mais lentamente do que asespcies inferiores. Poucos homens se tm ocupado com cuidado de uma raa por maisde cinquenta anos, de modo que um sculo representa o trabalho de dois tratadoressucessivos. No seria necessrio supor, todavia, que as espcies no estado naturalpossam modificar-se to prontamente como o podem fazer os animais domsticos sob aaco da seleco metdica. A comparao seria mais justa entre as espcies naturais eos resultados que d a seleco inconsciente, isto , a conservao, sem inteno 365. preconcebida de modificar a raa, dos animais mais teis ou mais belos. Ora, sob ainfluncia da simples seleco inconsciente, muitas raas so sensivelmente modificadasno decurso de dois ou trs sculos. 366. As modificaes so, todavia, provavelmente muito mais lentas ainda nas espciesde que um pequeno nmero somente se modifica ao mesmo tempo no mesmo pas. Estalentido provm de que estando todos os habitantes de uma regio j perfeitamenteadaptados uns aos outros, novos lugares na economia da natureza se apresentam apenascom longos intervalos, quando as condies fsicas sofreram algumas modificaes dequalquer natureza, ou se produziu uma imigrao de novas formas. Alm disso, asdiferenas individuais ou as variaes na direco querida, de natureza a melhor adaptaralguns dos habitantes s condies novas, podem no surgir imediatamente. No temos,infelizmente, meio algum para determinar em anos o perodo necessrio para modificaruma espcie. Teremos, alm disso, de voltar a este assunto. Pobreza das nossas coleces paleontolgicas Que triste espectculo o dos nossos mais ricos museus geolgicos! Cada umconcorda em reconhecer quo incompletas so as nossas coleces. necessrio noesquecer a nota do clebre paleontlogo E. Forbes, isto , que um grande nmero dasnossas espcies fsseis no so conhecidas e denominadas seno como fuzis isolados,muitas vezes partidos, ou como alguns raros especmenes recolhidos num s ponto. Umamuito pequena parte somente da superfcie do Globo foi geologicamente explorada, enenhuma com bastante cuidado, como o provam as importantes descobertas que todos osanos se fazem na Europa. Nenhum organismo completamente mole se pode conservar. Asconchas e as ossadas, jazendo no fundo das guas, onde no se depositam sedimentos,destroem-se e desaparecem logo. Partimos infelizmente sempre deste princpio errneoque um imenso depsito de sedimento est em via de formao em quase toda a extensodo leito do mar, com uma rapidez suficiente para sepultar e conservar detritos fsseis. Abela cor azul e a limpidez do oceano na sua maior extenso testemunham a pureza dassuas guas. Os numerosos exemplos conhecidos de formaes geolgicas regularmentecobertas, aps um imenso intervalo de tempo, por outras formaes mais recentes, semque a camada subjacente tivesse sofrido neste intervalo a menor desnudao ou a menordeslocao, s podem explicar-se se se admitir que o fundo do mar permanece quasesempre intacto durante sculos. As guas fluviais carregadas de cido carbnico devemmuitas vezes dissolver os fsseis escondidos nas areias, infiltrando-se nessas camadasquando da sua emerso. As numerosas espcies de animais que vivem nas costas, entreos limites das altas e baixas mars, parecem ser raramente conservadas. Assim, asdiversas espcies de Chthamalneas (subfamlia de cirrpedes ssseis) tapetam as rochass mirades no mundo inteiro; todas so rigorosamente litorais; ora - excepo de uma sespcie do mediterrneo que vive nas guas profundas, e que se encontra no estado fssilna Siclia - no se tem encontrado uma s espcie fssil em qualquer formao terciria;est averiguado, contudo, que o gnero Chthamatus existia na poca da greda. Enfim,muitos dos grandes depsitos que foram necessrios para se acumularem em perodosexcessivamente longos, so inteiramente desprovidos de todos os detritos orgnicos, sem 367. que possamos explicar porqu. Um dos mais frisantes exemplos a formao do flysch,que consiste em grs e xistos, cuja espessura atinge at 6000 ps, que se estende entreViena e a Sua num comprimento de cerca de 300 milhas, e na qual, apesar de todos osestudos, se no tm podido descobrir fsseis que no sejam restos de vegetais. 368. quase suprfluo juntar, com respeito s espcies terrestres que viveram durante operodo secundrio e o perodo paleozico, que as nossas coleces apresentamnumerosas lacunas. No se conhecia por exemplo, at h bem pouco ainda, qualquerconcha terrestre que tivesse pertencido a um ou outro destes dois longos perodos, excepo de uma s espcie encontrada nas camadas carbonferas da Amrica do Nortepor sir G. Lyell e o Dr. Dawson; mas, depois, tm-se encontrado conchas terrestres no lias.Quanto aos restos fsseis de mamferos, um simples lance de olhos sobre o quadrohistrico do manual de Lyell basta para provar, melhor que pginas de mincias, quanto asua conservao rara e acidental. Esta raridade nada tem de surpreendente, demais amais, se se pensar na enorme proporo de ossadas de mamferos tercirios que tm sidoencontradas nas cavernas ou depsitos lacustres, espcie de jazigos de que se noconhece exemplo algum nas nossas formaes secundrias ou paleozicas. 369. Mas as numerosas lacunas dos nossos arquivos geolgicos provm em grande partede uma causa bem mais importante que as precedentes, isto , que as diversas formaestm sido separadas umas das outras por enormes intervalos de tempo. Esta opinio foicalorosamente sustentada por muitos gelogos e paleontlogos que, como E. Forbes,negam formalmente a transformao das espcies. Quando vemos a srie das formaes,tal como a do as tabelas das obras sobre a geologia, ou estudamos estas formaes nanatureza, escapamos dificilmente ideia de que tm sido estritamente consecutivas.Contudo, a grande obra de sir R. Murchison sobre a Rssia ensina-nos que imensaslacunas h neste pas entre as formaes imediatamente sobrepostas; e da mesma formana Amrica do Norte e em muitas outras partes do mundo. Cada gelogo, por hbil queseja, cuja ateno fosse dirigida exclusivamente para o estudo destes vastos territrios,no teria jamais suposto que, durante estes mesmos perodos completamente inertes parao seu prprio pas, enormes depsitos de sedimentos, encerrando um conjunto de formasorgnicas novas e todas especiais, se acumulassem noutra parte. E se, em cada pasconsiderado separadamente, quase impossvel avaliar o tempo decorrido entre asformaes consecutivas, podemos concluir que no se poderia determin-lo em partealguma. As frequentes e importantes alteraes que se podem verificar na composiomineralgica das formaes consecutivas, implicam geralmente tambm grandesalteraes na geografia das regies circunvizinhas, de onde tm podido provir os materiaisdos sedimentos, o que confirma ainda a opinio de que longos perodos decorreram entrecada formao.Podemos, creio eu, tomar nota desta intermitncia quase constante das formaesgeolgicas de cada regio, isto , o facto de elas se no terem sucedido sem interrupo.Raramente um facto me tem ferido tanto como a ausncia, num comprimento de muitascentenas de milhas das costas da Amrica do Sul, que foram recentemente levantadas dealgumas centenas de ps, de todo o depsito recente assaz considervel para apresentarmesmo um curto perodo geolgico. Em toda a costa ocidental, em que habita uma formamarinha particular, as camadas tercirias so to pouco desenvolvidas, que algumasfaunas marinhas sucessivas e em tudo especiais no deixaro provavelmente qualquervestgio da sua existncia em idades geolgicas futuras. Um pouco de reflexo farcompreender a razo por que, na costa ocidental da Amrica do Sul em via delevantamento, se no pode encontrar em parte alguma formao extensa contendo detritostercirios ou recentes, se bem que devia ter havido abundncia de materiais desedimentos, em seguida enorme degradao das rochas das costas e da vasatransportada pelos cursos de gua que se lanam no mar. provvel, com efeito, que osdepsitos submarinos do litoral sejam constantemente desagregados e arrastados, medida que o levantamento lento e gradual do solo os expe aco das vagas. 370. Podemos, pois, concluir que os depsitos de sedimento devem ser acumulados emmassas muito espessas, muito extensas e muito slidas, para poder resistir, quer acoincessante das vagas, quando dos primeiros levantamentos do solo, e durante asoscilaes sucessivas de nvel, quer desagregao atmosfrica. Massas de sedimentosto espessas e to extensas podem formar-se de duas maneiras: quer nas grandesprofundezas do mar, e neste caso o fundo habitado por formas menos numerosas emenos variadas do que os mares pouco profundos, e por conseguinte, quando a massavem a levantar-se, somente pode oferecer uma coleco muito incompleta das formasorgnicas que tm existido na vizinhana durante o perodo da sua acumulao; ou ento,uma camada de sedimento de qualquer espessura e de qualquer extenso que seja, podedepositar-se no pavimento em via de deprimir-se lentamente; neste caso, contanto que oabatimento do solo e o depsito dos sedimentos se equilibrem sensivelmente, o mar ficapouco profundo e oferece um meio favorvel existncia de um grande nmero de formasvariadas; de modo que, um depsito rico em fsseis, e bastante espesso para resistir, apsum levantamento ulterior, a uma grande desnudao, pode assim formar-se facilmente.Estou convencido que quase todas as nossas antigas formaes ricas em fsseis namaior parte da sua espessura so assim formadas durante uma depresso. Tenho, desde1845, poca em que publiquei a minha opinio a este respeito, seguido com cuidado osprogressos da geologia, e fiquei admirado por ver como os autores, tratando desta oudaquela formao, chegaram, uns aps outros, a concluir que essa formao devia ter-seacumulado durante um abatimento do solo. Acrescentarei que a nica formao terciriaantiga que, na costa ocidental da Amrica do Sul, teve solidez bastante para resistir sdegradaes sofridas, mas que no durar at uma nova poca geolgica bem distante, seacumulou durante um perodo de abaixamento, e pde assim atingir uma espessuraconsidervel. 371. Todos os factos geolgicos nos demonstram claramente que cada parte da superfcieterrestre devia ter experimentado numerosas e lentas oscilaes de nvel, que tmevidentemente afectado espaos considerveis. Formaes ricas em fsseis, bastanteespessas e bastante extensas para resistir s eroses subsequentes, puderam, porconsequncia, formar-se em vastas regies durante os perodos de depresso, onde odepsito dos sedimentos fosse bastante considervel para manter o fundo a uma fracaprofundidade e para encobrir e conservar os detritos orgnicos antes que tivessem tidotempo de se desagregar. Por outra parte, enquanto que o fundo do mar fica estacionrio,depsitos espessos no podem acumular-se nas partes pouco profundas mais favorveis vida. Estes depsitos so ainda menos possveis durante os perodos intermedirios delevantamento, ou, para melhor dizer, as camadas j acumuladas so geralmentedestrudas medida que o seu levantamento, levando-as ao nvel da gua, as pe emcontacto com a aco destrutiva das vagas costeiras. Estas notas aplicam-seprincipalmente s formaes litorais, ou sublitorais. No caso de um mar extenso e poucoprofundo, como numa grande parte do arquiplago malaio, em que a profundidade variaentre 30, 40 e 60 braas, uma vasta formao poderia acumular-se durante um perodo delevantamento, e, contudo, no sofrer uma grande degradao na poca da sua lentaemerso. Todavia, a sua espessura no poderia ser muito grande, porque, em razo domovimento ascensional, seria menor que a profundidade da gua onde se formou. Odepsito no seria nem mais slido, nem coberto de formaes subsequentes, o queaumentaria as probabilidades de ser desagregado pelos agentes atmosfricos e pelaaco do mar durante as oscilaes ulteriores do nvel. M. Hopkins fez notar, todavia, quese uma parte da superfcie vinha, depois de um levantamento, a diminuir de novo antes deter sido desnudada, o depsito formado durante o movimento ascencional poderia ser emseguida coberto por novas acumulaes, e ser assim, ainda que delgado, conservadodurante longos perodos.M. Hopkins julga tambm que os depsitos sedimentares de grande extensohorizontal foram apenas raramente destrudos por completo. Mas todos os gelogos, excepo do pequeno nmero dos que julgam que os nossos xistos metamrficos actuaise as nossas rochas plutnicas formavam o ncleo primitivo do Globo, admitiro que estasltimas rochas foram submetidas a uma desnudao considervel. No possvel, comefeito, que tais rochas se solidificassem e cristalizassem ao ar livre; mas se a acometamrfica se efectuou nas grandes profundezas do oceano, o revestimento protectorprimitivo das rochas pode no ter sido muito espesso. Se, pois, se admite que os gneisses,os micaxistos, os granitos, os diorites, etc., foram outrora necessariamente recobertos,como explicar que imensas superfcies destas rochas sejam actualmente desnudadas emtantos pontos do Globo, de outra maneira diversa da desagregao subsequente ecompleta de todas as camadas que as cobriam? No se pode duvidar que existemsemelhantes extenses muito considerveis; segundo Humboldt, a regio grantica deParima pelo menos dezanove vezes maior que a Sua. Ao sul do Amazonas, Boudescreveu uma outra composta de rochas desta natureza tendo uma superfcie equivalente que ocupam Portugal, a Espanha, a Frana, a Itlia, uma parte da Alemanha e as ilhas 372. britnicas reunidas. Esta regio no tem sido explorada com o cuidado preciso, mas todosos viajantes afirmam a imensa extenso da superfcie grantica; assim, Von Eschwege dum corte minucioso destas rochas que se estendem em linha recta para o interior at 260milhas geogrficas do Rio de Janeiro; eu mesmo andei 150 milhas noutra direco sem veroutra coisa do que rochas granticas. Examinei numerosos especmenes recolhidos emtoda a costa desde o Rio de Janeiro at embocadura do Prata, distncia de 1100 milhasgeogrficas, e todos estes especmenes pertenciam a esta mesma classe de rochas. Nointerior, em toda a margem setentrional do Prata, no se me deparou, alm de depsitostercirios modernos, mais que um pequeno aglomerado de uma rocha ligeiramentemetamrfica, que apenas pde constituir um fragmento da cobertura primitiva da sriegrantica. Na regio melhor conhecida dos Estados Unidos e do Canad, segundo a belacarta do professor H. D. Rogers, avaliei as superfcies cortando a prpria carta e pesando 373. o papel, e encontrei que as rochas granticas e metamrficas (com excluso dassemimetamrficas) excedem, numa relao de 19 a 12,5, o conjunto das formaespaleozicas mais novas. Em muitas regies, a extenso das rochas metamrficas egranticas seria muito maior, se as camadas sedimentares que repousam sobre elas(camadas que no tm podido fazer parte do manto primitivo debaixo da qualcristalizavam), fossem levantadas. , pois, provvel que, em algumas partes do mundo,formaes inteiras fossem desagregadas de uma maneira completa, sem que tenha ficadovestgio algum do estado anterior.H ainda uma nota digna de ateno. Durante os perodos de levantamento, aextenso das superfcies terrestres, assim como das partes pouco profundas do marque as cercam, aumenta e forma deste modo novas estaes -tudo circunstnciasfavorveis, como o temos explicado, formao das variedades e das espciesnovas; mas h geralmente tambm, durante estes perodos, uma lacuna nos arquivosgeolgicos. Por outra parte, durante os perodos de abaixamento, a superfciehabitada diminui, assim como o nmero dos habitantes (excepto nas costas de umcontinente no momento em que se fracciona em arquiplago), e, por conseguinte,posto que h numerosas extines, formam-se poucas variedades ou espciesnovas; ora, precisamente durante estes perodos de abatimento que soacumulados os depsitos mais ricos em fsseis. 374. Da ausncia de numerosas variedades numa formao qualquerAs consideraes que precedem provam no ser lcito duvidar-se da extremaimperfeio dos documentos que, no seu conjunto, a geologia nos pode fornecer; mas, seconcentrarmos o nosso exame numa formao qualquer, torna-se muito mais difcilcompreender a razo por que no encontramos a uma srie estreitamente graduada devariedades que devem ter ligado as espcies vizinhas que viviam no comeo e no fimdesta formao. Conhecem-se alguns exemplos de variedades da mesma espcie,existindo nas partes superiores e nas partes inferiores da mesma formao: assimTrautschold cita alguns exemplos de Amonitas; Hilgendorf descreve um caso muitocurioso, isto , dez formas graduadas do Planorbis multiformis encontradas nas camadassucessivas de uma formao calcria de gua doce na Sua. Posto que cada formaotenha necessitado incontestavelmente para o seu depsito um nmero considervel deanos, podem dar-se muitas razes para explicar como sucede que cada uma delas noapresenta ordinariamente uma srie graduada de fuzis ligando as espcies que viveram nocomeo e no fim; mas no saberia determinar o valor relativo das consideraes queseguem.Toda a formao geolgica implica certamente um nmero considervel de anos; ,contudo, provvel que cada um destes perodos seja curto, se se comparar ao perodonecessrio para transformar uma espcie noutra. Dois paleontlogos cujas opinies tmgrande valor, Bronn e Woodward, concluram, verdade , que a durao mdia de cadaformao duas ou trs vezes to longa como a durao mdia das formas especficas.Mas parece-me que dificuldades insuperveis se opem a que ns possamos chegarsobre este ponto a qualquer concluso exacta. Quando vemos uma espcie aparecer pelavez primeira no meio de uma formao, seria temerrio em extremo concluir que no tenhaexistido precedentemente noutra parte; da mesma forma que vendo uma espciedesaparecer ante o depsito das ltimas camadas, seria igualmente temerrio afirmar asua extino. Ns esquecemos que, comparada ao resto do Globo, a superfcie da Europa muito pouca coisa, e que se no tem alm disso estabelecido com uma certeza completaa correlao, em toda a Europa, entre os diversos andares da mesma formao. 375. Relativamente aos animais marinhos de todas as espcies, podemos presumir, comtoda a segurana, que houvesse migraes devidas a alteraes climatricas ou outras; e,quando vemos aparecer uma espcie pela primeira vez numa formao, h toda aprobabilidade para que isto seja uma imigrao nova na localidade. Sabe-se, por exemplo,que muitas espcies apareceram nas camadas paleozicas da Amrica do Norte umpouco mais cedo do que na da Europa, tendo sido necessrio provavelmente um certotempo a esta migrao dos mares da Amrica para os da Europa. Examinando osdepsitos mais recentes em diferentes partes do Globo, tem-se notado por toda a parteque algumas espcies ainda existentes so muito comuns num depsito, masdesapareceram do mar imediatamente vizinho; ou inversamente, que espcies abundantesnos mares da vizinhana so raras num depsito ou faltam a absolutamente. bomreflectir nas numerosas migraes bem provadas dos habitantes da Europa durante apoca glaciria, que no constitui seno uma parte de um perodo geolgico inteiro. bomtambm reflectir nas oscilaes do solo, nas alteraes extraordinrias de clima, e noimenso lapso de tempo compreendido neste mesmo perodo glacirio. Pode, contudo,duvidar-se que haja um s ponto do Globo em que, durante todo este perodo, se tenhamacumulado na mesma superfcie, e de uma maneira contnua, depsitos sedimentaresencerrando detritos fsseis. No provvel, por exemplo, que, durante todo o perodoglacirio, se tenham depositado sedimentos na embocadura do Mississpi, nos limites dasprofundezas que melhor convm aos animais marinhos; porque sabemos que, duranteeste mesmo perodo de tempo, grandes alteraes geogrficas se realizaram noutraspartes da Amrica. Quando as camadas de sedimentos depositadas em guas poucoprofundas na embocadura do Mississpi, durante uma parte do perodo glacirio, foremlevantadas, os restos orgnicos que contm aparecero e desaparecero provavelmente adiferentes nveis, em razo das migraes das espcies e alteraes geogrficas. Numfuturo afastado, um gelogo, examinando estas camadas, poder ser tentado a concluirque a durao mdia da persistncia das espcies fsseis desaparecidas fosse inferior do perodo glacirio, posto que tenha sido realmente muito grande, pois que se estendedesde muito antes da poca glaciria at nossos dias. 376. Para que se possa encontrar uma srie de formas perfeitamente graduadas entreduas espcies desaparecidas na parte superior ou na parte inferior da mesma formao,seria necessrio que esta tivesse continuado a acumular-se durante um Perodo bastantelongo para que as modificaes sempre lentas das espcies tivessem tido tempo deoperar-se. O depsito devia, pois, ser extremamente espesso; teria sido, alm disso,necessrio que a espcie em via de se modificar, tivesse habitado todo o tempo na mesmaregio. Mas ns temos visto que uma formao considervel, igualmente rica em fsseisem toda a sua espessura, no pode acumular-se a no ser durante um perodo deabaixamento; e, para que a profundidade fique sensivelmente a mesma, condionecessria para que uma espcie marinha qualquer possa continuar a habitar o mesmoponto, necessrio que o conjunto de sedimentos compense sensivelmente oabaixamento. Ora, o mesmo movimento de depresso tendendo tambm a submergir osterrenos que fornecem os materiais do prprio sedimento, resulta que a quantidade desteltimo tende a diminuir tanto quanto o movimento de abatimento continue. Um equilbrioaproximativo entre a rapidez de produo dos sedimentos e a velocidade do abatimento ,pois, provavelmente um facto raro; muitos paleontlogos tm, com efeito, notado que osdepsitos muito espessos so ordinariamente desprovidos de fsseis, excepto nos limitessuperior ou inferior.Parece mesmo que cada formao distinta, da mesma forma que toda a srie dasformaes de um pas, em geral acumulada de modo intermitente. Quando vemos, comosucede muitas vezes, uma formao constituda por camadas de composio mineralgicadiferente, h toda a razo em pensar que a marcha do depsito foi mais ou menosinterrompida. Mas o exame mais minucioso de um depsito no pode fornecer qualquerelemento de natureza a permitir-nos avaliar o tempo que foi necessrio para o formar.Poderiam citarse muitos casos de camadas no tendo mais que alguns ps de espessura,representando formaes que, demais a mais, tm atingido espessuras de muitos milharesde ps, e de que a acumulao s pde fazer-se num perodo de uma durao enorme;ora, quem ignorasse este facto, no poderia mesmo supor a imensa srie de sculosrepresentada pelo andar mais delgado. Poderiam citar-se casos numerosos de camadasinferiores de uma formao que foram levantadas, desnudadas, submersas, em seguidacobertas por camadas superiores da mesma formao -factos que demonstram que podiahaver intervalos considerveis e fceis de desconhecer na acumulao total. Noutroscasos, grandes rvores fsseis, ainda de p no solo em que viveram, provam nitidamenteque longos intervalos de tempo decorreram e que alteraes de nvel se realizaramdurante a formao dos depsitos; o que no se poderia supor se as rvores no tivessemsido conservadas. Assim sir C. Lyell e o Dr. Dawson encontraram na Nova Escciadepsitos carbonferos tendo 1400 ps de espessura, formados de camadas sobrepostascontendo razes, e isto a sessenta e oito nveis diferentes. Assim, quando a mesmaespcie se encontra na base, no meio e no vrtice de uma formao, h toda aprobabilidade de no ter vivido no mesmo ponto durante todo o perodo do depsito, masque apareceu e desapareceu, muitas vezes talvez, durante o mesmo perodo geolgico.Por conseguinte, se semelhantes espcies tivessem sofrido, durante o curso de um 377. perodo geolgico, modificaes considerveis, um ponto dado da formao no encerrariatodos os graus intermdios de organizao que, pela minha teoria, deviam ter existido,mas apresentaria alteraes de formas sbitas, ainda que talvez pouco considerveis. 378. indispensvel lembrar que os naturalistas no tm forma alguma matemtica quelhes permita distinguir as espcies das variedades; concordam numa pequenavariabilidade em cada espcie; mas logo que encontram algumas diferenas um poucomais frisantes entre duas formas, consideram-nas ambas como espcies, a no ser queno possam lig-las por uma srie de gradaes intermdias muito vizinhas; ora, s muitoraramente, e em virtude das razes que acabamos de expor, devemos esperar encontrar,numa seco geolgica qualquer, uma aproximao semelhante. Suponhamos duasespcies B e C, e que se encontra, numa camada subjacente e mais antiga, uma terceiraespcie A; admitindo mesmo que seja rigorosamente intermdia entre B e C, seriasimplesmente considerada como uma espcie distinta, a no ser que se no encontremvariedades intermedirias ligando-a com uma ou outra das duas formas ou com outras. necessrio no esquecer que, assim como j explicmos, A poderia ser o ascendente de Be de C, sem ser rigorosamente intermedirio entre os dois em todos os seus caracteres.Poderamos pois encontrar nas camadas inferiores e superiores da mesma formao aespcieme e os seus diferentes descendentes modificados, sem poder reconhecer oparentesco, na ausncia das numerosas formas de transio, e, por consequncia, asconsideraramos como espcies distintas.Sabe-se em que diferenas excessivamente ligeiras muitos paleontlogos fundaramas suas espcies, e fazem-no tanto mais voluntariamente quanto os especmenes provmde vrias camadas de uma mesma formao. Alguns conquililogos experimentadoscolocam actualmente na ordem das variedades um grande nmero de espciesestabelecidas por de Orbigny e tantos outros, o que nos fornece a prova das alteraesque, pela minha teoria, devemos notar. Nos depsitos tercirios recentes, encontram-setambm muitas conchas que a maioria dos naturalistas consideram como idnticas sespcies vivas; mas outros excelentes naturalistas, como Agassiz e Pictet, sustentam quetodas estas espcies tercirias so especificamente distintas, admitindo que as diferenasque entre elas existem so muito ligeiras. Aqui ainda, a no ser que se suponha que esteseminentes naturalistas se deixassem arrastar pela imaginao, e que as espciestercirias no apresentam realmente qualquer diferena dos representantes vivos, ou quepelo menos se admita que no assiste razo grande maioria dos naturalistas em noreconhecer que as espcies tercirias so realmente distintas das espcies actuais, temosa prova da existncia frequente de leves modificaes tais como as exige a minha teoria.Se estudarmos perodos mais considerveis e examinarmos os andares consecutivos edistintos da mesma grande formao, encontramos que os fsseis desaparecidos, se bemque universalmente considerados como especificamente diferentes, so, contudo, muitomais vizinhos uns dos outros do que as espcies desaparecidas nas formaescronologicamente mais afastadas umas das outras; ora, ainda aqui se v uma provaevidente de alteraes operadas na direco requerida pela minha teoria. Mas voltarei aeste ponto no captulo seguinte. 379. Para as plantas e animais que se propagam rapidamente e se deslocam pouco, hrazo para supor, como temos j visto, que as variedades so a princpio geralmentelocais, e que estas variedades locais se no espalham muito e no suplantam as formasmes a no ser quando so consideravelmente modificadas e aperfeioadas. Aprobabilidade em encontrar na formao de um pas qualquer todas as formas primitivasde transio entre duas espcies , pois, excessivamente fraca, pois que se supe quealteraes sucessivas tm sido locais e limitadas a um ponto dado. A maior parte dosanimais marinhos tm um habitat muito extenso; vimos j, alm disso, que so as plantasque tm um habitat mais extenso que apresentam variedades maior nmero de vezes. pois provvel que os moluscos e os outros animais marinhos disseminados em espaosconsiderveis, passando muito os limites das formaes geolgicas conhecidas na Europa,tenham dado tambm as mais das vezes origem a variedades locais a princpio, depoisenfim a espcies novas; circunstncia que s pode ainda diminuir a probabilidade quetemos de encontrar todos os estados de transio entre duas formas numa formaogeolgica qualquer. 380. O Dr. Falconer assinalou ainda uma considerao mais importante, que conduz mesma concluso, isto , que o perodo, durante o qual cada espcie sofreu modificaes,posto que muito longo se se apreciar em anos, devia ter sido provavelmente muito curtoem comparao com o tempo durante o qual essa mesma espcie no tenha sofridoqualquer alterao.No devemos esquecer que, em nossos dias, se bem que dispunhamos deespecmenes perfeitos, s raramente podemos ligar duas formas entre si por variedadesintermedirias de maneira a estabelecer a identidade especfica, at que tenhamos reunidoum grande nmero de especmenes provindo de pases diferentes; ora, raro quepossamos actuar assim com respeito aos fsseis. Para nos fazer compreender melhor aimprobabilidade que h em podermos ligar entre si as espcies por formas fsseisintermedirias, numerosas e graduadas, no h como procurarmos, por exemplo, comoconseguir um gelogo, em qualquer poca futura, chegar a demonstrar que as nossasdiferentes raas de animais silvestres, de carneiros, de cavalos ou de ces, derivam deuma s fonte originria ou de muitas; ou ainda, se certas conchas marinhas habitando ascostas da Amrica do Norte, que alguns conquililogos consideram como especificamentedistintas das suas congneres da Europa e que outros vem somente como variedades,so realmente variedades ou espcies. O gelogo do futuro no poderia resolver estadificuldade a no ser que descubra no estado fssil numerosas formas intermedirias,coisa improvvel no mais alto grau.Os autores que crem na imutabilidade das espcies tm repetido saciedade que ageologia no fornece qualquer forma de transio. Esta assero, como o veremos nocaptulo seguinte, completamente errnea. Como o fez notar sir J. Lubbock, cadaespcie constitui um lao entre outras formas aliadas. Se tomarmos um gnero que tenhauma vintena de espcies vivas e extintas, e destruirmos quatro quintos, evidente que asformas que ficarem sero mais afastadas e mais distintas umas das outras. Se as formasassim destrudas forem as formas extremas do gnero, ser este por si mesmo maisdistinto dos outros gneros aliados. O que as pesquisas geolgicas no revelaram ainda, a existncia passada de gradaes infinitamente numerosas, to aproximadas quanto oso as variedades actuais, e ligando entre si quase todas as espcies extintas ou aindavivas. Ora isto que no podemos esperar, e contudo a grande objeco que repetidasvezes tem sido oposta minha teoria.Para resumir as notas que precedem sobre as causas da imperfeio dosdocumentos geolgicos, suponhamos o exemplo seguinte: o arquiplago malaio emextenso quase igual Europa, do cabo Norte ao Mediterrneo e da Inglaterra Rssia;representa, portanto, uma superfcie igual quela de que as formaes geolgicas tm sidoat hoje examinadas com cuidado, exceptuando as dos Estados Unidos. Admitocompletamente, com M. Godwin Austen, que o arquiplago malaio, nas suas condiesactuais, com as suas grandes ilhas separadas por mares largos e pouco profundosrepresenta provavelmente o antigo estado da Europa, na poca em que se acumulou amaior parte das nossas formaes. O arquiplago malaio uma das regies do Globomais ricas em seres organizados; contudo, se se comparassem todas as espcies que tm 381. vivido, representariam somente bem imperfeitamente a histria natural do mundo. 382. Temos, alm disso, toda a razo de crer que as produes terrestres do arquiplagoseriam apenas conservadas de uma maneira muito imperfeita, nas formaes quesupomos haver em via de acumulao. Um pequeno nmero somente dos animais quehabitam o litoral, ou vivem nos rochedos submarinos desnudados, devem terdesaparecido; mesmo os que apenas fossem sepultados na areia e no cascalho no seconservariam muito tempo. Demais, por toda a parte onde se no fazem depsitos nofundo do mar e onde se no acumulam assaz prontamente para se cobrir em tempo eproteger contra a destruio os corpos orgnicos, os seus restos no podem serconservados.As formaes ricas em fsseis diversos e bastante espessas para persistir at aoperodo futuro to afastado no porvir como o so os terrenos secundrios no passado, nodevem, em regra geral, formar-se no arquiplago a no ser durante os movimentos deabaixamento do solo. Estes perodos de abatimento so necessariamente separados unsdos outros por intervalos considerveis, durante os quais a regio fica estacionria ou selevanta. Durante os perodos de levantamento, as formaes fossilferas das costas maisescarpadas devem ser destrudas quase logo que so acumuladas pela aco incessantedas vagas costeiras, como se d actualmente nas ribeiras da Amrica Meridional. Mas nosmares extensos e pouco profundos do arquiplago, os depsitos de sedimento nopoderiam, durante os perodos de levantamento, atingir maior espessura, nem ser cobertose protegidos por depsitos subsequentes que assegurassem a sua conservao at umfuturo afastado. As pocas de abaixamento devem provavelmente ser acompanhadas denumerosas extines de espcies, e as de levantamento de muitas variaes; mas, nesteltimo caso, os documentos geolgicos so muito mais incompletos.Pode duvidar-se de que a durao de um grande perodo de depresso afectando notodo ou em parte um arquiplago, assim como a acumulao contempornea dossedimentos, devem exceder a durao mdia das mesmas formas especficas; duascondies indispensveis para a conservao de todos os estados de transio que tmexistido entre duas ou muitas espcies. Se no fossem conservados todos estesintermedirios, as variedades de transio pareceriam outras tantas espcies novas aindaque muito prximas. provvel tambm que cada grande perodo de abaixamento fosseinterrompido por oscilaes de nvel, e que ligeiras alteraes de clima se produzissemdurante to longos perodos; nestes diversos casos, os habitantes do arquiplagoemigrariam. 383. Um grande nmero de espcies marinhas do arquiplago estende-se actualmente amilhares de lguas de distncia alm dos seus limites; ora, a analogia conduz-noscertamente a pensar que so principalmente estas espcies muito espalhadas queproduzem as mais das vezes variedades novas. Estas variedades so a princpio locais, ouconfinadas numa s regio; mas se forem dotadas de qualquer vantagem decisiva sobreoutras formas, e continuarem a modificar-se e a aperfeioar-se, multiplicam-se pouco apouco e acabam por suplantar a origem-me. Ora, quando estas variedades voltam suaantiga ptria, como diferem de uma maneira uniforme, ainda que talvez muito ligeira, doseu estado primitivo, e como se encontram escondidas nas camadas um Pouco diferentesda mesma formao, muitos paleontlogos, segundo os princpios em vigor,classificam-nas como espcies novas ou distintas.Se as observaes que acabamos de fazer tm alguma importncia, no devemosesperar encontrar nas nossas formaes geolgicas um nmero infinito destas formas detransio que, pela minha teoria, tm ligado umas s outras todas as espcies passadas epresentes do mesmo grupo, para fazer uma nica longa srie contnua e ramificada. Nopodemos esperar encontrar outra coisa mais que alguns fuzis esparsos, mais ou menosvizinhos uns dos outros; e isto certamente o que sucede. Mas se estes fuzis, poraproximados que possam ser, provm de andares diferentes de uma mesma formao,muitos paleontlogos Consideram-nos como espcies distintas. Contudo, no teria eujamais Suposto, sem dvida, a insuficincia e a pobreza dos ensinamentos que podemfornecer-nos as camadas geolgicas melhor conservadas, sem a importncia da objecoque levanta contra a minha teoria a ausncia de fuzis intermedirios entre as espcies queviveram no comeo e no fim de cada formao. Apario sbida de grupos inteiros de espcies aliadas 384. Muitos paleontlogos, Agassiz, Pictet e Sedgwick por exemplo, tm acusado aapario sbita de grupos inteiros de espcies em certas formaes como um factoinconcilivel com a teoria da transformao. Se espcies numerosas, pertencendo aosmesmos gneros ou s mesmas famlias, tivessem realmente aparecido de repente, estefacto destruiria a teoria da evoluo pela seleco natural. Com efeito, o desenvolvimento,pela seleco natural, de um conjunto de formas, todas provindo de um ascendente nico,deve ter sido muito longo, e as espcies primitivas devem ter vivido muitos sculos antesda sua descendncia modificada. Mas, dispostos como estamos a exagerar continuamentea perfeio dos arquivos geolgicos, conclumos, muito falsamente, que certos gneros oucertas famlias no foram encontradas debaixo de uma camada, que no existiram antesdo depsito dessa camada. Podemos confiar completamente nas provas paleontolgicaspositivas; mas, como a experincia no-lo tem demonstrado muitas vezes, as provasnegativas no tm valor algum. Esquecemos sempre quo grande a Terra, comparada superfcie suficientemente estudada das nossas formaes geolgicas; no atendemos aque grupos de espcies podem ter existido, demais a mais, durante muito tempo, eterem-se multiplicado lentamente antes de invadirem os antigos arquiplagos da Europa edos Estados Unidos. No reparamos o bastante nos enormes intervalos que devem terdecorrido entre as nossas formaes sucessivas, intervalos que, em muitos casos, foramtalvez mais longos que os perodos necessrios acumulao de cada uma destasformaes. Estes intervalos permitiram a multiplicao de espcies derivadas de uma oude muitas formas-mes, constituindo grupos que, na formao seguinte, apareciam comose fossem criados subitamente.-me preciso lembrar aqui um ponto a que j aludi; e que deve ser necessria umalonga sucesso de sculos para adaptar um organismo a condies inteiramente novas,tais como ao voo, por exemplo. Por isso, as formas de transio devem, muitas vezes, terficado por longo tempo circunscritas nos limites da mesma localidade; mas, desde que estaadaptao se efectuou, e que algumas espcies adquiriram assim uma vantagem notvelsobre os outros organismos, no necessrio mais do que um tempo relativamente curtopara produzir um grande nmero de formas divergentes, aptas a espalharem-serapidamente por toda a Terra. Numa excelente anlise da presente obra, o professorPictet, tratando das primeiras formas de transio e tomando as aves para exemplo, nov como as modificaes sucessivas dos membros anteriores de um suposto prottipopossam ter oferecido qualquer vantagem. Consideremos, todavia, os pinguins dos maresdo Sul; os membros anteriores destas aves no se encontram neste estado exactamenteintermedirio visto que no so nem braos nem asas? Estas aves sustentam, contudo,vitoriosamente o seu lugar na luta pela existncia, visto que existem em grande nmero ecom diversas formas. No penso que sejam esses os verdadeiros estados de transio porque tenha passado a formao das asas definitivas das aves; mas haveria algumadificuldade especial em admitir que pudesse tornarse vantajosa aos descendentesmodificados do pinguim adquirir, a princpio, a faculdade de circular batendo a gua comas asas, como o pato de asas curtas, para chegar a levantar-se e arrojar-se aos ares? 385. Damos agora alguns exemplos em apoio das notas que precedem, e tambm paraprovar como estamos sujeitos a erro quando supomos que se produziram repentinamentegrupos inteiros de espcies. M. Pictet deve ter modificado consideravelmente as suasconcluses relativamente apario e desapario rpida de muitos grupos de animais nocurto intervalo que separa as duas edies da sua grande obra sobre paleontologia,aparecidas, a primeira em 1844-1846, a segunda em 1853-1857, e uma terceira reclamariaainda outras alteraes. Posso lembrar o facto bem conhecido de, em todos os tratados degeologia publicados no h muito tempo, se ensinar que os mamferos aparecerambruscamente no comeo da poca terciria. Ora, actualmente, um dos depsitos mais ricosem fsseis de mamferos, que se conhece, pertence ao meado da poca secundria, etm-se descoberto verdadeiros mamferos nas camadas do novo grs vermelho, que voquase ao comeo desta grande poca. Cuvier sustentou muitas vezes que as camadastercirias no contm nenhum macaco, mas depois disto tm-se encontrado espciesextintas destes animais na ndia, na Amrica do Sul e na Europa, at mesmo nas camadasda poca miocnia. Sem a conservao acidental e muito rara de impresses de passosno novo grs vermelho dos Estados Unidos, quem ousaria supor que mais de trintaespcies de animais semelhantes a aves, algumas delas de tamanho gigantesco,existiriam durante este perodo? No se tem podido descobrir nestas camadas o maispequeno fragmento de osso. At muito recentemente, os paleontlogos sustentavam que aclasse inteira das aves aparecera bruscamente durante a poca eocnia; mas o professorOwen demonstrou, em seguida, que existia uma ave incontestvel fora do depsito de grsverde superior. Mais recentemente ainda, descobriu-se nas camadas oolticas deSolenhofen esta curiosa ave, o arqueoptrix, de que a cauda de lagarto alongada tem emcada articulao um par de penas, e de que as asas so armadas de garras livres. Hpoucas descobertas recentes que provem, to eloquentemente como esta, quo limitadosso ainda os nossos conhecimentos sobre os antigos habitantes do Globo. 386. Citarei ainda um outro exemplo que me impressionou particularmente quando tiveocasio de o observar. Afirmei, numa memria sobre os cirrpedes ssseis fsseis, que,dado o nmero imenso de espcies tercirias vivas e extintas; dada a abundnciaextraordinria de indivduos de muitas espcies em todo o Globo, desde as regiesrcticas ao equador, habitando a diversas profundidades, desde as altas guas at 50braas; dada a perfeio com que os indivduos so conservados nas camadas terciriasmais antigas; atenta a facilidade com que o menor fragmento de valva pode serreconhecido, lcito era concluir-se que, se os cirrpedes ssseis houvessem existidodurante o perodo secundrio, estas espcies teriam sido certamente conservadas edescobertas. Ora, como nem uma s espcie se descobriu nos jazigos desta poca,cheguei concluso de que este imenso grupo devia ter-se desenvolvido subitamente naorigem da srie terciria; caso embaraoso para mim, porque fornecia um exemplo a maisda apario repentina de um grupo importante de espcies. Acabava a minha obra deaparecer, quando recebi do hbil paleontlogo, M. Bousquet, o desenho de um cirrpedesssil incontestvel e admiravelmente conservado, que tinha descoberto em greda, naBlgica. O caso era tanto mais notvel, quanto este cirrpede era um verdadeiroChthamalus, gnero muito comum, muito numeroso, e espalhado por toda a parte, mas deque no tinha ainda encontrado um espcimen, mesmo em algum depsito tercirio. Maisrecentemente ainda, M. Woodward descobriu na greda superior um Pyrgoma, membro deuma subfamlia distinta dos cirrpedes ssseis. Temos, pois, hoje a prova certa de que estegrupo de animais existiu durante o perodo secundrio.O caso em que mais frequentemente insistem os paleontlogos, como exemplo daapario momentnea de um grupo inteiro de espcies, o dos peixes telesteos nascamadas inferiores, segundo Agassiz, da poca da greda. Este grupo encerra a grandemaioria das espcies actuais, Mas admite-se geralmente hoje que certas formas jurssicase trisicas pertencem ao grupo dos telesteos, e uma alta autoridade classificou mesmoneste grupo certas formas paleozicas. Se todo o grupo telesteo tivesse realmenteaparecido no hemisfrio setentrional no comeo da formao da greda, o facto seriacertamente muito notvel; mas no constitua uma objeco insupervel contra a minhahiptese, a no ser que se no possa demonstrar ao mesmo tempo que as espcies destegrupo apareceram sbita e simultaneamente em toda a Terra na mesma poca. suprfluo lembrar que quase se no conhece ainda qualquer peixe fssil proveniente dosul do equador, e ver-se-, percorrendo a Paleontologia de Pictet, que as diversasformaes europeias tm fornecido apenas muito poucas espcies. Algumas famlias depeixes tm actualmente uma distribuio muito limitada; possvel que o mesmo se hajadado outrora com os peixes telesteos, e que fossem em seguida espalhados, depois dese terem desenvolvido consideravelmente em qualquer mar. No temos mais direito alguma supor que os mares do Globo foram sempre to livremente abertos do sul ao norte comoo so hoje. Em nossos dias ainda, se o arquiplago malaio se transformasse emcontinente, as partes tropicais do oceano ndico formariam uma grande bacia fechada, naqual grupos importantes de animais marinhos poderiam multiplicar-se, e ficar encerradosat que algumas espcies adaptadas a um clima mais frio, e tornadas assim capazes de 387. dobrar os cabos meridionais da frica e da Austrlia, pudessem em seguida estender-se eganhar os mares longnquos. 388. Estas consideraes diversas, a nossa ignorncia sobre a geologia dos pases quese encontram fora dos limites da Europa e dos Estados Unidos, a revoluo que asdescobertas dos doze ltimos anos tm operado nos nossos conhecimentospaleontolgicos, levam-nos a pensar que tambm arriscado dogmatizar sobre asucesso das formas organizadas em todo o Globo, tal qual sucederia a um naturalista quetivesse desembarcado cinco minutos num ponto estril das costas da Austrlia, sediscutisse sobre o nmero e a distribuio das produes deste continente. Da apario sbita de fgrupos de espcies aliadas nas camadas fossferas maisantigasH uma outra dificuldade anloga, mas muito mais sria. Quero falar da apariosbita de espcies pertencendo s divises principais do reino animal nas rochasfossilferas mais antigas que se conhecem. Os argumentos que me tm convencido de quetodas as espcies do mesmo grupo derivam de um ascendente comum, aplicam-seigualmente s espcies mais antigas que conhecemos. No h dvida, por exemplo, quetodos os trilobitas cambrianos e silurianos descendem de algum crustceo que deve tervivido muito tempo antes da poca cambriana, e que diferia provavelmente muito de todosos animais conhecidos. Alguns dos mais antigos animais, como o Nutilo, -Lngula, etc.,no diferem muito das espcies vivas; e, segundo minha teoria, somente se poderiamsupor estas antigas espcies como os antepassados de todas as espcies dos mesmosgrupos que apareceram a seguir, porque no apresentam em grau algum caracteresintermedirios. 389. Por conseguinte, se a minha teoria verdadeira, certo que devem ter decorrido,antes das camadas cambrianas inferiores, perodos bastante longos, e provavelmentemesmo muito mais longos, do que toda a durao dos perodos compreendidos entre aspocas cambriana e actual, perodos desconhecidos durante os quais seres vivospovoaram a Terra. Encontramos aqui uma objeco formidvel; pode duvidar-se, comefeito, que o perodo durante o qual o estado da Terra permitiu sua superfcie a vida,tenha durado muito tempo. Sir W. Thompson admite que a consolidao da crosta terrestreno pode elevar-se a menos de 20 milhes de anos, e no mais de 400 milhes, e deveestar mais provavelmente compreendida entre 98 e 200 milhes. O desvio considervelentre estes limites prova quanto estes dados so vagos, e provvel que outros elementosdevam ser introduzidos no problema. M. Croll avalia em 60 milhes de anos o tempodecorrido desde o depsito dos terrenos cambrianos; mas, a julgar pela pouca importnciadas alteraes orgnicas que se realizaram desdeo comeo da poca glaciria, esta durao parece curta relativamente smodificaes numerosas e considerveis que as formas vivas tm sofrido desde aformao cambriana. Quanto aos 140 milhes de anos anteriores, a custo se podemconsiderar como suficientes para o desenvolvimento das formas variadas que existiam jdurante a poca cambriana. todavia provvel, comoo faz notar expressamente sir W. Thompson, que durante estes perodos primitivoso Globo devia ser exposto a alteraes mais rpidas e mais violentas nas suas condiesfsicas do que actualmente; de onde tambm modificaes mais rpidas nos seresorganizados que habitavam a superfcie da Terra nessas remotas pocas. Porque no encontramos ns depsitos ricos em fsseis pertencendo a essesperodos primitivos anteriores poca cambriana?Eis uma questo a que no posso dar uma resposta satisfatria. Muitos gelogoseminentes, com sir R. Murchison na vanguarda, estavam, recentemente ainda,convencidos que vemos os primeiros vestgios de vida nos restos orgnicos que nosfornecem as camadas silricas mais antigas. Outros juzes, muito competentes, tais comoLyell e E. Forbes, contestam esta concluso. No esqueamos que conhecemos um poucoexactamente apenas uma pequena poro do Globo. No h muito tempo que M.Barrande juntou ao sistema silrico um novo andar inferior, povoado de numerosasespcies novas e especiais; mais recentemente ainda, M. Hicks encontrou, no sul do Pasde Gales, camadas pertencendo formao cambriana inferior, ricas em trilobitas, econtendo alm disso diversos moluscos e diversos aneldeos. A presena de ndulosfosfticos e de matrias betuminosas, mesmo em algumas das rochas azicas, pareceindicar a existncia da vida desde esses perodos. A existncia do cozoon na formaolaurentina, no Canad, geralmente admitida. H no Canad, abaixo do sistema silrico,trs grandes sries de camadas; na mais antiga que se encontra o cozoon. W. Loganafirma que a espessura das trs sries reunidas ultrapassa provavelmente muito a detodas as rochas das pocas seguintes, desde a base da srie paleozica at aos nossosdias. Isto faz-nos recuar to longe no passado, que se pode considerar a apario dafauna chamada primordial (de Barrande) como um facto relativamente moderno. O 390. cozoon pertence classe dos animais mais simples no ponto de vista da organizao;mas, apesar desta simplicidade, admiravelmente organizado. Existiu em quantidadesinumerveis, e, como o fez notar o Dr. Dawson, devia certamente nutrir-se de outros seresorganizados mais simples, que devem ter igualmente pululado em nmero incalculvel.Assim so verdadeiras as notas que fizemos em 1859, com respeito existncia de seresque tenham vivido muito tempo antes do perodo cambriano, e os termos de que me serviento so quase os mesmos de que se serviu mais tarde sir W. Logan. No obstante, adificuldade de explicar, com boas razes, a ausncia de vastos pavimentos de camadasfossilferas abaixo das formaes do sistema cambriano superior fica sempre muitogrande. pouco provvel que as camadas mais antigas tivessem sido completamentedestrudas por desnudao, e que os fsseis fossem inteiramente obliterados a seguir poruma aco metamrfica; porque, nesse caso, teramos encontrado tambm apenas fracosvestgios das formaes que se lhes seguiram imediatamente, e esses restosapresentariam sempre sinais de alterao metamrfica. Ora, as descries que possumosdos depsitos silricos que cobrem imensos territrios na Rssia e na Amrica do Norteno permitem concluir que, quanto mais antiga a formao, tanto mais invariavelmentedeve ter sofrido uma desnudao considervel ou um metamorfismo excessivo. 391. O problema fica pois, por enquanto, inexplicado, insolvel, e pode continuar a servirde srio argumento contra as opinies emitidas aqui. Farei todavia a hiptese seguinte,para provar que se poder talvez mais tarde encontrar uma soluo. Em virtude danatureza dos restos orgnicos que, nas diversas formaes da Europa e dos EstadosUnidos, no parecem ter vivido a muito grandes profundidades, e da enorme quantidadede sedimentos de que o conjunto constitui estas poderosas formaes de uma espessurade muitos quilmetros, podemos pensar que, do princpio ao fim, grandes ilhas ou grandesextenses de terreno, prprios a fornecer os elementos destes depsitos, devem terexistido na vizinhana dos continentes actuais da Europa e da Amrica do Norte. Agassiz eoutros sbios sustentaram recentemente esta mesma opinio. Mas no sabemos qual erao estado das coisas nos intervalos que separaram as diversas formaes sucessivas; nosabemos se, durante estes intervalos, a Europa e os Estados Unidos existiam no estadode terras emergidas ou reas submarinas junto das terras, mas sobre as quais se noformava nenhum depsito, ou enfim como o leito de um mar aberto e insondvel. 392. Vemos que os oceanos actuais, cuja superfcie o triplo da das terras, so semeadosde um grande nmero de ilhas; mas no se conhece uma s ilha verdadeiramenteocenica (exceptuando a Nova Zelndia, se todavia esta se pode considerar como tal), queapresente mesmo um vestgio de formaes paleozicas ou secundrias. Podemos, pois,talvez concluir que, por onde se estendem actualmente os nossos oceanos, no existiam,durante as pocas paleozica e secundria, nem continentes nem ilhas continentais;porque, se tivessem existido, seriam, com toda a probabilidade, formados a expensas dosmateriais que lhes houvessem sido tirados, pelos depsitos sedimentares paleozicos esecundrios, que teriam sido a seguir parcialmente levantados nas oscilaes de nvel quedevem necessariamente haver-se produzido durante estes imensos perodos. Se poispodemos concluir alguma coisa destes factos que, onde se estendem actualmente osnossos oceanos, oceanos existiram desde a poca mais recndita de que pudssemos terconhecimento, e, por outra parte, que onde se encontram hoje os continentes, existiramgrandes extenses de terra desde a poca cambriana, submetidas muito provavelmente afortes oscilaes de nvel. A carta colorida que juntei minha obra sobre os recifes decoral levou-me a concluir que, em geral, os grandes oceanos so ainda hoje reas deenfraquecimento; que os grandes arquiplagos so sempre o teatro das maioresoscilaes de nvel, e que os continentes representam reas de levantamento. Mas notemos razo alguma para supor que as coisas tenham sido sempre assim desde o comeodo mundo. Os nossos continentes parecem ter sido formados, no decurso de numerosasoscilaes de nvel, por uma preponderncia da fora de elevao; mas no pode sucederque as reas do movimento preponderante tenham mudado no decorrer das idades? Numperodo muito anterior poca cambriana pode ter havido continentes onde hoje existemoceanos, e oceanos sem limites onde hoje existem continentes. No estaramos to-poucoautorizados a supor que, se o fundo actual do oceano Pacfico, por exemplo, viesse a serconvertido em continente, a encontrssemos, num estado reconhecvel, formaessedimentares mais antigas do que as camadas cambrianas, supondo que fossem outroraa depositadas; porque poderia suceder que camadas, que em seguida ao seuabaixamento se tivessem aproximado de muitas milhas do centro da Terra, e que tivessemsido fortemente comprimidas com o peso enorme da grande massa de gua que as cobria,sofressem modificaes metamrficas bem mais considerveis do que as que ficaram maisperto da superfcie. As imensas extenses de rochas metamrficas desnudadas que seencontram em algumas partes do mundo, na Amrica do Sul por exemplo, e que devem tersido submetidas aco do calor numa forte presso, pareceram-me sempre exigiralguma explicao especial; e talvez vejamos, nestas imensas regies, numerosasformaes, muito anteriores poca cambriana, hoje completamente desnudadas etransformadas pelo metamorfismo. 393. ResumoAs diversas dificuldades que acabmos de discutir, a saber: a ausncia das nossasformaes geolgicas de fuzis apresentando todos os graus de transio entre as espciesactuais e as que as precederam, posto que encontremos muitas vezes formasintermedirias; a apario sbita de grupos inteiros de espcies nas nossas formaeseuropeias; a ausncia quase completa, pelo menos at hoje, de depsitos fossilferos porbaixo do sistema cambriano, tm todas incontestavelmente uma grandeimportncia. Vemos a prova no facto de os paleontlogos mais eminentes, tais comoCuvier, Agassiz, Barrande, Pietet, Falconer, E. Forbes, etc., e todos os nossos maioresgelogos, Lyell, Murchison, Sedgwick, etc., terem unanimemente, e muitas vezes comardor, sustentado o princpio da imutabilidade das espcies. Todavia, sir C. LyeIl sustentaactualmente, com a sua grande autoridade, a opinio contrria, e a maior parte dospaleontlogos e dos gelogos esto muito abalados nas suas convices anteriores. Osque admitem a perfeio e a suficincia dos documentos que a geologia nos fornecerebatero sem dvida imediatamente a minha teoria. Quanto a mim, considero os arquivosgeolgicos, segundo a metfora de Lyell, como uma Histria do Globo incompletamenteconservada, escrita num dialecto sempre modificado, e de que possumos apenas o ltimovolume tratando de dois ou trs pases somente. Alguns fragmentos de captulos destevolume e algumas linhas esparsas de cada pgina so as nicas chegadas at ns. Cadapalavra desta linguagem alterando lentamente, diferindo mais ou menos nos captulossucessivos, pode representar as formas que viveram, que esto sepultadas nas formaessucessivas, e que nos parecem sem razo ter sido bruscamente introduzidas. Estahiptese atenua muito, se no as faz desaparecer por completo, as dificuldades queacabamos de discutir no presente captulo. 394. Captulo XI Da sucesso geolgica dos seres organizadosApario lenta e sucessiva das espcies novas. -Sua diferente velocidade detransformao.-As espcies extintas no mais reaparecem. Os grupos de espcies, noponto de vista da sua apario e desapario, obedecem s mesmas regras gerais que asespcies isoladas. -Extino.-Alteraes simultneas das formas orgnicas em todo oGlobo. - Afinidades das espcies extintas quer entre si, quer com as espcies vivas.-Estado de desenvolvimento das formas antigas. -Sucesso dos mesmos tipos nasmesmas zonas. -Resumo deste captulo e do captulo precedente.Examinemos agora se as leis e os factos relativos sucesso geolgica dos seresorganizados concordam melhor com a teoria ordinria da imutabilidade das espcies doque com a da sua modificao lenta e gradual, por via da descendncia e da seleconatural.As espcies novas tm aparecido muito lentamente, uma aps outra, tanto na terracomo nas guas. Lyell demonstrou que, a este respeito, as diversas camadas terciriasfornecem um testemunho incontestvel; cada ano tende a preencher algumas lacunas queexistem entre estas camadas, e a tornar mais gradual a proporo entre as formas extintase as formas novas. Em algumas das camadas mais recentes, posto que subindo a umaalta antiguidade contando em anos, nota-se apenas a extino de uma ou duas espcies,e a apario de outras tantas espcies novas, quer locais, quer, quanto o podemos julgar,sobre toda a superfcie da Terra. As formaes secundrias so mais destrudas; mas,assim como o faz notar Bronn, a apario e a desapario das numerosas espciesextintas escondidas em cada formao no foram jamais simultneas.As espcies pertencendo a diferentes gneros e a diferentes classes no mudaramno mesmo grau nem com a mesma rapidez. Nas camadas tercirias mais antigas podemencontrar-se algumas espcies actualmente vivas, em meio de um conjunto de formasextintas. Falconer assinalou um exemplo frisante de um facto parecido, um crocodiloexistindo ainda que se encontra entre os mamferos e rpteis extintos nos depsitossub-himalaios. A lngula silrica, difere muito pouco das espcies vivas deste gnero,enquanto que a maior parte dos outros moluscos silricos e todos os crustceos tmmudado muito. Os habitantes da terra parecem modificar-se mais rapidamente que os domar; tem-se observado ultimamente na Sua um notvel exemplo deste facto. H ocasiode crer que os organismos elevados na escala se modificam mais rapidamente do que osorganismos inferiores; esta regra sofre, contudo, algumas excepes. A soma dastransformaes orgnicas, segundo a nota de Pictet, no a mesma em cada formaosucessiva. Todavia, se compararmos duas formaes que no sejam muito prximas,encontramos que todas as espcies tm sofrido algumas modificaes. Quando umaespcie desaparece do Globo, no temos razo alguma para acreditar que a formaidntica reaparea jamais. O caso que pareceria fazer maior excepo a esta regra o das 395. colnias de M. Barrande, que fazem invaso durante algum tempo no meio de umaformao mais antiga, em seguida cedem de novo o lugar fauna preexistente; mas Lyellparece ter-me dado uma explicao satisfatria deste facto, supondo migraestemporrias provindo de provncias geogrficas distintas. 396. Estes diversos factos concordam bem com a minha teoria, que no supe lei algumafixa do desenvolvimento, obrigando todos os habitantes de uma zona a modificar-sebruscamente, simultaneamente, ou em grau igual. Pela minha teoria, ao contrrio, amarcha das modificaes deve ser lenta, e afectar geralmente apenas muito pouco asespcies ao mesmo tempo; com efeito, a variabilidade de cada espcie independente dade todas as outras. A acumulao pela seleco natural, num grau mais ou menospronunciado, das variaes ou diferenas individuais que podem surgir, produzindo assimmais ou menos modificaes permanentes, depende de eventualidades numerosas ecomplexas -tais como a natureza vantajosa das variaes, a liberdade dos cruzamentos,as alteraes lentas nas condies fsicas do pas, a imigrao de novas formas e anatureza dos outros habitantes com os quais a espcie que varia se encontra emconcorrncia. Nada , pois, de admirar que uma espcie possa conservar a sua formamais tempo do que as outras, ou que, se ela se modifica, o faa em grau menor.Encontramos relaes anlogas entre os habitantes actuais de pases diferentes; assim, asconchas terrestres e os insectos colepteros da Madeira chegaram a diferirconsideravelmente das formas do continente europeu que mais se lhe assemelham,enquanto que as conchas marinhas e as aves no se alteraram. A rapidez maior dasmodificaes nos animais terrestres e de uma organizao mais elevada,comparativamente ao que se passa com as formas marinhas e inferiores, explica-se talvezpelas relaes mais complexas que existem entre os seres superiores e as condiesorgnicas e inorgnicas da sua existncia, assim como o temos j indicado num captuloprecedente. Quando um grande nmero de habitantes de qualquer regio se modifica eaperfeioa, resulta do princpio da concorrncia e das relaes essenciais que tmmutuamente entre si os organismos na luta pela existncia, que toda a forma que no semodifica e no se aperfeioa em certo grau deve ser exposta destruio. E d-se istoporque todas as espcies da mesma regio acabam sempre, se se considera um lapso detempo suficiente longo, por se modificar, porque de outra forma desapareceriam. 397. A mdia das modificaes nos membros da mesma classe pode ser quase a mesma,durante perodos iguais e de igual comprimento; mas como a acumulao de camadasdurveis, ricas em fsseis, depende do depsito de grandes massas de sedimentos emreas em via de abaixamento, estas camadas devem ter-se necessariamente formado comintervalos muito considerveis e irregularmente intermitentes. Por consequncia, a somadas alteraes orgnicas de que do testemunho os fsseis contidos nestas formaesconsecutivas no igual. Nesta hiptese, cada formao no representa um acto novo ecompleto de criao, mas somente uma cena tomada ao acaso no drama que lentamentese est sempre desenrolando. fcil compreender a causa por que uma espcie, uma vez extinta, no poderiaaparecer, admitindo mesmo a volta de condies de existncia orgnicas e inorgnicasidnticas. Com efeito, posto que a descendncia de uma espcie possa adaptar-se demaneira a ocupar na economia da natureza o lugar de uma Outra (o que sucede semdvida muitas vezes), e chegar assim a suplant-la, as duas formas -antiga e moderna-no poderiam jamais ser idnticas, porque ambas teriam quase certamente herdado dosantepassados distintos caracteres diferentes, e porque organismos j diferentes tendem avariar de uma maneira diferente. Por exemplo, possvel que, se os nossospombos-paves fossem todos destrudos, os tratadores chegassem a reconstituir umanova raa quase semelhante raa actual. Mas se supusermos a destruio daorigem-me, o torcaz -e temos toda a razo para acreditar que no estado de natureza asformas pais so geralmente substitudas e exterminadas pelos seus descendentesaperfeioados -seria pouco provvel que um pombo-pavo, idntico raa existente,pudesse derivar da outra espcie de pombo ou mesmo de alguma outra raa bem fixa dopombo domstico. Com efeito, as variaes sucessivas seriam com certeza diferentes numcerto grau, e a variedade novamente formada imprimiria provavelmente na fonte mealgumas divergncias caractersticas.Os grupos de espcies, isto , os gneros e as famlias seguem na sua 398. apario e desapario as mesmas regras gerais que as espcies isoladas, isto , que semodificam mais ou menos fortemente, e mais ou menos prontamente. Um grupo uma vezextinto jamais reaparece; isto , que a sua existncia, tanto quanto se perpetua, rigorosamente contnua. Sei que esta regra sofre algumas excepes aparentes, mas toraras so, que E. Forbes, Pictet e Woodward (ainda que inteiramente opostos s ideiasque defendo) a admitem como verdadeira. Ora, esta regra concorda rigorosamente com aminha teoria, porque todas as espcies de um mesmo grupo, qualquer que tenha podidoser a sua durao, so os descendentes modificados entre si, e de um antepassadocomum. As espcies do gnero lngula por exemplo, que apareceram sucessivamente emtodas as pocas, devem ter sido ligadas umas s outras por uma srie ininterrupta degeraes, desde as camadas mais antigas do sistema silrico at nossos dias.Vimos, no captulo precedente, que grupos inteiros de espcies parecem aparecerpor vezes ao mesmo tempo e subitamente. Procurei dar uma explicao deste facto, queseria, se fosse bem verificado, fatal minha teoria. Mas tais casos so excepcionais; aregra geral, ao contrrio, um aumento progressivo em nmero, at que o grupo atinja oseu mximo, cedo ou tarde seguido de um decrescimento gradual. Se se representar onmero de espcies contidas num gnero, ou o nmero de gneros contidos numa famlia,por um trao vertical de espessura varivel, atravessando as camadas geolgicassucessivas contendo estas espcies, o trao parece algumas vezes comear no seuextremo inferior, no por ponta aguda, mas bruscamente. Espessa-se gradualmentesubindo; conserva muitas vezes uma largura igual, durante um trajecto mais ou menoslongo, depois termina por se adelgaar nas camadas superiores, indicando odecrescimento e a extino final da espcie. Esta multiplicao gradual do nmero dasespcies de um grupo est estritamente de acordo com a minha teoria, porque as espciesde um mesmo gnero e os gneros da mesma famlia aumentam apenas lenta eprogressivamente a modificao e a produo de numerosas formas vizinhas podendo sersomente longos e graduais. Com efeito, uma espcie a princpio produz duas ou trsvariedades, que se convertem lentamente em outras tantas espcies, que por seu turno, epor uma marcha igualmente gradual, do origem a outras variedades e espcies, e, assimsucessivamente, como os ramos que, partindo de um tronco nico de uma grande rvore,terminam, ramificando-se sempre, por formar um grupo considervel no seu conjunto. 399. ExtinoTemos, at ao presente, falado apenas incidentemente da desapario das espciese dos grupos de espcies. Pela teoria da seleco natural, a extino das formas antigas ea produo das formas novas aperfeioadas so dois factos intimamente conexos. A velhanoo da destruio completa de todos os habitantes do Globo, aps cataclismosperidicos, hoje geralmente abandonada, mesmo por gelogos tais como E. deBeaumont, Murchison, Barrande, etc., cujas concluses gerais deveriam naturalmenteconduzir a concluses desta natureza. Resulta, pelo contrrio, do estudo das formaestercirias que as espcies e os grupos de espcies desapareciam lentamente umas apsoutras, primeiro num ponto, depois noutro, e enfim da Terra inteira. Em alguns casos muitoraros, tais como a rotura de um istmo e a irrupo, que a consequncia, de uma aluviode novos habitantes provindo de um mar vizinho, ou a imerso total de uma ilha, a marchada extino podia ter sido rpida. As espcies e os grupos de espcies persistem duranteperodos de uma extenso muito desigual; vimos, com efeito, que alguns grupos queapareceram desde a origem da vida existem ainda hoje, enquanto que outrosdesapareceram antes do fim do perodo paleozico. O tempo durante o qual uma espcieisolada ou um gnero pode persistir no parece depender de lei alguma fixa. Pode semprecrer-se que a extino de um grupo completo de espcies deve ser muito mais lenta doque a sua produo. Se se figura como precedentemente a apario e a desapario deum grupo por um trao vertical de espessura varivel, este ltimo afila-se muito maisgradualmente para a extremidade superior, que indica a marcha da extino, do que para aextremidade inferior, que representa a apario primeira, e a multiplicao progressiva daespcie. H, contudo, casos em que a extino de grupos inteiros foi notavelmente rpida; o que se observa com os amonitas no fim do perodo secundrio.Tem-se muito gratuitamente envolvido em mistrios a extino das espcies. Algunsautores chegaram a supor que, como a vida do indivduo tem um limite determinado, assima da espcie tem tambm uma durao limitada. Ningum, como eu, tem podido serimpressionado de espanto pelo fenmeno da extino das espcies. Qual no foi a minhasurpresa, por exemplo, quando encontrei no Prata um dente de cavalo sepultado com osrestos de mastodontes, de megatrios, de toxodontes e outros mamferos gigantescosextintos, que todos tinham coexistido num perodo geolgico recente com conchas aindavivas? Com efeito, o cavalo, desde a sua introduo na Amrica do Sul pelos Espanhis,tornou-se selvagem em todo o pas e multiplicou-se com uma rapidez sem igual; devia,pois, perguntar a mim prprio qual devia ter sido a causa da extino do cavalo primitivo,em condies de existncia na aparncia to favorveis. O meu espanto era mal fundado;o professor Owen no tardou a reconhecer que o dente, posto que muito semelhante ao docavalo actual, pertencia a uma espcie extinta. Se este cavalo existisse ainda, mas quefosse raro, ningum se admiraria; porque em todos os pases a raridade o atributo de umconjunto de espcies de todas as classes; se se perguntarem as causas de tal raridade,respondemos que so a consequncia de algumas circunstncias desfavorveis nascondies de existncia, mas no podemos de forma alguma indicar quais sejam essas 400. circunstncias. Supondo que o cavalo fssil tenha existido ainda como espcie rara,parece muito natural pensar, pela analogia com todos os outros mamferos, incluindo oelefante, cuja reproduo to lenta, bem como pela naturalizao do cavalo domsticona Amrica do Sul, que, em condies favorveis, tivesse, em poucos anos, povoado ocontinente. Mas no teramos podido dizer quais as condies desfavorveis que obstaram sua multiplicao; se uma ou muitas causas actuaram em conjunto ou separadamente;em que perodo da vida e em que grau actuou cada uma delas. Se as circunstnciascontinuassem, to lentamente como se julga, a tornar-se cada vez menos favorveis, noteramos certamente observado o facto, mas o cavalo fssil tornar-se-ia cada vez maisraro, e extinguir-se-ia finalmente, dando 401. o seu lugar na natureza a qualquer concorrente mais feliz. difcil ter sempre presente ao espirito o facto de a multiplicao de cada forma vivaser sem cessar limitada por causas nocivas desconhecidas que, contudo, so muitosuficientes para determinar a princpio a raridade e em seguida a extino. Compreende-seto pouco este assunto, que tenho ouvido muitas vezes exprimir a surpresa que causa aextino de animais gigantescos, tais como o mastodonte e o dinossauro, como se a foracorporal fosse o bastante para assegurar a vitria na luta pela existncia. A grandecorpulncia de uma espcie, pelo contrrio, pode arrastar, em certos casos, como Owen ofaz notar, mais pronta extino, devido maior quantidade de nutrio necessria. Amultiplicao do elefante actual deve ter sido limitada por uma causa qualquer antes que ohomem habitasse a ndia ou a frica. O Dr. Falconer, juiz muito competente, atribui estaparagem no aumento em nmero do elefante ndico aos insectos que o fatigam e oenfraquecem; Bruce chegou mesma concluso relativamente ao elefante africano daAbissnia. certo que a presena dos insectos e dos vampiros decide, em diversas partesda Amrica do Sul, da existncia dos maiores mamferos naturalizados.Nas formaes tercirias recentes, vemos casos numerosos em que a 402. raridade precede a extino, e sabemos que o mesmo facto se apresenta para os animaisque o homem, pela sua influncia, tem exterminado local ou totalmente. Posso repetir aquio que escrevi em 1845: admitir que as espcies se tornam geralmente raras antes daextino, e no admirar tal facto, para somente maravilhar o seu desaparecimento, comoadmitir que a doena, no indivduo, o antecessor da morte, e se veja a doena semsurpresa, Para Pasmar e atribuir a morte do doente a um acto de violncia.A teoria da seleco natural baseada na opinio que cada variedade nova, e, emltima anlise, cada espcie nova, se forma e se mantm por meio de certas vantagensadquiridas sobre as que consigo entram em concorrncia; e, enfim, sobre a extino dasformas menos favorecidas, que a consequncia inevitvel. O mesmo se d com asnossas produes domsticas, porque, quando uma variedade nova e um Pouco superiorfoi obtida, substitui a princpio as variedades inferiores da vizinhana; mais aperfeioada,espalha-se cada vez mais, como os nossos bois de chifres curtos, e toma o lugar de outrasraas em outros pases. A apario de formas novas e a desapario das antigas so pois,tanto para as produes naturais como para as produes artificiais, dois factos conexos.O nmero das formas novas especficas, produzidas num tempo dado, deve ter sido, nosgrupos florescentes, provavelmente mais considervel do que o das formas antigas queforam exterminadas; mas sabemos que, pelo menos durante as pocas geolgicasrecentes, as espcies no tm aumentado indefinidamente; de maneira que podemosadmitir, no que diz respeito s pocas mais recentes, que a produo de novas formasdeterminou a extino de um nmero quase igual de formas antigas.A concorrncia geralmente mais rigorosa, como com exemplos o demonstrmos j,entre as formas que se semelham em todos os pontos de vista. Por conseguinte, osdescendentes modificados e aperfeioados de uma espcie causam geralmente oextermnio da origem-me; e se muitas novas formas, provindo de uma mesma espcie,conseguem desenvolver-se, so as formas mais prximas desta espcie, isto , asespcies do mesmo gnero, que se encontram mais expostas destruio. assim, creioeu, que um certo nmero de espcies novas, derivadas de uma espcie nica econstituindo assim um gnero novo, chega a suplantar um gnero antigo, pertencente mesma famlia. Mas deve ter sucedido muitas vezes tambm que uma espcie novapertencendo a um grupo tomasse o lugar de uma espcie pertencendo a um grupodiferente, e provocasse assim a sua extino. Se muitas formas aliadas tm sado destamesma forma, outras espcies conquistadoras anteriormente lhe devero ter cedido olugar, e sero ento geralmente as formas vizinhas que tm mais a sofrer, em razo dealguma inferioridade hereditria comum a todo 403. o grupo. Mas como as espcies obrigadas a ceder assim o seu lugar a outras maisaperfeioadas pertencem mesma classe ou a classes distintas, poder suceder quealgumas delas possam ser muito tempo conservadas, aps a sua adaptao a condiesdiferentes de existncia, ou porque, ocupando um ponto isolado, escaparam a umarigorosa concorrncia. Assim, por exemplo, algumas espcies de Trigonia, grande gnerode moluscos das formaes secundrias, tm sobretudo vivido e habitam ainda os maresaustralianos; e alguns membros do grupo considervel e quase extinto dos peixesganides encontram-se ainda nas nossas guas doces. Compreende-se, pois, a causa dea extino completa de um grupo ser geralmente, como acabamos de ver, muito mais lentado que a sua produo. Quanto sbita extino de famlias ou de ordens inteiras, tais como o grupo dostrilobitas no fim da poca paleozica ou o dos amonitas no fim do perodo secundrio,lembrar-nos-emos do que temos j dito sobre os grandes intervalos de tempo quedecorreram entre as nossas formaes consecutivas, intervalos durante os quais se podeefectuar uma extino lenta, mas considervel. Demais, quando, aps imigraes sbitasou de um desenvolvimento mais rpido do que de ordinrio, algumas espcies de um novogrupo se apoderam de uma regio qualquer, muitas espcies antigas devem serexterminadas com uma rapidez correspondente; ora, as formas assim suplantadas soprovavelmente prximas aliadas, pois que possuem algum defeito comum. Parece-me, pois, que o modo de extino das espcies isoladas ou dos grupos deespcies concorda perfeitamente com a teoria da seleco natural. No devemosadmirar-nos da extino, mas da nossa presuno de querer imaginar quecompreendemos as circunstncias complexas de que depende a existncia de cadaespcie. Se nos esquecermos um instante de que cada espcie tende a multiplicar-se atao infinito, mas que est constantemente conservada em respeito por causas que sraramente compreendemos, toda a economia da natureza incompreensvel. Quandopudermos dizer precisamente a causa por que tal espcie mais abundante em indivduosdo que outra, ou porque esta espcie e no aquela pode ser naturalizada num dado pas,s ento teremos o direito de nos admirarmos de que no possamos explicar a extino decertas espcies ou de certos grupos. 404. Alteraes quase instantneas das formas vivas no GloboUma das descobertas mais interessantes da paleontologia, que as formas da vidamudam em todo o Globo de uma maneira quase simultnea. Assim, a formao europeiada greda reconhece-se em muitas partes do Globo, nos mais diversos climas, mesmo ondese no poderia encontrar o menor fragmento de mineral semelhante greda, por exemplona Amrica do Norte, na Amrica do Sul equatorial, na Terra do Fogo, no Cabo da BoaEsperana e na pennsula indica. Com efeito, em todos estes pontos afastados, osvestgios orgnicos de certas camadas apresentam uma semelhana incontestvel com osda greda; no porque se encontrem a as mesmas espcies, porque, em muitos casos, nohouve uma que fosse identicamente a mesma, mas pertencem s mesmas famlias, aosmesmos gneros, s mesmas subdivises de gneros, e so por vezes semelhantementecaracterizadas Pelos mesmos caracteres superficiais, tais como a cinzeladura exterior.Alm disso, outras formas de greda que se no encontram na Europa, mas queexistem nas formaes superiores ou inferiores, seguem-se na mesma ordem nestesdiferentes pontos do Globo to afastados entre si. Muitos autores verificaram umparalelismo semelhante das formas da vida nas formaes paleozicas sucessivas daRssia, da Europa Ocidental e da Amrica do Norte;o mesmo se observa, segundo Lyell, nos diversos depsitos tercirios da Europa e daAmrica do Norte. Pondo mesmo de lado algumas espcies fsseis que so comuns aovelho e novo mundo, o paralelismo geral das diversas formas da vida nas camadaspaleozicas e nas camadas tercirias no ficar menos manifesto e tornar fcil acorrelao nas diversas formaes.Estas observaes, todavia, aplicam-se apenas aos habitantes marinhos do Globo; porquedados suficientes nos faltam para apreciar se as produes das terras e das guas docestm, em pontos afastados, mudado de uma maneira paralela anloga. H razo para de talduvidar. Se se houvesse trazido do Prata o Megatrio, o Mylodon, o Macrauchenia e o Toxodon sem ensinamentos sobre asua posio geolgica, ningum suporia que estas formas tivessem existido com moluscosmarinhos ainda vivos; todavia, a sua coexistncia com o mastodonte e o cavalo, permitiriapensar que viveram durante um dos ltimos perodos tercirios.Quando dizemos que as faunas marinhas se alteraram simultaneamente em todo oGlobo, necessrio no supor que a expresso se aplica ao mesmo ano ou ao mesmosculo, ou mesmo que tenha um sentido geolgico bem rigoroso; porque, se todos osanimais marinhos vivendo actualmente na Europa (assim como os que viveram durante operodo pleistocnio, j to fortemente distanciado, se se contar a sua antiguidade pelonmero de anos, visto que compreende toda a poca glaciria), fossem comparados aosque existem actualmente na Amrica do Sul ou na Austrlia, o mais hbil naturalista comdificuldade poderia decidir quais dos habitantes actuais ou dos da poca pleistocnia naEuropa, semelham mais os do hemisfrio austral. Ainda assim, alguns observadores muitocompetentes admitem que as produes actuais dos Estados Unidos se aproximam maisdas que viveram na Europa durante certos perodos tercirios recentes do que das formaseuropeias actuais, e, sendo assim, evidente que as camadas fossilferas que sedepositam agora nas costas da Amrica do Norte arriscar-se-iam no futuro a ser 405. classificadas com os depsitos europeus algum tanto mais antigos. No obstante, numfuturo muito afastado, no duvidoso que todas as formaes marinhas mais modernas, opliocnio superior, o pleistocnio e os depsitos completamente modernos da Europa, daAmrica do Norte, da Amrica do Sul e da Austrlia, podero ser com razo consideradoscomo simultneos, no sentido geolgico da palavra, porque encerraro detritos fsseismais ou menos aliados, e porque no contero qualquer das formas prprias aos depsitosinferiores mais antigos. 406. Este facto da mudana simultnea das formas da vida nas diversas partes do mundo,dando a esta lei o sentido lato e geral que acabamos de dar-lhe, impressionou muito doisobservadores eminentes, MM. de Verneuil e de Archiac. Depois de ter lembrado oparalelismo que se nota entre as formas orgnicas da poca paleozica nas diversaspartes da Europa, acrescentam: Se, feridos por esta estranha sucesso, voltarmos osolhos para a Amrica do Norte e a descobrirmos uma srie de fenmenos anlogos,parecer-nos-, pois, certo que todas as modificaes das espcies, a sua extino, aintroduo de espcies novas, no mais podem ser o resultado de simples alteraes nascorrentes ocenicas, ou de outras causas mais ou menos locais e temporrias, mas quedevem depender de leis gerais que regulem o conjunto do reino animal. M. Barrandeinvoca outras consideraes de grande valor que conduzem mesma concluso. No sepoderia, com efeito, atribuir a estas alteraes de correntes, de clima, ou de outrascondies fsicas, estas imensas mutaes das formas organizadas no Globo, nos climasmais diversos. Devemos, assim como Barrande o fez observar, procurar alguma leiespecial. o que ressaltar ainda mais claramente quando tratarmos da distribuio actualdos seres organizados, e virmos quanto so insignificantes as relaes entre as condiesfsicas das diversas regies e a natureza dos seus habitantes. Este grande facto da sucesso paralela das formas da vida no mundo 407. explica-se facilmente pela teoria da seleco natural. As espcies novas formamse porquepossuem algumas vantagens sobre as mais antigas; ora, as formas j dominantes, ou quetm alguma superioridade sobre as outras formas do mesmo pas, so as que produzem omaior nmero de variedades novas ou espcies nascentes. A prova evidente desta lei, que as Plantas dominantes, isto , as que so mais comuns e mais espalhadas, sotambm as que produzem a maior quantidade de variedades novas. natural, alm disso,que as espcies Preponderantes, variveis, susceptveis de se espalhar ao longe e tendoj invadido mais ou menos os territrios de outras espcies, sejam tambm as mais aptaspara se estender ainda mais, e para produzir, em novas regies, variedades e espciesnovas. Pode a sua difuso ser por vezes muito lenta, porque depende de alteraesclimatricas e geogrficas, de acidentes imprevistos e da aclimatao gradual das novasespcies nos diversos climas que hajam de atravessar; mas, com o tempo, so as formasdominantes que, em geral, tm mais probabilidades em se espalhar, e, finalmente, emprevalecer. provvel que os animais terrestres habitando continentes distintos seespalhem mais lentamente do que as formas marinhas povoando mares contnuos.Podemos, pois, chegar a encontrar, como se observa com efeito, um paralelismo menosrigoroso na sucesso das formas terrestres do que nas formas marinhas.Parece-me, portanto, que a sucesso paralela e simultnea, dando a este ltimotermo o sentido mais lato, das mesmas formas organizadas no Globo concorda bem com oprincpio segundo o qual novas espcies seriam produzidas pela grande extenso e pelavariao das espcies dominantes. Sendo dominantes as prprias espcies novas, poisque tm ainda uma certa superioridade sobre as formas-mes que j existiam, assim comosobre outras espcies, continuam a espalhar-se, a variar e a produzir novas variedades. Asespcies antigas, vencidas pelas novas formas vitoriosas, s quais cedem o lugar, sogeralmente aliadas em grupos, consequncia da herana comum de alguma causa deinferioridade; medida pois que os grupos novos e aperfeioados se espalham na Terra,os antigos desaparecem, e por toda a parte h correspondncia na sucesso das formas,tanto na sua primeira apario como no desaparecimento final.Creio ainda til fazer uma observao a este respeito. Indiquei as razes que melevam a crer que a maior parte das nossas grandes formaes ricas em fsseis foramdepositadas durante perodos de abaixamento, e que interrupes de uma duraoimensa, no que se refere ao depsito de fsseis, se deviam ter produzido durante aspocas em que o fundo do mar estava estacionrio ou em via de levantamento, e tambmquando os sedimentos se no depositassem em assaz grande quantidade, nem assazrapidamente para esconder e conservar os restos dos seres organizados. Suponho que,durante estes longos intervalos, de que no podemos encontrar vestgio algum, oshabitantes de cada regio sofreram uma soma considervel de modificaes e extines, eque houve frequentes emigraes de uma regio para outra. Como temos todas as razespara julgar que imensas superfcies so afectadas pelos mesmos movimentos, provvelque formaes exactamente contemporneas se deviam muitas vezes ter acumulado emgrandes extenses na Mesma parte do Globo: mas no estamos de modo algumautorizados a concluir que foi assim invariavelmente, e que grandes superfcies foram 408. sempre afectadas pelos mesmos movimentos. Quando duas formaes se depositamdurante quase o mesmo perodo, mas contudo no exactamente o mesmo, devemos,pelas razes que precedentemente indicmos, notar a mesma sucesso geral nas formasque ento viveram, sem que, contudo, as espcies correspondam exactamente; poishouve, numa das regies, um pouco mais de tempo do que na outra, para permitir asmodificaes, as extines e as imigraes. 409. Creio que casos deste gnero se apresentam na Europa. Nas suas admirveismemrias sobre os depsitos cocnios de Inglaterra e de Frana, M. Prestwich chegou aestabelecer um estreito paralelismo geral entre os andares sucessivos dos dois pases;mas, comparando certos terrenos de Inglaterra com os depsitos correspondentes emFrana, posto que se encontre entre eles uma curiosa concordncia no nmero dasespcies pertencendo aos mesmos gneros; contudo, as prprias espcies diferem demodo tal que difcil de explicar, atendendo proximidade dos dois jazigos; a menos,contudo, que se suponha que um istmo separou dois mares povoados por duas faunascontemporneas, mas distintas. Lyell fez observaes semelhantes a respeito de algumasdas formaes tercirias mais recentes. Barrande assinala, por seu lado, um notvelparalelismo geral nos depsitos silricos sucessivos da Bomia e da Escandinvia; noobstante, encontram-se diferenas surpreendentes entre as espcies. Se, nestas regies,as diversas formaes no tivessem sido depositadas exactamente durante os mesmosperodos -um depsito, uma regio, correspondendo muitas vezes a um perodo deinactividade noutra -e se, nas duas regies, as espcies se tivessem modificadolentamente durante a acumulao das diversas formaes e nos longos intervalos que assepararam, os depsitos, nos dois pontos, podero estar colocados na mesma ordemquanto sucesso geral das formas organizadas, e esta ordem pareceria sem razoestritamente paralela; no obstante, as espcies no seriam todas as mesmas nosandares em aparncia correspondentes das duas estaes. 410. Das afinidades das espcies extintas entre si e com as formas vivasExaminemos agora As afinidades mtuas das espcies extintas e vivas. Agrupam-setodas num Pequeno nmero de grandes classes, facto que explica de momento a teoria dadescendncia. Em regra geral, quanto mais antiga for a forma, tanto mais difere dasformas vivas. Mas, assim como Buckland j de h muito o fez notar, podem classificar-setodas as espcies extintas, quer nos grupos existentes, quer nos intervalos que osseparam. certamente verdade que as espcies extintas contribuem para encher lacunasque existem entre os gneros, famlias e ordens actuais; mas, como se tem contestado emesmo negado este ponto, pode ser til fazer alguns reparos a tal assunto e citar algunsexemplos; se dirigirmos somente a nossa ateno para as espcies vivas ou para asespcies extintas pertencendo mesma classe, a srie infinitamente menos perfeita doque se as combinssemos ambas num sistema geral. Encontra-se continuamente nosescritos do professor Owen a expresso formas generalizadas aplicada aos animaisextintos; Agassiz fala a cada instante de tipos profticos ou sintticos; ora, estes termosaplicam-se a formas ou fuzis intermedirios. Um outro paleontlogo distinto, M. Gaudry,demonstrou do modo mais categrico que um grande nmero de mamferos fsseis quedescobriu na tica servem para preencher os intervalos entre os gneros existentes.Cuvier considerava os ruminantes e os paquidermes como as duas ordens de mamferosmais distintos; mas encontravam-se tantos fuzis fsseis intermedirios que o professorOwen teve de remodelar toda a classificao e colocar certos paquidermes na sub-ordemdos ruminantes; fez, por exemplo, desaparecer por gradaes insensveis a imensa lacunaque existia entre o porco e o camelo. Os ungulados ou quadrpedes de cascos so agoradivididos em dois grupos, o dos quadrpedes com dedos pares e o dos quadrpedes comdedos mpares; mas o Macrauchenia da Amrica Meridional liga at certo ponto estes doisgrupos importantes. Ningum poderia contestar que o hiprio forma um fuzil intermedirioentre o cavalo existente e outros ungulados. o Typotherium da Amrica meridional, que seno saberia classificar em qualquer ordem existente, forma, como indica o nome que lhedeu o professor Gervais, um fuzil intermedirio notvel na srie dos mamferos. Os Sirniaconstituem um grupo muito distinto de mamferos, e um dos caracteres mais notveis dodugongo e do lamantino actuais a ausncia Completa de membros posteriores, semmesmo neles se encontrarem rudimentos desses membros; mas 411. o Halithrium extinto tinha, segundo o professor Flower, o osso da coxa ossificado earticulado num acetbulo bem definido da pelve, e por isso se aproxima dos quadrpedesungulados ordinrios, aos quais os Sirnia esto aliados, debaixo de outros pontos devista. Os cetceos ou baleias diferem consideravelmente de todos os outros mamferos,mas o zeuglodonte e o esqualodonte da poca terciria, de que alguns naturalistas fizeramuma ordem distinta, so, segundo o professor Huxley, verdadeiros cetceos e constituemum elo intermedirio com os carnvoros aquticos.o professor Huxley demonstrou tambm que mesmo o enorme intervalo que separaas aves dos rpteis, se encontra em parte preenchido, da maneira mais imprevista, peloavestruz e Archeopteryx extinto, de uma parte, e da outra, pelo Compsognatus, um dosdinossauros, grupo que compreende os rpteis terrestres mais gigantescos. Com respeitoaos invertebrados, Barrande, cuja autoridade irrefutvel nesta matria, afirma que asdescobertas de cada dia provam que, se bem que os animais paleozicos possamcertamente classificar-se nos grupos existentes, estes grupos no eram contudo, nestapoca afastada, to distintamente separados como o so actualmente.Alguns autores tm negado que qualquer espcie extinta ou algum grupo de espciespossa ser considerado como intermedirio entre duas espcies vivas quaisquer ou entregrupos de espcies actuais. A objeco no teria valor seno tanto quanto se entendessepor isto que a forma extinta , por todos estes caracteres, directamente intermediria entreduas formas ou entre dois grupos vivos. Mas, numa classificao natural, h certamentemuitas espcies fsseis que se colocam entre os gneros vivos, e mesmo entre gnerospertencentes a famlias distintas. o caso mais frequente, sobretudo quando se trata degrupos muito diferentes, como os peixes e os rpteis, parece ser que se, por exemplo, noestado actual, estes grupos se distinguem por uma dezena de caracteres, o nmero decaracteres distintos menor nos antigos membros dos dois grupos, de modo que os doisgrupos eram outrora um pouco mais vizinhos entre si do que hoje o so.Julga-se bastante comummente que, quanto mais antiga uma forma, tanto maistende a ligar, por alguns dos seus caracteres, grupos actualmente muito afastados entre si.Esta observao aplica-se apenas, sem dvida, aos grupos que, no decurso das idadesgeolgicas, sofreram modificaes considerveis; difcil seria, alm disso, demonstrar averdade da proposio, porque de quando em quando se descobrem animais mesmo vivosque, como a lepidossereia, se ligam, pelas suas afinidades, a grupos muito distintos.Todavia, se compararmos os mais antigos rpteis e os mais antigos batrquios, os maisantigos peixes, os mais antigos cefalpodes e os mamferos da poca eocnia, com osmembros mais recentes das mesmas classes, necessrio nos reconhecer que estaobservao verdadeira. 412. Vejamos at que ponto os diversos factos e as dedues que precedem concordamcom a teoria da descendncia com modificao. Peo ao leitor, vista a complicao doassunto, para recorrer ao quadro de que nos temos j servido no captulo quarto.Suponhamos que as letras em itlico e numeradas representam gneros, e as linhaspontuadas, que se afastam divergindo, as espcies de cada gnero. A figura muitosimples e d-nos somente um pequeno nmero, gneros e espcies; mas pouco importa.As linhas horizontais podem figurar formaes geolgicas sucessivas, e podemconsiderar-se como extintas todas as formas colocadas abaixo da linha superior. Os trsgneros existentes a14, q14, p14, formaro uma pequena famlia; b14 e f14, uma famliamuito prxima ou subfamlia, e o14, e14,m14 uma terceira famlia. Estas trs famliasreunidas aos numerosos gneros extintos fazendo parte das diversas linhas dedescendncia provindo por divergncia da espcie-me A, formaro uma ordem; porquetodos tero herdado alguma coisa comum do antepassado primitivo. Em virtude doprincpio da tendncia contnua divergncia dos caracteres, para cuja explicao o nossodiagrama serviu j, quanto mais recente for uma forma, tanto mais deve ordinariamentediferir do ascendente primordial. Podemos por aqui compreender facilmente a razo porque so os fsseis mais antigos que mais diferem das formas actuais. A divergncia doscaracteres no , todavia, uma eventualidade necessria; pois que esta divergnciadepende unicamente de que permitiu aos descendentes de uma espcie apoderar-se demais lugares diferentes na economia da natureza. pois muito possvel, assim como otemos visto para algumas formas silricas, que uma espcie possa persistir apresentandoapenas leves modificaes correspondentes a fracas alteraes nas suas condies deexistncia, conservando, porm, durante um longo perodo, os seus traos caractersticosgerais. o que representa, na figura, a letra F14. Todas as numerosas formas extintas e vivas derivadas de A constituem, como j ofizemos notar, uma ordem que, sequentemente aos efeitos contnuos da extino e dadivergncia dos caracteres, est dividida em muitas famlias e subfamlias; supe-se quealgumas morreram em diversos perodos, enquanto que outras persistiram at nossosdias. Vemos, examinando o diagrama, que se descobrirmos, em diferentes pontos da parteinferior da srie, um grande nmero de formas extintas que se supe terem sidoescondidas nas formaes sucessivas, as trs famlias que existem na linha superiortornar-se-iam menos distintas uma da outra. Se, por exemplo, se encontrassem os gnerosa1, a5, a10, f8, m3, m6, m9, estas trs famlias estariam bastante estreitamente ligadaspara que devessem provavelmente ser reunidas numa s grande famlia, quase como sedeve fazer com respeito aos ruminantes e certos paquidermes. Contudo, poderia talvezcontestar-se que os gneros extintos que ligam assim os gneros vivos de trs famliassejam intermedirios, porque no o so directamente, mas simplesmente por um longocircuito e passando por um grande nmero de formas muito diferentes. Se sedescobrissem muitas formas extintas acima de uma das linhas horizontais mdias querepresentam as diferentes formaes geolgicas-acima do nmero VI, por exemplo-masque se no encontrasse alguma abaixo desta linha, no haveria mais que duas famlias 413. (somente as duas famlias da esquerda a14 e b14, etc.), a reunir numa s; ficariam duasfamlias que seriam menos distintas uma da outra do que o eram antes da descoberta dosfsseis. Ainda assim, se supusermos que as trs famlias formadas de oito gneros (a14 am14) sobre a linha superior diferem entre si por meia dzia de caracteres importantes, asfamlias que existiam na poca indicada pela linha VI deviam certamente diferir uma daoutra por um nmero menor de caracteres, porque neste grau genealgico remoto deviamter-se afastado menos do seu ascendente comum. assim que gneros antigos e extintosapresentam algumas vezes, em certo grau, caracteres intermedirios entre osdescendentes modificados, ou entre os parentes colaterais. 414. As coisas devem ser sempre muito mais complicadas na natureza do que o so nodiagrama; os grupos, com efeito, devem ter sido mais numerosos; devem ter duraesmuito desiguais, e experimentar modificaes muito variveis em grau. Como somentepossumos o ltimo volume dos Arquivos Geolgicos, e demais este volume est muitoincompleto, no podemos esperar, excepto em alguns casos muito raros, poder preencheras grandes lacunas do sistema natural, e ligar assim famlias ou ordens distintas. Tudo oque nos permitido esperar, que os grupos que, em perodos geolgicos conhecidos,tm sofrido muitas modificaes, se aproximem um pouco mais entre si nas formaesmais antigas, de modo que os membros destes grupos pertencendo s pocas maisremotas difiram menos por alguns dos seus caracteres do que os membros actuais dosmesmos grupos. , de resto, no que acordam reconhecer os nossos melhorespaleontlogos.A teoria da descendncia com modificaes explica, pois, de uma maneirasatisfatria os principais factos que se referem s afinidades mtuas que se notam tantoentre as formas extintas como entre estas e as formas vivas. Estas afinidades parecem-meinexplicveis se se consideram noutro ponto de vista. 415. Pela minha teoria, evidente que a fauna de cada um dos grandes perodos dahistria da Terra deve ser intermediria, pelos seus caracteres gerais, entre a que aprecedeu e a que se seguiu. Assim as espcies que viveram durante o sexto grandeperodo indicado no diagrama, so as descendentes modificadas das que viviam durante oquinto, e as ascendentes das formas ainda mais modificadas do stimo; no podem, pois,deixar de ser quase intermedirias pelo seu carcter entre as formas da formao inferior eas da formao superior. preciso, todavia, tomar em conta a parte da extino total dealgumas das formas anteriores, da imigrao numa regio qualquer de formas novasvindas de outras regies, e de uma soma considervel de modificaes que devem ter-seoperado durante os longos intervalos negativos que decorreram entre o depsito dasdiversas formaes sucessivas. Feitas estas reservas, a fauna de cada perodo geolgico certamente intermediria pelos seus caracteres entre a fauna que a precedeu e a que selhe seguiu. Citarei apenas um exemplo: os fsseis do sistema devoniano, quando da suadescoberta, foram em conjunto reconhecidos pelos paleontlogos como intermdios pelosseus caracteres entre os dos terrenos carbonferos que os seguiram e os do sistemasiluriano que os precederam. Mas cada fauna no necessria e exactamenteintermediria, por causa da desigualdade da durao dos intervalos que decorreram entreo depsito das formaes consecutivas. O facto de certos gneros apresentarem umaexcepo regra no poderia invalidar a assero que toda a fauna de uma pocaqualquer seja, no seu conjunto, intermediria entre a que a precede e a que se lhe segue.Por exemplo,o Dr. Falconer classificou em duas sries os mastodontes e os elefantes: uma, pelas suasafinidades mtuas; a outra, pela poca da sua existncia; ora, estas duas sries noconcordam. As espcies que apresentam caracteres extremos no so nem as maisantigas nem as mais recentes, e as que so intermedirias pelos seus caracteres no oso pela poca em que viveram. Mas, neste caso como em outros anlogos, supondo porum instante que no possuamos as provas do momento exacto da apario e da espcie,o que em verdade se no d, no temos razo alguma para supor que as formassucessivamente produzidas se perpetuem necessariamente durante tempos iguais. Umaforma muito antiga pode por vezes persistir muito mais tempo do que uma forma produzidaposteriormente, noutra parte, sobretudo quando se trata de formas terrestres habitandodistritos separados. Comparemos, por srie, segundo as suas afinidades, todas as raasvivas e extintas do pombo domstico, este arranjo no concordaria de modo algum com aordem da sua produo, e ainda menos com a da sua extino. Com efeito, a origem-me,o torcaz, existe ainda, e um conjunto de variedades compreendidas entre o torcaz e omensageiro so extintas; os mensageiros, que tm caracteres extremos com respeito aocomprimento do bico, tm uma origem mais antiga que os cambalhotas de bico curto, quese encontram na outra extremidade da srie. 416. Todos os paleontlogos verificaram que os fsseis de duas formaes consecutivasso muito mais estreitamente aliados que os fsseis de formaes muito distanciadas; estefacto confirma a assero precedentemente formulada do carcter intermedirio, at certoponto, dos vestgios orgnicos que so conservados numa formao intermdia. Pictet dum exemplo bem conhecido, isto , a semelhana geral que se verifica nos fsseiscontidos nos diversos andares da formao da greda, posto que, em cada um destesandares, as espcies sejam distintas. Este simples facto, pela sua generalidade, parece terabalado no professor Pietet a firme crena na imutabilidade das espcies. Algum queesteja um pouco familiarizado com a distribuio das espcies que vivem actualmente superfcie do Globo no pensar em explicar a estreita semelhana que oferecem asespcies distintas de duas formaes consecutivas pela persistncia, nas mesmas regies,das mesmas condies fsicas durante longos perodos. necessrio lembrar que asformas organizadas, pelo menos as formas marinhas, mudaram quase simultaneamenteem todo o Globo e, por consequncia, nos mais diversos climas e nas mais diferentescondies. Quo pouco, em verdade, foram afectadas as formas especficas doshabitantes do mar pelas vicissitudes considerveis do clima durante o perodo pleistocnio,que compreende todo o perodo glacirio!Pela teoria da descendncia, nada mais fcil que compreender as afinidades ntimasque se notam entre os fsseis de formaes rigorosamente consecutivas, se bem quesejam consideradas como especificamente distintas. Tendo a acumulao de cadaformao sido frequentemente interrompida e sendo longos intervalos negativos decorridosentre os depsitos sucessivos, no poderamos esperar, como tentei demonstrar nocaptulo precedente, encontrar em uma ou duas formaes quaisquer todas as variedadesintermdias entre as espcies que apareceram no princpio e no fim destes perodos; masdevemos encontrar, aps intervalos relativamente muito curtos, avaliando-os no ponto devista geolgico, ou muito longos, medidos em anos. formas intimamente aliadas, ou, comose tm chamado, espcies representativas. Ora, isto o que verificamos diariamente.Numa palavra, encontramos as provas de uma mutao lenta e insensvel das formasespecficas, tal como estamos no direito de esperar. 417. Do grau de desenvolvimento das formas antigas comparado com o das formasvivasVimos, no quarto captulo, que, em todos os seres organizados que atingiram a idadeadulta, o grau de diferenciao e de especializao dos diversos rgos nos permitedeterminar o grau de aperfeioamento e superioridade relativa. Vimos tambm que, aespecializao dos rgos constituindo uma vantagem para cada ser, deve a seleconatural tender a especializar a organizao de cada indivduo, e a torn-la, em tal ponto devista, mais perfeita e mais elevada; mas isto no impede que ela possa deixar anumerosos seres uma conformao simples e inferior, apropriada a condies deexistncia menos complexos, e, em certos casos mesmo, possa determinar umasimplificao e uma degradao do organismo, de modo a adapt-lo melhor a condiesparticulares. Num sentido mais geral, as novas espcies tornam-se superiores s que asprecederam; porque tm, na luta pela existncia, de sobrepujar todas as formas anteriorescom que se encontram em concorrncia activa. Podemos pois concluir que, se sepudessem pr em concorrncia, nas condies de clima, quase idnticas, os habitantes dapoca eocnia com os do mundo actual, estes venceriam os primeiros, e os exterminariam;da mesma forma tambm, os habitantes, da poca eocnia venceriam as formas doperodo secundrio e estes as formas paleozicas. De modo tal que esta provafundamental da vitria na luta pela existncia, assim como o facto da especializao dosrgos, tendem a provar que as formas modernas devem, segundo a teoria da seleconatural, ser mais elevadas do que as formas antigas. Ser assim? A imensa maioria dospaleontlogos responderia pela afirmativa, e a sua resposta, posto que a prova seja difcil,deve ser admitida como verdadeira.O facto de certos branquipodes terem sido apenas ligeiramente modificados desdeuma poca geolgica muito afastada, e de certas conchas terrestres e de gua doceficarem quase o que eram nessa poca em que, tanto quanto o podemos saber,apareceram pela vez primeira, no constitui uma objeco sria a esta concluso. necessrio no ver to-pouco uma dificuldade insupervel no facto verificado pelo Dr.Carpenter, de a organizao dos foraminferos no ter progredido desde a pocalaurentiana; porque alguns organismos devem ficar adaptados s condies de vida muitosimples; ora, quem melhor apropriado a este respeito do que os protozorios deorganizao to inferior? Se a minha teoria implicasse como condio necessria oprogresso da organizao, objectos desta natureza ser-lhe-iam fatais. S-lo-iamigualmente se se pudesse provar, por exemplo, que os foraminferos tomassem origemdurante a poca laurentiana, ou os branquipodes durante a formao cambriana; porqueento no teria decorrido um tempo suficiente para que o desenvolvimento destesorganismos chegasse ao ponto que atingiram. Uma vez chegados a um estado dado, ateoria da seleco natural no exige que continuem a progredir mais, posto que, em cadaperodo sucessivo, devam modificar-se ligeiramente, de modo a conservar o seu lugar nanatureza, apesar das ligeiras alteraes nas condies ambientes. Todas estas objecesrepousam sobre a ignorncia em que estamos da idade real do nosso Globo, e dos 418. perodos em que as diferentes formas da vida tm aparecido pela vez primeira, pontosmuito discutveis. 419. A questo de saber se o conjunto da organizao progrediu constitui de todas asformas um problema muito complicado. Os arquivos geolgicos, sempre muitoincompletos, no vo bastante longe para que se possa estabelecer com uma nitidezincontestvel que, durante o tempo de que a histria nos conhecida, a organizao fezgrandes progressos. Hoje ainda, se se comparam entre si os membros de uma mesmaclasse, os naturalistas no esto de acordo para decidir quais so as formas maiselevadas. Assim, uns consideram os cetceos ou tubares como os mais elevados nasrie dos peixes, porque se aproximam dos rpteis por certos pontos importantes deconformao; outros do a mesma ordem aos telesteos. Os ganides esto colocadosentre os cetceos e os telesteos; estes ltimos so actualmente muito preponderantes emnmero, mas outrora os cetceos e os ganides eram nicos; por conseguinte, segundo otipo de superioridade que se escolher, poder dizer-se que a organizao dos peixesprogrediu ou retrogradou. Parece completamente impossvel avaliar da superioridaderelativa dos tipos pertencendo a classes distintas; porque quem poder decidir, porexemplo, se uma siba mais elevada que uma abelha, insecto este a que Von Baeratribua uma organizao superior de um peixe, posto que construdo em outro molde?Na complexa luta pela existncia, perfeitamente possvel que os crustceos, mesmopouco elevados na sua classe, possam vencer os cefalpodes, que constituem o tiposuperior dos moluscos; estes crustceos, se bem que tenham um desenvolvimento inferior,ocupam uma ordem muito elevada na escala dos invertebrados, a avaliar pela prova maisdecisiva de todas, o combate. Alm destas dificuldades inerentes que se apresentamquando se trata de determinar quais as formas mais elevadas pela sua organizao, necessrio no comparar somente os membros superiores de uma classe em duas pocasquaisquer -posto que seja isto, sem dvida, o facto mais importante a ponderar na balana-mas ainda comparar entre si todos os membros da mesma classe, superiores e inferiores,durante um e outro perodo. Numa poca afastada, os moluscos mais elevados e maisinferiores, os cefalpodes e os branquipodes, abundavam em nmero; actualmente, estasduas ordens tm diminudo muito, enquanto que outros, cuja organizao intermdia,tm aumentado consideravelmente. Alguns naturalistas sustentam como consequnciaque os moluscos apresentavam outrora uma organizao superior que hoje tm. Maspode exibir-se, em apoio da opinio contrria, o argumento bem mais forte baseado nofacto da enorme reduo dos moluscos inferiores, e o facto de os cefalpodes existentes,ainda que pouco numerosos, apresentarem uma organizao muito mais elevada do que ados antigos representantes. Necessrio tambm comparar os nmeros proporcionais dasclasses superiores e inferiores existentes em toda a parte em duas pocas quaisquer; se,por exemplo, existem hoje cinquenta mil formas de vertebrados, e se soubermos que numapoca anterior existiam apenas dez mil, preciso tomar conta deste aumento em nmeroda classe superior que implica um deslocamento considervel das formas inferiores, e queconstitui um progresso decisivo na organizao universal. Vemos por aqui quanto difcil,para no dizer impossvel, comparar, com uma perfeita exactido, atravs de condiesto complexas, o grau de superioridade relativa dos organismos imperfeitamenteconhecidos que tm constitudo as faunas dos diversos perodos sucessivos. 420. Esta dificuldade ressalta claramente do exame de certas faunas e de certas florasactuais. A rapidez extraordinria com que as produes europeias se tm espalhadorecentemente na Nova Zelndia, apoderando-se de posies que deviam serprecedentemente ocupadas pelas formas indgenas, permite-nos acreditar que, se todosos animais e todas as plantas da Gr-Bretanha fossem levados e postos em liberdade naNova Zelndia, um grande nmero de formas britnicas se naturalizariam a prontamentecom o tempo, e exterminariam numerosas formas indgenas. Por outro lado, o facto deapenas um nico habitante do hemisfrio austral se naturalizar no estado selvagem numaparte qualquer da Europa, permite-nos duvidar de que, se todas as produes da NovaZelndia fossem introduzidas na Inglaterra, h muito que poderiam apoderar-se deposies actualmente ocupadas pelas nossas plantas e pelos nossos animais indgenas.Neste ponto de vista, as produes da Gr-Bretanha podem, pois, ser consideradas comosuperiores s da Nova Zelndia. Todavia, o mais hbil naturalista no poderia prever esteresultado pelo simples exame das espcies dos dois pases. 421. Agassiz e muitos outros juzes competentes insistem sobre este facto de que osanimais antigos se parecem at certo ponto aos embries dos animais actuais da mesmaclasse; insistem tambm sobre o paralelismo muito exacto que existe entre a sucessogeolgica das formas extintas e o desenvolvimento embriognico das formas actuais. Estaforma de ver concorda admiravelmente com a minha teoria. Procurarei, num prximocaptulo, demonstrar que o adulto difere do embrio aps muitas variaes sobrevindasdurante o decurso da vida dos indivduos, e herdadas pela sua posteridade numa idadecorrespondente. Este proceder, que deixa o embrio quase sem alterao, acumulacontinuamente, durante o decurso das geraes sucessivas, diferenas cada vez maioresno adulto. O embrio fica assim como uma espcie de retrato, conservado pela natureza,do estado antigo e menos modificado no animal. Esta teoria pode ser verdadeira, e todaviaser jamais susceptvel de uma prova completa. Quando se v, por exemplo, que osmamferos, os rpteis e os peixes, os mais antigamente conhecidos, pertencemrigorosamente s suas classes respectivas, posto que algumas destas antigas formassejam, at certo ponto, menos distintas entre si, como o no so hoje os membros tpicosdos mesmos grupos, seria intil procurar animais reunindo os caracteres embriognicoscomuns a todos os vertebrados enquanto se no descobrirem depsitos ricos em fsseis,abaixo das camadas inferiores do sistema cambriano -descoberta que parece muito poucoprovvel. Da sucesso dos mesmos tipos nas mesmas zonas durante os ltimosperodos tercirios M. Clift demonstrou, h muitos anos, que os mamferos fsseis provenientes dascavernas da Austrlia so estreitamente aliados aos marsupiais que vivem actualmenteneste continente. Um parentesco anlogo, manifesto mesmo para uma vista inexperiente,mostra-se igualmente na Amrica do Sul, nos fragmentos de armaduras gigantescassemelhantes do tatu, encontradas nas diversas localidades do Prata. O professor Owendemonstrou da forma mais frisante que a maior parte dos mamferos fsseis, escondidosem grande nmero nesses pases, se aproximam dos tipos actuais da Amrica Meridional.Este parentesco torna-se ainda mais evidente pela admirvel coleco de ossadas fsseisrecolhidas nas cavernas do Brasil por M. 422. Lund e Clausen. Estes factos impressionaram-me to vivamente que, desde 1839 a 1845,insistia vivamente sobre esta lei da sucesso dos tipos e sobre estas notveis relaesde parentesco que existem entre as formas extintas e as formas vivas do mesmocontinente. O professor Owen estendeu depois a mesma generalizao aos mamferosdo velho mundo, e as restauraes das gigantescas aves extintas da Nova Zelndia, feitaspor este sbio naturalista, confirmam igualmente a mesma lei. O mesmo sucede com asaves encontradas nas cavernas do Brasil. M. Woodward demonstrou que esta mesma leise aplica s conchas marinhas, mas menos aparente, por causa da vasta distribuio damaior parte dos moluscos. Poder-se-am ainda ajuntar outros exemplos, tais como asrelaes que existem entre as conchas terrestres extintas e vivas da ilha da Madeira, eentre as conchas extintas e vivas das guas salobras do mar ralo-Cspio.Ora, o que significa esta lei admirvel da sucesso dos mesmos tipos nas mesmasregies? Depois de ter comparado o clima actual da Austrlia com o de certas partes daAmrica Meridional, situadas na mesma latitude, seria temerrio explicar, por um lado, adissemelhana dos habitantes destes dois continentes pela diferena das condiesfsicas; e, por outro lado, explicar pelas semelhanas destas condies a uniformidade dostipos que existiram em cada um destes pases durante os ltimos perodos tercirios. Nose poderia, topouco, pretender que em virtude de uma lei imutvel que a Austrlia temproduzido principalmente ou exclusivamente marsupiais, ou que a Amrica do Sul temsomente produzido desdentados e alguns outros tipos que lhe so prprios. Sabemos, comefeito, que a Europa era antigamente povoada por numerosos marsupiais, e demonstrei,em trabalhos a que precedentemente aludi, que a lei da distribuio dos mamferosterrestres na Amrica era noutro tempo diferente do que hoje. A Amrica do Norteapresentava antigamente muitos caracteres actuais da metade meridional destecontinente; e esta aproximava-se muito mais do que actualmente da metade setentrional.As descobertas de Falconer e de Cautley tambm nos ensinam que os mamferos da ndiaSetentrional estiveram outrora em relao mais estreita com os da frica do que hojeesto. A distribuio dos animais marinhos fornece-nos factos anlogos.A teoria da descendncia com modificaes explica imediatamente esta grande lei dasucesso muito tempo continuada, mas no imutvel, dos mesmos tipos nas mesmasregies; porque os habitantes de cada parte do mundo tendem evidentemente a deixar a,durante o perodo seguinte, descendentes estreitamente aliados, se bem que modificadosat certo ponto. Se os habitantes de um continente diferiram outrora consideravelmentedos de outro continente, da mesma forma os descendentes modificados diferem aindaquase da mesma maneira e no mesmo grau. Mas, aps mui longos intervalos e alteraesgeogrficas importantes, em seguida aos quais houve numerosas migraes recprocas,as formas mais fracas cedem o lugar s formas dominantes, de modo que no pode havernada imutvel nas leis da distribuio passada ou actual dos seres organizados. 423. Perguntar-se-, a modo de zombaria, se considero a preguia, o tatu e opapa-formigas como os descendentes degenerados do megatrio e de outros monstrosgigantescos vizinhos, que outrora habitaram a Amrica Meridional. No de modo algumadmissvel. Estes enormes animais esto extintos e no deixaram descendentes. Masencontra-se, nas cavernas do Brasil, um grande nmero de espcies fsseis que, pela suaconfigurao e por todos os outros caracteres, se aproximam das espcies que vivemactualmente na Amrica do Sul, e de que algumas podem ter sido os antepassados reaisdas espcies vivas. preciso no esquecer que, pela minha teoria, todas as espcies do mesmo gnerodescendem de uma espcie nica, de maneira que, se se encontrarem numa formaogeolgica seis gneros tendo cada um oito espcies, e na formao zoolgica seguinteoutros seis gneros aliados ou representativos tendo cada um o mesmo nmero deespcies, podemos concluir que, em geral, uma s espcie de cada um dos antigosgneros deixou descendentes modificados, constituindo as diversas espcies dos gnerosnovos. as outras sete espcies de cada um dos antigos gneros deviam ter-se extinguidosem deixar posteridade. Ou ento ( provavelmente este o caso mais frequente), duas outrs espcies, pertencendo a dois ou trs dos seis gneros antigos, tm sido as nicas aservir de origem aos novos gneros, as outras espcies e todos os outros gnerosdesapareceram totalmente. Nas ordens em via de extino, de que os gneros e asespcies decrescem pouco a pouco em nmero, como na dos desdentados da Amrica doSul, um menor nmero ainda de gneros e de espcies devem deixar descendentesmodificados. Resumo deste e do precente captuloTentei demonstrar que os nossos arquivos geolgicos so extremamenteincompletos; que somente tem sido explorada uma pequenssima parte do nosso Globo;que certas classes apenas de seres organizados foram conservadas em abundncia noestado fssil; que o nmero das espcies e dos indivduos que fazem parte dos nossosmuseus absolutamente nada comparando-o com o nmero de geraes que devem terexistido durante o tempo de uma s formao; que a acumulao de depsitos ricos emespcies fsseis diversas, e bastante espessa para resistir a degradaes ulteriores, nosendo possvel que durante perodos de abaixamento do solo, enormes espaos de tempodevam ter decorrido no intervalo de muitos perodos sucessivos; que provavelmentehouvesse mais extines durante os perodos de abaixamento e mais variaes durante osde levantamento, notando que estes ltimos perodos so menos favorveis conservaodos fsseis, o nmero de formas conservadas deve ter sido menos considervel; que cadaformao no foi depositada de uma maneira contnua; que a durao de cada uma delasfoi provavelmente mais curta que a durao mdia das formas especficas; que asmigraes tm gozado um papel importante na primeira apario de formas novas emcada zona e em cada formao; que as espcies espalhadas so as que deviam ter 424. variado mais frequentemente, e, por conseguinte, as que devem ter dado origem ao maiornmero de espcies novas; que as variedades foram a princpio locais; e enfim que, sebem que cada espcie deva ter percorrido numerosas fases de transio, provvel queos perodos durante os quais sofreu modificaes, posto que longos, se se avaliam emanos, devem ter sido curtos, comparados queles durante os quais cada uma tem ficadosem modificaes. Estas causas reunidas explicam em grande medida a razo por que,ainda que encontrssemos numerosos fuzis, no encontramos variedades inmeras,ligando entre si de uma maneira perfeitamente graduada todas as formas extintas e vivas. necessrio no esquecer to-pouco que todas as variedades intermdias entre duas oumais formas seriam infalivelmente consideradas como espcies novas e distintas, a noser que se no possa reconstituir a cadeia completa que as liga entre si; porque nopoderia sustentar-se que possumos qualquer meio certo que nos permita distinguir asespcies das variedades. 425. Quem no admite a imperfeio dos documentos geolgicos deve, com razo, repelira minha teoria por completo; porque em vo que perguntar onde esto as inumerveisformas de transio que deviam outrora ter ligado as espcies vizinhas ou representativasque se encontram nos andares sucessivos da mesma formao. Pode recusar-se acreditarnos enormes intervalos de tempo que deviam ter decorrido entre as nossas formaesconsecutivas, e desconhecer a importncia do papel que devem ter desempenhado asmigraes quando se estudam as formaes de uma nica grande regio, a Europa porexemplo. Pode sustentar-se que a apario sbita de grupos inteiros de espcies umfacto evidente, posto que na maior parte do tempo tenha apenas a aparncia de verdade.Pode perguntar-se onde esto os vestgios destes organismos to infinitamente numerososque deviam ter existido muito tempo antes que as camadas inferiores do sistemacambriano fossem depositadas. Sabemos hoje que existia, nesta poca, pelo menos umanimal; mas no posso responder a esta ltima questo a no ser supondo que os nossosoceanos deviam ter existido depois de um longo tempo a onde existem actualmente, e quedeviam ocupar estes pontos aps o comeo da poca cambriana; mas que muito antesdeste perodo, o Globo tinha um aspecto completamente diferente, e que os continentes deento, constitudos por formaes muito mais antigas do que as que conhecemos, ouexistem apenas no estado metamrfico, ou esto enterrados no fundo dos mares. 426. Afora estas dificuldades, todos os outros factos principais da paleontologiaparecem-me concordar com a teoria da descendncia com modificaes pela seleconatural. Torna-se-nos fcil compreender como as novas espcies aparecem lenta esucessivamente; porque as espcies das diversas classes no se modificamsimultaneamente com a mesma rapidez ou no mesmo grau, posto que todas, no decorrerdo tempo, experimentem modificaes at certo ponto. A extino das formas antigas aconsequncia quase inevitvel da produo de formas novas. Podemos compreenderporque desaparecendo uma espcie no aparece jamais. Os grupos de espciesaumentam lentamente em nmero, e persistem durante perodos desiguais em durao,porque a marcha das modificaes necessariamente lenta e depende de uma srie deeventualidades complexas. As espcies dominantes pertencendo a grupos extensos epreponderantes tendem a deixar numerosos descendentes, que constituem, por seu turno,novos subgrupos, depois grupos. medida que estes se formam, as espcies dos gruposmenos vigorosos, em razo da inferioridade que devem por herana a um antepassadocomum, tendem a desaparecer sem deixar descendentes modificados superfcie daTerra. Todavia, a extino completa de um grupo inteiro de espcies pode ser algumasvezes uma operao muito longa, em razo da persistncia de quaisquer descendentesque puderam continuar a sustentar-se em certas posies isoladas e protegidas. Quandoum grupo desaparece completamente, no reaparece jamais, tendo-se rompido o lao dassuas geraes. Podemos compreender como sucede que as formas dominantes, que se espalhammuito e que fornecem o maior nmero de variedades, devem tender a povoar o mundo dedescendentes que se aproximam delas, sendo modificadas por completo. Estas chegamgeralmente a deslocar os grupos que, na luta pela existncia, lhes so inferiores. Resultadaqui que aps longos intervalos os habitantes do Globo parecem ter mudado por toda aparte simultaneamente. 427. Podemos compreender como sucede que todas as formas da vida, antigas erecentes, constituem no seu conjunto apenas um pequeno nmero de grandes classes.Podemos compreender porque, em virtude da tendncia contnua divergncia doscaracteres, quanto mais uma forma antiga, tanto mais difere, de ordinrio, das que vivemactualmente; porque antigas formas extintas enchem frequentemente lacunas existentesentre as formas actuais e renem algumas vezes num s dois grupos precedentementeconsiderados como distintos, mas mais ordinariamente tendem apenas a diminuir adistncia que os separa. Quanto mais antiga uma forma, tantas mais vezes sucede quetem, at certo ponto, caracteres intermedirios entre grupos hoje distintos; porque, quantomais antiga uma forma, tanto mais deve aproximar-se do antepassado comum de gruposque divergiram aps consideravelmente e por conseguinte assemelhar-se-lhe. As formasextintas apresentam raramente caracteres directamente intermedirios entre as formasvivas; so intermedirios apenas em meio de um circuito longo e tortuoso, passando porum conjunto de outras formas diferentes e desaparecidas. Podemos facilmentecompreender porque os vestgios orgnicos de formaes imediatamente consecutivas somuito estreitamente aliados, porque esto em relao genealgica mais intima; e, tambm,porque os fsseis sepultados numa formao intermediria apresentam caracteresintermedirios.Os habitantes de cada perodo sucessivo da histria do Globo venceram os seuspredecessores na luta pela existncia, e ocupam por este facto um lugar mais elevado doque eles na escala da natureza, tendo-se geralmente especializado a sua conformao; o que pode explicar a opinio admitida pela maior parte dos paleontlogos que, no seuconjunto, a organizao tem progredido. Os animais antigos e extintos parecem-se, atcerto ponto, aos embries dos animais vivos e pertencentes mesma classe; factoadmirvel que se explica muito simplesmente pela minha teoria. A sucesso dos mesmostipos de organizao nas mesmas regies, durante os ltimos perodos geolgicos, cessade ser um mistrio, e explica-se muito simplesmente pelas leis da hereditariedade.Se, pois, os arquivos geolgicos so to importantes como muitos sbios o crem, epodemos pelo menos afirmar que a prova do contrrio no poderia ser fornecida, asprimeiras objeces, levantadas contra a teoria da seleco seriam muito diminudas oudesapareceriam. Parece-me, por outro lado, que todas as leis essenciais estabelecidaspela paleontologia proclamam claramente que as espcies so o produto da geraoordinria, e que as formas antigas foram substitudas por formas novas e aperfeioadas, eelas mesmo o resultado da variao e da persistncia do mais apto. 428. Captulo XII Distribuio geogrficaAs diferenas nas condies fsicas no bastam para explicar a distribuiogeogrfica actual. -Importncia das barreiras. -Afinidades entre as produes do mesmocontinente. -Centros de Criao. Disperso proveniente de modificaes no clima, no nveldo solo e de outros meios acidentais. -Disperso durante o perodo glacirio. -Perodosglacirios alternantes no hemisfrio boreal e no hemisfrio austral.Quando se considera a distribuio dos seres organizados superfcie do Globo, oprimeiro facto considervel com que se impressionado que nem as diferenasclimatricas nem as outras condies fsicas explicam suficientemente as semelhanas oudessemelhanas dos habitantes das diversas regies. Quase todos os naturalistas querecentemente tm estudado este assunto chegaram mesma concluso. Bastariaexaminar a Amrica para demonstrar a verdade; todos os sbios concordam, com efeito,em reconhecer que, excepo da parte setentrional temperada e da zona que cerca opolo, a distino da Terra em antigo e novo mundo constitui uma das divisesfundamentais da distribuio geogrfica. Contudo, se percorrermos o vasto continenteamericano, desde as partes centrais dos Estados Unidos at sua extremidademeridional, encontramos as mais diferentes condies: regies hmidas, desertos ridos,montanhas elevadas, plancies cobertas de ervas, florestas, pntanos, lagos e grandesrios, e quase todas as temperaturas. No h por assim dizer, no velho mundo, um clima ouuma condio que no tenha seu equivalente no novo mundo -pelo menos nos limites doque pode ser necessrio a uma mesma espcie. Podem, sem dvida, indicar-se no velhomundo algumas regies mais quentes que qualquer das do novo mundo, mas estasregies no so povoadas por uma fauna diferente da das regies vizinhas; muito raro,com efeito, encontrar um grupo de organismos confinado num estreito lugar que apenasapresenta ligeiras diferenas nas suas condies particulares. Apesar deste paralelismogeral entre as condies fsicas respectivas do velho e do novo mundo, que imensadiferena no h nas suas produes vivas! 429. Se compararmos, no hemisfrio austral, grandes extenses na Austrlia, na fricaaustral e no oeste da Amrica do Sul, entre os graus 251 e 351 de latitude, encontramos apontos muito semelhantes por todas as suas condies; no seria, contudo, possvelencontrar trs faunas e trs floras jamais dessemelhantes. Se, por outra parte,compararmos as produes da Amrica Meridional, ao sul do grau 35 de latitude, com asprodues ao norte do grau 25, produes que se encontram, por conseguinte, separadaspor um espao de dez graus de latitude, e submetidas a condies muito diferentes, soincomparavelmente mais vizinhas umas das outras do que das produes australianas ouafricanas vivendo num clima quase idntico. Poderiam notar-se factos anlogos entre oshabitantes do mar.Um segundo facto importante que nos fere, neste relance geral, que todas asbarreiras ou todos os obstculos que se opem a uma livre emigrao esto estreitamenteem relao com as diferenas que existem entre as produes de diversas regies. oque nos demonstra a grande diferena que se nota em quase todas as produesterrestres do velho e do novo mundo, exceptuando as partes setentrionais onde quase sejuntam os dois continentes, e onde, num clima pouco diferente, pode ter havido emigraodas formas habitando as partes temperadas do norte, como se observa actualmente paraas produes estritamente rcticas. O mesmo facto aprecivel na diferena queapresentam, na mesma latitude, os habitantes da Austrlia, da frica e da Amrica do Sul,pases to isolados uns dos outros quanto possvel. O mesmo se d em todos oscontinentes; porque encontramos muitas vezes produes diferentes sobre os ladosopostos de grandes cadeias de montanhas elevadas e contnuas, de vastos desertos emuitas vezes mesmo de grandes rios. Contudo, como as cadeias de montanhas, desertos,etc., no so tambm infranqueveis e no tm provavelmente existido desde tanto tempocomo os oceanos que separam os continentes, as diferenas que tais barreiras produzemno conjunto do mundo organizado so bem menos distintivas que as que caracterizam asprodues de continentes separados.Se estudarmos os mares, verificamos que a mesma lei se aplica ainda. Os habitantesdos mares da costa oriental e da costa ocidental da Amrica Meridional so muito distintos,e h poucos peixes, moluscos e crustceos que sejam comuns a uns e outros; mas o Dr.Gunther demonstrou recentemente que, nas margens opostas do istmo de Panam, cerca-de 30 por 100 dos peixes so comuns aos dois mares; isto um facto que levou algunsnaturalistas a julgar que o istmo no existiu outrora. A oeste das costas da Amricaestende-se um oceano vasto e aberto, sem uma ilha que possa servir de refgio ourepouso aos emigrantes; esta uma outra espcie de barreira, alm da qual encontramos,nas ilhas orientais do Pacfico, uma outra fauna completamente distinta, de modo quetemos aqui trs faunas marinhas, estendendo-se de norte a sul, num espao considervele em linhas paralelas pouco afastadas entre si e em climas correspondentes; mas,separadas que sejam por barreiras insuperveis, isto , por terras contnuas ou por maresabertos e profundos, so quase totalmente distintas. Se continuarmos sempre a avanarpara oeste, alm das ilhas orientais da regio tropical do Pacfico, no encontramosbarreiras infranqueveis, mas ilhas em grande nmero podendo servir de lugares de 430. interrupo ou costas contnuas, at que, depois de ter atravessado um hemisfrio inteiro,chegamos s costas da frica; ora, em toda esta vasta extenso, no encontramos faunamarinha bem definida e bem distinta. Se bem que um pequeno nmero de animaismarinhos so comuns s trs faunas da Amrica Oriental, da Amrica Ocidental e ilhasorientais do Pacfico, de que acabo de indicar aproximadamente os limites, muitos peixesse estendem, porm, desde o oceano Pacfico ao oceano Indico, e muitas conchas socomuns s ilhas orientais do oceano Pacfico e s costas orientais da frica, duas regiessituadas em meridianos quase opostos. 431. Um terceiro grande facto principal, quase incluso, alm disso, nos dois precedentes, a afinidade que existe entre as produes de um mesmo continente ou de um mesmo mar,posto que as prprias espcies sejam algumas vezes distintas em seus diversos pontos enas suas estaes diferentes. isto uma lei geral, e de que cada continente ofereceexemplos notveis. No obstante, o naturalista viajando do norte ao sul, por exemplo, nodeixa jamais de ser ferido pela maneira como grupos sucessivos de seres especificamentedistintos ainda que em estreita relao uns com os outros, se substituem mutuamente.Vem-se aves anlogas: o seu canto quase semelhante; os ninhos so construdosquase de igual modo; os ovos so quase da mesma cor, e contudo so espciesdiferentes. As plancies vizinhas do estreito de Magalhes so habitadas por uma espciede avestruz (Rhea), e as plancies do Prata, situadas mais ao norte, por uma espciediferente do mesmo gnero; mas no se encontram a nem o verdadeiro avestruz nem ocasuar, que vivem nas mesmas latitudes na frica e na Austrlia. Nessas mesmasplancies do Prata encontrase o aguti e a lebre braslica, que tm quase os mesmoshbitos que as nossas lebres e os nossos coelhos, e que pertencem mesma ordem dosroedores, mas que apresentam evidentemente na sua estrutura um tipo completamenteamericano. Nos cumes elevados das cordilheiras, encontramos uma espcie de lebrealpestre; nas guas nem encontramos o castor nem o rato almiscareiro, mas o coandu e ocapivara, roedores que tm o tipo sul-americano. Poderamos citar uma aluvio deexemplos anlogos. Se examinarmos as ilhas da costa americana, por diferentes quesejam do continente pela sua natureza geolgica, os seus habitantes so essencialmenteamericanos, se bem que possam todos pertencer a espcies particulares. Podemos subiraos perodos remotos e, assim como vimos no captulo precedente, encontraremos aindaque so os tipos americanos que dominam nos mares americanos e no continenteamericano. Estes factos mostram a existncia de qualquer lao ntimo e profundo queprevalece no tempo e no espao, nas mesmas extenses de terra e de mar,independentemente das condies fsicas. Necessrio seria que o naturalista fosse muitoindiferente para no tentar procurar que lao seria este. 432. Este lao muito simplesmente a hereditariedade, esta causa que, s por si, tantoquanto ns o sabemos de uma maneira positiva, tende a produzir organismoscompletamente semelhantes entre si, ou, como se v nos casos das variedades, quasesemelhantes. A dissemelhana dos habitantes de diversas regies pode ser atribuda amodificaes devidas variao e seleco natural e provavelmente tambm, mas emgrau menor, aco directa de condies fsicas diferentes. Os graus de dissemelhanadependem de que as emigraes de formas organizadas dominantes foram mais oumenos eficazmente impedidas em pocas mais ou menos afastadas; da natureza e donmero dos primeiros imigrantes, e da aco que os habitantes puderam exercer unssobre os outros, no ponto de vista da conservao de diferentes modificaes; sendo asrelaes que tm entre si os diversos organismos na luta pela existncia, como j muitasvezes indiquei, as mais importantes de todas. assim que as barreiras, pondo obstculos migraes, gozam um papel to importante como o tempo, quando se trata de lentasmodificaes pela seleco natural. As espcies muito espalhadas, compreendendonumerosos indivduos, que j triunfaram de muitos concorrentes nos seus vastos habitats,so tambm as que tm mais probabilidades de ocupar lugares novos, quando seespalham em novas regies. Submetidas na nova ptria a novas condies, devemfrequentemente sofrer modificaes e aperfeioamentos ulteriores; daqui resulta quedevem alcanar novas vitrias e produzir grupos de descendentes modificados. Esteprincpio de hereditariedade com modificaes permite-nos compreender como seces degneros, gneros inteiros e mesmo famlias inteiras, se encontram limitados nas mesmasregies, caso to frequente e to comum. Assim como fiz notar no captulo precedente, poderia apenas provar-se 433. que existe uma lei de desenvolvimento indispensvel. A variabilidade de cada espcie uma propriedade independente de que a seleco natural se apossa tanto quanto til aoindivduo na luta complexa pela existncia; a soma das modificaes nas espciesdiferentes no deve, pois, de forma alguma ser uniforme. Se um certo nmero de espcies,depois de ter estado longo tempo em concorrncia umas com as outras no seu antigohabitat emigram para uma regio nova que, mais tarde, se encontraria isolada, ficariampouco sujeitas a modificaes, porque nem a migrao nem o isolamento podem nada porsi s. Estas causas actuam somente levando os organismos a ter novas relaes entre si,e, num grau menor, com as condies fsicas ambientes. Da mesma maneira como vimos,no captulo anterior, que algumas formas conservaram quase os mesmos caracteres desdeuma poca geolgica prodigiosamente longnqua, igualmente certas espcies sodisseminadas em espaos imensos, sem se modificarem muito, ou mesmo sem teremexperimentado qualquer alterao.Partindo destes princpios, evidente que as diferentes espcies do mesmo gnero,se bem que habitando os mais afastados pontos do Globo, devem ter a mesma origem,pois que derivam de um mesmo ascendente. Com respeito s espcies queexperimentaram poucas modificaes durante perodos geolgicos inteiros, no h grandedificuldade em admitir que emigraram da mesma regio; porque, durante as imensasalteraes geogrficas e climatricas que sobrevieram desde os antigos tempos, todas asemigraes, por considerveis que tenham sido, foram possveis. Mas, em muitos outroscasos em que temos razes para pensar que as espcies de um gnero so produzidasem pocas relativamente recentes, esta questo apresenta grandes dificuldades. evidente que os indivduos pertencendo mesma espcie, posto que habitando deordinrio regies afastadas e separadas, devem provir de um s ponto, onde tenhamexistido os pais; porque, assim como temos j explicado, seria inadmissvel que indivduosabsolutamente idnticos pudessem ter sido produzidos por pais especificamente distintos. Centros nicos de criaoEis-nos assim levados a examinar uma questo que tem levantado tantas discussesentre os naturalistas. Trata-se de saber se as espcies foram criadas em um ou muitospontos da superfcie terrestre. H sem dvida casos em que extremamente difcilcompreender como a mesma espcie pde transmitir-se de um ponto nico at s diversasregies afastadas e isoladas onde hoje as encontramos. No obstante, parece to naturalque cada espcie fosse produzida no princpio numa regio nica, que esta hiptese cativafacilmente 434. o esprito. Quem a rejeita, repele a verdadeira causa da gerao ordinria com emigraessubsequentes e invoca a interveno de um milagre. universalmente admitido que, namaior parte dos casos, a regio habitada por uma espcie contnua; e que, quando umaplanta ou um animal habita dois pontos to afastados ou separados por obstculos denatureza tal, que a emigrao se torna muito difcil, considera-se o facto como excepcionale extraordinrio. A impossibilidade de emigrar atravs de um vasto mar mais evidentepara os mamferos terrestres do que para todos os outros seres organizados; tambm noencontramos exemplo inexplicvel da existncia de um mesmo mamfero habitando pontosafastados do Globo. O gelogo no se embaraa por ver que a Inglaterra possui osmesmos quadrpedes que o resto da Europa, porque evidente que as duas regiesforam outrora unidas. Mas, se as mesmas espcies podem ser Produzidas em dois pontosseparados, porque no encontramos um s mamfero comum Europa e Austrlia ou Amrica do Sul? As condies de existncia so to completamente as mesmas, que umgrande nmero de plantas e de animais europeus se adaptam Austrlia e Amrica, ealgumas plantas indgenas so absolutamente idnticas nestes pontos to afastados dohemisfrio boreal e do hemisfrio austral. Sei que me pode responder que os mamferosno tm podido emigrar, enquanto que certas plantas, graas diversidade dos seusmeios de disseminao, puderam ser transportadas passo a passo atravs de espaosimensos. A influncia considervel das variadas barreiras apenas compreensvel tantoquanto a grande maioria das espcies foi produzida de um lado, e no pde passar aolado oposto. Algumas famlias, muitas subfamlias, um grande nmero de gneros, estolimitados numa regio nica, e muitos naturalistas observaram que os gneros maisnaturais, isto , aqueles de que as espcies se aproximam mais entre si, so geralmenteprprios a uma s regio assaz restrita, ou, se tm uma vasta extenso, esta extenso contnua. No seria uma estranha anomalia que, descendo um grau abaixo na srie, isto ,at aos indivduos da mesma espcie, prevalecesse uma regra completamente oposta, eque estes no tivessem, pelo menos na origem, sido limitados em qualquer regio nica?Parece-me, pois, muito mais provvel, como de resto a muitos outros naturalistas,que a espcie se produziu num s pas, de onde em seguida se espalhou to longe quantolhe permitiram os meios de emigrao e de subsistncia, tanto nas condies da vidapassada como nas condies da vida actual. Apresentam-se, sem dvida, muitos casosem que impossvel explicar a passagem de uma mesma espcie de um ponto a outro,mas as alteraes geogrficas e climatricas que se realizaram certamente desde aspocas geolgicas recentes, devem ter rompido a continuidade da distribuio primitiva demuitas espcies. Estamos, pois, reduzidos a apreciar se as excepes na continuidade dedistribuio so bastante numerosas e bastante graves para nos fazer renunciar hiptese, apoiada por tantas consideraes gerais, de cada espcie ser produzida numponto, e partindo da se espalhou para to longe quanto possvel. Seria fastidioso discutirtodos os casos excepcionais em que a mesma espcie vive actualmente em pontosisolados e a