A origem da vida: não tente fazer isto em casa - Camões ?· comprou A Origem das Espécies à espera…

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  • A origem da vida: no tente fazer isto em casa

    Na sua obra magistral, A Origem das Espcies (ou,usando o ttulo completo, Sobre a Origem das Espciesatravs da Seleco Natural, ou a Preservao das RaasFavorecidas na Luta pela Vida), se h coisa de que onaturalista ingls Charles Darwin no fala, sobre aorigem das espcies. Ou melhor, sobre a origem davida. No final do livro, Darwin menciona a possibili-dade de todos os organismos terem tido origem numanica forma primordial, mas em privado pensava queessas origens antigas eram irrecuperveis. Na segundaedio, Darwin incluiu um comentrio em que afirmavaser possvel conceber um Criador que tenha permitidos espcies criarem-se a si prprias, e que as primeirasformas orgnicas tenham adquirido vida a partir dosopro do Criador. Darwin foi-se tornando agnsticoao longo da vida, mas no era imune a presses e oCriador tem muitos amigos! De qualquer forma, quemcomprou A Origem das Espcies espera de uma expli-cao cabal acerca da origem das espcies ter prova-velmente pensado em exigir o dinheiro de volta.

    No entanto, j em finais do sculo XIX, Darwin e ofsico ingls John Tyndall (1820-1883) notaram que aevoluo biolgica teria sido necessariamente antece-dida de uma certa forma de evoluo qumica. Mas otema no entusiasmava ningum. Darwin tinha eviden-temente mais que fazer, digladiando-se pela seleconatural, a origem do homem, o papel do sexo na evo-luo e outros sarilhos em que j estava metido.

    Alexander Oparin (1894-1980), bioqumico sovitico,tinha aparentemente mais tempo livre e, em 1924, publi-cou um livro intitulado A Origem da Vida, em russo.Ningum lhe ligou at 1936, quando a obra foi tradu-

  • zida para vanas lnguas. Felizmente, para animar osleitores anglo-saxnicos, aborrecidos pela espera datraduo, o bilogo ingls John Scott Haldane (1860--1936) publicou em 1928 um artigo intitulado Scienceand human life acerca do mesmo assunto.

    As teorias de Oparin e Haldane so semelhantes:a vida teve origem em pequenas molculas dos maresprimitivos (uma espcie de sopa da pedra de molculassimples) onde uma tempestade, um raio ultravioleta,um fenmeno radioactivo, um naufrgio ou algo dognero levou formao de molculas cada vez maio-res e mais complexas, at que a complexidade era tanta,que a coisa s podia ser viva.

    Uma evidncia estrondosa da origem da vida no mar que a abundncia relativa dos ies de sdio, potssioe clcio no sangue muito semelhante da gua domar. A base do nosso sangue , por assim dizer, guado mar diluda. Pode-se manter certos rgos e tecidosvivos e em funcionamento durante algum tempo forados respectivos organismos, desde que mergulhadosnuma soluo contendo cloretos de sdio, potssio eclcio em percentagens relativas semelhantes s da guado mar (a chamada soluo de Ringer).

    Em 1953 o qumico norte-americano Stanley Miller(1930-2007) resolveu fazer a experincia. Preparou umamistura de gases que simulavam a atmosfera primitiva:hidrognio, amonaco, metano e vapor de gua. Millerconsiderou que uma condio essencial para a formaode molculas orgnicas ter sido a ausncia de oxigniona atmosfera primordial. De outro modo, os compos-tos orgnicos teriam tendncia para a combusto.

    Sujeitou a mistura aco de descargas elctricas,simulando as violentas tempestades que tero animado

  • o boletim meteoro lgico de h 3,5 mil milhes de anos.Ao fim de uma semana (e no ao fim de milhes deanos), encontrou aminocidos (constituintes das prote-nas) e bases azatadas (que fazem parte do ADN). No nada recomendvel que o leitor procure reproduziresta experincia em casa, atirando com um ferro deengomar ligado para uma banheira com gua e comuma botija de gs aberta na casa de banho. Alm deno conseguir obter as molculas da vida, o mximoque conseguir fazer ser regressar sopa primordial.

    A primeira clula no seria mais do que um comparti-mento rudimentar que separava o interior do exterior.Continha pouco mais do que polinucletidos, uma esp-cie de material gentico rudimentar que servia de moldepara fazer protenas rudimentares. E, claro, conseguiafazer cpias desses polinucletidos rudimentares e, assim,reproduzir-se de um modo rudimentar. A vida surgiuassim, como uma espcie de parque de campismo clan-destino: compartimentos simples que se multiplicam sema mnima ordem e sem pedirem autorizao a ningum.

    As clulas foram-se modificando, diversificando eengolindo umas s outras, num processo chamadoendossimbiose, no no sentido em que o leitor comeum chupa-chupa ou uma gelatina, mas mais como se,aps uma bela pratada de bacalhau com natas, passs-semos a ter uma famlia de geraes e geraes de baca-lhaus a viver no nosso interior. Este mecanismo de evo-luo, associao simbitica estvel seguida de selec-o natural, foi proposto pela biloga Lynn Margulis(n. 1938, que foi casada com Carl Sagan) e ter dadoorigem s clulas compartimentadas, como as nossas.

    Num caso bastante conhecido, uma dessas clulas(uma arqueobactria) engoliu outra bactria (uma ciano-

  • bactria). Essa cianobactria tinha a capacidade de usara energia do Sol para fazer acares. Ou seja, fazerfotossntese. Surgiu assim a primeira alga verde, umaclula com uma espcie de cloroplasto l-dentro. Ou, sequisermos, uma tenda de campismo com painel solar.

    Estas algas e cianobactrias comearam a encher aatmosfera com oxignio. E assim aconteceu o primeirodesastre ambiental: grande parte dos microrganismosexistentes desapareceu, enferrujada pelo oxignio, talcomo um corrimo de ferro sem tinta adequada. Hoje,todos os organismos expostos atmosfera esto adap-tados presena do oxignio, tm mecanismos para seprotegerem da oxidao. No deixa de ser irnico queo oxignio, cuja ausncia poder ter sido determinantepara o surgimento das primeiras formas de vida, sejaessencial vida de muitos organismos actuais.

  • TTULO: Darwin aos Tiros e Outras Histrias de Cincia

    AUTORES: Carlos Fiolhais e David Maral

    EDITORA: Gradiva Publicaes, S.A.

    LOCAL: Lisboa

    EDiO: 1

    DATA: Outubro de 2011