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  • OS ASPECTOS CONSTITUTIVOS DA ORGANIZAO DO TRABALHO PEDAGGICO MATERIALIZADAS NAS PRTICAS DO ENSINO DA

    LEITURA E DA ESCRITA POR PROFESSORAS DO PRIMEIRO ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL DA REDE PBLICA NO MUNICPIO DE FOZ DO

    IGUAU

    Thuinie Medeiros Vilela Daros1Armando Daros Junior2

    Este trabalho tem por objetivo analisar os aspectos constitutivos da proposta para

    a alfabetizao no primeiro ano do Ensino Fundamental materializada nas prticas das

    professoras que atuam em turmas do primeiro ano do ensino fundamental no municpio

    de Foz do Iguau.

    Acredita-se que estas professoras no so meras repetidoras de propostas, suas

    prticas so demarcadas por suas histrias pessoais e profissionais e desse modo,

    considera-se importante conhecer as apropriaes e usos que essas professoras fazem

    dos conhecimentos pedaggicos concretizados nas elaboraes de suas prticas.

    Procura-se mais do que as descrever, compreender o porqu de serem desenvolvidas da

    forma como so.

    Centraliza-se a discusso sobre a organizao do trabalho pedaggico da

    alfabetizao bem com os critrios de seleo dos contedos que as professores utilizam

    e apresentar o impacto dos estudos sobre o letramento. Entende-se que as escolhas das

    atividades prticas, especialmente como fazem uso do caderno escolar, demarcam suas

    opes tericas e metodolgicas e compreendendo que a sala de aula o espao

    privilegiado para a conquista do conhecimento, acredita-se que nela que estas

    indagaes so percorridas e construdas.

    Adota-se a metodologia emprica, numa abordagem qualitativa e com enfoque

    nos pressupostos da teoria histrico-cultural, por permitir maior aproximao entre

    sujeito e objeto, na qual se estabelece uma relao dialgica. Por isso, no se pode

    perder de vista que (...) o objeto das cincias humanas o ser expressivo e falante 1 Graduada em Pedagogia, ps graduao em Fundamentos Filosficos e Polticos da Educao, professora da Uniamrica.2 Graduado em Pedagogia, ps graduao em Fundamentos Filosficos e Polticos da Educao, professor das Faculdades Anglo Americano e Unioeste-Foz do Iguau.

    1

  • (BAKHTIN, 2000, p.335, grifo do autor). Ao contrrio das cincias exatas que, segundo

    Bakhtin (2000, p. 403), monolgica, em que s h o intelecto que contempla uma

    coisa e emite um enunciado sobre ela, as cincias humanas consideram sujeito como

    sujeito que, como tal, no pode tornar-se mudo, visto que o conhecimento considerado

    como dialgico.

    Para desenvolver esta investigao, realizou-se pesquisa de campo com

    aplicao de um questionrio semi-estruturado, entrevistas, anlise dos cadernos

    escolares e observao da rotina da sala de aula de trs escolas municipais de Foz do

    Iguau. Teve como ponto de partida o contedo manifestado pelos dilogos

    estabelecidos, que , por excelncia, o instrumento que fundamenta a anlise de

    contedo, na medida em que esta abordagem possibilita ao pesquisador ir alm daquilo

    que lhe dito.

    A organizao do trabalho pedaggico nas escolas de Foz do Iguau: aspectos constitutivos

    A Secretaria da Educao do municpio de Foz do Iguau adotou como

    alternativa metodolgica para o ensino da leitura e da escrita no primeiro ano a

    alfabetizao fnica em 2009, segundo ano de implementao do ensino fundamental de

    nove anos. Foi contratado autor e fornecedor deste material, reuniram-se as professoras

    alfabetizadoras de todo o municpio, alguns representantes das faculdades e curso de

    magistrio estiveram presentes, caracterizando este evento como um curso de formao

    continuada que as professoras denominaram de treinamento.

    Na ocasio a velha novidade do mtodo fnico foi apresentada como redentora

    de todas as dificuldades de aprendizagem, um mtodo de sucesso absoluto onde todos

    estariam salvos do no alfabetizar-se. Comprou-se e distribuiu-se as cartilhas para

    todas as crianas do municpio e desde ento este mtodo est em vigor como uma

    alternativa, no como obrigao, porm, independentemente da escolha, as professoras

    precisam mostrar resultados. Ora se a professora optar por uma metodologia diferente

    daquela supostamente sugerida e no mostrar resultados, ou seja, no conseguir

    alfabetizar as crianas do primeiro ano, ela ser rotulada como incompetente, mas ao

    fracassar com a metodologia proposta o mtodo ser ineficiente e ela estar salva.

    2

  • Apesar destas consideraes parecerem contraditrias no que diz respeito s

    escolhas que as professoras fazem em relao a sua metodologia de trabalho levando a

    entender que elas seguem todas as determinaes oficiais nas vrias esferas por medo da

    rotulao, percebe-se as nuances de um currculo real, o currculo que sai da prtica dos

    professores, da percepo e do uso que os professores fazem do currculo formal.

    Espera-se esclarecer esta questo no decorrer deste artigo, chamando a ateno para

    como as professoras organizam e demarcam as suas caractersticas pessoais e opes

    metodolgicas em meio a tudo isto.

    Constatou-se atravs de observao da rotina escolar de uma turma de primeiro

    ano da escola que de modo implcito as professoras acabam mascarando a sua realidade

    de sala de aula aos olhos dos outros. O medo da rotulao e a necessidade de serem

    aceitas no grupo onde esto inseridas maior do que a demarcao explcita do seu

    trabalho ento, elas fecham as suas portas e trabalham como sempre trabalharam

    modificando as suas prticas de acordo com o que convm com que as consideram

    relevantes.

    Percebeu-se que no uso do material disponibilizado pelo municpio de Foz do

    Iguau, as professoras burlam a proposta sugerida na maneira como utiliza o livro

    didtico e como organizam as outras atividades registradas nos cadernos escolares.

    Implicitamente as professoras desta escola no optaram pela alfabetizao fnica e no

    acreditam que a correspondncia entre som e letra so prticas exitosas, preferem o uso

    do mtodo silbico:

    Pesquisadora: Qual a sua maneira de alfabetizar?Vera: A gente tem um livro da alfabetizao fnica, que proposta do municpio e eu uso outras atividades no caderno ou em folhas separadas.Pesquisadora: Voc usa o mtodo fnico?Vera: Sim e no, (risos) eu uso porque tem que usar, para no parecer uma resistncia minha, mas na sala de aula eu j trabalhava com as famlias silbicas, textinhos e este negcio de fazer os sons do mais confuso na criana. Elas ficam (F) (A) e no (FA).Pesquisadora: Faz tempo que prioriza o uso das famlias silbicas?Vera: Desde que eu comecei, eu aprendi assim e assim que fao h anos, este mtodo s no d certo com quem tem algum problema de cabea, que toma remdio, a gente tem muito disto aqui.Pesquisadora: Como voc aprendeu este mtodo?Vera: Tudo que eu sei, eu aprendi com uma colega minha, que no est mais nesta escola, ela foi uma me para mim, no comeo eu fiquei na cola dela e ela me ajudou muito. (Caderno de campo, junho de 2010)

    3

  • A metodologia tradicional considerada ineficiente, pois no trata o ensino da

    linguagem como uma atividade que se realiza entre sujeitos na forma de produo e

    compreenso de sentidos ou discursos que podem ser materializam em textos orai e

    escritos (unidades de sentidos) produzidos nas situaes mesmas de interlocuo, com

    o conjunto de recursos expressivos da lngua enquanto sistema de referncias simblico-

    cultural.

    Neste momento, no se pretende entrar na discusso sobre as

    querelas do mtodos3 nem responder qual o melhor mtodo ou mais exitoso para

    alfabetizao, pois uma metodologia decorrente de formas para ensinar os contedos e

    uma metodologia s boa ou ruim de acordo com as significaes dos sujeitos a

    respeito da concepes de linguagens que carregam consigo:

    A linguagem exerce na alfabetizao, uma importncia fundamental, na verdade tudo gira em torna dela. Por isso, dependendo da maneira como uma pessoa interpreta o que linguagem como funciona, que usos tem, pode ter um determinado comportamento pedaggico e mtodos diferente na prtica escolar. (CAGLIARI, 2005, p.41)

    As crianas de modo geral, possuem capacidade mental para aprender a ler e

    escrever independente do mtodo de ensino adotado pela professora, mas a discusso

    centraliza sobre os efeitos gerados por cada forma de ensinar. Os mtodos discutidos

    como silbico (opo implcita) e fnico (opo explcita) apresentam uma viso

    distorcida de como se aprende a ler e a escrever, os mtodos tradicionais nunca

    garantiram a superao do fracasso escolar na alfabetizao e continuam produzindo

    muitos alunos que tiram do quadro e que decoram cartilhas. O mtodos tradicionais

    adiam o contato com textos, usam pseudo-textos promovendo leituras somente para fins

    de localizao de informaes e copiao, e necessria a prontido para dar incio

    ao processo da alfabetizao: as habilidades motoras e perceptivas - eram importantes

    para o aprendizado da leitura e da escrita. O aluno deve aprender, recebendo e

    memorizando informaes prontas sobre as letras e os sons.

    Analisando o livro didtico utilizado pelo municpio de Foz do Iguau

    verificou-se a existncia de atividades como: jogos, desenhos, leitura e uso da escrita

    em situaes reais. Embora contenha algumas atividades que podemos considerar

    3 A frase querela dos mtodos foi utilizada primeiramente por MORTATTI (2008). Em seu

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