a objetividade da ciência na filosofia de gaston bachelard

Download A Objetividade da Ciência na Filosofia de Gaston Bachelard

Post on 10-Jan-2017

215 views

Category:

Documents

3 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • na filosofia de Bachelard

    Gustavo Bertoche

  • www.ebooksbrasil.org

    Edio do Autor 2006 - Gustavo Bertoche

    A distribuio deste texto online permitida desde que sejam respeitados a primazia do Autor e seus corpyrights.

    No distribua sem citar fonte, no venda, no re-edite o texto.

    Rio de Janeiro, 26 de julho de 2006

    Para entrar em contato com o autor:

    gusbertoche@gmail.com

    http://www.ebooksbrasil.org

  • A OBJETIVIDADE DA CINCIA

    na filosofia de Gaston Bachelard

    Gustavo Bertoche

  • ...os primeiros efeitos colaterais dos grandes triunfos da cincia j se fizeram sentir sob a forma

    de uma crise dentro das prprias cincias naturais. O problema tem a ver com o fato de que as

    "verdades" da moderna viso cientfica do mundo, embora possam ser demonstradas em frmulas matemticas e comprovadas

    pela tecnologia, j no se prestam expresso normal da fala e do raciocnio.

    Quem quer que procure falar conceitual e coerentemente dessas "verdades"

    emitir frases que sero "talvez no desprovidas de significado como

    um 'crculo triangular', mas muito mais absurdas que 'um leo alado' " (Erwin Schrdinger).

    Ainda no sabemos se esta situao definitiva; mas pode vir a suceder que ns,

    criaturas humanas que nos pusemos a agir como criaturas do universo, jamais cheguemos a

    compreender, isto , a pensar e a falar, sobre aquilo que, no entanto, somos capazes de fazer.

    Hannah Arendt, prefcio de A Condio Humana

    Ed. Forense Universitria, 7. ed., pg. 11

  • Sumrio

    6 Introduo

    11 Parte 1 : O substancialismo

    12 A definio de substancialismo e as rupturas epistemolgicas

    24 Os obstculos epistemolgicos e a psicanlise do conhecimento

    36 O obstculo epistemolgico substancialista

    57 Parte 2 : Matemtica, representao e objetividade

    58 A representao gramatical-substancialista e a representao matemtica

    66 O processo de dessubstancializao na cincia contempornea

    77 A identificao entre razo dessubstancializada e objetivao

    91 Bibliografia

    95 Notas

  • Introduo

    A cincia objetiva. Esta afirmao no nova: tem a i-

    dade da cincia. A definio de objetividade, contudo,

    um problema. E no um problema cuja soluo seja

    simples.

    Procurando compreender o que a objetividade da cin-

    cia, seguiremos a filosofia de Gaston Bachelard (1884-

    1962), filsofo francs que se dedicou ao estudo da filoso-

    fia das cincias naturais e da poesia.

    Bachelard considera que a objetividade cientfica cons-

    truda. Neste ensaio, exploraremos, a partir da epistemo-

    logia bachelardiana, o modo como as cincias constroem a

    objetividade epistemolgica.

    Constataremos que a cincia contempornea se afasta de

    um substancialismo presente na atitude comum e na cin-

    cia clssica. Proporemos tambm que a objetividade do

    conhecimento nas cincias contemporneas - a fsica e a

  • qumica do sculo XX - no uma objetividade discursi-

    va. Assim, o ensaio dividido em duas partes: a primeira

    parte trata do Substancialismo e a segunda constri rela-

    es entre Matemtica, Representao e Objetividade.

    Na primeira parte, O Substancialismo, inicialmente es-

    clareceremos alguns aspectos da epistemologia de Bache-

    lard que sero importantes para nossa argumentao. Ini-

    ciaremos tratando da definio de substancialismo e das

    relaes entre o substancialismo e o verbalismo, o realis-

    mo e o empirismo. Esclareceremos, ento, a noo de rup-

    tura epistemolgica, idia fundamental para a compreen-

    so da epistemologia bachelardiana.

    A partir do exame da noo de ruptura epistemolgica,

    explicaremos o que so os obstculos epistemolgicos e a

    noo de psicanlise do conhecimento. Mostraremos que

    Bachelard considera obstculos epistemolgicos os erros

    subjetivos que impedem o conhecimento objetivo. Tais

    erros devem, prope, ser reconhecidos e afastados por

    uma psicanlise do conhecimento, de cujo exame nos o-

    cuparemos.

  • Nos deteremos ento sobre um obstculo epistemolgico

    especfico: o obstculo substancialista. Neste item, estuda-

    remos mais profundamente o substancialismo. Demons-

    traremos, a partir de exemplos como o do modelo atmico

    de Dalton, que a cincia clssica era partidria de uma

    metafsica substancialista.

    Na segunda parte, Matemtica, Representao e Obje-

    tividade, trataremos do modo como as cincias contem-

    porneas se objetivam: afastando o obstculo substancia-

    lista

    afastamento que causa rupturas epistemolgicas

    com a cincia anterior e com o discurso comum, por meio

    do uso extensivo da matemtica em lugar de representa-

    es visuais ou verbais.

    Assim, inicialmente abordaremos o problema da insufici-

    ncia da linguagem comum para o conhecimento cientfi-

    co contemporneo. Mostraremos que a objetividade das

    cincias fsicas j no mais discursiva.

    Ento proporemos, a partir do exemplo do modelo atmi-

    co de Bohr, que a objetividade construda, na fsica e na

  • qumica contemporneas, com o afastamento das imagens

    substancialistas, que identificamos com armadilhas ver-

    bais. Veremos tambm que Bachelard considera tal afas-

    tamento, tal psicanlise do conhecimento, um processo

    ocorrido necessariamente no interior de uma comunidade

    cientfica, o que quer dizer que o conhecimento, ainda que

    no-discursivo, social.

    A partir da, demonstraremos que a objetividade das cin-

    cias contemporneas uma objetividade matemtica. Dis-

    cutiremos a validade epistemolgica da assuno da ma-

    temtica como fundamento da objetividade. E concluire-

    mos a segunda parte, encaminhando-nos para a

    Concluso, ao abordar o problema de o discurso verbal

    poder, de algum modo, se tornar objetivo no sentido em

    que a matemtica objetiva.

    Pretenderemos ter demonstrado, ao final do texto, a con-

    cepo de uma objetividade baseada no no discurso, mas

    na matemtica, a partir das fundamentais noes bache-

    lardianas de obstculo epistemolgico, rupturas epistemo-

    lgicas e psicanlise do conhecimento. Desejaremos ter

  • evidenciado, partindo da epistemologia de Bachelard, que

    o conhecimento objetivo das cincias contemporneas

    um conhecimento que no , estritamente falando, um co-

    nhecimento da linguagem, um conhecimento falado: um

    conhecimento fundamentado numa matemtica inexpri-

    mvel no discurso.

  • Parte 1 O Substancialismo

  • A definio de substancialismo e as rupturas

    epistemolgicas

    O objetivo desta primeira parte do ensaio apontar a crti-

    ca de Bachelard ao substancialismo que subsiste como

    fundamento da cincia clssica. Com este fim, discutire-

    mos alguns conceitos utilizados por Bachelard em sua e-

    pistemologia, como o de substancialismo, o de obstculo

    epistemolgico, o de psicanlise do conhecimento objeti-

    vo. A abordagem do que Bachelard chama de ruptura e-

    pistemolgica necessria para que se possa compreender

    a afirmao de que o conhecimento cientfico comple-

    tamente diferente do senso comum, que no uma conti-

    nuao do discurso normal. Isto ser importante quando

    mostrarmos, a partir de Bachelard, a necessidade de se

    propor uma abordagem no-substancialista, mas matem-

    tica, para dar conta do conhecimento cientfico contempo-

    rneo.

  • importante, antes de introduzirmo-nos nos temas da e-

    pistemologia, esclarecer rapidamente qual o juzo que

    consideramos pertinente filosofia de Bachelard sobre o

    que se pode compreender como substancialismo e relacio-

    n-lo s atitudes afins: o verbalismo, o realismo, o empi-

    rismo.

    O substancialismo uma atitude que conhece o mundo a

    partir da suposio de que as coisas so delimitadas (indi-

    vidualmente e em suas caractersticas qualitativas e rela-

    cionais) do mesmo modo como a linguagem comum as

    trata.

    A substncia, contudo, uma categoria gramatical: consi-

    der-la, fora da linguagem, constituinte da estrutura ntima

    do mundo assumir um substancialismo gramatical, em

    que s se pode conhecer ao dizer, em que s se pode co-

    nhecer o que pode ser dito.

    Essa suposio no consciente (a conscincia da influ-

    ncia da linguagem na organizao do mundo, uma orga-

    nizao que seria abstrata, daria lugar no a um substanci-

  • alismo, mas a uma espcie de nominalismo), o que torna o

    substancialismo realista.

    Desse modo, alm de se relacionar ao verbalismo, a atitu-

    de substancialista liga-se tambm atitude realista. O sa-

    ber que pretende conhecer a estrutura do mundo a partir

    da linguagem, que substancialista, um saber que afir-

    ma a realidade concreta dos entes abstratos, como os entes

    lingsticos: os entes lingsticos podem ser experimenta-

    dos sensivelmente, podem ser escutados, e por esta razo

    podem ser conhecidos e ditos. Assim, o saber substancia-

    lista tem o status metafsico de saber realista.

    Ao verbalismo e ao realismo substancialistas, identifica-se

    o empirismo. Para o empirismo, a totalidade do saber vem

    da experincia sensvel. A linguagem e a realidade do

    mundo seriam experincias sensveis, e portanto seriam

    bons fundamentos para o conhecimento. O que no pudes-

    se ser experimentado sensivelmente n

Recommended

View more >