a nova armadilha da d­vida

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  • A novA ArmAdilhA dA dvidA Como a resposta ltima crise financeira global preparou o terreno para a prxima

    Resumo executivo

    A nova armadilha da dvida Como a resposta ltima crise financeira global preparou o terreno para a prxima

    Julho de 2015

    A desigualdade fomenta as crises de dvida As crises de dvida tornaram-se muito mais frequentes por todo o mundo a partir da desregulao dos emprstimos e dos fluxos globais na dcada de 1970. Uma causa subjacente mais recente crise financeira, que comeou em 2008, foi o aumento da desigualdade e da concentrao da riqueza. Esta desigualdade tornou mais pessoas e mais pases dependentes da dvida e aumentou a quantidade de capital a entrar no mercado da especulao de ativos financeiros de risco.

    O aumento da desigualdade foi reduzindo o crescimento econmico, medida que os grupos com maiores rendimentos gastavam uma parcela menor das suas receitas em bens e servios do que os grupos de mdios e baixos rendimentos. Para lidar com este problema, os pases devedores optaram por aumentar as dvidas existentes enquanto os pases financiadores promoviam as exportaes atravs do financiamento. Esta dinmica permitiu prolongar o crescimento, ainda que apenas uma pequena parte dos rendimentos fosse canalizada para os grupos mais pobres da sociedade. Entretanto, os grupos mais ricos colocavam uma percentagem cada vez maior da riqueza dos seus pases em emprstimos especulativos e investimentos financeiros de risco, em busca de rendimentos mais elevados. O aumento da desigualdade, acompanhado pela desregulao financeira veio assim intensificar um boom insustentvel nos emprstimos, constituindo-se como um fator subjacente por detrs da crise que teve incio em 2008.1

    Nveis globais da dvida novamente a crescer A dvida internacional tem vindo a aumentar desde 2011, aps uma descida no perodo 2008-2011. O total das dvidas lquidas2 detidas pelos pases devedores, tanto pelo setor pblico como pelo setor privado, que no est coberto por ativos correspondentes detidos por esses pases, aumentou de 11,3 bilies de USD em 2011 para 13,8 bilies de USD em 2014. Prevemos que em 2015 este nmero continue a subir para os 14,7 bilies de USD. Globalmente, as dvidas lquidas detidas pelos pases devedores tero assim crescido 30% (3.4 bilies de USD) em quatro anos.

    Este aumento do endividamento entre pases est a ser conduzido pelas principais economias. Das dez maiores economias do mundo, oito conseguiram recuperar da crise financeira de 2008, pedindo mais emprstimos ou emprestando mais, aumentando assim o fosso dos desequilbrios da economia global. Os Estados Unidos da Amrica, o Reino Unido, a Frana, a ndia e a Itlia pediram ainda mais emprstimos ao resto do mundo. A Alemanha, o Japo e a Rssia aumentaram os seus emprstimos a outros pases.

    O boom dos emprstimos aos pases mais pobres Paralelamente a este aumento nos nveis da dvida global, houve tambm um boom nos emprstimos concedidos aos pases pobres, em particular aos mais pobres, designados pelo Banco Mundial como Pases de Baixos Rendimentos (PBR). Os emprstimos externos aos governos dos pases de baixos rendimentos triplicaram entre 2008 e 2013, impulsionados por mais ajuda oferecida na forma de emprstimos (inclusivamente por meio de instituies financeiras internacionais), novos credores tais como a China, e especuladores privados que procuraram retornos mais elevados em zonas mais remotas devido s baixas taxas de juros nos pases ocidentais.

    A crise da dvida conta j com 22 pases; em breve outros 71 iro juntar-se Neste relatrio, ao observar a dvida lquida total dos pases (setores pblico e privado), os pagamentos futuros da dvida pblica e o dfice (ou excedente) atual de rendimentos dos pases em relao ao resto do mundo, identificmos alguns pases j a vivenciar, ou em risco de vivenciar, novas crises de dvida. Dividimos esses pases em quatro grupos, representados no mapa da pgina 3.

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    A novA ArmAdilhA dA dvidA Como a resposta ltima crise financeira global preparou o terreno para a prxima

    Alm disso, enquanto os 43 pases dos grupos 2 e 3 acima tem nveis preocupantes de dvida pblica externa, o seu setor privado pode ser uma fonte ainda maior de risco, tendo em conta os elevados nveis de dvida lquida e os dfices nas contas correntes.

    Os emprstimos aos pases mais pobres esto a dinamizar o crescimento, mas no esto a reduzir a pobreza nem a desigualdade Dos 14 pases identificados como mais dependentes dos emprstimos externos (os do grupo 2), possvel obter mais informaes sobre os pagamentos futuros da dvida pblica de 9 deles junto do FMI e do Banco Mundial, so eles o Buto, Etipia, Gana, Laos, Monglia, Moambique, Senegal, Tanznia e Uganda.

    O FMI e do Banco Mundial levam a cabo apenas avaliaes da sustentabilidade total da dvida, num modelo que prev os pagamentos futuros das dvidas dos pases mais pobres, dos pases que passaram recentemente de pases de baixos rendimentos para pases de rendimento mdio e de alguns Pequenos Estados Insulares. Como principais credores, o FMI e o Banco Mundial tm um claro conflito de interesses na realizao de tais avaliaes, mas atualmente so as nicas disponveis e no est disponvel nenhum tipo de informao similar relativo aos pases mais ricos.

    Os nove pases para os quais existem dados disponveis tendem a ter taxas de crescimento econmico mais elevadas do que outros pases com rendimentos semelhantes. No entanto, este crescimento mais rpido no corresponde ao mesmo ritmo de progresso no alvio da pobreza, que est a descer mais lentamente do que a mdia dos pases de baixos rendimentos. De fato, em cinco dos nove, o nmero de pessoas que vivem em condio de pobreza aumentou nos ltimos anos, apesar das suas economias terem crescido rapidamente numa abordagem per capita. Por exemplo, na Etipia entre 2005 e 2011, o PIB cresceu 60% per capita, mas o nmero de pessoas que vivem com menos de 2USD por dia aumentou 5,4 milhes. Alm disso, exceo de um dos nove pases, a desigualdade est a aumentar. No Uganda, em 2006, o rendimento mdio dos 40% mais pobres da sociedade era de 439USD por ano, com os 10% mais ricos a auferirem 3.769USD em igual perodo. Em 2013, o rendimento mdio

    anual daqueles 10% mais ricos aumentou para 4.891USD, ao passo que os 40% mais pobres aumentaram apenas para 516USD.

    Finalmente, no h nenhuma evidncia de que qualquer um dos nove pases esteja a tornar-se menos dependente de matrias-primas primrias para as suas receitas de exportao. A dependncia de matrias-primas primrias, em vez da indstria transformadora ou servios, torna os pases mais vulnerveis a oscilaes nos volteis preos globais das matrias-primas e os ganhos decorrentes dessas matrias-primas podem ser mais facilmente absorvidos por um pequeno grupo de pessoas. Isto significa que os pases continuam em elevado risco de crise da dvida, j que a queda dos preos das matrias-primas uma importante fonte de choques econmicos, e tambm porque o crescimento baseado em exportaes de matrias-primas beneficia muitas vezes as elites locais e multinacionais em primeiro lugar, aumentando ainda mais a desigualdade.

    Assim, embora os pases mais dependentes de emprstimos estrangeiros tenham vindo a crescer rapidamente, a pobreza e a desigualdade em geral tm vindo a aumentar e no houve mudanas estruturais significativas nas suas economias que as torne mais resistentes a choques externos. Estes elevados nveis de emprstimos significam que tais choques muito provavelmente podero originar novas crises da dvida. Com base na experincia do passado, estes aumentariam ainda mais a pobreza e reduziriam o financiamento para os servios pblicos essenciais, como a sade e a educao. Observmos em pormenor dois pases deste grupo: Moambique e Tanznia.

    As parcerias pblico-privadas esto a esconder a verdadeira extenso dos problemas futuros com a divida pblicaEmprestar e pedir emprstimos atravs do setor privado uma das principais fontes de risco em termos de futuras crises de dvida. Outro fator o aumento de Parcerias Pblico-Privadas (PPPs). Isto pode significar diversas coisas. Uma delas quando o setor privado constri infraestrutura para um governo, (como uma estrada ou um hospital), e o governo garante fazer determinados pagamentos durante um perodo definido. Isso tem o mesmo efeito prtico que teria

    Categoria Caractersticas Regies particularmente afetadas Nmero de pases

    1. Em situao de crise de dvida

    Pagamentos de dvida pblica elevados, dvida externa lquida elevada (isto , a dvida para com o resto do mundo)

    Europa, Amrica Central e Caribe, Mdio Oriente e Norte de frica

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    2. Alto risco de crise da dvida pblica

    Dvida pblica lquida elevada, dfice das contas correntes elevado e persistente, pagamentos futuros da dvida pblica muito altos

    frica Subsaariana, sia, Pequenos Estados Insulares

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    3. Risco de crise da dvida pblica

    Dvida pblica lquida significativa, pagamentos projetados da dvida pblica significativos

    frica Subsaariana, Amrica Centrale Caribe, Pequenos Estados Insulares, Europa, sia Central

    29

    4. Risco de crise da dvida do setor privado

    Dvida externa do setor privado significativa, dfice das contas correntes significativo (mas sem indicadores de dvida pblica preocupantes)

    Europa, Pequenos Estados Insulares, sia Central, Mdio Oriente e Norte de frica, frica Subsaariana e Amrica Central.

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