A Música para Flauta de Francisco Mignone - Duo Barrenechea

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  • X I I I Encontro da Associao Nacional de Pesquisa e Ps-Graduao em Msica

    Comunicaes 501

    A Msica para Flauta de FranciscoMignone

    Srgio Azra BarrenecheaUniversidade Federal de GoisE-mail: sergio.barrenechea@bol.com.brWeb: http://www.geocities.com/Vienna/Strasse/2767

    Sumrio: Francisco Mignone deixou um legado vastssimo de obras paradiversos meios como orquestra sinfnica, pera, coral e msica de cmara.Sua produo para msica de cmara contempla a flauta transversalextensivamente em conjuntos de combinaes variadas. Entre peasoriginais e transcries, Mignone comps trinta e trs obras de msica decmara que incluem a flauta. Este repertrio permeia o seu desenvolvimentocomposicional e resulta principalmente do fato de seu pai, Alfrio Mignone,ter sido um flautista profissional e Francisco Mignone ter tocado esteinstrumento na juventude. A proposta deste estudo oferecer uma visosobre este repertrio pouco freqentado.

    Palavras-Chave: Francisco Mignone, msica de cmara brasileira, flautatransversal

    Apesar do pblico contemporneo associar Francisco Mignone(1897-1986) principalmente sua msica para piano solo, sua produo heterognea, compreendendo de obras sinfnicas pera, de canes msicade cmara. Sua contribuio ao repertrio para flauta transversal pode tambmser considerada digna de nota devido no somente ao grande nmero de obrasque incluem a flauta mas tambm pela maneira inventiva em que esteinstrumento utilizado, freqentemente exigindo habilidades virtuossticas doexecutante.

    Francisco Mignone comps vinte e seis obras originais de msica decmara que incluem a flauta transversal. Estas peas apresentam umavariedade de formaes instrumentais que abrange de duos para vriosinstrumentos at quintetos de sopros e sextetos com piano. Alm das peasoriginais, Mignone transcreveu sete de suas obras anteriores para algumasdessas mesmas formaes, totalizando trinta e trs obras de msica de cmarapara flauta. Esta predileo pelo instrumento parece resultar principalmente do

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    fato de seu pai, Alfrio Mignone,1 ter sido um flautista profissional e deFrancisco Mignone tambm ter tocado este instrumento na juventude.2

    A participao da flauta na msica de cmara de Mignone reveste-sede aspectos diferenciados e pode ter um carter mais solista ou maiscamerstico. Este estudo aborda principalmente a msica para flautaclassificada de acordo com a instrumentao e o grau de participao doinstrumento sem preocupao de ordem cronolgica. A descrio dorepertrio segue a seguinte organizao: msica para flauta e cordas; msicapara flauta e piano; msica para sopros e msica de cmara com piano. Aestas categorias agregam-se caractersticas estilsticas tais como:eurocentrismo e neoclassicismo sem inteno nacionalista explcita;nacionalismo; dodecafonismo e procedimentos seriais; sntese de duas ou maiscaractersticas mencionadas.

    Msica para flauta e cordasA categoria de msica para flauta e cordas, inclui uma obra original

    para esta combinao, a Sute para flauta e quarteto de cordas (1949), e trstranscries de obras originais para piano solo: 3 Peas (1977)3, Valsa deEsquina n 7 (sem data) e Valsa de Esquina n 10 (sem data). Nestas obras aflauta tem um papel preponderante e as cordas desempenham primariamenteuma funo de acompanhamento.

    A Sute representa o trabalho mais importante de Mignone para estegnero e provavelmente assinala uma tendncia do compositor na direo deuma msica mais abstrata em oposio sua tendncia nacionalista anterior.Esta suite foi escrita durante o perodo de crise do compositor. Alguns dosprincipais fatores que parecem ter influenciado Mignone a deixar de seguir umcaminho nacionalista estrito so: dvidas quanto ao real escopo e valor de umanacionalismo acirrado na msica; fadiga quanto ao uso de frmulas; adificuldade em manter-se em sintonia com as prescries de Mrio deAndrade; a morte do mesmo em 1945 e o surgimento de outras tendncias decarter universalista no Brasil.

    Esta moldura neoclssica oferece a Mignone a chance de escreveruma sute de danas europias mais abstratas e mais ligadas a um passadodistante, uma s suas origens. A sute dedicada ao seu pai, o que talvezjustifique algumas das suas caractersticas mais conservadoras. Esta obra temcinco movimentos (ria, Sarabanda, Siciliana, Minuetto e Saltarello) onde o

    1 Alfrio Mignone, flautista italiano radicado em So Paulo, foi membro fundador da Orquestra doTeatro Municipal de So Paulo e professor no Conservatrio Dramtico e Musical.2 O compositor formou-se no Conservatrio Dramtico em 1917 em composio, piano e flauta.3 3 Peas inclue trs obras nacionalistas de sucesso: No fundo do meu quintal, Lenda Sertaneja n8 e Cucumbizinho.

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    tratamento brilhante dado escrita para flauta a faz pairar acima das cordas,como demonstra a passagem em sons harmnicos na coda do primeiromovimento (figura 1).

    Figura 1: Sute para flauta e cordas, 1o mov., ria, cadenza da flauta,compassos 39-41

    Msica para flauta e pianoA categoria de msica para flauta e piano contm duas peas

    originais, a Valsa Choro (1956) e a Sonata para Flauta e Piano (1962), e trstranscries, a Sute, Cucumbizinho (1966) e a Valsa de Esquina n 7 (1966).A Sonata dedicada a Alfredo Montanaro, grande amigo de meu saudosopai,1 resultando em uma sonata de grande porte, sendo marcante na escrita demsica de cmara brasileira o fato do compositor empregar procedimentosseriais. No final da dcada de 50 at os meados de 70, Mignone, mesmoconservando traos inextirpveis do nacionalismo, assume uma postura maisprxima ao movimento avant-garde to disseminado no pas.

    A Sonata para flauta e piano de Mignone destaca-se por duasrazes principais: das poucas sonatas de compositores brasileiros escritaoriginalmente para esta formao,2 e ntido o domnio que o compositor temdos dois instrumentos. No entanto, apesar de exercitar sua curiosidade emesmo certo arrojo na explorao de novos procedimentos, esta sonata aindaexibe traos conservadores, pela manuteno de algumas figuraes de cunhonacionalista, nas molduras neoclssicas e nos gestos inequvocos, tais comosonoridades tridicas. Porm a Sonata tambm revela um grande domnio nautilizao de procedimentos seriais como atestam os procedimentos depermutao (figura 2).

    1 Pouco se sabe sobre Alfredo Montanaro. O flautista Lenir Siqueira informa por entrevistatelefnica em dezembro de 1999, que poderia trata-se de um flautista argentino de origem italiana.2 Posteriormente (1967), o compositor transcreveu a sonata para violino e piano. Para maisinformaes veja Esdras R. Silva, Francisco Mignone: Experimentation in the three Sonatas forViolin and Piano (D.M.A. dissertation, Boston University, 1999).

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    Figura 2: Sonata para flauta e piano, 3 mov., compassos 36-39

    Msica para soprosEntre 1961 e 1984 Mignone escreve copiosamente para flauta em

    vrias combinaes de conjuntos de sopros (tabela 1). De um total dedezessete peas listadas nas diversas fontes sobre Mignone, somente onzeobras foram localizadas. Cinco destas obras (as trs Invenes para flauta efagote, flauta e clarineta, e flauta e obo; alm da Trifonia e Tetrafonia) nopuderam ter suas existncias comprovadas.1 Se estas obras esto perdidas, estasituao vem de encontro com a declarao de Verhaalen que: o prprioMignone reconhecia em si mesmo um desinteresse em o que os outrospensavam da sua msica, uma peculiaridade a qual o fazia contente em criarpelo prazer do ato e freqentemente dar de presente seus manuscritos. 2 Outraquesto referente obra Quatro Momentos Musicais, que listada como umapea independente. No entanto esta simplesmente uma segunda verso daSonata a tre com uma mera mudana no ttulo. Surpreendentemente, outrasduas obras desta categoria, ria para quarteto de flautas e Inveno a trs paraflauta, obo e clarineta, foram reveladas por este estudo pois no aparecem emnenhuma das listagens.3 Toda esta situao impe um necessidade de ummapeamento mais criterioso da obra de Mignone pois existem obras listadasque no podem ser encontradas e obras existentes que no esto listadas.

    As composies desta categoria refletem uma produo heterogneaque inclui transcries de peas de carter nacionalista tais como Baianinha e

    1 Estas obras esto desaparecidas ou as suas incluses nas listagens representam erros deimpresso; apesar dos esforos recentes em san-la, esta falha ainda persiste nas fontes sobre aobra de Mignone.2 Mignone himself acknowledged a disinterest in what others think of his music, a trait whichmakes him content to create for the pleasure of creating and then frequently to give hismanuscripts away. Marion Verhaalen, The Solo Piano Music of Mignone and Guarnieri (PhD.Dissertation, University of Columbia, 1971), 29.3 Cpias dos manuscrito autografados da ria e da Inveno a trs foram encontradasrespectivamente na coleo da Biblioteca Nacional e na coleo particular da Prof. Odette ErnestDias.

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    3 Seresta enquanto que em oito outras, Fantasia, Quarteto, dois quintetos desopro, ria, Sonata a tre ou Quatro Momentos Musicais , Sonata para flauta eobo e Inveno a trs, o compositor emprega procedimentos ps-tonais. Asdemais trs peas, 2 Trifonias, 5 Peas e ria, exibem escrita baseada emprocedimentos tonais mas no fazem uso de elementos francamentenacionalistas. O ano de 1961 encontra Mignone no seu perodo maisprodutivo; isto se d em virtude de sua ligao com a Rdio MEC e seuquinteto de sopros em residncia.1

    DATA TTULO INSTRUMENTAOInveno flauta e fagoteFantasia flauta, obo e clarinetaQuarteto para instrumentos de madeira flauta, obo, clarineta e fagote3 Seresta (transc.) flauta, obo, clarineta e fagoteBaianinha (transc.) flauta, obo, clarineta e fagote1 Quinteto de sopros quinteto de sopros2 Quinteto de sopros quinteto de sopros

    1961

    ria quinteto de soprosInveno flauta e clarineta1963Inveno flauta e obo

    1964 Sonata a tre (Quatro Momentos musicais 1970) flauta, obo e clarineta1969 Sonata flauta e obo1970 Inveno a trs flauta, obo e clarineta1971 Trifonia flauta, obo e clarineta

    Tetrafonia flauta, obo, clarineta e trompa19722 Trifonias (Divertimento a 3) flauta, obo e trompa5 Peas quarteto de flautas1984ria quarteto de flautas

    Tabela 1: Obras de Mignone para sopros

    Uma das obras de porte desta categoria o Quarteto parainstrumentos de madeira . Escrito em 1961, este quarteto foi estreado em 1977pelos integrantes do quinteto de sopros da Universidade de Braslia. Nestaobra, o compositor emprega uma escrita dodecafnica nos quatro movimentos.No primeiro, Allegro Grazioso, o uso de procedimentos dodecafnicos podeser observado no incio, onde cada uma das quatro linhas apresenta a srie emlivre reordenao. A linha da flauta apresenta a seguinte ordenao da srie:, a do obo: , a da clarineta: e a do fagote: (figura 3).

    1 Integantes do quinteto gravaram grande parte deste repertrio, incluindo o Sexteto, Baianinha,3 Seresta e a Sonata a tre. Veja Marco Antnio Marcondes, Enciclopdia da msica Brasileira:Erudita, Folclrica e Popular (So Paulo: Art Editora, 1977) e Vasco Mariz, ed., FranciscoMignone; o homem e a obra ( Rio de Janeiro: Funarte, 1997).

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    Figura 3: Quarteto, primeiro movimento, compasso 1-5

    Msica de cmara com pianoNesta categoria de msica de cmara com piano, Mignone produziu

    vrias obras de instrumentao variada das quais dois integrantes permanecem,a flauta e o piano. H dois trios para flauta, violoncelo e piano, trs sextetospara piano com quinteto de sopros e uma pea Urutu que um sexteto parapiccolo, flauta, requinta (clarineta em MI b), fagote e piano a quatro mos(tabela 2).

    DATA TTULO INSTRUMENTAO1935 1 Sexteto quinteto de sopros e piano1944 Uratu: o pssaro fantstico piccolo, flauta, clarineta em Mi b, fagote e piano

    quatro mos1970 2 Sexteto quinteto de sopros e piano1977 3 Sexteto 6 Preldios e um

    Enigmaquinteto de sopros e piano

    Trio n 1 flauta, cello e piano1981Trio n 2 flauta, cello e piano

    Tabela 2: Msica de cmara com piano de Mignone

    O primeiro Sexteto assinala a primeira tentativa do compositor deescrever para conjunto de sopros. Nela percebe-se claramente um compositornacionalista no apogeu da sua capacidade criativas e com domnio do estiloescolhido. O primeiro sexteto foi publicado em 1937; a publicao teve umefeito positivo e repercutiu mundialmente como atestam as fontes fornecidaspor Bernard Pierreuse, Maurice Hinson, Joseph A. Wise e Harry B. Peters1 .

    1 Bernard Pierreuse, Flute Litterature: catalogue general des oeuvres editees et inedites parformations instrumentals, (Paris: Jobert & Editions Transatlatiques, 1982); Maurice Hinson, ThePiano in Chamber Music: An Annotated Guide, (Bloomington, IN: Indiana University Press1996); Joseph A. Wise, A Comprehensive Performance Project in Brass Literature with an EssayConsisting of Brass Instruments in Solo and Ensemble Music of Latin American Composers 1900-1986: An annotated bibliography, (DMA diss, University of Iowa, 1987); e Harry B. Peters, TheLiterature of the Woodwind Quintet, (Metrichen, NJ: Scarecrow Press, 1971).

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    Nesta obra, Mignone o seguidor de Villa-Lobos, como demonstra ainfluncia francesa na escolha de combinaes instrumentais. Corra deAzevedo descreve a obra como tendo [...] sonoridades pujantes, por vezesviolentas, conserva-se sob o signo da msica negra, que to forte influnciaexerceu sobre o compositor, nessa fase de sua evoluo.1 Arnaldo Estrellaafirma que os quatro temas principais utilizados nesta obra so de Pixinguinha.O carter autenticamente brasileiro do sexteto, o qual inclui melodias deinflexo modal e figuraes rtmicas sincopadas, o resultado direto destacolaborao (figura 4).

    Figura 4: Sexteto, trecho do 3 tema atribudo Pixinguinha, compassos172-179

    ConclusoA msica para flauta de Mignone um repertrio pouco explorado

    pelos flautistas. Nestas obras esto contidas uma enorme variedade de estilos,formas, gneros e intenes musicais, desde as peas mais elaboradas eprofundas at s mais leves e graciosas. Sua msica tem melodias luxuriantese ritmos vibrantes, cheios de vitalidade. A escrita para o instrumento idiomtica e inclui passagens de grande virtuosismo romntico aliado aoselementos da msica popular brasileira. Quantitativamente, prevalece o estilode serenata, a melodia sentimental, o choro e a valsa brasileira. A escolaitaliana, herdada e valorizada, se manifesta na escrita virtuosstica e de efeitosbrilhantes, na agilidade da digitao e nas melodias luxuriantes. Tambmoriundo da influncia italiana destaca-se o carter orquestral da escrita, com aflauta nos seus melhores registros, o mdio agudo e agudo. O registro grave explorado tmida e esporadicamente. Cabe observar que, no que tange

    1 Luiz Heitor Corra de Azevedo, em Vasco Mariz, Francisco Mignone: o homem e a obra ( Riode Janeiro: Funarte, 1997),14.

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    tcnica propriamente dita, ao longo da sua produo Mignone fez pouco uso derecursos instrumentais especiais tpicos da msica do sculo XX. Unicamenteso encontrados o frulato e sons harmnicos.

    Mignone, um compositor de treinamento apurado que conhece bemo mtier, escreve para flauta sempre num idioma idiossincrtico, assim comopara os outros instrumentos envolvidos neste repertrio, fazendo jus fama debom orquestrador. A sua predileo pela flauta certamente demonstra ainfluncia de seu pai mas tambm aponta para a proximidade do compositorcom a msica popular brasileira. Com este estudo, esperamos ter oferecidouma viso sobre a msica para flauta de Mignone e ajudado a promover umpouco deste variado e pouco freqentado segmento da msica para flauta dosculo XX.

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