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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM EDUCAO

FACULDADE DE EDUCAO FACED

Linha de Pesquisa: Filosofia da Diferena e Educao rea temtica: Metainfanciofsica

Deniz Alcione Nicolay

A moral da infncia na Didtica Magna

Dissertao de Mestrado apresentada ao Programa de Ps-graduao em Educao da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, como

requisito parcial para obteno do ttulo de Mestre em Educao.

Orientadora: Dra. Sandra Mara Corazza

Porto Alegre, Outubro de 2006.

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Escrever dobrar o fora, como faz o navio com o mar.

Sandra Corazza

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RESUMO

A Dissertao trata dos valores morais que balizaram a noo de infncia na Modernidade.

Utiliza a Didtica Magna do pastor morvio Jan Ams Comenius, escrita no sculo XVII,

para interpretar o teor das foras (ativas ou reativas), que produziram o bom ou o mau da

infncia no processo de escolarizao. Processo este, definido pela produo dos

mecanismos comenianos de escolarizao, ou seja, da gradao, da instruo simultnea e

da ordem exata em tudo. Para isso, esta Dissertao incorpora os elementos da crtica

genealgica nietzschiana sobre a moral crist. Esses elementos so conhecidos como:

ressentimento, m conscincia e ideal asctico. Por meio deles, esta Dissertao segue a

trajetria dos valores infantis, at chegar no seu niilismo supremo, na vontade de nada. Por

isso, a infncia tratada como uma tipologia mvel, tanto na Didtica Magna quanto na

obra de Erasmo ou de Rousseau, uma vez que a intensidade de seus postulados morais

sofreu e exerceu influncias por toda a Pedagogia Moderna. Entretanto, ela procura refutar

o ponto de vista histrico, a fim de ficcionar o passado, os valores, as imagens, que

cristalizaram o sentimento moral em torno da noo de infncia. Assim, ela tambm

procura experimentar formas de expresso, de crtica, de contedo, para superar a

concepo binria que produziu uma forma de ser e de pensar distante dos movimentos da

vida. Ou seja, da alegria, do riso, da dana, da afirmao.

Palavras-chave: Infncia, moral, Didtica Magna, fora, vontade.

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ABSTRACT

The Dissertation deals with moral values which mark out the conception os chidhood in

Modernity. It uses the Didtica Magna of moravian shepherd Jan Ams Comenius. It was

written in the XVII century in order to interpret the drift of strength (active or reactive),

wich produced the good or the bad part of childhood during the school process. This

process is defined by the production of school comenian mechanisms, that is, of gradation,

simultaneous instruction and precise order in everything. This Dissertation incorporates the

elements of Nietzschean genealogical criticism about Cristian moral. Such elements are

known as resentfulness, bad conscience and ascetic ideal. Throughout such elements, this

Dissertation follows the childish value trajectory, until it reaches its supreme disbelief. For

this reason, childhood is treated in both Didtica Magna and Erasmos or Rousseaus work

as a movable form, since the intensity of its moral rules suffered and brought influences to

Modern Pedagogy. However, it claims to refute the historical point of view so that the past,

the values, the images, wich crystallized the moral feeling around the childhood, may be

turned into fiction. Thus, it also endeavors to try ways of expression, criticism, and content

in order to overcome the binary conception that has produced a way of being and thinking

far away from life movements, that is, cheerfulness, laughter, dancing, affirmation.

Key-words: childhood, moral, Didtica Magna, strength, will.

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AGRADECIMENTOS

Para Elsida, Joana e Nilva, as trs mes da minha infncia. Para o BOP, Karen, Luciano, Chico, Luciane, Ester, Paulo, Cludia, Rosiara, os que foram e os que esto. Para Sandra Corazza, pelas incansveis leituras e correes, com respeito e admirao. Para os alunos e colegas professores do Colgio 25 de Julho (Novo Hamburgo RS). Para minha famlia e para a infncia de de cada um de ns. Para as infncias que ainda no floresceram.

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SUMRIO

Retratos do paraso. A modo de apresentao....................................08 Um Deus-criana na Didtica Magna..............................................20 Como a infncia chegou a ser o que ela no .....................................30 Ascetismo do infantil-nobre de Erasmo.............................................52

O infantil-evanglico ou a m conscincia comeniana.......................69 A mscara de Emlio..........................................................................84 O(s) bom(ns) e o(s) mau(s) da infncia................................................96 Por uma infncia imoral..................................................................116 Referncias......................................................................................128

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LISTA DE FIGURAS

Fig. 1: Capa da Orbis sensualis pictus.....................................................................p.29 Fig. 2: Homens trabalhando (Orbis sensualis pictus)...............................................p.51 Fig. 3: Invitatio. Kindisch (Orbis sensualis pictus)...................................................p.68 Fig. 4: XXXVI. Septem aetates hominis. Die lieben alter der Mensch.(Orbis sensualis pictus)...............................................................................................................................p.83 Fig. 5: Schola. Die Schul. (Orbis sensualis pictus)....................................................p.95 Fig. 6: CXXII. Urbs. Die Stadt. (Orbis sensualis pictus)........................................p.115

Nota: As figuras 3, 4, 5 e 6 foram extradas de uma obra rara sobre Comenius. Provavelmente sem traduo para o portugus. Trata-se de um seminrio sobre Comenius, organizado por um professor de Leipzig em 1905, chamado de H. Luthner. O livro est citado nas referncias finais.

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RETRATOS DO PARASO. A MODO DE APRESENTAO

Um retrato algo que imortaliza, numa frao de segundos, um gesto, um sorriso, uma fisionomia marcante, uma paisagem inesquecvel, mesmo preso

no formato da moldura e expresso na dureza do papel. Mas no por sua frieza

natural, material ou, at mesmo, esttica, que os antigos retratos nos provocam a

imaginao. Pois todo retrato, a contar de seu instante de existncia, j

passado. pela vontade de voltar no tempo, de repetir o mesmo fragmento de

tempo, de esquecer o presente e reviver o passado, que os antigos retratos se

parecem como espectros inesquecveis e, assim, desassossegam. Nessa

constituio, como entidade espectral, os retratos simbolizam aquilo que j foi,

mas que a todo o momento podem retornar ao presente, basta invoc-los. E, para

retornar ao presente, para encarnar novamente a vitalidade da figura original, eles

devem estar ligados memria de quem os visualiza como algo profundamente

inesquecvel. Algo que representa o verdadeiro ideal, para o qual todos devem

retornar e, retornando, seguir em direo ao futuro. Tal procedimento, o de

prisioneiros do passado, ajuda-nos a encontrar coragem para descortinar o

presente, pensar o inusitado da vida, pintar novas telas, escrever novas pginas.

Porm, sempre sobre uma velha histria. Uma histria que diz do nascimento do

Bem entre os homens e da confiana no seu futuro abenoado. Talvez por isso

vivamos dos espectros, das sombras, dos sentimentos envelhecidos, dos valores

caducos.

Vivemos, desse modo, profundamente marcados por um estado de

nostalgia absoluta, porque nunca tivemos coragem suficiente para negar a falcia

da gnese do homem, do mundo ou de Deus. Somos, para ns mesmos, homens

do desconhecimento1, uma vez que continuamos a procurar, numa instncia

metafsica, o paraso perdido do Reino de Deus. Nessa procura infindvel, criamos

valores que acreditamos servir para tudo aquilo que pensamos, falamos,

escrevemos e vivemos. Por isso, uma velha histria sempre retorna para cont