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  • Amonumentalidade do Cristo Redentor, esttua localizada no altodo morro do Corcovado, na cidade do Rio de Janeiro, instiga-nosa problematiz-la por meio de questes de amplitude igualmente gi-gantesca. Da a opo, neste artigo, por um debate que envolve as rela-es entre modernidade e religio. Pareceu-me que alguns aspectos li-gados ao monumento apontavam exatamente nessa direo. A suaconstruo,marcada pela inaugurao no anode 1931, oferece a princi-pal referncia para o levantamento de dados, que atinge fontes prim-rias e secundrias.Mas foi necessrio ainda recuar e avanar no tempo;primeiro, para recuperar um aspecto da definio das relaes entreEstado e religies no Brasil que vai se expressar na concepo da est-tua; depois, para acompanhar certas iniciativas recentes que ocorremem torno da imagem do Cristo Redentor. Aprincipal personagem nes-se trajeto a Igreja Catlica, e interessa-me sobretudo mostrar como,em meio a outros discursos e agentes, seus representantes, lderes e

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    * Os argumentos apresentados neste artigo foram discutidos em diversas ocasies entre2006 e 2007: em atividades do Programa de Estudos de Sociologia Histrica dos Movi-mentos e das Prticas Culturais, do Seminrio de Estudos Avanados do Programa dePs-Graduao em Sociologia e Antropologia, do grupo de estudo que mantenho comalunos de graduao e ps-graduao, todas no Instituto de Filosofia e Cincias Sociaisda Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ; e ainda em mesa-redonda durante oIX Simpsio Anual da Associao Brasileira de Histria das Religies, realizado na Uni-versidade Federal de Viosa UFV. Agradeo a todos que participaram dessas discus-ses e tambm aos pareceristas annimos de DADOS.

    DADOS Revista de Cincias Sociais, Rio de Janeiro, Vol. 51, no 1, 2008, pp. 75 a 105.

    A Modernidade do Cristo Redentor*

    Emerson Giumbelli

  • mandatrios acionam e incorporam elementos que esto associados modernidade. Trata-se, portanto, de compreender como se faz e quaisas implicaes dessa articulao entre religio e modernidade realiza-da pela Igreja Catlica.

    Cada uma das sees deste texto explora essa articulao a partir deum componente especfico da relao estabelecida entre religio e mo-dernidade. Inicio com o princpio da liberdade religiosa. difcil igno-rar a importncia que, na histria que se faz damodernidade, se conce-de a esse princpio quando se considera o seu atrelamento com a liber-dade de associao, a de crena e a de conscincia. H quem trace umvnculo gentico, traduzindo com isso a precedncia (em termos tem-porais) e antecedncia (em termos de fundamento) da liberdade decrer sobre a liberdade de no crer (Baubrot, 1993:85). Ao mesmo tem-po, evidencia-se o fato geral de que a liberdade de crena foi conquista-da com o enfraquecimento de uma religio dominante. Existiria, por-tanto, uma contrapartida, que consiste na autonomia do poltico. A re-ligio dominante seria desalojada do poder e atribuda a um campocompartilhado comoutras religies. Aessa equalizao dos agentes re-ligiosos, privados de influncia estatal, corresponde o princpio da li-berdade religiosa. Insere-se, assim, em um arranjo que possui uma tra-duo jurdica e que tem como correlato a separao entre Estado e reli-gies.

    O segundo ponto refere-se ao significado mais geral e por isso mesmomais vago da noo de modernidade. Nesse sentido, o moderno equi-vale ao contemporneo. Sob a banalidade da expresso h, contudo, ainstaurao de uma assimetria, como sugere Latour (1994:15): o pres-suposto de umapassagemque foi capaz de superar o passado, colocan-do o presente em umnovo regime de tempo. A idia de vanguarda estcomprometida com essa concepo sobre o tempo, dependente que da noo de uma ruptura. Mas h ainda implicaes em outro plano,pois a pretenso de toda vanguarda produzir uma novidade no ape-nas no contedomas tambm na forma. Nesse plano, ficam aindamaisclaras as contraposies com o religioso, dada a associao que o vin-cula s formas do tradicional. possvel contar a histria da moderni-dade como uma sucesso de iconoclasmos (Gamboni, 1997) ou de sa-crilgios (Taussig, 1997). Mas para no ficarmos apenas com formula-o to genrica e para aproximarmo-nos de um contexto localizado,cito a polmica em torno da capela da Pampulha, em Belo Horizonte,parte do complexo construdo nos anos 1940 sob inspirao modernis-

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  • ta. Terminada a obra, as autoridades catlicas recusaram-se a consa-grar a capela. Para Fabris (2000b), a principal razo para tal recusa esta-ria na averso arte moderna, que se explicitou na sugesto de que ou-tro prdio, de arquitetura mais tradicional, fosse erigido para abrigarum templo.

    O terceiro ponto envolve uma concepo societria que freqente-mente associada modernidade. Novamente, a religio oferece umtermo de contraste; diz-se que, antes da modernidade, que o reli-gioso se impunha como referncia geral e pervasiva,marcando presen-a nas diversas dimenses da vida humana, inclusive naquelas que ex-trapolavam fragorosamente a espiritualidade. Com amodernidade,consolida-se uma viso segmentada da sociedade (Dumont, 1985),passando a vida humana a ser concebida e experimentada em esferasdiferenciadas1. O religioso, antes uma espcie de valor capaz de orga-nizar todas as dimenses, torna-se agora, ele mesmo, uma dessas esfe-ras. Pode variar o sentido dessa compartimentao, ainda que no sejadifcil reconhecer a expectativa de uma privatizao. Ela seria mesmocorrelata da autonomia do poltico e sua condio de garantia. De todomodo, mesmo variando o sentido da compartimentao, acredita-seque possamos imaginar o que seria propriamente religioso. Em ou-tras palavras:mesmoque comamodernidade no se tenha conseguidoextirpar a crena religiosa se que se pretendeu faz-lo , nela quese desenvolve a crena de que a religio algo especfico e que essa es-pecificidade corresponde a um lugar delimitvel na sociedade.

    Como j foi anunciado, cada uma das trs sees do texto se constri apartir de um desses pontos, mas sempre na direo que procura evi-denciar como algo demoderno est presente nas iniciativas e nos argu-mentos catlicos. Assim, na primeira seo,mostro como a Igreja Cat-lica se coloca a favor da liberdade religiosa nas discusses que sucede-ram a proclamao da separao entre Estado e religio no Brasil re-cm-republicano. A liberdade serviu para afirmar os direitos cons-truo de ummonumento como oCristo Redentor, smbolo das preten-ses eclesisticas de se erigir como representante da nao, e tambmpara instaurar certo regime jurdico para as instituies religiosas noBrasil, regime inclinado a uma abertura ao pluralismo. Na segunda se-o, acompanhando alguns aspectos de sua concepo e construo,argumento que o Cristo Redentor assinala umamodernidade tanto nocampo das devoes religiosas quanto no campo artstico e tecnolgi-co. Ou seja, em vez de se colocar apenas como afirmao do passado,

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  • procura situar-se no contemporneo. A terceira seo, que foca o pe-rodo recente, trata das iniciativas catlicas que buscam recuperar osentido religioso domonumento, partindo do reconhecimento de queesse sentido se dissolveu desde a sua fundao. Essas iniciativas arti-culam o argumento moderno do propriamente religioso com umatentativa de garantir a um smbolo catlico lugar privilegiado no espa-o pblico. Nas concluses, procuro pensar exatamente sobre umama-neira interessante de entender uma articulao desse tipo.

    A IGREJA A FAVOR DA LIBERDADE

    LuciaGrinberg (1999:63), que publicou, pelo que consegui apurar, umadas nicas anlises historiogrficas especificamente sobre o monu-mento ao Cristo Redentor, aponta que a imagem serviu ao seguinte ar-gumento: liberdade republicana a Igreja contrape a redeno cat-lica, disputando o significado de liberdade. Logo antes, cita trechosdos versos de um padre, referindo-se esttua como um smbolo ver-dadeiro a desmentir um outro smbolo negativo: o Cristo dos Andes sempre o Cristo da Liberdade, em desmentido solene quela esttua,que tambm olha para o oceano s portas catedralescas da metrpolenewyorkina (apud ibidem:62-63)2. V-se que o poema sugere um para-lelo entre a Esttua da Liberdade e outro exemplar do Redentor, erigi-do na fronteira entre Argentina e Chile e inaugurado em 1904, fazendode Cristo o arauto e o suporte da verdadeira liberdade. Outra ocorrn-cia da associao entre o monumento no Corcovado e a liberdade apa-rece no artigo de D. Joo Becker, tambm eclesistico, quando prevque o Brasil, ao abrigar oCristo Redentor, ser o guia das naes [...], omentor das democracias pela legtima interpretao do lema republi-cano de liberdade, igualdade e fraternidade (Soares, 1934:96)3. Nessaoutra ocorrncia, embora o tom da disputa persista, o que o discursocatlico reivindica em relao aos lemas republicanos menos umacontraposio do que uma apropriao que desvendaria um significa-do mais legtimo.

    verdade que a liberdade no foi a imagem preponderante para des-crever o sentido do monumento ao Cristo Redentor. Ao contrrio, oque predomina um vnculo essencial entre catolicismo e nacionalida-de, de modo tal que a presena de Cristo (na verso catlica) na vidados brasileiros no era questo de escolha. Cristo Redentor, portanto,deveria ser visto como rei, tendo os brasileiros como seus sditos, mes-mo que o regime terreno fosse republicano e que as leis tivessem proje-

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  • tado a disjuno entre Estado e religio. Enfim, no seria difcil encon-trar afinidades entre os discursos que sustentaram a ereo do monu-mento e o que apontado na literatura sobre a histria das idias noBrasil como conservadorismo e autoritarismo4. Mas essa segundaconstatao, em vez de invalidar a anterior, apenas refora a questo:como foi possvel que, entre os idelogos de uma Igreja conservadora eautoritria, pudssemos encontrar a presena e a reivindicao da li-berdade?

    Para tratar dessa questo, ser necessrio recuar no tempo para acom-panhar os debates que se configurara