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LA MI

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    PREFACIO A EDICAO PORTUGUESA O mito urna presenga constante na vida: deixou de pertencer a esfera exclusiva dos deu-

    ses e dos heris e passou a impregnar o nosso quotidiano. Se a deusa Afrodite e o heri Hera-cles, tal como os seus equivalentes as culturas ditas primitivas, vem as suas historias rotu-ladas como mitos ou se as aventuras e actos de coragem merecer, por vezes, o mesmo epteto, a verdade que vulgar os meios de comuni-cago de massas utilizarem o vocbulo refe-rindo um jogador de futbol, urna actriz de cinema ou um poltico. Marilyn Monroe, Elvis Presley, Miojc Jaegger, Ensebio ou, at, Marx sao os heris desta mitologa. Mas o aconte-cimento, simples recordagao de urna narrativa heroica, tambm pode ser assim qualificado. o mito , entao, equivalente a faganha, acto corajoso ou atitude invulgar. Inicialmente historia de um ser divino, o mito banalizou-se e desceu ra, ao nivel de todos nos. Mas, nao o esquegamos, o mito, na origem, fala grego.

    Do grego ao mito dos nossos dias o percurso longo e demorado, mas rio contra-ditrio, e passa por um vasto conjunto de pro-dugdes do imaginario humano. Surge na Grecia, reaparece em Roma, mas tambm entre os Celtas ou entre os Bosqumanos, na Asia como na Amrica, na frica ou na Ocenia. As historios da mitologa, com roupagens diversas, brotam em todas as culturas. O mito universal.

    A mitologa pode ser encarada segundo duas perspectivas: 1) a apresentago de um corpus mtico, ou 2) o estudo dos mitos. Como ciencia dos mitos, a mitologa surge ja na Grecia antiga como urna necessidade de meditaco e de interrogando sobre as historias dos deu-ses e dos heris e particularmente desenvolvida com a exegese das epopeias, cuja autora atribuida a um poeta de nome Homero, a Ilada e a Odisseia. Mito como poetizago da historia e identificago dos deuses com monarcas cujos feitos levaram os seus contemporneos a conferirem-lhes urna dimensao sobre--humana (como pensavam Evmero e os seus seguidores) ou mito como urna forma diferente, velada, de dizer as verdades fundamentis e de apresentar o real (como defender as teoras alegricas e simblicas)? As posigdes tericas esto, assim, definidas desde a Anti-guidade e vdo chegar at aos nossos dios, acentuadas pela meditago de autores cristos me-dievais e de autores renascentistas. O interesse pelas civilizages distantes da Europa origina que o objecto da mitologa, primitivamente limitado a rea mediterrritcu, se alargue. No sculo xrx, Max Mller e os seus companheiros da escola da mitologa comparada estudam o fenmeno mtico segundo urna perspectiva comparativista, levando a metodologa a um extremo de explorago. J no sculo xx, Gilbert Murray, Jane Harrison e F. M. Cornford, entre outros, opem-se ao pan-comparativismo e real-gam a importancia do ritual na formago ecompreenso dos mitos (escola antropolgica inglesa).

    Nesta segunda metade do sculo xx, podemos dizer que se impem tres linhas funda-mentis de investigago mitolgica1: funcionalismo, simbolismo e estruturalismo. Para os funcionalistas, com B. Malinowski em primeiro plano, o conhecimento do mito parte do estudo in loco das culturas indgenas do ocano Pacfico, onde o mito um elemento vivo e actual, isto , que funciona dentro do sistema social em que se integra. A designago muito genrica de simbolismo inclu os trabalhos de todos aqueles que consideram que o mito tem um sentido que est para alm do imediatamente expresso e o objectivo da investigago , precisamente, atingir esse significado profundo, oculto. E. Cassirer, S. Freud, C. G. Jung, K. Kernyi, M. Eliade, P. Ricouer, G. Gusdorf ou G. Durand sao alguns dos autores que tm de comum o admitirem o smbolo, tautegrico, que se afirma a si prprio e que, ao contrario do signo, implica a intervengo de reacges fundamentis, como a actividade e o querer. Quando se pensa em estruturalismo, o nome de Claude Lvi-Strauss o que normalmente ocorre. De facto, ele tem dedicado a sua investigago ao estudo do mito, propondo um mtodo original de anlise. Embora numa linha diferente, Georges Dumzil, que nao pode rejei-tar o rtulo de estruturalista, langa a ciencia dos mitos para espagos novos e mais profundos: o esquema indo-europeu da tripartigo funcional a grande descberta da nova mito-logia comparada2 e os resultados obtidos por G. Dumzil e pelos seus numerosos discpulos demonstram a validade da anlise. Podemos ainda acrescentar a este conjunto crtico, e a par de posigoes nao enquadradas, a intervengdo de urna

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    linha que designaremos por semitica. Em 1973, realizou-se, na Universidade de Urbino, um congresso sobre o mito grego3, onde se evidenciaram as tendencias contemporneas da investigago mitolgica e onde se afirmaram as potencialidades da anlise semitica. Na dcada de 80, parece de realgar o de-senvolvimento do simbolismo, com o acentuar da componente explorativa do Imaginario*.

    Enquanto conjunto de mitos, a mitologa um corpus variado, heterogneo e complexo. A mitologa grega conjunto de narrativas dos feitos dos deuses e dos heris da Grecia antga um exemplo suficiente para demonstrar a afirmago. Das aventuras amorosas de Zeus e dos cimes de Hera aos feitos de Hermes, Hefesto, Demter, Apolo, Afrodite ou Ares, das faganhas dos heris da Guerra de Tria Aqui-les, Ulisses, Hetor, Pramo, Helena, Pars, Ajax,

    4 A grande obra de referencia desta tendencia continua a ser Les Structures anthropologiques de l'Ima-ginaire, Pars, Bordas, 1958, de Giltaert Durand. Nstor, Agammnon, Menelau, etc. aos feitos de Teseu ou de Heracles e passando, naturalmente, por Deucalio e Pirra ou dipo, Antgona e Electra, o campo vasto e foi, em todas as pocas, fonte de inspirago para escritores e artistas plsticos e, ao mesmo tempo, referente para o quotidiano. semelhanga da mitologa grega, a romana tambm foi divulgada, embora, em muitos momentos, tenha imperado a ideia de que esta nao passa de urna nacionalizago daquela. A mitologa romana , por isso, mu-, tas vezes apresentada como urna simples subs-tituigo nominal da grega: os deuses e heris romanos seriam os gregos com nomes diferentes. G. Dumzil demonstrou que os Romanos tambm tinham urna mitologa original, que se \deveria procurar, principalmente na historia. Sem negar a influencia grega, nao nos esque-gamos que muitas das semelhangas entre os deuses gregos e romanos, por exemplo, resul-tam da origem indo-europeia comum\ O livro I de Tito Lvio o exemplo probante da existencia de urna mitologa romana, que eminentemente histrica e heroica.

    Ponto de partida do interesse pela mitologa, a mitologa grega tem servido de exemplo e de referente para o estudo de outras mitologas, desde a do Egipto e da Mesopotmia dos Germanos, dos Maoris, dos Asteos. A ela re-correu Freud para baptizar o complexo bsico do psiquismo humano (o complexo de dipo) ou a NASA para designar um dos seus projectos fundamentis de explorago espacial (Apolo).

    5 Parentesco que, por exemplo, aproxima, do ponto de vista lingstico, os nomes de Zeus e de Jpiter, nos quais existe um elemento inicial comum.

    l Mesmo a nossa vida quotidiana est repleta de elementos que remetem para a mitologa

    antiga ou que a ela recorrem, para nao referir j a procura, por parte dos artistas, de urna viso potica e maravilhosa da vida e dos seres. O conhecimento da mitologa grega , assim, essencial como ponto de partida para urna abordagem geral da problemtica de todo o universo mtico.

    Esta obra, cuja tradugo se prope ao lei-tor de lngua portuguesa e que vem enriquecer substancialmente a pobre bibliografa nacional sobre temtica mitolgica, urna introdugo mitologa grega. Quem se interessa pelas historias dos deuses e dos heris encontrar aqu nao s urna apresentago linear dessas historias, como, tambm, o equaciona-mento geral da ciencia dos mitos, da prpria mitologa grega e, nalguns casos, at da sua interpretago. Obra simples, escrita em lingua-gem despretensiosa, A Mitologa Grega, da autora de Pierre Grimal, professor titular da Uni-versidade de Pars IV e um dos mais distintos classicistas franceses, urna leitura necessria e um marco obrigatrio para todos aqueles que procuram, no mito, urna resposta para as suas interrogages.

    Procuramos, nesta tradugo, permanecer o mais possvel fiis ao espirito do Autor, ten-tando transmitir a sua linguagem, fluente e nao demasiado erudita. Como obra de divulgaco que , A Mitologa Grega nao tem lugar para notas ao texto, necessrias numa leitura mais exigente; tambm a tradugo as dispensou, era-bora nao hesitemos em remeter o Leitor inte

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    ressado para outra obra do mesmo Autor, mais profunda e mais completa: Dictionaire de la Mythologie Grecque et Romaine6. Na ortografa dos nomes prprios, sempre sujeita a polmica, seguiu-se a ligo do Prof. Rebelo Gongal-ves, expressa no seu Vocabulario da Lngua Portuguesa7. O vocbulo demonio utilizado no texto num dos sentidos do grego (fr. dmonj, isto , referindo um genio ou espirito sobrenatural, urna divindade menos importante que os deuses principis.

    Vctor Jabouille INTRODUCAO O MITO NO PENSAMENTO DOS GREGOS ANTIGOS D-se o nome de mitologia grega ao conjunto das narrativas maravilhosas e das lendas

    de todo o gnero que os textos e os monumentos figurados demonstram que se propagaram nos pases de lngua grega, entre o sculo ix ou viii antes da nossa era, poca a que se re-portam os poemas homricos, e o fim do paganismo, tres ou quatro sculos depois de Jess Cristo. Trata-se de urna materia imensa, difcilmente definvel, com origens e caractersticas bastante diversas, que se pensa ter desem-penhado e desempenhar ainda, na historia espiritual do mundo, um papel considervel.

    Todos os povos, num momento da sua evo-luco, tiveram lendas, isto , narrativas ma-ravilhosas as quais acrescentaram, durante al-gum tempo, a f pelo menos em certo grau. A maior parte das vezes, as lendas, porque fa-zem mtervir forgas ou seres considerad