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  • objetivo principal deste captulo discutir aspectos centrais relacio nados a medidas de criatividade. Inicialmente apresentado um breve histrico dos estudos sobre esse constructo, apontando fatores que despertaram o interesse pela sua investigao, alm de sinalizar contribuies tericas recentes e as vantagens do desenvolvimento e uso de procedimentos para mensurar diversas facetas da criatividade. O texto elenca os principais instrumentos de medida j desenvolvidos. Descreve tambm questes tcnicas a serem consideradas por aqueles interessados em fazer um melhor uso dos instrumentos de criatividade disponveis, sinalizando os seus limites, possibilidades e precaues a serem tomadas tanto na aplicao como na interpretao dos seus resultados. Esperase que seja fonte de inspirao para os estudiosos da rea, descortinando novas possibilidades de pesquisa e de promoo de condies favorveis ao desenvolvimento e expresso do potencial criador.

    Como amplamente divulgado em textos anteriores (Alencar, 2007; Alencar e Fleith, 2003b; Cropley, 2006; Jackson, Oliver, Shaw e Wisdom, 2006; Nakano e Wechsler, 2007; SmithBingham, 2006), a importncia da criatividade nos mais diversos contextos tem sido crescentemente reconhecida, dados os seus benefcios no apenas para o indivduo, mas tambm para a sociedade. Como lembra SmithBingham (2006, p. 11),

    Eunice M. L. Soriano de Alencar Denise de Souza Fleith

    Maria de Ftima Bruno-Faria

    1A medida da criatividade

    possibilidades e desafios*

    * Para detalhes ver: PASQUALI, L. et al. Instrumentao psicolgica: fundamentos e prticas. Porto Alegre: Artmed, 2010, p. 324341.

  • 12 Alencar, Bruno-Faria, Fleith e cols.

    a prosperidade futura dos pases desenvolvidos e em desenvolvimento depende de sua capacidade de inovar, ou seja, de transformar ideias em novos produtos e servios, desenvolver novas tecnologias e formas de produo, introduzir produtos e servios em novos mercados.

    justificando o autor com diversos argumentos de ordem econmica, social e cultural a necessidade de criatividade.

    BREVE HISTRICO DOS ESTUDOS SOBRE CRIATIVIDADE

    O interesse da Psicologia pelo estudo da criatividade e de condies que favorecem a sua expresso relativamente recente. Ele ocorreu de forma mais significativa a partir da dcada de 1950 do ltimo sculo, fruto de vrios fatores como a influncia do movimento humanista. Rogers (1959) e Maslow (1959), por exemplo, apontaram o potencial humano para a autorrealizao, descrevendo condies que facilitam a expresso da criatividade, alm de terem dado destaque sade mental como fonte dos impulsos criativos. Ademais, conceberam a criatividade como resultado de uma interao mutuamente benfica entre a pessoa e o ambiente. Rogers considerou, ainda, a autonomia e a resistncia ao controle social excessivo como condies necessrias atividade criativa. Sinalizou tambm o papel da sociedade, possibilitando pessoa liberdade de escolha e ao, alm de reconhecer e estimular o potencial para criar do indivduo.

    Outro fator que tambm contribuiu para despertar o interesse dos psiclogos por essa rea foi o discurso de Guilford, ao assumir a presidncia da Associao Americana de Psicologia, em 1950. Nessa ocasio, Guilford (1950) chamou a ateno para o descaso pela pesquisa sobre criatividade por parte dos psiclogos norteamericanos, lembrando que, dos 121 mil ttulos indexados no Psychological Abstracts at aquela data, apenas 186 tinham alguma relao com criatividade. No seu discurso, Guilford ressaltou a im por tncia social da criatividade, especialmente na busca de novas solues para os problemas enfrentados pela humanidade, alm de ter apontado a ne cessidade de um estudo sistemtico de suas mltiplas facetas.

    A partir daquele momento, diferentes aspectos associados criati vidade passaram a ser objeto de inmeras investigaes, as quais tm sido tradicionalmente classificadas nas seguintes categorias: pessoa, processo, produto e contexto (Runco, 2004). A primeira categoria inclui estudos referentes s caractersticas pessoais como, por exemplo, habilidades cog ni tivas, traos de personalidade, motivao, estilos de aprendizagem e esti los de criatividade.

  • Medidas de criatividade 13

    A segunda, referente ao processo, engloba es tu dos a respeito de operaes e estratgias que a pessoa utiliza para ge rar e analisar ideias, resolver problemas, tomar decises e gerenciar seu pensamento durante o processo criativo. Estudos tm sido realizados com referncia s propriedades de um produto, caracterizado como criativo, especialmente em relao a seu grau de originalidade e relevncia. O contexto, quarta categoria de pesquisas em criatividade, inclui elementos da cultura, como valores e normas dominantes em uma dada sociedade, alm de outros especficos do ambiente mais prximo ao indivduo, co mo clima psicolgico do local de trabalho, ambiente fsico e recursos dis ponveis, tanto humanos, financeiros e mesmo de tempo, necessrios para o desenvolvimento e implementao de novas ideias.

    Em relao ao contexto, cabe ressaltar que os estudos sobre a criatividade relacionados ao ambiente de trabalho ganharam maior relevncia com consequente aumento da produo cientfica a partir dos ltimos dez anos. Surgem diferentes abordagens tericas e metodolgicas, na busca de maior compreenso sobre a criatividade no trabalho, especialmente como forma de propiciar a inovao organizacional (Zhou e Shalley, 2008).

    Notase que, em abordagens tericas recentes, como na Teoria do Investimento em Criatividade (Sternberg, 2003; Sternberg e Lubart, 1995, 1996), no Modelo Componencial de Criatividade (Amabile, 1983, 1996) e na Perspectiva de Sistemas (Csikszentmihalyi, 1988, 1996, 1999), diferentes fatores que contribuem para a expresso criativa so apontados, incluindo tanto variveis pessoais, que facilitam ou restringem a expresso da criatividade, quanto elementos do contexto social, histrico e cultural que interferem na produo criativa, os quais interagem entre si de forma complexa (Alencar e Fleith, 2003a, b). Ademais, esses tericos ressaltam que indivduos que se destacam por sua produo criativa raramente trabalham em um vcuo, isolados dos sistemas sociais que constituem o seu domnio de atividade. Nesse sentido, Csikszentmihalyi e Sawyer (1995) consideram que inmeros elementos do contexto social esto presentes nos diferentes estgios do processo criativo, sendo a criatividade um fenmeno psicossocial, cuja expresso fruto tanto de caractersticas do indivduo quanto de seu ambiente social ou ecossistema. Montuori e Purser (1995) sintetizam essa ideia quando afirmam que a criatividade tanto um fenmeno social quanto individual que requer uma abordagem interdisciplinar, histrica, ecolgica e sistmica.

    Paralelamente aos estudos realizados sobre diferentes elementos que se associam criatividade, uma enorme variedade de definies surgiu na literatura. Nove anos aps o discurso de Guilford chamando a ateno

  • 14 Alencar, Bruno-Faria, Fleith e cols.

    dos psiclogos para a necessidade de pesquisa na rea, Taylor (1959) relacionou, mais de 100 definies diferentes de criatividade, definies estas muitas vezes conflitantes e que enfatizavam aspectos diversos do fenmeno. Isso certamente se deve ao fato de que a criatividade, assim como a inteligncia, constituise em um consctruto complexo, dinmico e multidimensional. Tais caractersticas justificam a dificuldade do alcance de uma definio precisa e a razo para as inmeras concepes j propostas para o termo, as quais tm priorizado aspectos diversos, como caractersticas da pessoa, processos de criao, elementos presentes no produto criativo ou ainda fatores do ambiente onde o indivduo se encontra inserido, sinalizando o papel desse ambiente para a expresso criativa.

    VANTAGENS DO DESENVOLVIMENTO E USO DE MEDIDAS DE CRIATIVIDADE

    Uma das ideias errneas sobre criatividade que dominou o pensamento dos psiclogos at meados do sculo passado era a sua concepo como um fenmeno mgico e misterioso, difcil de ser definido e mais ainda de ser mensurado. Consideravase tambm que o conceito de inteligncia era suficiente para explicar todos os aspectos do funcionamento mental e que os testes de inteligncia poderiam medir qualquer processo que ocorresse na mente (Getzels e Csikszentmihalyi, 1975). Acreditavase ainda que a inteligncia se aplicava a qualquer pessoa, ao passo que a criatividade seria uma prerrogativa de apenas alguns poucos privilegiados. A mensurao da inteligncia era algo aceito e valorizado; o QI, como medida da inteligncia, era largamente difundido, partindo da premissa de que a inteligncia era uma dimenso fcil de ser avaliada. Por outro lado, ideias opostas predominavam com respeito criatividade. Somente em dcadas recentes, a importncia de instrumentos para medir a criatividade passou a ser percebida. Concluiuse que, para expandir a compreenso do fenmeno, em sua complexidade e plu ralidade de dimenses, instrumentos de medida seriam fundamentais. As vantagens do seu desenvolvimento e uso passaram a ser sinalizadas, como as apresentadas a seguir, conforme lembra Treffinger (2003, p. 60):

    Ajudar a reconhecer os pontos fortes e talentos dos indivduos, contribuindo para que as pessoas conheam e compreendam a si mesmas.Expandir a compreenso da natureza das habilidades humanas e da superdotao.

  • Medidas de criatividade 15

    Oferecer dados para avaliao de indivduos ou grupos, orientando professores no planejamento e na implementao de instruo apropriada.Possibilitar o levantamento de dados de prteste e psteste para comparar grupos com pesquisa ou avaliao.Auxiliar professores, psiclogos ou indivduos a descobrir talentos no reconhecidos ou ignorados. Propiciar uma linguagem comum para comunicao entre profissionais a respeito da natureza das habilidades criativas. Ajudar a remover a criatividade do domnio do misterioso e inacessvel.Oferecer constructos operacionais que contribuam para