a loba vermelha - trecho

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Um jornalista é atropelado no cenário congelante de uma cidadezinha ao norte da Suécia. Enquanto isso, Annika Bengtzon, repórter de um tabloide de Estocolmo, planeja escrever uma série de artigos sobre um ataque terrorista ocorrido há mais de trinta anos contra uma base aérea próxima daquele lugar remoto. Ela pretendia entrevistar o repórter, e agora desconfia de que sua morte tenha alguma relação com o atentado. Indo contra ordens explícitas de seu chefe, Annika começa a investigar o caso, que logo é sucedido por uma série de assassinatos chocantes.

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  • LIZA MARKLUND

    A LOBA VERMELHATraduo

    Roberto Muggiati

    Rio de Janeiro | 2014

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  • PR LO G O

    Nunca pudera suportar a viso do sangue. Havia algo em sua

    consistncia, espessa e pulsante. Sabia que era irracional, espe-

    cialmente para algum como ele. Recentemente essa repulsa se

    insinuara em seus sonhos, exprimindo-se de um jeito que no

    conseguia controlar.

    Olhou para as mos e viu que estavam cobertas de sangue

    humano vermelho-escuro. Pingava sobre sua cala, ainda quente

    e pegajoso. O cheiro lhe atingiu o nariz. Em pnico, deu um

    passo repentino para trs e balanou as mos.

    Ei, chegamos.

    A voz atravessou a fina membrana do sono, fazendo o sangue

    desaparecer subitamente. A sensao intensa de nusea perma-

    necia, e o frio cortante se infiltrava pela porta do nibus. O mo-

    torista se curvou, numa tentativa intil de escapar da friagem.

    A no ser que queira saltar na garagem.

    Todos os outros passageiros j haviam descido do nibus que

    partira do aeroporto. Levantou-se com esforo, tomado de dor.

    Recolheu sua sacola do assento, balbuciando merci beaucoup.

    O solavanco no instante em que seus ps tocaram o cho fez

    com que soltasse um gemido. Por um momento, apoiou-se na

    lateral congelada do nibus, massageando a testa.

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  • 6 LIZA MARKLUND

    Uma mulher com chapu de croch, a caminho da parada

    de nibus um pouco mais frente, parou diante de sua sacola.

    Havia preocupao genuna em seus olhos. Curvou as costas ao se

    inclinar na direo dele.

    Voc est bem? Precisa de ajuda?

    Ele reagiu com firmeza e imediatamente, balanando a mo

    diante do rosto dela.

    Laissez-moi! disse, em voz alta, ofegante aps o es-

    foro.

    A mulher no se moveu, apenas piscou os olhos algumas

    vezes, de boca aberta.

    tes-vous sourde? Jai dj dit laissez-moi.

    O rosto da mulher se endureceu diante da grosseria, e ela se

    afastou com um olhar ofendido. Ele a observou partir, nervosa e

    atarracada, arrastando-se rumo ao nmero 3 com suas sacolas de

    supermercado cheias.

    Gostaria de saber se assim que soo quando falo sueco,

    pensou ele.

    Percebeu que seus pensamentos estavam na verdade sendo

    formulados em sua lngua nativa.

    Indpendance, pensou, forando o crebro a voltar ao francs.

    Je suis mon propre matre.

    A mulher olhou para ele antes de subir no nibus.

    Ele permaneceu ali em meio fumaa dos nibus enquanto

    a rua se esvaziava de pessoas. Ouvindo o silncio do frio, absor-

    vendo a luz sem sombra.

    Em nenhum lugar do planeta o espao sideral estava mais

    prximo do que no Crculo Polar. Subestimara o isolamento en-

    quanto crescia, sem perceber a importncia de viver no teto do

    mundo. Mas agora podia enxerg-los, claros como se tivessem

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  • A LOBA VERMELHA 7

    sido gravados nas ruas, nos prdios, nas conferas congeladas:

    isolamento e exposio, uma distncia infinita. To familiares e

    ainda assim to estranhos.

    Este um lugar impiedoso, pensou, novamente em sueco.

    Uma cidade congelada que s sobrevive de subsdios estatais e

    de ao.

    E em seguida:

    Exatamente como eu.

    Com cuidado, colocou a ala da sacola sobre o ombro e co-

    meou a caminhar em direo ao City Hotel. A fachada, datada

    da virada do sculo passado, era bem como recordava, mas no

    tinha como saber se o interior havia mudado. Durante o tempo

    que passou em Lule, nunca tivera motivo para adentrar aquela

    cidadela da burguesia.

    A recepcionista saudou o velho francs com um ar de edu-

    cao indiferente. Deu-lhe um quarto no segundo andar, disse

    quando o caf da manh seria servido, entregou o carto de pls-

    tico com a faixa magntica que abriria a porta e prontamente

    esqueceu tudo sobre ele.

    Voc fica menos visvel em meio a um mar de gente, pensou

    ele, agradecendo num ingls roufenho e dirigindo-se aos eleva-

    dores.

    O quarto era atraente de um modo incerto e desavergo-

    nhado. A ambio e o custo sugeriam luxo e tradio, indicados

    pelos azulejos e rplicas de mveis elegantes. Por trs da fachada,

    conseguia enxergar janelas sujas e paredes sebentas de fibra de

    vidro.

    Sentou-se na cama por um momento, observando o creps-

    culo. Ou ser que ainda era madrugada?

    A vista para o mar da qual a pgina na Internet se vanglo-

    riava consistia de uma gua cinzenta, alguns edifcios de madeira

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  • 8 LIZA MARKLUND

    prximos ao porto, um letreiro em non e um enorme telhado

    negro.

    Estava prestes a cair no sono novamente e deu uma sacu-

    didela para clarear a mente, sentindo mais uma vez o odor que

    emanava de seu corpo. Levantou-se, abriu a sacola e dirigiu-se

    ento mesa, onde perfilou seus remdios, a comear pelos anal-

    gsicos. Depois, ele se deitou na cama enquanto o enjoo ia gra-

    dualmente passando.

    Ento, finalmente ele estava aqui.

    La mort est ici.

    A morte est aqui.

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  • T ER A - F EIR A , 10 D E N OV EMB RO

    Annika Bengtzon parou na entrada da redao, piscando os olhos

    sob a iluminao forte das lmpadas de non. O barulho vinha ao

    seu encontro, impressoras tagarelando, scanners que zumbiam,

    a batida leve de unhas aparadas sobre teclados. Pessoas alimen-

    tando mquinas com textos, imagens, letras, comandos, sinais,

    preenchendo estmagos digitais sem qualquer esperana de um

    dia terminarem o trabalho.

    Respirou fundo algumas vezes e navegou pela sala. A nica

    atividade na mesa de edio era do tipo absolutamente silenciosa e

    concentrada. Spike, o chefe, lia algumas pginas com os ps sobre

    a mesa. O diretor temporrio da redao espiava de relance a tela

    cintilante do computador, com olhos cada vez mais vermelhos,

    Reuters e a francesa AFP, Associated Press e TTA e TTB, nacionais

    e internacionais, esportes e economia, notcias e telegramas de

    todas as partes do mundo, num fluxo sem fim. A gritaria exultante

    ainda no havia comeado, nada de rumores de entusiasmo ou

    decepo por matrias que renderam ou que foram um estrago,

    discusses acaloradas defendendo uma abordagem particular em

    detrimento de outra.

    Ela passou por eles sem desviar o olhar e sem ser vista.

    De repente, um rudo, uma interrupo, uma voz que-

    brando o silncio eletrnico.

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  • 10 LIZA MARKLUND

    Ento voc est partindo mais uma vez?

    Ela se deteve, dando um passo involuntrio para o lado.

    Deixou o olhar flutuar na direo da voz de Spike, e uma lmpada

    fluorescente a cegou.

    Li que pegaria um voo para Lule esta tarde.

    Ela sentiu a quina da mesa da equipe da manh atingir sua

    coxa ao tentar chegar sua prpria mesa o mais rpido possvel.

    Parou, fechou os olhos por um momento e sentiu a bolsa escor-

    regar pelo brao ao se virar.

    Talvez. Por qu?

    Mas o editor j desviara sua ateno, deixando-a a ver

    navios, em meio ao olhar das pessoas e aos suspiros digitais.

    Annika passou a lngua pelos lbios e ergueu novamente a

    bolsa sobre o ombro, sentindo o ceticismo dos outros grudar no

    nilon de sua jaqueta acolchoada.

    Zarpe, v para longe, para casa. O aqurio com que se pa-

    recia seu escritrio estava cada vez mais prximo. Aliviada, abriu

    a porta de correr e entrou apressada. Ao fech-la, repousou a

    parte de trs da cabea contra o vidro frio.

    Ao menos permitiram que mantivesse sua sala.

    Estabilidade era algo que se tornava cada vez mais essencial,

    tanto para ela quanto para a sociedade como um todo. Na me-

    dida em que o caos se instalava e a natureza da guerra mudava,

    era mais importante do que nunca olhar para trs e aprender

    com a histria.

    Largou a bolsa e o casaco no sof de visitantes e ligou o com-

    putador. Reportar as notcias era algo cada vez mais distante, em-

    bora estivesse sentada bem no meio do corao pulsante e eletr-

    nico de uma redao. As manchetes da primeira pgina de hoje

    eram esquecidas no dia seguinte. No tinha mais energia para

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  • A LOBA VERMELHA 11

    acompanhar o ritmo do sistema ENPS, da A-Press, a besta das

    notcias na era digital.

    Passou os dedos pelos cabelos.

    Talvez estivesse apenas cansada.

    Sentou-se pacientemente apoiando o queixo nas mos en-

    quanto os programas carregavam, depois examinou seu material.

    Ela achou que j estava bastante interessante, mas os engravatados

    no comando no se mostraram to entusiasmados.

    Lembrou-se de Spike ali fora, sua voz sobressaindo entre as

    demais.

    Reuniu suas anotaes e preparou a apresentao.

    A escadaria estava escura. O garoto fechou a porta do aparta-

    mento e ficou ouvindo atentamente. A janela solta l em cima,

    na casa do velho Andersson, sibilava como sempre; o rdio estava

    ligado, mas fora isso s havia silncio, um silncio absoluto.

    Voc um intil, pensou. No h coisa alguma aqui. Seu

    covarde.

    Permaneceu ali por alguns instantes, depois partiu, decidido,

    rumo porta da frente.

    Um guerreiro de verdade nunca agiria daquela forma. Ele

    sabia que era quase um