A INTERLOCUÇÃO ENTRE O DESENHO PEDAGÓGICO E AS TIC NA ... ?· necessita pôr-se a trabalhar sobre…

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A INTERLOCUO ENTRE O DESENHO PEDAGGICO E AS TIC

NA MODALIDADE EDUCACIONAL A DISTNCIA1

Ademilde Silveira Sartori2

Resumo: o presente artigo tem por base uma pesquisa qualitativa3 que buscou investigar as relaes entre a comunicao e a Educao na modalidade educativa a distncia, tendo em vista compreender as relaes entre o desenho pedaggico e as TIC. So abordadas algumas questes de ordem terica sobre as relaes entre a mdia a escola as TIC, caracteriza-se a Educaao a Distncia como prtica mediatizada em expanso, relata-se o desenvolvimeno da pesquisa e, por fim, apresenta-se a sntese analtica dos resultados obtidos.

Palavras-chave : Dialogicidade ; Interatividade ; Educao a Distncia ; Desenho

pedaggico.

Introduo

O presente artigo tem por base uma pesquisa qualitativa que buscou investigar as

relaes entre a Comunicao e a Educao na modalidade educativa a distncia, tendo em

vista compreender as relaes entre o desenho pedaggico e as TIC.

A pertinncia do problema reside na desmistificao da tecnologia como

responsvel pela interatividade de um projeto, uma vez que uma determinada tecnologia

permite - ou possibilita -, vrios modos de interao ou apresenta limites que podem ser

compensados pelo uso integrado de diversas mdias e oferta de um sistema de tutoria. Em

outras palavras, a interatividade no uma funo direta da tecnologia utilizada em um

curso a distncia, mas do modo de interao previsto no seu desenho pedaggico.

A pesquisa realizada teve como premissa bsica que a relao entre comunicao e

EaD revela-se na gesto do processo comunicacional, cujo carter orientador estabeleceu a

1 Encaminhado para o NP11. Comunicao Educativa. V Encontro de Ncleos de Pesquisa. XXVIII

Congresso Brasileiro de Cincias da Comunicao, Rio de Janeiro, 2005. 2 Licenciada em Fsica e mestre em Educao pela UFSC, doutora em Cincias da Comunicao pela

ECA/USP, professora de Metodologia do Ensino, Didtica das Cincias e Metodologia da Educao a Distncia, da Universidade do Estado de Santa Catarina UDESC. E-mail: ademilde@matrix.com.br

3 Pesquisa que resultou na tese de doutorado intitulada Gesto da Comunicao na Educao Superior a Distncia, orientada pelo Dr. Adilson Citelli, defendida na ECA/USP, maio de 2005.

base para a construo das relaes tericas, apresentadas nos captulos anteriores, bem

como para a elaborao do instrumento de coleta de dados empricos e conseqente anlise.

A partir do resultado da investigao emprica, pudemos identificar como

promissoras as expectativas de Educao Superior a Distncia ser orientada por prticas

baseadas na dialogicidade freireana, ao menos no que concerne a compreenso da

interatividade como participao e contribuio para com a aprendizagem do outro. A

interatividade compreendida como trocas entre os participantes, o que nos permitiu

afirmar que o modo de interao previsto no projeto define o grau de interatividade e no

somente as tecnologias utilizadas.

Mdia, escola e as TIC: dilogo e perspectivas comunicacionais

A escola tornou-se um espao privilegiado de convivncia e de interseces dos

discursos miditicos de toda ordem e, se quiser cumprir seu papel de socializao, de

formao de cidados crticos, no pode se recusar a perceber essas dinmicas, ao contrrio,

necessita pr-se a trabalhar sobre elas e a se engajar em aes pedaggicas que levem em

considerao o mundo dos jovens, crianas e adultos.

Para que a escola consiga posicionar-se diante dos fluxos comunicativos que

ocorrem entre ela, a mdia e outras instncias da vida em sociedade, fazem-se necessrios

tanto a permanente atualizao curricular diante das mudanas nos modos de produzir o

conhecimento, quanto um constante esforo para a formao dos professores no manuseio

das tecnologias, na compreenso de suas linguagens bem como processos possveis de

criao e circulao de significados nos quais a escola tem sua contribuio a dar. Neste

sentido, Adilson Citelli (2000, p. 18) chama a ateno para as possibilidades do dilogo

mdia-escola, que podem cumprir dois objetivos:

Um, vinculado ao princpio da abertura do discurso pedaggico para os discursos das comunicaes; outro, de insero crtica da voz da diferena representada pela imposio sistematizadora e de produo dos saberes que devem motivar e estimular o mundo da escola.

Na relao mdia-escola, cresce aimportncia dos processos que no oponham, de

modo maniquesta, saberes e manifestaes culturais adquiridos no convvio com mdias e

os objetivos educacionais que a instituio escolar pretende atingir.

[...] intentando fugir de dois perigos que comumente circundam tal tipo de anlise. De um lado, a adeso acrtica ao narcisismo tecnolgico que tanto seduz como reduz e, de outro, o repdio apocalptico, que responsabiliza os meios de massa pela alienao que abastarda o saber e desfigura os valores humanos. (CITELLI, 2000b, p.17-18).

Com isso, deseja-se evitar atitudes que, por um lado, segreguem a mdia nas

atividades escolares ou, por outro, perdem o sentido do educar ao abandonar-se ao sabor

das novidades, como se a tecnologia, por si s, resolvesse todas as questes relativas

educao.

As NTIC provocaram o que Jess Martn-Barbero chama de descentramento do

saber, deslocalizando-o do espao da escola e do tempo da aprendizagem escolar. Hoy,

una gran parte de los saberes, y quiz de los ms importantes y socialmente valiosos, no

pasan ya por la escuela ni le piden permiso a la escuela para circular por la sociedad

(MARTN-BARBERO, 2000, p. 105).

Outro deslocamento assinalado pelo autor diz respeito produo, que deixa de ser

feita por mquinas e no utiliza matria-prima, mas trabalha com algoritmos e produz

smbolos e textos. A hibridao crebro-computador estabelece o que o autor chama de

mediao estrutural na produo do conhecimento e no somente na produo. Martn-

Barbero reclama da ausncia da tal mediao no debate, o que limita o entendimento do

processo de comunicao transferncias informativas.

A tecnicidade meditica, uma dimenso estratgica da cultura que a escola precisa

entender para inserir-se nos processos de mudanas pelos quais nossa sociedade passa.

Pois os meios de comunicao no somente descentralizam as formas de transmisso e circulao do saber, mas constituem um mbito decisivo de socializao, de dispositivos de identificao/projeo e pautas de comportamentos, estilos de vida e padres de gosto. (MARTN-BARBERO, 2003, p. 67).

O autor afirma a necessidade de entender o carter produtor de sentido que reside na

cultura, no apenas de circulao [...] no qual o receptor, portanto, no um simples

decodificador daquilo que o emissor depositou na mensagem, mas tambm um produtor

(Ibidem, p. 299). A comunicao no est dada pela inteno da fonte, tampouco

determinada pelo meio utilizado. Antes disto, a comunicao se d na relao entre fonte-

receptores como co-produtores dos sentidos, conforme palavras de Jorge Huergo (2005):

La comunicacin como proceso, a su vez, necesariamente tiene que comprenderse en el contexto de condiciones histricas, sociales, geogrficas, polticas, culturales, etc. [...] La comunicacin es un proceso histrico, social y cultural en el cual se producen significados y se construyen sentidos.

Paulo Freire entende o dilogo como problematizao do prprio conhecimento e

sua indiscutvel relao com a realidade concreta na qual se gera e sobre a qual incide, para

melhor compreend-la, explic-la, transform-la (FREIRE, 1979, p. 52). A educao

dialgica, pautada nas idias de Paulo Freire (1979, 1987) admite a necessidade de

comunicao entre todos os envolvidos no processo, orienta-se, portanto, num outro

conceito de comunicao, abandonando a idia da emisso de mensagens no sentido

unidirecional fonte receptor e admitindo as relaes multidirecionais fonte-receptor

como inauguradoras de processos comunicativos. Os estudantes adquirem status de co-

enunciadores, pois os significados so construes coletivas, somente na co-enunciao

possvel pensar numa relao dialgica.

A interatividade, para Marco Silva (2000) um tipo particular de interao e

apresenta os seus trs pilares de sustentao:

Participao interveno: a informao no mais fechada, intocvel, como a

concebe as terorias clssicas, mas manipulvel, reorganizvel, modificvel, permitindo a

interveno do receptor. Nesse processo, se "altera a natureza" da mensagem, a fonte

emissora "muda de papel" e o receptor "muda de status" (SILVA, op. cit. p. 116-117).

Bidirecionalidade -hibridao: o autor afirma que desde a dcada de 1960, a

unidirecionalidade fonteemissor questionada como concepo de comunicao, que

passa a ser entendida como possvel se emissores e receptores intercambiarem papis.

Deste modo, o emissor potencialmente receptor, e receptor, potencialmente emissor. A

bidirecionalidade e a hibridao esto relacionados s mudanas de papis dos agentes da

comunicao, tornando possvel a fuso de ambos na co-autoria.

Permutabilidade-potencialidade: este fundamento da interatividade tem sua

mxima realizao no hipertexto, mas anterior informtica interativa e pode ser

encontrada na arte permutatria4. Est relacionada autoria das aes de algum que no

mais receptor, espectador, posto que interfere na obra que inacabada e modifica-se a partir

de sua interveno, de sua colaborao. Torna-se assim co-autor a partir de permutas que a

obra permite potencialmente.

Silva parte da interatividade, alicerada nos fundamentos citados, para [...]

enfatizar a necessidade de modificar a modalidade comunicacional predominante na ao

pedaggica [...] presencial e a distncia. (Ibidem, p. 165) e afirma: a interatividade,

enquanto materialidade da ao comunicativa afinada com a tica da tolerncia,

perspectiva educacional em sintonia com o nosso tempo. (Ibidem, p. 178) (grifo do autor).

A concepo dialgica pode ser considerada interativa por que parte do pressuposto

da participao-interveno do estudante, da possibilidade de criao e de co-autoria. O

contedo no um pacote fechando de informaes, mas material para interveno,

apresentando permutabilidade-potencialidade diante das aes estudantis. A comunicao

no unidirecional, mas bidirecional, no sentido de que possibilita o intercmbio fonte-

recepo.

A educao dialgica admite a necessidade de comunicao entre todos os

envolvidos no processo, pauta-se, portanto, num outro conceito de comunicao,

abandonando a idia da emisso de mensagens no sentido unidirecional fonte receptor e

admitindo as relaes multidirecionais fonte-receptor como inauguradoras de processos

comunicativos. Os estudantes adquirem status de co-enunciadores, pois os significados so

construes coletivas, somente na co-enunciao possvel pensar numa relao dialgica.

Em sistemas de EaD, a dialogicidade e a interatividade esto intrinsicamente ligados

ao desenho pedaggico. Um desenho pedaggico interativo aquele que possibilita a

participao, a interveno, a co-autoria, a construo coletiva do conhecimento, o dilogo

e as mais diversas condies de interlocuo entre os docentes e discentes. Esta discusso

extremamente pertinente quando nos reportamos Educao a Distncia EaD , devido,

por um lado, relao inerente entre a modalidade educacional em discusso e as TIC, com

seu crescimento proporcionado pelas tecnologias digitais, e, por outro, necessidade de se

pensar o papel e as aes da gesto comunicativa nesta modalidade educacional.

Educao a distncia: prtica educativa mediatizada

A expanso da EaD traz tona questes culturais, cientfico-tecnolgicos,

comunicacinais e educacionais que poderiam estar na raiz do processo que impulsiona o

desenvolvimento da modalidade em nosso pas.

Desde meados do sculo XX, alguns cursos a distncia vm funcionando em

Universidades tradicionais. Foi a partir de 1969, no entanto, com a criao da pioneira

Universidade Aberta (Open University), na Inglaterra, e mais tarde, da Universidade Aberta

e a Distncia de Madri, na Espanha, que a modalidade comea a ter uma expanso notvel.

Na tentativa de demonstrar que a EaD no uma prtica pedaggica recente, mas

que, ao contrrio, tem tradio, alguns autores, como Cludia Landim (1997, p. 1), buscam

muito longe no tempo prticas que tinham o objetivo de propiciar aprendizagem a

discpulos fisicamente ausentes. Com essa linha de pensamento, a autora busca nos

primrdios do cristianismo, nas cartas dos Padres do primeiro sculo, as origens de prticas

de [...] ensino a distncia, se tomada em seu sentido largo (LANDIM, op. cit., p.1).

Erika Kramer (1999) adepta da tese do incio da EaD em fins do sculo XVIII.

Francisco J. S. Lobo Neto (2004) vem ao encontro de Landim (1999) quando identifica a

data histrica da EaD como sendo a data da publicao do anncio do professor Cauleb

Phillips, na Gazeta de Boston, oferecendo um curso de taquigrafia por meio de materiais

impressos, enviados pelos correios, para alunos que moravam distante da cidade. A oferta

4 O autor cita diversos autores da literatura permutatria na qual a obra lanada re-criada pelo leitor-

operador, que altera a obra que se encontra em estado de probalidade, de virtualidade, [...] a obra s se realiza na ato da leitura e cada leitura parece ser a primeira e a ltima (Ibidem, p. 139).

de cursos de lnguas por correspondncia, por Charles Toussaint e Gustav Langenscheidt,

em 1856, formalizam a EaD. Outro grande marco de institucionalizao da modalidade foi

a criao da Diviso de Ensino por correspondncia da Universidade de Chicago, no ano de

1894.

A EaD no continuidade natural da educao presencial, mas uma ruptura, pois

precisa romper com a idia de que s aprendemos com um professor falando para ns l na

frente de uma sala de aula e se estivermos nessa sala no mesmo horrio, todos juntos. Essa

ruptura foi possvel por que aconteceu a globalizao, a exigncia de um trabalhador de

perfil diferenciado, a demanda social por educao, o surgimento do

receptor/usurio/navegador, a presso das corporaes por formao superior e o

desenvolvimento digital das telecomunicaes e das NTIC com suas possibilidades

interativas. Otto Peters (2003) afirma que a expanso da EaD no pode ser vista como

fenmeno de apenas uma causa, mas podemos identificar um conjunto de fatores que

indicam mudanas no contexto econmico e social no qual a informao ganha status sem

precedentes:

[...]ao contrrio das revolues tecnolgicas anteriores, em que a informao agia sobre a tecnologia, agora so as tecnologias que agem sobre a informao para transformar a economia e a sociedade. (SAAD, 2003, p. 44).

A Sociedade da Informao fez com que a EaD superasse seu estigma de educao

de segunda categoria e se tornasse uma proposta educativa vivel para nossos tempos, ou

seja, por apresentar caractersticas que a tornam adequada:

De fato, as caractersticas da aprendizagem aberta a distncia so semelhantes s da sociedade da informao como um todo (sociedade de rede, de velocidade, de personalizao etc.). Alm disso, esse tipo de ensino est em sinergia com as organizaes de aprendizagem que uma nova gerao de empresrios est tentando estabelecer nas empresas. (LVY, 1999, p. 170).

O consenso entre autores enfatizam o desenvolvimento tenolgico no campo da

telemtica como fator de expanso da EaD em nossos dias (KEEGAN (1990), BATES

(1995)), como sintetizado pelas palavras de Otto Peters:

Nos ltimos 30 anos do sculo XX, porm, sob o impacto da inovao tecnolgica, em especial nas reas da informtica e das telecomunicaes, essa modalidade de acesso ao ensino superior formal, complementaridade cientfica e educao continuada gerou uma acumulao impressionante e diversificada de conhecimento novo sobre o processo de ensinar e aprender. (2001, p. 12).

O desenvolvimento de tecnologias interativas que proporcionam a aprendizagem e a

construo coletiva do conhecimento por meio de redes telemticas, a partir da

permutabilidade dos papis de fonte e de receptor, tem se revelado como fator

preponderante para a expanso da EaD. A clivagem entre processos educacionais

presenciais e a distncia encontra-se na necessaria mediao tecnolgica da segunda.

A pesquisa realizada

A pesquisa qualitativa realizada buscou investigar as relaes entre a comunicao e

a Educao na modalidade a distncia, tendo em vista compreender as relaes entre o

desenho pedaggico e as TIC a partir da localizao das TIC no desenho pedaggico de um

curso a distncia. A inteno foi comprovar que o ponto de partida para a elaborao de um

desenho pedaggico encontra-se vinculado ao pblico-alvo e que, embora desempenhe

papel constituinte, a escolha das tecnologias que realizam a mediao entre docentes e

discentes no realizada pelos gestores apenas em funo dos dispositivos

comunicacionais que oferece, mas, principalmente, pelos modos de interao previstos no

projeto, os quais definem a escolha das mdias, em funo do pblico-alvo e do acesso.

A pertinncia do problema reside na desmistificao da tecnologia como

responsvel pela interatividade de um projeto, uma vez que uma determinada tecnologia

permite - ou possibilita -, vrios modos de interao ou apresenta limites que podem ser

compensados pelo uso integrado de diversas mdias e oferta de um sistema de tutoria. Em

outras palavras, a interatividade no uma funo direta da tecnologia utilizada em um

curso a distncia, mas do modo de interao previsto no seu desenho pedaggico.

O instrumento de coleta de dados constitui-se em um questionrio que foi elaborado

em funo da diversidade do pblicoalvo escolhido, em termos de formao, instituio

em que trabalha e experincia em EaD. O pblico-alvo pesquisado era um grupo

heterogneo que apresenta formao e vinculao profissional a diferentes instituies e,

por conseqncia, com o exerccio de funes diversificadas. A heterogeneidade do grupo

possibilitou a coleta e interpretao mais abrangente dos dados, o que no seria possvel se

a pesquisa estivesse vinculada a um pblico homogneo, ou seja, ligado a um projeto de

uma nica instituio, o que acarretaria na apresentao de uma viso particular da gesto e

de seus processos comunicativos em um projeto de EaD.

O pblicoalvo foi composto por profissionais certificados como Especialistas em

Gesto da Educao a Distncia, formao especfica e de acordo com o tema da pesquisa.

A relevncia do pblico escolhido residiu no fato de serem portadores de um certificado

que os habilita a desenvolver aes em gesto da EaD.

A escolha do pblico baseou-se, igualmente, na diversidade de sua composio,

tanto no que diz respeito origem institucional, formao, funo que exerce ou

experincia em EaD. Pelo fato de, poca da aplicao dos questionrios, estarem

participando de um Curso de Especializao, discutindo de forma privilegiada a gesto da

educao a distncia e encontrando-se envolvidos com a produo acadmica exigida pela

instituio formadora - as monografias -, o que favoreceu a predisposio para participar de

uma pesquisa sobre a gesto da comunicao na EaD.

Descrio do pblico pesquisado

A distribuio das origens institucionais dos respondentes muito variada e divide-

se entre universidades pblicas (UFJF) e privadas (Estcio de S), instituies privadas de

ensino (IBEU), empresas dedicadas educao a distncia (UOV, Escola24horas), rgos

governamentais (Inmetro, Polcia Estadual do Rio de Janeiro), Empresas (Embratel) e

micro-empresas (Editora Arara Azul) entre outras. A constatao da diversidade de

instituies demonstra o interesse generalizado que esta modalidade tem despertado.

diversidade de instituies, corresponde os diferentes tipos de funes

desempenhadas pelo pblico-alvo, como professores, tutores, editores, funcionrios

pblicos, assessores, produtores de vdeo, prestadores de servios de secretaria,

desenvolvedores de programas de capacitao entre outros. As funes exercidas revelam

que instituies, com focos dspares de atuao, tm interesse em formar profissionais de

sua estrutura organizacional para desenvolver seus prprios projetos de educao

corporativa, atender o interesse individual de pessoas pela modalidade, bem como a

necessidade de qualificar profissionais que trabalham em projetos EaD (como no caso do

Projeto Veredas5, por exemplo).

O conjunto formado por profissionais da rea da pedagogia, psicologia,

comunicao, veterinria, tecnologia, anlise de sistemas, entre outras. A EaD se

caracteriza por ser uma modalidade na qual a equipe necessariamente multifuncional e

multidisciplinar. A variedade de profissionais que compe o pblico-alvo atende a essa

caracterstica e demonstra que a EaD pode contar com a contribuio de diversas reas do

saber e com profissionais que buscam uma formao multidisciplinar, o que garante o

dilogo entre profissionais de diferentes backgrounds e tecnicamente competentes em EaD.

A titulao varia de graduados a especialistas, mestres ou doutores, bem como

mestrandos e doutorandos. Esse quadro mostra o interesse na qualificao profissional, com

o aprofundamento do conhecimento cientfico e especficos relativos a modalidade de EaD.

A distribuio geogrfica inclui os Estados de Santa Catarina, Mato Grosso do Sul,

So Paulo, Paraba, Rio de Janeiro, Distrito Federal e Minas Gerais. A maior concentrao

localiza-se na regio prxima Instituio que ofereceu o Curso, nos Estados Rio de

Janeiro, So Paulo e Minas Gerais, provavelmente causada pela exigncia de participao

em encontros presenciais ou defesa presencial da monografia. Dadas as dimenses

geogrficas de nosso pas, compreensvel uma certa regionalizao do pblico atendido e

o reconhecimento do esforo de alguns na busca de qualificao, porm, a oferta de

profissionais qualificados continua distribuda na regio central do Brasil.

Apenas 28% indicou ter alguma formao em EaD, 42% tem entre 1 e 3 anos de

experincia, o que demonstra forte demanda por formao e que esta tem sido feita em

5 O Projeto Veredas uma alternativa do Governo de Minas para a formao superior de 14.700 professores

em todo o Estado que lecionam no ensino fundamental (1 a 4 sries). Alm de 660 prefeituras conveniadas, a Secretaria conta com a parceria de 18 instituies de ensino superior para desenvolver o Projeto. O Curso de Formao Superior de Professores com habilitaes em Docncia para os Anos Iniciais do Ensino Fundamental e para a Educao Infantil tm a durao de trs anos e meio. Os materiais de estudo so utilizados para atividades individuais e coletivas e so compostos de guias de estudo, guia geral e vdeos-aula. O Sistema de Tutoria e de monitoria prev o apoio pedaggico s atividades de todos os participantes atravs dos recursos de informao e comunicao dispostos para o Projeto. Disponvel em . Acesso em 30, jan. 2005.

servio. Alm disso, o envolvimento profissional com a modalidade fato muito recente, o

que demonstra e reflete a expanso da modalidade.

Anlise sinttica das respostas obtidas

O questionrio aplicado foi constitudo por trs grandes linhas temticas: o papel da

EaD na educao e tendncias de atuao; o papel das tecnologias da comunicao no

desenho pedaggico do curso; e a gesto da EaD, compreendido o perfil do gestor.

Os resultados indicam a existncia de um grupo de profissionais preocupados com a

interatvidade como processo dialgico, de construo coletiva do conhecimento, que pode

servir de indicador de projetos voltados para a colaborao e a participao, conforme as

tnicas das respostas encontradas. A interatividade compreendida como participao na

aprendizagem do outro e de co-autoria, e no no acesso a diversas linguagens e fontes de

informao, o que denota forte necessidade de procedimentos e dispositivos

comunicacionais e pedaggicos que possibilitem as trocas entre os envolvidos. A

interatividade antes uma questo de trocas entre os participantes que uma caracterstica

tecnolgica.

A construo e a troca de significados no se restringem participao de colegas

na construo do conhecimento, mas tambm na presena e atuao dos tutores,

considerados indispensveis para a modalidade. O papel mediador do tutor respaldado

tanto na nfase atribuda pelo grupo na contribuio para a discusso quanto na

identificao do perfil do aluno como algum que interage com tutores e professores. De

modo significativo, foram desconsiderados processos automticos ou de oferta das

respostas s avaliaes solicitadas aos alunos no final do material pedaggico, moda da

Instruo Programada.

O perfil esperado para o aluno de um curso em EaD solicita uma pessoa adulta,

responsvel, participativa, colaborativa com os colegas, mas prioritariamente com

capacidade de auto-organizar-se. Alm disso, deve estar disposto a estar sempre

aprendendo.

Percebe-se que a imagem da EaD como modalidade pautada no isolamento

individual, na aprendizagem solitria ocorrida na interao entre estudante e material

didtico, com eventual apoio tutorial, est superada na viso do grupo em questo.

Contribuem para essa nova concepo da EaD as possibilidades tecnolgicas

comunicativas, a reiterao do papel do tutor e a nfase na responsabilidade e participao

atribuda ao perfil do estudante.

A primeira est relacionada com o desenvolvimento tecnolgico e suas

contribuies para oferta cada vez mais diversificada de dispositivos comunicacionais que

fornecem a estrutura sciotcnica necessria para viabilizar o processo ensino-

aprendizagem.

A segunda, pelo reconhecimento da importncia das mediaes humanas, que

possibilitam as trocas simblicas e afetivas de toda ordem, o sentimento de pertencer ao

grupo, o estar juntos virtual e o agenciamento de processos co-autorais.

A terceira consiste na ressonncia dos tempos em que vivemos, no qual processos

interativos, de modo geral, exigem iniciativa e atitude de busca. Processos interativos

alicerados na interveno e na co-autoria como potencialidade requisitam daquele que no

mais um simples receptor, mas um potencial co-enunciador e co-produtor, a capacidade

de dialogar e trabalhar em equipe e a disposio para aprender a aprender.

Tanto no se concebe mais um curso organizado com fluxo comunicacional

unidirecional, quanto um estudante passivo. A possibilidade de participao-interveno

faz-se acompanhar da premissa da responsabilidade. No se trata de uma ao abstrata, pois

o cumprimento de prazos e a qualidade nos trabalhos apresentados continuam sendo

exigncias para o bom desempenho acadmico. Em suma, a interatividade favorece o

dilogo, necessita da mediao dos tutores, mas exige postura responsvel.

Modalidade que preconiza novas prticas pedaggicas, a EaD est voltada

prioritariamente para o atendimento do pblico adulto, com o papel de democratizar o

acesso educao superior, inclusive pela educao corporativa. A caracterstica mais

interessante a convenincia da escolha, por parte dos alunos, de horrios e locais para

estudo e participao em atividades assncronas.

O desenho pedaggico prioriza o uso integrado de mdias, mas, devido realidade

de falta de acesso s tecnologias de comunicao mais sofisticadas e caras, deve priorizar o

material impresso e ofertar tutoria.

Todas as questes discutidas anteriormente so atribuies do gestor do projeto que,

para os respondentes, no necessita apresentar formao pedaggica nem conhecimentos

administrativos. Deve, contudo, conhecer bem e fazer implementar o projeto pedaggico do

curso e ter viso de futuro.

Neste ponto, identificamos uma questo de fundo que precisa ser enfrentada por

aqueles que desenvolvem projetos em EaD: como um gestor de projeto pedaggico pode

dispensar a formao pedaggica e conhecimentos de administrao?

A razo de tal posicionamento dos respondentes encontra-se, talvez, na diversidade

de formao encontrada entre eles e em uma frgil concepo do papel de um gestor que

podemos verificar nas ltimas posies atribudas a todos os fatores mais diretamente

administrativos, como elaborao de cronograma de trabalho e de projeto financeiro. O

pouco interesse que a rea pedaggica demonstrou por essa modalidade pode ter algum

grau de influncia na desvinculao das dimenses pedaggicas das afeitas gesto.

Na medida em que as instituies, de modo geral, esto se interessando pela oferta

de cursos na modalidade a distncia, ou desejando integrar atividades a distncia em seus

cursos presenciais, a elaborao de projetos passou a exigir dos profissionais envolvidos

noes de gerenciamento.

Entre as tarefas do gestor esto a elaborao do projeto em si, com as regulaes,

limites e parmetros impostos pela legislao pertinente; as demandas tpicas de um projeto

pedaggico como escolha do pblico-alvo, elaborao do currculo, definio dos modos

de interao, entre outros; o desenvolvimento de aes tpicas da gesto como elaborao

de cronogramas, contratao e capacitao de equipes, organizao e manuteno de infra-

estrutura e a administrao financeira, pois ainda que no seja papel do gestor cuidar da

parte contbil do projeto, ele toma decises que esto diretamente relacionados aos custos,

portanto, responsvel pela viabilidade e sustentabilidade do mesmo.

As ltimas funes que alinhavamos foram negligenciadas nas discusses a respeito

da EaD, que tem priorizado as afeitas tecnologia, estratgias de produo de materiais

didticos e tutoria. Esse quadro vem mudando com a necessidade de pensar sobre erros e

acertos e, principalmente, com o desenvolvimento cada vez mais freqente dos projetos

oferecidos por consrcios no cenrio nacional, o que traz tona a questo da gesto.

As instituies que oferecem ou pretendem oferecer educao a distncia esto

diante de um momento histrico em que podem responder s antigas crticas que a

modalidade recebeu de falta de continuidade e de avaliao, tornando-se competentes na

elaborao de projetos e na prestao de contas do uso do dinheiro pblico.

A interatividade implica na participao dos envolvidos em processos de trocas que

so concebidos no desenho pedaggico, que explicita os modos de interao e as

tecnologias para viabiliz-los, necessidade de oferta de mediao por meio de tutoria e a

exigncia de estudantes responsveis. A comunicao e o desenho pedaggico encontram-

se em processo de inter-locuo.

Como resultado da pesquisa que realizamos, pudemos identificar a importncia do

gestor de processos comunicacionais para a modalidade a dsitncia e da retirada do acento

dado tecnologia no debate sobre a comunicao na EaD e coloc-lo nos modos de

interao proporcionados aos envolvidos no curso.

Ao publicar o resultado da pesquisa com este artigo, pretendo colaborar com o

debate sobre as inter-relaes entre Comunicao e Educao e sobre a gesto deprocessos

counicaionas nesta modalidade, pautando o trabalho do gestor nos processos de troca e

negociao dos sentidos. A gesto de processos comunicacionais que, certamente envolvem

as tecnologias, mas no se esgotam nas ofertas que trazem, significa agenciar conjuntos de

circuitos de produo e circulao de sentido entre os envolvid os no planejamento,

execuo e avaliao, bem como entre docentes e discentes, de um curso superior a

distncia.

Referncias

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