A integrao agroindustrial sob a perspectiva do ... ? A integrao agroindustrial sob a perspectiva

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A integrao agroindustrial sob a perspectiva do desenvolvimento sustentvel: o caso da suinocultura brasileira Alberto Abadia dos Santos Neto1 Srgio Sauer2 RESUMO Pretende-se, com este artigo, fazer uma reviso bibliogrfica, objetivando identificar a evoluo histrica da construo do conceito de desenvolvimento at chegar ao que hoje se define como desenvolvimento sustentvel, relacionando o conceito com o modelo contratual de integrao produtor-indstria vigente na suinocultura. Partindo do princpio de que a integrao agroindustrial uma forte tendncia para grande parte das cadeias produtivas do agronegcio, mostra-se necessrio estabelecer mecanismos que contemplem as necessidades tanto do produtor, em termos de cobrir seus custos com a produo e adequao ambiental, quanto da agroindustrial que necessita de matria-prima com qualidade e com padres especficos de transformao. Neste sentido, o problema central que norteia este estudo : como o estabelecimento desta integrao agroindustrial contempla necessidades das partes e, ao mesmo tempo, preconizando dimenses do desenvolvimento sustentvel como fator determinante para a vantagem competitiva dos atores ao longo da cadeia produtiva da suinocultura? 1. INTRODUO A produo de sunos no Brasil iniciou uma nova fase a partir do final da dcada de 1980 e incio dos anos 1990 a produo deixa de lado o chamado porco banha, avanando em seu desempenho sobre as questes tcnicas e comerciais. Nos ltimos 20 anos, a cadeia produtiva de sunos aumentou a produo de carne em mais de um milho de toneladas, fechando o ano de 2010 com quase quatro milhes de toneladas produzidas, e consolidando o pas como o quarto maior produtor e quarto maior exportador mundial de carne suna (ABIPECS, 2010). A suinocultura nos Estados brasileiros, principalmente nos da regio Sul, torna-se representativa nos efeitos multiplicadores de renda e emprego em todos os elos desta cadeia, intensificando a demanda de insumos agropecurios e a expanso e modernizao dos setores de comercializao e agroindstria. Como atividade rural predominante nas pequenas propriedades, responsvel por empregar significativamente mo de obra familiar, constituindo uma importante fonte de renda e de estabilidade social no campo e com reflexos positivos meio urbano. A produo de sunos exerce, conforme j mencionado, influncia direta nas cadeias produtivas do milho, da soja, e avanos genticos na espcie animal, visando o seu fortalecimento e os 1 Gestor do Agronegcio pelo Universidade de Braslia 2 Professor Doutor da Faculdade UnB Planaltina elementos intrnsecos nos parmetros exigidos na segurana alimentar (ROESLER, CESCONETO, 2004). No que se refere a alguns aspectos do desenvolvimento sustentvel, podemos fazer relao da atividade da suinocultura com as questes da poluio ambiental e os benefcios econmicos gerados pelas regies produtoras do pas e , identificando em que medida a atividade tem se preocupado com um desenvolvimento capaz de suprir as necessidades da gerao atual em termos de oferta de protena animal de qualidade, preservao do meio ambiente, bem com acesso renda, por parte dos produtores, sem comprometer a capacidade de atender as necessidades das futuras geraes. Com um desenvolvimento que no esgota os recursos para o futuro. O intenso crescimento econmico ocorrido durante a dcada de 1950 no se traduziu necessariamente em maior acesso de populaes pobres a bens materiais e culturais, como ocorrera nos pases considerados desenvolvidos. A comear pelo acesso sade e educao (VEIGA, 2008). No caso da suinocultura, o acesso ao mercado internacional, por exemplo, no garantiu a melhoria e a amenizao dos prejuzos causados pelas drsticas oscilaes de preos no mercado interno. Nesse sentido, mostra-se necessrio avaliar o quanto o processo de mudana na estrutura da suinocultura brasileira para um modelo tecnolgico e de base contratual produtor-indstria, tem considerado os impactos econmicos, sociais e ambientais em seu processo de implementao e desenvolvimento. Para Rohenkohl (2007), a integrao produtiva pode assumir vrias formas, desde a integrao vertical propriamente dita, com uma empresa detendo a propriedade dos ativos utilizados nas vrias etapas de produo-transformao-distribuio, at contratos e relaes comerciais e produtivas mais frouxas. O processo de consolidao das condies contratuais entre indstria-produtor pode ser uma forma de dinamizar e possibilitar aspectos positivos que possam promover o desenvolvimento, mas como podemos identificar na suinocultura uma atividade que pode ser, ou j , sustentvel (economicamente e ambientalmente)? Diante destas perspectivas, de que a atividade da suinocultura, tem relevncia social e econmica, pretende-se com este artigo analisar do ponto de vista histrico da evoluo dos conceitos de crescimento econmico e desenvolvimento sustentvel o modelo de integrao agroindustrial da suinocultura brasileira. O presente artigo est estruturado, aps a introduo, com uma sesso que abrange as referncias que embasaram a discusso do estudo, seguido pela conceituao do agronegcio, posteriormente discutisse questes sobre governana em geral e no setor da suinocultura e, por fim, as consideraes finais e conclusivas do estudo. 2. REFERENCIAL TERICO 2.1. REGASTE HISTRICO: O CAPITALISMO O desenvolvimento do capitalismo abordado em vrias obras de Karl Marx, entre as mais representativas e crticas, encontra-se O Capital: crtica da economia poltica, ao defender que o dinheiro se transforma em capital, quando se produz mais-valia com capital e mais capital com mais-valia. Ou seja, a acumulao primitiva, conforme defendido pelo autor, pressupe a necessidade de que a elite capitalista acumule capital e que o proletrio, no tendo nada mais a oferecer, oferea sua fora de trabalho, para que no futuro, quando tudo estiver estabilizado, inicia-se o processo de diviso de riquezas. Para Marx, por causa deste pensamento e direcionamento, a grande massa pobre, tendo apenas a fora de trabalho para vender, enquanto cresceu continuamente a riqueza de poucos. No caso da agricultura, na Inglaterra, a acumulao primitiva, se deu via expropriao de camponeses, ou seja, houve a necessidade de separar as pessoas dos meios de produo, o que acarretava na liberao de mo-de-obra e quanto maior a oferta, menor so os salrios. Max Weber em sua obra: A tica protestante e o esprito do capitalismo defende que o entendimento sobre o esprito do capitalismo, nasce medida que as pessoas passam a analisar que o controle de entradas e sadas financeiras passa a ser uma forma de organizao do capital, o autor apresenta um texto escrito por Benjamin Franklin: Lembra-te que crdito dinheiro. Se algum me deixar ficar com seu dinheiro depois da data do vencimento, est me entregando os juros ou tudo quanto nesse intervalo de tempo ele tiver rendido para mim. Isso atinge uma soma considervel se a pessoa tem bom crdito e dele faz bom uso (WEBWR, 1920, p.43). Segundo, Giddens (1998), h poucas relaes intelectuais na literatura sociolgica to difceis de interpretar como a existente entre os escritos de Karl Marx e os de Max Weber. Para o autor, o fato crucial para a diferenciao foi o fator da poca de anlise de cada um. No deve-se apenas considerar que os trabalhos de Weber forma em cima da refutao das teses de Marx. Ironicamente com a rejeio da anlise de Marx do capitalismo contemporneo e de suas esperanas ulteriores na forma futura de uma sociedade radicalmente nova. Marx, que escreveu uma gerao antes de Weber, acreditava que o capitalismo poderia ser e seria superado por uma nova forma de sociedade. Weber escreveu com a percepo de ter testemunhado a formao do capitalismo industrial na Alemanha em circunstncias muito diferentes das da Inglaterra ou da Frana. O reconhecimento desse fato por Weber foi um elemento, no interior do seu pensamento, que lhe permitiu, apesar de recorrer a Marx, escapar da camisa de fora que os seguidores de Marx do Partido Social Democrtico buscaram impor histria, em nome do materialismo histrico (GIDDENS, 1998, p. 94). Talvez uma das principais diferenas apontadas e percebidas em relao ao capitalismo, entre Marx e Weber, seria a questo em que Marx defende que o capitalismo surge diante da acumulao primitiva em que o comportamento oportunista da burguesia usufrua da mo-de-obra do proletrio para gerar riquezas. Mas para Weber, a tica do povo protestante era de que o trabalho era um dever, uma vocao. No visando o ganho material como o objetivo final. Como consequncia, os trabalhadores protestantes adaptavam com facilidade ao mercado de trabalho, tambm eles acumulavam capital j que a pregao de uma vida regada e sem usura era predominante. Ao acumular capital, faziam poupana ou criavam seus prprios negcios como reinvestimento produtivo. As contribuies de Marx e Weber so determinantes para o entendimento da evoluo histrica do capitalismo. As diferentes vertentes e perodos possibilitam entender que o processo de consolidao dos modelos de capitalismo, ainda hoje vistos na sociedade, so de relevncia at mesmo para compreender o cenrio contemporneo, em torno dos avanos da economia moderna. Para Ianni (2004), a globalizao do mundo expressa um novo ciclo de expanso do capitalismo, mas este processo de evoluo das relaes, sociais e econmicas, comearam a ser expressas por Marx e Weber, em dcadas passadas e ajudam a compreender, hoje, este modelo de produo e processo civilizatrio de alcance mundial, que tornou-se um processo de amplas propores envolvendo naes e nacionalidades, regimes polticos e projetos nacionais, grupos e classes sociais, economias e sociedades, culturas e civilizaes. O conceito de globalizao comeou a ser empregado desde meados da dcada de 1980, em substituio a conceitos como internacionalizao e transnacionalizao. Originalmente, esta ideia era sustentada por setores que defendiam a maior participao de pases em desenvolvimento, em especial os NICs (New Industrialized Countries) Latino-Americanos e Asiticos em uma economia administrada internacionalmente. Somente ao fim da dcada de 1980 e, particularmente, na dcada de 1990 que o termo globalizao veio a ser empregado principalmente em dois sentidos: um positivo, descrevendo o processo de integrao da economia mundial; e um normativo prescrevendo uma estratgia de desenvolvimento baseado na rpida integrao com a economia mundial (PRADO, 2001). Ao longo das ltimas dcadas, ps Segunda Guerra Mundial, as naes viveram um processo de industrializao, forado pelas potncias precursoras na revoluo industrial iniciada em pases europeus. A globalizao dos mercados e consequente acesso informao, possibilitaram que pases da sia, latino-americanos e africanos ingressaram na modernizao industrial e comearam a investir em politicas de substituio de importaes. Aos poucos, a grande maioria da populao assalariada mundial se v envolvida no mercado global, um mercado em que se movem compradores e vendedores de fora de trabalho, mercadorias, valores de uso e valores de troca. So transaes que multiplicam a generalizam os dinamismos das foras produtivas e relaes de produo, propiciando uma acumulao acentuada e generalizada do capital, em mbito mundial (IANNI, 2004). Para Antunes (1999), uma noo ampliada de classe trabalhadora, refletindo a diversidade da transao dos produtos e servios proporcionados pelo inicio da globalizao dos mercados, inclui todos aqueles que vendem sua fora de trabalho em troca de salrio, incorporando, alm do proletariado industrial, dos assalariados do setor de servios, tambm o proletariado rural, que vende sua fora de trabalho para o capital. A classe trabalhadora assume, no contexto do capitalismo atual, uma dimenso decisiva, dada pelo carter transnacionalizado (ou globalizado) do capital e de seu sistema produtivo. Assim, o capital um sistema global interligado entre empresas, trabalhadores e instituies. Novas regies industriais emergem e algumas desaparecem, alm de cada vez mais as empresas se tronarem multinacionais, com a implantao de plantas fabris, escritrios e centros de distribuio em deferentes pases. Este resgate histrico possibilita compreender de que modo a as questes econmicas e sociais eram debatidas, em detrimento poca e contexto instalado nestes momentos da sociedade. Neste sentido possvel interligar, de modo geral, como as discusses evoluram at chegarmos s discusses das sociedades modernas, portanto, veremos na prxima sesso, de acordo com os tempos relevantes em determinados perodos da histria contriburam para a emergncia do termo desenvolvimento sustentvel. 2.2. DO CRESCIMENTO ECONMICO AO DESENVOLVIMENTO SUSTENTVEL A teoria do crescimento econmico tem mostrado como a economia pode exibir taxas de crescimento endgeno, isto , que dependem fundamentalmente de parmetros ligados tecnologia e s preferncias dos agentes. Estes modelos, em geral, possuem duas caractersticas: (i) nfase nos fatores ligados a oferta e; (ii) uma relevncia reduzida dos fatores financeiros como geradores do crescimento econmico. No final da dcada de 1960, e incio da dcada de 1970, surgiu uma literatura que apontava para a existncia de uma relao positiva entre o desenvolvimento financeiro e o crescimento de longoprazo. O desenvolvimento financeiro consiste na melhoria do desempenho dos mercados financeiros no exerccio de suas funes, a saber: agregao de poupanas, seleo de projetos de investimento e monitoramento do uso de recursos (STIGLITZ, 1989, p.56). Oreiro et al. (2010), ao estudarem a relao entre desenvolvimento financeiro e crescimento econmico, identificaram na literatura sobre o tema que, em primeiro lugar, um maior desenvolvimento do setor financeiro, notadamente dos bancos comerciais, tem um impacto positivo sobre o crescimento econmico ao aumentar a eficincia da alocao de recursos. O efeito do desenvolvimento financeiro sobre a poupana e a acumulao de capital tido como negligencivel, ou at mesmo negativo. Um segundo ponto ressaltado pela literatura em questo que o desenvolvimento financeiro nem sempre resulta de polticas de liberalizao financeira, ao contrrio do que foi estabelecido pela assim chamada hiptese de represso financeira, de Shaw e McKinnon (1973). Com efeito, a literatura terica e emprica aponta para a possibilidade de que polticas de represso financeira e de direcionamento de crdito atuem no sentido de estimular o desenvolvimento financeiro, o que tem impacto positivo sobre o crescimento de longoprazo. Para Smith (1776), o determinante econmico fundamental do crescimento econmico a taxa de formao de capital. A taxa de crescimento econmico proporcional sua taxa de investimento. Os principais elementos a serem considerados ao analisar taxas de crescimento econmico residem em: nveis de acumulao de capital, crescimento populacional e produtividade de mo-de-obra. Smith reconheceu a existncia de trs fatores de produo: trabalho, capital e terra. O ndice econmico que mede os nveis de crescimento de uma economia Produto Interno Bruto (PIB), que a soma de todos os bens e servios produzidos em um pas durante certo perodo. O ndice s considera os bens e servios finais, de modo a no calcular a mesma coisa duas vezes, por exemplo, a matria-prima usada na fabricao no levada em conta. No caso de um po, a farinha de trigo usada no entra na contabilidade. Os fatores que influenciam a variao do PIB so: consumo da populao, taxas de juros, investimentos de empresas privadas, gastos do governo e o salvo da balana comercial. No debate sobre o desenvolvimento, termos como capital humano, capital fsico ou natural so por demais conhecidos. Capital social, no entanto, continua para muitos um conceito extremamente vago, um conceito passe-partout, que pode ser aplicado a certas situaes onde interaes sociais positivas se produzem (SACHS, LAGES; 2001). Sachs e Lages (2001), definem alguns elementos constitutivos desse conceito, ao referi-lo como a capacidade das pessoas de uma dada sociedade: (i) de subordinar interesses individuais aos de grupos maiores; (ii) de trabalhar juntas visando a objetivos comuns ou ao benefcio mtuo; (iii) de se associar umas s outras e formar novas associaes; (iv) de compartilhar valores e normas tanto para a formao de grupos e organizaes estveis, quanto para constituir, compartilhar a gesto e, em suma, viver em sociedade; e (v) De viver em comunidade, interagindo socialmente de modo a criar e manter contextos onde se manifeste um ethos de comunidade. O conceito de Capital Social proposto pelo autor , portanto, na verdade, muito simples, em que tudo depende de padres de organizao e modos de regulao. Resumindo mais ainda, existe uma propenso bsica do ser humano para cooperar; para cooperar espontaneamente (FRANCO, 2001). Segundo Harper (2002), a discusso sobre capital social foi uma nova varivel demandada pelo Banco Mundial, que procurou alinhar o conceito com as discusses relacionadas ao desenvolvimento sustentvel nas sociedades em desenvolvimento. Considerou (por que o BIRD, no?) importante o capital social no contexto do desenvolvimento, porque as pessoas que trabalham em agncias e instituies desempenham um papel importante na tentativa de envolver comunidades locais nos projetos de desenvolvimento. De acordo com Frey (2001), o debate acerca do desenvolvimento sustentvel, que ganhou contornos globais com a Conferncia das Naes Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada em 1992 no Rio de Janeiro (Rio92 ou ECO92). e no ano de 2012 ratificado com a realizao da Rio+20, foi resultado de uma inquietao que parece ter atingido todo o planeta, no obstante a multidimensionalidade e as graves divergncias existentes entre os diversos grupos e interesses que fazem parte deste suposto novo movimento histrico transnacional. Em contraposio, a disseminao do neoliberalismo em todas as partes do mundo trouxe de volta um clima favorvel ao economicismo e um discurso pblico irrefletido e mope que propaga um crescimento econmico desenfreado e privilegia a questo da gerao de emprego a qualquer custo, em detrimento das preocupaes acerca da sustentabilidade que prevaleceram no mundo. O conceito de desenvolvimento sustentvel um conceito normativo que surgiu com o nome de ecodesenvolvimento no incio da dcada de 70. Ele surgiu num contexto de controvrsia sobre as relaes entre crescimento econmico e meio ambiente, exacerbada principalmente pela publicao do relatrio do Clube de Roma que pregava o crescimento zero como forma de evitar a catstrofe ambiental. Ele emerge deste contexto como uma proposio conciliadora, onde se reconhece que o progresso tcnico efetivamente relativiza os limites ambientais, mas no os elimina e que o crescimento econmico condio necessria, mas no suficiente para a eliminao da pobreza e disparidades sociais. O tempo jogou a favor de uma ampla aceitao desta proposio, mas que, por esta ser basicamente normativa, no foi capaz de eliminar as divergncias quanto sua interpretao (ROMEIRO, 2001). As dificuldades desse entendimento revelam-se no apenas nas incontveis definies de desenvolvimento sustentvel, como tambm nas diferenas de interpretao de uma mesma definio. No Relatrio Brundtland (CMMAD, 1988). laborado pela Comisso Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, que apontou a incompatibilidade com o desenvolvimento sustentvel dos padres de produo e consumo vigentes, por exemplo, defendeu que o desenvolvimento sustentvel basicamente como que satisfaz as necessidades atuais sem sacrificar a habilidade de o futuro satisfazer as suas. O conceito de desenvolvimento sustentvel um enfoque de desenvolvimento socioeconmicos orientado para: a satisfao de necessidades bsicas; o reconhecimento do papel fundamental que a autonomia cultural desempenha nesse processo de mudana; e oferecer um conjunto de critrios para se avaliar a pertinncia de aes mais especificas (SACHS, 1992). No que se refere a agricultura, o Brasil , hoje, um dos grandes exportadores mundiais de commodities como soja, acar, lcool, laranja, frango, carne vermelha, caf e fumo, entre outras. Da exportao de produtos do setor primrio depende fortemente a economia do pas, o que , na verdade, uma de nossas marcas mais antigas e contnuas (GRYNSPAN, 2009). Com o processo de democratizao da sociedade brasileira na dcada de 1980, segundo Delgado (2009), o pas revitalizou seu movimento sindical, surgiram novos movimentos sociais no campo, mudaram os personagens e as demandas do mundo do trabalho rural e comeou a ser elaborada uma crtica contundente ao modelo de modernizao agrcola adotado, conhecido internacionalmente como revoluo verde. Deste modo o agricultara brasileira evolui seguindo altos nveis de investimentos em mecanizao e com uso intensivo de defensivos, agrotxicos e fertilizantes agrcolas, que possibilitaram ao pas atender a demanda mundial por commodities. tica pela qual o termo agronegcio inserido no pas. 2.3.AGRONEGCIO O termo agronegcio (agribusiness) tem sua origem vinculada aos trabalhos de Davis e Goldberg (1957 apud BATALHA, 2007), sendo definido como a soma das operaes de produo e distribuio de suprimentos agrcolas, das operaes de produo nas unidades agrcolas, do armazenamento, processamento e distribuio dos produtos agrcolas e itens produzidos a partir deles (BATALHA, 2007, p.27). O estudo formal das relaes da agricultura com os demais setores da economia tem no trabalho de Davis e Goldberg (1957) uma das mais importantes contribuies, pois foi a partir do conceito de agribusiness proposto pelos autores que inmeros trabalhos foram realizados em diferentes pases, tendo como foco de anlise no mais a agricultura como um setor isolado da economia, mas como parte de um sistema composto por setores a montante e a jusante da produo agrcola (COSER, 2010). Durante a dcada de 1960, difundiu-se no mbito da escola industrial francesa a noo de analyse de filire. Embora o conceito de filire no tenha sido desenvolvido especificamente para estudar a problemtica agroindustrial, foi entre os economistas agrcolas e pesquisadores ligados aos setores rural e agroindustrial que ele encontrou seus principais defensores. Com o sacrifcio de algumas nuanas semnticas, a palavra filire foi traduzida para o portugus pela expresso cadeia de produo e, no caso do setor agroindustrial, cadeia de produo agroindustrial, ou simplesmente cadeia agroindustrial (BATALHA, 2007). Ainda, segundo Batalha (2007), a literatura francesa utiliza em vez de Sistema Agroindustrial, a denominao de Sistema Agroalimentar. Entende-se que o Sistema Agroalimentar est contido no Sistema Agroindustrial. Conservar a denominao apenas como Sistema Agroalimentar implicaria excluir todas as firmas agroindustriais (madeira, fibras vegetais, couro etc.) que no tm como atividade principal a gerao de alimentos e, desta forma, o conceito de Sistema Agroindustrial mais amplo. No que se refere cadeia de produo, Batalha (2007) defende que esta pode ser segmentada de jusante a montante, em trs macrossegmentos: A. Comercializao: representa as empresas que esto em contato com o cliente final da cadeia de produo e que viabilizam o consumo e o comrcio dos produtos finais (supermercados, mercearias, restaurantes, cantinas, etc.). B. Industrializao: representa as firmas responsveis pela transformao das matrias-primas em produtos finais destinados ao consumidor. O consumidor pode ser uma unidade familiar ou outra agroindustrial. C. Produo de Matrias-Primas: rene as firmas que fornecem as matrias-primas iniciais para que outras empresas avancem no processo de produo do produto final (agricultura, pecuria, pesca, piscicultura, etc.). Alm destes listados, o setor de produo de insumos poderia entrar como quarto macrossegmento, responsvel pelo atendimento da demanda dos produtores rurais, que por sua vez so responsveis por atender demanda da indstria. Percebe-se, pela Figura 1, que o agronegcio visto como a cadeia produtiva que envolve desde a fabricao de insumos, passando pela produo nos estabelecimentos agropecurios e pela sua transformao, at o seu consumo. Essa cadeia incorpora todos os servios de apoio: pesquisa e assistncia tcnica, processamento, transporte, comercializao, crdito, exportao, servios porturios, distribuidores, industrializao e o consumidor final. O valor agregado do complexo agroindustrial passa, obrigatoriamente, por cinco mercados: o de suprimentos; o da produo propriamente dita; o do processamento; o de distribuio; e o do consumidor final (GASQUES et al., 2004). Figura 1 - Cadeia do Agronegcio Fonte: Zylbersztajn e Farina (1997, apud GASQUES. et al. 2004) 2.3.1. GOVERNANA DOS SISTEMAS AGROINDUSTRIAIS A ruptura da agricultura vista como um setor isolado para uma abordagem de cadeia produtiva como componente de um sistema agroindustrial requer formas de anlises que sejam capazes de conectar o sistema produtivo, levando em considerao os aspectos relativos aos agentes econmicos e ao ambiente organizacional e institucional (ZYLBERSZTAJN, 2005). Nesse sentido, a Nova Economia Institucional (NEI) utilizada como base terica para compreenso dos sistemas agroindustriais, uma vez que prope um novo papel para as firmas como estruturas das relaes econmicas, bem como ressalta a importncia que desempenham as instituies no desenvolvimento econmico. SISTEMA AGROINDUSTRIAL A Nova Economia Institucional (NEI) aborda o papel das instituies sob duas instncias de anlise distintas: as macroinstituies (ambiente institucional) e as microinstituies (estruturas de governana). As macroinstituies referem-se ao conjunto de normas, leis, organizaes e regimes que regulam o sistema econmico atravs do ambiente organizacional. As microinstituies correspondem s estruturas de governana que regulam uma transao especfica entre os agentes econmicos, como contratos e normas das organizaes ou entre as envolvidas (AZEVEDO, 2000). Diante do exposto, a Estrutura de Governana caracteriza-se como um conjunto de regras (instituies) tais como contratos entre particulares ou normas internas s organizaes que governam uma determinada transao (FARINA, 1999). Sistemas de governana nada mais so do que mecanismos de coordenao que permitem lidar com uma dimenso fundamental do agribusiness, ou seja, a dimenso temporal, associada perecibilidade dos produtos e sincronicidade da produo, envolvendo vrios agentes (SIFFERT FILHO; FAVERET FILHO, 1999). Com relao a anlises de estruturas governana, a atividade da suinocultura brasileira apresenta-se como uma atividade agroindustrial que compreende inmeras relaes de poder e subordinao entre produtor e indstria que possibilitam debater a governana na estruturao desta cadeia produtiva. 2.3.2. GOVERNANA NA SUINOCULTURA De acordo com a ABIPECS (2010), o Brasil possui fortes vantagens competitivas na produo e comercializao de sunos, sendo elas: sistema de produo integrao vertical - tecnologicamente atualizado; mercado interno competitivo; institutos de pesquisa; empresas com marcas mundialmente conhecidas; condies climticas ideais para a produo; e soja e milho disponvel para a alimentao. Alm disso, possui uma rea maior que 4 milhes de Km2 e PIB superior a US$ 500 Bilhes, situao em que s os Estados Unidos e a China compartilham atualmente. A garantia no suprimento de matria prima em quantidade, qualidade e regularidade para o abastecimento da indstria frigorfica, e a necessidade de maior segurana na comercializao para os produtores, foi determinante para o avano de sistemas que permitam maior interao entre diferentes elos de uma mesma cadeia. Dentro das diferentes possibilidades existentes, os contratos de integrao de sunos se destacaram, proporcionando melhor coordenao entre a produo e o mercado, e possibilitando um rpido crescimento da atividade (COSER, 2010). Contrato de integrao de sunos a denominao mais utilizada para o sistema de coordenao da produo baseado no acordo formal entre produtores de sunos e agroindstrias. Tomando como base a teoria da Nova Economia Institucional, este sistema classificado como uma forma hbrida, tambm denominada simplesmente de governana contratual (COSER, 2010). A possibilidade de oportunismo pelo envolvimento de ativos de alta especificidade, as mudanas no ambiente institucional ou organizacional, a diviso dos riscos, a busca por uma relao mais equitativa e as exigncias do mercado, so alguns dos fatores que implicam em possibilidades de alteraes nos acordos firmados entre produtores de sunos e agroindstrias. Paiva (2007) descreve da seguinte maneira as caractersticas bsicas dos contratos agroindustriais vistos sob um enfoque econmico. A partir de uma anlise econmica, podem ser individualizadas trs caractersticas bsicas dos contratos de integrao vertical agroindustriais: a) Repartio dos riscos e at mesmo a reduo ou anulao de alguns destes, seja para o produtor, quanto colocao dos seus produtos no mercado, seja para a indstria quanto ao fornecimento regular de matria-prima de qualidade. b) Concernente multiplicidade e particularidade das formas de remunerao acordadas pelas partes. c) Caracterstica desses contratos representada pela renncia por parte do produtor agrcola (via de regra sobre a indstria que recai a maior parte do poder de deciso) de parcela dos seus poderes de autodeterminao em favor do integrador, atravs da assuno de obrigaes, dentre as quais a mais comum a de submeter-se s regras tcnicas, ao controle, produo exclusiva de determinados bens determinada pela indstria. O agronegcio da suinocultura, portanto, uma atividade que tem representatividade e importante papel para o pas. A cadeia , sobretudo, dominada pela governana exercida pelas agroindstrias mediante contratos de parcerias com os produtores, a Figura 2, ilustra de maneira geral quais so as responsabilidades do produtor e indstria definidas nestes contratos. Figura 2 - Ambiente de Formao de Contratos de Integrao de Sunos Fonte: COSER (2010, p. 66). Coser (2010), ao estudar uma amostra de 14 contratos de integrao na suinocultura do Brasil, das principais indstrias do setor, identificou que nesta estrutura de governana os produtores assumem as despesas de investimento, mo de obra e meio ambiente, enquanto as integradoras assumem as despesas com raes e animais, assistncia tcnica e estrutura logstica. 3. CONSIDERAES FINAIS Para Max Weber, o capitalismo existe onde quer que se realize a satisfao das necessidades de um grupo humano, com carter lucrativo e por meio de empresas. Ele estabeleceu como condio prvia para a existncia do capitalismo moderno, a contabilidade racional do capital, como norma para todas as grandes empresas lucrativas que se ocupam das necessidades cotidianas. Para Marx, as condies de produo do sistema capitalista obrigam o trabalhador a vender mais tempos de trabalho do que o necessrio para produzir valores equivalentes s suas necessidades de subsistncia. A utilizao da integrao agroindustrial na suinocultura, objeto de anlise do presente artigo, tem no setor uma histria de mais de 50 anos de experincia, onde pode-se observar as ideias defendidas por Weber. O sistema de produo integrada de sunos foi o meio encontrado pela agroindstria para garantir o fornecimento de matria prima em quantidade, qualidade e regularidade na oferta e consequente lucratividade dos mesmos. De acordo com Coser (2010), os sistemas de integrao foram iniciados a partir de acordos tcitos entre produtores de sunos e pequenos frigorficos regionais. Mas atualmente os contratos de integrao de sunos so acordos complexos, que coordenam diversos aspectos da produo, garantem segurana de fornecimento de matria prima agroindstria e oferecem garantia na comercializao aos produtores. As ambiguidades encontradas na constituio dos contratos produtor-agroindstria na suinocultura residem principalmente com relao ao modo de distribuio dos direitos de propriedade entre as partes, ao sistema de remunerao do integrados, escala de produo envolvida, localizao geogrfica da produo, ao momento econmico da atividade, entre outras. De modo geral, os acordos contemplam o modo de diviso dos ativos compartilhados entre as partes; o sistema de fornecimento de insumos, tecnologia e assistncia tcnica; a definio do sistema de produo; o padro de remunerao do integrado; o prazo de vigncia e as possibilidades de resciso so todos aspectos definidos apenas pela agroindstria. As mudanas relacionadas ao ambiente organizacional, como a concentrao empresarial por parte das agroindstrias e o aumento das escalas de produo por parte dos integrados; as alteraes impostas pelo ambiente institucional, que impem regras mais rgidas de produo em relao aos aspectos ambientes, sociais, de segurana dos alimentos e bem-estar animal; e o aumento das exigncias dos consumidores externos e internos; so todos fatores que aumentaro a complexidade desta relao de negcios, e muito provavelmente induziram uma mudana na agenda dos participantes desta relao. No que se refere s divergncias que produtores e agroindstrias possuem a respeito dos contratos de integrao de sunos, sobretudo no que diz respeito ao equilbrio das partes nesta relao de negcios, os contratos de integrao tm se mostrado eficientes na coordenao tcnica. Se este modelo eventualmente pode ser considerado pouco equitativo, ao mesmo tempo podem ser considerados extremamente eficientes do ponto vista econmico, como mostram os dados de crescimento do setor. Ao mesmo tempo possvel identificar pequenos produtores que no esto inseridos neste contexto. So produtores, muitas vezes, que deveriam produzir um animal, que mais tarde tornaria a protena animal da famlia, com padres de qualidade que garantissem esta relao, porm estes pequenos agricultores desprovidos de qualquer tipo de assistncia tcnica e/ou orientao sobre a produo e sem. Muito menos, acesso a qualquer tipo de crdito no conseguem ter uma boa relao econmica e ambiental com a produo. A produo de sunos no pas vive, atualmente, uma das maiores crises provocada, principalmente, pela sua estrutura de governana dominada pela agroindstria, mediante os contratos de integrao, o oligoplio formado pelo setor causa danos sociais e econmicos, em regies do Sul do pas que sempre tiveram tradio na produo de sunos. Cada vez mais produtores migram, devido a insatisfao com os retornos financeiros, para outras atividades agropecurias que, em geral, dependem de investimentos nas especificidades de culturas que no so a vocao da regio. A gesto de resduos gerados pela suinocultura trouxe nos ltimos anos, vantagens competitivas aos produtores que a fazem de forma correta. A utilizao de sistemas como cama sobreposta, lagoa de tratamento de dejetos e biodigestores, possibilitam tais vantagens frente aqueles produtores que no adotam estas tecnologias. A criao de sunos em confinamento tem potencial para poluir, essa caracterstica se deve, fundamentalmente, composio qumica dos dejetos e quando estes so lanados ao solo, cursos ou fontes de gua, sem o adequado tratamento podem contamina-los. Esses dejetos devem passar pelo tratamento adequado, pois desta forma pode-se evitar os problemas citados, fazendo necessria uma reciclagem de dejetos, dentro dos princpios da preservao ambiental. A dimenso econmica do desenvolvimento sustentvel integra aspectos de competividade e viabilidade em relao capacidade tecnolgica de produzir. Com a reciclagem dos dejetos de sunos e uso de biofertilizantes nas reas agrcolas, possvel o retorno econmico. Os sistemas de produo e o grau de especializao das unidades, buscam a viabilidade e o alcance social da suinocultura no desenvolvimento sustentvel. Em contrapartida o acesso a estas tecnologias, tambm, esto relacionadas ao poder aquisitivo dos produtores, empresas de tecnologias proteo do meio ambiente criam mecanismo de incentivo aos produtores para adquirirem seus produtos, mas este acesso limitado e ainda no atinge grande parcela dos suinocultores brasileiros. Em linhas gerais, a suinocultura uma atividade econmica agropecuria que emprega e gera renda a diversas comunidades do pas concentradas no Sul, Sudeste e Centro-Oeste do pas e, atualmente, avana na fronteira da regio Nordeste. Ambientalmente, mostra-se como uma atividade de alto risco, vista a toxidade dos dejetos dos animais, de modo que a qualidade da carne est associada a investimentos em tecnologias que possibilitem uma produo limpa e livre de riscos de contaminao. Por fim, para responder a questo central deste artigo seria necessrio acompanhar fluxos econmicos, distribuio dos resultados financeiros entre os atores que compem esta cadeia produtiva, os nveis de satisfao com a atividade dos produtores e de suas famlias, a destinao de dejetos dos animais e etc., ou seja, analisar o equilbrio da atividade entre a regio de produtora, a comunidade local e meio ambiente. Em caso de uma analise positiva a atividade encaminha-se para um desenvolvimento sustentvel. REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS ABIPECS. Associao Brasileira das Indstrias Produtoras e Exportadoras de Carne Suna. Disponvel em: . Acesso em: 03 Jun. 2012. ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho. Ensaio sobre a afirmao e a negao do trabalho. So Paulo: Boitempo, 1999. AZEVEDO, P. F. Nova Economia Institucional: Referencial Geral e Aplicaes para a Agricultura. Agricultura So Paulo, v.47, n.1, p. 33-52, 2000. BATALHA, Mrio O. Gesto Agroindustrial. 3 ed. So Paulo: Atlas, 2007. COSER, F. J. 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