A INFLUÊNCIA DO PENSAMENTO LIBERAL NA EDUCAÇÃO ?· No período da ditadura militar brasileira (1964-1985)…

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27, 28, 29 e 30 de outubro de 2015 1

Eixo Temtico

9. Poltica Educacional.

Ttulo

A INFLUNCIA DO PENSAMENTO LIBERAL NA EDUCAO BRASILEIRA

NO PERODO EM QUE VIGOROU A DITADURA MILITAR (1964-1985).

Autor(es)

Brianna Souza Barreto - BARRETO, B.S.

Instituio

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PAR

E-mail

briannasb@hotmail.com

Palavras-chave

Pensamento liberal; Educao brasileira; Ditadura militar.

Resumo

Este artigo visou compreender a influncia do pensamento liberal na educao brasileira no perodo em que vigorou a ditadura militar (1964-1985). A pesquisa foi fruto da indagao: Como o pensamento liberal se configurou no campo educacional no governo

ditatorial brasileiro? Como mtodo de investigao adotei a pesquisa bibliogrfica, alm de recorrer a documentos oficiais referentes ao campo educacional vigentes no

perodo em foco. No perodo da ditadura militar brasileira (1964-1985) as influncias liberais proporcionaram mudanas nas estruturas de base e a proposta de educao

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oficial foi redirecionada para formar o indivduo para atender aos novos interesses

socioeconmicos, servindo ao capital.

INTRODUO

O pensamento liberal trouxe uma srie de propostas e mudanas para a

sociedade, o que inclui o campo educacional brasileiro. Este artigo nasceu como

resultado de uma inquietao pessoal acerca de um momento especfico de

materializao da proposta liberal no Governo brasileiro, ainda que naquele momento

histrico j houvesse marcas do liberalismo no campo socioeconmico, a configurao

poltica liberal aconteceu na tomada do poder central pelos militares.

A indagao que impulsionou a pesquisa foi: Como o pensamento liberal se

configurou no campo educacional no governo ditatorial brasileiro? Essa indagao

surgiu, no estudo do liberalismo, ao perceber que o mesmo se configurou de diferentes

maneiras em tempos e momentos histricos pontuais, alterando a forma de apresentao

e mantendo a sua essncia. No Brasil, sobretudo, o liberalismo teve caractersticas

prprias, visto que os ditos liberais brasileiros, desde a chegada desta doutrina nesta

nao, aderiram to somente aos elementos que lhes era interessante para manter a

estrutura econmica de dominao, tendo assim assumido principalmente a postura

poltica liberal, favorecendo a manuteno da explorao do trabalho.

O mtodo de investigao adotado foi a pesquisa bibliogrfica, alm de

recorrer a documentos oficiais referentes ao campo educacional vigentes no perodo em

foco. O percurso escolhido para esclarecer ao questionamento e atender ao objetivo

expostos acima foi expor de maneira sucinta o pensamento liberal a partir do que os

liberais defendem como filosofia, seguido da observao do que no-liberais dizem a

respeito, o que permite perceber diferentes pontos de vista acerca do liberalismo. Aps a

breve exposio do pensamento liberal seguimos para o foco estabelecido, que a

verificao dos indcios do liberalismo no campo educacional no perodo da ditadura

militar brasileira (1964-1985). Para esse momento, recorremos a autores que discutem o

tema, assim como aos documentos educacionais do perodo. As reformas

implementadas pelas legislaes educacionais estudadas revelam a proposta

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socioeconmica alterando as bases educacionais para formar o indivduo adequado ao

novo modelo de sociedade.

2 PENSAMENTO LIBERAL.

O liberalismo um campo terico ou doutrina socioeconmica com difcil

definio, visto que o mesmo se apresenta de forma diferente em momentos histricos e

contextos sociais. Assim, para conceitu-lo, precisamos definir tempo e espao para

perceber de que liberalismo estamos falando.

Para compreender o liberalismo, recorri a autores liberais e no liberais, o

que me possibilitou ver as diferentes formas de interpretar as teorias do referido

pensamento. Iniciarei expondo o pensamento de um liberal.

De acordo com Chaves (2007) o liberalismo uma filosofia poltica e tem a

liberdade como princpio. Para o autor,

A filosofia liberal sustenta-se no princpio fundamental de que quando o

indivduo, ao se associar com outros indivduos, passa a viver em sociedade,

a liberdade torna-se seu bem supremo e, enquanto tal, tem preponderncia

sobre qualquer outro bem que possa ser imaginado. (CHAVES, 2007, p. 07)

O indivduo idealizado pelo liberalismo livre para fazer o que tiver

vontade, desde que no prejudique a liberdade do outro. O indivduo, para eles, o

nico responsvel pelo sucesso ou fracasso de sua vida e de seus ideais. Dessa forma,

eles acreditam que o Estado ideal para eles aquele que menos intervm na sociedade.

Assim, no cabe ao Estado planejar, operar, regular ou fiscalizar atividades

relacionadas prestao de servios de sade, de educao, de seguridade,

etc. as chamadas polticas pblicas. O Estado s tem direito de intervir

nesses afazeres privados quando se tratar de uma presuntiva violao de

direito individual ou quebra de contrato. (CHAVES, 2007, p. 10)

Os liberais, por causa da defesa da liberdade individual e da busca por seus

interesses, no concordam com os direitos sociais afirmados pela Constituio Federal

de 1988. Para eles, os direitos sociais ferem a liberdade por eles proposta, visto que

impem a terceiros deveres positivos que estes no assumiram livremente e que,

portanto, violam o seu direito de agir e de dispor como preferirem de seus bens

(CHAVES, 2007, p. 22). A sociedade dividida em classes, portanto, acontece pela

escolha da classe menos favorecida, que se conforma e estagna na sua vida comum,

como afirmava Smith

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[...] a uniformidade de sua vida estagnada naturalmente corrompe a coragem

de seu esprito, fazendo-o olhar com horror a vida irregular, incerta e cheia de

aventuras de um soldado. Esse tipo de vida corrompe at mesmo sua

atividade corporal, tornando-o incapaz de utilizar sua fora fsica com vigor e

perseverana em alguma ocupao que no aquela para a qual foi criado.

Assim, a habilidade que ele adquiriu em sua ocupao especfica parece ter

sido adquirida s custas de suas virtudes intelectuais, sociais e marciais. Ora,

em toda sociedade evoluda e civilizada, este o estado em que

inevitavelmente caem os trabalhadores pobres isto , a grande massa da

populao a menos que o Governo tome algumas providncias para impedir

que tal acontea (SMITH, 1983, apud SANTANA, 2007, p.102, 103)

A respeito da sociedade, os liberais afirmam que o liberalismo no deve ser

entendido como capitalismo. Sustenta, contudo, a tese de que os servios e bens devem

ser providos com exclusividade pela iniciativa privada. Chaves (2007) afirma que o

Estado deve se abster de prover e regulamentar tais servios, visto acreditar que o

Estado no deve intervir no setor econmico da sociedade.

Sobre a educao, Chaves diz que

a) Sendo a educao um caso especial da rea social, a iniciativa privada que deve prover, com exclusividade, servios e eventualmente bens

na rea de educao, devendo o Estado abs ter-se no s de prover servios e

bens nessa rea como de regulamentar (atravs de legislao e normatizao)

as atividades que nela so exercidas pela iniciativa privada.

b) Sendo o provimento de servios e bens educacionais pela iniciativa privada uma forma no-diferenciada de participao no mercado,

perfeitamente legtimo que esse provimento seja provado daqueles que dele

vo se beneficiar, sendo um contra-senso a noo de que a educao deve ser

gratuita.

c) Embora a educao seja um bem que, em tese, todos deveriam

perseguir, ningum ser obrigado a buscar nem mesmo o seu prprio bem,

tese essa que tem como corolrio a no-obrigatoriedade da educao.

(CHAVES, 2007, p. 37)

A educao, assim como outras demandas da sociedade, no deve ser

atendida pelo Estado liberal, ao contrrio, deve ser desenvolvida e regulamentada pela

livre concorrncia mercadolgica. Afirmam ainda que o indivduo no pode ser

obrigado a freqentar a escola, ainda que isso contribua para o seu prprio bem.

Aps a breve verificao do que os liberais afirmam acerca de seu

pensamento a respeito do indivduo, da sociedade e da educao, passarei a verificar o

que os no-liberais dizem sobre o assunto.

Santana (2007) considera o liberalismo como a ideologia que justifica e

racionaliza os interesses do capital, dessa maneira, servindo de sustentao e

organizao das sociedades capitalistas (p. 87). Assim como o capitalismo se apresenta

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em vrias fases e de diferentes maneiras, o liberalismo, em diferentes tempos e espaos,

altera sua aparncia permanecendo, contudo, sua essncia doutrinria. Ainda que mude

em vrios aspectos, aparece sempre ligado ao capitalismo, colaborando para a

materializao dos interesses do capital. Para tanto, elabora propostas de sociedade

assumindo a defesa pela liberdade do indivduo em contraposio ao tradicionalismo, o

qual ele afirma aprisionar o homem aos interesses da sociedade.

O liberalismo apresenta o projeto de sociedade livre e sem a interveno do

Estado afirmando que os servios sero disponibilizados sociedade pela iniciativa

privada, e a qualidade dos produtos e servios ser de responsabilidade de cada

empresa, e o indivduo dever utilizar sua livre escolha para utilizar os bens e servios

que melhor se ajustarem as suas necessidades. O modelo de livre concorrncia de

mercado apresentado pelo liberalismo, utilizando a mscara de liberdade individual,

responsabiliza o indivduo pelas escolhas que faz, justificando assim que a sociedade de

classes se forma pelo uso da liberdade dos indivduos, afirmando assim que estes vivem

da forma que escolheram diante das opes que o mercado dispe. Aps analisar as

mudanas propostas pelo liberalismo sociedade, Nagle (2009, p.113) declara que a

imagem que decorre da combinao de setores, correntes e movimentos a de uma

sociedade que sofre os impactos que apresentam uma tendncia a provocar alterao nas

bases. A respeito da liberdade proposta pelo liberalismo, afirma Marx (1976, p.156

apud ALVES, 2007, p.81): [...] no vos deixeis enganar pela palavra abstracta

liberdade. Liberdade de quem? No a liberdade de um simples indivduo em presena

de outro indivduo. a liberdade que o capital tem de esmagar o trabalhador.

O indivduo idealizado pelo liberalismo o homo economicus, ou seja,

homem econmico, aquele que influenciado por recompensas materiais, salariais e

econmicas. O liberalismo incentiva, assim, a alta produtividade do indivduo no campo

de trabalho. Como estamos tratando de uma sociedade composta de diferentes camadas

sociais, percebemos a a presena de dois tipos de indivduo: o que oprime e o que

oprimido, o burgus e o proletrio, o patro e o empregado. A cada camada proposta

uma atividade, ao patro a intelectual, o pensar e ao trabalhador simples a instruo

tcnica, e assim acontece a manuteno da estrutura social proposta pelos liberais.

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No que se refere educao, defendem a eliminao do ensino pblico. Para

tal, fazem investimentos baixos, sucateando instituies pblicas educacionais,

justificando a subordinao do processo de ensino ao jogo mercadolgico. Com isso,

excluem do processo crianas e jovens de famlias pobres, tirando delas a possibilidade

de ascenso social por meio de estudos e formao profissional. Para justificar a falsa

liberdade, utilizam exemplo de indivduos que, como excees do sistema, enfrentam as

dificuldades peculiares a classe trabalhadora e alcanam posies das quais foram

excludos naturalmente pelo jogo do capitalismo. A grande massa trabalhadora e seus

filhos so sujeitos ao sucateamento dos servios sociais essenciais (sade, educao,

moradia, etc.) proposta pela suposta liberdade estabelecida para a manuteno e

fortalecimento do sistema capitalista, o qual subjuga e contribui para o empobrecimento

dos mais pobres.

3 INDCIOS DE LIBERALISMO NO CAMPO EDUCACIONAL NA DITADURA MILITAR BRASILEIRA.

Para iniciar essa sesso farei uma breve contextualizao do perodo em

foco: a ditadura militar brasileira (1964-1985).

Sobre a ditadura militar, Romanelli (1986) relata que a partir de 1964 o

Brasil vivenciou um novo direcionamento poltico e econmico causado pela

interveno militar na tomada do poder. O Brasil vivia com um governo burgus

populista, o qual se mostrava contraditrio com o sistema socioeconmico associado ao

capitalismo internacional. As foras armadas, com o discurso de restaurao das

tradies tomaram o poder, assegurando mudanas polticas coerentes com o

capitalismo. A tomada de poder pelos militares no aconteceu sem que houvesse

manifestaes de diversos grupos e movimentos sociais, conforme relata Silva (S/D).

Essas manifestaes foram reprimidas pelo AI5 (Ato Institucional n 5), considerado a

mais dura forma de represso, contudo, nem este ato silenciou os movimentos

contrrios ditadura.

Fernandes (1979, p. 42,43 apud GERMANO, 1990, p. 13) afirma que no

governo ditatorial brasileiro

O poder poltico ultraconcentrado ao nvel estatal e vemos o aparecimento

de uma espcie de Estado neo-absolutista (...). No s porque possui meios

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absolutos de poder; mas ainda porque manipulado por um grupo reduzido

de pessoas ou grupo de pessoas, civis e militares, que ocupam posies

estratgicas de mando, tomam decises sem recorrer ao consentimento

expresso de maiorias ou que dependem do consentimento tcito de pequenos

setores dominantes. Portanto, o governo possui uma quantidade absoluto e

arbitrrio que, em sentido especfico, nem sempre um poder excepcional

ou de emergncia. O poder central no difuso e distribudo pelos trs

poderes (Executivo, Legislativo e Judicirio). (Grifos no original)

Germano (1990, p. xi) afirma que o Estado Militar pode ser dividido em

dois momentos: o primeiro 1964-1974 consolidao e auge do regime ditatorial,

quando foram deflagradas as reformas educacionais e o segundo momento nos anos

1975-1985 crise econmica e poltica do estado militar.

Para Romanelli (1986), a expanso do setor industrial implicava o

estabelecimento de uma reorganizao social, fortalecendo a diviso da sociedade em

camadas que se d...