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  • No estudo das representaes polticas a imprensa constitui fonte dasmais expressivas. Seu papel como uma fora poltica amplamente reconhe-cido, e no Brasil, desde o sculo XIX, ela tem participado ativamente da vidapoltica do Pas, sendo capaz de exercer influncia, expressar posicionamen-tos, ajudando a construir ou a consolidar opinies, como ocorreu, por exem-plo, em relao campanha abolicionista1. H muito tempo os jornais tmdado espao ao tema da Inconfidncia Mineira, quase sempre para a exalta-o de Tiradentes como heri e mrtir, usando-o como modelo em discursosem geral de natureza nacionalista e/ou moralista. A histria de Tiradentespassou a ocupar espao na imprensa com o crescimento do movimento re-

    Revista Brasileira de Histria. So Paulo, v. 22, n 44, pp. 439-462 2002

    A Inconfidncia Mineira e Tiradentesvistos pela Imprensa: a vitalizao

    dos mitos (1930-1960)*Thais Nvia de Lima e Fonseca

    Universidade Federal de Minas Gerais

    RESUMO

    Este artigo analisa as apropriaes, pelaimprensa, das representaes da Incon-fidncia Mineira e especialmente de Ti-radentes, entre as dcadas de 30 e 60 dosculo XX, quando foi muito intensa apreocupao com a memria do movi-mento e de seu mais ilustre personagem.A anlise da produo jornalstica sobreo heri nacional procura identificar osprincipais elementos constituidores des-ses textos indicando, por um lado, a vi-talidade dos mitos e, por outro, o poderpersuasivo das associaes estabelecidasentre o sacrifcio herico de Tiradentese as condutas dos que se colocam comoseus herdeiros, buscando no passado alegitimao para as aes do presente.Palavras-chave: Inconfidncia Mineira;imprensa; representaes polticas.

    ABSTRACT

    This article shows how Brazilian pressappropriates the representations of theInconfidncia Mineira and specially ofTiradentes between the decades of 1930and 1960. It intends to identify the mainelements of these elaborations, such asthe vitality of the national hero myth andthe persuasive power of the associationsbetween Tiradentess sacrifice and hismodern heirs. The legitimation of pre-sent actions is based on past events.Keywords: Inconfidncia Mineira; press;political representations.

  • publicano na segunda metade do sculo XIX e, mais ainda, com a instalaoda prpria Repblica. Desde ento, artigos, poemas, reportagens, ensaios eoutras modalidades de textos tm sido publicados prodigamente, sobretudono momento da celebrao da morte do heri, a 21 de abril.

    Antes mesmo de tornar-se foco de interesse da historiografia, a Inconfi-dncia Mineira j era tema de uma vasta produo de textos de natureza di-versa. Levantamentos j bastante conhecidos indicam expressivo volume depublicaes sobre ela ainda no sculo XIX2. Artigos, conferncias, discursos,romances, contos, peas de teatro, peras e poemas j tomavam a Inconfidn-cia Mineira e seus personagens como tema, na segunda metade do oitocen-tos, demonstrando a existncia de um interesse que no pode ser reputadounicamente a uma construo oficial da memria da conspirao. verdadeque, naquele momento, uma parte do ainda incipiente movimento republi-cano tinha interesse na valorizao da Inconfidncia como fundadora da Re-pblica e, por isso, estimulava sua difuso por diversos mecanismos. Mas creioser possvel perceber tambm outras formulaes, provenientes de tradiesculturais de significao mais ampla para uma parte da populao, ao menosna regio mais proximamente ligada aos episdios do movimento setecentis-ta mineiro. Tambm possvel considerar as influncias de uma cultura pol-tica mais enraizada, de carter autoritrio e personalista, derivada de prticasperceptveis na longa durao, desde os tempos dos mandos dos potentadoslocais das reas de minerao e dos sertes da Capitania das Minas Gerais.

    Se a Inconfidncia Mineira tem sido elemento de suporte a uma deter-minada construo historiogrfica e a projetos e posicionamentos polticosdesde as ltimas dcadas do sculo XIX, Tiradentes desponta como seu sm-bolo, sntese das idias das quais o movimento seria o precursor, no Brasil.Ele se tornou, talvez, o personagem mais popular da histria nacional, adqui-rindo contornos hericos e status de mito poltico. Apesar de muito marcadapela ao dos republicanos e de seus interesses, a construo desse perfil deTiradentes no se deveu apenas a eles. Da popularidade presumida trans-formao em heri e mito poltico, Tiradentes percorreu um caminho sulca-do pela ambincia cultural de seu prprio tempo e pela herana deixada porela em tempos posteriores. Muitas de suas representaes foram, sem dvida,construdas e manipuladas, mas em torno de um imaginrio social especfi-co, que permitiu seu reconhecimento at certo ponto espontneo. A ao po-ltica, por sua vez, promoveu sua consolidao pela utilizao induzida, orga-nizada e intensiva.

    A criao e o enraizamento de mitos polticos, como o caso de Tira-dentes, devem ser entendidos na concretude das experincias e das refern-cias sociais que naturalizaram a sua aceitao, permitindo sua circulao,seu reconhecimento e facilitando sua apropriao. Os elementos que com-

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    Thais Nvia de Lima e Fonseca

    Revista Brasileira de Histria, vol. 22, n 44

  • pem as representaes predominantes da Inconfidncia e, sobretudo, de seumrtir como as idias de liberdade, coragem, abnegao, sacrifcio, patrio-tismo so parte integrante das experincias sociais, culturais e polticas dasociedade brasileira, desde o sculo XVIII. Sem essas experincias coletivas,as tentativas dos republicanos de entronizar Tiradentes como o heri mxi-mo da nao, com as caractersticas que o eternizaram, no teriam obtido su-cesso, pois no encontrariam ressonncia junto populao, ou seja, no es-tariam imbudas de referncias reconhecveis por ela. No se pode esquecer,ainda, que os prprios republicanos tambm eram parte integrante daquelasociedade, compartilhando das mesmas experincias e, portanto, valorizan-do-as como referncias na construo de sua viso da Inconfidncia Mineira.

    As primeiras obras sobre a Inconfidncia Mineira, datadas da segundametade do sculo XIX, produziram-se num contexto de disputas entre repu-blicanos e monarquistas quando, sobretudo os primeiros, buscavam afirma-o no cenrio poltico brasileiro. bastante conhecida a obra de JoaquimNorberto de Souza Silva que, em resposta ao movimento de entronizao deTiradentes levado a efeito pelos clubes republicanos, publicou, em 1873, a suaHistria da Conjurao Mineira3. As polmicas suscitadas por sua abordagem acusada de depreciar a imagem de Tiradentes produziram outros tra-balhos que procuraram demonstrar a verdadeira histria do movimento ea verdadeira face de seu personagem mais conhecido. Um dos mais impor-tantes foi Inconfidncia Mineira papel de Tiradentes na Inconfidncia Mi-neira, de Lcio Jos dos Santos 4, publicado originalmente em 1927. No ras-tro desse movimento de reabilitao, ou antes, de defesa da integridade doheri republicano, outras obras vieram somar-se a uma bibliografia que setornou vasta, porm pouco inovadora, marcada por abordagens de cunhomarcadamente tradicional5.

    Estes textos, escritos em pocas diversas, tm em comum a preocupaocom a construo de uma verso para a Inconfidncia Mineira na qual se acen-tua o carter exaltador, nacionalista e patritico. Buscando subsdios nos Au-tos de Devassa, esses autores empenham-se na busca da verdade histrica,dissipadora de dvidas sobre o real significado do movimento setecentista,sobre o papel desempenhado por seus protagonistas e, sobretudo, que reforcea legitimidade da Inconfidncia Mineira como movimento precursor da In-dependncia e de Tiradentes, como seu protomrtir e heri mximo da na-o. Em praticamente todos eles est presente a crtica, muitas vezes apaixo-nada, da obra de Joaquim Norberto e o cuidado na refutao, ponto por ponto,de sua verso dos fatos. Alm disso, em muitos desses trabalhos nota-se umaindisfarvel conotao regionalista que procura, por meio da exaltao daInconfidncia, afirmar uma identidade regional, talvez a chamada mineiri-dade. Esta forma de abordagem est fortemente marcada por uma concep-

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    A Inconfidncia Mineira e Tiradentes vistos pela Imprensa

    Dezembro de 2002

  • o de histria de herana tradicional, bem aos moldes do Instituto Histricoe Geogrfico Brasileiro, sobretudo em sua vertente republicana. So geralmen-te textos descritivos, fundamentados numa leitura linear nos Autos de Devas-sa da Inconfidncia Mineira, excessivamente preocupados com uma corretacronologia, com a montagem de um perfil pessoal favorvel de todos os in-confidentes exceto, claro, dos delatores , maniquestas e com discut-vel estruturao terico-metodolgica. No obstante, so as matrizes a partirdas quais a histria da Inconfidncia Mineira tem sido predominantementeconstruda e difundida, especialmente pelos meios de comunicao e pela es-cola. Curioso que, mesmo quando provenientes de posicionamentos polti-cos distintos e, s vezes, opostos, o pano de fundo elaborado nestas obras, coma preocupao de enaltecer o movimento e seu heri, permanece inalterado.

    A partir da dcada de 1960, alguns trabalhos mais consistentes dedica-ram-se discusso da Inconfidncia em outras dimenses, mais preocupadoscom suas relaes com a crise do Antigo Sistema Colonial, levantando a ques-to do carter revolucionrio do movimento e de seus limites, analisando asrelaes sociais presentes na conspirao, procedendo, enfim, a uma reflexomenos linear, menos apaixonada da Inconfidncia e evitando, ao mximo,concentrar sua ateno na figura de Tiradentes6. Essa vertente demonstrava,evidentemente, uma reao contra a historiografia tradicional sobre o tema.Um desses trabalhos, Idia de Revoluo no Brasil, de Carlos Guilherme Mo-ta7, inovou ao propor uma reflexo dos movimentos anti-coloniais do pontode vista de suas formulaes ideolgicas e polticas, sem preocupar-se com acronologia tradicional dos fatos ou a participao mais marcada dos perso-nagens. Kenneth Maxwell, em seu A devassa da devassa8 verticalizou a anliseapro