A Inconfidência Mineira e Tiradentes vistos pela Imprensa ... ?· dado espaço ao tema da Inconfidência…

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  • No estudo das representaes polticas a imprensa constitui fonte dasmais expressivas. Seu papel como uma fora poltica amplamente reconhe-cido, e no Brasil, desde o sculo XIX, ela tem participado ativamente da vidapoltica do Pas, sendo capaz de exercer influncia, expressar posicionamen-tos, ajudando a construir ou a consolidar opinies, como ocorreu, por exem-plo, em relao campanha abolicionista1. H muito tempo os jornais tmdado espao ao tema da Inconfidncia Mineira, quase sempre para a exalta-o de Tiradentes como heri e mrtir, usando-o como modelo em discursosem geral de natureza nacionalista e/ou moralista. A histria de Tiradentespassou a ocupar espao na imprensa com o crescimento do movimento re-

    Revista Brasileira de Histria. So Paulo, v. 22, n 44, pp. 439-462 2002

    A Inconfidncia Mineira e Tiradentesvistos pela Imprensa: a vitalizao

    dos mitos (1930-1960)*Thais Nvia de Lima e Fonseca

    Universidade Federal de Minas Gerais

    RESUMO

    Este artigo analisa as apropriaes, pelaimprensa, das representaes da Incon-fidncia Mineira e especialmente de Ti-radentes, entre as dcadas de 30 e 60 dosculo XX, quando foi muito intensa apreocupao com a memria do movi-mento e de seu mais ilustre personagem.A anlise da produo jornalstica sobreo heri nacional procura identificar osprincipais elementos constituidores des-ses textos indicando, por um lado, a vi-talidade dos mitos e, por outro, o poderpersuasivo das associaes estabelecidasentre o sacrifcio herico de Tiradentese as condutas dos que se colocam comoseus herdeiros, buscando no passado alegitimao para as aes do presente.Palavras-chave: Inconfidncia Mineira;imprensa; representaes polticas.

    ABSTRACT

    This article shows how Brazilian pressappropriates the representations of theInconfidncia Mineira and specially ofTiradentes between the decades of 1930and 1960. It intends to identify the mainelements of these elaborations, such asthe vitality of the national hero myth andthe persuasive power of the associationsbetween Tiradentess sacrifice and hismodern heirs. The legitimation of pre-sent actions is based on past events.Keywords: Inconfidncia Mineira; press;political representations.

  • publicano na segunda metade do sculo XIX e, mais ainda, com a instalaoda prpria Repblica. Desde ento, artigos, poemas, reportagens, ensaios eoutras modalidades de textos tm sido publicados prodigamente, sobretudono momento da celebrao da morte do heri, a 21 de abril.

    Antes mesmo de tornar-se foco de interesse da historiografia, a Inconfi-dncia Mineira j era tema de uma vasta produo de textos de natureza di-versa. Levantamentos j bastante conhecidos indicam expressivo volume depublicaes sobre ela ainda no sculo XIX2. Artigos, conferncias, discursos,romances, contos, peas de teatro, peras e poemas j tomavam a Inconfidn-cia Mineira e seus personagens como tema, na segunda metade do oitocen-tos, demonstrando a existncia de um interesse que no pode ser reputadounicamente a uma construo oficial da memria da conspirao. verdadeque, naquele momento, uma parte do ainda incipiente movimento republi-cano tinha interesse na valorizao da Inconfidncia como fundadora da Re-pblica e, por isso, estimulava sua difuso por diversos mecanismos. Mas creioser possvel perceber tambm outras formulaes, provenientes de tradiesculturais de significao mais ampla para uma parte da populao, ao menosna regio mais proximamente ligada aos episdios do movimento setecentis-ta mineiro. Tambm possvel considerar as influncias de uma cultura pol-tica mais enraizada, de carter autoritrio e personalista, derivada de prticasperceptveis na longa durao, desde os tempos dos mandos dos potentadoslocais das reas de minerao e dos sertes da Capitania das Minas Gerais.

    Se a Inconfidncia Mineira tem sido elemento de suporte a uma deter-minada construo historiogrfica e a projetos e posicionamentos polticosdesde as ltimas dcadas do sculo XIX, Tiradentes desponta como seu sm-bolo, sntese das idias das quais o movimento seria o precursor, no Brasil.Ele se tornou, talvez, o personagem mais popular da histria nacional, adqui-rindo contornos hericos e status de mito poltico. Apesar de muito marcadapela ao dos republicanos e de seus interesses, a construo desse perfil deTiradentes no se deveu apenas a eles. Da popularidade presumida trans-formao em heri e mito poltico, Tiradentes percorreu um caminho sulca-do pela ambincia cultural de seu prprio tempo e pela herana deixada porela em tempos posteriores. Muitas de suas representaes foram, sem dvida,construdas e manipuladas, mas em torno de um imaginrio social especfi-co, que permitiu seu reconhecimento at certo ponto espontneo. A ao po-ltica, por sua vez, promoveu sua consolidao pela utilizao induzida, orga-nizada e intensiva.

    A criao e o enraizamento de mitos polticos, como o caso de Tira-dentes, devem ser entendidos na concretude das experincias e das refern-cias sociais que naturalizaram a sua aceitao, permitindo sua circulao,seu reconhecimento e facilitando sua apropriao. Os elementos que com-

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  • pem as representaes predominantes da Inconfidncia e, sobretudo, de seumrtir como as idias de liberdade, coragem, abnegao, sacrifcio, patrio-tismo so parte integrante das experincias sociais, culturais e polticas dasociedade brasileira, desde o sculo XVIII. Sem essas experincias coletivas,as tentativas dos republicanos de entronizar Tiradentes como o heri mxi-mo da nao, com as caractersticas que o eternizaram, no teriam obtido su-cesso, pois no encontrariam ressonncia junto populao, ou seja, no es-tariam imbudas de referncias reconhecveis por ela. No se pode esquecer,ainda, que os prprios republicanos tambm eram parte integrante daquelasociedade, compartilhando das mesmas experincias e, portanto, valorizan-do-as como referncias na construo de sua viso da Inconfidncia Mineira.

    As primeiras obras sobre a Inconfidncia Mineira, datadas da segundametade do sculo XIX, produziram-se num contexto de disputas entre repu-blicanos e monarquistas quando, sobretudo os primeiros, buscavam afirma-o no cenrio poltico brasileiro. bastante conhecida a obra de JoaquimNorberto de Souza Silva que, em resposta ao movimento de entronizao deTiradentes levado a efeito pelos clubes republicanos, publicou, em 1873, a suaHistria da Conjurao Mineira3. As polmicas suscitadas por sua abordagem acusada de depreciar a imagem de Tiradentes produziram outros tra-balhos que procuraram demonstrar a verdadeira histria do movimento ea verdadeira face de seu personagem mais conhecido. Um dos mais impor-tantes foi Inconfidncia Mineira papel de Tiradentes na Inconfidncia Mi-neira, de Lcio Jos dos Santos 4, publicado originalmente em 1927. No ras-tro desse movimento de reabilitao, ou antes, de defesa da integridade doheri republicano, outras obras vieram somar-se a uma bibliografia que setornou vasta, porm pouco inovadora, marcada por abordagens de cunhomarcadamente tradicional5.

    Estes textos, escritos em pocas diversas, tm em comum a preocupaocom a construo de uma verso para a Inconfidncia Mineira na qual se acen-tua o carter exaltador, nacionalista e patritico. Buscando subsdios nos Au-tos de Devassa, esses autores empenham-se na busca da verdade histrica,dissipadora de dvidas sobre o real significado do movimento setecentista,sobre o papel desempenhado por seus protagonistas e, sobretudo, que reforcea legitimidade da Inconfidncia Mineira como movimento precursor da In-dependncia e de Tiradentes, como seu protomrtir e heri mximo da na-o. Em praticamente todos eles est presente a crtica, muitas vezes apaixo-nada, da obra de Joaquim Norberto e o cuidado na refutao, ponto por ponto,de sua verso dos fatos. Alm disso, em muitos desses trabalhos nota-se umaindisfarvel conotao regionalista que procura, por meio da exaltao daInconfidncia, afirmar uma identidade regional, talvez a chamada mineiri-dade. Esta forma de abordagem est fortemente marcada por uma concep-

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  • o de histria de herana tradicional, bem aos moldes do Instituto Histricoe Geogrfico Brasileiro, sobretudo em sua vertente republicana. So geralmen-te textos descritivos, fundamentados numa leitura linear nos Autos de Devas-sa da Inconfidncia Mineira, excessivamente preocupados com uma corretacronologia, com a montagem de um perfil pessoal favorvel de todos os in-confidentes exceto, claro, dos delatores , maniquestas e com discut-vel estruturao terico-metodolgica. No obstante, so as matrizes a partirdas quais a histria da Inconfidncia Mineira tem sido predominantementeconstruda e difundida, especialmente pelos meios de comunicao e pela es-cola. Curioso que, mesmo quando provenientes de posicionamentos polti-cos distintos e, s vezes, opostos, o pano de fundo elaborado nestas obras, coma preocupao de enaltecer o movimento e seu heri, permanece inalterado.

    A partir da dcada de 1960, alguns trabalhos mais consistentes dedica-ram-se discusso da Inconfidncia em outras dimenses, mais preocupadoscom suas relaes com a crise do Antigo Sistema Colonial, levantando a ques-to do carter revolucionrio do movimento e de seus limites, analisando asrelaes sociais presentes na conspirao, procedendo, enfim, a uma reflexomenos linear, menos apaixonada da Inconfidncia e evitando, ao mximo,concentrar sua ateno na figura de Tiradentes6. Essa vertente demonstrava,evidentemente, uma reao contra a historiografia tradicional sobre o tema.Um desses trabalhos, Idia de Revoluo no Brasil, de Carlos Guilherme Mo-ta7, inovou ao propor uma reflexo dos movimentos anti-coloniais do pontode vista de suas formulaes ideolgicas e polticas, sem preocupar-se com acronologia tradicional dos fatos ou a participao mais marcada dos perso-nagens. Kenneth Maxwell, em seu A devassa da devassa8 verticalizou a anliseaprofundando-se na documentao mais conhecida sobre a Inconfidncia,articulando-a a outras fontes, propondo uma abordagem inovadora e maiscomplexa do movimento. No obstante, cuidou de no negligenciar os indi-vduos que dele participaram, na medida em que fixou, na anlise da teia derelaes sociais estabelecidas entre os grupos atuantes na Inconfidncia, umdos alicerces de sua anlise. Essa obra tornou-se uma referncia fundamentalnos estudos sobre a Inconfidncia. Mais recentemente, Joo Pinto Furtadorealizou um mergulho na anlise relacional das fontes, promovendo uma re-leitura dos Autos de Devassa9. mister ressaltar que alguns estudos no pro-priamente voltados para a Inconfidncia Mineira, mas para o conjunto dassedies coloniais em Minas Gerais, muito tm contribudo para o avanodas reflexes sobre a natureza desses movimentos e sua insero no universocolonial. Entre esses trabalhos merecem destaque os estudos de Laura de Mel-lo e Souza e Carla Maria Junho Anastasia10.

    A partir dos anos 90, uma reflexo mais crtica sobre o movimento, seusignificado e sua historiografia, tem gerado alguns trabalhos inovadores. De-

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  • bates em eventos acadmicos, organizados na ocasio das comemoraes dosbicentenrios da Inconfidncia e do enforcamento de Tiradentes (em 1989 e1992, respectivamente), trouxeram nova luz discusso. Alm de balanos daproduo historiogrfica sobre o tema, esses encontros provocaram a refle-xo sobre a comemorao, suas representaes, seus significados simblicos,sua insero no imaginrio coletivo. Nesse momento foi possvel perceber aspossibilidades de outras vertentes, de novas abordagens para um objeto tocurtido e repisado, ao mesmo tempo que espinhoso e tratado quase semprede forma unssona. Os aportes da Histria Cultural, os estudos sobre o ima-ginrio, o simblico e as representaes apareceram no cenrio sinalizandoos caminhos possveis para a anlise da Inconfidncia Mineira sem os vciosnacionalistas da historiografia tradicional, e sem as generalizaes das anli-ses estruturais. Uma releitura das idias, das leituras dos intelectuais setecen-tistas, a reflexo sobre o carter construdo do evento histrico, sobre suasapropriaes a posteriori, a discusso sobre o mito e seu papel no cenrio po-ltico e cultural brasileiro, foram algumas das possibilidades indicadas pelasdiscusses promovidas a partir do momento comemorativo11. Uma discussoimportante, verdade, apesar de concentrada, ainda, na reflexo terica. Ca-recemos, portanto, do mergulho nas fontes. Nas tradicionais, como os Autosda Devassa, e nas menos exploradas, prenhes, no entanto, de potencial eluci-dativo, principalmente no mbito da histria da cultura, do imaginrio e dosimblico. Estas esperam at agora pelo historiador da Inconfidncia Minei-ra. Tiradentes ainda espera ser revelado, sem preconceitos, como o mito vivoque, de fato, .

    Alguns poucos trabalhos tm buscado esse manancial e tm aberto asfronteiras para os avanos neste campo. Jos Murilo de Carvalho j havia in-dicado alguns caminhos para a pesquisa dessa problemtica, discutindo, emA formao das almas12, a construo do mito de Tiradentes pelos republica-nos no final do sculo XIX. Seguindo a trilha traada por Maurice Agulhonpara a Frana13, Carvalho tratou da apropriao, no Brasil, de um conjuntode smbolos e mitos republicanos de matriz francesa, no processo de estrutu-rao da Repblica brasileira. Inspirados por esse trabalho, temos, j na dca-da de 90, as anlises de Eliana Dutra e de Srgio Vaz Alkmin14, que se preocu-param, especialmente, com o processo de formulao de uma imagemsacralizada e cristianizada da Inconfidncia Mineira e de Tiradentes, toman-do como base os relatos dos frades que assistiram os inconfidentes em seu pe-rodo de priso no Rio de Janeiro15. Esse tipo de abordagem representa, de fa-to, um retorno aos documentos, a valorizao de uma pesquisa emprica maisapurada, a busca de uma nova leitura, de aspectos ainda no tratados nestasfontes que, apesar de j muito utilizadas, ainda tm muito a revelar.

    Apropriando-se das representaes predominantes, sobretudo de Tira-

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  • dentes, fundadas num perfil sacralizado do alferes mineiro e sedimentado poraquela historiografia tradicional e nacionalista, os jornais produziram, prin-cipalmente ao longo do sculo XX, rico manancial de registros que permitema anlise de alguns dos perodos mais significativos da recente histria polti-ca do Brasil. Utilizando-se dos mais diversos recursos expressos em textosde natureza bastante variada os jornais tiveram um relevante papel no pro-cesso de difuso e de consolidao dessas representaes. Foram, alm disso,poderosos instrumentos de legitimao de projetos polticos e de ideologias,e entre 1930 e 1960 expressaram de forma intensa as tenses vividas entre osgrupos em conflito naquele momento.

    Em Minas Gerais, uma grande intensidade dessas referncias pode sercreditada importncia que o tema assumiu na construo e na manutenode uma identidade regional, apropriada com bastante regularidade na prticapoltica, desde as primeiras dcadas do sculo XX. No entrarei aqui na sea-ra, certamente polmica, da chamada mineiridade, como elemento daquelaidentidade. certo que esse trao identitrio trabalhado pelo imaginriono apenas em Minas Gerais, mas tambm em outras partes do Brasil temsido fartamente explorado, tanto pela literatura e pelos meios de comunica-o quanto pela poltica. No raro tem servido de suporte aos discursos so-bre Tiradentes e sobre sua posio precursora no processo de independnciado Brasil, como evidncia de um suposto pioneirismo libertador dos minei-ros e, em determinadas pocas, de sua proeminncia no cenrio poltico doPas. Mas as apropriaes das representaes de Tiradentes no s ultrapas-sam, como no se sustentam em uma suposta mineiridade, e por isso queesta ltima no constitui, aqui, objeto de reflexo, mesmo que aparea emmuitos discursos sobre o tema. Interessa, no momento, acentuar como se pro-duziram os olhares da imprensa sobre a Inconfidncia Mineira e sobre a atua-o de Tiradentes, especialmente em alguns momentos em que eles forammais intensamente utilizados como instrumentos de valorizao de posiespolticas e de projetos de construo nacional.

    Os textos sobre a Inconfidncia Mineira e sobre Tiradentes, publicadosnos jornais entre as dcadas de 30 e 60, possuam autoria variada16: historia-dores de tendncia tradicional, geralmente ligados aos institutos histricos;juristas; diplomatas; polticos; professores; cronistas, romancistas e poetas;jornalistas; no raro intelectuais catlicos militantes. s vezes tambm clri-gos. Isso sem considerar os textos escritos para ou por crianas, em geral pu-blicados nos cadernos destinados ao pblico infantil. Se havia uma grandevariedade de autores, o mesmo no se pode dizer das temticas. Claro, o te-ma de fundo sempre Tiradentes ou a conspirao de uma forma geral. Masno relevo, uma fastidiosa repetio: snteses da histria da Inconfidncia Mi-neira, geralmente baseadas em obras mais conhecidas na poca17; biografias

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  • de Tiradentes ou comentrios sobre seu perfil e carter; narrativas sobre aexecuo de Tiradentes, quase sempre com nfase na crueldade e insensibili-dade das autoridades portuguesas; em menor nmero, mas no menos enf-ticas, as anlises sobre a poltica colonial portuguesa e os abusos cometidosem nome dela.

    Quando falo da fastidiosa repetio no me refiro apenas pouca varia-o, mas ocorrncia de um quase-padro de abordagem, o que s vezes fazda leitura dessas fontes um exerccio de pacincia. Por outro lado, justamen-te essa repetio que permite perceber o movimento de circulao e de valo-rizao das representaes de Tiradentes e dos significados a elas atribudos,bem como perceber as sutis modificaes apresentadas em determinados mo-mentos. Em meio s narrativas bastante previsveis, destacavam-se as ligaesestabelecidas entre os episdios do passado e os problemas e situaes vivi-dos no presente. Embora mantivesse seu perfil, Tiradentes podia ser utilizadodiferentemente, conforme os interesses e as circunstncias.

    Muito raramente, encontram-se vozes dissonantes no concerto laudat-rio ao protomrtir da Independncia do Brasil. Mesmo textos satricos pre-servavam o heri, enquanto teciam crticas ao governo, a polticos ou a ou-tras figuras de relevo. Poucos se aventuraram a contestar, timidamente quefosse, o conjunto de imagens consagradas, como fez o escritor Eduardo Friei-ro, logo refutado por outros ensastas. Em artigo publicado no jornal Estadode Minas, ele se mostrava incomodado com o tom laudatrio predominante:

    Na Historiografia do Tiradentes, o tom apologtico e a inflao verbal, exaltada-

    mente patriticos, prprios para despertar emoes para adolescentes, torna-

    ram quase temerrio o ponto de vista dos que consideram o drama da Inconfi-

    dncia Mineira com certa frieza realista. No tem faltado, entretanto, vozes

    autorizadas que subestimam a importncia histrica da conjura larvar de 1789

    e reduzam a propores modestas o papel do homem afoito que pagou com a

    vida por falar demais e deitou a perder poetas, padres, doutores e militares pelo

    nico crime de terem externado o seu inconformismo poltico18.

    Frieiro trabalhou, neste artigo, com as idias de Joaquim Norberto deSouza Silva e de Capistrano de Abreu, no intuito de demonstrar a existnciade outras verses sobre a conspirao e sobre o papel de Tiradentes. Sua in-teno ficou explicitada em suas perguntas: Houve na realidade, uma tentati-va sria de levante? Foi o Tiradentes verdadeiramente o chefe dessa tentativa?19

    Sua preocupao com a verdade sobre essa histria levou-o a argumentoscontrrios exaltao, mas isso no indica que fosse, ele prprio, partidriodesses argumentos. Na verdade, ao final do artigo, Frieiro voltou represen-tao mais aceita que, mesmo considerando a possibilidade de um compor-

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  • tamento atrapalhado de Tiradentes, no alterou sensivelmente sua posiocomo mrtir ou como heri, mesmo quando deixou entrever suas fraquezas:

    O Tiradentes pagou por falar demais. Pagou mais que os outros porque era ummestio, de casta inferior, o mais humilde dos indiciados na devassa. Sua menteinflamada, tpica do indivduo impulsivo e generoso que est sempre pronto afazer justia por seu prprio arbtrio, comprometeu irremediavelmente os per-sonagens do tenebroso drama urdido pela polcia poltica do tempo, truculentae feroz como todas as justias polticas. Mas a dignidade que conservou na pro-vocao, em contraste com a pusilanimidade de quase todos os indiciados, o ho-locausto de sua vida, exigido pelo absolutismo liberticida, o redimiram de todasas imprudncias e leviandades. Sua sombra legendria de vtima do despotismomerece o respeito da Histria20.

    No obstante o afloramento de uma viso muito prxima ao objeto desua prpria crtica, o artigo de Frieiro no deixou de provocar objees, pu-blicadas em outro jornal de Belo Horizonte, algumas semanas depois. O au-tor, conhecido por seus textos e poemas laudatrios, refutava Frieiro:

    Quem l o volumoso processo da alada, pode duvidar de todas as provas alicondensadas, menos das que apontam em Tiradentes o chefe virtual, o condu-tor popular da conjura abominvel. Tiradentes resistir sempre negao dosCapistranos e dos Norbertos, s chamadas restries eruditas de um ensasta dafora do nosso Eduardo Frieiro. Se o alferes era um baixo e desavisado demago-go, um dementado, como querem os seus restricionistas, por que lhe atribuemos magistrados que o julgaram funo principal no movimento?21

    Nessas posies ficam claros alguns aspectos importantes na construodo perfil herico de Tiradentes, que acaba por utilizar suas fraquezas, sua si-tuao social inferior, e at mesmo seus supostos erros, como elementos devalorizao de sua pessoa e de sua atuao. No fim, todos acabam por con-cordar que, pela morte, ele superou todas as restries, qualquer que fosse suanatureza, e fez despontar, postumamente, todas as suas verdadeiras quali-dades. No difcil perceber as possibilidades de aceitao dessa representa-o e, tambm, de sua manipulao junto ao pblico em geral, a partirde uma percepo deste Tiradentes que, apesar de pobre e fraco, poderia sim-bolizar as conquistas de toda uma nao.

    Os textos aparecidos na imprensa entre as dcadas de 30 e 60 do nove-centos, embora perpassados pelo discurso laudatrio mais tradicional, po-dem ser reunidos, basicamente, em trs estilos de tratamento do tema, aosquais denominei o historiogrfico, o romanesco, e o cristo. Alm deles, h ain-

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  • da a transcrio de discursos proferidos durante as comemoraes de 21 deabril, importantes registros acerca das apropriaes polticas das representa-es aqui examinadas. Evidentemente, propor uma tipologia correr o ris-co de uma certa reduo. No entanto, creio poder faz-lo com o intuito demostrar tendncias que tiveram grande vitalidade, no sendo exclusivas doperodo em foco neste momento. Ademais, esses textos eram, no raro, o pa-no de fundo para a expresso de posicionamentos polticos e para o confron-to entre eles.

    O primeiro estilo, mais comum, consistia na reelaborao contnua desnteses da histria da Inconfidncia Mineira e de Tiradentes, inspiradas nasobras, na poca, mais conhecidas sobre o tema (as de Joaquim Norberto e deLcio dos Santos e, mais ao final da dcada de 50, de Augusto de Lima J-nior). Os jornais no se cansavam de transcrever trechos dos Autos de Devas-sa, principalmente da sentena da alada que, certamente, tornou-se muitoconhecida por sua intensa reproduo nas pginas desses peridicos. Ao fa-z-lo estavam, evidentemente, acentuando o episdio da morte do heri e,no raro, reforando uma viso negativa da colonizao portuguesa no Bra-sil, que seria culpada, em ltima instncia, pelo drama da Inconfidncia. Noh dvida de que este tipo de texto muito colaborou para a difuso de umainterpretao tradicional da histria do movimento e, sobretudo, de uma ima-gem herica de Tiradentes, tendncia que j podia ser observada desde o in-cio dos anos 30:

    Faz hoje cento e quarenta anos que a cidade presenciou emocionada a execuode Tiradentes. Era o eplogo do glorioso sonho dos inconfidentes mineiros de1789. Supliciado o valoroso soldado, dispersos pelos degredos da frica os de-mais conjurados, julgava o governo de Lisboa estar aniquilando no Brasil o an-seio de liberdade. Puro engano22.

    Comemora-se a 21 de abril a passagem do aniversrio da morte de JoaquimJos da Silva Xavier o Tiradentes bravo mineiro que, em 1792 resgatoucom a vida o crime de conspirar contra o domnio portugus no Brasil, tornan-do-se o grande precursor de nossa independncia poltica23.

    Os dois textos, alm de ressaltar a dimenso sacrificial, no deixam deexternar o peso do domnio portugus sobre o Brasil. O segundo autor, de-pois de deter-se longamente na biografia de Tiradentes, na qual enfatiza suapredisposio para a luta, sua indignao com as injustias e sua coragem aose rebelar, conclui com o enforcamento de Tiradentes, o fim trgico de umavida que, ansiosa de liberdade, vibrante de patriotismo, um dia cometeu o crimede se insurgir contra o domnio estrangeiro em sua terra24. Embora no exclusi-vas da dcada de 30, as idias de patriotismo e de nacionalismo tinham nesta

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  • poca significado mais acentuado e, associadas a um episdio to valorizadona histria brasileira, ganhavam, certamente, em legitimidade. A refernciaao domnio estrangeiro em sua terra poderia expressar o entendimento da exis-tncia, j no sculo XVIII, de um sentimento nacional formado, legitimando,pelo passado, as lutas nacionalistas daquele presente. Poderia ainda fazer re-ferncias indiretas aos recentes acontecimentos, ligados aos embates com oscomunistas, vistos pelo regime como ameaas integridade e soberania na-cionais, resultantes de uma nefasta influncia externa25.

    O segundo tipo de texto, aqui chamado de romanesco, construa, sobreas verses historiogrficas existentes, situaes idealizadas envolvendo Tira-dentes, nas quais suas qualidades excepcionais eram agigantadas, reforandosua condio herica. Muitas vezes eram textos da fatura de membros de ins-titutos histricos, alm de sarem tambm da pena de literatos:

    Tiradentes, a cavalo, com a mo esquerda segurava as rdeas e com a direita abriaa porteira do curral da fazenda de Varginha. Apeava-se e era recebido na varan-da onde grossas colunas, capazes de sustentar, no o telhado, mas torres de pe-dra, davam casa o aspecto de fortaleza tranqila de sua segurana e inexpug-nabilidade26.

    Nesse texto, o ento diretor do Instituto Histrico e Geogrfico de OuroPreto buscava inspirao na narrativa ficcional para falar dos encontros deTiradentes com seus companheiros, e imaginar situaes vividas pelo alferes,que teriam tido influncia no desenvolvimento de suas idias revolucion-rias. Aqui, numa fazenda, ele veria o sofrimento dos escravos e refletiria sobrea necessidade da abolio da escravido no Brasil.

    Na composio de textos de natureza romntica, a vida pessoal de Tira-dentes ganharia maiores atrativos quando alguns autores procuraram expli-car sua trajetria at a conspirao em funo de suas desventuras amorosas.Um artigo publicado no Dirio de Minas, depois de comparar fisicamente Ti-radentes aos astros do cinema brasileiro da poca, brindava os leitores comuma narrativa que bem poderia se tornar um roteiro para as telas. Vale a pe-na resgat-lo, apesar de sua extenso:

    Aos vinte anos de idade teve a sua grande paixo amorosa. O amor que mudouos rumos de sua vida. O amor que permaneceu na memria do tempo e abriuoutros roteiros na jornada do heri.

    Ele amou como criatura humana. Teve seus sonhos lricos, balbuciou juras deeterno amor, sentiu nos lbios o doce gosto dos beijos que nascem na fonte purado corao. Tiradentes teve o seu primeiro e grande amor na figura de Maria,uma jovem filha do ourives de So Joo del Rey. (...) Maria encheu-lhe a vida de

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  • ternura e lirismo. Era bela nos seus quinze anos. Dotada sob todos os pontos de

    vista. O pai, reinol orgulhoso, se ops ao romance pois no consentiria que sua

    filha primognita se casasse com colono, caboclo moreno. E o namoro foi des-

    feito sob o impacto reacionrio do pai cheio de preconceitos. Ficaram apenas as

    recordaes dos encontros secretos nos labirintos da casa da Pedra na cidade de

    Tom Pontes e Tancredo Neves. Para esquec-la sentou praa. Andou pelos ma-

    tos, pelos sertes, pelas minas, pelas encruzilhadas. Maria, porm, ocupava defi-

    nitivamente um lugar no largo corao do moo Joaquim Jos da Silva Xavier,

    cujos irmos mais velhos foram sentar praa no invencvel Exrcito de Cristo,

    tomando hbito.

    Outras mulheres passaram pela vida do futuro alferes e mrtir da liberdade.

    Nenhuma conseguiu eclipsar aquela doce Maria, de fala doce, olhar suave como

    estampa de santa, de cabeleira solta aos beijos da brisa vespertina.

    Apenas uma adorvel criatura encheu o claro aberto pela fuga de Maria. Deu-

    lhe carinho e dois filhos. Deu-lhe a constncia de um amor que se projetou na

    histria. Era a companheira do heri, a musa do conspirador, a confidente do

    sonhador consciente, Eugenia Maria de Jesus a grande companheira de Tira-

    dentes. Amor nascido nas sombrias e misteriosas noites de Vila Rica. Dizem que

    era linda, alta, olhos grandes e pretos como aqueles contados no Gondoleiro do

    Amor, de Castro Alves. Poderia muito bem ser chamada Eugenia Maria de Je-

    sus, a Marlia do Alferes. Foi-lhe fiel. Esperava-o sempre de suas peregrinaes

    audaciosas pelos stios e veredas. Guardava para o amante o relicrio de suas ter-

    nuras. Alisava os revoltos cabelos do heri inquieto. Consertava suas camisas,

    suas vistosas fardas, limpava suas botas, e noite, solfejava canes de amor, com

    o travo da melancolia, para o acalanto do bem amado. Eugenia Maria de Jesus, a

    companheira fiel de Tiradentes, com a morte do heri e o seqestro de todos os

    seus bens (...) fugiu de Vila Rica. Sob a proteo do comerciante Belchior Bel-

    tro, amigo do alferes, Eugenia tomou o rumo do Quartel Geral, prximo de

    Dores do Indai, onde viveu alguns anos com os dois filhos cujo pai foi o mrtir

    inigualvel da liberdade poltica do Brasil27.

    O autor procurava preencher uma lacuna na biografia de Tiradentes, ca-ra s histrias dos heris: a mulher amada, a companheira. Poucas foram asobras que se detiveram sobre este aspecto da vida de Joaquim Jos da SilvaXavier. Uma das excees o livro Tiradentes, de Oiliam Jos, que dedicou aotema o captulo Fraquezas de Homem. O autor, depois de uma rpida an-lise do ambiente moral colonial no qual se inseria Tiradentes, dizendo que elevivia as liberdades que a sociedade mineira do tempo aceitava ou, pelo menos,tolerava, desculpa o comportamento do heri, pois

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    A Inconfidncia Mineira e Tiradentes vistos pela Imprensa

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  • (...) o amor est presente em toda vida humana, para conduzi-la a um dos doisextremos que se opem irremediavelmente: os pncaros da santidade e as abje-es do satanismo. E, entre um extremo e outro, colocam-se as gradaes maisdiversas. Numa dessas, ficaria bem classificar o amor terreno, passageiro de Ti-radentes, que, sem atentar em sua condio de cristo, sorveu as volpias dossentidos. Felizmente, porm, o Alferes no permaneceu pelo resto da vida nessesdeclives morais. Redimiu-se corajosamente. Abraou a virtude. Tornou-se mo-delo de arrependimento e moralidade. Fez-se heri tambm no penoso terrenodas paixes humanas. Morreu vivendo as severas exigncias da moral crist!28

    Mais preocupados com a conspirao e com as idias revolucionrias doinconfidente, os textos geralmente passavam ao largo de qualquer coment-rio a respeito do tema, ou simplesmente mencionavam a existncia de Euge-nia Maria de Jesus, como me da nica filha de Tiradentes. Evitando o assun-to, essas obras tanto poderiam expressar uma real falta de interesse por elequanto o temor, principalmente dos intelectuais catlicos, de reconhecer emTiradentes prticas e cdigos morais diferentes dos aceitos e defendidos poreles. Afinal, o alferes nunca se casou, viveu em concubinato, freqentava ascasas de alcouce e poderia ter tido filhos naturais.A abordagem romnticatambm ancorava-se fortemente no carter humanitrio de Tiradentes, des-crito como um indivduo acima dos demais por ter superado moralmenteeventuais desvantagens de natureza material ou social. Este seria o principaltrao definidor e mais valorizado de um heri, ou seja, el mvil tico de su ac-cin, fundado ste en un principio de solidaridad y justicia social29, e por issotomado como modelo por suas aes. Elemento importante na construoda representao do heri, este carter humanitrio serviu produo de tex-tos de divulgao, publicados nos jornais, que considero importantes na con-solidao de uma viso pouco crtica da histria. Nesses textos a estratgia es-tilstica mais utilizada, como j foi apontado, era a de romancear informaesvindas das obras historiogrficas, que nessa poca j eram, por si ss, bastan-te adocicadas. Temos um exemplo em artigo publicado em 1957:

    Ele costumava ver, nas suas idas de Minas ao Rio, as matas verdes beira das es-tradas. Ouvia encantado o gorjeio dos pssaros que pululavam de galho em ga-lho, numa movimentao constante, livres, inteiramente livres... E matutava:

    Por que s a minha terra essa vastido de abundncia precisa conti-nuar cativa, sem esperanas de uma liberdade a que j tem direito?

    (...) Joaquim Jos da Silva Xavier habituara-se a ver a Ptria bero de seus an-tepassados, subjugada. Mas no se conformava. Ele nascera quando j o povogemia sob a opresso de impostos altos e acumulados. Perdera cedo os pais. Seusdois irmos abraaram a carreira do sacerdcio. Viviam longe, internos, e as ir-

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    Thais Nvia de Lima e Fonseca

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  • ms estavam distantes, distribudas pelas casas de parentes. Nem um vislumbre

    de afeio sincera. Era de extrema solido sua existncia. Porm compensou-se

    pelo amor sem limites Ptria. Analisou-lhe os problemas, apaixonou-se pelo

    maior deles: a independncia.

    Passou a viver com o povo. Para ele tinha sempre palavras justas e oportunas.

    Fez amigos entre a gente de Minas, ora no Rio. Criou fama a sua habilidade em

    tirar e pr dentes. (...) Entre a classe mais favorecida pela sorte ou entre a popu-

    lao quase mendiga, ia crescendo uma venerao por aquele homem generoso

    que exercia a sua misso quase de graa, por vezes facilitando os pagamentos,

    por vezes esquecendo as dvidas de seus clientes. Observador, de olhar triste, ca-

    lado, ia ouvindo os queixumes daqueles que o procuravam.

    Como infeliz o povo brasileiro, pensava a cada queixume feito. E pensava:

    Isto precisa acabar. Silva Xavier cismava com pocas de glria. Cada vez mais

    querendo estar em relao com todas as classes sociais, foi alternando o seu meio

    de vida. Se j havia conhecido de perto a gente brasileira, agora podia verificar a

    riqueza do solo.

    Que injustia! Passam fome tantos irmos, quando a terra tem tesouros

    para saciar-lhes toda a pobreza, gritava-lhe a conscincia cada vez mais alto30.

    A extenso dessa transcrio justifica-se por j termos aqui, alm de umtexto de natureza romntica, o esboo do terceiro tipo ao qual me referi, otexto cristo. Impressiona a cristianizao dessa biografia de Tiradentes: ohomem solitrio, sofrido e solidrio, que teve como principal meta na vida aconquista da liberdade, no para seus compatriotas, mas para seus irmos. Ouso das referncias crists, tanto nas idias quanto na linguagem clara. Con-siderando as analogias, j conhecidas, entre o drama de Tiradentes e de Jesus,no poderia faltar, num texto dessa natureza, a referncia ao traidor, o Judasda Inconfidncia, responsvel, em ltima anlise, pela derrota do movimentoe pela condenao do heri-mrtir. Continuemos a explorar esse curioso do-cumento:

    Ouro Preto a rica terra mineira era lugar de homens ilustres e tambmidealistas. Comearam eles a traar planos, fazendo programas, distribuindo mis-ses entre si. Era a conspirao contra os opressores estrangeiros que se forma-va. E Tiradentes serviria de elo entre as provncias vizinhas. Ningum percebiaporm a chama da liberdade que se inflamaria em breve.

    Mas... quem nunca ouviu dizer uma ovelha m pe um rebanho a perder?Houve uma ovelha m entre os conspiradores. Percebendo que ficaria bem comos que ento mandavam na terra, s pensou em si. Traiu os companheiros. Re-velou todos os planos. Aquele homem no era brasileiro. Talvez por isso no ti-

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    A Inconfidncia Mineira e Tiradentes vistos pela Imprensa

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  • vesse entendido a grandeza do movimento e no sentisse anseios de indepen-dncia.

    Houve prises, julgamentos. Tiradentes pagou com a vida, em praa pblica,o sonho bom que tivera para a Ptria. Morreu como um justo. Rezava nos lti-mos momentos. Implorava por certo a Deus que a chama da liberdade, que na-quela hora amortecia, nunca extinguisse nos coraes de seu povo. Aquele quemorreu pela liberdade, viu seus rogos atendidos. No demorou muito e o pr-prio Regente das terras opressoras concretizava o sonho de Tiradentes com umgrito que reboou pela terra afora: Independncia ou Morte31.

    Alm de estar permeado de elementos constituintes da representao sa-cralizada, este texto indica alguns dos meios pelos quais ela vem se firmandono imaginrio, como tem sido apropriada pelas mais variadas formas de dis-curso, e atravs de que mecanismos ela tem se perpetuado. Deve-se conside-rar o significado de textos como o transcrito acima, na medida em que asobras da historiografia tinham como infelizmente ainda tm circula-o restrita, mesmo entre a populao letrada, ou escolarizada. Os jornais,ainda que de acesso limitado no perodo do qual estou tratando, poderiamatingir um pblico maior e ter ampliado seu papel de difusor daquelas repre-sentaes. Ainda mais quando expressas por meio de textos simples e acess-veis, permeados de referncias religiosas facilmente reconhecveis e constru-dos com recursos estilsticos prximos do folhetim. Este tipo de texto apareciatambm, com bastante freqncia, nas sees dos jornais destinadas s crian-as, ainda mais simplificados e romanceados. Vale lembrar, ainda, que a suadifuso era ampliada por meio das transmisses radiofnicas, nas quais eleseram lidos ou dramatizados, geralmente como parte das programaes co-memorativas de 21 de abril.

    Este texto, como tantos outros semelhantes publicados nos jornais, nocontm o registro de sua autoria. Sados da imaginao dos jornalistas, edito-res e colaboradores, eles dividiam espao com os noticirios sobre a come-morao do 21 de abril e tambm com as transcries dos discursos das au-toridades convidadas para a celebrao. A dcada de 50 foi particularmenteprdiga, no tanto nos discursos que estes, desde o aparecimento desta fes-ta cvica sempre ocorreram mas na sua reproduo nas pginas dos jor-nais de maior circulao32.

    A natureza cristianizada dessas falas no tinha exclusividade, estandopresente nos discursos de polticos, intelectuais, militares e, claro, clrigos,saltando para as pginas dos jornais em formas diversas, expressando umaapropriao dessa representao de Tiradentes mais generalizada do que po-deramos supor. E, quando associada exaltao patritica, de fatura regio-nalista, produziam-se algumas jias como esta:

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  • Nosso pai Tiradentes Histria viva

    no cho de vulces mortos de Minas;

    neste cho ora espraiado em vrzeas,

    onde o milho, a laranja, as quaresmas e as anglicas

    sinfonizam coralmente e inouvidamente.

    Com caraas alpinas de ferro e mangans,

    com rios volgueanos, com lagoas azuis ou cor de chumbo;

    no cho desta Provncia, ora empenado com um eco amerndio

    de outras altitudes geofsicas e geopolticas da Europa

    matriz dos sonhos que te elegeram, Minas Gerais,

    a terra amena dos vinhedos de Caldas, dos trigais de Patos;

    dos pinheiros e dos nevoeiros da Mantiqueira;

    e das relvas macias e dos rebanhos multicoloridos do Katiavar

    [do teu sul temperado;

    e das emas e avestruzes do teu Tringulo ondulado,

    e dos lobos vermelhos que uivam nas tuas brenhas altas.

    Fausto destino da cultura da Euro-Amrica,

    Arcdia morta... Minas Gerais33.

    Um certo ufanismo regional se que se pode falar nesses termos vo-tado exaltao de Minas Gerais pode ser vislumbrado neste poema. Um ufa-nismo que v Minas como uma terra predestinada, uma espcie de sntese devrias terras, propcia para a frutificao dos ideais libertadores de Tiradentes.Temos aqui, junto exaltao patritica, o apelo cristo. Mesmo mais recente-mente, quando se poderia, primeira vista, imaginar a perda de sentido, ou dafora daquela viso, ainda aparecem na imprensa menos profusamente, verdade textos dedicados aproximao entre Tiradentes e Cristo, como es-ta pequena nota, publicada no jornal Estado de Minas, em abril de 2000:

    Hoje o corao do povo brasileiro vivencia a emoo de dupla cerimnia: umareligiosa e outra cvica, quando celebra-se a Sexta-feira da Paixo e o Dia de Ti-radentes, embora as comemoraes alusivas a este ltimo tenham sido transfe-ridas para o dia 1 de maio, justamente por causa da Sexta-Feira Santa. Coinci-dentemente, Cristo e Tiradentes morreram por causas nobres, visando o bemestar do homem. Cristo por pregar a verdade, o amor, a paz, a igualdade, na ten-tativa de libertar o homem do pecado. Tiradentes, por pregar e lutar pela to so-nhada liberdade do povo brasileiro, explorado e massacrado pela Coroa portu-guesa, e por querer fazer deste Pas uma verdadeira nao. Um na cruz, outro naforca. Cristo aps crucificado e sepultado, ressuscitou trs dias depois, e hoje,em qualquer parte do planeta onde houver um cristo, o seu nome ser aclama-

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    A Inconfidncia Mineira e Tiradentes vistos pela Imprensa

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  • do e venerado. Tiradentes, depois de enforcado no Largo da Lampadosa, no en-solarado sbado de 21 de abril de 1792, teve o seu corpo esquartejado e espalha-do pelas estradas de Minas, para servir de exemplo. intrigante. Uma perguntacuja resposta nunca convence. Por que as pessoas de bem, honestas e dedicadass causas alheias pagam to alto por seus nobres gestos?34

    Guardadas algumas diferenas estilsticas, este texto poderia ter sido pu-blicado em qualquer momento do perodo em foco. Sua estrutura a mesmadaqueles datados da segunda metade do sculo XIX, nos quais a analogia en-tre Tiradentes e Cristo, entre os mrtires cristo e cvico, era mais comum.Ele contm, ainda, um encerramento de fundo moral, com nfase na idia dosacrifcio, demonstrando claramente sua concepo de histria maniquesta.So textos como esses, publicados h dcadas nos jornais, de pequena ou gran-de circulao, que tm contribudo eficazmente para a manuteno das re-presentaes de Tiradentes em foco neste artigo.

    Alm de publicarem textos como os que vimos acima, os jornais reser-vavam espao tambm para os editoriais a respeito das comemoraes do 21de abril e para a transcrio dos discursos pronunciados pelas autoridadesnesta ocasio, junto ao noticirio sobre essas festas. Esses textos estavam maisclaramente relacionados conjuntura poltica da poca e podiam expressaros posicionamentos e os confrontos de cada momento:

    Os tempos, porm, passaram e o Brasil, sob a alvorada da Democracia e da Re-

    pblica, tem sabido consagrar memria do Mrtir e dos seus companheiros,

    mais crescendo ano a ano, o entusiasmo cvico das comemoraes.

    O Brasil Novo, rejuvenescido pela integrao em si mesmo, uno, forte, redivi-

    vo em todas as suas energias vitais, sob a chefia unida de seu grande vanguar-

    deiro, Presidente Vargas, mais do que nunca tem dado Glria dos inconfiden-

    tes a sagrao histrica merecida35.

    Embora, como os demais textos, os discursos proferidos pelas autorida-des no excluam as referncias sacralizantes, eles tinham objetivos outros,alm da pura e simples exaltao. H, aqui, uma clara finalidade de interliga-o entre a comemorao cvica e a atuao poltica, o que os torna term-metros do cenrio poltico brasileiro e mineiro no perodo examinado. A in-sero desses discursos no campo do confronto poltico permite identificaralgumas de suas caractersticas, no que diz respeito, sobretudo, s articula-es construdas entre o passado e o presente, como forma de legitimao.

    Exemplo elucidativo a respeito foi o pronunciamento feito em 1939 pelogeneral Meira de Vasconcelos, comandante da 1 Regio Militar, lembrando oherosmo de Tiradentes como modelo para as lutas contra o que se conside-

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  • rava, ento, como os principais perigos que pairavam sobre a nao, isto , ocomunismo e a ameaa de guerra:

    A comemorao do feito de Tiradentes , pois, uma exaltao de que nos deve-

    mos orgulhar, honr-la e glorific-la, pela significao moral que marcha, se avo-

    luma e se eleva com os tempos. Ela o protesto contra o domnio, contra a extor-

    so, assdio econmico, e nos tempos que vivemos, vendo flutuar o pavilho das

    cores deslumbrantes da jornada de 1822, assistimos renovao multiforme des-

    se cerco, a ameaa de povos contra ns, a poltica de infiltrao perigosa que en-

    contra a seu favor uma coletividade de educao falha de civismo, displicente, vi-

    vendo apenas a existncia regional e perigosa pela incompreenso dos deveres que

    enfeixam problemas nacionais. (...) A poca traz para ns acrscimos de deveres,

    eles se multiplicam, exigem que ingressemos toda a nao na poltica de seguran-

    a, educando-a em rumos que permitam coletividade brasileira se alistar para a

    batalha dos tempos atuais, onde nenhum deve faltar, para que o patrimnio secu-

    lar no faa parte da repartio que a truculncia internacional premedita, j com

    pontos de apoio no Continente e pense assim dispor de nossa soberania.(...) Cum-

    pramos o nosso dever prosseguindo a velha e tradicional poltica do Brasil, den-

    tro do esprito de harmonia, mas conscientes de que podemos impor, mesmo pe-

    la fora, nossa vontade contra quem quer que ameace a nossa integridade36.

    Divulgados pela imprensa, esses discursos contribuam para a consoli-dao das representaes hericas e sacralizadas de Tiradentes, servindo ain-da legitimao daqueles que delas se apropriavam. Os atos hericos e sacri-ficiais do passado encontravam sua continuidade no presente, por meio daao dos lderes da nao, como ficou claro no pronunciamento de GetlioVargas na celebrao de 21 de abril de 1954, em Ouro Preto, quando o entopresidente da Repblica foi o convidado de honra da cerimnia. Chamandopara si a ateno como instrumento dessa luta no tempo presente, GetlioVargas apresentou-se quase como um mrtir que, como Tiradentes, se sacri-ficava pelo bem da nao. O presidente no foi sutil nessa comparao e, co-mo uma ironia do destino, parecia antecipar sua entrada prxima no panteodos mitos polticos brasileiros, no episdio trgico de sua morte, meses de-pois de ter estado em Ouro Preto:

    (...) a distncia do tempo no afasta a sua atualidade. ainda a mesma bandeira

    que estamos empunhando na luta dos nossos dias, a luta de um governo legi-

    timamente constitudo, de base nacionalista e popular, contra a mentalidade ne-

    gativista, que descr do nosso futuro, das nossas possibilidades e reservas da ca-

    pacidade criadora de nossa gente, enfim que no acredita no Brasil. (...) Bem sei

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    A Inconfidncia Mineira e Tiradentes vistos pela Imprensa

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  • como a injustia, a incompreenso e os processos difamatrios se agregam aosproblemas, s dificuldades, s responsabilidades das grandes obras planejadas eempreendidas. (...) Deus testemunha do quanto tenho feito, vencendo at osimpulsos mais ntimos para amainar as paixes, apaziguar os espritos, desar-mar as prevenes, reunir a todos num s esforo pelo progresso do Pas. Nadame desviar dos rumos que eu tracei, porque as vozes agourentas no conseguemfazer do branco preto, nem convencem de iseno quando s procuram dissen-so. Entendo que o governo escola de humildade, aprendizado de disciplina,que exige a renncia a si prprio e o domnio dos ressentimentos, para s cui-dar dos interesses reais da Nao37.

    Os afagos de Vargas dirigiam-se, ento, para Minas Gerais, cujo governo,sob a batuta de Juscelino Kubitschek, demonstrava, naquele momento, apoios suas posies. No discurso, o presidente apontava Minas como o lugar idealpara a busca do consenso e da harmonia, exaltando as tradies mineiras quepoderiam serenar os espritos exaltados daquele momento poltico delicado.Voltava-se, tambm ele, ao passado, e buscava em Tiradentes, mais uma vez,sustentao e legitimao. Os apelos nacionalistas vinham no momento dosmais duros embates entre Vargas e a oposio, quando ele acirrava seus ata-ques aos investidores estrangeiros e tentava a ampliao da base econmicaestatal. No permitir que os interesses mesquinhos se sobrepusessem aos inte-resses da nao seria a tarefa do governo, que deveria

    (...) garantir a ordem, a liberdade, a coeso, a prosperidade econmica e a justi-a social. () Para o seu pleno cumprimento no mediremos os sacrifcios. Eaqui, neste dia glorioso, devemos renovar e revigorar esse irredutvel propsito.O exemplo de Tiradentes e a lio de Minas nos daro fora para construir nofuturo um Brasil que corresponda aos sonhos do passado e em que se alcancemas esperanas do presente38.

    Aproveitando o mote dado pelo poema analisado anteriormente e suasreferncias regionalistas, vejamos um pronunciamento do governador de Mi-nas Gerais, na festa de 21 de abril de 1955, em Ouro Preto, no qual evidencia-se o discurso de exaltao a Minas e a seu papel na poltica nacional como umaherana advinda dos tempos da Inconfidncia Mineira. Naquele momento,Juscelino Kubitschek, j em campanha para a presidncia da Repblica, foi ogrande homenageado, eclipsando, por um instante, o prprio Tiradentes:

    Esta cerimnia tem suas razes aprofundadas no solo ardente das mais severasvirtudes pblicas da gente mineira e est carregada de um sentido cvico que vi-ve e fulgura nas trs dimenses do tempo passado, presente e futuro por-

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  • que eterno. Em verdade nesta cerimnia se cultuam duas faces fundamentais

    do carter dos mineiros, que constituram, constituem e constituiro, tempo em

    fora, os seus cunhos distintivos, a saber: o amor terra natal e a vocao da li-

    berdade. Essas duas expresses da nacionalidade, que se exigem uma a outra pa-

    ra integrarem-se e completarem-se em unidade autntica, essas duas projees

    da alma coletiva sem as quais no h povo e que s elas criam, nutrem e expli-

    cam as naes, porque somente elas so capazes de inspirar a vigilncia, o sofri-

    mento e o sacrifcio por um bem impessoal esses dois plos de atrao e con-

    densao da vontade de ser e de durar que caracterizara historicamente os grupos

    sociais coerentes, lcidos e poderosos, encontraram na imensa figura moral do

    Alferes Joaquim Jos da Silva Xavier o seu perfeito instrumento de expresso nu-

    ma hora densa e aguda do nosso pas em fase de penosa formao. (...) Convi-

    dando a falar, nas comemoraes de hoje, o sr. Juscelino Kubitschek, quis o go-

    verno mineiro exprimir de modo pblico e eloqente, no s o apreo em que o

    tem, seno tambm o apreo com que acolheu a sua bela iniciativa.(...) O meu

    governo no se limitou a recolher a valiosa herana deixada pelo governo de V.

    Excia. Exmo. Sr. Dr. Juscelino Kubitschek: deliberou ampliar as comemoraes

    inauguradas em 1952, enriquecendo-as, variando-as, estendendo-as no tempo39.

    O governador Clvis Salgado, no cargo devido ao afastamento de Jusce-lino Kubitschek para a campanha eleitoral, usou deliberadamente a festa de21 de abril para homenagear o futuro presidente da Repblica. JK, por suavez, no perderia a oportunidade, em seu discurso, de estabelecer paralelosentre a trajetria de Tiradentes e a sua prpria.

    Nesta ltima forma de discurso, os exerccios de interligao entre o pas-sado e o presente foram, assim, os mais recorrentes, escritos e pronunciadospor pessoas com posies polticas diversas, de diferentes segmentos sociais,com objetivos tambm diversos. Mesmo quando em muitos desses discursosTiradentes acabou por ficar em segundo plano, sua condio de precursor daIndependncia e heri nacional jamais foi questionada. Claro, no se poderiaesperar outra posio das falas oficiais, no momento da celebrao cvica. Masanalisando todos os tipos de textos publicados nos jornais o que inclui astranscries de discursos oficiais, mas tambm outras modalidades, confor-me visto anteriormente inexpressiva a contestao a Tiradentes. O jor-nal Binmio, conhecido por suas cidas investidas contra o governo, fartava-se nas crticas s comemoraes oficiais, mas sugestivamente mantinhaTiradentes em seu pedestal:

    Todos os poderes da nao arranjaram as malas para a mudana e sua inaugu-

    rao trombeteada aos quatro cantos do mundo, atravs de desenfreada mat-

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    A Inconfidncia Mineira e Tiradentes vistos pela Imprensa

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  • ria que o sr. Juscelino Kubitschek distribuiu imprensa nacional e estrangeira.No sero, no entanto, fotografias coloridas e a bela arte de Niemeyer e LcioCosta que vo provar estar Braslia em condies de ser inaugurada. Trata-se deuma farsa, muito ao gosto de J.K. Um mrito, no entanto, no podemos negarao Presidente da Repblica: com a inaugurao de Braslia ele consegue, em1960, fazer coincidir o 1 de abril com a grande data de Tiradentes40.

    Assim, as representaes de Tiradentes so aceitas quase como uma una-nimidade, em pocas diferentes, expressando diferentes posies. Na verda-de, a contestao e o questionamento aparecem contra as tentativas de revisoe de relativizao, tanto do movimento setecentista, quanto, e principalmen-te, de seu principal personagem.

    Promovendo a circulao das representaes predominantes de Tiraden-tes, os jornais tornaram-se veculos de sua consolidao ao longo do sculoXX. Mesmo considerando-se as limitaes do pblico leitor, inclusive atual-mente, no se pode minimizar o poder desse veculo de comunicao na afir-mao daquelas representaes. No perodo em que a ateno memria deTiradentes foi mais intensa por parte do mundo oficial como ocorreu en-tre as dcadas de 30 e 60 , a imprensa marcou sua participao ampliandoos espaos para a publicao de textos os mais diversos e para a cobertura dascomemoraes, realizadas nos mais diferentes lugares.

    Especialmente em Minas Gerais, os jornais acabaram por tornar-se por-ta-vozes de uma verso oficial da histria, e de uma posio francamente fa-vorvel exaltao patritica de Tiradentes. Entre os que foram pesquisados,o nico ainda remanescente, o Estado de Minas, mantm essa postura, noobstante publique entrevistas com historiadores da vertente revisionista, emmatrias nas quais procura polemizar as divergncias historiogrficas. Mas avoz do jornal se faz ouvir, por meio de editoriais e de algumas colunas assi-nadas, dos seus quadros fixos. E nelas, no raro, apela-se ainda para os clssi-cos defensores de uma histria da nao:

    O Brasil o nico pas da Amrica em que existe, h mais de um sculo, umacampanha sistemtica de desmoralizao do precursor da independncia. Essafrase de Waldemar de Almeida Barbosa resume um dos paradoxos da historio-grafia brasileira. Paradoxo que no chega a ser espantoso porque volta a com-provar o complexo de inferioridade e sndrome de catstrofe que envolvem acultura nacional41.

    Esse o pretexto para o jornalista, ferrenho defensor de uma representa-o herica de Tiradentes, retomar sua srie de investidas contra o que eleconsidera paradoxos da historiografia brasileira, ou seja, o revisionismo.

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  • Esta anlise da produo jornalstica sobre o heri nacional procurouidentificar os principais elementos constituidores daqueles textos, destacan-do os que tm evidente enraizamento no universo cultural brasileiro e que,por isso, apresentam uma longevidade considervel. A constatao de elemen-tos que tm se mantido desde o sculo XIX indica, por um lado, a vitalidadedo mito e, por outro, o poder persuasivo das associaes estabelecidas, entreo sacrifcio herico de Tiradentes e as condutas dos que se colocam como seusherdeiros.

    NOTAS

    *O presente artigo resultado da pesquisa desenvolvida para a tese de doutorado em His-tria Social, intitulada Da infmia ao altar da ptria: memria e representaes da Inconfi-dncia Mineira e de Tiradentes, defendida em agosto de 2001 no Departamento de Hist-ria da Universidade de So Paulo e contou com financiamento do CNPq.1Sobre o papel da imprensa na poltica brasileira, e como fonte de pesquisa para o histo-riador, ver: CAPELATO, Maria Helena Rolim. Imprensa e Histria no Brasil. So Paulo:Contexto/EDUSP, 1988. CAPELATO, Maria Helena Rolim. Os arautos do liberalismo: im-prensa paulista (1920-1945). So Paulo: Brasiliense, 1989; NEVES, Lcia Maria Bastos Pe-reira das & MOREL, Marco (orgs.). Histria e imprensa. Anais do Colquio. Rio de Janei-ro: UERJ/IFCH, 1998. Sobre as relaes entre a mdia e a poltica ver: JEANNENEY,Jean-Nol. A mdia. In RMOND, Ren (org.). Por uma histria poltica. Rio de Janeiro:Editora UFRJ, 1996. Um panorama das relaes entre a imprensa e a poltica, no Brasil dosculo XX, est na bibliografia de MORAIS, Fernando. Chat: o rei do Brasil. 3 ed. SoPaulo: Companhia das Letras, 1999. Ver, tambm: LINHARES, Joaquim Nabuco. Itiner-rio da imprensa de Belo Horizonte: 1895-1954; estudo crtico e nota biogrfica de MariaCeres Pimenta S. Castro. Belo Horizonte: Fundao Joo Pinheiro, 1995; SODR, NelsonWerneck. Histria da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 1966; WER-NECK, Humberto. O desatino da rapaziada: jornalistas e escritores mineiros. So Paulo:Companhia das Letras, 1992.2Ver: GRAVAT, Hlio. Contribuio bibliogrfica para a Histria de Minas Gerais Pe-rodo Colonial Inconfidncia Mineira. In Revista do Arquivo Pblico Mineiro. Belo Ho-rizonte: Arquivo Pblico Mineiro, 1978. Neste levantamento, foram compilados 1.093 t-tulos de obras da mais variada natureza, relativas Inconfidncia Mineira, excluindo-se osdocumentos manuscritos e obras gerais de Histria do Brasil, de Minas Gerais e do Rio deJaneiro. Entre as obras levantadas, produzidas entre 1819 e 1976, encontram-se documen-tos transcritos e publicados, bibliografias, livros, captulos e referncias em outras obras,verbetes em enciclopdias e dicionrios, artigos, discursos, conferncias, legislao, litera-tura, teatro, filmes, iconografia e monumentos. H tambm outros levantamentos que in-cluem, alm da bibliografia, fontes documentais disponveis em arquivos brasileiros. Ver:CARNEIRO, Edilane de Almeida & SANTOS, Maria Judite dos. Fontes documentais mi-neiras: subsdios para o estudo do movimento inconfidente de 1789. In Acervo Revista

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  • do Arquivo Nacional. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, v.4, n.1, jan/jun.1989; FIGUEIRE-DO, Luciano Raposo de Almeida. Cortando rente o passado... Fontes para a histria daInconfidncia Mineira e o acervo do Arquivo Nacional do Brasil. In Anlise & Conjuntu-ra. Inconfidncia Mineira e Revoluo Francesa Bicentenrio: 1789-1989. Belo Horizon-te: Fundao Joo Pinheiro, v.4, n.2-3, mai/dez.1989; MATHIAS, Herculano Gomes. Adocumentao da Inconfidncia Mineira. In Revista do Instituto Histrico e GeogrficoBrasileiro. Rio de Janeiro, ano 153, n.375, abr/jun.1992; PESSOA, Glucia Tomaz de Aqui-no. O acervo do Arquivo Nacional e a histria da Inconfidncia Mineira. In Acervo Revista do Arquivo Nacional. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, v.4, n.1, jan/jun.1989.3SILVA, Joaquim Norberto de Souza. Histria da Conjurao Mineira. Rio de Janeiro: Im-prensa Nacional, 1948.4SANTOS, Lcio Jos dos. A Inconfidncia Mineira: papel de Tiradentes na InconfidnciaMineira. Belo Horizonte: Imprensa Oficial de Minas Gerais, 1972.5BARBOSA, Waldemar de Almeida. A verdade sobre Tiradentes. Belo Horizonte: Institutode Histria, Letras e Arte, s/d; JARDIM, Mrcio. Sntese factual da Inconfidncia Mineira.Belo Horizonte: Instituto Cultural CODESER, 1988; JOS, Oiliam. Tiradentes. Belo Hori-zonte: Imprensa Oficial, 1974; LIMA JNIOR, Augusto de. Histria da Inconfidncia deMinas Gerais. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1955; PERRIN, Dimas. Inconfidncia Mi-neira: causas e conseqncias. Belo Horizonte: Edies Jpiter, 1985; TORRES, Luis Wan-derley. Tiradentes: a spera estrada para a liberdade. So Paulo: Obelisco, 1965; GRIECO,Donatello. Histria Sincera da Inconfidncia Mineira. Rio de Janeiro: Record, 1990.

    6Joo Pinto Furtado chama a ateno para a pouca disposio da historiografia mais aca-dmica em tratar da Inconfidncia Mineira, histria muito marcada pelo tom tradicional,exaltador e oficial. Ver: FURTADO, Joo Pinto. Historiografia oitocentista americana co-mo obra de pensamento que se faz ao (notas para o estudo dos discursos de fundaosob o ponto de vista da epistemologia histrica). In: SCHMIDT, Rita Terezinha (org.). Na-es/Narraes: nossas histrias e estrias. Porto Alegre: ABEA, 1997.7MOTA, Carlos Guilherme. Idia de revoluo no Brasil (1789-1801). Petrpolis: Vozes,1979.8MAXWELL, Kenneth. A devassa da devassa: A Inconfidncia Mineira: Brasil e Portugal(1750-1808). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.9FURTADO, Joo Pinto. Inconfidncia mineira: crtica histrica e dilogo com a historio-grafia. So Paulo: FFLCH/Universidade de So Paulo, 2000. (Tese de Doutorado)10SOUZA, Laura de Mello e. Norma e conflito: aspectos da Histria de Minas no sculoXVIII. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1999; ANASTASIA, Carla Maria Junho. Vassalosrebeldes: violncia coletiva nas Minas na primeira metade do sculo XVIII. Belo Horizon-te: C/Arte, 1998.11Ver, especialmente: Anlise & Conjuntura. Inconfidncia Mineira e Revoluo Francesa Bicentenrio: 1789-1989. Belo Horizonte: Fundao Joo Pinheiro, v.4, n.2-3, mai/dez.1989;ANDRS, Aparecida (org.). Utopias: sentidos Minas imagens. Belo Horizonte: EditoraUFMG, 1993; Seminrio Tiradentes, hoje: imaginrio e poltica na Repblica brasileira.

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  • Anais... Belo Horizonte: Fundao Joo Pinheiro, 1994; NOVAES, Adauto (org.). Tempo eHistria. So Paulo: Companhia das Letras, 1992.12CARVALHO, Jos Murilo de. A formao das almas: o imaginrio da Repblica no Brasil.So Paulo: Companhia das Letras, 1990.13AGULHON, Maurice. Marianne au combat: limagerie et le symbolique rpublicaines de1789 a 1880. Paris: Flammarion, 1979.14DUTRA, Eliana Regina de Freitas. Inconfidncia Mineira: memria e contra-memria.In Varia Histria. Belo Horizonte: Departamento de Histria-FAFICH/UFMG, n.12, 1993;ALKMIN, Srgio Vaz. Inconfidncia Mineira: a vida histrica do acontecimento. In Re-vista do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais. Belo Horizonte: TCMG, v.21, n.4,out/dez.1996.15Memrias do xito que teve a conjurao de Minas e dos fatos relativos a ela acontecidos nes-ta cidade do Rio de Janeiro desde 17 at 26 de abril de 1792, atribuda ao frei Jos Carlos deJesus Maria do Desterro, e ltimos momentos dos Inconfidentes de 1789, pelo frade que osassistiu em confisso, de frei Raimundo da Anunciao Penaforte. Ambos esto publicadosem Autos da Devassa da Inconfidncia Mineira. 2 ed. Braslia: Cmara dos Deputados; Be-lo Horizonte: Imprensa Oficial de Minas Gerais, 1980, v.9 e em Revista do Instituto Hist-rico e Geogrfico Brasileiro. Tomo 44, 2 trimestre, 1881.16Os jornais utilizados na pesquisa foram o Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, o Estado deMinas, o Dirio de Minas e o Binmio, todos de Belo Horizonte. A no ser pelo Binmio,fundado em 1952 por estudantes mineiros e progressivamente identificado com as posi-es polticas de esquerda, os outros representavam posicionamentos conservadores, pr-ximos das elites e, no raro, defensores de seus projetos. O Estado de Minas integrava osDirios Associados, de Assis Chateaubriand, desde 1929; o Dirio de Minas havia sido cria-do em 1898 ligado ao Partido Republicano Mineiro, e desde 1949 pertencia famlia Ne-gro de Lima, ligada ao Partido Trabalhista Nacional, uma das bases de apoio de JuscelinoKubitschek. O Jornal do Brasil surgiu em 1891, foi ativo nos conflitos entre civis e militaresno incio da Repblica e sempre defendeu posies conservadoras.17Trs obras eram as referncias bsicas para os textos jornalsticos: SILVA, Joaquim Nor-berto de Sousa. Histria da Conjurao Mineira. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1948.2v (a primeira edio de 1873). SANTOS, Lcio Jos dos. A Inconfidncia Mineira: papelde Tiradentes na Inconfidncia Mineira. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1972 (a pri-meira edio de 1927). LIMA JNIOR, Augusto de. Pequena histria da Inconfidncia deMinas Gerais. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1955.18FRIEIRO, Eduardo. A sombra de Tiradentes. Estado de Minas. Belo Horizonte, 20 de abrilde 1952, p. 5. Este texto foi publicado tambm no livro O diabo na livraria do cnego, demesmo autor.19Idem. Grifos meus.20Idem.21FLORENCIO, Fidelis. Tiradentes vivo. Dirio de Minas. Belo Horizonte, 7 de maio de1952, p. 4.22Tiradentes. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 21 de abril de 1932, p. 11.

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  • 23MAURICIO, Augusto. A Inconfidncia Mineira. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 18 deabril de 1937, p. 15.24Idem.25Ver: DUTRA, Eliana Regina de Freitas. O ardil totalitrio: imaginrio poltico no Brasildos anos 30. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ; Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1997.26RACIOPPI, Vicente. Tiradentes. Estado de Minas. Belo Horizonte, 22 de abril de 1941, p. 5.27Os amores do alferes. Dirio de Minas. Belo Horizonte, 21 de abril de 1954, p. 8.28JOS, Oiliam. Tiradentes. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1974, p. 63.29BAUZ, H. Op. cit.., p. 5. Ver tambm AUG, Marc. Heris. In Enciclopdia Einaudi. Re-ligio-Rito. v.30. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1994.30Tiradentes o amigo da liberdade. Dirio de Minas. Belo Horizonte, 21 de abril de 1957,p. 4. Suplemento Literrio.31Idem.32Os discursos eram normalmente publicados no rgo oficial do Estado, o Minas Gerais.A maior incidncia da publicao de discursos nos jornais privados um dado importan-te para se pensar numa maior difuso das idias neles existentes. preciso considerar, noentanto, os possveis vnculos entre estes jornais e o governo, o que poderia fazer deles di-vulgadores das idias e dos projetos oficiais. Uma grande incidncia de transcrio de dis-cursos pelos jornais durante a dcada de 50 explica-se pela preocupao, principalmentedo governo de Minas Gerais, ento sob batuta de Juscelino Kubistchek ou sob sua influn-cia direta, com a comemorao do 21 de abril, festa tornada oficial e permanente a partirdesse momento.33FLORNCIO, Fidelis. Poema derrotista a Tiradentes. Dirio de Minas. Belo Horizonte,20 de abril de 1958, p. 1. Suplemento Literrio.34A morte de Cristo e de Tiradentes. Estado de Minas. Belo Horizonte, 21 de abril de 2000.35As sentenas execrandas contra os Inconfidentes. Estado de Minas. Belo Horizonte, 28 deabril de 1942, p. 6.36Tiradentes. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 21 de abril de 1939, p. 7.37No preservam o regime os que engendram ardis para fraudar a vontade do povo. Discur-so do presidente Getlio Vargas. Estado de Minas. Belo Horizonte, 23 de abril de 1954, p. 7.38Idem.39 uma forma de homenagear tambm a cidade ilustre. Discurso do governador ClvisSalgado. Estado de Minas. Belo Horizonte, 23 de abril de 1955, p. 3.401 de Abril. Binmio. Belo Horizonte, 18 de abril de 1960, p. 1.41SIQUEIRA, Cyro. Tiradentes, a imagem de um Pas. Estado de Minas. Belo Horizonte, 28de abril de 2001, p. 10. Caderno EM Cultura.

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    Artigo recebido em 09/2001. Aprovado em 03/2002.