a imputabilidade e a ininputabilidade em são paulo

Click here to load reader

Post on 10-Jul-2015

50 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

Revista Brasileira de HistriaPrint version ISSN 0102-0188

Rev. bras. Hist. vol.19 n.37 So Paulo Sept. 1999doi: 10.1590/S0102-01881999000100007

A inimputabilidade e a impunidade em So PauloAilton Jos Morelli

Universidade Estadual de Maring

RESUMO As polmicas acerca das relaes entre condio etria e imputabilidade penal envolvem vrias reas de estudo. Tomando como fontes primrias oCdigo de Menores e os Anais das Semanas de Estudos dos Problemas de Menores (1948-1951), este artigo aborda algumas dessas discusses e principalmente: as relaes entre os itens da legislao e sua aplicao nos casos de "menores infratores"; como a ausncia de condies estruturais mnimas e satisfatrias para a aplicao das penas contribui para a difuso de crenas na total impunidade dos menores; o debate sobre a defesa da reduo dos limites etrios. Palavras-chave: Menor; Criana; Legislao.

APRESENTAO O "Problema do Menor" para o Poder Judicirio brasileiro permeado por conflitos internos e externos. Uma das principais questes a delimitao etria para a inimputabilidade, ou seja, quando a pessoa no est sujeita a penas por no possuir condies de responder pelos seus atos judicialmente. Alm disso, como desdobramento dessa questo, so problemticas tambm as formas de lidar com as crianas e adolescentes acusados de cometerem alguma ao contrria aos cdigos civil ou penal. Nesse complexo desafio, profissionais de diferentes reas posicionaram-se, divergiram e hoje possuem no Estatuto da Criana e do Adolescente (ECA - Lei 8.069/90) o principal documento de referncia. As polmicas em torno da definio do limite etrio da inimputabilidade existem em diferentes projetos no Congresso Nacional. Atualmente, busca-se no direito facultativo do voto dos adolescentes a partir dos 16 anos, a base para a defesa dessa idade como limite penal. Alm desse argumento, os defensores dessa reduo alegam que o limite em vigor foi definido em um perodo no qual os adolescentes demoravam mais para

atingir a maturidade e no possuam as condies de formao atuais. Nesse sentido os adolescentes de hoje possuiriam suficiente discernimento de suas aes, podendo responder penalmente pelos seus prprios atos a partir dos 16 anos. bvio que vrios segmentos colocam-se contra esses argumentos e defendem a no reduo da idade, sendo que parte da fundamentao dos defensores do atual limite etrio est nas Regras das Naes Unidas sobre essa questo1. Os argumentos acima esto sempre ligados a outros, de maior apelo popular. Como a idia de inimputabilidade no de fcil assimilao, sem alguma noo sobre o assunto, a divulgao de que os menores de 18 anos so inimputveis sempre foi acompanhada do discurso de que eles so impunes. Da mesma forma, no incomum nos depararmos com pessoas alegando que os "menores" esto livres para cometerem qualquer tipo de ao sem precisarem se preocupar. Alm disso, alegam que o Estatuto da Criana e do Adolescente s apresenta direitos e nenhum dever. Essas afirmaes so acompanhadas de estatsticas dos crescentes ndices de violncia, que buscam justificar a suposta necessidade de submeter os adolescentes s mesmas regras legais que um adulto. Acrescente-se a esse cenrio as vrias reportagens sobre as fugas dos estabelecimentos de "recuperao dos infratores". importante salientar ainda que dificilmente se fazem referncias a dados crimes registrados como de responsabilidade de adolescentes, infraes estas que representam em torno de dez por cento dos registros gerais do pas2. Finalmente, significativo o ndice de crimes ligados ao patrimnio, muito mais numerosos do que aqueles relacionados diretamente pessoa fsica3. Estudos de como vm sendo aplicadas as medidas previstas na legislao possibilitam um melhor entendimento das crticas feitas ao descaso da sociedade com relao questo das crianas e dos adolescentes4. Pois, a falta de condies estruturais para a aplicao adequada das medidas previstas legalmente, a falta de divulgao das medidas existentes e das formas como os "menores infratores" so tratados, so elementos que contribuem para o reforo da idia de impunidade dos adolescentes.

O CDIGO DE MENORES E OS ADOLESCENTES EM CONFLITO COM A LEI Antes do Cdigo de Menores de 1927, a questo da menoridade era tratada no Brasil no Cdigo Criminal do Imprio de 1830. Em seu artigo 10, este ltimo Cdigo estabelecia quais os casos em que as pessoas "no se julgaro criminosos", entre eles os "menores de quatorze anos". Porm, conforme seu artigo 13, todas as pessoas at essa idade considerados em conflito com a Lei, deveriam passar por uma avaliao de discernimento, ou seja, seria verificado se esses "criminosos" possuam condies de avaliar racionalmente se seus atos eram ou no criminosos. Em resumo, no Brasil, de acordo com o Cdigo Criminal do Imprio, a inimputabilidade terminava aos 14 anos; a partir da, toda pessoa estava completamente sujeita Lei, possuindo apenas alguns atenuantes de acordo com a idade. Todavia, considerando a avaliao do discernimento do menor de 14 anos que estivesse em conflito com a Lei, a inimputabilidade poderia ser reduzida a qualquer idade. Tal situao, criada pelo artigo 13, foi considerada, mesmo pelo meio jurdico, um atraso da legislao brasileira em relao a outros pases, pois a utilizao da avaliao

do discernimento vinha sendo deixada de lado (ou sendo utilizada em julgamento de infratores com idades mais avanadas, a partir dos 14 ou 16 anos), concepo de imputabilidade esta com a qual se afinava o jurista Tobias Barreto5. Suas crticas, mesmo que ignoradas no perodo, representavam um movimento internacional de reviso da inimputabilidade e de abandono da prtica da avaliao do discernimento. Essa prtica perdia adeptos continuamente, mas o processo de renncia definitiva daquela avaliao no foi rpido. Durante a vigncia doCdigo Penal de 1890, a inimputabilidade total estava fixada at os 09 anos e a relativa (conforme verificao de possuir discernimento do ato), at 14 anos. Com o Cdigo de Menores, extinguiu-se a necessidade da avaliao do discernimento nos julgamentos de menores de 14 anos. Porm, somente o Cdigo Penal de 1940 estendeu a inimputabilidade plena at os 18 anos. Este foi um avano significativo conseguido pelo trabalho de profissionais como Tobias Barreto, que mostraram todas as inconsistncias desse recurso jurdico. A legislao republicana demorou a apresentar alguma resposta mais efetiva. O Cdigo Penal de 1890 pouco trazia de novo para essa questo, especialmente sobre o papel do Estado em relao aos menores de 18 anos. No que se refere ao Cdigo Civil de 1916, apesar de algumas atividades receberem a ateno dos legisladores, regulamentando as relaes familiares e extenses (como a tutela), seu contedo possua muito mais o objetivo de solidificar a famlia enquanto base organizacional da sociedade, reafirmando o patriarcalismo, o homem como chefe geral da famlia. Alm disso, os projetos de proteo infncia ainda contavam com a forte oposio dos industriais e comerciantes, que viam em qualquer medida relacionada s crianas, complicaes na explorao da mo-de-obra dos menores de 18 anos6. No Cdigo Penal de 1890, em seu artigo 49, estava previsto que os menores de 18 anos (estendendo esse limite at 21 anos), condenados por algum delito, ao invs de serem enviados Casa de Correo, deveriam ser retidos em "estabelecimentos industriais especiais" voltados ao "ensino" profissional7 e somente na sua ausncia poderiam ser recolhidos nas casas de deteno comuns - onde deveriam permanecer separados dos adultos. No entanto, diante da inexistncia dessas casas de correo, o "condenado" era enviado a cadeias comuns, permanecendo junto aos adultos, situao esta que seria minorada apenas no final da primeira dcada do sculo XX, com os Institutos Disciplinares8. Com esse Cdigo Penal, a inimputabilidade sem avaliao de discernimento foi fixada em 09 anos, e, dessa idade at os 14 anos, verificava-se se houve ou no discernimento. Essa situao um claro exemplo do descaso governamental no que concerne aos adolescentes em situao de conflito com a Lei. Como podemos verificar, uma criana a partir dos 09 anos poderia ser condenada, e, como no existiam institutos adequados conforme previsto na Lei, seriam encaminhadas aos estabelecimentos comuns. A falta de uma estrutura mnima para a aplicao das medidas previstas na legislao uma constante em nosso pas. A necessidade de apresentar alternativas para essa situao era uma grande preocupao dos envolvidos com o atendimento a menores. Somente 10 anos aps a promulgao desse Cdigo Penal, entretanto, foi apresentado pelo jurista Cndido Motta um projeto para a criao de um Instituto Educacional Paulista.

O projeto foi aprovado pela Cmara do Deputados, mas foi muito simplificado pelo Senado. Foram eliminadas vrias medidas que poderiam ser consideradas avanadas, principalmente as que visavam a manuteno da integridade moral das crianas e as que se preocupavam em separar os internos por uma escala de idade e pelos motivos que levaram ao internamento. O projeto original previa a existncia de lugares distintos para as diferentes crianas e adolescentes. Contemplava ainda a exigncia de que, enquanto no fosse construdo um local adequado, o governo deveria arrendar um prdio para esse fim. Dessa forma, buscava-se modificar o mais rpido possvel a situao em que se encontravam as crianas presas nas cadeias por falta de lugar devido. Quanto iniciativa de desvincular as atividades do Instituto de medidas policiais, podemos verific-la nas seguintes medidas previstas: art. 3 - O edifcio dever ser construdo de forma tal que no se assemelhe s cadeias pblicas ou outras prises do Estado.9 art. 26 - A guarda interna e externa do estabelecimento ser feita pelos vigilantes, vestido a civil, no sendo permitida a permanncia de fora pblica uniformizada nas imediaes do edifcio, a no ser em casos extremos, sob requisio do diretor. Art. 27 - Nenhum menor, vagabundo ou criminoso poder ser levado aos postos policiais ou cadeia publica por militares em uniforme, a no