A IMPLANTAÇÃO DA RESERVA DE DESENVOLVIMENTO ?· A implantação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável…

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  • A IMPLANTAO DA RESERVA DE

    DESENVOLVIMENTO SUSTENTVEL

    MAMIRAU: UM CASO NO PROCESSO DE

    REORGANIZAO TERRITORIAL DA

    AMAZNIA BRASILEIRA NO FINAL DO

    SCULO XX

    VICENTE PAULO DOS SANTOS PINTO

    Clio Edies Eletrnicas

    Juiz de Fora

    2003

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    2

    FICHA CATALOGRFICA

    PINTO, Vicente Paulo dos Santos. A implantao da Reserva de

    Desenvolvimento Sustentvel Mamirau: um caso no processo de

    reorganizao territorial da Amaznia brasileira no final do sculo

    XX. Juiz de Fora: Clio Edies Eletrnicas, 2003, 47p.

    ISBN: 85-88532-05-0

    Clioedel

    - Clio Edies Eletrnicas -

    Projeto virtual do Departamento de Histria

    e Arquivo Histrico da UFJF

    E-mail: clioedel@ichl.ufjf.br

    http ://www.clionet.ufjf.br/clioedel

    Endereo para correspondncia:

    Departamento de Histria da UFJF

    ICHL - Campus Universitrio

    Juiz de Fora - MG - Brasil

    CEP: 36036-330

    Fone: (032) 229-3750

    Fax: (032) 231-1342

    UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA

    Reitora: Profa. Dra. Maria Margarida Martins Salomo

    Vice-Reitor: Prof. Paulo Ferreira Pinto

    Pr-Reitor de Pesquisa: Profa. Dra. Cludia Maria Ribeiro Viscardi

    Diretor da Editora: Profa. Vanda Arantes do Vale

    minha me, Regina:

    As mulheres geram a vida, geram

    os homens.

    Terra germina a semente.

    gua alimenta a flor.

    Ar .

    Fogo amlgama sonhos e

    desejos.

    As mulheres geram a vida,

    findam como mulheres.

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    3

    AGRADECIMENTOS

    So muitas as pessoas que quero agradecer, sem elas o fruto do trabalho

    no seria colhido:

    Prof. Bertha, pelo exemplo, apoio e incentivo.

    Misael, professor e amigo. Com voc pude compartilhar a emoo de viver

    a Amaznia.

    Wilson Accio, pelo pontap inicial.

    Colegas e alunos do Departamento de Geocincias da Universidade

    Federal de Juiz de Fora. Sem vocs eu no poderia ter tido a oportunidade

    de transformar a Geografia em um grande valor. Grato pelo apoio,

    compreenso e cumplicidade.

    Alunos e amigos de Tef (AM), em especial, Claudemir, lembranas e

    saudades.

    Funcionrios da Ps-Graduao em Geografia da Universidade Federal do

    Rio de Janeiro.

    Colegas e alunos do Colgio dos Jesutas e do CES, em especial, Jader,

    Hermnia e Flvia, pelo apoio e fraternidade.

    Diretores destas instituies, pelo apoio e reconhecimento.

    Maria Lucia, colega de Amaznia, pela contribuio fundamental na

    construo da problemtica.

    Las Menezes, que no momento de maior dificuldade, esteve disponvel e

    ajudou na busca de novos caminhos para a dissertao.

    Gegrafos da Plangeo, Cludio, ureo e Jlio, pelo belo servio dos

    mapas.

    Vitria, pela reviso e interlocuo.

    Eneida, pela formatao e impresso final do trabalho.

    Dona Di, minha v querida, pela presena em nossas vidas.

    Meus tios e primos, minha famlia querida, sentimentos do mundo

    compartilhados em comunidade.

    Tia Glucia, Tio Guigui e meus primos, sua casa, minha casa, aconchego e

    alegria de gente mineira em Niteri.

    Regina Mriam, pela vivncia da f em Deus, do amor e da dignidade.

    Maurcio Pinto, meu pai, homem de valor, seu legado para ns, seus filhos,

    frutificou em nossos coraes.

    Apa e Nilca, eterna gratido por tudo aquilo que deram a mim e meus

    irmos.

    Zeca, Tarcsio, C e Beto, meus irmos queridos, sem vocs a minha vida

    no teria o mesmo significado.

    Luan, menino-lua que entrou na minha vida, afago de criana no rosto

    pelas horas de computador longe das brincadeiras de menino.

    Rachel, amor e teso. Sem o seu companheirismo e incentivo eu no

    conseguiria.

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    4

    RESUMO

    Este trabalho tem como objetivo analisar o processo de implantao de

    uma Unidade de Conservao (UC), na Amaznia brasileira, neste final de

    sculo XX: a Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    (RSDM), uma UC implantada numa regio de vrzea, na confluncia do

    rio Solimes com o Japur, no Estado do Amazonas, prxima cidade de

    Tef.

    A implantao desta Reserva constitui-se em um caso significativamente

    especfico pois, para sua concretizao, diferentes atores sociais tiveram

    que se articular, compondo um interessante sistema de parcerias. A UC foi

    decretada, inicialmente como Estao Ecolgica, pelo Governo do Estado

    do Amazonas, em 1990, com base no Projeto Mamirau, um projeto

    estruturado por pesquisadores e cientistas, liderados pelo bilogo

    brasileiro, Jos Mrcio Ayres, um dos responsveis pela fundao, em

    1991, de uma Organizao No-Governamental (ONG) a Sociedade

    Civil Mamirau (SCM), que, posteriormente, obteve do Estado poderes

    para gerir a rea. Em julho de 1997, o Plano de Manejo da RDSM foi

    concludo.

    Pode-se constatar que, num curto espao de tempo, a UC passa de uma

    categoria outra e consolida sua implantao.

    Minha preocupao central situar a RDSM no processo em curso de

    reorganizao territorial na Amaznia brasileira. Duas categorias

    geogrficas foram fundamentais para a anlise: a territorialidade e a gesto

    territorial. A partir delas, podem-se discutir as repercusses da

    consolidao do Projeto Mamirau e da implantao da RDSM sobre a

    populao local e a proposta de ocupao sustentvel para as reas de

    vrzea da Amaznia brasileira.

    Palavras-chave:

    Amaznia Geopoltica da Amaznia Unidade de Conservao

    Desenvolvimento Sustentvel Reorganizao Territorial.

    ABSTRACT

    The aim of this study is to analyse the process of the establishment of a

    Conservation Unit (UC) in the Brazilian Amazon region at the present

    times: the Mamirau Reserve of Sustainable Development (RDSM), set up

    on lowlands at the confluence of the Solimes and the Japur Rivers in the

    Amazon State near the city of Tef.

    The establishment of such a Reserve is highly significant because, to carry

    out its project, different social groups got together and organized an

    interesting partnership system. The first decree issued by the government

    of the Amazon State announcing the UC as an Ecological Station dates

    back to 1990. It was based on the Mamirau Project set up by scientists

    and researchers, whose leader, the Brazilian biologist Jos Mrcio Ayres,

    was one who undertook the responsability for the foundation, in 1991, of a

    Non-Governamental Organization (ONG) the Mamirau Civil Society

    (SCM) which obtained, later on, from the government, the right to

    administrate the area. In July 1997, the Management Plan for the RDSM

    was completed.

    We can clearly notice that in a very short period of time the UC changes

    from one category to another and consolidates its position.

    In this work, my main concern is to place the RDSM in the present process

    of rearrangement of the Amazon region. Two geographical features were

    of great importance for the analysis: the territoriality and the territorial

    management. From now on, the repercussions of the Mamirau Project

    consolidation and of the RDSM establishment for the local people and the

    proposal for a sustainable occupation of the Brazilian Amazon meadow

    areas can be discussed.

    Key-words:

    Brasilian Amazon Geopolitic of the Amazon Conservation Unit

    Sustanaible Development Rearrangement of the Amazon Region.

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    5

    SUMRIO

    INTRODUO ....................................................... 1

    CAPTULO I

    MAMIRAU NO CONTEXTO DO SISTEMA

    NACIONAL DE UNIDADES DE CONSERVAO ...16

    1.1 Constituio das Unidades de Conservao no Brasil

    1.2 As Unidades de Conservao na Amaznia

    1.3 Mamirau: de Estao Ecolgica Reserva de

    Desenvolvimento Sustentvel

    CAPTULO II

    MAMIRAU: "PARASO TERRESTRE" NA VRZEA

    DO MDIO SOLIMES ...................

    2.1 O Potencial Geoestratgico da Regio onde se insere o

    Projeto Mamirau .............

    2.2 O Potencial Econmico-Ecolgico de Mamirau

    CAPTULO III

    AS COMUNIDADES DA VRZEA DO MAMIRU

    CAPTULO IV

    A GESTO DO TERRITRIO

    4.1 O Perfil Institucional do Projeto Mamirau e as

    Parcerias 68

    4.2 Cincia e Tecnologia, Instrumentos de Controle

    Territorial na Vrzea do Mamirau

    4.3 O Espao Organizado

    CONSIDERAES FINAIS: MAMIRAU NO NOVO

    CONTEXTO AMAZNICO ................

    BIBLIOGRAFIA

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    6

    INTRODUO

    A idia original deste trabalho surgiu a partir de minha

    experincia profissional na Amaznia1 brasileira. Como professor-

    substituto da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), trabalhei no

    Projeto de Licenciaturas Plenas2 desenvolvido pela instituio, durante o

    perodo de janeiro de 1993 a julho de 1996, em Tef, cidade plo da regio

    do Mdio Solimes, no Estado do Amazonas. Nesta oportunidade, pude

    vivenciar a realidade amaznica, conhecer alguns aspectos de sua natureza

    e me relacionar com os moradores da regio. A insero na sociedade

    local, atravs do trabalho, permitiu-me estabelecer relaes sociais com

    um certo nvel de aprofundamento e de comprometimento, relaes

    pessoais e, tambm, institucionais. Como professor do Curso de

    1 Vista a partir do cosmos, a Amaznia Sul-americana corresponde a 1/20 da

    superfcie terrestre, 2/5 da Amrica do Sul e 3/5 do Brasil; contm 1/5 da

    disponibilidade mundial de gua doce e 1/3 das reservas mundiais de florestas

    latifoliadas, mas somente 3,5 milsimos da populao mundial. E 63,4% da

    Amaznia Sul-americana esto sob a soberania do Brasil. A Amaznia brasileira ,

    pois, a extensa reserva territorial da sociedade do Pas e um dos ltimos grandes e

    ricos espaos pouco povoados do planeta. A imensa variedade de espcies

    biolgicas das florestas e dos rios e seu delicado equilbrio ecolgico tornam o seu

    desenvolvimento sustentado uma incgnita: um desafio cincia mundial e

    sociedade brasileira em particular (Becker, 1995a).

    2 A UFJF vinha atuando na cidade de Tef e adjacncias desde junho de 1969. O

    Projeto de Licenciaturas Plenas em Tef foi desenvolvido pela Universidade, em

    parceria com as Prefeituras da Regio do Mdio Solimes (AM) e a Secretaria de

    Educao do Estado do Amazonas. Anteriormente, este projeto se inseria dentro das

    aes do Projeto Rondon implementadas pela UFJF na regio. Com a extino da

    Fundao Rondon do Amazonas, em 1992, as Licenciaturas em Geografia, Letras e

    Histria foram viabilizadas por um novo modelo institucional, fruto dessas novas

    parcerias que no dependeram da ao direta do Governo Federal na regio.

    Licenciatura Plena em Geografia da UFJF, convivi com professores da

    cidade de Tef e de outras nove cidades3da regio. Muitos dos alunos,

    alm de professores, desempenham outras funes na sociedade local: so

    vereadores, secretrios do poder executivo, juizes classistas, representantes

    legais de comunidades indgenas, etc. Desta vivncia, surgiram

    questionamentos e dvidas que me colocaram o desafio de um trabalho

    sistemtico de investigao para tentar obter as respostas que procurava.

    Ao longo destes trs anos, observei intensas e significativas

    mudanas em Tef e sua regio que repercutiram de maneira clara sobre a

    organizao territorial do lugar. Foram transformaes perceptveis a partir

    do nvel local-regional que tiveram, como causa, processos relacionados

    tanto escala nacional, quanto escala global e que influenciaram a

    poltica governamental adotada pelo Estado brasileiro com relao

    Amaznia e que afetaram Tef e regio. Novos recortes territoriais se

    configuraram, assim como novas formas de apropriao e uso do territrio.

    Novos atores entraram em cena, alguns atores tradicionais tiveram seu

    papel redimensionado (uns se fortaleceram, alguns se enfraqueceram),

    enquanto outros at se retiraram do cenrio.

    Este quadro traz fortes indcios do momento de transio que se

    configura na Amaznia brasileira. Talvez, a sua poro ocidental, onde se

    insere Tef, seja a grande fronteira do espao amaznico neste final de

    sculo. Ao se tomar a Amaznia Legal como referncia constata-se que o

    conjunto de terras a oeste aquele que mantem a natureza mais

    preservada, que menor impacto sofreu com a implantao dos grandes

    projetos desenvolvimentistas e de integrao nacional das dcadas

    anteriores e que ainda se encontra menos articulado com o todo do

    territrio nacional, dependendo do transporte hidrovirio como meio de

    comunicao preponderante.

    3 Alm de Tef, os alunos eram naturais de Alvares, Uarini, Juta, Fonte Boa,

    Carauari, Japur, Mara, Juru e Coari.

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    7

    A potencialidade de gerao de novas realidades se revela de maneira

    emblemtica na regio ocidental amaznica e, especialmente, em Tef, um

    dos principais centros articuladores desta poro do territrio com o todo

    nacional e com o mundo.

    Vivenciei este momento de transio, trabalhando para a UFJF,

    agente que perdeu posio. As reformas do Estado brasileiro, mais

    especificamente aquelas implementadas pelo Ministrio da Educao e

    Cultura (MEC), e as mudanas de polticas pblicas para a Amaznia, em

    especial a extino do Projeto Rondon, atingiram em cheio a UFJF.

    No final da dcada de 1960, aps ser escolhida como umas das

    Instituies Federais de Ensino Superior a integrar o Projeto dos Campi

    Avanados (dentro do Projeto Rondon) e realizar estudos preliminares na

    regio, a UFJF implantava seu Campus Avanado, em Tef. Muitas aes

    institucionais foram desenvolvidas durante os anos setenta e oitenta. Com

    a extino da Fundao Projeto Rondon, em 1988, o quadro poltico-

    institucional que sustentava as aes da Universidade na regio se

    desconfigurou e as aes se tornaram descontnuas. Em 1992, foi extinta a

    Fundao Rondon do Amazonas, que havia encampado (somente no

    Estado do Amazonas) a estrutura e as atribuies do Projeto Rondon e,

    com isso, tambm, extinguiram-se os ltimos mecanismos que permitiram

    a presena da UFJF na regio, dentro do antigo modelo do Rondon. A

    permanncia posterior da Universidade na regio, de 1993 a 1996, s foi

    viabilizada em funo de um novo tipo de convnio sustentado por novas

    parcerias UFJF + Prefeituras + Estado do Amazonas + Prelazia de Tef

    sem a presena direta do governo central. Foi a partir deste convnio que

    se desenvolveram as Licenciaturas referidas anteriormente.

    Porm, com o fim do Projeto das Licenciaturas, as aes da UFJF,

    na regio, foram encerradas, pelo menos at o presente momento, pois as

    parcerias que as sustentavam tornaram-se inviveis, devido,

    principalmente, ao custo do projeto para as prefeituras locais. Alm disso,

    os dirigentes da UFJF no tiveram interesse em reestruturar as aes da

    Instituio na regio, redimensionando seu papel, articulando novas

    parcerias, adequando-se aos novos tempos.

    Enquanto a UFJF perdeu posio, estando fora do cenrio pois,

    desde julho de 1996, nenhuma ao foi desenvolvida na regio, outro ator

    governamental se reforou. O Exrcito Brasileiro intensificou suas aes

    sobre Tef e regio, tendo como razes polticas, inseridas no Programa

    Calha Norte, a ocupao da fronteira, a segurana nacional e o combate ao

    narcotrfico. Neste perodo, instalou-se, na cidade, a 16 Brigada de

    Infantaria na Selva da Amaznia, com um contigente de cerca de 3.500

    homens, boa parte dos quais, transferidos diretamente do Rio Grande do

    Sul para Tef. Para montar a infra-estrutura necessria para a instalao da

    Brigada, o Exrcito incorporou ao seu patrimnio, em Tef, terrenos,

    prdios e outros bens que pertenciam Unio e ao Estado do Amazonas e

    que no estavam sendo efetivamente ocupados ou estavam sendo sub-

    utilizados, em virtude do fracasso dos projetos anteriormente implantados

    na regio. A crise do Estado, a falta de verbas para manuteno dos

    projetos que perderam seus objetivos e a mudana de polticas pblicas

    para a rea foram, tambm, fatores que permitiram a tomada deste aparato

    pelo Exrcito. Dentre os bens encampados pelo Exrcito, destacam-se a

    Escola Agrotcnica, as terras e os aparelhos da Empresa Amazonense de

    Dend (EMADE), algumas balsas da Petrobrs e, ainda, o Campus

    Avanado da UFJF em Tef, que se transformou num hotel de trnsito

    para sargentos.

    Neste contexto se insere um novo ator, que passa a marcar

    posies e a ser alvo principal de minhas pesquisas: o Projeto Mamirau.

    Em lngua indgena, mamirau significa mamas de Peixe-boi.

    Aqui, no entanto, o termo aparece para designar diferentes categorias, com

    diferentes atributos. No desenrolar do texto, estas categorias vo se

    sobrepor e, para que o leitor no se confunda, faz-se necessria uma

    definio precisa de cada uma delas.

    Primeiramente, Mamirau conhecida como uma regio

    localizada na vrzea do Mdio Solimes, prxima cidade de Tef (AM),

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    8

    na Amaznia brasileira. Esta regio constituda por uma diversa e

    exuberante biota, tpica das florestas tropicais midas de vrzea, e por um

    rico conjunto hidrogrfico.

    Para viabilizar a implantao de uma Unidade de Conservao na

    regio, pesquisadores ligados a diferentes instituies criaram um Projeto

    com o mesmo nome, bem como, uma Organizao No-Governamental,

    para administrar a UC e levantar fundos para o empreendimento, a

    Sociedade Civil Mamirau.

    E foi com o nome de Mamirau que a UC do tipo Estao

    Ecolgica foi batizada. Hoje, contudo, denominada de Reserva de

    Desenvolvimento Sustentvel Mamirau.

    Portanto, o termo Mamirau designa uma regio reconhecida por

    seus moradores tradicionais. Associa-se, tambm, ao recorte territorial

    legalmente delimitado como UC pelo Estado do Amazonas, ao Projeto e

    ONG. Denomina, ao mesmo tempo, uma poro do espao vivido, uma

    rea especial criada por lei, um conjunto de propostas e objetivos e de

    atores da sociedade civil, com seus papis institucionais legalmente

    definidos. Todas estas dimenses possuem suas especificidades, precisam

    ser identificadas e reconhecidas.

    Coloca-se hoje, como um fator de crucial importncia, a

    necessidade de se conhecer os vetores de transformao regional que

    incidem sobre a Amaznia brasileira contempornea antes de qualquer

    tomada de deciso poltica sobre sua ordenao territorial. Este desafio se

    coloca tanto para a sociedade brasileira, quanto para a poltica

    governamental que hoje procura retomar a ao sobre o territrio (Becker,

    1995a).

    A gestao do Projeto Mamirau se d em meados dos anos 80 e

    a implantao da UC, por ele proposta, acontece na primeira metade dos

    anos 90, perodo em que se evidencia o esgotamento do modelo nacional

    desenvolvimentista de ocupao regional, na Amaznia brasileira. Novas

    diretrizes para a ocupao do espao amaznico comeavam a se

    consolidar. Momento de transio. Um novo modelo de desenvolvimento

    estava sendo produzido ao nvel mundial o desenvolvimento sustentvel

    e seus ecos repercutiam no Brasil, justificando um novo modelo de

    ocupao regional, no mais baseado na economia de fronteira, onde a

    natureza era vista como fonte inesgotvel de recursos, capaz de possibilitar

    o crescimento econmico e a prosperidade infinita (Boulding, 1986;

    Becker, 1992a).

    Os indcios de esgotamento do modelo da economia de fronteira

    na Amaznia so evidentes: mudaram as polticas governamentais do

    Estado brasileiro em relao regio, o que pode ser constatado pelo

    abandono de megaprojetos de infra-estrutura altamente impactantes e

    danosos preservao do meio ambiente4.

    Mas, as polticas nacionais mudaram porque tambm mudaram os

    critrios de financiamento para o desenvolvimento de projetos na

    Amaznia. Por exemplo, pode-se verificar que o prprio Banco Mundial,

    em 1996, reconheceu junto opinio pblica mundial, seu erro ao

    financiar o Projeto Polonoroeste5.

    4 (...) visto que Manaus procura fontes de energia para suprir necessidades que no

    foram atendidas pela Barragem de Balbina. A construo de linhas de transmisso

    da Venezuela poderia ter evitado a necessidade da proposta usina Cachoeira

    Porteira, a nordeste de Manaus, cujo custo projetado supera US$ 1 bilho. Isto e seu

    potencial de inundar at mil kilmetros quadrados levou o plano da represa de

    Cahoeira Porteira ser virtualmente abandonado (...) as mesmas tendncias que criam

    vantagens estratgicas para um desenvolvimento sustentado na Amrica do Sul

    esto tornando irrelevante o velho paradigma. (Silva, 1997)

    5 (...) talvez o melhor exemplo conhecido de histria de horror econmico e

    ambiental seja o Projeto Polonoroeste no Brasil. Financiado pelo Banco Mundial,

    este projeto envolveu a construo de rodovias e auto-estradas e a atrao de

    colonos do Sul do Brasil para Rondnia, na Amaznia. A onda de imigrantes

    deflagrou um enorme estrago dos recursos naturais, incluindo um processo

    devastador de desmatamento em importantes ecossistemas, empresas de minerao

    que poluram os rios com lama e produtos txicos, e srios conflitos pela posse da

    terra. Rondnia perdeu mais de 40 por cento de suas florestas. Os ganhos

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    9

    lcito, portanto ter como hiptese, que estes fatos apresentados podem

    ser indcios de que est em marcha uma transio para um novo padro de

    desenvolvimento sustentvel e de insero do Brasil na ordem mundial

    contempornea. E, como fronteira, na Amaznia se estaria gestando um

    novo padro de desenvolvimento, no qual o Projeto Mamirau poderia ser

    uma de suas expresses.

    Com efeito, desde sua criao, os elementos responsveis pelo

    Projeto Mamirau e pela implantao da Unidade de Conservao

    assumem um discurso de inovao, colocam-se como agentes que pautam

    suas aes nos pressupostos bsicos do desenvolvimento sustentvel.

    De acordo com a Comisso Mundial sobre Meio Ambiente e

    Desenvolvimento CCMMD (1988), no denominado Relatrio

    Brundtland, o desenvolvimento sustentvel (DS) aquele que atende as

    necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as geraes

    futuras atenderem as prprias necessidades.

    Quando se fala em necessidades deve-se pensar, sobretudo, nas

    necessidades essenciais das populaes mais carentes. preciso se ter

    noo das limitaes que o estgio da tecnologia e da organizao social

    impe ao meio ambiente, impedindo-o de atender as necessidades

    presentes e futuras.

    S se pode ter certeza da sustentabilidade fsica se as polticas de

    desenvolvimento considerarem a possibilidade de mudanas quanto ao

    acesso aos recursos e quanto a distribuio de custos e benefcios. Mesmo

    na mais estreita noo de sustentabilidade fsica est implcita uma

    preocupao com a equidade social entre geraes, que deve,

    evidentemente, ser extensiva equidade em cada gerao.

    Em essncia, o DS um processo de transformao no qual a

    explorao dos recursos, a direo dos investimentos, a orientao do

    desenvolvimento tecnolgico e a mudana institucional se harmonizam e

    econmicos, em termos de diminuio da pobreza, foram insignificantes. (Idem)

    reforam o potencial presente e futuro, a fim de atender as necessidades e

    aspiraes humanas.

    Muitos problemas derivam de desigualdades no acesso aos

    recursos. No mbito das naes, a estrutura no-equitativa de propriedade

    da terra. No plano internacional, o controle monopolstico dos recursos.

    A dificuldade para promover o interesse comum no DS provm

    do fato de no se ter buscado adequadamente a justia econmica e social

    dentro das naes e entre elas.

    Em todos os pases, ricos ou pobres, o desenvolvimento

    econmico tem de levar tambm em conta a melhoria ou a deteriorizao

    da reserva de recursos naturais em sua mensurao do crescimento.

    Segundo Sachs (1993), todo o planejamento de desenvolvimento

    precisa levar em conta, simultaneamente, as seguintes cinco dimenses de

    sustentabilidade: a) Sustentabilidade Social a criao de um processo

    de desenvolvimento sustentado por uma viso de eqidade na distribuio

    de renda e de bens, de modo a reduzir a diferena entre os padres de vida

    dos ricos e dos pobres; b) Sustentabilidade econmica o

    gerenciamento mais eficiente dos recursos e de um fluxo constante de

    investimentos pblicos e privados. Modificao dos servios da dvida e

    dos termos desfavorveis das barreiras protecionistas ainda existentes no

    Norte e do acesso limitado a cincia e tecnologia; c) Sustentabilidade

    ecolgica que poderia ser melhorada utilizando-se das seguintes

    ferramentas: 1) intensificar o uso do potencial de recursos dos diversos

    ecossistemas, com um mnimo de danos aos sistemas de sustentao da

    vida; 2) limitar o consumo de combustveis fsseis e de outros recursos

    que so facilmente esgotveis ou danosos ao meio ambiente, substituindo

    por recursos renovveis e/ou abundantes; 3) reduzir o volume de resduos

    e de poluio, atravs da conservao de energia e de recursos e da

    reciclagem; 4) promover a autolimitao no consumo de materiais por

    parte dos pases ricos e dos indivduos em todo o planeta; 5) intensificar a

    pesquisa para obteno de tecnologias de baixo teor de resduo e eficientes

    no uso de recursos para o desenvolvimento urbano, rural e industrial e, por

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    10

    fim, 6) definir normas para uma adequada proteo ambiental; d)

    Sustentabilidade espacial deve ser dirigida para a obteno de uma

    configurao rural-urbana mais equilibrada e melhor distribuio territorial

    dos assentamentos humanos, com nfase em: 1 ) reduzir a concentrao

    excessiva na reas metropolitanas; 2) frear a destruio de ecossistemas

    frgeis; 3) promover a agricultura e a explorao agrcola das florestas

    atravs de tcnicas modernas, regenerativas, por pequenos agricultores; 4)

    explorar o potencial da industrializao descentralizada, acoplada nova

    gerao de tecnologias e 5) criar uma rede de reservas naturais e de

    biosfera, para proteger a biodiversidade; e) Sustentabilidade cultural

    inclui a procura de razes endgenas de processo de modernizao e de

    sistemas agrcolas, integrando processos que busquem mudanas dentro da

    continuidade cultural e que traduzam o conceito normativo de

    ecodesenvolvimento em um conjunto de solues especficas para o local,

    o ecossistema, a cultura e a rea.

    Para Guimares (1995), h uma evoluo do debate internacional

    a respeito da crise ambiental. Em Estocolmo-1972, as discusses

    localizaram-se em torno dos aspectos tcnicos da contaminao provocada

    pela industrializao, no crescimento populacional e na urbanizao,

    dando um carter primeiro-mundista a reunio. J na Conferncia Rio-

    1992, os problemas do meio ambiente no foram dissociados dos

    problemas de desenvolvimento, uma viso j consagrada em l987 no

    Relatrio Brundtland. Se em Estocolmo se buscava encontrar solues

    tcnicas para os problemas de poluio e contaminao, a Conferncia do

    Rio teve como objetivo examinar estratgias de desenvolvimento atravs

    de acordos especficos e compromissos dos governos e das organizaes

    inter-governamentais, com identificao de prazos e recursos financeiros

    para implementar ditas estratgias.

    Os problemas ambientais e ecolgicos so frutos de um

    determinado estilo de desenvolvimento, um estilo de desenvolvimento

    ecologicamente depredador, socialmente perverso e politicamente injusto,

    tanto nacional como internacionalmente. As propostas de superao da

    crise atravs do desenvolvimento sustentvel, questionam este estilo de

    desenvolvimento.

    A crise ambiental que afeta a humanidade exige novos modelos

    de desenvolvimento, um desenvolvimento que requer uma nova tica, que

    supere o economicismo que contamina o pensamento sobre o processo de

    desenvolvimento. Guimares (Idem), afirma que a economia deixou de

    estudar os meios para o bem estar do ser humano e converteu-se num fim

    em s mesmo. Destaca ainda que a realidade emprica mostra que a

    acumulao da riqueza, isto , o crescimento econmico, no e jamais foi

    requisito ou pr-condio para o desenvolvimeno do ser humano. As

    opes humanas de bem estar coletivo projetam-se muito alm do bem-

    estar econmico, pois o uso que uma coletividade faz de sua riqueza e

    no a riqueza em s que o fator decisivo.

    O modelo de crescimento atual, o estilo, as caractersticas e a

    direo de uma globalizao sem identidade cultural tem demonstrado,

    que no funciona e que no responde s aspiraes de bem-estar dos seres

    humanos. O crescimento parte do problema e dificilmente ser parte da

    soluo.

    A proposta de desenvolvimento sustentvel diante dessa realidade

    parece plenamente justificvel, porm Guimares (Ibidem) questiona a

    sua aceitao generalizada por todos os setores, caracterizado por uma

    postura acrtica e alienada em relao a dinmicas sociopolticas concretas.

    O autor examina as contradies ideolgicas, sociais e institucionais do

    discurso da sustentabilidade, objetivando transformar as dimenses da

    sustentabilidade, em critrios objetivos de poltica pblica, evitando que

    esta no represente apenas um enverdecimento do estilo atual de

    desenvolvimento.

    Mesmo com as importantes transformaes no pensamento

    mundial a respeito da crise de desenvolvimento que se manifesta na crise

    do meio ambiente, as alternativas que se tem colocado, entre elas o

    desenvolvimento sustentvel, revelam que no tem havido grandes

    avanos na busca de solues definitivas e originais. As propostas atendem

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    11

    a farmacopia neoliberal e continuam prescrevendo programas de ajuste

    estrutural, reduo do gasto pblico e de maior abertura em relao ao

    comrcio e aos investimentos estrangeiros.

    Enquanto o debate mundial sobre a crise ambiental indica a

    necessidade imprimir uma mudana profunda na forma de organizao

    social e a interao com os ciclos da natureza, as alternativas de soluo

    da crise supem mudanas marginais nas instituies e regras do sistema

    econmico e financeiro internacional.

    Neste contexto, as palavras lcidas e crticas do mesmo

    Guimares (1995) devem ser citadas:

    (...) em verdade impressionante, para no

    dizer contraditrio do ponto de vista

    sociolgico, a unanimidade do

    desenvolvimento sustentvel. Resulta

    impossvel encontrar um s ator de

    importncia que se manifeste contrrio

    sustentabilidade. Se no bastasse o sentido

    comum em relao ao vazio dos consensos

    sociais absolutos, o prprio pensamento

    sobre desenvolvimento revela a pugna entre

    atores cuja orientao de ao oscila entre a

    disparidade e o antagonismo.

    O que diz Guimares no trecho acima ajuda na reflexo sobre a

    necessidade de se avaliar a sustentabilidade de projetos como Mamirau.

    Sustentabilidade que deve ser medida atravs das aes implantadas pela

    gesto territorial do Projeto Mamirau. Aes que podem, ou no,

    qualificar seus discursos e fazer com que possa ser reconhecido como um

    agente do desenvolvimento sustentvel.

    Partindo do suposto de que a compreenso da problemtica da

    reorganizao territorial na Amaznia, em sua extenso e complexidade,

    passa pela abordagem de processos concretos que se constrem neste

    cenrio, prope-se aqui um estudo voltado para a anlise do Projeto

    Mamiru como um caso ilustrativo de transformao regional, criado para

    viabilizar a implantao de uma UC na vrzea amaznica; os contenciosos

    geopolticos relacionados implantao desta UC, situando-a no mbito

    dos processos de reorganizao territorial em curso na regio neste final de

    sculo.

    A partir destes pressupostos se coloca a indagao central desta

    dissertao: O Projeto Mamirau pode ser considerado como indicador de

    novos processos constitutivos da reorganizao territorial da Amaznia

    brasileira contempornea?

    A questo e a hiptese formuladas balizaram a definio dos objetivos

    desta dissertao: analisar o processo de criao e de implementao do

    Projeto Mamirau, visando identificar as inovaes por ele trazidas no

    processo de reorganizao regional.

    O Projeto Mamirau pode ser um referencial importante para a

    avaliao se, de fato, o modelo do desenvolvimento sustentvel deixa a sua

    dimenso conceitual e ganha uma nova dimenso, concretizando-se como

    um novo modelo de ocupao espacial e de aproveitamento econmico.

    Ou, ao contrrio, se trata da retrica de mais um projeto que visa

    possibilitar o acesso aos recursos amaznicos por agentes transnacionais;

    ou ainda, o acesso aos recursos financeiros internacionais por parte de

    agentes regionais e nacionais.

    O estudo deste caso pode servir como subsdio para a implantao

    de outros projetos na Amaznia. As conseqncias de sua implantao

    sobre a conservao e a preservao dos recursos amaznicos, sobre as

    condies de vida das populaes locais e para o desenvolvimento da

    pesquisa na Amaznia, ao serem analisadas, podem servir de balizamento

    para aes pblicas e privadas.

    O trabalho est estruturado em 5 captulos. O Captulo 1 aborda a

    evoluo do conceito de rea preservada, destinada proteo e

    conservao da natureza, tanto no mundo, quanto no Brasil, com ateno

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    12

    especial para a Amaznia. Esta evoluo analisada a partir da noo de

    reas silvestres at os modelos mais contemporneos de Unidades de

    Conservao (UC), onde abordada a questo da criao do Sistema

    Nacional de Unidades de Conservao (SNUC) no Brasil. Alm disso,

    procura inserir a Reserva de Desenvolvimento Sustentvel do Mamirau

    (RDSM) neste contexto, apresentando seu processo de criao, no incio

    da dcada de 90, na Amaznia brasileira, e sua evoluo at meados da

    mesma dcada.

    No Captulo 2, discute-se o potencial estratgico da regio onde

    se implantou a RDSM e procura-se descrever, sucintamente, a rea da

    Reserva, evidenciando seu grande potencial ecolgico e econmico,

    revelando a rea como verdadeiro paraso ecolgico, importante reserva de

    natureza da vrzea amaznica, de grande diversidade biolgica, de espcies

    endmicas e de importantes recursos naturais.

    No Captulo 3, procura-se fazer um levantamento das formas de

    ocupao e organizao do territrio da regio do Mamirau, anteriores

    criao da UC e do Projeto Mamirau, destacando-se o papel primordial da

    Igreja Catlica na estruturao das comunidades que vivem nesta poro

    da vrzea amaznica.

    No captulo 4, o foco volta-se para a anlise do Projeto

    Mamirau, primeiramente no que intrnseco a ele, seu carter de

    inovao, de hibridismo e de parcerias que relacionam atores da escala

    local escala global. Tambm analisada a utilizao da pesquisa

    cientfica e da inovao tecnolgica no controle e na gesto do territrio. A

    partir da, pode-se vislumbrar como as redes internacionais se constituem,

    colocando as matrizes genticas e a biodiversidade da Amaznia

    disposio de agentes constitudos fora da sociedade nacional.

    Nas consideraes finais, busca-se estabelecer um olhar crtico

    sobre o Projeto Mamirau, discutindo-se, principalmente, as implicaes

    da implantao do Plano de Manejo e, portanto, da gesto territorial,

    proposta pelo Projeto para a UC, sobre a territorialidade dos moradores

    locais e, conseqentemente, as repercusses deste modelo de gesto sobre

    novas possibilidades de aproveitamento e ocupao do espao amaznico,

    neste final de milnio.

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    13

    CAPTULO I: MAMIRAU NO CONTEXTO DO SISTEMA

    NACIONAL DE UNIDADES DE CONSERVAO

    Para que se possa ter a dimenso da importncia da criao da

    Reserva de Desenvolvimento Sustentvel de Mamirau (RDSM), no

    sentido desta ser um tipo de Unidade de Conservao (UC) inovador e que

    pode trazer significativas repercusses sobre a poltica de conservao da

    natureza na Amaznia brasileira, preciso discutir a evoluo do prprio

    conceito de Unidade de Conservao e de rea reservada no Brasil e

    contextualizar a criao da Reserva de Mamirau neste processo.

    1.1 Constituio das Unidades de Conservao no Brasil

    Segundo vrios autores, a preocupao com a conservao da

    natureza teve um marco com a noo de reas silvestres, a partir da

    criao do primeiro Parque Nacional do mundo, o Yellowstone, em 1872,

    nos Estados Unidos, iniciativa que ocorreu durante expedio exploratria

    de colonizao regio do rio com o mesmo nome. Yellowstone foi

    concebido como uma rea protegida, em um contexto de valorizao da

    manuteno de reas naturais, consideradas como ilhas de grande beleza

    e valor esttico, que conduziriam o homem meditao. O grande avano,

    em termos de conservao da natureza, determinado pela criao deste

    parque, foi a sua destinao para a preservao contra qualquer

    interferncia ou explorao de recursos naturais dentro da rea,

    garantindo-se seu estado natural em perpetuidade. ( Packard, 1972;

    Milano, 1993; Diegues, 1994)

    Ainda na segunda metade do sculo passado, conviviam duas

    correntes que pensavam a preservao/conservao da natureza. A

    preservacionista pretendia proteger a natureza contra o desenvolvimento

    industrial e moderno, reforando, assim, a criao de reas naturais

    protegidas. Esta corrente sofreu grande influncia das idias de Charles

    Darwin, que recolocava o homem no mundo animal e da noo de

    ecologia, segundo a qual os organismos vivos interagiriam entre si e

    com o ambiente.(Vianna, 1994)

    Reforando o conceito de preservao, Diegues (1994) afirma que a

    essncia da corrente preservacionista pode ser descrita como a reverncia

    natureza, no sentido da apreciao esttica e espiritual da vida selvagem

    (wilderness).

    Retomando as consideraes de Vianna (1994), a segunda

    corrente seria a conservacionista que apregoava o uso racional dos

    recursos naturais, dentro de um contexto de transformao da natureza em

    mercadoria. Diegues (1994) observa que esta corrente defendia, assim, a

    preveno do desperdcio e a democratizao na utilizao dos recursos

    naturais, tornando-se uma corrente de pensamento crtico do

    desenvolvimento a qualquer custo.

    Pode-se observar, ento, que a nfase das justificativas para a

    criao de reas especiais (reservas de natureza) variava entre posies

    que, de um lado, reforavam a beleza e a necessidade de preservao do

    patrimnio paisagstico e, de outro, afirmavam a necessidade de

    explorao racional dos recursos naturais e o desenvolvimento de

    pesquisas cientficas a partir dos mesmos. Esse processo pode ser

    verificado tambm no Brasil.

    No Brasil, embora o engenheiro e poltico, Andr Rebouas,

    inspirado pela criao do Parque estadunidense, tenha lutado, j a partir de

    1876, pela criao dos parques nacionais da Ilha do Bananal e de Sete

    Quedas, o primeiro parque nacional, o Itatiaia, s foi criado em 1937.

    O Cdigo Florestal de 1934 j conceituava, alm dos Parques

    Nacionais, as Florestas Nacionais, suscetveis de explorao econmica e

    as Florestas Protetoras, reas de preservao em propriedades privadas,

    apesar de s existirem, inicialmente, no texto da Lei. Posteriormente, foi

    aprovada, em 1948, a Conveno para a proteo da Flora, da Fauna e das

    Belezas Cnicas Naturais dos Pases da Amrica. Este fato no alterou

    significativamente as categorias de reas preservadas no Brasil. Somente

    em 1965, com a assinatura do Novo Cdigo Florestal, que foram criadas

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    14

    novas categorias, divididas em dois blocos: o das que no permitiam a

    explorao dos recursos naturais e o das que permitiam. Somente no final

    da dcada de 70, o debate sobre as reas reservadas proteo ambiental

    voltou a provocar alteraes na Legislao Federal. Em 1979, foram

    regulamentados os Parques Nacionais e, em 1981, as reas de Proteo

    Ambiental e as Estaes Ecolgicas. (Vianna,1994)

    O estabelecimento dessas reas protegidas teve um grande

    impulso entre as dcadas de 70 e 80, quando foram criadas cerca de 2.098

    reas especiais em todo o mundo, cobrindo mais de 3.100.000 km2, em

    contraposio s 1.511 unidades existentes desde o incio do sculo e que

    cobriam aproximadamente 3.000.000 Km2. Hoje, cerca de 5% da

    superfcie terrestre encontram-se legalmente protegidas, o que corresponde

    a 7.000 reas da esfera federal, estadual, municipal e, ainda, de provncias

    e particulares, espalhadas por 130 pases. (Kemf, 1993; In: Diegues, 1994)

    Este processo tambm ocorreu no Brasil, no mesmo perodo, e

    pode ser explicado pelas novas diretrizes, em termos da gesto territorial,

    definidas pelo poder pblico nacional, influenciado pelas repercusses da

    Conferncia de Estocolmo (CNUD-1972) e preocupado com a poltica de

    integrao do territrio nacional. O quadro a seguir permite verificar a

    evoluo do processo de criao de UCs no mundo e no Brasil.

    Tabela 1.1

    Nmero de reas Protegidas por

    Dcadas no Mundo e no Brasil

    No Mundo No Brasil

    Antes de 1900 37 0

    1930 a 1939 251 3

    1940 a 1949 119 0

    1950 a 1959 319 3

    1960 a 1969 573 8

    1970 a 1979 1317 11

    1980 a 1989 781 58

    Fonte: Reid e Miller, 1989;

    IBAMA, 1989*. In Diegues, 1994.

    * (esto includos parques

    nacionais, reservas biolgicas,

    estaes ecolgicas, reas de

    proteo ambiental, a nvel

    federal somente).

    Embora, de um ponto de vista tcnico e mesmo poltico, alguns

    princpios filosficos do estabelecimento de reas protegidas j fossem

    identificveis, nas primeiras dcadas deste sculo, no Brasil, sua

    fundamentao tcnico-poltica e, tambm, legal passou a ser expressiva,

    somente na dcada de setenta, aps a criao do antigo Instituto Brasileiro

    de Desenvolvimento Florestal (IBDF) (Milano, 1993).

    O termo, Unidade de Conservao (UC), e no, rea protegida ou

    rea silvestre, foi utilizado originariamente por Jorge-Pdua, no

    documento Diagnstico do Subsistema de Conservao e Preservao de

    Recursos Naturais Renovveis preparado para o IBDF em 1978 e

    adotado, oficialmente, pelo mesmo Instituto, no estabelecimento da

    poltica setorial de reas protegidas, com a publicao do Plano do

    Sistema de Unidades de Conservao do Brasil em 1979.

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    15

    A antiga Secretaria Especial do Meio Ambiente (SEMA) tambm

    adotou o termo Unidade de Conservao e, ao faz-lo, promoveu seu

    estabelecimento legal, atravs da resoluo do Conselho Nacional do Meio

    Ambiente (CONAMA), n. 011/87. Tal resoluo, ainda que no conceitue

    Unidade de Conservao, estabelece legalmente a existncia do termo e

    o princpio tcnico da existncia de categorias distintas de manejo,

    relacionadas a objetivos de conservao e manejos especficos

    (Milano,1993).

    O processo de criao, manejo e gerenciamento de Unidades de

    Conservao esteve sob a coordenao de diferentes instituies at 1989,

    com a criao do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos

    Renovveis (IBAMA), que se tornou o rgo central responsvel por esta

    poltica setorial de meio ambiente. Segundo Milano (1993), do antigo

    IBDF, o IBAMA herdou o maior e mais representativo conjunto de

    unidades e, tambm, a base conceitual de conservao da natureza, no que

    se refere a unidades de conservao, seu ordenamento como sistema

    representativo e os princpios metodolgicos de gesto e manejo

    planejados. Afirma ainda que, antes da fuso das instituies que

    formaram o IBAMA, em 1987, SEMA e IBDF iniciaram a elaborao do

    atual Programa Nacional do Meio Ambiente (PNMA) que, considerando a

    sistemtica dificuldade de implantao do conjunto de unidades de

    conservao federais tem, como um de seus pilares de sustentao, o

    componente Unidades de Conservao (PNMA-UC). O programa, como

    um todo, visando fortalecer as instituies ambientais do pas (federais e

    estaduais), consolidar o sistema nacional de unidades de conservao e

    ampli-lo e, ainda, enfatizar a proteo de ecossistemas considerados

    prioritrios, apresenta uma linha geral que destaca, politicamente, a

    importncia das unidades de conservao. A execuo do PNMA, com

    recursos bsicos do Banco Mundial (BIRD) e a participao do

    Kreditanstalt fr Wiederaufbau (KfW), por sua vez, no tem alcanado os

    objetivos propostos, especialmente no que concerne s unidades de

    conservao.

    Em 1990, ocorreu significativa mudana conceitual na

    categorizao de unidades de conservao no Brasil, com a criao das

    Reservas Extrativas (Decreto n 98.897), espaos territoriais considerados

    de interesse ecolgico e social, destinados explorao sustentvel dos

    recursos renovveis por populao extrativa, mediante contrato de

    concesso de uso. (Vianna,1994)

    O Brasil contava, em 1990, com cerca de 15 tipos de unidades de

    conservao, englobando aproximadamente 429 unidades ao nvel federal,

    estadual e municipal, que ocupavam 48.720.109 ha. Cerca de 40.000.000

    ha se encontravam na regio amaznica, onde existiam somente 72 UCs

    (17%), enquanto que a regio sul-sudeste detinha mais de 80% do total das

    UCs, ocupando uma rea de, aproximadamente, 4.043.390 ha, isto ,

    apenas 8% do total das reas destinadas s Unidades de Conservao no

    pas. (Bacha, 1992; citado por Diegues,1994 e por Menezes,1995).

    Ainda tramita na Cmara dos Deputados o projeto de lei

    2.892/92, que cria o Sistema Nacional de Unidades de Conservao

    (SNUC), no mbito do PNMA-UC, determinando a reviso conceitual e

    legal da situao encontrada no Brasil. Tal trabalho, cujo texto foi

    proposto pelo IBAMA, conceitua Unidade de Conservao como espaos

    territoriais e seus componentes, incluindo as guas juridicionais, com

    caractersticas naturais relevantes, de domnio pblico e privado,

    legalmente institudos pelo Poder Pblico, com objetivos definidos, sob

    regimes especiais de administrao, s quais se aplicam garantias

    adequadas de proteo.

    Segundo o IBAMA (1995), no Relatrio Sntese Unidades de

    Conservao no Brasil, Cadastramento e Vegetao (1991-1994) as

    Unidades de Conservao so reas protegidas e estabelecidas em

    ecossistemas significativos do territrio nacional pelo Governo Federal,

    bem como, pelas unidades da Federao, atravs dos respectivos Governos

    Estaduais e Municipais, em seu mbito administrativo. A Unio

    Internacional para a Conservao da Natureza (IUCN) reconhece trs

    classes sob as quais esto agrupadas as categorias de manejo: uso indireto

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    16

    dos recursos, uso direto dos recursos e reservas de destinao. Para melhor

    compreenso, o uso indireto dos recursos exprime a no ocupao do

    espao considerado para fins de explorao direta; o uso direto dos

    recursos exprime a ocupao pelo homem, do espao considerado, em sua

    plenitude racional; a reserva de destinao implica manter o espao

    considerado inclume, de maneira a ser definido, no futuro, seu uso

    racional.

    O processo de criao das unidades de conservao da natureza

    pressupe diploma legal como, lei, decreto-lei, ou portaria, quando

    pblicas e por resolues, quando particulares. Nesse diploma so

    explicitados os objetivos e tipos de uso e ocupao permitidos em seu

    territrio, as proibies ou restries. Segue-se a elaborao do memorial

    descritivo, explicitando a superfcie para posterior demarcao da UC. O

    processo de implantao das unidades quase sempre se d a posteriori da

    ocupao da rea (Menezes, 1995).

    1.2 As Unidades de Conservao na Amaznia

    A criao de Unidades de Conservao representou, no contexto

    das polticas ambientais para a Amaznia, uma concepo de ordenamento

    e gesto do espao, como parte de uma estratgia conservacionista. Desta

    forma, seu objetivo geral seria a preservao de reas com atributos

    ecolgicos importantes (Menezes, 1995).

    A estruturao de Unidades de Conservao na Amaznia

    extremamente relevante, representando 60,6% da rea total de UCs j

    estabelecidas no Brasil (Menezes, 1995).

    Para Ribeiro (1994), , nas origens da Amaznia, que se

    encontram os fundamentos da biodiversidade e, em especial, da

    multidiversidade que, em sua totalidade, forma o complexo ecossistmico

    mais exuberante do Trpico mido, pela riqueza de contedo, variedade

    de suas espcies e plurivalncia de suas estruturas. Ora, os modelos de

    unidade de conservao, at hoje criados no Pas, abstiveram-se de ir ao

    encontro dessa multidiversidade ambiental. As categorias criadas levam

    em conta, basicamente, as peculiaridades geogrficas e a biodiversidade de

    regies nordestinas e do centro-sul do Pas, o que explicado pela

    circunstncia de essas regies terem servido como bero para a

    interveno do Estado na criao de espaos especialmente protegidos. H

    que ser corrigida essa distoro, pois as UCs criadas na Amaznia gozam,

    apenas, de relativa aplicabilidade ao patrimnio natural regional.

    compreensvel que a realidade scio-ambiental, com

    caractersticas especficas e uma interdependncia forte e direta do homem

    diante da natureza, suscite questionamentos especiais que, a rigor, a

    unidade de conservao deve ter condies de responder. A criao de

    uma Unidade de Conservao na regio amaznica, sem atentar para a

    realidade antrpica , no mnimo, equvoca e alienante, na medida em que

    termina, necessariamente, por privilegiar a natureza diante do homem ou

    encontrar uma relao antittica entre ambos. Essa distoro, na concepo

    mesma da unidade, levar, seguramente, adoo de medidas sectrias e

    prejudiciais ao homem ou natureza, como entes irreconciliveis,

    revelando, na melhor das hipteses, um contra-senso em poltica

    ambiental. (Idem)

    Nesse contexto, ressalta a tentativa de inovar na forma de proteger a

    natureza, a Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau,

    expresso das mudanas em curso no Brasil e na Amaznia.

    1.3 Mamirau: de Estao Ecolgica Reserva de Desenvolvimento

    Sustentvel

    Atravs do Decreto-Lei n 12.836 do Governo do Estado do

    Amazonas, em 9 de maro de 1990, foi criada a Estao Ecolgica do

    Mamirau (EEM), a partir da proposta elaborada, em 1985, pelo bilogo,

    Jos Mrcio Ayres, e pelo fotgrafo, Luis Carlos Marigo, que percorreram

    a rea, entre os anos de 1983 e 1985, realizando estudos cientficos e

    documentrios fotogrficos. A proposta inicial previa delimitao de uma

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    17

    rea aproximada de 712 km2, definida por limites naturais, tendo o rio

    Japur a leste, a norte o rio Jarau e ao sul, o rio Solimes. Ao ser

    decretada a criao da EEM, a rea foi extendida para 11.240 km2,

    envolvendo a regio compreendida entre os rios Japur, Solimes e Auati-

    Paran (Projeto Mamirau, Relatrio Semestral, #5, 1994).

    No ano de 19846, quando o lago Mamirau estava protegido por

    uma portaria da Superintendncia do Amazonas, do extinto IBDF, foi

    iniciado um trabalho sistemtico de pesquisa por Ayres, sobre a scio-

    ecologia do macaco uacari branco, com auxlio do INPA e do CNPq. No

    ano seguinte, Ayres enviou SEMA (ex-Secretaria Especial do Meio

    Ambiente, hoje, parte do IBAMA) uma proposta para a criao de uma

    Estao Ecolgica, totalmente constituda por vrzea, via de regra

    negligenciada no SNUC.

    Logo depois da criao da EEM pelo Estado do Amazonas, foi

    apresentado o Plano Para a Implementao da Estao Ecolgica do Lago

    do Mamirau, em abril de 1991. Este plano foi preparado pelo Museu

    Paraense Emlio Goeldi/CNPq, Wildlife Conservation International,

    Overseas Development Administration-U.K. e Universidade Federal do

    Par; em colaborao com a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e com

    o Instituto do Meio Ambiente do Amazonas, instituindo-se, desta forma, o

    Projeto Mamirau, coordenado pelo Dr. Jos Mrcio Ayres.

    O Plano para Implementao da EEM foi enviado a instituies

    financiadoras nacionais e internacionais, propondo a criao de uma rea

    focal de 200.000 ha, compreendida entre os rios Aranapu, Jupur e

    Solimes, para a implantao piloto das atividades de manuteno da

    reserva que, segundo o Plano, posteriormente, devero ser estendidas s

    demais reas.

    Foi criada, no incio de 1992, a Sociedade Civil Mamirau

    6 Havia ento, na regio, muitos pescadores de pirarucu e tambaqui, e caadores de

    jacar que comercializavam a carne em mercados fora de Tef (Ayres, 1993).

    (SCM), uma ONG constituda por cientistas e profissionais liberais, com a

    finalidade especfica de assumir, em nome do Governo do Estado do

    Amazonas, a gesto ambiental da Unidade de Conservao. A estrutura da

    sociedade civil vem sendo montada com o andamento do Projeto e,

    segundo seus administradores, a entidade dever assumir os encargos

    administrativos e financeiros da Reserva, aps o trmino do mesmo e a

    implantao definitiva da rea protegida.

    A Estao Ecolgica de Mamirau, atravs de seu corpo de

    cientistas e gestores, desenvolveu um largo trabalho, no sentido de

    compreender a realidade ambiental da rea especialmente protegida,

    mantendo contatos diretos com as populaes que habitam a regio. Sua

    constatao mais importante foi, sem dvida, a de que se trata de uma

    populao que vive, exclusivamente, da explorao de recursos extrados

    de Mamirau. E mais, verificou-se que essa populao j vive

    centenariamente na rea e que forjou a sua cultura a partir de suas

    interaes com o ambiente natural sua volta. Esse enfoque foi,

    certamente o que lhe permitiu perquirir sobre a adequao do modelo

    institucional adotado realidade de Mamirau. (Ribeiro, 1994)

    Na legislao brasileira, a denominao de Estao Ecolgica

    refere-se a unidades de conservao no habitadas por populaes

    humanas, reservados 10% de sua rea para pesquisa e 90% para a

    preservao total. Fica evidente a incompatibilidade do modelo de Estao

    Ecolgica com a realidade de Mamirau e, assim, depois de estudos,

    consultas e gestes junto aos rgos Oficiais, os responsveis pelo Projeto

    Mamirau elaboraram um Projeto de Lei, encaminhado pelo Governo do

    Estado do Amazonas, atravs do qual um novo tipo de unidade de

    conservao foi proposto, chamado de Reserva de Desenvolvimento

    Sustentvel. Em fins de junho de 1996, este Projeto de Lei foi aprovado

    pela Assemblia Legislativa do Estado do Amazonas e a Lei foi

    promulgada, em 12 de julho do mesmo ano, pelo Governador Amazonino

    Mendes. Est prevista a proteo ambiental, assegurada a permanncia das

    comunidades ribeirinhas que habitam a regio e autorizada a explorao

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    18

    sustentvel dos recursos naturais, inclusive, o ecoturismo.

    De acordo com o Projeto Mamirau (1996b), a Sociedade Civil

    Mamirau, criada no incio de 1992, uma entidade sem fins lucrativos

    que tem como objetivo contribuir para a conservao e preservao dos

    recursos naturais renovveis, em especial nas reas de floresta inundvel,

    alm de administrar os recursos recebidos para o desenvolvimento das

    atividades do Projeto e implantao da unidade de conservao. Uma das

    preocupaes da Sociedade com a manuteno a longo prazo da

    reserva.

    Dois elementos geopolticos deste processo podem ser

    destacados: 1) a criao da UC como instrumento institucional para a

    restrio do uso dos recursos naturais, indicativo de novas polticas

    governamentais para a Amaznia; 2) a descentralizao da gesto

    ambiental do mbito federal para o estadual. Decretada a UC pelo Estado

    do Amazonas, para viabilizar a implantao do Projeto, parcerias

    inovadoras por seu formato e por seus elementos so realizadas.

    Com a transferncia da responsabilidade da gesto da rea, do

    Estado do Amazonas para a Sociedade Civil de Mamirau (SCM), outra

    dimenso da descentralizao da gesto territorial se evidencia. De um

    lado, o Estado, incapaz de exercer sozinho a gesto, de executor passa para

    o papel de regulador; por outro lado, o fato de um agente do Terceiro

    Setor assumir as responsabilidades, que antes somente cabiam ao Estado,

    revelador de um novo quadro poltico-institucional: mostra, nitidamente,

    que a mobilizao da sociedade civil organizada pode colocar, no cenrio,

    diferentes atores que passam a realizar importantes e novos papis da

    gesto territorial do espao amaznico.

    O carter de flexibilidade administrativa da ONG permite que

    instituies governamentais e no governamentais externas possam

    financiar a produo de uma proposta de plano de manejo da rea e a

    implantao da infra-estrutura. Ao mesmo tempo, a presena de

    instituies nacionais salvaguardam o aspecto da soberania nacional.

    Um outro elemento se coloca no cenrio: a participao das

    comunidades locais e a manuteno da scio-biodiversidade. A presena

    centenria de moradores na rea implica uma nova dimenso de gesto

    territorial. Para a efetivao da sustentabilidade, eles precisam, de fato,

    estar integrados no projeto de desenvolvimento e ter seu patrimnio scio-

    cultural preservado. Esta situao implica uma questo legal: uma UC do

    tipo Estao Ecolgica no contempla a realidade de Mamirau.

    Assim, para que a incorporao do homem amaznico no

    processo acontea de fato e de direito e para que o Projeto saia do papel,

    preciso, entre outros fatores fundamentais, que alteraes legais na

    legislao ambiental brasileira, que cria e regula as Unidades de

    Conservao, sejam implementadas. Para sair desta situao paradoxal, os

    gestores de Mamirau se empenham e obtm sucesso na modificao da

    categoria legal7 qual a UC estava enquadrada de Estao Ecolgica

    Mamirau (EEM) a Unidade de Conservao evolui para Reserva de

    Desenvolvimento Sustentvel Mamirau (RDSM), categoria legal que foi

    tambm criada pelo Estado do Amazonas, em julho de 1996.

    Pode-se constatar que Mamirau, enquanto UC, evolui

    rapidamente para o desenvolvimento sustentvel, podendo ter uma forte

    influncia na consolidao deste novo conceito de unidade de conservao

    7 O modelo de implantao da EEM fundamenta-se em uma definio ampla de

    natureza a ser preservada. Seguindo as mais recentes orientaes na discusso

    nacional e internacional, busca evitar os sectarismos ecolgicos e reconhece a

    importncia das reas de preservao integradas a processos de desenvolvimento

    social (Lima- Ayres, l994). A populao local dever ser mantida em suas reas de

    posse, para o que a equipe da coordenao do programa vem trabalhando no sentido

    de propor a incluso de uma nova categoria de reserva para a atual legislao

    estadual sobre unidade de conservao. A implantao da reserva busca conciliar os

    interesses da populao de usurios tradicionais aos objetivos de preservao da

    biodiversidade. (...) O Projeto Mamirau, portanto, busca contribuir, com seus

    sucessos e fracassos para a implementao de prticas conservacionistas

    integradas ao desenvolvimento social [ grifo meu] ( Projeto Mamirau, Relatrio

    Semestral # 5, l994).

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    19

    no Brasil. Percebe-se uma mudana significativa quanto ao interesse de se

    criarem reas especiais (reservas de natureza), no Brasil. Consideram-se,

    no somente os atributos cnicos, a preservao e a conservao da biota,

    mas tambm a natureza como modelo, como base para pesquisa cientfica.

    Portanto, a natureza ganha valor, tanto como algo a ser conservado, quanto

    a ser pesquisado como fonte de informao e, assim, pode-se

    vislumbrar um novo modelo de produo, medida que o Projeto

    Mamirau e a RDSM se consolidam.

    Por tudo isto, evidencia-se a relevncia de Mamirau como uma

    demonstrao cabal de que novas parcerias tm sido capazes de definir

    novos territrios na Amaznia brasileira, implicando novos processos que

    esto mudando a atual face da organizao espacial da regio. Pode-se

    assegurar que a dinmica do real requer que os modelos legais de

    regulao destes territrios, alguns sob a forma de Unidades de

    Conservao, evoluam e passem a se adequar a esta dinmica. E, mais uma

    vez, a originalidade de Mamirau se coloca de Estao Ecolgica a

    Unidade de Conservao, evoluiu, a passos rpidos, para Reserva de

    Desenvolvimento Sustentvel, um tipo de UC at ento inexistente no

    pas.

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    20

    CAPTULO II: MAMIRAU: PARASO TERRESTRE NA

    VRZEA DO MDIO SOLIMES

    A Reserva de Desenvolvimento Sustentvel do Mamirau

    (RDSM) ocupa uma rea de 11.240 km2, envolvendo a regio situada entre

    os rios Japur, Solimes e Auti-Paran (um brao do Solimes que

    desgua no Japur). Localiza-se na poro ocidental da Amaznia

    brasileira, na regio do Mdio Solimes, prxima ao plo regional de Tef

    (AM), abrangendo parte das terras de sete municpios: Japur, Fonte Boa,

    Mara, Juta, Juru, Uarini e Alvares. A grande extenso da rea sobre a

    qual se implantou a RDSM algo que chama a ateno a nvel de

    comparao, a dimenso desta rea eqivale a mais da metade do territrio

    do estado de Sergipe (BR). Devido s dificuldades naturais para a

    implantao de uma Unidade de Conservao numa rea to grande, ela

    foi dividida, pelo Projeto Mamirau (Ayres, 1991), em duas partes: uma

    que vem servindo como piloto para a implantao do Plano de Manejo

    onde, de fato, se do as atividades do Projeto, denominada de rea Focal,

    ocupando cerca de um sexto da rea total, com 260.000 ha, e outra

    denominada rea Subsidiria, que ocupa o restante. (Ver Mapa 1).

    Apesar de a RDSM no estar territorialmente inserida no

    municpio de Tef, l que se concentra a base logstica do Projeto que d

    suporte s atividades de manejo da UC e, tambm, a partir dali que se

    do as conexes do Projeto com seus parceiros nacionais e internacionais.

    A infra-estrutura ali estabelecida viabiliza fluxos de gesto e controle

    sobre o territrio da Reserva e sobre as demais instncias do Projeto

    Mamirau.

    Como Tef o plo regional sobre o qual se assentam as

    atividades do Projeto, tomaremos a cidade como referncia ao analisarmos

    a questo da localizao estratgica da RDSM, pois a UC se insere numa

    dinmica regional que precisa ser desvendada.

    2.1 O potencial geoestratgico da regio onde se insere o Projeto

    Mamirau

    O municpio de Tef conta, segundo dados de 1996 do IBGE,

    com uma populao de 62.810 habitantes, numa rea de 22.904 km2, o que

    significa uma densidade demogrfica de 2,74 hab./km2. Ao se analisar os

    dados dos ltimos recenseamentos, pode-se constatar que Tef tem se

    destacado pelo expressivo crescimento populacional. Considerando que as

    taxas de natalidade no tm apresentado significativas elevaes e que

    dinmica regional tem-se dado no sentido da incorporao de novos

    agentes de desenvolvimento, verifica-se que o incremento populacional

    deve-se muito mais ao diferencial migratrio do que ao crescimento

    vegetativo.

    O centro urbano de Tef, nas ltimas dcadas, vem recebendo significativo

    contingente de migrantes, que deixam as reas rurais e at urbanas de

    municpios polarizados em busca de melhores oportunidades de trabalho e

    acesso a servios urbanos. Alm disso, empreendimentos como o do

    Exrcito, que criou a Brigada de Selva no municpio, reforam o

    crescimento populacional.

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    21

    Tabela 2.1

    Tef e Regio Populao Residente

    Pop. residente por municpio

    1980 1991 1996

    Tef 30.743 54.045 62.810

    Alvares1

    8.486 13.353

    Uarini2

    5.408 10.546

    Fonte Boa 13.520 16.460 22.323

    Mara 9.963 11.855 14.027

    Japur 2.093 10.791 6.307

    Juta 9.357 14.884 19.373

    Fonte: IBGE. 1

    Distrito de Tef em 1980,

    recebeu rea do mesmo

    municpio (Lei n 1.707 de

    23/10/85). 2

    Recebeu rea de Fonte Boa e

    Tef (Lei n 1.707 de

    23/10/85).

    Como pode ser constatado, a migrao se reforou, tanto para a

    regio de Tef, quanto em direo a Manaus, no s pelo dinamismo dos

    centros urbanos regionais, mas, principalmente, pela decadncia das

    atividades agrrias e a falta de assistncia ao pequeno produtor, ocasionada

    pela extino e/ou sucateamento de alguns rgos, tais como, a Empresa

    de Assistncia Tcnica e Extenso Rural (EMATER-MA), a

    Superintendncia de Campanhas Mdicas (SUCAM) e o Servio Especial

    de Sade Pblica (SESP) que se fundiram na Fundao Nacional de Sade

    (FNS), o prprio Projeto Rondon, o Movimento de Educao de Base

    (MEB), o Centro de Treinamento Padre Anchieta, o Instituto de Educao

    Rural do Amazonas (IERAM) e a Cooperativa Agrcola de Tef.

    A cidade de Tef se sobressai por sua posio geogrfica na

    Amaznia sul-americana. Se considerarmos a poro ocidental do Estado

    do Amazonas, esta posio ganha, ainda, mais destaque. Historicamente,

    Tef manteve posio geoestratgica por estar localizada beira de um

    lago (na verdade, a foz represada do rio Tef), como porto resguardado,

    nas proximidades da margem direita do Solimes, com ele interligando-se

    atravs de canais e parans (Menezes, 1994).

    A posio da cidade se torna ainda mais estratgica, na medida

    que exprime uma centralidade consoante s seguintes relaes de posio:

    a localizao mediana na bacia hidrogrfica do rio Solimes e a posio

    centralizadora na hinterlndia do Estado do Amazonas. Esta situao

    privilegiada faz de Tef uma rota natural, na comunicao fluvial, entre o

    Brasil e a maior parte dos pases da Amrica do Sul setentrional e andina,

    possuidora de uma posio de grande centralidade em relao Amaznia

    Sul-Americana.

    Tef encontra-se em posio mediana entre as fronteiras do Par

    (leste), Colmbia (oeste) e Venezuela (norte). Ao passar por Tef, o rio

    Solimes recebeu diversos afluentes, entre eles, da margem esquerda o rio

    Japur e da margem direita, os rios Juru e Juta, responsveis pela

    comunicao de Tef com boa parte do sudoeste do Estado do Amazonas,

    incluindo o Acre (rio Juru), e com o nordeste do Estado, atravs do

    sistema Japur I. Para montante, via Solimes, chega-se a Tabatinga e

    Benjamin Constant, cidades fronteirias, importantes centros urbanos no

    que diz respeito s funes militares, relacionadas ao controle das

    fronteiras amaznicas e ao combate ao narcotrfico.

    A inexistncia de estradas que incorporem o Estado do Amazonas

    malha rodoviria nacional pode ser um dos fatores da manuteno e

    conservao do meio natural e seu relativo isolamento das frentes de

    expanso que penetraram pelo Par e por Rondnia. Este quadro refora a

    posio de Tef na poro ocidental da Amaznia brasileira, rea que cada

    vez reala sua importncia no cenrio nacional e internacional por esses

    atributos. A presena de vasta rea coberta pelas florestas, que inclui um

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    22

    estoque de biodiversidade importante e desperta interesse a nvel global e

    uma significativa poro deste territrio ocidental, definida como reas

    especiais para constituio de Unidades de Conservao, revelam a

    potencialidade de Tef em termos dos projetos conservacionistas.

    Ainda com base no que foi levantado por Menezes (1994), o

    transporte areo tem, em Tef, um importante ponto de pouso, no s no

    que diz respeito ao atendimento da demanda urbana e regional, mas como

    ponto intercalar de rotas que, via Tabatinga, alcanam a cidade de Iquitos

    no Peru (Varig e TABA). Atravs de Manaus, a cidade se interliga com as

    rotas nacionais e internacionais.

    Outro elemento a ser abordado diz respeito localizao de Tef

    em relao s reas produtoras de cocana, na Amrica do Sul. A bacia

    hidrogrfica do Solimes-Amazonas se ramifica aos pases limtrofes com

    o Brasil, que so produtores-exportadores de narcticos. Apreenses de

    carregamento de drogas e a deteco de vos e campos de pouso

    clandestinos localizam Tef como ponto integrante da rota. A dificuldade

    de mensurao e obteno de dados relativos ao narcotrfico, no entanto,

    no deve ser razo para exclu-lo da anlise. Poderosa, a rota do

    narcotrfico se apresenta como um vetor importante na estruturao do

    espao da Amaznia Ocidental (Idem).

    A escolha de Tef para sediar a 16 Brigada de Infantaria na Selva da

    Amaznia explica-se por sua posio geopoltica. A meio caminho na rota

    fluvial entre a fronteira e Manaus e a meio caminho radial em relao s

    fronteiras internacionais, Tef dever ser equipada para atender a qualquer

    necessidade premente do Projeto Calha Norte, da Vigilncia das fronteiras

    e do combate ao narcotrfico. Para tanto, foram construdos heliportos de

    apoio s necessidades de emergncia regional. Seguindo o mesmo

    raciocnio, o municpio est servindo de intermedirio e ponto de apoio na

    implantao de um batalho, em Cruzeiro do Sul, no Acre. Isto porque

    Tef rota e meio caminho para o Acre. Todo o equipamento necessrio

    passa por l, em direo a Cruzeiro do Sul, navegando pelo rio Solimes e

    penetrando no rio Juru, s margens do qual est situada a cidade. Este

    sub-batalho ser responsvel pela vigilncia das fronteiras acreanas e ser

    assessorado pelo Batalho de Tef. A vigilncia e o controle sobre a rota

    do narcotrfico tambm legitima a presena das Foras Armadas em Tef.

    (Ibidem).

    Destaca-se, dentro do Projeto Calha Norte, atravs da

    SUFRAMA, a consolidao de sete reas de livre comrcio, ao longo de

    11000 km de fronteiras da Amaznia. O objetivo implementar sete

    importantes pontos de desenvolvimento econmico e ocupao na

    fronteira amaznica. J operam regularmente as reas de livre comrcio de

    Tabatinga (AM), fronteira com o Peru e Colmbia, de Macap-Santana

    (AP) e de Guajar-Mirim (RO). Observando-se o mapa do Amazonas e a

    localizao das cidades propostas para rea de livre-comrcio, depreende-

    se que Tabatinga e Benjamin Constant, localizadas no Alto Solimes, e

    So Gabriel da Cachoeira tendem a comandar uma rea, cuja base de apoio

    econmico o comrcio. Comparando-se esta rea com Tef e sua

    importncia no Mdio Solimes, sobressai a tendncia polarizadora da

    cidade frente aos investimentos j incorporados dinmica espacial e sua

    posio geogrfica estratgica entre o Alto Solimes, as fronteiras

    internacionais e a capital Manaus (Ibidem). (Ver Mapa 2)

    Matria veiculada no jornal, Folha de So Paulo (13/10/96), pode

    bem demonstrar a importncia geoestratgica da regio e o interesse das

    Foras Armadas em criar os Territrios do Rio Negro e do Alto Solimes,

    com o objetivo de garantir a segurana da fronteira do Brasil, na Amaznia

    e dos recursos naturais da regio, fortalecendo o Projeto Calha Norte. O

    Territrio Federal do Rio Negro, com capital em So Gabriel da Cachoeira

    (860 km de Manaus), teria rea total de 346 km2, na fronteira com

    Colmbia e Venezuela. A cidade de So Gabriel, s margens do Rio

    Negro, na regio conhecida como Cabea do Cachorro, considerada

    um ponto estratgico pelos militares na Amaznia e abrigar um dos

    radares do Sivam (Sistema de Vigilncia da Amaznia). O Territrio

    Federal do Alto Solimes teria a capital em Tabatinga, s margens do Rio

    Solimes, a cerca de 1.100 km de Manaus. A fronteira trinacional

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    23

    conhecida por seus problemas, destacando-se o narcotrfico, a extrao

    ilegal de madeira e os guerrilheiros da vizinha Colmbia.

    "A diviso do Estado do Amazonas uma tendncia, tendo como

    ponto de partida a sugesto feita pela Comisso de Estudos Territoriais",

    afirmou Marcelo Tunes, diretor do Departamento de Articulao com

    Estados e a Sociedade Organizada, do Ministrio do Meio Ambiente,

    Recursos Hdricos e Amaznia Legal. O debate sobre a criao de

    territrios feito com base em estudos realizados em 1989, por uma

    comisso de parlamentares e membros do Executivo, a Comisso de

    Estudos Territoriais, criada por determinao da Constituio de 1988 com

    a finalidade de apresentar estudos sobre o territrio nacional e ante-

    projetos relativos a novas unidades territoriais, notadamente, na Amaznia

    Legal.

    At o momento, no h nenhuma medida oficial tomada pelo

    Estado brasileiro, mas a confirmao destes indcios de fragmentao

    refora o papel geoestratgico de Tef e da regio do Mdio Solimes,

    assim como a posio de controle sobre o espao por foras federais.

    Por outro lado, rumores de descentralizao em termos da gesto

    territorial do Estado Brasileiro, na regio, tambm podem ser notados,

    medida que estes revelam uma tendncia, caso se confirmem, de uma ao

    mais indireta do Estado na regio. Neste sentido, a proposta de

    privatizao de florestas brasileiras, feita pelo Ministrio do Meio

    Ambiente, dos Recursos Hdricos e da Amaznia Legal, segundo o que foi

    divulgado no Jornal do Brasil (15/1/97), pode confirmar essa tendncia.

    No h ainda nenhuma ao oficial, mas a idia de publicizao

    deixaria, para a iniciativa privada, a explorao de reas de domnio

    pblico. Seriam mais de 14 milhes de hectares, envolvendo 39 Flonas

    (Florestas Nacionais), 24 delas na Regio Norte, inclusive a Flona de Tef,

    uma rea de 1,5 milho de hectares de significativa biodiversidade, com

    mais de 210 espcies diferentes de rvores por hectare, entre 300 e 350

    espcies de pssaros e 14 de macacos.

    Retomando Menezes (1994), preciso considerar as repercusses

    do Projeto RADAMBRASIL sobre a organizao do espao regional

    polarizado por Tef. Este mapeou, via radar e exploraes pontuais na

    superfcie terrestre, as formaes geolgicas da Amaznia brasileira. Na

    esteira do RADAMBRASIL, instalou-se, na regio, a PETROBRS,

    inicialmente em Carauari, quando em 1978, detectou uma bacia de gs

    natural estimada em 400 milhes de m3 e durante seis anos empregou

    perto de cinco mil trabalhadores. Com a descoberta de petrleo no rio

    Urucu, municpio de Coari, a PETROBRS se retirou de Carauari.

    Embora a base no rio Urucu esteja em Coari, o constante assoreamento do

    rio implica que a produo seja escoada em direo ao rio Tef e da atinja

    o rio Solimes, de onde segue para Manaus. Situam-se, na cidade de Tef,

    escritrios de empreiteiras e prestadoras de servios PETROBRS,

    assim como agenciadoras de fora de trabalho para Urucu.

    Diferente do Exrcito e da PETROBRS, a Igreja Catlica tem uma

    presena secular na regio. A onipresena da Prelazia de Tef, instalada na

    cidade em fins do sculo passado, rende hoje aliana com quem faz parte

    da histria tefeense e, mais do que isto, est presente e controlando

    sindicatos, organizaes civis, comunidades rurais e indgenas que

    extrapolam geograficamente os limites municipais. A mensurao

    geogrfica da rea de influncia da Prelazia constitui-se em forte indicador

    de centralidade e do poder de regionalizao de Tef (Idem). A Prelazia,

    talvez, seja, hoje, o nico agente que, efetivamente, mantm programas de

    apoio ao ribeirinho, porm esses programas tambm passam por um

    processo de desaquecimento; pode-se constatar, a partir de informaes

    junto ao Assessor Jurdico, alm da reduo das contribuies financeiras

    vindas do exterior, a falta de padres e de pessoal capacitado para coordenar

    e desenvolver estes programas no interior.

    Portanto, o Projeto Mamirau se insere como ator num cenrio

    marcado pela potencialidade, onde a reserva exuberante e diversa da

    natureza desperta diferentes interesses em diferentes atores. Assim, ao se

    analisar a implantao do Projeto, no se pode perder a perspectiva do

    contexto geopoltico em que este se insere. Por estar se estabelecendo uma

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    24

    dinmica nova de reorganizao territorial, posies geopolticas,

    estratgias e parcerias esto se definindo.

    Em pesquisa de campo, pude constatar a dificuldade de se obter

    informaes mais consistentes, explicitadas por estes atores do processo,

    devido ao que podemos chamar de uma poltica de segredos, onde cada

    ator possui informaes estratgicas que se restringem ao mbito do

    planejamento e da produo de conhecimento de cada um.

    patente o apoio da Prelazia de Tef ao Projeto Mamirau, o que

    pode ser comprovado pela presena do prprio Bispo de Tef, Dom Mrio

    Clemente Neto, nas Assemblias Gerais realizadas pelo Projeto, apoiando

    a implantao do mesmo. Por outro lado, com relao s Foras Armadas,

    parece-me que as relaes poltico-institucionais com Mamirau esto

    sendo costuradas pelos gestores do Projeto. A Capitania dos Portos tem

    realizado operaes de vigilncia e fiscalizao na rea da UC, em parceria

    com o Projeto. Tambm o Exrcito tem simulado Operaes de Combate

    na RDSM. Mas, certas inquietaes so explicitadas em conversas

    informais com oficiais da Fora Armada que servem em Tef, como, por

    exemplo, questes relativas ao afluxo de pesquisadores estrangeiros na

    regio, via Projeto Mamirau; afirmam que estes pesquisadores passam

    perodos, um tanto prolongados, na Reserva, realizando pesquisas, com

    seus passaportes com vistos de turistas.

    So diferentes atores, atuando a partir de lgicas e estratgias

    diferentes. A compatibilizao destas , ao mesmo tempo, um desafio,

    devido dificuldade de estabelecimento de aes conjuntas e uma

    necessidade imperativa, no sentido da garantia da soberania nacional e do

    acompanhamento dessas aes pelo conjunto da sociedade.

    O valor estratgico desta regio realado pelo fato de ser pouco

    povoada e detentora de grande riqueza natural. A necessidade de se manter

    a natureza preservada, defendida no discurso de agentes internacionais,

    coloca esta rea, cada vez mais, como alvo de interesses destes agentes.

    2.2 O potencial econmico-ecolgico de Mamirau

    A rea da UC, definida como RDSM, possui uma extraordinria amostra

    da hidrologia amaznica, por causa do influxo de gua do canal do Auti-

    Paran, com origem no Solimes (guas brancas), para o Japur (guas

    pretas), bem acima do delta deste ltimo. As vrzeas8 dessa regio so

    caracterizadas por centenas de lagos (cuja maioria originria de canais

    abandonados), parans, canos, pequenas ilhas, restingas ao longo dos

    canais e lagos, grandes pntanos de chavascal que passam mais de 8 meses

    sob as guas (Ayres, 1993). Alm disto, encontram-se espcies endmicas,

    como o macaco uacari branco, uma significativa diversidade biolgica,

    concentrao de madeiras comerciais, alta piscosidade, jacars e bichos

    de casco9. Estas caractersticas revelam, no s o grande potencial natural

    mas, tambm, econmico da reserva, sendo, inclusive, rea muito propcia

    para implantao de projetos do chamado ecoturismo, como pode ser

    constatado no Plano de Manejo, aprovado e publicado em julho de 1996,

    que destina reas da reserva para o desenvolvimento desta atividade.

    Mamirau pode ser definida como o paraso terrestre, evidenciado

    por uma paisagem de intensa beleza, onde guas calmas invadem as matas,

    8 As vrzeas foram transformando-se em terra firme e deste modo formaram a grande

    rede de rios e tributrios da bacia Amaznica de hoje. As vrzeas tm importncia

    biolgica muito grande, pois, com uma alagao anual de at 12 metros, as espcies

    de plantas e animais tm que ser adaptadas a essas variaes, da porque existe um

    alto grau de endemismo de espcies na vrzea. A diversidade biolgica, isto ,

    nmero de espcies por uma rea definida, menor na vrzea que nas terras firmes

    vizinhas, no entanto, h na vrzea um aumento comprovado da diversidade de

    rvores e de mamferos arborcolas medida que se sobe o rio Amazonas (Ayres,

    1993).

    9 So espcies de quelnios, como tartarugas, tracajs e ias.

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    25

    peixes enormes vm tona, bandos de aves rasgam o cu acima do espelho

    dgua, pssaros cantam, bichos pulam nas rvores; Mamirau, tero da

    natureza, para onde as guas se retraem e se aglutinam e com elas a

    essncia da vida do ciclo amaznico; paraso, onde o homem j , h

    algum tempo, um ser presente de visgo em punho e canoa; rea que,

    agora, se torna de valor estratgico, natureza exuberante, diversa e

    endmica, reserva de valor. Assim como nos parasos fiscais, no pelas

    mesmas razes, agentes internacionais querem investir seu capital, trata-se,

    aqui, no de investimentos em instituies financeiras, mas no

    conhecimento de bancos genticos originais, na pesquisa da

    biodiversidade, inclusive daquela gerada pela adaptao de populaes

    tradicionais ao meio, na pesquisa da evoluo das espcies. O paraso

    agora revisitado, o tempo da mansido das guas e do ritmo da natureza

    deve agora conviver com a velocidade de fluxos integrados rede,

    viabilizados pela tecnologia de ponta.

    A RDSM insere-se no ecossistema de vrzea, que representa

    60.000 a 100.000 km ou cerca de 5% de toda a extenso amaznica

    (Pires,1974). Segundo dados do Projeto Mamirau (1996), a maior

    unidade de conservao em reas alagadas do Brasil e a nica do pas em

    rea de vrzea.

    O alagamento sazonal decorre da variao no nvel das guas,

    cuja amplitude de cerca de 10 a 12 metros todos os anos. Nos anos em

    que as cheias so grandes, geralmente entre os meses de maio e junho,

    toda a RDSM fica sob guas. O ecossistema de vrzea deve sua intensa

    dinmica forte influncia do regime das guas que no s afetam

    fortemente a flora, como tambm a fauna. Alm disso, este regime de

    enchentes e vazantes anuais cria e destri terrenos com velocidade

    assombrosa. Estes terrenos so colonizados na mesma estao pelas

    gramneas e pequenos arbustos e, caso o regime das guas dos anos

    seguintes assim o permita, em pouco tempo as primeiras rvores j estaro

    estabelecidas. No interior dos hbitats terrestres, mais definidos e

    desenvolvidos, o regime das guas tambm causa perturbaes naturais,

    com contnua formao de clareiras, rapidamente recolonizadas. Esta

    dinmica, que altera to fortemente a paisagem, tambm causa bruscas

    mudanas em vrios aspectos biticos e abiticos que definem o ambiente

    de vrzea. Neste sentido, a vida na vrzea deve estar mais adaptada s

    alternncias do que s condies extremas que cada pico sazonal de cheia

    ou vazante proporciona (Projeto Mamirau, 1996b).

    Os terrenos de vrzea so todos de origem quaternria. Enquanto

    as vrzeas pleistocnicas so ligadas, contiguamente, aos terrenos

    tercirios das matas altas de terra-firme, e foram formados pela eroso

    destes terrenos e pela deposio de seus sedimentos durante os perodos

    interglacias, as vrzeas holocnicas, mais recentes, formaram-se a partir da

    deposio de sedimentos vindos dos Andes ou dos Escudos Central-

    Brasileiro e Guianense. Estes sedimentos mais jovens foram produzidos ao

    longo dos modernos processos erosivos e carreados pelos rios e canais, por

    longas distncias na bacia amaznica (Ayres,1993). As vrzeas da rea

    Focal da RDSM so todas holocnicas (Projeto Mamirau, 1996b).

    Os terrenos de vrzea holcenica da RDSM so percorridos por

    vrios parans (braos de rios ou canais que ligam dois rios entre si), alm

    de inmeros canais que so regionalmente chamados de lagos. Alguns

    destes lagos, que podem apresentar-se muito largos em alguns trechos,

    ficam isolados uns dos outros, nos perodos mais secos, ou interligados

    pela gua da enchente que cobre toda a mata interfluvial, na poca das

    chuvas. Foram identificados, registrados e mapeados 616 lagos na rea

    Focal da RDSM. Os principais Sistemas de Lagos so os de Mamirau,

    Jarau, Tijuaca, Preguia, Tapiu, Barroso, Aiuc e Cauau. Todos os

    principais canais destes sistemas correspondem s principais entradas na

    rea Focal da RDSM. Destes canais de entrada saem outros, em

    ramificao, que do acesso aos lagos daquela regio em particular. Em

    verdade, durante a cheia, todos os lagos desta plancie podem se unir num

    nico corpo dgua contnuo, tornando-se simplesmente espaos abertos

    dentro da floresta alagada. Tais lagos possuem, nestes momentos, uma

    natureza mais associada dos rios. Entretanto, os lagos, devido ao seu

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    26

    regime fsico e distinta qumica da gua, possuem fauna e flora diferentes

    daquelas encontradas nos rios (Idem).

    O relevo dos terrenos da RDSM determinado pela deposio

    diferenciada dos sedimentos trazidos pelas cheias. Tais diferenas de

    relevo so responsveis pelo estabelecimento dos dois principais hbitats

    terrestres do ecossistema de vrzeas (Ayres, 1993). Os pontos que

    sofreram maior deposio de sedimentos, que possuem alta granulometria,

    so localmente chamadas de restingas. Sua elevao faz com que este

    hbitat permanea alagado por 4 a 5 meses por ano. As depresses, que se

    interpem entre as faixas de restinga, so conhecidas como chavascais e

    ficam sob as guas por 8 a 9 meses por ano. Ocorrem, tambm, vrios

    outros tipos ou subtipos de hbitats terrestres. Porm, como nos casos das

    restingas e chavascais, o fator determinante de seu estabelecimento parece

    ser o relevo de seus terrenos e, conseqentemente, sua suscetibilidade

    dinmica das guas, componente que domina toda a vida do ecossistema

    da vrzea. Existe, tambm, um grande nmero de hbitats aquticos,

    especialmente definidos por sua estrutura fsica. So distintos, alm dos

    hbitats de gua aberta como os rios, braos, parans, canais (ou canos) e

    lagos, alguns outros hbitats perenes, como as ressacas, ou temporrios,

    como os furos, as poas dgua nas praias de areia ou de lama e as prprias

    formaes florestadas, sazonalmente alagadas. Portanto, alm da alta

    diversidade de hbitats, ocorrem intensas e contnuas modificaes dos

    hbitats aquticos e terrestres, definidas pela dinmica das guas na regio.

    As guas so, em ltima anlise, o componente mais importante e mais

    dramaticamente dinmico deste ecossistema (Projeto Mamirau, 1996b).

    Os solos amostrados so bastante similares, independendo de sua

    procedncia. So solos que possuem de trs a quatro camadas ou

    horizontes, com coloraes distintas, devido aos processos de

    hidromorfismo (gleizao) e mosqueamento (oxidao), com matizes

    cinzentos e brunados, vermelhos e amarelos, respectivamente. Por este

    motivo so mais propriamente solos hidromrficos que aluviais (Idem).

    Os solos hidromrficos possuem limitaes econmicas. Apesar de, em

    termos qumicos, serem solos de grande fertilidade, o alto nvel fretico

    atrapalha o uso potencial dos mesmos. Outro fato que chama ateno

    que o alto ndice de biomassa favorece a estrutura fsica dos solos nas

    camadas mais superficiais, porm nas camadas mais profundas o solo

    mais macio. Vimos que, dentro dessas condies ecolgicas, o morador

    local planta culturas de ciclo curto, principalmente a mandioca. Tambm

    verificam-se muitas reas ocupadas por bananas. Segundo pesquisadores,

    a idia buscar diversificar os produtos que possam se adaptar estas

    condies. Em alguns locais da reserva, viveiros de camu-camu, esto

    sendo introduzidos pelo projeto junto aos moradores.

    Junto aos solos, o clima e a variao do nvel dos corpos dgua

    so tambm componentes importantes neste ecossistema. Especialmente

    baseados nos regimes de cheias e secas, enchentes e vazantes,

    caractersticos da rea, possvel distinguir estaes do ano para toda a

    regio onde se insere a RDSM (Queiroz, 1995).

    A enchente e a cheia so as estaes com maior mdia de

    precipitao mensal e menor amplitude trmica. Na vazante, esta

    amplitude aumenta, com menores temperaturas mnimas e maiores

    temperaturas mximas. Na seca, registra-se a menor precipitao mensal

    mdia. Assim, percebemos que a pluviosidade local e o nvel das guas

    so componentes abitopos mais relevantes de RDSM (Projeto Mamirau,

    1996b).

    A RDSM repousa num longo trecho onde a pluviosidade varia

    numa faixa de 2.200 a 2.400 mm (Salati & Marques, 1984). Segundo

    dados do Departamento Nacional de guas e Energia (DNAE), para a

    cidade de Tef, obtm-se uma mdia anual para cinco anos (1977-1981) de

    2.373 mm. Alm disto, Ayres (1986) registrou, para Tef, 2.890 mm e,

    para a RDSM, 2.850 de chuva durante o ano de 1984. A maior parte da

    precipitao concentra-se entre janeiro e abril, mas no foi observado, at

    o momento, nenhum ms com precipitao inferior a 60 mm ou superior a

    450 mm. Apesar de ser registrada uma variao considervel nas

    temperaturas mdias (estudos de Ayres, 1986 e Queiroz, 1995), pode-se

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    27

    afirmar que as maiores temperaturas so atingidas nos meses de seca

    outubro e novembro com mdias mensais variando de 30 a 33C. As

    mdias das temperaturas mnimas oscilam entre 21 e 23C. Em todos os

    estudos realizados, a mdia de amplitude trmica mensal na RDSM foi de

    8 a 10C (Idem).

    Segundo o Plano de Manejo do Projeto Mamirau (1996b), so

    disponveis poucas informaes a respeito da flutuao do nvel da gua na

    RDSM. Existem registros de, somente, cinco anos, dos quais apenas pouco

    mais que dois anos de registros dirios consecutivos (1994 a 1996). Apesar

    disto, pode-se afirmar que os momentos em que a gua atinge seu ponto

    mais alto, na cheia, acontecem no ms de junho, da mesma forma que o

    ponto mais baixo ocorre nos meses de outubro e novembro. A amplitude

    mdia desta variao parece estar entre 9 e 11 metros nos anos de 1992 a

    1995. Entretanto, ciclos excepcionais, como o da forte seca de 1995,

    podem apresentar variaes superiores a esta faixa.

    Em se tratando de um ambiente alagvel, por tanto tempo, todos os anos,

    quase impossvel estabelecer uma distino entre uma flora terrestre e uma

    outra aqutica. O regime das guas fator determinante (Ayres, 1993).

    Matas altas de terra-firme podem apresentar quase o dobro do

    nmero de espcies de rvores e cips por hectare, que aquele registrado

    para vrzea, em geral e para a RDSM, em particular. As diferenas no

    perodo de alagamento, decorrentes das diferenas de relevo entre os

    terrenos de vrzea, levaram ao desenvolvimento de fito-fisionomias

    distintas nestes mesmos terrenos. Aproximadamente 10,2% da superfcie

    da Reserva est representada por corpos dgua, enquanto os 89,8%

    restantes so formados por restingas (44,3%), chavascais (31,3%) e outras

    coberturas (14,2% de palhais, campos, roas e praias). Enquanto as

    restingas possuem florestas altas, postadas ao longo das margens, os

    chavascais apresentam uma floresta esparsa, de menor porte e maior

    espaamento entre as rvores, com ocorrncia de muitos cips, espinheiros

    e arbustos. Muitas reas de chavascal podem ser exclusivamente

    dominadas por gramneas ou por arboretas e rvores de espcies

    colonizadoras. Restingas e chavascais ocupam a maior parte dos terrenos

    da RDSM. Nas restingas, podemos encontrar as maiores diversidades de

    plantas na vrzea (Projeto Mamirau, 1996b).

    As restingas altas possuem as maiores diversidades de espcies botnicas,

    alta rea basal e maior nmero de rvores por unidade de rea. Algumas

    das maiores rvores da Amaznia so encontradas nesta comunidade,

    como por exemplo, a samaumeira, o assacu e a isqueira. Por sua vez, nas

    restingas baixas, com um sub-bosque tambm limpo e de boa visibilidade,

    as espcies mais dominantes so o matuti-branco, o mat-mat, a

    piranheira e a abiorana. As palmeiras, em ambos os hbitats, so raras

    (Ayres, 1993).

    Em contraste, os chavascais, esparsamente florestados, com pouca

    visibilidade e muitos arbustos, gramneas e cips, possuem uma pequena

    diversidade de espcies, mas uma alta rea basal por unidade de rea. As

    espcies mais freqentes so a embaba, a munguba, o carauazeiro e o

    louro-chumbo. Os apus, embora pouco freqentes, so responsveis pela

    maior parte da rea basal do hbitat. As palmeiras so ausentes e so

    encontradas algumas touceiras de bambus (Queiroz, 1995).

    Alm de restingas e chavascais, outras fitofisionomias podem ser

    encontradas na RDSM, mas ocorrem em menores propores ou so

    extremamente sazonais. Existem, por exemplo, os palhais, que ocorrem

    em terrenos mais altos e podem constituir enclaves dentro das restingas.

    Os palhais so dominados por uma ou mais das seguintes palmeiras: muru-

    muru, urucuri e aa. Os palhais ocorrem sempre muito prximos a

    restingas altas e so mais elevados que estas, estando menos sujeitos aos

    alagamentos. Outro exemplo so os campos, dominados por gramneas,

    que aparecem, durante a seca, em reas anteriormente ocupadas pelas

    guas abertas. Estes campos, geralmente, so enclaves nos chavascais ou

    em outros terrenos baixos e so caracterizados pela ausncia de rvores e

    de plantas lenhosas em geral. A poro aqutica da flora da RDSM est

    bastante sobreposta flora terrestre, bem como em outras partes alagadas

    da Amaznia (Projeto Mamirau, 1996b).

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    28

    A fauna encontrada na RDSM se caracteriza mais por uma alta

    taxa de endemismo, do que por uma diversidade muito elevada. Dentre os

    principais grupos conhecidos, a diversidade registrada menor ou, no

    mximo, igual diversidade encontrada nos ecossistemas externos

    RDSM. Talvez a nica exceo exista para a ictiofauna, uma vez que o

    trecho dos rios, que delimitam a RDSM, parece possuir uma quantidade

    menor de espcies que aquela encontrada na Reserva ou em outros grandes

    lagos externos, como o lago Tef ou o lago Aman, fora dos limites da

    RDSM. O fato mais notvel, dentre aqueles que envolvem os vertebrados

    da RDSM, que nela est contida toda a distribuio geogrfica conhecida

    de dois primatas: o uacari-branco e o macaco-de-cheiro-de-cabea-preta,

    num notvel endemismo. tambm possvel que a vrzea da RDSM seja

    importante para algumas espcies de distribuio restrita, como o mutum-

    piuri, e para vrias aves aquticas que j so raras em outras reas, como

    os alencornes. Outras caractersticas relevantes de carter conservacionista

    so a ocorrncia de espcies, ameaadas ou no, que so alvo de

    explorao de caa pela populao humana, como os jacars e quelnios

    aquticos ou, ainda, os felinos que tambm esto presentes na vrzea. So

    todos animais, cujas reas de distribuio geogrfica vm sofrendo

    degradao e fragmentao de hbitats em toda a Amaznia (Idem).

    A fauna de vertebrados de mdio e grande porte da rea Focal da

    RDSM , basicamente, idntica da floresta de terra-firme circundante,

    embora menos diversa, pois apenas animais arbcoras ou capazes de nadar

    bem podem sobreviver na floresta alagvel, durante as cheias. Mamferos,

    como a anta, o caitetu, a paca, as cotias e os tatus, no ocorrem aqui

    devido ao fato de terem seus deslocamentos horizontais limitados pelas

    cheias sazonais (Ayres, 1991). Isto verdade para quase todo componente

    terrestre da fauna de vertebrados. Entretanto, animais, marcadamente

    terrestres em outro locais, como os jabotis, aparentemente encontraram, na

    vrzea, um local bastante favorvel e podem ser encontrados na RDSM, ao

    longo de todo o ano. Dependendo das caractersticas da alagao anual,

    animais de grandes dimenses podem chegar rea, aproveitando-se de

    seus recursos alimentares, como ocorrem em outras reas de vrzea

    (Bodmer, 1990).

    As vrzeas do Mamirau tambm permitem a coexistncia de

    uma pequena gama de mamferos de gua doce, pertencentes a trs ordens.

    So dois casos de endemismos da regio amaznica, o peixe-boi e o boto

    vermelho, alm do tucuxi, da ariranha e da lontra. So encontradas, no

    total, cerca de 340 espcies de aves no Mamirau. A avifauna da RDSM se

    contextualiza dentro daquela da Alta Amaznia, sob o domnio das

    florestas em ambientes de influncia aqutica. Pode-se afirmar que esta

    fauna corresponde ao conjunto da avifauna da regio que no encontrada

    na RDSM (Projeto Mamirau, 1996b).

    Com relao herpetofauna da RDSM, pode-se dizer que sua

    diversidade baixa, quando comparada a outras reas amaznicas, j que

    um importante hbitat, a terra-firme, no est presente, o que responde

    pela ausncia de muitas espcies (Idem).

    Cerca de 300 espcies de peixes foram registradas na Reserva e

    nos corpos dgua adjacentes. Permanecem poucas dvidas de que a

    RDSM possua uma fauna de peixes excepcionalmente diversa. o maior

    nmero de espcies j registrado para um ambiente de vrzea. Uma razo

    para esta diversidade a amplitude de hbitats oferecidos aos peixes e a

    dinmica de sua alterao ao longo do ciclo sazonal. Outros traos

    marcantes do grupo de peixes do local a existncia de um ramo de peixes

    eltricos, excepcionalmente diverso, e a de um elevado nmero de

    espcies que realizam o cuidado com a prole. A alta freqncia de cuidado

    parental nestas guas talvez esteja intimamente relacionada com a grande

    dinmica do ambiente e da ocorrncia de inmeras espcies predadoras. O

    nmero de espcies de aves, rpteis, mamferos e at mesmo artrpodes,

    que se alimentam de peixes, alto no local. Ambos so fatores que

    poderiam ameaar o sucesso reprodutivo de vrias espcies de peixes

    encontradas na RDSM (Ibidem).

    Alm destes inegveis valores ecolgicos, h, tambm, que se

    levar em conta os valores econmicos de Mamirau, como bem coloca o

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    29

    Plano de Manejo Mamirau (1996b). As vrzeas da Amaznia, como

    outras reas alagadas de todo o mundo, so ambientes extremamente

    produtivos porque recebem, a cada ano, uma renovao de nutrientes

    atravs das guas. Por meio de inmeros estudos realizados ao longo

    destes 4 anos, pode-se estimar o valor da produo total anual que se d

    pela explorao dos principais recursos naturais de Mamirau, dirigida ao

    mercado. Ao longo de trs anos, a estimativa mdia foi de US$

    2.366.000,00, sendo que pirarucus e tambaquis, importantes espcies

    pescadas na regio, representam quase 1/4 deste valor, constituindo, assim,

    as duas espcies de maior importncia econmica na rea.

    Tabela 2.2

    Estimativa do valor econmico produzido na rea Focal da

    RDMS anualmente advinda do uso dos principais recursos

    naturais explorados no local, em dlares (mdias de 1993-1995)

    Produtos Renda (R$)

    Recursos pesqueiros 867.000,00

    Pescadores externos

    Pescadores internos

    Pirarucus 329.000,00

    Tambaquis 240.000,00

    Outras espcies 417.000,00

    Recursos madeireiros (madeira de lei e

    branca

    107.000,00

    Produtos agrcolas farinha de mandioca) 157.000,00

    Recursos de caa (jacars-au e jacars-

    tinga)

    64.000,00

    Outros (projetos florestais e outros recursos) 185.000,00

    Total 2.366.000,00

    Fonte: Projeto Mamirau, Plano de Manejo, 1996.

    Ainda, tomando o Plano de Manejo do Projeto Mamirau como

    referncia, pode-se verificar uma grande variao anual na explorao dos

    recursos da Reserva, o que reflete as tendncias de mercado. Os US$

    2.366.000,00 foram gerados pela produo para mercado. Deve-se

    considerar, contudo, que existe uma outra renda, indireta, gerada pela

    produo de subsistncia. Desse modo, desconsiderando-se outras fontes

    de renda indireta e levando-se em considerao um valor mdio de US$

    2.050.000,00, decorrente do consumo interno de peixes, a rea Focal da

    Reserva (2.600 km2) gera, anualmente, cerca de 4,5 milhes de dlares.

    Isto significa que cada hectare de vrzea, no Mdio Solimes, gera, pelo

    menos, US$ 16,98 anualmente. Se levarmos em considerao que a

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    30

    densidade populacional na rea Focal da Reserva de 1 famlia para cada

    881 ha, para cada famlia caberiam pelo menos US$ 14,959 ao ano, caso

    toda a renda gerada fosse revertida, exclusivamente, aos residentes da

    Reserva. Isto implicaria uma renda anual vrias vezes superior renda da

    populao amaznica.

    Alm dos valores da biodiversidade, dos recursos hdricos e dos

    cnicos, deve tambm ser mencionado o valor indireto, representado pela

    ao de criatrio natural de espcies pesqueiras, exercido pela RDSM.

    Em funo de toda esta potencialidade, a criao de um novo recorte

    territorial em Mamiru pode muito bem se prestar a uma forma efetiva de

    concretizao de um tipo de paraso experimental para a biotecnologia

    que, para Becker (1995), semelhana dos parasos fiscais, pode significar

    o controle de reservas de natureza e a retirada de pores do territrio

    nacional do circuito produtivo.

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    31

    CAPTULO III: AS COMUNIDADES DA VRZEA

    DO MAMIRAU

    A ocupao humana moderna de Mamirau data do incio deste

    sculo. Antes desta ocupao, a regio era habitada por diversos grupos

    indgenas, dentre os quais, os Omgua predominavam (Medina,1988).

    A populao amerndia foi, em sua maioria, dizimada pelas guerras e

    doenas introduzidas com a colonizao e os indgenas remanescentes

    foram incorporados sociedade colonial pelo processo de miscigenao,

    induzido pelo governo portugus (Medina, 1988).

    Atualmente, mesmo as poucas comunidades indgenas existentes

    na regio, duas delas localizadas na rea Focal, tm forte grau de

    sincretizao, tanto cultural quanto biolgica. No incio do sculo, a queda

    da borracha promoveu o crescimento do nmero de assentamentos

    modernos na regio do Mdio Solimes, fundados, principalmente, por

    comerciantes e trabalhadores que tinham abandonado as regies de

    extrao de seringa, localizadas a oeste da regio. Na vrzea, esses

    primeiros assentamentos produziam lenha para navios a vapor, em uso na

    poca, alm de fornecerem pirarucus, peixes-bois e tartarugas e se

    concentravam em torno de feitorias e barraces de patres, como eram

    chamados os comerciantes que controlavam o comrcio de produtos

    extrativos por produtos manufaturados, com base no sistema de aviamento

    (Projeto Mamirau, 1996b).

    Numa relao comercial, onde no havia a mediao do dinheiro

    e a troca de produtos extrativos por artigos manufaturados era baseada nos

    respectivos valores monetrios, o aviamento tradicional envolvia tambm

    o crdito e relaes pessoais de dominao, baseadas na dvida (Santos,

    1980).

    A decadncia do aviamento, nos anos sessenta, acelerou o

    processo de urbanizao na regio e teve, como conseqncia, a reduo

    do nmero de assentamentos localizados na rea Focal da Reserva (Lima-

    Ayres & Alencar, 1993).

    Segundo classificao estabelecida por Lima-Ayres (1994), os

    assentamentos de usurios da EEM se dividem em termos de localizao,

    tipo de organizao social, zona ecolgica, etnia e religio.

    Com base na anlise e descries de Lima-Ayres (Idem), alm de

    observaes de campo, procuraremos caracterizar esses assentamentos.

    Quanto localizao, os assentamentos de usurios se dividem

    entre aqueles situados dentro e fora da Reserva. Os de fora variam em

    termos do tipo de utilizao (pesca, agricultura ou utilizao da madeira),

    do grau de intensidade de explorao e da dependncia dos recursos da

    Reserva. Todos os assentamentos de dentro da Reserva pertencem, de

    direito, ao municpio de Uarin. Porm, os assentamentos localizados na

    poro sul-oriental esto vinculados ao municpio de Alvares. Os

    assentamentos de fora, localizados no rio Juru (margem esquerda do rio

    Solimes), pertencem ao municpio de Mara. Embora seu territrio no

    inclua nenhuma poro da rea da EEM, o municpio de Tef o que mais

    influencia na vida econmica e social da populao de usurios da reserva.

    Os assentamentos de dentro so todos de vrzea (alta ou baixa). Quanto

    aos de fora, existem assentamentos na vrzea, terra firme e reas mistas,

    com vrzea na frente e a terra firme atrs. O padro de assentamentos

    populacionais da regio, em que se situa a RDSM, se caracteriza pela

    ausncia de cidades. Alm das sedes, no h outros ncleos urbanos em

    nenhum dos municpios de influncia da Reserva. Esta caracterstica o

    resultado do tipo de ocupao econmica da regio, que levou disperso

    da populao. Aliado a este fato, o atendimento comercial mvel,

    fornecido pelo sistema de aviamento, retardou o desenvolvimento do

    comrcio urbano e, consequentemente, de ncleos populacionais

    concentrados.

    A sazonalidade do ambiente imprime um padro de ocupao

    humana caracterizado pela mobilidade e relativamente curta durao dos

    assentamentos. Na vrzea, os assentamentos tm uma vida mdia em torno

    de 40 anos e alguns apresentam uma histria de vrios deslocamentos,

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    32

    quando as casas so coletivamente removidas para um local prximo,

    devido a mudanas caractersticas da vrzea. As constantes modificaes

    geomorfolgicas do leito do rio provocam ou o crescimento de praias, ou o

    desbarrancamento das margens que invibializam a permanncia da

    populao de um mesmo local por perodos longos (Lima-Ayres &

    Alencar, 1993).

    Quanto organizao social, so trs os tipos de assentamentos

    de usurios: comunidades, stios e casas isoladas. As comunidades so

    assentamentos rurais que possuem organizao poltica formal, no

    baseada exclusivamente no parentesco. O modelo de liderana poltica

    adotado pelas comunidades foi implementado pelo Movimento de

    Educao de Base, a partir do final da dcada de 60 presidente, vice-

    presidente, secretrio, tesoureiro e presidente do clube de mes. Baseia-se

    na eleio democrtica de cargos comunitrios. A organizao poltica das

    comunidades no possui valor legal, nem representao direta nas cmaras

    municipais. As comunidades esto se registrando como associaes

    comunitrias. A partir de sua existncia jurdica como ONGs, as

    comunidades esperam poder participar diretamente da vida poltica

    nacional. O tamanho mdio das comunidades de 13 domiclios. Os stios

    so assentamentos menores que as comunidades, no possuem liderana

    formal ou prtica de decises comunitrias e seus moradores so unidos

    por laos de parentescos. As casas isoladas, como o termo diz, so aquelas

    fisicamente distantes de outros assentamentos. Os stios e as casas isoladas

    recebem assistncia das prefeituras.

    So duas as identidades tnicas dos usurios da Reserva:

    brancos ou ribeirinhos e indgenas. Suas definies so contrastivas e

    baseadas, atualmente, mais em distines ideolgicas e afiliaes poltico-

    institucionais, do que em distines raciais ou culturais. So trs os

    assentamentos indgenas: dois dentro da reserva Porto Praia, dos Ticunas

    e Jaquiri, dos Cambebas e um fora Cuiu-Cuiu, dos Miranhas.

    Alm das diferenciaes j apresentadas, outra que pode ser verificada

    relaciona-se s diferentes religies: h catlicos, protestantes (linha

    pentecostal com diversas denominaes) e os seguidores da

    Cruzada(irmandade de Jos da Cruz, uma igreja messinica).

    importante ressaltar as especificidades desta populao moradores da

    vrzea amaznica, uma populao sujeita forte influncia dos regimes

    fluviais anuais e com fortes laos de parentescos.

    Esses moradores possuem uma organizao comunitria j

    formalizada, como apresentamos anteriormente, fruto da ao da Igreja

    Catlica atravs da Prelazia de Tef Movimento de Educao de Base

    (MEB) e Comisso Pastoral da Terra (CPT). Esta organizao

    considerada, pelas comunidades, como seu instrumento legtimo de

    representao, frente a entidades externas. Qualquer relacionamento

    institucional com essas comunidades tem de ser estabelecido atravs de

    reunies formais. As reunies so abertas para todos os membros da

    comunidade, dirigidas pelo presidente, que nem sempre possui

    legitimidade e representatividade junto comunidade, muitas vezes no

    sendo reconhecido como lder pela maioria dos moradores locais. A

    participao feminina nas decises coletivas ainda pequena, sendo

    excluda nas comunidades crentes.

    Atualmente, a Prelazia de Tef tem expandido sua atuao,

    incentivando a formao de organizaes supra comunitrias, que so os

    setores de comunidades. Pela Prelazia, cada setor possui um ou mais

    animadores de setores, cargo por ela criado. Tanto a organizao

    comunitria, quanto a organizao dos setores, alm de serem adotadas

    pelas instituies governamentais, tm o mrito de serem reconhecidas e

    aceitas pela populao local. A administrao do Projeto Mamirau

    certamente reforou a organizao social existente anteriormente e

    fortaleceu os chamados setores de comunidade, que renem um certo

    nmero de comunidades vizinhas. Dados do Projeto Mamirau (1996b)

    mostram que cerca de 5.277 pessoas esto diretamente envolvidas no

    processo de implantao da Reserva. A rea Focal habitada por 1.668

    habitantes e a populao de usurios est em torno de 3.600 pessoas. De

    acordo com os dados do Plano de Manejo do RDSM, a maior parte da

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    33

    populao de moradores e usurios est situada ao longo do rio Solimes,

    o rio mais navegado, e em reas prximas aos centros urbanos de Tef,

    Alvares e Uarini. Esto localizados no Solimes, 65% dos domiclios;

    30% esto no Japur, e apenas 5% no Aranapu e Panau. A presso

    demogrfica, um ndice que reflete a demanda por recursos naturais em

    cada setor, considerando-se o total de moradores de dentro e usurios de

    fora em relao rea do setor, mais alta nos setores, Ing e Liberdade,

    localizados no Solimes. (Projeto Mamirau, 1996b).

    O Projeto Mamirau teve como base slida para a consolidao

    da categorizao dos lagos na Reserva, o trabalho realizado anteriormente

    pela Prelazia de Tef. Este trabalho da Igreja Catlica contou com o apoio

    das lideranas comunitrias e produziu uma hierarquizao inicial dos

    lagos, definida basicamente pelos lagos de manuteno e de procriao.

    Com a implantao do Projeto, foram definidos pelas Assemblias Gerais

    os tipos de lagos da Unidade de Conservao: 1) Lagos de Procriao: so

    lagos intocveis, preservados para sempre, destinados reproduo dos

    peixes. Incluem, na sua rea de preservao, as restingas ao seu redor; 2)

    Lagos de Manuteno: de uso exclusivo da comunidade para pesca de

    consumo familiar; 3) Lagos de Comercializao: de uso exclusivo da

    comunidade para a pesca para a venda; 4) Lagos de Manuteno e

    Comercializao: o mesmo lago usado exclusivamente pela comunidade

    tanto para alimentao quanto para a pesca para a venda; 5) Lagos de

    Reserva: reservados para o caso em que algum tipo de lago no der

    resultado; 6) Lagos das Sedes: lagos no usados por nenhuma comunidade

    que sero escolhidos para abastecer as sedes; seu uso no deve prejudicar

    os lagos das comunidades (Projeto Mamirau, 1994).

    Pode-se verificar que, em boa parte das vrzeas do rio Solimes,

    so adotadas as categorias de lagos definidas a partir do referido trabalho.

    O movimento de preservao dos lagos comunitrios, iniciado nos anos

    oitenta, consolidou o processo de estruturao poltica dos assentamentos,

    ao definir um papel poltico para as lideranas comunitrias. Em

    Mamirau, o direito de guarda foi garantido com a criao da UC e a

    implantao do Projeto. Sozinhas as comunidades, sem a infra-estrutura e

    o aparato institucional necessrios, dificilmente teriam condies de fazer

    com que este direito fosse respeitado por outras comunidades externas ao

    Mamirau e pelos pescadores das sedes municipais. Os gerentes do Projeto

    alegam que a questo da invaso dos lagos, por pescadores vindos de Tef

    e de cidades mais distantes, com objetivo de pesca comercial, era o

    principal problema vivido pelos moradores da rea e que a legitimidade

    trazida pelo Projeto tornou-se o principal fator de apoio comunitrio

    criao da Reserva.

    Participam das Assemblias, alm dos representantes

    comunitrios, coordenadores e funcionrios do Projeto, tambm, os

    pesquisadores envolvidos na implantao da UC. So pesquisadores

    colaboradores (ligados a outras instituies nacionais e internacionais),

    bolsistas do CNPq e os que recebem pr-labore pago pela Sociedade Civil.

    So as informaes advindas das pesquisas cientficas que do subsdios

    para a definio do uso, ocupao e gesto do territrio, influenciando de

    forma decisiva os votos dos comunitrios.

    As Assemblias Gerais realizam-se em alguma das sedes dos municpios

    onde se localiza a EEM ou na sede de Tef. So abertas ao pblico (aos

    diferentes segmentos da sociedade) e a SCM se encarrega da divulgao e

    dos convites, alm de garantir o deslocamento e a estadia dos

    comunitrios, moradores da Reserva.

    De acordo com o Plano de Manejo Mamirau (1996b), os

    principais resultados obtidos destas assemblias foram: (I) o fechamento

    dos lagos da Reserva para a pesca profissional destinada aos mercados

    mais distantes, principalmente, Manaus e Manacapuru; (II) a definio dos

    lagos de preservao, manuteno e comercializao de cada comunidade,

    com a fiscalizao dos lagos de preservao a cargo de seus respectivos

    moradores, com o apoio do IBAMA para atuar em casos de invases; (III)

    a alocao de lagos destinados a sedes dos municpios para a pesca

    comercial; e (IV) a proibio de extrao de madeira nas restingas ao redor

    dos lagos de preservao.

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    34

    Esse cenrio tem sido palco de conflitos que no podem deixar de

    ser expostos. Alguns pescadores da regio, principalmente das sedes de

    Tef e Alvares, no aceitam a fiscalizao da rea, desconhecendo a

    legitimidade do Projeto e a autoridade dos comunitrios do Mamirau no

    controle ao acesso s reas de pesca. Alegam que, apesar de no viverem

    dentro da rea da Reserva, tradicionalmente, h muitos anos, tiram seu

    sustento da rea e utilizam os mesmos instrumentos de pesca usados pelos

    moradores dos lagos e que, portanto, no concorrem deslealmente com

    estes e nem causam impactos danosos ao ambiente de Mamirau.

    Na verso-sntese do Plano de Manejo (Projeto Mamirau,

    1996b), a questo dos pescadores das sedes abordada. Segundo o

    documento, entre os maiores desafios enfrentados pela equipe de

    participao comunitria, est o desafio de mediar as negociaes entre

    comunitrios e a Colnia de Pescadores de Tef, para definio das reas

    de pesca profissional, destinadas ao abastecimento das sedes dos

    municpios vizinhos e sua regulamentao. Dois fatores a histria do

    Movimento de Preservao de Lagos, que levou o acirramento das

    divergncias entre comunitrios e pescadores profissionais em toda a

    Amaznia e o apoio dado pelo Projeto Mamirau defesa dos lagos da

    Reserva predispuseram os pescadores profissionais de Tef a se sentirem

    prejudicados nas negociaes e, socialmente, preteridos. Com isto, os

    pescadores profissionais tm rejeitado tanto as propostas de reas de pesca

    na Reserva, oferecidas pelos comunitrios, quanto alguns convites para

    participarem de reunies mediadas pelo Projeto Mamirau. Apesar de

    nenhum acordo oficial ter sido firmado at o momento, no h

    enfrentamentos agressivos e a pesca das sedes tem sido feita,

    principalmente, no setor Jarau. A manuteno de reas para a pesca

    comercial das sedes uma medida que assegura que a implantao da

    Reserva no afete negativamente o abastecimento de peixe nos mercados

    urbanos, vizinhos Reserva. , tambm, uma deciso poltica que atenua o

    conflito entre centros urbanos e comunidades e promove o apoio regional

    implantao da Reserva. Por isso deve continuar sendo buscada em

    encontros mediados pelo Projeto Mamirau.

    Fica, assim, explcito que, hoje, o Projeto se coloca como

    mediador entre as Comunidades e outros agentes externos rea da

    Reserva. Qualquer deciso a respeito do uso de recursos da rea do

    Mamirau dever ser respaldada e referendada pelo Projeto. Ao mesmo

    tempo, fica claro que o Projeto no se coloca em confronto direto com esse

    atores externos; quem o faz so os representantes das comunidades. Esta

    posio, com certeza, poupa o Projeto de maiores desgates junto

    sociedade local, assim como permite que este tenha seus interesses

    legitimados pelas reivindicaes das comunidades.

    Se, por um lado, estes conflitos se estabeleceram com o Projeto,

    por outro, tem diminudo a explorao dos caboclos da vrzea pelos

    patres da pesca e da madeira, patres que tradicionalmente tm imposto

    aos cablocos o sistema de barraco.

    Outros conflitos se do, na escala regional. Algumas lideranas

    locais reclamam do fechamento do Projeto, em relao aos poderes

    institudos nas sedes municipais, onde se localiza a rea da UC. No s o

    carter destas lideranas deve ser discutido, mas tambm a noo de

    enclave a nvel regional, pois extensa rea foi subtrada ao controle direto

    dos governos municipais para a constituio da UC.

    Enclave, no sentido de que o Projeto se restringe gesto da rea

    da UC pois que, em seus objetivos, no h nenhuma meno direta

    participao de setores sociais urbanos e a programas a serem

    desenvolvidos nos centros urbanos. O acesso rea da Reserva passa a ser

    controlado e os limites bem determinados. De um lado, o paraso

    ecolgico e a busca da melhoria da qualidade de vida daqueles que nele

    esto inseridos, do outro, os centros urbanos em seu entorno, com mazelas

    que no devem contaminar o paraso. O paradoxo se d, justamente, pelo

    fato de que boa parte dos recursos naturais, essenciais manuteno dos

    centros urbanos locais (principalmente o pescado), provm de Mamirau.

    Alm disso, apesar de no se mensurar as reas imobilizadas pelo Projeto,

    em relao aos territrios municipais, pode-se ver que so significativas,

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    35

    no s por sua extenso, mas tambm pelos recursos nelas existentes,

    importantes para as economias municipais. Inclusive, ao se analisar esta

    questo, no podemos deixar de considerar o fato de que todo o territrio

    da rea Focal, onde a UC encontra-se verdadeiramente implantada,

    pertence ao municpio de Uarini.

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    36

    CONSIDERAES FINAIS: MAMIRAU NO NOVO

    CONTEXTO AMAZNICO

    A anlise do Projeto Mamirau no pode ser dissociada do novo

    significado da Amaznia e da poltica territorial decorrentes de

    transformaes domsticas e internacionais na virada do milnio. Se

    constitui num marco na poltica territorial brasileira, traz em si tambm,

    outras dimenses que caracterizam a atual complexibilidade da questo

    ambiental em que a natureza redefinida.

    Como uma das derradeiras regies de grande potencial natural da

    Terra e, ainda, apresentando uma frgil ocupao, a Amaznia brasileira

    pea fundamental na composio do cenrio geopoltico contemporneo,

    tanto para o Brasil, como grande reserva territorial de nossa sociedade,

    quanto para o mundo, como reserva natural, banco de significativa

    biodiversidade, modelo e fonte para novas tecnologias, informaes e

    matrizes energticas. Tudo isto a coloca como um desafio sociedade

    nacional e cincia mundial, que devem criar as bases necessrias para o

    seu desenvolvimento sustentvel.

    A implementao de uma nova forma de desenvolvimento com a

    adjetivao sustentvel expressa a construo de um novo modo de

    encarar a Amaznia, novo modo que no se caracteriza por uma viso

    monoltica.

    As presses ambientalistas e geopolticas e a incluso da varivel

    ambiental na poltica territorial brasileira, em resposta a essas presses,

    configuram um vetor tecno-ecolgico, resultante de um projeto

    preservacionista internacional e de projetos comunitrios que buscam,

    atravs de redes de alianas transnacionais, apoio a experincias

    alternativas sustentveis.

    O processo se manifesta em novos recortes territoriais,

    correspondentes multiplicao de vrios tipos de reas reservadas e

    projetos demonstrativos, financiados e geridos pelas novas parcerias.

    Somadas s terras indgenas, o conjunto de reas reservadas corresponde a

    grandes pores do territrio amaznico. Segundo Menezes (1995), as

    reas indgenas apesar de no serem juridicamente reconhecidas como

    UCs, so oriundas de reinvidicao de um grupo social com base em

    pressupostos histricos, tnicos e ambientais e supostamente pela forma de

    ocupao se manteriam ao largo de processos predatrios, conservando os

    recursos naturais.

    De acordo com o Cadastro de reas Especiais do IBGE, citado

    por Bacha (1992) e por Diegues (1994), seriam 42 UCs, totalizando uma

    rea de 295.483,7 Km2, representando 6% da rea da Amaznia Legal.

    Dados compilados a partir de Decretos de criao de reas reservadas

    indicam um nmero ainda maior: 72 UCs, com rea de cerca de 400.000

    Km2, subindo para 8% o percentual de reas reservadas na Amaznia.

    Enfim, se somarmos ao montante indicado pelo IBGE as reas indgenas

    (344 reas, ocupando um territrio de 999.595 Km2, ou 20,5% da rea

    total) e as UCs criadas no mbito estadual e municipal, teramos 28,5% da

    Amaznia como reservas de natureza (Menezes, 1995).

    A combinao dos recortes territoriais com os novos atores revela

    a estrutura transicional do Estado e da sociedade, bem como a

    imprevisibilidade do final do milnio. A transformao induzida pelo vetor

    ecolgico pode significar o movimento para um desenvolvimento

    sustentvel mais democrtico e flexvel ou, pelo contrrio, um incentivo

    fragmentao.

    O vetor ecolgico envolve projetos preservacionistas e

    conservadoristas. O primeiro fruto de interesses distintos: a legtima

    conscincia ecolgica que visa preservar a natureza como estoque de vida,

    e a geopoltica ecolgica, que visa preserv-la como reservas de valor, tem

    como principais atores governos do Grupo dos Sete, o Banco Mundial,

    Igrejas e as ONGs. Suas metas, contudo, coincidem com as metas dos

    projetos conservadoristas, alternativas comunitrias de baixo para cima

    que, para sua sobrevivncia, se aliam a redes sociais transnacionais

    (Becker, 1995c).

    Da pode-se explicitar uma questo fundamental, o Projeto

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    37

    Mamirau por suas caractersticas, pode ser destacado como um projeto

    que indica o rebatimento do vetor tecno-ecolgico sobre a reorganizao

    territorial da Amaznia contempornea. Sua implementao fruto da

    lgica dos atores da geopoltica ecolgica, tanto que no princpio a UC era

    do tipo Estao Ecolgica, como foi abordado anteriormente. Porm, para

    se viablizar teve que incorporar elementos conservadoristas, evidenciando

    mais uma vez seu hibridismo, confirmando seu carter inovador. O prprio

    fato da rpida mudana de categoria legal da unidade de conservao de

    Estao Ecolgica para Reserva de Desenvolvimento Sustentvel,

    explicitado anteriormente, refora essa afirmativa.

    Confirmando a hiptese inicial do trabalho, defendo que o caso

    Mamirau indicativo da possibilidade de um novo padro de

    desenvolvimento, no totalizante, que ainda est sendo gestado, com

    contradies e incertezas.

    Respondendo s minhas perguntas iniciais acredito que as

    transformaes causadas pelo Projeto Mamirau no mbito regional, alm

    de inserirem novos atores no cenrio as agncias de pesquisa

    representantes da cincia & tecnologia, as ONGs (internacionais e

    nacionais), entre outros criam novos recortes territoriais e, portanto,

    novas territorialidades moradores tradicionais da vrzea amaznica

    continuam organizados em comunidades, mas estas passam a fazer parte

    de um territrio que se sobrepe a elas, que o territrio da UC.

    importante ressaltar que vejo a comunidade tradicional como

    uma populao culturalmente diferenciada, vivendo h vrias geraes em

    um determinado ecossitema, em estreita dependncia do meio natural para

    a sua alimentao, abrigo e outras condies materiais de subsistncia.

    Com a implantao da UC e com a gesto do Projeto, o uso e a

    vivncia do espao da comunidade depende de regras e normas definidas

    alm dela, regras que passam a valer para todas as comunidades inseridas

    no Projeto Mamirau, que criam novas relaes com o seu espao de

    vivncia, estabelecendo novos valores, novos tipos de uso, de ocupao e

    de produo deste espao. Alm disso, o controle do espao da UC pelo

    Projeto torna suas fronteiras mais ntidas, a acessibilidade mais seletiva,

    influenciando em prticas territoriais, inclusive relacionadas

    sobrevivncia de atores inseridos dentro e fora do territrio da UC, como

    o caso das comunidades indgenas e dos pescadores, que vivem nas sedes

    dos municpios onde a RDSM se localiza.

    Uma segunda questo se coloca. Desde o incio de suas atividades, a

    implantao da UC justificada pela conservao ambiental, e a tese do

    desenvolvimento sustentvel adotada pelo discurso do Projeto, como se

    pode constatar no Plano para Implantao da Estao Ecolgica do

    Mamirau (Ayres,1991) e nos relatrios semestrais produzidos pelo

    Projeto. H referncias explcitas, criticando projetos de desenvolvimento

    que foram implantados na Amaznia, em dcadas passadas10, antteses do

    que pretende ser Mamirau.

    Vale notar contudo, que apesar de se colocarem contra a

    concepo que norteou a implantao de atividades econmicas na

    Amaznia durante as dcadas de 70 e 80, os idealizadores da criao de

    uma UC, na regio de Mamirau, estruturaram sua proposta em forma de

    um Projeto, inclusive assim se auto-denominam. A idia e a concepo do

    Projeto parte de um grupo de pesquisadores, o que fica patente quando

    analisamos o j referido Plano para Implantao da Estao Ecolgica

    Mamirau (Ayres, 1991), e no h como negar, que a proposta inicial, de

    certa forma, tenha se dado de cima para baixo.

    Sem dvida, em Mamirau, a dinmica da realidade territorial se

    imps, os moradores foram incorporados gesto, no sem luta pelo

    territrio, no sem conflitos. Os gestores do Projeto tiveram sensibilidade

    10 Os dois maiores exemplos de projetos de desenvolvimentos fracassados na

    Amaznia brasileira so o da Fordlndia Plantao de Seringais, no perodo de 1926

    a 1945, e o Projeto Jari de Ludwig, no perodo de 1967 a 1982. Ambos se perderam

    com mal gerenciamento e uso da terra e indevido desmatamento. Ambos

    culminaram em desastres financeiros, com Ford perdendo cerca de US$ 9.000.000 e

    Ludwig cerca de US$ 750.000.000 (Schimink, 1988; in: Ayres, 1991).

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    38

    ao tornarem-se parceiros das comunidades; entretanto, mais que

    sensibilidade, tiveram necessidade, pois sem a incorporao desses

    moradores, o Projeto no poderia se legitimar.

    Apesar de trazer consigo, enquanto proposta fundamental, o

    objetivo do desenvolvimento sustentvel e, de fato, haver uma srie de

    caractersticas que o referendem junto sociedade nacional e o tornem

    inovador, a concepo inicial do Projeto em Mamirau o identifica,

    portanto, com o carter tradicional de projetos j implantados na

    Amaznia e que, agora, so rejeitados pelas comunidades locais, pois

    partiu de um grupo restrito, constitudo por pesquisadores, sem o

    envolvimento direto da sociedade local.

    Mamirau no se identifica com os grandes projetos, em termos

    do impacto ambiental e de mobilizao de mo-de-obra, mas sim na escala

    gigante e na mobilizao de capital e no seu isolamento; implantado como

    enclave, s conectado com os centros urbanos locais naquilo que interessa

    gesto territorial da UC; conectado com sistemas econmicos mais

    amplos, de escala planetria.

    Associada a essa segunda questo coloca-se uma terceira, do

    significado e riscos das parcerias. Um tipo de Projeto como o Mamirau

    pode representar a transnacionalizao de reservas de natureza na

    Amaznia brasileira, medida que sua implantao se relaciona a uma

    rede planetria de agentes governamentais e no-governamentais, que

    passam a ter acesso a pesquisas estratgicas e podem, muito bem,

    desenvolver novas tecnologias com outras naes.

    Se, nos anos 80, os grandes Projetos eram uma forma

    contempornea de afirmao do Estado nacional (Becker,1990b), Projetos

    como Mamirau podem, muito bem, significar o recrudescimento deste

    Estado e a afirmao de novos atores que no atuam segundo a lgica

    nacional. Isto pode ser constatado medida que sua viabilizao no

    dependeu diretamente de mobilizao de recursos e de esforos do

    governo federal e sim de redes planetrias que se estabeleceram atravs de

    fluxos de gesto e de produo que, por essncia, seguem uma lgica

    transnacional.

    Ao participarem do Projeto, as instituies externas garantem seu

    acesso pesquisa dos recursos amaznicos, biodiversidade e s matrizes

    genticas; em contrapartida, devem ceder tcnicas e informaes. Essas

    parcerias acabam por constiturem uma rede de mbito planetrio; o local

    se relaciona diretamente ao espao transnacional (Becker, 1995a). Com

    isto, uma questo fundamental se coloca: a das responsabilidades, dos

    direitos e deveres de cada parceiro, no contexto das relaes norte-sul. Se

    as matrizes genticas encontram-se em Mamirau, como sero distribudos

    os benefcios oriundos da biotecnologia; com quem ficaro as patentes dos

    produtos desenvolvidos?

    A sociedade nacional brasileira precisa proteger seus direitos no

    que diz respeito utilizao de nossos recursos naturais. Se as regras do

    mercado internacional exigem que se pague pela tecnologia e pela

    pesquisa cientfica, reconhecendo as patentes industriais e intelectuais (dos

    pases do Norte), necessrio que de fato os produtos da natureza e das

    culturas tradicionais da Amaznia sejam valorizados e que se pague s

    populaes tradicionais por qualquer tipo de utilizao destes recursos. A

    Conveno da Biodiversidade, assinada por mais de 140 pases durante a

    Conferncia das Naes Unidas para o Desenvolvimento e Meio

    Ambiente, em 1992, no Rio de Janeiro, j prev que os agentes que criem

    produtos que utilizem conhecimento de comunidades tradicionais ou

    matria prima nativa devem pagar royaltes comunidade ou ao Estado

    nacional.

    ONGs e organismos governamentais internacionais reforam uma

    gesto territorial sobre as reservas de natureza a nvel global, combinando

    recursos, cincia e tecnologia numa escala planetria, estendendo a

    pesquisa da biodiversidade e das matrizes genticas aos pases de

    megadiversidade. s novas formas de incorporao da natureza,

    corresponde um novo nvel de controle do territrio.

    A constituio e implantao da RDSM dependeu de estutruras

    globais de poder pois, apesar de ser uma UC decretada pelo Estado do

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    39

    Amazonas e de o Projeto estar incorporado ao CNPq, sua viabilizao s

    foi possvel, a partir de parcerias de mbito global que reuniram, tambm,

    agentes governamentais e no-governamentais que atuam em escala

    planetria, constituindo redes que incidem sobre a organizao territorial

    dos pases, pois do suporte e financiam projetos voltados para a

    conservao da natureza. So atores da escala mundial que agem com uma

    lgica global, em redes calcadas na comunicao e que se viabilizam

    atravs da informtica, dos satlites, de modernos equipamentos que

    permitem o controle do territrio. Tomam decises rpidas, em velocidade

    acelerada. Esses projetos so pontuais, de escala local-regional, como o

    Mamirau, mas fazem parte de estratgias globais, que tm como

    pressuposto que a crise ambiental um problema de ordem planetria,

    uma questo transfronteiras, que supera o espao dos lugares e buscam

    redimensionar a questo da soberania nacional, no sentido da valorizao

    da natureza como patrimnio universal a ser conservado. Neste sentido,

    como afirma Viola (1991), a biosfera vista como espao comum para

    todos os seus habitantes.

    Se as consequncias so globais, ou se os atores envolvidos na

    questo transcendem uma nica regio considera-se isto uma questo

    ambiental global. (Porter e Brown, 1993)

    Por tudo que foi explicitado at aqui posso afirmar que a

    implantao da RDSM e a constituio do Projeto Mamirau indicam que

    novos atores esto presentes e novos processos territoriais esto em curso

    na Amaznia brasileira contempornea, redefinindo a organizao

    territorial na regio.

    No possvel afirmar que a questo ambiental j est impondo

    uma nova racionalidade para a ocupao da Amaznia, no sentido da

    sustentabilidade e de uma nova relao com a natureza, onde a preservao

    e a conservao sejam pressupostos bsicos. Mas, sem dvida, o caso

    Mamirau ilustrativo no sentido de apontar para o fato de que novos

    atores (com suas tambm novas estratgias) e novas parcerias so capazes

    de definir novos territrios justificados pela conservao e preservao da

    natureza. O que no novo neste processo o fato de que a criao de

    reas especiais como Mamirau repercutem na dinmica local, e, em

    muitos casos, incidem diretamente sobre a organizao espacial e

    territorial de comunidades tradicionais. Portanto, mais um importante

    desafio deve ser considerado: a compatibilizao da conservao e da

    preservao da natureza com a manuteno das populaes tradicionais em

    seus territrios. A medida que, em Mamirau, as comunidades locais se

    inserirem de forma autnoma de fato e de direito na gesto do

    territrio, esta pode ser uma evidncia concreta de que novos projetos,

    com objetivos voltados para sustentabilidade, podem se viabilizar na

    Amaznia.

    No quadro atual de ocupao da Amaznia, uma das polmicas

    existentes se refere a discusso sobre o uso e usufruto se UCs por

    populaes locais. Ainda h correntes com posies preservacionistas mais

    rigorosas, para as quais as unidades no podem ser objeto de explorao de

    subsistncia, ou at de coleta. Acredito que este tipo de posicionamento

    no pertinente, pois h uma demanda por satisfaes de necessidades

    bsicas por parte dos moradores da floresta, que reivindicam novos

    processos que possam levar ao desenvolvimento regional. Este

    desenvolvimento precisa ser sustentvel, no mais cabvel grandes

    projetos, com grandes e negativos impactos ambientais e sociais. Da

    mesma maneira, a natureza amaznica no pode se manter intocvel em

    toda sua extenso.

    Defendo que a criao de Unidades de Conservao, fiscalizadas

    pelo poder pblico e pela sociedade nacional, que de fato envolvam os

    moradores tradicionais, podem representar uma nova e importante

    estratgia para a ocupao mais sustentvel do espao amaznico. A meu

    ver, o que mais discutvel neste processo de reorganizao territorial

    justamente a repercusso do processo de globalizao sobre a escala local

    amaznica. No acredito que as parcerias constitudas por redes

    transnacionais, sob liderana de atores externos, sejam a forma mais

    legtima de constituio destes novos territrios, necessrio que os atores

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    40

    nacionais estejam melhor organizados e preparados para que possam

    realizar parcerias responsveis.

    E, para finalizar, cabe verificar que a Reserva de

    Desenvolvimento Sustentvel Mamirau avana em termos dos processos

    de reorganizao territorial da Amaznia brasileira neste final de sculo,

    no como um modelo pronto e acabado, no como um exemplo

    inquestionvel, mas como um caso inovador, que pode representar indcios

    de um novo tempo. Um tempo onde os agentes envolvidos na

    transformao do espao sejam parceiros em busca do desenvolvimento

    sustentvel. Cabe a ns, brasileiros, estarmos frente deste tempo, na

    garantia de nossa soberania e do uso de nossos recursos em prol da

    melhoria de nossa qualidade de vida e da manuteno da natureza para as

    geraes futuras.

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    internacional: o papel organizador do ecologismo. In: LEIS, H.R.

    (org.) et alli. Ecologia e poltica mundial. Rio de Janeiro: Vozes,

    FASE, AIRI/PUC, 1991.

    WILLIAMS, S.T. International aspects of biodiversity. The Forestry

    Chronicle, august 1991, vol. 68, no 4.

  • A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau

    47

    A obra

    A implantao da Reserva de Desenvolvimento Sustentvel Mamirau: um

    caso no processo de Reorganizao Territorial da Amaznia Brasileira no

    Final do Sculo XX

    da autoria de

    Vicente Paulo dos Santos Pinto

    publicada pela

    CLIOEDEL - Clio Edies Eletrnicas -

    foi editada e formatada com a seguinte configurao de pgina:

    tamanho do papel: A4,

    orientao: paisagem,

    margens superior e inferior: 1,5 cm

    margens esquerda e direita: 1,5cm

    medianiz: 0 cm,

    distancias do cabealho

    e rodap em relao

    borda do papel: 1,25 cm.

    O texto foi digitado em

    Word para Windows, verso RTF

    com fonte Times New Roman 12,

    espao 1 e recuo de pargrafo de 1,25 cm.

    As notas de roda-p, com mesma fonte, mas tamanho 10.

    E as transcries de mais de 3 linhas

    em itlico e com recuo de 2 cm

    esquerda e 0,5 cm direita.

    Os direitos desta edio so propriedade do autor. Esta obra pode

    ser obtida gratuitamente atravs da Clio Edies Eletrnicas

    e reproduzida

    eletronicamente ou impressa desde que para uso pessoal e sem

    finalidades comerciais e no sofra alteraes em seu contedo e

    em sua estrutura eletrnica.

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