A imaginação histórica da sociologia

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<p>A IMAGINAO HISTRICA DA SOCIOLOGIA1 Theda SKOCPOL2 Richard MISKOLCI3</p> <p>Toda cincia social, ou melhor, todo estudo social reconhecido, requer uma extenso histrica de concepo e um uso completo de materiais histricos. C. Wright Mills (1959, p.145)</p> <p>De uma forma bsica, a sociologia sempre foi uma empreita fundada e orientada historicamente. Como comentadores sbios apontaram vrias vezes, todas as cincias sociais, e especialmente a sociologia, originalmente foram esforos para alcanar as razes e os efeitos sem precedentes da comercializao e industrializao capitalista na Europa. O que levou ao dinamismo especial da Europa em relao outras civilizaes e de algumas partes da Europa comparadas entre si? Como desigualdades polticas, conflitos polticos, valores morais e vidas humanas foram afetados pelas mudanas sem precedentes na vida econmica? Sociedades capitalistas industriais fragmentar-se-iam ou gerariam novas formas de solidariedade e satisfao para seus membros? Como as mudanas procederiam no resto do mundo sob o impacto da expanso europia? As maiores obras daqueles que viriam a ser considerados os fundadores da sociologia moderna, especialmente as de Karl Marx, Alxis de Tocqueville, Emile Durkheim e Max Weber, lidavam com tais questes.4 Em graus variados, todas ofereciam conceitos e explicaes para serem utilizados em anlises realmente histricas das estruturas sociais e da mudana social. Estudos sociolgicos realmente histricos tm algumas ou todas as caractersticas seguintes. De forma fundamental, eles levantam questes sobre estruturas soci1 O original ingls Sociologys historical imagination foi publicado como introduo a Version and Method in historical sociology. Cambridge: Cambridge Univ. Press, 1984, p.1-21. A Estudos de Sociologia agradece a Theda Skocpol e a Cambridge University Press pela autorizao para a publicao da traduo. 2 Professora de Sociologia e Governo Universidade de Cambridge Cambridge CB2 2RU UK. (Agraciada com o Prmio Wright Mills). 3 Traduo Departamento de Cincias Sociais UFSCar 13565-905 So Carlos SP 4 Veja as discusses em A. Giddens, Capitalism and Modern Social Theory, 1971; P. Abrams, Historical Sociology, 1982, cap. 1-4; R. Nisbet, The Sociological Tradition, 1966; G. Poggi, Images of Society, 1972 e N. J. Smelser e R. S. Warner, Sociological Theory, 1976, parte 1.</p> <p>Estudos de Sociologia, Araraquara, 16, 7-29, 2004</p> <p>7</p> <p>Theda Skocpol ais ou processos compreendidos como concretamente situados no tempo e no espao. Segundo, eles se referem a processos no tempo e seguem seriamente seqncias temporais em busca das conseqncias. Terceiro, a maioria das anlises histricas acompanha a inter-relao de aes significativas e contextos estruturais de forma a permitir a compreenso das conseqncias inesperadas e tambm das pretendidas nas vidas individuais e nas transformaes sociais. Finalmente, estudos sociolgicos histricos evidenciam os detalhes particulares e variveis de formas especficas de estruturas sociais e padres de mudana. As diferenas sociais e culturais, junto com processos temporais e contextos, so intrinsecamente de interesse para socilogos orientados historicamente. Para eles, o passado do mundo no visto como uma histria de desenvolvimento unificado ou um conjunto de seqncias padronizadas. Ao contrrio, compreende-se que grupos ou organizaes escolheram ou caram em ritmos variados no passado. Escolhas anteriores, por sua vez, limitaram e criaram possibilidades alternativas para mudanas futuras levando a um determinado fim. Certamente, alguns dos fundadores da sociologia buscaram mais do que outros explicar seqncias particulares de eventos histricos, e alguns fundadores, ou seus seguidores, voltaram-se mais prontamente do que outros para o estabelecimento de generalizaes transhistricas e esquemas teleolgicos. Assim, falando claramente, Tocqueville e Weber e Marx em seus ensaios sobre eventos correntes foram mais histricos no sentido que eu especifiquei do que Durkheim ou Marx em seus escritos filosficos. De qualquer forma, cada um dos fundadores tinha o compromisso de compreender as mudanas-chave e os contrastes de sua prpria poca de forma que ele era um analista social historicamente orientado de acordo com ao menos alguns dos critrios bsicos mencionados acima.5 Nenhum dos fundadores jamais foi completamente levado por uma filosofia da evoluo universal, por uma conceituao formal ou por uma abstrao terica por ela mesma. Cada um devotou-se repetidamente em situar e explicar as estruturas sociais europias modernas e os processos de mudana.</p> <p>O eclipse parcial da sociologia histricaApesar das razes nas obras de seus fundadores, na poca em que a sociologia se tornou completamente institucionalizada como uma disciplina acadmica nos Estados Unidos, depois da Segunda Guerra Mundial, sua orientao e sensibilidadeDurkheim o fundador mais freqentemente considerado a-histrico, mas veja Bellah, 1959, p.447-61. Para discusses dos outros fundadores como analistas historicamente orientados consulte especialmente Richter, 1969, p.129-60; Smelser, 1971, p.19-48; Warner, 1971, p.49-74; Krieger, 1960, p.355-78; Hobsbawm, 1973, p.265-83; Bendix, 1960; Roth, 1971, p.75-96 e Zaret, 1980, p.1180-201.5</p> <p>8</p> <p>Estudos de Sociologia, Araraquara, 16, 7-29, 2004</p> <p>A imaginao histrica da Sociologia histricas foram parcialmente eclipsadas. Pesquisadores importantes como Robert Bellah, Reinhard Bendix e Seymour Martin Lipset continuaram a fazer trabalho histrico na tradio direta dos fundadores,6 mas os paradigmas tericos e empricos mais prestigiosos romperam com a tradio. O anti-historicismo da grande teoria e do empiricismo abstrato foi lamentado por C. Wright Mills em A Imaginao Sociolgica, seu dissenso apaixonado das tendncias estabelecidas na sociologia norteamericana dos anos 1950.7 Ainda que Mills apontasse que investigaes qualitativas de problemas sociais podiam exibir a mesma negligncia com relao aos contextos temporais e estruturais, o anti-historicismo empiricista foi especialmente exemplificado no relato de Mill de estudos quantitativos de padres sociais especficos, nos quais as realidades norte-americanas do momento eram tratadas ingenuamente fora de seus contextos como modelos para toda a vida social humana. No lado oposto, ainda que complementar, est Mills, com o extremo da prtica sociolgica de seus dias, segundo quem o anti-historicismo da grande teoria foi supremamente epitomizado em O Sistema Social, de Talcott Parsons, publicado em 1951 (PARSONS, 1951). Aquela obra prestigiada apresentou uma srie de categorias abstratas pelas das quais todos os aspectos da vida social, sem considerar as eras e lugares, podiam ser classificados e supostamente explicados nos mesmos termos tericos universais. O Sistema Social elaborou um edifcio terico irresistivelmente devotado em dar conta do equilbrio social com pequenos acenos para os fenmenos da mudana social. Mas Parsons era um terico to grande, e o funcionalismo estrutural to ambicioso como viso de mundo e abordagem de pesquisa, que no podia deixar de levar em conta mais diretamente aspectos da transformao social. Teorias evolucionistas do desenvolvimento e da modernizao proliferaram no final dos anos 1950 e nos anos 1960, todas elas tratando a diferenciao social como a chave principal para classificar e ordenar todos os tipos de sociedade e avaliar transformaes de ordens sociais tradicionais para modernas.8 Dada a hegemonia dos Estados Unidos na ordem internacional aps a Segunda Guerra Mundial, e dada a rivalidade da Guerra Fria entre os EUA e a Unio Sovitica, talvez no tenha sido surpreendente que todas as teorias de mudana social como modernizao mapearam linhas padronizadas de mudana pelas quais, mais cedo ou mais tarde, viriam a passar todas as naes em desenvolvimento. No devido tempo, elas viriam a se parecer com o que os Estados Unidos tinham felizmente conceituado ser nos anos 1950 e incio dos anos 1960: crescendo economicamente e, em termos de inovao, altamen-</p> <p>Veja Bellah, 1970; Bendix, 1974 e Lipset, 1950. Mills, 1959, cap. 2 e 3. 8 Para exemplos importantes veja Smelser, 1963, p.32-54; Levy Jr, 1966; Parsons, 1964, p.339-57; Parsons, 1966; Deutsch, 1961, p.493-514; Almond, 1965, p.183-214 e Almond &amp; Powell Jr, 1966.6 7</p> <p>Estudos de Sociologia, Araraquara, 16, 7-29, 2004</p> <p>9</p> <p>Theda Skocpol te educado e voltado para resultados, plural em termos polticos e, de forma pragmtica, no ideolgico. Enquanto isso, na Unio Sovitica, leituras stalinistas da grande teoria marxista j tinham estabelecido um espelho invertido desse esquema evolutivo. Na verso sovitica da modernizao o progresso econmico inevitavelmente levou todas as naes para estgios estabelecidos.9 Cada estgio era um modo de produo com seu nvel tecnolgico caracterstico e padres associados de dominao e conflito de classe. As naes passariam por estgios sucessivos em direo a uma ordem socialista sem classes e chegaria, por fim, a uma utopia comunista livre de conflitos. Este no o lugar para discutir em detalhes como e por qu. Ainda entre os anos cinqenta e sessenta e os anos oitenta, as vises de mundo implcitas corporificadas nas verses esttica e desenvolvimentista do funcionalismo estrutural foram consideradas menos significativas pelas reverberaes dos conflitos polticos dentro dos Estados Unidos e por todo o globo. Leituras econmico-deterministas e evolucionistas lineares do marxismo tambm perderam qualquer apelo que elas j tenham tido para a maioria dos intelectuais ocidentais. No entanto, ao mesmo tempo, diferentes verses de idias marxistas, expressando conscincia de classe, processos histricos e o papel varivel de estruturas culturais e polticas, se tornaram atraentes para jovens pesquisadores procurando formas para criticar ortodoxias cientficas sociais. No apenas Antonio Gramsci, o marxista ocidental historicamente orientado, ganhou em visibilidade e popularidade, mas os prprios escritos de Marx tambm foram seletivamente reexaminados para canalizar suas fontes para lidar com questes de conscincia e de luta poltica.10 Durante esse mesmo perodo, as idias de Alxis de Tocqueville e, especialmente, de Max Weber tambm alcanaram um interesse renovado para estudantes da mudana social e das estruturas sociais comparativas. Colocado de forma simples, as pessoas voltaram-se para as obras ou leituras de socilogos clssicos que poderiam melhor ajud-las a reintroduzir o interesse pela variedade sociolgica, processos temporais, eventos concretos e a dialtica de aes significativas e determinantes estruturais em explicaes macrossociolgicas e de pesquisa. Para esses fins, as idias metodolgicas e as obras histricas de Max Weber so particularmente relevantes, ento no nada surpreendente que a pequena coterie de socilogos que, em 1982 eUma afirmao ortodoxa da teoria da modernizao sovitica aparece em Stalin, 1940, que foi reimpresso por Franklin, B. (Ed.) The Essential Stalin, 1972. Para um precursor, veja Bukharin, 1969. 10 O livro de Perry Anderson: Considerations on Western Marxism, 1976, discute o desenvolvimento das teorias marxistas ocidentais no sculo XX. Para um dos textos mais populares do marxismo ocidental, consulte Antonio Gramsci, Selections from the prison notebooks, 1971. Sobre o revival das idias marxistas entre os jovens socilogos, veja Michael Burawoy, 1982, p.1-30.9</p> <p>10</p> <p>Estudos de Sociologia, Araraquara, 16, 7-29, 2004</p> <p>A imaginao histrica da Sociologia 1983, lanou uma nova seo da Associao Sociolgica Americana se dedicou a incentivar a Sociologia Histrica e Comparativa, devotou seus primeiros esforos reconsiderao de temas do corpus terico de Weber.</p> <p>A essncia o revival dos clssicos?Se as reconsideraes de Weber foram a essncia do interesse crescente na teoria e pesquisa historicamente orientadas na sociologia contempornea, esse interesse poderia ser tratado simplesmente como um revival intelectual. O interesse renovado nos escritos histricos de Weber poderia ser visto como acompanhado, e aprofundado, uma desparsonizao de nossa compreenso das suas idias, essencialmente o tipo de projeto ao qual Anthony Giddens e Randall Collins devotaram esforos significativos.11 Poderamos falar, por um lado, de uma era de interpretao histrica weberiana tomando o basto da explicao macrossociolgica de Durkheim e Parsons e, por outro, de agarr-la dos braos dos vrios neomarxistas. E assim seria. H comentadores capazes que advogam essa forma de compreenso sobre o que significa o interesse crescente em trabalho histrico na sociologia.12 Outros responderiam a esta identificao da sociologia histrica com o legado de Weber construindo as sociologias histricas durkheiminiana e marxista como alternativas ou suplementos.13 No meu ponto de vista, a sociologia histrica melhor compreendida como uma tradio contnua de pesquisa, sempre renovada, devotada para a compreenso da natureza e dos efeitos de estruturas de larga escala e processos fundamentais de mudana. Os desejos de responder a questes historicamente embasadas, e no a paradigmas tericos clssicos, so a fora diretiva. Com certeza, sempre houve e sempre haver socilogos que no questionam ou buscam responder questes macroscpicas, historicamente fundamentadas. Ainda que ningum consiga ignorar contextos estruturais e histricos, nem todos os socilogos precisam investigar diretamente assuntos como as origens e o desenvolvimento do capitalismo e das naesEstado; a expanso de ideologias e religies; as causas e conseqncias das revolues,Veja: Giddens, 1980, p.945-52 e Collins, 1975. Veja, em especial: Ragin &amp; Zaret, 1983, p.731-54. Mais adiante, no captulo que conclui este livro (Vision and Method in Historical Sociology), eu discuto as posies de Ragin e Zaret. 13 Com efeito, Robert Bellah e aqueles que trabalham com ele esto perseguindo uma espcie de sociologia histrica durkheiminiana e o livro de Jeffrey Alexander, Theoretical Logic in Sociology, 1982-1984 pode estar estabelecendo as bases para outra vertente deste mesmo empreendimento. Sociologias histricas marxistas tm sido advogadas, entre outros, por Eric Hobsbawm, From Social History to the History of Society, 1971, p.20-45; e G. S. Jones, From Historical Sociology to Theoretical History, 1976, p.295304. Alguns considerariam Charles Tilly e seus colaboradores como praticantes de uma certa sociologia histrica marxista.11 12</p> <p>Estudos de Sociologia, Araraquara, 16, 7-29, 2004</p> <p>11</p> <p>Theda Skocpol e a relao de transformaes econmicas e geopolticas com os destinos de comunidades, grupos e tipos de organizaes. Alm disso, com certeza houve momentos em que muitos pesquisadores interessados em questes macroscpicas tentaram utilizar modos anti-histricos de lidar com elas. A breve credibilidade do funcionalismo estrutural parsoniano como uma teoria abrangente da sociedade foi um desses momentos. Mas as realidades da vida social moderna so to fundamentalmente enraizadas em conflitos da poca e mudanas nas comunidades, regies, naes e no mundo como um todo que os socilogos nunca pararam e nunca querero parar de criar teo...</p>