A HOLDING PATRIMONIAL FAMILIAR E SEUS INCENTIVOS: UMA

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<ul><li><p>Ano 2 (2016), n 4, 369-393 </p><p>A HOLDING PATRIMONIAL FAMILIAR E SEUS </p><p>INCENTIVOS: UMA ANLISE JUSECONMICA </p><p>Cristiana Sanchez Gomes Ferreira1 </p><p>Carolina Fagundes Leito2 </p><p> Resumo: O presente estudo visa a promover uma anlise jur-</p><p>dica e econmica da adoo do planejamento sucessrio no </p><p>brasil, contexto no qual destacam-se as holdings familiares </p><p>patrimoniais. Tem como objetivo, em um primeiro momento, </p><p>esclarecer quais os benefcios da Anlise Econmica do Direito </p><p>na explicao de suas causas e provveis consequncias. Em </p><p>um segundo momento, objetiva-se analisar as caractersticas </p><p>especficas de cada alternativa de planejamento sucessrio, </p><p>com especial enfoque nas holdings familiares patrimoniais. </p><p>Palavras-Chave: Anlise Econmica do Direito. Planejamento </p><p>Sucessrio. Holdings Patrimoniais Familiares. Direito de </p><p>Famlia. Direito das Sucesses. </p><p>Abstract: The study aims to promote a legal and economic </p><p>analysis of adopting succession planning in Brazil, context in </p><p>which Family Holdings Companies are highlighted. Aims, at </p><p>first, to clarify the benefits of Economic Analysis of Law (Law </p><p>and Economics) in explaining its causes and likely conse-</p><p>quences. In a second step, the objective is to analyze the specif-</p><p>ic characteristics of each alternative of succession planning, </p><p> 1 Mestre em Direito Civil pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul </p><p>(UFRGS). Advogada especializada em Direito de Famlia e Sucesses. Professora </p><p>de Direito de Famlia e Sucesses. 2 Ps-graduada em Processo Civil e Constituio pela Universidade Federal do Rio </p><p>Grande do Sul UFRGS. Especialista em Direito de Empresa pela Pontifcia Uni-</p><p>versidade Catlica do Rio de Janeiro PUCRJ. Advogada. </p></li><li><p>370 | RJLB, Ano 2 (2016), n 4 </p><p>with special focus on Family Holdings Companies. </p><p>Keywords: Law and Economics. Succession Planning. Family </p><p>Holdings Companies. Family Law. Inheritance Law. </p><p>INTRODUO </p><p> presente trabalho tem como escopo o estudo da </p><p>adoo do formato deas assim denominadas hol-</p><p>dings patrimoniais familiares para uma empresa </p><p>familiar, visando sucesso familiar e proteo </p><p>patrimonial. Para tanto, utilizar-se- do ferramen-</p><p>tal da Anlise Econmica do Direito, permitindo-se, assim, a </p><p>explorao de vantagens oriundas da interdisciplinaridade pro-</p><p>posta. </p><p>Muito embora a relao entre Direito e Economia seja </p><p>antiga, foi somente a partir dos anos 60 do sculo passado que </p><p>se iniciou o movimento cunhado de Law and Economics, que </p><p>trata da utilizao dos conceitos da Economia para a compre-</p><p>enso de fenmenos jurdicos e sofisticao na formulao das </p><p>leis, visando a torn-las cada vez mais eficientes. Para Rachel </p><p>Sztajn: Tomando a Economia como poderosa ferramenta para anali-</p><p>sar normas jurdicas, em face da premissa de que as pessoas </p><p>agem racionalmente, conclui-se que elas respondero melhor </p><p>a incentivos externos que induzam a certos comportamentos </p><p>mediante sistema de prmios e punies. Ora, se a legislao </p><p> um desses estmulos externos, quanto mais forem as normas </p><p>positivadas aderentes s instituies sociais, mais eficiente se-</p><p>r o sistema. 3 </p><p>A Cincia Econmica parte da premissa de que os indi-</p><p>vduos buscam seus objetivos a partir da escolha de determina-</p><p>das formas de atuao, fenmeno denominado de racionalida-</p><p> 3 SZTAJN, Rachel. Law and Economics in Direito e Economia, Org. ZYLBER-</p><p>SZTAJN, Dcio e STAJN, Rachel. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005. </p><p>O </p></li><li><p>RJLB, Ano 2 (2016), n 4 | 371 </p><p>de. 4 Tendo-se o planejamento sucessrio, pois, como alterna-</p><p>tiva jurdica resultante de uma escolha tomada pelos agentes </p><p>visando reduo de custos fiscais, financeiros e, por vezes, </p><p>sobretudo, emocionais, muito tem a Law and Economics a con-</p><p>tribuir na explicao das causas que tm elevado a sua utiliza-</p><p>o no cenrio contemporneo brasileiro. </p><p>Em um primeiro momento, analisar-se- quais as prin-</p><p>cipais alternativas disponveis consecuo do planejamento </p><p>sucessrio no Brasil, para que, posteriormente, seja o enfoque </p><p>do estudo centrado na figura da holding familiar patrimonial, </p><p>mediante uma anlise de seus custos e benefcios em diversas </p><p>esferas. </p><p>1. O PLANEJAMENTO SUCESSRIO E A LAW AND ECONOMICS </p><p>A expectativa de significativo aumento da alquota do </p><p>Imposto de Transmisso Causa Mortis e Doao (ITCMD) e </p><p>a especulao acerca da instituio de tributo sobre as grandes </p><p>fortunas5 tm incentivado muitas famlias e empresrios a lan-</p><p>ar mo do planejamento sucessrio como forma de prevenir </p><p>elevados e inesperados custos. </p><p>O ITCMD (Imposto sobre a Transmisso Causa Mortis </p><p>e Doaes de quaisquer Bens ou Direitos) imposto de compe-</p><p>tncia estatal e do Distrito Federal, que incide quando da </p><p>transmisso no-onerosa de bens ou direitos, tal como ocorre </p><p>na herana (transferncia do patrimnio da titularidade do fale-</p><p>cido aos herdeiros) ou na doao, havendo variao de sua al-</p><p>quota de 4% a 8% no territrio nacional. Em agosto de 2015, o </p><p>Conselho Nacional de Poltica Fazendria (Confaz) encami-</p><p>nhou ao Senado proposta de majorao da alquota para 20%, o 4 FRIEDMAN, David D. Price Theory. Chicago: South-Western Publishing </p><p>Co.1986. p. 02. 5 O imposto sobre as grandes fortunas (IGF), embora previsto na CF/88, no regu-</p><p>lamentado. </p></li><li><p>372 | RJLB, Ano 2 (2016), n 4 </p><p>que potencializou a busca, por parte de gestores familiares, por </p><p>escritrios de advocacia especializados em planejamento su-</p><p>cessrio. </p><p>No Rio Grande do Sul, a Lei n. 14.741, de 24/09/2015, </p><p>substituiu as alquotas da tributao incidente sobre Causa </p><p>Mortis e Doaes. Na primeira hiptese, esta pode agora variar </p><p>de 0 a 6%; na segunda, de 3 a 4%. Referida majorao anali-</p><p>sada como um novo (e relevante!) incentivo para a busca de </p><p>alternativas de planejamento sucessrio no Rio Grande do Sul. </p><p>Verifica-se, portanto, que alteraes em leis fiscais (ou </p><p>to-somente a possibilidade de isto vir a ocorrer) criam incen-</p><p>tivos a que famlias com patrimnio significativo e/ou avessas </p><p>ao risco valham-se das alternativas disponveis em termos de </p><p>planejamento sucessrio, o que objeto de anlise da Law and </p><p>Economics. De acordo com Cristiano Carvalho, ao pesquisar a </p><p>influncia da tributao no comportamento humano: (...) a tributao uma das mais fortes intruses que o sistema </p><p>jurdico tem o condo de fazer na esfera de autonomia priva-</p><p>da. Por essa mesma aptido de afetar a liberdade individual, </p><p>os tributos so potentes estmulos ao comportamento humano, </p><p>aptos a alterar escolhas e aes do cidado. Surpreendente-</p><p>mente, a doutrina jurdica clssica (no apenas a tributria) </p><p>desenvolvida e ensinada em nossas plagas no se preocupa </p><p>com a relao entre normas jurdicas e comportamento indi-</p><p>vidual. A anlise econmica, por outro lado, enfoca precipu-</p><p>amente os incentivos gerados aos indivduos pelo sistema ju-</p><p>rdico, como tambm as consequncias efetivas acarretadas </p><p>pelos estmulos. 6 </p><p>A anlise dos incentivos e desincentivos promoo do </p><p>planejamento sucessrio, bem como o sopesamento entre os </p><p>custos e benefcios de cada uma das alternativas viveis, cons-</p><p>titui-se, assim, em tpico fenmeno da anlise econmica do </p><p>direito. </p><p>O cenrio atual, no entanto, tem sido tomado por outros </p><p> 6 CARVALHO, Cristiano. Anlise Econmica da Tributao in Direito e Economia </p><p>no Brasil. Org. TIMM, Luciano. So Paulo: Atlas, 2012. </p></li><li><p>RJLB, Ano 2 (2016), n 4 | 373 </p><p>tipos de preocupaes que tm fomentado a busca pela mesma </p><p>ferramenta. Citemos os principais: 1) averso morosidade de </p><p>aes judiciais de inventrio; 2) instabilidade jurisprudencial </p><p>no mbito do Direito Sucessrio brasileiro (cujos julgados tm </p><p>se demonstrado substancialmente colidentes no que tange s </p><p>regras de quem herda e quanto herda sobretudo no que tange </p><p>s distintas regras entre a sucesso do cnjuge e do companhei-</p><p>ro); 3) custas judiciais expressivas; e, ainda, 4) litgios entre </p><p>os herdeiros, os quais, como sabido, podem culminar na de-</p><p>sestruturao de ncleos familiares. </p><p>A atribuio de custos tida, pois, como fator decisivo </p><p>na concepo do incentivo (ou no) estruturao de um pla-</p><p>nejamento sucessrio personalizado aos anseios dos titulares </p><p>dos bens, de modo que uma anlise econmica nos auxilia a </p><p>ponderar os interesses e buscar solues eficientes. </p><p>Simone Tassinari Cardoso define planejamento suces-</p><p>srio como o conjunto de atos, pesquisas, instrumentos jurdi-</p><p>cos que visam a atingir determinados objetivos, tendo em vista </p><p>a preocupao com o momento morte do titular de certa gama </p><p>patrimonial.7 Refere, a mesma autora, que alguns instrumen-</p><p>tos j podem ser considerados tradicionais em matria de pla-</p><p>nejamento sucessrio, tais como a) doao de bens em vida e a </p><p>b) transferncia dos bens para a chamada holding patrimonial, </p><p>cabendo citar, ainda, a c) formulao de testamentos. </p><p>2. DOAO DE BENS EM VIDA </p><p>Conforme define o art. 538 do Cdigo Civil brasileiro, </p><p>doao o contrato em que uma pessoa, por liberalidade, </p><p>transfere do seu patrimnio bens ou vantagens para o de ou-</p><p>tra. Muito embora a legislao brasileira autorize a celebra- 7 CARDOSO, Simone Tassinari. Algumas peculiaridades dos instrumentos tradicio-</p><p>nais de planejamento sucessrio. In O Direito no lado esquerdo do peito: ensaios </p><p>sobre direito de famlia e sucesses. Org. DA ROSA, Conrado Paulino; THOM, </p><p>Liane Maria Busnello. Porto Alegre: IBDFAM/RS, 2014. </p></li><li><p>374 | RJLB, Ano 2 (2016), n 4 </p><p>o do contrato por instrumento particular, as doaes de bens </p><p>imveis devem, rigorosamente, observar a forma pblica. </p><p>Por regra explcita do art. 544 do Cdigo Civil, a doa-</p><p>o de ascendente para descendente constitui em adiantamen-</p><p>to do que lhe cabe por herana, o que obriga os herdeiros do-</p><p>natrios a informar, quando do inventrio, quais bens recebe-</p><p>ram, para que assim se possa equalizar os quinhes entre os </p><p>herdeiros, instituto ao qual conferida a nomenclatura de co-</p><p>lao de bens, a ocorrer pelo valor atribudo ao(s) bem(ens) </p><p>no ato da liberalidade ou estimativa realizada na poca8. A co-</p><p>lao pode ser dispensada, no entanto, se expressa a sua dis-</p><p>pensa por parte do doador, quando ento tais bens sairo da sua </p><p>parte disponvel. </p><p>Ressalte-se que a doao realizada de ascendente para </p><p>descendente dispensa a anuncia dos demais filhos, o que so-</p><p>mente ocorre na venda ou permuta de bens com importncias </p><p>desiguais.9 </p><p>Embora alguns detectem maiores custos do que benef-</p><p>cios na doao, salientando a perda de propriedade e do poder </p><p>dentro do negcio, bem como a inflexibilidade dos rumos do </p><p>patrimnio doado, outros, ao contrrio, compreendem que a </p><p>medida propicia que os herdeiros possam atuar melhor nos </p><p>negcios, j gozando da sensao de controle ou, ainda que </p><p>este esteja reservado, tenham a possibilidade de j praticar e </p><p>desenvolver habilidades essenciais ao negcio. 10</p><p>De acordo com Luiz Kignel, contudo, a estratgia com-</p><p>porta maiores desvantagens do que vantagens: Alm de no se </p><p>poder alterar a partilha efetuada (receio de alguns, como dito </p><p>antes), temerria a situao na qual, aps a transmisso, os </p><p>pais no sejam atendidos em seus reclamos materiais, que po-</p><p> 8 Art. 2.004 do CCB. 9 CARDOSO, Simone Tassinari. Op. Cit., p. 297. 10 KIGNEL, Luiz; PHEBO, Mrcia Setti; LONGO, Jos Henrique. Planejamento </p><p>Sucessrio. So Paulo: Noeses, 2014, p. 61. </p></li><li><p>RJLB, Ano 2 (2016), n 4 | 375 </p><p>deriam ser satisfeitos com parte do patrimnio doado.11</p><p>H que se referir, por fim, a possibilidade de a doao </p><p>dos bens ou quotas ocorrer mediante reserva do usufruto por </p><p>parte dos doadores, enquanto aos donatrios tocar a nua-</p><p>propriedade dos bens. A partir desta comum modalidade (do-</p><p>ao de bens com reserva de usufruto), os doadores, enquanto </p><p>vivos, permanecem no uso, gozo e administrao dos bens, a </p><p>incluir a percepo dos frutos e rendas que derivem da explora-</p><p>o do patrimnio. Quando operada sua morte, ento, ocorre a </p><p>consolidao da propriedade plena na pessoa dos donatrios. </p><p>A doao pode ainda agregar clusula de reverso, de </p><p>modo que, caso os doadores sobrevivam aos donatrios, os </p><p>bens retornem sua esfera patrimonial, no se destinando aos </p><p>seus herdeiros. </p><p>Ademais, tambm possvel a insero de clusulas de </p><p>inalienabilidade, impenhorabilidade e incomunicabilidade, as </p><p>quais podem ser muito teis para a proteo do patrimnio fa-</p><p>miliar. </p><p>Cabe registrar que, mesmo que os bens doados no in-</p><p>tegrem o patrimnio conjugal dos filhos e filhas casados e con-</p><p>viventes sob o regime da comunho parcial de bens (ou sob o </p><p>regime da comunho universal, se houver clusula de incomu-</p><p>nicabilidade), indispensvel a vnia conjugal para sua aliena-</p><p>o na constncia do relacionamento. Assim, pode-se afirmar </p><p>que confiar que os filhos vendero os bens para dar suporte aos </p><p>genitores na advenincia de necessidade no suficiente, de-</p><p>pendendo-se da anuncia, pois, dos genros e das noras, salvo </p><p>no regime da separao total de bens.12</p><p>3. TESTAMENTO </p><p>O Direito das Sucesses tem fundamento na Constitui-</p><p> 11 Ibidem, p. 61. 12 CARDOSO, Simone Tassinari. Op. Cit., p. 303. </p></li><li><p>376 | RJLB, Ano 2 (2016), n 4 </p><p>o Federal, artigo 5, inciso XXX13</p><p>, que consagra o direito de </p><p>herana. A matria tratada no Livro V do vigente Cdigo </p><p>Civil, entre os artigos 1.784 a 2.027. Na esfera processual, </p><p>aplicam-se as normas do Cdigo de Processo Civil, entre os </p><p>artigos 610 e 673 do novo diploma processual. A sucesso cau-</p><p>sa mortis consiste na transmisso dos bens da pessoa falecida </p><p>aos seus herdeiros, beneficirios esses que podem ter essa qua-</p><p>lificao por fora da lei (legtimos) ou por fora de testamento </p><p>(testamentrios). </p><p>Em suma, com a morte, restar aberta a sucesso14</p><p>, </p><p>transmitindo-se a herana aos herdeiros, sejam legtimos ou </p><p>testamentrios. Os primeiros dividem-se em duas classes: her-</p><p>deiros necessrios15</p><p> e facultativos16</p><p>. Aos primeiros, garantida </p><p>a metade dos bens deixados pelo falecido, o que se constitui na </p><p>legtima, consoante reza o art. 1.846 do CC17</p><p>. </p><p>Por outro lado, na sucesso fundada em testamento, </p><p>tem-se que o testador s poder dispor da metade da herana, </p><p>nos termos do art. 1.789 do CC18</p><p>. </p><p>Trata o testamento de ato personalssimo de carter re-</p><p>vogvel, o qual pode ser praticado por qualquer pessoa capaz, </p><p>respeitadas as normas legais e as limitaes havidas por lei, </p><p>devendo-se respeitar a legtima e as meaes dos cnjuges e </p><p>companheiros. Na hiptese de a liberdade ter sido extrapolada </p><p> 13 Art. 5, XXX: garantido o direito de herana; 14 FRANKE, Leila Piske. Possibilidades jurdicas e viabilidade econmica na constituio </p><p>de empresas administradoras de bens prprios. Revista Jurdica, 2008. Disponvel em </p><p>. Acesso em 20/09/2015. 15 Art. 1.845 do CCB: So herdeiros necessrios os descendentes, os ascendentes e o </p><p>cnjuge 16 Caso o falecido no tenha deixado herdeiros necessrios ou feito testamento, sero </p><p>chamados sucesso os herdeiros facultativos, sendo assim chamados os compa-</p><p>nheiros...</p></li></ul>