A Historia Secreta da Rede Globo

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  • Daniel Heiz

    A histria secreta da Rede Globo "SIM EU SOU O PODER"

    Roberto Marinho

  • Para Walter, meu pai, que ensinou, A ser rigoroso com a verdade. Para Fernando, meu filho, presena de vida que faz renascer. AGRADECIMENTOS A Jane, companheira de vida, presente em todos os momentos. Aos colegas e companheiros Adelmo Genro Filho, Carlos Muller e Maria Helena Hermosilla de Los Angeles, que ajudaram a encontrar caminhos. Ao colega e companheiro, Csar Valente, sempre pronto para fazer as coisas acontecerem. Ao professor Homero Simon, pela decisiva ajuda para desvendar os problemas da radiodifuso e pelo exemplo de integridade e disposio de luta por um Brasil melhor. Ao companheiro e editor Tau Golin, cuja insistncia amiga levou publicao deste trabalho. Aos meus alunos e companheiros do Curso de Comunicao da Universidade Federal de Santa Catarina, pela convivncia que anima para o trabalho.

  • As empresas jornalsticas sofreram, mais talvez do que quaisquer outras, certas injunes, como depresses polticas, acontecimentos militares. Os prognsticos que estamos fazendo na TV Globo dependem muito da normalidade, da tranqilidade da vida brasileira. Esses planos podem ser profundamente alterados, se houver um imprevisto qualquer ou advir uma situao que no esteja dentro dos esquemas traados, como se v nas operaes de guerra "". (Palavras de Roberto Marinho, diretor-presidente das organizaes Globo, em 20 de abril de 1966, depondo na Comisso Parlamentar de Inqurito que investigou as ligaes entre da Rede Globo e o Grupo Time-Life). E esta uma guerra - no uma guerra quente, mas um episdio da guerra fria. Entretanto, se perdemos neste episdio, o Brasil deixar de ser um pas independente para virar uma colnia, um protetorado. 12 muito mais fcil, muito mais cmodo e muito mais barato, no exigem derramamento de sangue, controlar a opinio pblica atravs dos seus rgos de divulgao, do que construir bases militares ou financiar tropas de ocupao"". (Palavras de Joo Calmon, diretor dos Dirios Associados), (Deputado federal e presidente da Associao Brasileira das Emissoras de Rdio e Televiso, em 13 de abril de 1966, depondo na Comisso Parlamentar de Inqurito que investigou as ligaes entre da Rede Globo e o Grupo Time-Life).

  • 1 DA REDE GLOBO E A NOVA REPUBLICA

    "O CHEFE AQUI SOU EU" A voz cavernosa que eu s conhecia atravs das televises agradecendo a prmios na maioria recebidos artificialmente estava l. - Quem era o responsvel pelo jornalismo da Rede Globo ontem tarde? - Pelo jornalismo nacional, Eduardo Simbalista; pelo jornalismo local, eu mesmo, Lus Carlos Cabral. - com voc mesmo que eu quero falar. Voc me desobedeceu. Confesso, no vergonha: a mo tremia. No era medo do desemprega Era o terror de quem v desabar sobre si, repentinamente, o prprio Spectro. Jung explica. Mas, sim: a voz era firme. - Dr. Roberto, se desobedeci foi involuntariamente. - Voc me desobedeceu. Eu disse que no era para projetar e voc passou o dia inteiro projetando, dizendo que o Brizola vai ganhar. Voc me desobedeceu. - Mas, Dr. Roberto, eu no podia desobedecer a ordens que no recebi. Projetei segundo a orientao de meus chefes. - E quem so os seus chefes? - Os meus chefes so, pela ordem, Alice Maria, Armando Nogueira e Roberto Irineu. - Eles no so chefes coisa nenhuma. O chefe aqui sou eu e voc me desobedeceu. - Bem, Dr. Roberto, no desobedeci. - Vai trabalhando a que na segunda-feira agente conversa. At logo 1. Este dilogo, travado em novembro de 1982 durante o processo de apurao das eleies, foi relatado pelo jornalista Lus Carlos Cabral, ento diretor regional de jornalismo da Rede Globo no Rio. O seu interlocutor de "voz cavernosa" era o Dr. Roberto Marinho, diretor-presidente das organizaes Globo. O Dr. Roberto, que "doutor" unicamente pelo poder que desfruta, nesse momento, descia das alturas do seu cargo e despia-se da postura de estadista que ostenta em pblico para advertir um funcionrio. E o que Roberto Marinho reclamava era o descumprimento de um plano maquiavlico: a divulgao de informaes internacionalmente distorcidas sobre o processo de apurao das eleies. 2 H muitas evidncias de que esse comportamento da Rede Globo ocorreu em vrios estados, seguindo um plano nacional para fraudar as eleies. Hoje ainda se sabe muito pouco sobre o episdio, mas quando esse momento nebuloso da histria do Brasil for inteiramente descoberto, certamente sero revelados contornos ainda mais ntidos de uma face inusitada da Rede Globo: a interveno poltica que no se restringe ao campo ideolgico e avana para a colaborao ativa num processo de fraude eleitoral. O dilogo do presidente das organizaes Globo com seu funcionrio revelam mais do que a preocupao de um empresrio com a conduo de seus negcios. Revela: A determinao com que manobrada essa fbrica de conscincias revela a clareza com que seus proprietrios procuram intervir politicamente, revela inequivocamente Uma intencionalidade.

  • A interveno pessoal e direta do "Doutor" Roberto Marinho num episdio to comprometedor como um processo de fraude eleitoral, evidencia um lado. Assim, o ex-diretor regional de jornalismo da Rede Globo no Rio relatou o processo que testemunhou bem de perto: O papel da Rede Globo de Televiso no Caso Proconsult, nas eleies de 1982, era apenas o de preparar a opinio pblica para o que iria acontecer: o roubo, por Moreira Franco, dos votos de Leonel Brizola. Alis, dos votos do povo. Na poca, eu era o responsvel por todo o jornalismo da emissora no Rio. O comando da Central Globo de Jornalismo - Armando Nogueira, Alice Maria, Alberico Souza Cruz e Woile Guimares - estava em So Paulo, dirigindo o programa 'Show das Eleies. "Quem estava no fogo era eu." E Antnio Henrique Lago, hoje (novembro de 1986) curiosamente envolvido na campanha de Moreira Franco, envolvido em mais uma tentativa de se ganhar as eleies atravs do amortecimento da opinio pblica. Eu da Rede Globo que invisvel para os que se relacionam com essa empresa simplesmente como espectadores. H algo que s se comea a perceber olhando-se por trs da Rede Globo. A maior parte do que se v e do que se ouve da Rede Globo s adquire coerncia se estivermos atentos para o sentido de tudo o que l se produz. H um sentido oculto e sua compreenso s pode ser alcanada quando se tem na mo - usando uma expresso policial - a "folha corrida", o "atestado de antecedentes" da Rede Globo. Analisando estes antecedentes, o papel histrico que vem sendo cumprido por essa que a maior empresa de comunicao do hemisfrio sul, podemos comear a entender o verdadeiro, contedo de certa entonao de voz do locutor Cid Moreira no Jornal Nacional, o valor real das inmeras homenagens que o "Doutor" Roberto est continuamente recebendo, a inteno disfarada na escolha de uma notcia, o sentido ideolgico do comportamento de determinado personagem de uma novela, a significao, enfim, do modo que da Rede Globo quer que seu pblico perceba a realidade. NOTA DE RODAP: 1 CABRAL, Luis Carlos. O Nacional. Rede de intrigas. Rio de Janeiro. 20-26 nov. 1986. 2 No Rio de Janeiro ficaram a descoberto as duas pontas desse plano de fraude: a tentativa de condicionamento da opinio pblica desenvolvida pela Rede Globo e a da manipulao fraudulenta da totalizao dos votos pela empresa Proconsult, responsvel pela apurao dos resultados. Os registros jornalsticos do episdio no vinculam claramente o estreito relacionamento da atuao da Rede Globo com a manipulao da totalizao. Esse tipo de fraude tambm foi detectado, pelo menos, em outros cinco Estados: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Alagoas, Pernambuco e Mato Grosso.

    O esforo da Rede Globo para garantir a expresso dos interesses de seus proprietrios, entretanto, no impede que l se manifeste uma srie de processos difceis de controlar integralmente, o esprito crtico do jornalista, do radialista, do artista, enfim, dos diversos profissionais que l trabalham. Sejam por uma questo de mercado, seja pela combatividade dos profissionais, da Rede Globo obrigada a tolerar, ou mesmo a engolir, certas ocorrncias que contrariam a filiao ideolgica de seus proprietrios. Isso explica porque na Rede Globo passa filmes poltica e ideologicamente importante. Isso explica porque em certas notcias, ou at mesmo em certas novelas, surjam momentos de contradio. A luta por esses espaos, por mais limitados que sejam, est no horizonte de todos os profissionais dignos e verdadeiramente comprometidos com as maiorias populares. 3.

  • Todas as oportunidades de lanar lenha na fogueira das contradies devem ser aproveitadas. Mas preciso reconhecer que, num sentido global aproveitando o trocadilho - o que predomina o que transparece na Rede Globo, a ideologia das classes dominantes. hora de lutar para que da Rede Globo seja apercebida sem ingenuidade, sem o respeito do senso-comum. "O povo no bobo, abaixo a Rede Globo", diz um refro que se torna cada vez mais freqente em manifestaes de rua, em assemblias de sindicatos, em comcios. Mas a anlise crtica da Rede Globo tem que sair do terreno da suspeita, da mera desconfiana de que h interesse em "fazer o povo de bobo". A populao tem que ser armada de referncias slidas, tem que ser municiada das certezas do "por que" a Rede Globo deve vir "abaixo". A origem deste livro uma dissertao de mestrado 4 que abordou o problema da introduo de tecnologias de comunicao no Brasil, apresentada em 1983 Universidade de Braslia (UNB). A histria da implantao da Rede Globo ocupou a metade dessa dissertao e aqui est sendo publicada com poucas alteraes. Essa dissertao recusou a mera formalidade acadmica para afirmar-se tambm como uma reportagem jornalstica. Na anlise do processo histrico que envolveu a implantao da Rede Globo, procuramos fazer uma ampla caracterizao das foras sociais que controlam os meios eletrnicos de comunicao de massa no Brasil A comear pelas diretrizes da poltica oficial de radiodifuso 5- rdio e televiso - que garante o predomnio das empresas privado-comerciais. Desde 1964, graas a essa poltica, a radiodifuso e a imprensa passaram a ser fortemente oligopolizadas, especialmente devido moderna dinmica de produo que foi imposta pela Rede Globo. No se pode abordar o desenvolvimento dos meios de comunicao de massa no Brasil, a partir da dcada de 60, sem tocar na Rede Globo. Essa Rede, a partir da dcada de 70, passou a absorver mais de 40%da totalidade das verbas disponveis no Pas e desse modo condicionou todo o desenvolvimento dos meios de comunicao de massa. Conclumos que a importncia da Rede Globo - desde 1961, quando comeou a ser implantada com a interveno do capital estrangeiro - no s subdimensionada como tambm pouco conhecida. impressionante a indulgncia, a displicncia e a irresponsabilidade com que a imprensa - quase sem exceo - e tambm muitos pesquisadores tratam do processo de implantao da Rede Globo. Conclumos que uma exposio detalhada desse processo fundamental no s para um melhor entendimento do importante papel que da Rede Globo desempenha atualmente, mas tambm para entendermos a presso pela implantao de novas tecnologias de comunicao que est se verificando hoje no Brasil. Da Rede Globo abriu uma fase acelerada de modernizao dos sistemas de comunicao de massa, inaugurou prticas empresariais compatveis com essa modernizao e inspirou polticas oficiais que amparam as pretenses privado-comerciais dessas empresas H muita anlise sobre como as empresas. A comunicao de massa se define como uma forma de comunicao social em que participam massas de pessoas. Se aplicarmos anlise desta forma de comunicao as posies tericas e metodolgicas adquiridas com relao comunicao social, de comunicao mediam os interesses do Estado e das classes dominantes. Neste trabalho, estamos insistindo num outro aspecto: como o Estado, gerindo recursos pblicos como o espectro de freqncias de rdio e canais de televiso, media os interesses dos donos dos meios de produo, na rea de

  • comunicao. Nosso trabalho procura evidenciar como o Estado instrumentalizado pelos interesses capitalistas predominantes na radiodifuso. NOTA DE RODAP: Ficava na emissora, em contato direto com a alta direo e Lago praticamente dormia na sala de computao de O Globo. Eram l que as distores aconteciam. O mtodo correto de se computar as eleies no Rio o seguinte: injetam-se dois votos da capital, um voto do interior e um voto da periferia. Essa mecnica permite a formao de um universo correto. Em 1982, como hoje, o processo de alimentao dos computadores era distorcido. Injetava-se, digamos, dois votos do interior, onde Moreira tinha sabida maioria, nenhum voto da Baixada e um da capital. No posso dizer, embora intussemos todos, de quem partiam as ordens para que se trabalhasse assim. Ao Lago foi dito que havia problemas estruturais. O Sistema havia sido mal montado. Tratava-se, enfim, de uma questo de incompetncia. A desculpa logo se ver esfarrapada. Se h alguma coisa competente no Brasil, esta , reconhea-se, o Globo e a TV Globo. Roberto Marinho sabe fazer o que quer. Na emissora, eu e os jornalistas que convoquei para me auxiliarem - Mnica Labarth, Cludio Nogueira, Johnson dos Santos, Renato Kloss. Profissionais corretos foram ficando assustados. Primeiro, sim, com a incompetncia. E depois, com as evidncias. De todo lado estourava denncias de fraudes eleitorais. Comeamos a cobrir. Era a brecha do jornalismo. Mas nada pde ir ao ar. Ordens de cima proibiram que noticissemos as fraudes. Lembro-me bem de que houve um caso de roubo de urnas em Bangu que no pde ir ao ar. Tornou-se intil, desgastante, cobrir. As proibies, como evidentes, eram obedecidas. In: CABRAL, Luis Carlos. Op. cit.3 O jornalista Lus Carlos Cabral, que denunciou publicamente a manipulao de informaes pela da Rede Globo nas eleies de 1982, relata uma interessante passagem que mostra a angstia do jornalista diante do dono do veculo: "Nunca contei essa histria. Achava que seria trair uma confiana que o Dr. Roberto Marinho depositou, em determinada hora da minha vida, em mim. Bobagem. Comecei a achar que deveria cont-la no dia em que Borjalo, esta figura fantstica, disse que passaria a colaborar em 'O Nacional' no dia que deixssemos de atacar o Dr. Roberto. "_No vou cuspir no prato em que comi, comentou. E eu, ali calado, como que acusado, descobri: "_Eu jamais comi deste prato. S o alimentei. In: CABRAL. Lus Carlos, op. cit. 4 HERZ, Daniel. A introduo de novas tecnologias de comunicao no Brasil: Tentativas de implantao do servio de cabodifuso, um estudo de caso. Braslia, Unb. 1983.751p.

    Procuramos, por isso, examinar com detalhe o perodo de implantao da Rede Globo, que situamos entre 1961 e 1968 e que abre uma nova fase de renovao tecnolgica dos meios de comunicao de massa no Brasil Essa anlise procura explicar como da Rede Globo chegou ao que atualmente. No final da dcada de 70, iniciou um irresistvel desenvolvimento dos meios tecnolgicos com as aplicaes da microeletrnica. O contexto poltico da implantao de novas tecnologias de comunicao torna-se e...

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