a histÓria da famÍlia de anne frank

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  • A HISTRIA DA FAMLIA DE ANNE FRANK

    2016R I O D E J A N E I R O S O PA U L O

    E D I T O R A R E C O R D

    1 edio

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  • Prlogo

    Um dia de vero em Sils Maria, na regio sua de Oberengadin,

    em 1935. Um homem esguio, elegantemente vestido, deixa o Hotel

    Waldhaus depois de se encontrar com um diretor da firma Pomosin

    e inform-lo sobre os progressos da filial em Amsterd. O homem

    segue pela trilha que cruza o bosque e, aps poucos minutos de

    caminhada acelerada, chega Villa Laret.

    Quando sai por entre as rvores, l est ela sua frente, pa-

    recendo mais um castelinho do que uma casa de campo, em meio

    a um jardim imenso com muitas rvores. As janelas to limpas

    que resplandecem ao sol.

    O homem segue pelo caminho de cascalho, largo e bem cuida-

    do. Sorri ao vislumbrar o balano pendurado entre duas rvores

    altas, to largo que poderia acomodar confortavelmente uma

    mesa e algumas cadeiras. Duas crianas saltam de um lado para o

    outro sobre a plataforma, fazendo-a oscilar. Elas riem e gritam e,

    sob o balano, dois cezinhos pulam, latindo ruidosamente, mas,

    por mais que se esforcem, no conseguem subir no balano. s

    vezes um dos ces, em uma dessas tentativas frustradas, cai de

    costas e se contorce com suas patas curtas at conseguir se virar

    novamente e recomear a saltar. As crianas rolam de tanto rir.

    O menino deve ter 10 anos e a menina, 6.

    No faam tanto barulho!, diz o homem s crianas.

    Ambas silenciam.

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  • 10 A HISTRIA DA FAMLIA DE ANNE FRANK

    Pai, sabe o que a Tia O. disse hoje de manh?, pergunta a

    menina.

    Ele se aproxima e nega com a cabea.

    Ontem ela perguntou criada onde estaria sua toalhinha de

    higiene, claro que em francs, e quis saber da tia Leni como se

    diz essa palavra em alemo. Waschlappen, disse tia Leni. E hoje

    de manh ela disse sua criada: Onde est meu Wasch-lapin?

    As crianas do gargalhadas. Entendeu, papai? Ela perguntou

    onde estava sua toalhinha-coelho. No engraado?

    Ele assente. Sim, muito engraado. Mas vocs no deveriam

    fazer tanto barulho para no incomodar os convidados.

    Os dois concordam. Em seguida, voltam a dar as mos e, sem

    diminuir a algazarra, prosseguem com a brincadeira. As crianas

    so Buddy Elias e sua prima Anne Frank, e o homem Otto Frank,

    que est passando frias com sua filha mais nova na Villa Laret.

    No terrao, h cerca de uma dzia de damas e cavalheiros sen-

    tados em vrias mesas cobertas com loua de porcelana, as damas

    com largos chapus drapeados e sombrinhas. Os cavalheiros, que,

    apesar do tempo quente, no ousaram tirar seus palets, usam

    chapus de palha. Aqui no meio do bosque, entretanto, o calor

    mais suportvel do que nas encostas sem rvores.

    Ao lado da porta de entrada para o salo esto duas serviais

    com pequenos aventais e toucas de renda brancos juntas ao car-

    rinho com os bules de ch e caf, travessas repletas de petit-fours

    e tortas, prontas para atender ao mnimo aceno de um hspede

    e apressar-se em servi-lo.

    Otto Frank se aproxima. Quando a dona da casa o enxerga e

    acena, ele tira o chapu e se inclina.

    A dona da casa Olga Spitzer, nascida Wolfsohn, uma prima

    francesa de Leni Elias e Otto Frank, que todo vero passa v-

    rias semanas em sua casa de campo em Sils Maria, um casaro

    com dezenove quartos, e frequentemente recebe hspedes.

    Quase sempre Leni e sua me, Alice Frank, esto includas,

    pois as relaes familiares so bem estreitas. Neste ano, Otto

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  • PRLOGO 11

    tambm veio de Amsterd com sua filha Anne, mas sem sua

    esposa Edith, que foi ver a me em Aachen com a filha mais

    velha, Margot.

    Olga Spitzer estende a mo para seu primo Otto, e este se in-

    clina para saud-la. A seguir, cumprimenta a me e a irm com

    carinhosos beijos antes de sentar-se mesa com elas.

    A conversa foi boa?, pergunta Leni. Naturalmente em fran-

    cs, pois seria descorts falar alemo, uma lngua da qual Olga

    Spitzer entende apenas algumas palavras.

    Otto Frank assente: Sim, muito boa. Quando as pessoas esto

    em frias fica bem mais fcil negociar. Ele concordou com todas

    as minhas sugestes.

    As crianas se aproximam, curiosas, mas a conversa dos adul-

    tos no lhes parece interessante. Cada uma pega uma tortinha.

    O que vamos fazer agora?, pergunta Buddy, mastigando.

    J sei, diz Anne, arrastando seu primo para dentro da casa,

    cruzando a sala e o saguo, pela larga escada at o quarto de sua

    av Alice. Voc prometeu, diz ela, mostrando o roupeiro, e,

    quando Buddy sacode energicamente a cabea, ela repete: Voc

    disse que teria coragem.

    Buddy d de ombros. Sabe que no adianta dizer no. Quando

    Anne mete algo na cabea, no h quem a faa desistir facilmen-

    te. E, alm disso, ele perdeu a aposta, a prima realmente teve

    coragem de subir na rvore e tirar um ovo do ninho do passari-

    nho, tomando cuidado para que no quebrasse no seu bolso. Em

    seguida, apesar da advertncia, subiu novamente e recolocou o

    ovo no ninho.

    Vamos, diz Anne, sentando-se na poltrona e puxando as

    pernas para cima.

    Buddy limpa as mos grudentas na cala, abre relutantemente

    a porta do armrio e pega um vestido preto. Sua av Alice usa

    somente vestidos escuros; este tem um adereo de renda bran-

    ca. O garoto o veste sobre sua camisa e cala, pega um xale que

    enrola firmemente ao redor da cintura e enfia duas pequenas

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  • 12 A HISTRIA DA FAMLIA DE ANNE FRANK

    almofadas no decote de renda. Anne ri, aprovando. Ele se con-

    templa no grande espelho ao lado do armrio. A brincadeira

    comea a diverti-lo.

    Tira de uma caixa um chapu adornado com um buqu, coloca-o

    na cabea, repuxa o vu na frente do espelho at tapar um olho.

    Os sapatos de salto so muito grandes; ele enfia lenos no bico

    e ento desfila diante de uma Anne exultante que, de tanto rir,

    acaba atraindo uma camareira. A jovem, ela mesma ainda muito

    moa, aplaude. Entusiasmado com o efeito que causou, Buddy se

    deixa levar por outros gestos, faz um bico com os lbios, ergue o

    dedo mindinho e leva uma xcara imaginria boca, secando-a

    depois com um guardanapo igualmente imaginrio. Ento estende

    a mo para Anne, to elegantemente como Olga Spitzer a estende-

    ra havia pouco para Otto Frank, e Anne lhe d um beijo estalado.

    Vamos, desce e vai mostrar aos outros, ela pede, mas isso

    j demais para Buddy, isso ele no arrisca, no em um lugar

    to distinto. Em casa, em Basileia, o teria feito imediatamente.

    O garoto se despe e a camareira recoloca tudo no armrio. Os

    lenos que ele enfiara nos sapatos so recolhidos por ela para

    serem lavados e passados.

    E o que faremos agora?, pergunta Buddy.

    Brincar de esconde-esconde, sugere Anne, embora isso seja

    um pouco montono a dois. Mas eles estipularam outras regras:

    quem procura tem de esperar mais tempo; se no encontrar o

    escondido, perde e tem de pagar uma multa, por exemplo, dar ao

    vencedor a sua sobremesa.

    Eles cruzam o jardim e correm para o bosque. Agora sua

    vez, diz Anne. Ontem fui eu quem procurou.

    Buddy concorda. Ele se agacha debaixo de uma rvore e es-

    conde a cabea entre os braos.

    Anne no vai muito longe, ela j sabe onde se esconder. Du-

    rante a brincadeira da vspera, descobrira em uma encosta uma

    espcie de caverna, talvez a toca abandonada de uma raposa. Ela

    arranca alguns galhos, engatinhando para dentro da toca e colo-

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  • PRLOGO 13

    cando-os em seguida na entrada. Logo escuta Buddy chamando.

    Ele passa vrias vezes pela toca, mas, claro, no a v. Ela sabia

    que esse esconderijo seria fantstico. Tomara que seja realmente

    uma toca abandonada e que no aparea nenhuma raposa para

    morder-lhe o traseiro. Ou talvez nem seja a toca de uma raposa,

    e sim de um coelho. De um lapin. Ela segura o riso ao lembrar o

    que Tia O. dissera. Coelhos no mordem, ou pelo menos ela nunca

    ouviu que algum tivesse sido mordido por um coelho, mas raposas

    tm focinhos e dentes pontiagudos.

    Nesse meio-tempo, Buddy j est bem nervoso. Naturalmen-

    te, no encontra Anne ela tem um talento para se esconder.

    Mas agora bem que ela podia aparecer. Desisto, ele grita bem

    alto. Anne, aparece! Ela no aparece. Ele grita cada vez mais

    alto, corre cada vez mais rpido. E se ela se perdeu? Se um ho-

    mem estranho a levou? Como ele ir explicar sua me, sua

    av e ao tio Otto que a culpa no dele? Ele j escuta sua me

    dizendo: Mas, Buddy, voc bem mais velho que ela, deveria

    ser mais ajuizado.

    Ele est desesperado e quase aos prantos quando, de repente,

    ela aparece atrs dele. Eu quero a sobremesa, se for sorvete,

    diz ela.

    Bem que Buddy gostaria de lhe dar umas palmadas. Ou beij-

    -la, de to aliviado que est. Mas se limita a dizer: Olha s, voc

    est toda suja.

    verdade. O vestido claro de vero de Anne est manchado

    de terra. Ela tenta sacudir a sujeira, mas a terra est mida e as

    manchas s aumentam. No se preocupe, diz Buddy, tirando

    pedaos de galho de seus cabelos. Alice est to feliz por voc

    estar aqui